CAPÍTULO 4 – COMO KUON NASCEU
"Ruto, não!"
Eu vejo em câmera lenta o corpo outrora ágil perder completamente o tônus muscular e, graças ao momentum da fuga, colidir fortemente contra a parede. Eu não sei em qual substância Ruto embebeu o dardo que usou, mas no momento eu tento não lembrar que ele é um assassino extremamente eficiente e torço que tenha sido somente em um tranquilizante.
Eu sinto ele me observando enquanto eu ergo o corpo inerte nos braços. Há murmúrios ao nosso redor, o que me lembra que temos expectadores e me faz corrigir meus próprios movimentos: eu estava prestes a carrega-la nos braços, quando me dei conta de que não seria prudente trata-la como mulher. Simplesmente a jogo por sobre um ombro e parto o mais rápido possível para os aposentos de Ten, sussurrando a Ruto para ir busca-la.
Eu sei que a primeira coisa que ele fará será procurar Lory. Como Conselheiro, suas duas funções principais são interceptar qualquer ameaça contra o Clã e cuidar da segurança do Mestre, necessariamente nesta ordem. Com Kyoko inconsciente ("não morta!", repito a mim mesmo), sei que ele irá imediatamente verificar se Lory está bem, o que também serve ao meu propósito. Estou certo de que Lory adivinhará a razão pela qual Ten é solicitada e compreenderá a urgência.
No trajeto, ignoro as perguntas e os comentários dos curiosos que atrapalham a minha marcha. Vi Yashiro surgir, provavelmente libertado graças à inconsciência de Kyoko, e, como se lesse meus pensamentos, começar a dispersar a multidão.
Habilidade sinistra, a dele. Nunca consegui descobrir se é a voz ou se são os olhos, mas há algo de hipnótico na forma como ele consegue moldar o estado de espírito das pessoas, convencendo-as a se comportarem exatamente como é do interesse dele. O que é muito conveniente, já que o faz raramente precisar usar sua estimada coleção de facas. Yashiro adora as lâminas, mas detesta a sujeira que elas fazem.
Julie nunca entendeu por que eu o escolhi para ser meu conselheiro. Ela certamente preferiria se eu tivesse ao meu lado alguém com as habilidades de Ruto, mas o que ela ignora é que eu não preciso de um assassino ao meu comando; não, quando eu sou meu próprio assassino. E extremamente bom no que faço, diga-se de passagem.
Não, de Yashiro eu preciso somente da astúcia e da estratégia; enfim, de uma mente calma para contrabalancear minha impulsividade. Só que isto não é algo que eu vá dizer à mulher que tirou a mim e ao meu irmão mais velho Rick de uma favela de Desterrados e nos criou como seus fôssemos seus próprios filhos...
Quando eu finalmente alcanço os aposentos privativos de Ten, deposito o corpo leve e irresponsivo sobre um catre e removo o capacete.
Eu... não esperava por isso. Por seis anos eu fui atormentado por pensamentos sobre Kyoko, mas somente diante do rosto dela eu percebo que ela nunca teve um rosto para mim.
A despeito dela aparentar odiar o próprio cabelo, julgando pela maneira totalmente aleatória com a qual o cortou, as feições não deixavam qualquer dúvida de que se trata de uma mulher. O choque me paralisa. Uma mulher, realmente uma mulher. Só pode ser Kyoko; a suspeita finalmente se torna realidade.
A prova viva do crime do Clã Fuwa.
Uma mulher. Uma mulher de 20 anos ainda não tomada nem como esposa, nem como procriadora.
Uma mulher vivendo sozinha em uma favela.
Uma mulher subsistindo como Escavadora.
Caralho, sozinha ela consegue quebrar uma boa quantidade de tabus sociais. Se eu estou atônito, o que diria o Conselho?
Puta merda, o Conselho!
Puta merda, Sho está aqui, no palácio de Lory, como representante do Clã!
"Oh? Eu concordo que ela é bonita, Ren, mas se você não sair da frente, Ten não poderá ajuda-la!"
Eu volto à realidade para perceber que Lory, Ruto, Ten e Yashiro estão ao meu redor, observando-me com expressões distintas enquanto eu seguro a cabeça de Kyoko com as mãos, olhando-a estupefato.
Eu a solto como se ela me queimasse e me arrependo imediatamente pela falta de delicadeza. A consorte de Lory não perde tempo em solicitar apenas a presença de Yashiro no cômodo e expulsar todos os outros. Eu ainda permaneço alguns segundos imóvel, observando Ten tentando remover o macacão de Kyoko e gritando instruções para Yashiro sobre quais ingredientes separar.
Quando Lory retornou ao aposento para me levar dali, a pele de Kyoko era um doentio tom acinzentado.
"Deixe Ten e Yashiro cuidarem dela, Ren. Nós três não estamos em condições de ajudar. Provavelmente, só atrapalharíamos"
Eu só compreendi as palavras de Lory quando olhei para Ruto. Como se as surpresas da noite não fossem o suficiente, lá estava o outrora estoico conselheiro exibindo nada menos que uma expressão facial.
Raios, não importa qual era a expressão que ele fazia: Ruto, simplesmente, estava demonstrando algo, o que era preocupante e de várias maneiras assustador.
Lory olhava pesaroso para ele.
"Não é sua culpa. Você não sabia"
Como eu esperava, Ruto nada disse. Apenas se postou ao lado da porta que guardava Kyoko, provavelmente em penitência por ter atacado uma mulher.
Eu imagino o que deveria estar passando pela cabeça dele: talvez ela fosse a próxima mantenedora da humanidade, ou, em outras palavras, a próxima mulher a engravidar. Kyoko era uma nova possibilidade; talvez ela fosse uma esperança de não extinção da raça humana.
Com alívio eu escuto Lory explicar que o dardo usado contra ela continha apenas um tranquilizante, mas como é normal nesta merda de mundo, meu alívio dura pouco tempo. Somente até Lory comentar que a aparência doentia de Kyoko devia-se à dosagem que Ruto usou: sem saber que se tratava de uma mulher, ele usou o suficiente para derrubar um homem.
E não um homem "Trivial", mas um "Excepcional".
"Mas não se preocupe, Ten vai saber combater a overdose"
Cacete, isto deveria me tranquilizar? Nem se Ruto usasse o dardo em mim! Eu tenho muito a perder, caso ela não escape novamente com vida, para cair facilmente na conversa motivacional de Lory.
Por alguns minutos, Kyoko foi real e não mais fruto da minha mente. Por alguns minutos, eu vislumbrei como seria a vida sem o peso da morte dela sobre os meus ombros; sem o tormento de lembrar o único crime que eu não solucionei e de sonhar com o corpo dela sendo estraçalhado por bestas aquáticas.
Não vai me surpreender se a maldita vida apenas quisesse que eu sentisse o doce sabor da redenção para que eu saiba exatamente o que lamentar quando Kyoko for novamente tirada de mim.
Para não me enveredar por tais pensamentos, aproveito a ocasião para perguntar a Lory como ele descobriu que o Escavador invasor era Kyoko. Eu sei que ele tem a excepcional habilidade de ver através de histórias e de pessoas, o que ele mesmo chama de "intuição aguçada", mas desvendar toda a situação e com tanta rapidez foi um feito extraordinário até para ele.
"Bem, como eu disse, foi um palpite ousado. A primeira informação que eu tive quando olhei para ele com Maria foi que se tratava de um garoto, já que nenhum homem adulto é tão pequeno. Não me surpreendia que o Excepcional desconhecido fosse jovem; afinal, o Conselho tenta localizar e identificar todos os Excepcionais, de preferência desde o nascimento, já que os Clãs os disputam acirradamente. Alguém com altas habilidades representa um desnível na balança de poder, uma ameaça em potencial aos outros Clãs, e disso você sabe bem, Ren. Mas alguém ter a habilidade furtiva suficiente para despistar Ruto e permanecer como Desterrado me pegou totalmente de surpresa. Quero dizer, se você tem algo que os nobres estimam, certamente não vai querer viver nas pocilgas, certo? Não, não vai; você vai procurar algum Clã, mostrar o seu talento e ser acolhido para ser treinado como Conselheiro, Assassino, Juiz ou qualquer outra função que lhe garanta uma vida minimamente confortável. Sendo assim, comecei a cogitar a possibilidade de ser alguém cuja necessidade de se esconder superasse a vontade de usufruir das benesses que somente um Clã pode oferecer, algo como um criminoso procurado, mas não consegui pensar em ninguém. Ao menos ninguém tão jovem ou tão pequeno.
Outro problema que não se encaixava era o fato de que nenhum criminoso procurado atualmente tem o perfil para fazer amizade com uma garotinha, menos ainda para correr o risco de ser capturado apenas para vê-la. Isto requer uma capacidade de sentir que os criminosos não possuem.
Voltei aos meus esboços. Alguém pequeno, altamente habilidoso, que precisa se esconder a todo custo, capaz de se afeiçoar a uma menina e, por fim, educado. Não a educação básica ensinada às pressas, mas a de alguém que teve acesso a acervos diversos; que leu absolutamente tudo que lhe passou pelas mãos. Tratava-se de um Escavador, e de um Excepcional, logo, não me surpreendia que tivesse tido contato com várias relíquias, mas o fato de saber ler os idiomas dos ancestrais me indicava uma pessoa que de alguma forma cresceu dentro de um Clã ou Guilda, pois somente estes são ensinados a ler.
Eu já tinha traçado boa parte do perfil do nosso invasor, mas havia ainda uma questão me incomodando: a idade. Um garoto de dezesseis anos, mesmo educado em um Clã, não possui o nível de conhecimento que o Excepcional estava demonstrando, especialmente porque as obras 'Romeu e Julieta' e 'Othello' foram desenterradas quatro anos atrás. Ora, então um menino de doze anos encontrou as obras, traduziu-as, compreendeu-as e vendeu-as para mim? Não que fosse impossível, mas era altamente improvável!
Foi quando me surgiu uma nova possibilidade: "ele" não tem só dezesseis anos. Precisa ser mais velho para angariar tal nível de conhecimento hoje em dia, mas um rapaz mais velho não seria tão pequeno!"
"Foi quando você deduziu que se tratava de uma mulher"
Não é uma pergunta, e Lory sabe disso.
"Exatamente. Só que uma mulher conseguir se esconder, mesmo sendo Excepcional, é extremamente difícil, afinal, todas elas pertencem a alguém, e o dono simplesmente não ficaria de braços cruzados esperando que ela aparecesse. Não, haveria um estardalhaço e nós saberíamos. A menos que-"
"A menos que a considerassem morta". Sei que estou sendo rude interrompendo o relato de Lory, mas agora que as peças se encaixavam eu me pergunto como eu deixei de ver exatamente o que ele viu.
Toda descoberta se torna óbvia após a descoberta.
"De fato! Então, apenas busquei em minha memória por mulheres criadas em um Clã ou Guilda, que tivessem um motivo para se esconder e fossem dadas como mortas para o nome de Kyoko surgir. Afinal, como eu posso me esquecer das inúmeras vezes em que você profanou meus ouvidos bradando obscenidades contra o Clã Fuwa?"
Ele não precisava trazer isso à tona, precisava?
A porta do quarto se abre e dele sai Yashiro, avisando que Ten quer nos ver. Apenas Ruto permanece à porta, imagino que garantindo, após ouvir a história revelada por Lory, que nenhum curioso descubra a informação sensível que estamos escondendo.
###
"Eu nunca vi algo assim em toda a minha vida!"
O assombro de Ten reproduz fielmente o que eu estou sentindo. À exceção dos seios e quadris firmemente amarrados com faixas, Kyoko é uma imagem nua, pálida e imóvel no catre. No abdômen superior, a feia marca de queimadura responde a última dúvida que eu tinha sobre o que aconteceu na fatídica madrugada em que ela foi atacada: o Desterrado que a salvou, sabendo ou não do que estava fazendo, recorreu ao método bárbaro de cauterização para fechar a ferida.
Correto ou não, o procedimento havia funcionado. Restava saber se ela sobreviveria ao dano provocado naquela noite.
"Eu fiz tudo que eu podia, agora só precisamos mantê-la hidratada. Ela vai vomitar, e muito, e a situação vai ficar pior antes de melhorar, mas talvez ela sobreviva. Se ela sobreviver esta noite, vai viver"
"Talvez ela sobreviva". "Se ela sobreviver". Tudo que eu consigo ouvir de Ten são possibilidades de morte.
"Saiam. Eu cuido dela esta noite"
"Hm? Mas Ren, ela-"
"Tudo bem, Ten. Deixe Ren cuidar dela"
Eu não quero olhar para nenhum deles. Não quero ver quais expressões eles têm neste momento. Mesmo se eu tivesse vontade de explicar, eles não entenderiam. Nesta merda de mundo, minha vida não teria qualquer sentido se não fosse por Kyoko. A história dela foi o que me deu um propósito maior, algo além da "sobrevivência da espécie" que pregam o tempo todo.
Eu desejei tê-la salvo seis anos atrás. Eu quis leva-la comigo caso eu a encontrasse viva. Eu amaldiçoei o Clã Fuwa pela vida que eles tiraram. Eu não podia fazer mais nada, então odiei a mim mesmo pela minha impotência.
Agora que ela está aqui, desde que ela esteja respirando, finalmente há algo que eu possa fazer por ela, e não mais por causa dela.
###
"Ruto, não!"
Escuridão total. Eu estou acostumada ao breu, ao confinamento, ao silêncio. Nada além de mim e as incontáveis criaturas que eu comando com um simples pensamento. Elas sussurram em minha cabeça sobre tesouros enterrados, pessoas aguardando em tocaia e passagens sem saída. Recitam todo o caminho que eu preciso percorrer para chegar ao meu destino, encontrar preciosidades e voltar em segurança para o meu esconderijo.
São projeções de mim, capazes de atravessar as mais espessas paredes e me dizer o que há do outro lado. Capazes de me mostrar segredos perdidos deste mundo. Relíquias que me ajudarão no meu plano de vingança, importantes o suficiente para que eu rasteje por espaços minúsculos em perigosas ruínas.
Quisera eu tivesse tal habilidade antes do ataque. Dizem que as habilidades dos Excepcionais despertam no momento certo, mas para mim o momento certo foi tarde demais. Não salvamos Kyoko.
Seis anos atrás
"Você está me ouvindo, garota? Não morra! Não se atreva a morrer!"
Quem é você?
"Caralho, há sangue por toda parte. Não morra, está me ouvindo?"
Sangue? Sangue de quem?
"Você está fodida, garota. E agora vão me foder também. Eu já sou um homem morto, mas você pode viver"
Você fala tantas obscenidades. Quem é você?
"Sobreviva, garota. Sobreviva e foda com todos eles!"
Eles quem?
"Não deixe que saibam que você é uma mulher, isto é muito importante, está me ouvindo? Eles não podem saber!"
Eu... o quê?
"Ah, você acordou. Qual o seu nome, garota?"
"K-...ooouuuch!"
"Kuon? Que porra de nome é esse? Mas tudo bem, parece nome de garoto. Bem, Kuon, você é meu filho, está me ouvindo?"
Dói, dói muito!
"Você é Kuon, meu filho. Um Escavador. Sim, um Escavador. Mantenha esses peitos amarrados, entendeu? E não saia abrindo as pernas por aí! Ninguém pode saber que você é uma mulher, ou eles vão te matar e meu sacrifício será em vão!"
"Sacrifício... pai?"
"Sim, Kuon, meu filho. Eles chamaram o Monstro Tsuruga para acabar comigo, mas veja, eu consegui esta roupa de Escavador para você. Eu vou assumir a culpa pelos putos que foderam você, e em troca pedi esta roupa para você se esconder deles. Então você me deve, Kuon! Você me deve! Eu sou tudo que você tem, e eles vão me tirar de você! Vingue-se, Kuon! Vingue-se por mim!"
Sim, pai. Eles não vão saber. Eu vou acabar com todos eles por você, pai. Por você e... pela garota que eles foderam. Como era o nome dela? Kyoko! Sim, era Kyoko. Pobre Kyoko, tão inocente... ela não tinha a menor chance. Mas eu vou acabar com eles, pai. Por você e por ela.
"Fique quieta aqui. Não deixe que eles saibam quem você é. Mantenha-se coberta, entendeu?"
Sim, pai. Eu sou Kuon, seu filho. Eu ficarei escondido. Eu juro, eu vou ficar escondido. E vou acabar com todos eles.
Momento atual
O que está acontecendo comigo? Eu voltei para aquele dia? Quem está me tocando?
"Pai?... Você veio me buscar?"
"Shhh, não fale"
Não é a voz do meu pai. Esta voz...
Eu começo a me debater, algo está errado e me dizendo para fugir. Mãos estranhas me seguram e a voz me diz para ter calma, para poupar minhas energias. Foda-se, não me diga o que fazer!
"Até à beira da morte você xinga, Kyoko?"
Kyoko? Quem é Kyoko?
Algo sobe pelas minhas entranhas e sai pela minha boca. Meu corpo inteiro dói e queima. Por que eu não morro logo de uma vez?
As mãos estão de volta, mas eu não tenho mais forças. Algo macio e morno cobre a minha boca, mas estou fraca demais para virar o rosto. Um líquido desce pela minha garganta e eu sei que conheço os sabores, mas não consigo lembrar os nomes dos ingredientes.
Eu grito ao sentir o ferro em brasa remendando novamente meus tecidos e vomito outra vez. Escuto novamente a voz do meu pai me dizendo para ficar quieta, senão matarão nós dois, e mordo com mais força o rolo de pano que ele colocou entre minhas arcadas dentárias, só que não é a voz do meu pai, ele não está me mandado ficar quieta e na minha boca há gosto de sangue.
"Kyoko, aguente firme. Por favor, aguente firme"
Quem é Kyoko?
"Aguente firme só esta noite, por favor... Vamos lá, só uma noite!"
Hm?
Seis anos atrás
"Vamos lá, só uma noite!"
"Não, tire as mãos de mim!"
"Você vai ser minha de qualquer forma!"
"Sho, pare!"
"Argh! Sua vadia, você me arranhou!"
Momento atual
"Sho, pare!"
Eu estou me debatendo de novo, o que me faz vomitar de novo. Quantas vezes já foram?
Eu combato as mãos que me seguram com a ferocidade de quem espera sentir, a qualquer momento, o soco que me deixará grogue e a lancinante dor no meio das pernas que me fará perder a consciência, mas nada acontece, apenas a estranha voz que me diz que está tudo bem, que eu estou segura.
O cacete que estou segura. Segura eu só estarei quando estiver morta, e pela dor que estou sentindo, a vida continua me sacaneando.
Estou fraca mais uma vez, e mais uma vez eu sinto a pressão macia. A diferença é que agora eu antecipo, com avidez, o líquido que eu sei que descerá a seguir pela minha garganta ressecada. Estou sedenta, então sorvo, sugo e lambo com vontade. Ouço um estranho som gutural, mas não consigo desvendar do que se trata, pois logo a escuridão volta a me envolver.
Ouço a voz chorosa de Maria. Filhos da puta, se machucaram Maria, eles vão se ver comigo!
Há algo suave e gelado percorrendo meu corpo. É agradável. Como é mesmo a palavra?
Oh, sim. É "refrescante".
###
Foi a pior noite da minha vida. Pior do que os cinco dias seguindo os rastros de carnificina dos Irmãos Açougueiros. Pior do que passar a madrugada com Yashiro e Rick no deserto esperando os traficantes de crianças saírem do esconderijo. Pior do que o treinamento com Lory e Kuu.
Eu nunca fiquei tão apavorado em toda a minha vida. Nem tão emocionalmente cansado.
Por doze horas, Kyoko balbuciou, tremeu, vomitou, mordeu, gemeu, gritou, socou, xingou, debateu-se. Quando eu pensei que nada poderia ser pior, ela ficou imóvel.
Sim, imóvel era muito pior. Imóvel ela parecia morta.
Não vi alternativa senão chamar Maria. Talvez a voz da menina arrancasse dela alguma reação, qualquer reação que me dissesse que ela permanecia lutando, mas eu só consegui ferir as duas: Maria chorou, se pela condição do amigo ou se por ter se sentido traída pelo segredo que Kyoko guardava, eu não sei dizer, e a única reação que Kyoko esboçou foi uma solitária lágrima.
Ten tirou Maria do aposento, não sem antes olhar para mim como se quisesse me castrar, surpreendendo-me. Curioso que antes dela saber sobre a história de Kyoko, a consorte de Lory representava a imagem ideal de mulher: dócil, modesta, tímida. Bastou saber que havia uma mulher adulta vivendo sozinha e trabalhando como Escavadora para que Ten levantasse os olhos que viviam grudados no chão e começasse a dizer algumas frases desafiadoras.
Horas. Bastou horas desde a existência de Kyoko ser revelada para que uma mudança do tipo se operasse. Como eu previa, a "situação Kyoko" precisa ser abordada com cautela.
Na falta de ideia melhor, seco com o dedo o rastro da lágrima e sinto o rosto dela quente e pegajoso. Com um pano úmido, começo a limpa-la, tentando diminuir sua temperatura corporal e deixa-la mais confortável, enquanto luto comigo mesmo para não pensar na intimidade do que estou fazendo, nem me lembrar de como a boca dela devorou a minha apenas horas antes, enquanto eu a fazia engolir um pouco mais do remédio preparado por Ten.
Eu sou um pervertido filho da puta, para ficar excitado em um momento assim.
Ao menos ela suspira, o que é uma reação. Qualquer reação é comemorável.
Algumas marcas arroxeadas começam a aparecer, especialmente em seus braços, cortesia das minhas tentativas em faze-la parar de se debater para não ferir a si mesma. Eu pensei em amarra-la, mas e se ela despertasse? O que ela poderia pensar que havia acontecido com ela?
Marcas de constrição desaparecem em pouco tempo, o que não se pode dizer sobre o dano emocional por se imaginar violentada novamente.
Eu me sento ao lado dela novamente e logo Yashiro reaparece, perguntando-me sobre ela.
###
Ren está pior do que quando finalmente conseguiu localizar os Irmãos Açougueiros e acabar com os dois. Pior do que quando ele come a comida terrível que Julie prepara, propositalmente ruim para evitar que Kuu coma sozinho todo o suprimento do mundo.
Qualquer coisa acima de intragável, e Kuu come o equivalente a um Clã inteiro.
Ele passou a noite em claro, e pela mão enfaixada eu deduzo que Kyoko o mordeu. Provavelmente ela morderia a própria língua, não fosse Ren enfiar a mão no meio e impedi-la.
Abençoada agilidade.
Ele está um trapo e eu torço para que Kyoko sobreviva, senão não sei o que será dele. Eu me lembro de como ele estava quando retornou do território Fuwa e de como ele ficou por semanas a fio após receber as condecorações por ter punido o Desterrado que a estuprou e matou. Ele não precisou me dizer para que eu deduzisse que o verdadeiro culpado havia lhe escapado por entre os dedos, menos ainda que o empenho dele para se tornar Mestre de Clã vinha do profundo descontentamento que ele sentia desde então.
Eu pergunto como ela está, e ele me responde com um mero gesto de cabeça. Ruim assim, hum?
Ren está amuado, Maria se recusa a comer e a falar com os pais e o avô, Ten está olhando os homens nos olhos quando fala com eles e Ruto permanece na porta como se Kyoko fosse a Mestre do Clã.
Por pouco não consigo abafar a risada. Se Ren me ouvisse rir em uma situação como esta, quebraria meu pescoço como se fosse um graveto. Bem, mas é engraçado. É engraçado como Kyoko não faz a menor ideia da reviravolta que está provocando no palácio de Lory. Inconsciente e em poucas horas ela conseguiu subverter uma ordem cuidadosamente instituída por anos, décadas, séculos de divisão social estrategicamente articulada e tem dois Mestres de Clã e um Conselheiro/Assassino à mercê dela.
"Que mulher assustadora!"
Eu estava prestes a dizer a Ren para descansar, talvez comer alguma coisa enquanto eu vigiaria Kyoko, mesmo sabendo que ele recusaria a oferta pela sexta vez, quando um balbucio vindo do catre ao nosso lado atrai nossa atenção.
"Oh, sim. É refrescante"
Pálpebras se abrem lentamente e olhos dourados pousam em nós.
N/A –Eu espero que as transições tenham ficado claras. Kyoko confundiu o passado e o presente e perdeu a consciência e a noção do tempo várias vezes. Em itálico estão os pensamentos, que ela estava debilitada demais para colocar em palavras.
No capítulo, não sei se ficou claro, eu conto como "Kuon" surgiu. Aqui não existe Kuon/Ren, apenas Ren. Por outro lado, há Kuon/Kyoko, já que Kuon é a versão masculina que Kyoko criou para se fazer passar por homem por seis anos.
Estou de férias e passarei uma semana viajando, portanto, a próxima atualização vai demorar um pouquinho.
Como sempre, obrigada por me acompanharem! XO
