CAPÍTULO 10 - MARIA
Se eu tivesse descoberto, seis anos atrás, qualquer prova irrefutável sobre o que realmente aconteceu a Kyoko, a situação seria diferente. Se eu tivesse feito meu trabalho corretamente, eu a teria encontrado com vida, teria o testemunho dela e poderia abrir a garganta dos dois malditos que a atacaram.
O Conselho ficaria puto comigo, mas seriam eles a engolir a raiva, não eu. Eles nada poderiam fazer, nem contra mim, nem contra Kyoko, já que eu tinha a autoridade concedida por eles mesmos e, até então, Kyoko era vista como uma jovem talentosa de catorze anos, recebida pelo Clã para ser protegida, não para ser violentada e assassinada. Pela lei, eu tinha ampla decisão sobre a punição a ser aplicada sobre eles, de confisco de bens a morte. E eu não tenho dúvidas sobre qual pena eu aplicaria.
Mas o desenrolar não foi favorável, e agora a minha palavra sobre o caso pesa sobre Kyoko. Como se ela precisasse de mais um motivo para me odiar...
Eu digo a mim mesmo que a necessidade que eu tenho de protege-la vem da minha dívida com ela. E a lista não para de crescer: eu matei o homem que a ajudou; eu falhei no desempenho do meu papel e, por conseguinte, não dei ao caso o desfecho justo; eu comprometi o testemunho dela; e, acima de tudo, agora eu descubro que a minha incompetência também causou sofrimento a Maria.
Eu sequer consigo imaginar a luta de Kyoko, ferida, sozinha e grávida. Sem ter uma única pessoa a quem recorrer, temendo não só pela própria vida, mas também pela vida da filha.
Eu sei que este mundo pertence aos fortes. Mas que força assombrosa é esta que Kyoko tem?
Eu desejei profundamente que não fosse necessário usar Maria como argumento. Ora, é claro que Lory protegeria Maria com ou sem a colaboração de Kyoko, mas o plano consistiu em usar o ódio e a desconfiança dela contra os Mestres em nosso proveito, para faze-la acreditar que Maria não estaria segura caso ela não cumprisse a parte dela no acordo.
Um plano odioso, mas eficiente. E mais um motivo para ele odiar os Mestres.
Mais um motivo para ela odiar a mim.
"Você coopera conosco, e eu juro que o Clã Fuwa jamais colocará as mãos em Maria. Eu juro que sua filha ficará em segurança"
Eu vejo todo o sangue drenar do rosto de Kyoko, seus olhos revirarem nas órbitas e seus joelhos cederem. Consigo chegar até ela antes que seu corpo desfalecido atingisse o chão e a levanto em meus braços.
Lory finalmente está demonstrando algum pesar pela situação. Por um instante eu imaginei que eu era o único extremamente incomodado pelo que estávamos fazendo a uma mulher.
"Mestre Takarada, o Clã Tsuruga agradece a hospitalidade. Estamos de partida"
"Por que a formalidade, Ren? Está bravo comigo pelo que fiz a Kyoko?"
Eu não consigo responder, a dualidade é forte demais. Eu sei que o plano de Lory é o melhor que poderia haver e que graças a ele conseguiremos evitar que Kyoko se coloque em mais perigo, mas ficar impassível vendo-o pressiona-la o bastante para faze-la desmaiar exigiu demais do meu autocontrole.
E eu não sou chamado de Monstro por ter um maravilhoso autocontrole.
Tudo que eu consigo fazer é aperta-la contra mim e dizer a mim mesmo que o pior já passou. Lory deve ter percebido meu desconforto, porque abriu um largo sorriso.
"Claro que você pode ir. Aliás, você deve ir. Mas Kyoko permanecerá aqui por mais alguns dias"
Caralho, eu devia saber que ele viria com mais uma ideia para me infernizar!
"Eu não vejo motivos para Kyoko permanecer aqui"
"Não vê motivos? Bem, eu posso citar alguns: primeiro, ela precisa se recuperar. Segundo, você precisa definir como vai esconde-la e mantê-la distante de Kimiko e Ruriko, já que não pode simplesmente aparecer com uma nova procriadora, saída sabe-se lá de onde, e esfrega-la na cara de duas filhas de nobres que estão empenhadas em fazê-lo se casar"
Merda, eu me esqueci das duas! É por isso que Yashiro é meu Conselheiro, para me alertar sobre os momentos em que meu lado emotivo embaça minha racionalidade, mas no momento o traidor está me olhando com uma irritante expressão de triunfo.
"Oh, eu posso até ver o desenrolar do confronto! Quanto tempo vocês acham que demoraria para elas matarem umas às outras?"
Às vezes eu acho que eu sou o mais velho dos irmãos. Especialmente quando Rick se comporta como um garotinho afoito em seus jogos e apostas. Mas eu suponho que eles têm razão, um confronto seria inevitável e a última coisa que eu preciso no momento é ter que explicar aos pais delas o que aconteceu às filhas deles.
Ou que algo aconteça a Kyoko, justamente quando meu argumento para leva-la comigo é protege-la.
"Seria um confronto épico, não tenho dúvidas!"
Lory sempre foi mais condescendente com Rick do que comigo.
"Terceiro, eu não sou tão cruel a ponto de afastar mãe e filha sem permitir que elas conversem"
Ok, este é um forte argumento.
"Maria ainda não está comendo?"
"Nãããããão! E ela também não fala comigooooooo!"
Pronto, é hora de mais um show do Lory.
Eu ignoro a birra e o aviso que estou levando Kyoko para o quarto que ela já estava ocupando, enquanto Lory choraminga e se contorce e dramatiza todas as vezes em que a "neta impossivelmente fofa" rechaçou as tentativas dele, de Kouki e de Lina de faze-la se animar e comer, "partindo impiedosamente o coração" de todos.
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Minha consciência flutua e eu flutuo junto com ela. Há braços me carregando e eu estou firmemente pressionada a um peito largo que deveria ser duro demais para ser confortável, mas conforto é o que eu sinto.
A situação me faz lembrar da minha infância.
Eu me lembro de como meu pai ria o tempo todo das coisas que eu fazia. Acho que ele gostava de mim. Um pouco. Mas meu pai sempre parava de brincar comigo quando minha mãe nos via.
Eu levei anos para entender minha mãe. Realmente, não era conveniente se apegarem a mim, se a minha existência se resumia a garantir a eles uma passagem só de ida para uma vida melhor, dentro dos muros intermediários das Guildas, em alojamentos mais protegidos e confortáveis e com profissões melhores.
Minha mãe não teve educação. Mas hoje, quando eu relembro os anos em que vivemos juntos, eu vejo claramente como ela era a responsável por manter o meu pai focado. Fora do nosso lar, um barraco com dois cômodos improvisados, ela era como toda mulher, caminhando comigo atrás do meu pai e com a cabeça baixa, mas quando retornávamos, era ela quem fazia todo o planejamento de como continuaríamos sobrevivendo.
Eu simplesmente não consigo odiá-la.
As lembranças que tenho antes dos meus cinco anos se resumem às idas semestrais à feira de exposição da Cidade Média. Caminhávamos muito, muito! Eu vestia a minha melhor roupa – que era a minha única roupa, só que com novos remendos - e era lembrada de sorrir a todo instante. "Sorria, Kyoko! Não pare de sorrir!"
Eu sorria tanto, que minhas bochechas doíam.
Eu lembro que eu não queria sorrir: eu só queria admirar aquele lugar tão bonito e limpo e aquelas pessoas sorridentes e bem vestidas, mas minha mãe apertava minha mão com força e sussurrava ao meu ouvido para que eu parasse de fazer uma expressão estúpida e sorrisse.
Mas sorrir sem razão não é estúpido?, lembro de ter pensado uma vez.
Depois de caminhar tanto e passar uma eternidade em pé e sorrindo, voltávamos para casa. Era a pior parte de todas, o retorno para casa. Não só porque eu já estava cansada, mas por não entender a razão para voltarmos para um lugar tão feio e sujo, sendo que havia um lugar tão bonito e com espaço suficiente para todo o distrito Mogami, talvez ainda mais!
E minha mãe absolutamente furiosa por eu novamente não ter sido "escolhida".
Ela sempre fumegava de raiva quando eu me cansava de andar e começava a atrasa-la, mas eu sabia que em público ela não poderia me bater. E meu pai, percebendo que ficávamos para trás, sempre voltava e me pegava nos braços.
Era bom, ser carregada por meu pai. Mesmo que eu tivesse que ver a expressão distorcida da minha mãe por sobre o ombro dele, valia a pena. Valia a pena até com a surra que eu levava depois, quando chegávamos em casa.
Perto dos meus seis anos eu finalmente perguntei a ele porque sempre voltávamos para o distrito Mogami, se havia um lugar tão melhor para se viver. A resposta veio da minha mãe.
"A culpa é sua! Porque você é uma imprestável e todos os nobres sabem disso! Por sua culpa nós temos que viver nesta espelunca!"
Foi na feira dos meus seis anos que a sorte dos meus pais mudou. E a minha também, mas de maneiras impensáveis. Um menino muito loiro e de olhos azuis parou diante do tablado em que eu estava, junto com as outras crianças em exposição, e apontou para mim.
Era Reino.
O patriarca Fuwa apareceu logo em seguida e me observou atentamente. Minha mãe, atrás dele, gesticulava para que eu sorrisse. Ele se abaixou e perguntou algo ao menino, que apenas acenou com a cabeça, e minutos depois eu estava sendo levada ao território Fuwa para começar meu treinamento.
Eu tinha um quarto só para mim em um palácio cheio de cômodos. Eu fui ensinada a ler, a escrever e a contar e pesar ingredientes. Nos raros momentos de folga, brincava com Sho. Um dia eu perguntei pelo menino que estava com o Mestre Fuwa no dia da feira, já que seria bom ter mais alguém para brincar, mas o rosto de Yayoi ficou tão feio quanto o da minha mãe, então decidi nunca mais perguntar.
Eu vivi oito anos naquela rotina cansativa, porém confortável. É vergonhoso admitir que eu havia esquecido completamente como a vida que eu deixei para trás era difícil e como era injusto que tão poucas pessoas tivessem tanto, enquanto tantas nada possuíam.
Eu me permiti alienar pela doce ilusão que as paredes impecáveis do palácio Fuwa representavam e acreditei ser amada. Até ser atacada.
Depois, só luta e dor. Luta e dor. Luta e dor.
Lembro do homem inculto de poucos dentes e que fedia a suor de dias me dizendo apressadamente o que fazer e o que não fazer.
Dane-se a opinião dos renascentistas: meu anjo era feio, praguejava e fedia.
Lembro de acordar sem ele por perto e de chorar abraçada ao macacão que ele deixou aos meus pés. Lembro de devorar a pouca comida que ele tinha e de acreditar que ela estivesse estragada, porque eu fiquei doente por dias.
Lembro de vagar a esmo. Lembro de furtar comida, de pedir esmola. Lembro da fome interminável e do medo constante. Lembro de tudo como se assistisse de fora do meu corpo. Como se visse a vida de outra pessoa.
Lembro de desmaiar algumas vezes e acordar assustada, temendo que houvessem me descoberto. Até perceber que ninguém presta atenção a um Desterrado faminto e doente.
Quando eu senti alguma coisa chutar dentro de mim, chorei por horas a fio.
Ninguém me olhou duas vezes ou tentou me impedir ao me verem caminhar em direção às Terras Ermas: eu era só mais um garoto desesperançado e cheio de vermes que decidia acabar com a própria vida no deserto.
Não sabiam eles que eu estava apenas seguindo os pequenos pontos pretos que sussurravam em minha cabeça a direção a seguir. O meu ardente desejo por comida, abrigo e vingança finalmente havia se materializado e me ajudava a encontrar e obter tudo que eu precisava.
Em uma das minhas andanças, avistei ao longe uma comitiva de nômades do deserto. Com o passar das semanas e vários encontros depois, eu já não sabia dizer se eu estava constantemente avistando a mesma comitiva ou se eram várias, até que finalmente comecei a sentir dores.
Sim, eu lembro da dor. E de mais dor.
Lembro de praticamente me arrastar para uma caverna, nem sequer me importando se alguma fera vivia nela. Se vivia, o mais provável é que meus urros a houvessem afugentado.
Não me lembro de ter removido o macacão, nem de ter me deitado, mas me lembro de estar sozinha e da visão das minhas pernas nuas. Lembro do sangue. Lembro do eco dos meus próprios gritos.
Lembro da tocha, do nômade, do medo.
Lembro que mais nômades apareceram, talvez quatro ou cinco deles. O que parecia ser o mais novo colocou um pano sobre as minhas pernas afastadas. O mais velho apalpou minha barriga com as mãos quentes e calejadas e falava algo que eu não entendia e em uma cadência que parecia uma canção. Ou seria uma prece?
Lembro de sentir tanta dor que já não conseguia sentir nada além dela. Nem medo, nada; só dor.
Então, eu me lembro da dor acabar e do grito revoltado de Maria. Concordo, minha filha: este mundo é uma merda e agora você está nele. Não espero que me perdoe algum dia por isto.
Só posso prometer que dedicarei minha vida a fazer dele um lugar menos merda para você viver.
O mais velho e o mais novo ficaram conosco por mais dois dias e cuidaram de nós. Eles nada falavam, apenas providenciavam tudo que precisávamos.
Lembro de pensar vagamente que eles nos tratavam como se fossemos preciosas, uma garota solitária de quinze anos e sua recém-nascida, por um dia não compartilhando a mesma data de nascimento.
Ainda assim, eu mantive o receio do que eles poderiam nos fazer. Permaneci desconfiada mesmo quando parti com eles no terceiro dia.
Uma contradição, eu sei, mas eu não podia evitar; não, quando eu nada sabia sobre bebês e eles pareciam ter algum conhecimento.
Sem mencionar que era conveniente me misturar a eles, sempre com as cabeças cobertas e vagando.
Ao septuagésimo primeiro dia acompanhando a comitiva dos nômades e fingindo ser uma deles, minhas projeções haviam encontrado o impensável.
Era ali. Ali eu concretizaria a minha vingança.
Eu abandonei a comitiva três meses depois. Três meses em que eu não me permiti confiar naqueles homens silenciosos e de raras palavras, cujo idioma eu nunca compreendi, mas que eu preciso admitir que foram de uma ajuda inestimável.
Sobreviver sozinha e cuidar de Maria foi um desafio, mas o pior foi encontrar uma maneira de deixa-la segura a longo prazo.
Fiz muitos planos, que se fundiram e se substituíram várias vezes, até aceitar que não poderia ficar com ela. Não, se eu realmente quisesse protege-la.
Maria me tornava visível. Um Escavador e uma bebê chamavam muita atenção. E se eu fosse capturada e me exigissem explicações... se descobrissem a minha identidade...
Maria seria entregue ao pai.
Nem por cima do meu cadáver.
Sim, ela ficaria mais segura longe de mim. Mas como me afastar e garantir a segurança dela ao mesmo tempo?
A resposta parecia estar no Distrito Kotonami, onde vivia uma família excepcionalmente hábil em se multiplicar, mas mal vista pelos nobres por nunca vender suas crianças.
Arranjei um barraco nas proximidades, observei-os por algum tempo. Percebi as dificuldades que eles enfrentavam e, ainda assim, na recusa deles em vender as crianças ou oferecer as mulheres solteiras como procriadoras.
Se havia uma família que ficaria com Maria apesar de qualquer dificuldade, era a família numerosa do Distrito Kotonami.
Precisei abrir mão de Romeu e Julieta e de Othello para ter recursos suficientes para cuidar das necessidades mais urgentes daquela família, mas não me arrependo, já que o combinado foi que eu os ajudaria e eles receberiam Maria como se fosse filha deles. Ninguém estranhou, afinal, já haviam perdido a conta de quantas crianças eles acumulavam.
Maria, a parente distante do Escavador 47, também conhecido como Rato. Órfãos.
Para a nova família de Maria, eu era apenas um garoto zeloso e disposto a não entregar a bebê para um orfanato, no qual ela seria precariamente cuidada até atingir dezesseis anos e se tornar mais uma máquina de parir.
Se é que ela conseguiria engravidar.
Nem por cima do meu cadáver.
Meu erro foi não conseguir ficar longe dela. Eu passava semanas nas Terras Ermas, colocando meu plano em prática e desenterrando relíquias, mas sempre voltava para o barraco no Distrito Kotonami.
Com o passar dos anos, Maria começou a me seguir. Eu não queria que ela viesse me ver, mas ela vinha, e apesar de brigar com ela todas as vezes, minhas reclamações e advertências não tinham qualquer força. Porque eu queria tê-la por perto e eu sinto que ela sabia disso.
Porque faz parte da habilidade dela sentir as intenções ocultas das pessoas.
Quando Maria foi sequestrada, eu quis odiar a família do distrito Kotonami. Contudo, só consegui culpar a mim mesma: foi pelas escapadas de Maria para vir me ver que ela acabou nas mãos dos sequestradores. Foi por supostamente pertencer a uma família tão numerosa que ela se tornou um alvo.
Se ao menos eu tivesse conseguido ficar longe. Se ao menos eu a tivesse entregado para uma família menor, cuja falta de um membro fosse percebida mais rapidamente e gerado maior comoção.
Maria correu um risco impensável. Era como se não importasse quanto esforço eu fizesse para mantê-la segura: se eu conseguia protege-la de um perigo, outro maior surgia.
Encontrei-a dopada em um covil imundo no deserto, desacordada junto a outras crianças ainda vivas, mas não por muito tempo.
Os sequestradores falavam da maciez e suculência da carne das crianças mais novas. Salivavam e teciam elogios às habilidades dos Irmãos Açougueiros, que retornariam de uma entrega dentro de poucos dias.
Havia nobres comprando a carne.
Eu contei sete sequestradores, nove quando os Irmãos Açougueiros chegassem; gente demais para eu tentar despistar ou enfrentar sozinha. Eu não queria arriscar sermos descobertas, nem que eles matassem as outras crianças no desespero de sumir com as evidências, caso desconfiassem que alguém havia descoberto o cativeiro.
Minha melhor saída era a denúncia anônima.
Fiquei perto o bastante para tentar salvar Maria caso algo desse errado, mas longe o suficiente para não ser descoberta. Minhas projeções me contaram sobre como os três homens exterminaram rapidamente todos os sequestradores. Tão mais rápido do que eu supus, que não consegui pegar Maria antes que eles invadissem o local onde as crianças ficavam "armazenadas".
Ouvi um deles vomitar. Bem-vindo ao meu mundo, garotão!
Saí de lá sem Maria, mas satisfeita o bastante por imaginar que ela retornaria aos pais no Distrito Kotonami.
Não esperava a interferência de Lory, alegando que a menina havia sumido porque eles tinham crianças demais e não davam mais conta de cuidar de todas; argumentando que era prejudicial aos infantes viverem amontoados daquela forma e sem uma supervisão adequada.
Certo. Como se os Desterrados vivessem em condições decentes, para começar!
Ele manipulou a situação de tal forma, que o casal não teve alternativa senão entregar Maria para ele. Era aquilo, ou perder todas as crianças para um orfanato administrado pelo Conselho, o que significaria perder Maria de qualquer forma.
Um dos meus maiores medos se concretizava: Maria estava sob a posse de um Clã.
Tudo que eu sempre quis foi protege-la. Como as coisas puderam dar tão errado?
Agora Lory sabe que ela é minha filha e está me chantageando para obter minha cooperação. Malditos Mestres, são todos iguais.
É por isso que eu vou acabar com todos eles.
Não sei porque minha consciência está me fazendo reviver tudo agora. Tudo que começou naquela tarde dos meus seis anos, quando Reino apontou para mim, o Mestre Fuwa me comprou e eu fui tirada dos meus pais.
Eu nunca mais os vi. Não sinto falta da minha mãe, mas naquela tarde eu aguardava com ansiedade pelo momento em que meu pai me pegaria nos braços e me carregaria de volta para nosso barraco no Distrito Mogami.
Talvez seja por isso. Talvez eu estivesse até hoje aguardando o momento em que eu seria pega nos braços e levada para casa.
Os braços que me envolvem parecem mais fortes que os do meu pai, o peito parece mais largo e o cheiro é diferente, mas que se dane, eu não estou em posição de ser exigente nem posso rejeitar qualquer alívio que surja.
Por mais impreciso que seja, qualquer conforto que a minha mente confusa quiser me proporcionar, estou aceitando.
N/A – Ok, este foi o capítulo mais difícil de todos. Daqui para a frente... não, não posso prometer que ficará mais fácil, mas ao menos, terá toques mais divertidos e sexys que deixarão a leitura menos dolorosa (dedos cruzados!)
Muitíssimo obrigada por todo o apoio e consideração de vocês! É inesperado, a minha intenção era apenas colocar para fora uma história que me perseguia há meses XD
Bom saber que agora ela persegue vocês, também =P
Beijos!
