CAPÍTULO 7 – UM BANDO DE VADIAS LOUCAS
Abra passagem para mim, garotinho. Você não saberá lidar com os três ao mesmo tempo.
Nós temos uma consciência compartilhada, o que quer dizer que todos os cinco veem e ouvem as mesmas coisas. O que nos diferencia é, basicamente, a relevância que damos a cada informação e, consequentemente, a maneira de reagir a cada situação.
Ainda não somos produtos acabados, já que o mais velho de nós conta com pouco mais de seis anos, então, às vezes cometemos erros. Às vezes, quando submetida a fortes emoções, a mente de Kyoko se torna um espaço apertado e sufocante, o que nos deixa ansiosos para sair e nos faz disputar sobre quem tomará a frente da situação.
Nestes momentos, Kyoko emerge. Uma falha inescusável da nossa parte. Não deveríamos perder tempo debatendo quem será o guardião mais adequado a assumir a situação, se isto significa deixa-la vulnerável. Qualquer um de nós assumindo o comando, por mais inadequados que sejamos ao caso específico, é menos arriscado do que permitir que ela tome a frente e se torne suscetível a receber um golpe direto.
Eu não fiquei impassível enquanto observava Kuon fazer um papel ridículo de si mesmo. O garoto é útil, não vou negar, mas nos últimos dias ele só conseguiu colocar Kyoko em risco com a estapafúrdia ideia de resgatar Maria. Ok, nós gostamos da menina. Não podemos evitar, já que Kyoko é louca por ela, mas invadir os domínios de Lory sem um plano concreto foi atitude típica de adolescente impulsivo e não é estranho que tenhamos perdido a liberdade por causa deste erro.
Nenhuma de nós assumiu o controle desde então porque Kuon prometeu que nos tiraria da enrascada. Foi fofo como ele quis resolver sozinho o problema que ele mesmo criou para nós, mas depois de presenciar como a ideia dele de solução se resumia a atacar qualquer coisa que se movesse, o que só nos rendeu fadiga e hematomas, decidimos que uma de nós precisaria render o esquentadinho.
Ninguém melhor do que eu para enfrentar o presente problema.
Como eu disse, não fiquei impassível enquanto Kuon fazia um papel ridículo de si mesmo. Fiz observações e anotações mentais. Analisei fatos e tracei hipóteses.
Fato número um: com o mínimo de informação, Lory alcança deduções improváveis. Com ele, é preciso manter a mente aguçada e a boca fechada. Ainda assim, quando ele não consegue respostas por meio de perguntas, utiliza iscas aparentemente inofensivas para angariar informações, então, mesmo sem querer, a pessoa acaba revelando o que ele quer saber.
O mais importante para mim é: qual o ponto fraco de alguém tão habilidoso quanto ele?
Hipótese número um: ele não sabe mentir.
Hipótese número dois: ele sabe mentir, mas não precisa. Afinal, com a habilidade que ele tem, não é necessário que ele corrompa a verdade, basta que ele escolha as palavras. Então, tudo que ele diz é verdadeiro, embora eu precise ficar atenta para ouvir estritamente o que ele está comunicando.
Fato número dois: Ren tentou impedir Ruto de nos atacar. Digo, de atacar Kyoko, porque ele não sabe que nós existimos.
Hipótese número um: ele estava apenas protegendo a integridade física de uma "portadora de útero", como bom Mestre de Clã que ele é.
Hipótese número dois: ele receou que Ruto pudesse matar Kyoko porque ela pode ter alguma utilidade para ele, ao passo que morta ela seria inútil.
Hipótese número três: ela tem alguma relevância emocional para ele que todos nós desconhecemos.
Fato número três: Ren cuidou de Kyoko.
Hipótese número um: todos os outros – Lory, Ruto e Yashiro, presentes no momento em que Lory revelou a identidade do "invasor", e depois Ten e Lina, que segundo Ren ficaram por perto caso Kyoko precisasse de algo – estavam ocupados demais para assumirem a função de cuidadores.
Hipótese número dois: ele teve a necessidade de garantir que ela sobreviveria, então assumiu a tarefa.
Fato número quatro: Ren poderia ter amarrado Kyoko ao catre, mas não o fez.
Hipótese número um: ele não cogitou a possibilidade de ela tentar escapar.
Hipótese número dois: ele optou por deixa-la livre. Porque nos subestima ou porque a estima?
Fato número cinco: Ren poderia ter facilmente desacordado Kyoko no momento da contenção, mas apenas a imobilizou.
Hipótese número um: ele precisava dela consciente.
Hipótese número dois: ele não queria machuca-la.
Fato número seis: ele segurou Kyoko por mais tempo que o necessário. Ela já estava exaurida, ainda assim ele permaneceu no chão com ela.
Hipótese número um: ele estava se certificando de que ela não estava fingindo exaustão.
Hipótese número dois: ele não quis encerrar o contato físico.
Fato número sete: ele dispensou a presença de Yashiro e reportou a Kyoko o que aconteceu enquanto ela esteve inconsciente ou delirante.
Hipótese número um: ele quis tranquiliza-la para faze-la baixar a guarda.
Hipótese número dois: ele quis conquistar a confiança dela.
Fato número oito: ele autorizou Ten a vestir e alimentar Kyoko. Mesmas hipóteses do fato número sete.
Hm, intrigante! Por mais que eu reveja minhas anotações mentais, não consigo deixar de pensar na possibilidade de Ren sentir algo por Kyoko, e tal pensamento é perigoso, porque Kyoko é uma frágil criatura sedenta de afeto.
Talvez seja apenas atração física. Não, não deve se resumir a atração física, já que ele parece tentar protege-la desde que Lory disse o nome dela e não é possível que ele estivesse atraído por ela, vendo-a apenas com aquele horrível macacão e trejeitos de garoto. A não ser que ele goste de garotos.
Mas então, ele não a trataria tão intimamente como fez quando estavam ambos no chão e ela estava seminua.
Se eu me enveredar demais pela hipótese da afeição de Ren por Kyoko, ela se tornará mais e mais apegada à ideia de que ela é importante para alguém neste mundo, o que no passado sempre a deixou vulnerável. Por mais que seja tentador cogitar a possibilidade de manipular um Mestre de Clã com facilidade, não podemos perder de vista a tendência que Kyoko tem de procurar afeto em toda parte e os riscos envolvidos em tal inclinação.
Afinal, nós permitimos que ela se apegasse a Maria, e veja a confusão em que nos metemos.
Hm, complicado! Há alguma peça faltando, algo todos nós desconhecemos e que provavelmente remonta ao passado, e a única circunstância que eles compartilham é o fato de que ele foi o juiz que investigou o ataque que ela sofreu seis anos atrás.
Uma pena que eu não tenha tempo suficiente para averiguar corretamente. A julgar pela intenção assassina emanando de Yashiro, ele está prestes a me atacar. Parece que o Conselheiro Tsuruga percebeu como eu estou no epicentro do combate sangrento prestes a acontecer entre Ren e Ruto.
Tudo porque eu quis confirmar se Ren sente algo por Kyoko e provoquei nele um pouco de ciúmes! Quanto despreparo, Ren! Um Mestre de Clã, deixando-se levar por sentimentos em relação a uma mulher! Alguém conhecido como Monstro, ainda por cima!
Natsu, já chega. Pare de se entreter com esta hipótese, você está deixando Kyoko inquieta. Seu trabalho já foi feito, agora deixe-me assumir.
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Não é à toa que Yashiro queira eliminar Kyoko. Chega a ser lisonjeiro! De donzela ingênua a ameaça ao Clã Tsuruga em um período de seis anos, quem diria?
Algo assim só acontece mesmo com uma morte e vários renascimentos no meio do caminho.
Sorrimos, extasiadas. Sim, contemplem o monstro que vocês mesmos criaram, com suas leis coniventes e socialmente segregacionistas! Esconderam o cadáver de Kyoko sob suas camas, adivinhem, então, quem veio atrapalhar o doce sono de vocês?
Natsu e Setsuka compartilham o meu deleite. Momiji apenas aguarda com expectativa o derramamento de sangue. Kuon diz que somos um bando de vadias loucas.
Ruto parece impassível, mas, pelo contato físico que Natsu propositalmente manteve com ele, nós pudemos sentir, pelas mínimas contrações musculares, o momento exato em que ele percebeu as intenções assassinas, primeiro de Ren, depois de Yashiro, e se preparou física e mentalmente para o iminente confronto.
Sei que Ruto vai nos proteger.
Eu comemoro novamente tanto o palpite que tivemos quanto o fato de que Kuon ouviu nosso conselho e pediu areia para Ten. Pelo tom de pele, supomos que Ruto fosse originariamente um nômade do deserto, e se ele já não estivesse inclinado a proteger Kyoko em redenção ao fato de tê-la atacado, ouvi-la falar com familiaridade sobre um costume do povo dele, tão fechado e cauteloso com estranhos, certamente foi determinante para conquistar sua proteção.
A satisfação é tamanha, que eu poderia beija-lo!
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"Ora, mas o que temos aqui? Por que ninguém me convidou para a festa?"
Por um segundo eu consegui antever um desastre. Como a situação chegou a tal nível de tensão? É impossível não a sentir no ar e, ainda assim, Kyoko está sorrindo extasiada!
Que. Mulher. Assustadora.
A minha mensagem para Ren deve ter chegado ao mesmo tempo em que a mensagem de Lory para mim e eu parti imediatamente para o território Takarada, deixando Kouki cuidando do território Tsuruga.
Não que eu não esteja feliz por sair de perto de Ruriko e Kimiko, mas a cena que estou presenciando é ainda pior do que o que Lory me antecipou.
Meu estúpido irmão mais novo, com seus descontroles, está chamando uma atenção indesejada sobre si. E sobre a mulher que ele está tentando proteger. Não bastasse a confusão provocada na noite de sua ascensão a Mestre, ele ainda permanece fora do próprio território, deixando-me como encarregado, e agora o fardo recaiu sobre Kouki, que sequer é relacionado a Ren.
Ele não percebe que tal atitude, ainda por cima na primeira semana de gestão, é péssima para a imagem dele perante o Conselho? Será que ele já esqueceu como a votação foi apertada e que se não fosse o prestígio de Lory e de Kuu, ele jamais seria consagrado Mestre?
Uma tremenda babaquice. Se continuar assim, perderá o posto e não poderá culpar ninguém além de si mesmo.
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Pela semelhança com Ren, aposto como o mais novo integrante da "festa", como ele mesmo disse, é Rick. Seria bom descobrir como os pais deles conseguiram produzir tão belos espécimes.
Perdi uma ótima e rara oportunidade de me livrar de alguns oponentes, mas não faz mal. Há um novo e inusitado plano em elaboração que nos parece bom o bastante. Extremamente arriscado, é verdade, mas neste mundo nada obtemos sem correr riscos.
Rick praticamente arrasta Ren para outro aposento. Yashiro ainda me observa por alguns segundos antes de segui-los e só então eu me afasto de Ruto.
Não é conveniente para nós que Yashiro veja Kyoko como uma ameaça. É lisonjeiro, mas não conveniente. Com o passar dos anos, nós percebemos como é melhor que sejamos subestimados, afinal, um Desterrado, Escavador ou não, nada representa para esta sociedade. O anonimato é útil aos nossos propósitos, mas agora conhecem a nossa identidade. E sabem que temos uma habilidade excepcional.
Tivemos grandes perdas nos últimos dias. Precisamos reverter a situação de alguma forma, nem que seja mirabolante.
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"Você perdeu a porra da cabeça?"
"Exatamente a minha dúvida"
"Que merda você pensava em fazer lá dentro?"
"Uma grande merda, pelo visto"
Rick me conduziu ao escritório de Lory, que até então esteve ocupado demais lidando com os eventos da noite da minha comemoração. Eu quase sinto pena dele, pela expressão cansada que ele falha em disfarçar, mas como eu disse ontem a Kyoko, pena é algo que eu não consigo sentir. Principalmente porque foi escolha dele lidar sozinho com a situação.
"Oh? Vocês poderiam fazer a gentileza de me atualizar sobre os últimos eventos? O nosso caro Ren aprontou alguma coisa?"
Eu isolo as palavras ansiosas e recriminadoras de Rick e Yashiro, relatando a Lory tudo que eles consideram "o comportamento impulsivo e deplorável de Ren", e me permito analisar todos os fatos até então: do desaparecimento de Kyoko às informações coletadas na minha investigação seis anos atrás; da cena dela abraçada a Maria ao momento em que ela me olhou com os olhos de quem carrega toda a dor do mundo; da postura dela com Ruto – das duas posturas dela com Ruto, na verdade: uma sensual e outra altiva - à expressão de deleite pela tensão no ambiente.
"Há algo maior acontecendo"
Meu comentário parece interromper a litania dos dois, que eu já não ouvia por estar absorto em pensamentos.
"Sem dúvida. Dentro das suas calças!"
Confie no meu irmão para comentários sarcásticos.
Rick e Yashiro exibem variados graus de irritação, frustração e cansaço, mas eu não tenho tempo para me importar. Tudo, absolutamente tudo que eu vi de Kyoko nos últimos dias é uma enorme contradição. Nem mesmo o ódio escancarado por todos os Mestres, que ela carrega à frente de si mesma como se fosse um escudo, resiste à contradição, já que houve momentos em que eu a flagrei completamente frágil e perdida.
Por tudo que ainda houver de sagrado neste mundo, eu preciso de mais tempo com ela para entender o que está acontecendo, para descobrir o que ela está tramando, porque eu não tenho dúvidas de que ela tem algo planejado.
Algo bombástico e virtualmente suicida.
Eu repito a eles que há algo maior acontecendo, na esperança de que eles se lembrem que, por mais que eu esteja fora do meu normal, ainda sou o cara mais jovem da história a inaugurar um Clã, superando a marca de Kuu ao fundar o Clã Hizuri. A mensagem muda que quero passar a eles é "me deem algum crédito, cacete!"
Parece que eles se lembraram, pela maneira como se entreolham.
"Okay, Ren. Você tem a nossa atenção"
Eu inspiro profundamente. É agora ou nunca.
"Vocês se lembram do caso do tráfico de crianças?"
"Claro que sim, mas o que isso tem a ver com-"
"O caso inteiro começou por uma eventualidade, uma denúncia anônima de que havia um grupo de sequestradores no deserto. Vocês se lembram?"
"Sim, sim, mas como-"
"Paciência, eu já chego lá. Ninguém à época se preocupou em reunir os casos de crianças desaparecidas, porque o número de avisos não estava fora do habitual para cada território, mas a denúncia foi detalhada em informar como os desaparecimentos em vários territórios estavam relacionados entre si. Não eram eventualidades de crianças que se descuidavam e acabavam estraçalhadas pelas feras sem que os pais jamais soubessem, nem de infanticídios porque os pais não encontravam um nobre para quem entrega-las, mas de sequestros sistemáticos em diferentes territórios, a fim de não atrair a atenção das autoridades. Raios, a denúncia foi precisa até em dizer o dia e local exatos para fazermos a tocaia!"
"Sim, como eu poderia esquecer? Foi a pior noite da minha vida!"
"Noite? Eu tive pesadelos por meses com as cenas que vimos!"
"Ren, aonde você quer chegar?"
"...Depois que nossa incursão foi um sucesso e resgatamos as crianças, o Conselho decidiu oferecer um generoso prêmio ao denunciante"
"Sim, uma armadilha. Não havia prêmio, só queriam pôr as mãos na pessoa que detinha as informações privilegiadas"
"Inicialmente, o Conselho suspeitou que os sequestradores fossem os Rebeldes, já que as crianças foram escondidas em uma região inóspita e desabitada próxima da qual acreditam ser o refúgio dos rebelados, então a recompensa era uma isca"
"O Conselho cogitou, ainda, que a denúncia houvesse partido de um Rebelde, então, seria vantajoso se os nobres conseguissem capturar o denunciante e extrair dele informações"
"Por fim, quando ninguém apareceu para clamar o prêmio, suspeitaram que o denunciante fosse um comparsa dos sequestradores"
"Mas Lory sempre suspeitou que fosse um Excepcional não catalogado"
À minha observação, Yashiro e Rick ficam perplexos. Parece que os dois finalmente compreenderam aonde eu quero chegar, enquanto Lory permanece alisando o cavanhaque e me observando com seus enervantes olhos analíticos.
"Ren, você está achando que..."
"Ela?"
"Kyoko?"
"Bem, faz sentido. Afinal, Maria foi uma das crianças sequestradas, e foi graças a esta missão que Lory a conheceu e decidiu inclui-la no Clã Takarada como filha de Kouki e Lina. O que sempre me chamou a atenção foi o fato de que Lory escolheu justamente Maria, dentre todas as crianças. Talvez..."
Lory e eu apenas nos olhamos por alguns segundos, até que ele me dá um sinal.
Eu interpreto o sorriso sereno como permissão para que eu prossiga com meu ousado raciocínio, permissão necessária considerando que estou no território dele e Yashiro tem razão em dizer que já me aproveitei demais da hospitalidade do meu anfitrião. Não quero somar a descortesia de revelar uma trama à longa lista de transgressões que eu acumulei com Lory.
"Talvez o fato dela ter sido a última criança sequestrada tenha sido determinante. Talvez Lory quisesse unir o útil ao agradável, adotar a menina para o Clã e ao mesmo tempo forçar o Excepcional que ele suspeitava estar envolvido no caso a aparecer. Afinal, a denúncia somente ocorreu após Maria desaparecer, de onde se pode concluir que Maria foi o estopim da investigação que resultou na denúncia anônima. E alguém disposto a envolver as autoridades para resgata-la, mas não disposto a fazê-lo diretamente, daí a denúncia anônima, mais cedo ou mais tarde viria atrás dela"
"Puta. Merda"
Eu quase comemoro vendo as expressões abobalhadas de Rick e Yashiro. Pois é, talvez agora eles compreendam porque eu estou sempre tenso perto de Lory.
"Agora entendo o que você quer dizer por haver algo mais acontecendo!"
"E agora eu entendo por que Ruto passou a festa inteira com Maria, sendo que o alvo da noite era supostamente você!"
Lory e eu apenas nos observamos enquanto Rick e Yashiro parecem se divertir com várias teorias conspiratórias, envolvendo ou não o grupo de rebelados que o Conselho jura existir e que deixa os nobres se mijando de medo. Torço para que a habilidade dele não capte que meu maior objetivo é convence-los de que Kyoko é essencial viva e que eu estou cagando para o fato dela estar ou não associada aos Rebeldes: tudo que eu quero é ter argumentos para convencer Lory a me permitir voltar para o território Tsuruga.
Levando Kyoko comigo.
Há algo maior acontecendo, eu consigo sentir.
Após intenso escrutínio, Lory finalmente decide se pronunciar.
"Bem, Ren, parece que você tem algo planejado para o 'Caso K'. Importa-se de compartilhar conosco?"
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Eles se foram há horas e nada de retornarem. O tédio chegou a tal nível, que Mio se retirou, Natsu se recusou a assumir, Kuon permanece em quarentena e Momiji sequer apareceu.
Ela nunca aparece nos momentos de calmaria.
Logo, sobrou para mim, e eu estou prestes a atirar alguma coisa contra Ruto, caso ele não pare de me encarar.
Oh, ele finalmente se moveu, segundos antes da porta se abrir e Lory aparecer, seguido de perto por Ren.
Os dois se aproximam de mim, mas Rick e Yashiro permanecem bloqueando a porta, o que dispara alarmes na minha cabeça. Na nossa cabeça. Agora você aparece? Momiji, sua inútil!
"Minha cara, como é bom vê-la! Digo, finalmente vê-la!"
Há Mestres de todos os tipos, e Lory é do tipo barulhento.
"Aquele velho macacão não lhe fazia jus, eu lhe garanto!"
Barulhento e flertador. Quase não consigo conter Kuon, que está praguejando contra Lory e repetindo a velha ladainha "meu pai morreu para me dar aquele macacão e blábláblá".
"Ora, mas você está usando roupas de homem! E Ruto está usando roupas de mulher! Que ideia maravilhosa! Por que não me avisaram antes? Podíamos ter todos nos fantasiado!"
Barulhento, flertador e excêntrico.
"Agora entendo porque Ren faz tanta questão de tê-la! Ren, seu danadinho!"
Barulhento, flertador, excêntrico e alcoviteiro.
Espera um pouco, o quê?
O sorriso ferino de Lory me provoca calafrios. Eu não demoro mais que um segundo para processar o que ele acabou de me dizer e sinto o sangue gelar nas veias.
"Alegre-se, minha jovem, porque hoje é um grande dia! Você acaba de ser designada como procriadora do Mestre Tsuruga!"
