CAPÍTULO 5 – PONTO FRACO
Os olhos que me encaravam eram de um dourado raro e vibrante, flamejantes como ouro derretido.
Não tive a chance de aprecia-los como eu gostaria, contudo.
Realmente, que outra reação eu esperava dela? Um sorriso? Um suspiro de alívio? Gratidão?
Pelas minhas contas ela já venceu a morte duas vezes. Quantas vezes mais, nos seis anos em que ela sobreviveu em condições precárias e em uma das ocupações mais perigosas e insalubres que existem, ela esteve à beira da morte e eu não faço ideia?
Uma pessoa assim, homem ou mulher, simplesmente não ficaria tranquila ao recobrar a consciência e se deparar com dois homens, especialmente com a fama que Yashiro e eu temos, observando-a atentamente.
Então, por que eu estou tão decepcionado, esparramado no chão tentando conte-la fisicamente enquanto ela se debate furiosamente?
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Estou fraca e meu corpo inteiro dói. Abro os olhos e me deparo com Yashiro e Ren debruçados sobre mim. A sensação de vulnerabilidade é instantânea e meu primeiro reflexo é fugir.
Mas estou fraca. Minhas criaturas derrubam Yashiro, que estava de pé e do chão resmunga algo como "outra vez?", mas mal conseguem desestabilizar Ren. Foi uma jogada desesperada e descuidada, a força do meu ataque impensado servindo mais para me derrubar do catre que qualquer outra coisa.
Eu gemo quando meu corpo já dolorido colide contra o chão e tento fugir para o mais longe possível dos dois, mas mal chego a engatinhar quando uma mão se fecha em volta do meu tornozelo e me puxa para trás.
Eu chuto às cegas. Digo a mim mesma para não gritar, pois gritos não me salvarão, mas não consigo evitar o sorriso quando ouço um gemido vindo do meu captor.
Eu o atingi, ótimo, algum estrago eu preciso fazer. Eu não me importo de morrer, nem de ser ferida, desde que eu tire deles tantos pedaços quanto tirarem de mim.
Cansei de viver em desvantagem. Cansei de ser a única a sofrer perdas.
Bem, ao menos agora eu tenho a vantagem de nada ter a perder, enquanto eles...
Meu captor me arrasta até ele e tenta me imobilizar. Tudo que eu posso fazer é me debater e arranhar, não tenho mais energia para ataca-lo com minhas projeções. Yashiro resmunga algo como "deixar marcas" e eu sorrio novamente. Sim, tomara que fiquem cicatrizes. Tomara que infeccionem, que os arranhões ardam como o diabo quando forem limpos.
Uma vitória espúria e vazia ainda é uma vitória, certo?
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Yashiro, por estar de pé, levou a pior no que quer que ela tenha feito. Ainda não descobri como a misteriosa habilidade dela funciona, mas parece ter algo a ver com um forte deslocamento de ar, quase como uma explosão.
Diferentemente de ontem, contudo, foi um ataque impensado e que se voltou também contra ela, arremessando-a para fora do catre e direto no chão. Sei que ela vai tentar fugir e me preocupa a quantidade de esforço que ela está fazendo e de hematomas que ela está acumulando, portanto não perco tempo em persegui-la e imobiliza-la.
Seria mais fácil se ela não estivesse tão frágil e se eu não tivesse que controlar também a minha própria força. Yashiro está puto, eu consigo perceber pelo tom de voz com o qual ele pragueja, já que fomos ambos descuidados em não antecipar a reação de Kyoko ao acordar.
Erro de amador. E não estamos em posição de cometer erros de amadores. Não quando o mundo inteiro aguarda uma ínfima oportunidade de acabar conosco.
Ela me acerta um chute perigosamente perto da virilha. Preciso fazer algo para afastar as pernas dela de mim, portanto trago as costas dela contra o meu peito, prendo as pernas dela com as minhas e os braços dela com os meus. Antes, é claro, eu recebo alguns feios arranhões.
"Ren, cuidado com a força, você vai deixar marcas!"
Oh, sim. Como se fosse fácil usar a força necessária para conte-la e suficiente para não a machucar.
Mesmo com os membros imobilizados ela tenta me atingir com a cabeça. Seria uma manobra mais eficiente se não fosse pela nossa diferença de altura e ela conseguisse, de fato, acertar meu nariz ou queixo, mas tudo que ela alcança é meu peito.
Sorrio. Por mais que seja frustrante o fato dela não se entregar mesmo quando a derrota é óbvia, a persistência dela é adorável e me deixa orgulhoso.
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Inferno, eu estou presa. Maldita força excepcional.
O ar parece não chegar aos meus pulmões e meu coração está prestes a explodir. Não tenho mais energia e o esforço me deixou tonta e resfolegante.
Sinto uma reverberação às minhas costas. O miserável está rindo!
A irritação recarrega parte da minha energia e eu me debato um pouco mais, mesmo sabendo que eu não vou conseguir me soltar. Diabos, meus esforços podem ser inúteis, mas eu não vou desistir de lutar!
"Shhhhh, acalme-se"
"Seu maldito, filho da-"
"Kyoko, pare"
A calma dele somente aumenta a raiva e a humilhação que eu estou sentindo.
"Não me diga o que fazer, seu bastardo assassino!"
Ele tem o desplante de rir novamente, o que me deixa puta da vida.
"Vejo que você já ouviu falar de mim!"
"Não há quem não conheça o Monstro Tsuruga!"
Eu praticamente cuspo as palavras com todo o desprezo que sinto por ele. Jamais perdoarei o assassino de meu pai.
"Ótimo. Então você sabe que, se eu quisesse, você já estaria morta"
Eu rio sem vontade.
"Sim, claro que sei. Como sei também que se eu estou viva, é porque vocês querem algo de mim"
"... Pare de se sacudir, você só está desperdiçando energia. Eu posso ficar 72 horas sem comer ou dormir, quanto tempo mais você acha que aguenta permanecer se debatendo deste jeito?"
Eu não respondo. O pior de tudo é que eu sei que ele tem razão, mas se eu parar de lutar, o que restará para mim?
Não me passou despercebido que ele mudou de assunto. Ao longo dos anos eu descobri que as pessoas falam mais no que elas escondem do que no que elas revelam. Os malditos querem me usar para algo e isto faz minhas entranhas revirarem.
Estou fraca e Kyoko está muito perto de emergir. Ela sempre surge nos momentos de vulnerabilidade, tola e chorona como sempre. Há lágrimas indesejadas brotando em meus olhos, resultado da humilhação que estou sentindo. Kyoko, por favor, não apareça agora. Não quando estamos todos tão debilitados e incapazes de protege-la.
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Yashiro chama meu nome com um tom de preocupação na voz. Eu não vejo o que ele está vendo, já que não tenho acesso ao rosto de Kyoko, mas eu percebo nela uma nítida mudança de postura e uma rigidez corporal diferente, não mais voltada ao ataque, e sim à estrita autoproteção.
Kyoko ainda se debate esporadicamente, mas ela não está mais lutando: ela está sofrendo.
Eu gesticulo com a cabeça para Yashiro nos deixar a sós, o que ele obedece imediatamente. Kyoko não representa uma ameaça e nós dois sabemos disso.
Raios, nós três sabemos, e talvez por isso ela tenha ficado tão abatida.
Eu afrouxo a contenção e, como previa, ela permanece imóvel, como se todas as forças a tivessem deixado.
"Você quase morreu ontem à noite"
Silêncio.
"Ruto não pretendia usar uma dosagem tão alta do tranquilizante. Ele pensou que você fosse um homem"
Silêncio.
"Você vomitou muito. Teve febre e delirou. Passou mais de doze horas inconsciente"
Silêncio.
"Pensamos que você não fosse sobreviver. Chamamos... eu chamei Maria para falar com você, talvez você reagisse ouvindo a voz dela"
Finalmente uma reação em forma de tensão muscular, mas ela logo relaxa novamente. É evidente que Maria a afeta de uma forma que nada mais parece afetar.
Kyoko agora é praticamente um peso-morto, então eu estou simplesmente apoiando-a contra mim. Por um segundo eu penso que estamos abraçados.
É errado que eu esteja me sentindo tão confortável? Minha coxa dói onde ela me chutou e, com a diminuição da adrenalina, os arranhões em meus braços começam a arder, mas ela está imóvel em meus braços, sentada entre minhas pernas e apoiada contra o meu peito, e por mais que eu saiba que o relaxamento dela só se deve à exaustão e que se ela tivesse uma gota sequer de energia, ela tentaria me matar, eu me permito fingir que ela não me odeia e que a posição íntima em que estamos não é desconfortável para ela.
Será que eu sou tão melhor assim que Sho? Afinal, eu estou me aproveitando de um contato físico que ela não está permitindo de livre e espontânea vontade.
"Você sobreviveu, mas está fraca. E cansada"
Por algum motivo eu tenho a necessidade de consola-la, de amenizar o sentimento de derrota que parece atormenta-la no momento.
"Eu não preciso da sua ajuda. Eu não quero a sua ajuda. Eu prefiro que você me mate de uma vez a receber sua falsa piedade"
As palavras dela são secas e frias, portanto eu me surpreendo quando sinto uma lágrima cair no meu braço. Pelo visto, minha tentativa de oferecer consolo foi infrutífera. Resolvo, então, mudar de estratégia: se neste momento ela precisa odiar alguém para se reerguer, então darei a ela alguém para odiar.
Eu paro de resistir à tentação de passar meu rosto nos cabelos dela. Como ela consegue cheirar tão bem apesar de tudo é um completo mistério. Como eu previa, ela se contrai e prende a respiração, assustada pelo meu inusitado gesto.
"Não é falsa piedade. Nem verdadeira piedade. De todos os sentimentos que você evoca em mim, você escolheu logo um que eu sou incapaz de ter. Por qualquer pessoa, não só por você"
Eu a seguro com mais firmeza contra mim. Não consigo evitar, não quando eu finalmente percebi como ela parece ter sido moldada para mim.
"Você desconhece muitas coisas: sobre mim, sobre este lugar, sobre a sua situação. Você não sabe, por exemplo, que Ruto está na porta, então mesmo na remota possibilidade de você ter conseguido derrubar a mim e ao Yashiro, não conseguiria escapar deste quarto. Diabos, você não conseguiria escapar do palácio de Lory, seminua como está"
Eu não digo a ela, nem poderia dizer enquanto não souber exatamente em que condições Lory negociou com o Conselho, mas o fato é que há um burburinho acerca da invasão de ontem à noite e todos os nobres estão inquietos. Por quanto tempo mais conseguiremos manter Kyoko escondida?
Ela se contrai mais ainda, provavelmente por ter finalmente percebido a ausência do macacão a cobrir-lhe o corpo.
"Não se preocupe, sua roupa de escavador será devolvida a você. Eventualmente"
"Agora! Você vai me devolver agora! Meu pai morreu para me dar aquela roupa! Você sabe melhor do que ninguém, já que foi você quem o matou!"
"Shhhh, não volte a se debater. Você precisa recobrar suas energias, e não desperdiçar o pouco que tem em um esforço inútil! Primeiro você vai se recuperar, depois precisaremos conversar. Lory também quer falar com você"
"Eu não tenho merda nenhuma para conversar com vocês!"
"Sim, você tem. Para começar, você invadiu a residência de Lory, então no mínimo você lhe deve desculpas!"
Ela arfa indignada e eu sorrio. "Kyoko indignada" é mais fácil de lidar do que "Kyoko triste".
"Você também estragou a minha festa, então eu também espero receber um pedido de desculpas!"
"Ora, seu-"
Eu nunca pensei que provocar alguém pudesse ser tão divertido.
"E pelo fato de que eu passei as últimas doze horas garantindo que você não morresse, também quero ouvir seu sincero agradecimento"
"Agradecimento? Agradecimento? Foda-se, seu maldito!"
"Bem, se você não quiser agradecer com palavras, já que a sua boca só profere ofensas contra mim, pode agradecer com ações. Por exemplo, se você continuar se sacudindo e empinando seu delicioso traseiro contra mim, eu vou considera-la agradecida o bastante"
Como eu queria, ela imediatamente para.
"Solte-me"
Não é preciso ser um gênio para perceber que os pensamentos dela se voltaram para seis anos atrás e ela está receosa de ser vítima novamente.
"Kyoko, se qualquer pessoa neste palácio quisesse lhe fazer algum mal, qualquer mal, já teria feito. Você esteve apagada por horas, lembre-se. Para que você morresse, bastaria que você fosse deixada à própria sorte"
"Há coisas piores que a morte"
É um argumento que eu não tenho como rebater.
"Ouça-me, eu vou solta-la e deixa-la descansar. Ten ou Lina ficarão por perto. Óbvio que Ruto permanecerá à porta, portanto tente não se matar fazendo algo estúpido como tentar fugir na condição em que está"
Ela permanece calada e imóvel, então eu a solto e me levanto. Eu quero levanta-la e recoloca-la no catre, mas acho que isso somente a fará se sentir pior, a julgar pela rapidez com a qual ela engatinhou para longe de mim assim que teve a oportunidade.
Eu saio do quarto, mas antes de fechar a porta vejo-a tentando se levantar, apoiando-se na parede mais distante e olhando para mim com um misto de dor, medo e fúria.
Ruto apenas me olha, provavelmente esperando instruções. Eu o oriento a permanecer vigiando e parto em busca de Ten. Kyoko precisa comer para recobrar as forças, e por mais arriscado que seja dar a ela a mínima condição para fugir, não consigo deixar de pensar que ela ficará mais confortável quando estiver adequadamente vestida.
Então, roupas e comida é o que eu peço à consorte de Lory, que me olha como se eu tivesse perdido o juízo. Sim, eu sei que estou sendo complacente com a prisioneira, o que é fora do meu normal.
Se Maria é o ponto fraco de Kyoko, acabo de descobrir que Kyoko é o meu ponto fraco.
N/A – De volta da viagem e aqui está mais um capítulo para vocês! Espero que estejam gostando!
Muito obrigada aos que leem, seguem, favoritam e, especialmente, aos que destinam um pedacinho do dia para comentar esta história. Beijos!
