CAPÍTULO 13 – HABILIDADES SECRETAS

Kanae, você enlouqueceu, é o que eu me digo. Não sei como Chiori está justificando para si mesma o que nós duas estamos fazendo, mas para mim é insanidade. Eu aceitei a proposta maluca e agora estou tentando me orientar no deserto com a igualmente louca Chiori. Gruta do enforcado. Leste. Taça do diabo. Nordeste. Corredor da morte. Norte. Confiem nos nômades. Bridge Rock. Eu repasso as instruções em minha mente como se isso fizesse eu me sentir menos suicida. Como se as próprias instruções não contivessem pontos de referências aterrorizantes.

Dia anterior, Centro Love Me

"Eu sabia que você estava com aqueles malucos!"

"Não, não estou"

"Você está nos mandando para lá, não está? Direto para o covil dos rebelados!"

"Sim, mas-"

"É só questão de tempo até o Conselho encontrar o esconderijo deles. Aí, será execução pública para os líderes e campos de trabalhos forçados para os demais, o que não é melhor que a morte. E você ainda quer que nos juntemos a eles?"

"Não, não a eles: a mim"

"E que raios de diferença faz?"

"A diferença é que eles são como aríetes: muito úteis, mas sem qualquer coordenação"

"E você, o que é?"

"A coordenação"

"Em outras palavras..."

"Em outras palavras, eu não estou com eles: eles estão comigo. Ou quase"

"Quase?"

"Eles me escutam. Eles fazem o que eu sugiro. Eles sabem que eu sou... diferente. Eu indico o que eles devem fazer, como devem sobreviver, como precisam se organizar"

"Ou seja, você é o líder deles"

"Não! Ouça, o que eles querem e o que eu quero não é o mesmo. Eles... estão tentando, mas não fazem ideia. É como se eles fossem crianças agitadas e eu fosse o adulto entediado que esporadicamente diz coisas como 'não corram com tesouras'!"

"Tanto pior! Como você ainda espera que nos juntemos a eles?"

"Com o que eu ensinei a vocês duas nos últimos três anos e com as orientações que eu dei a eles, tenho certeza de que vocês prosperarão juntos. E, quando o momento certo chegar, vocês saberão o que fazer"

Eu encaro o guri magro de idade indefinível diante de mim. Já faz quatro anos que eu o conheço, três anos desde que as visitas periódicas dele a Chiori e a mim começaram, e ele não cresceu um centímetro sequer. O moleque deve estar doente, moribundo até. Deveria estar cuidando da própria saúde ao invés de gastar fortunas conosco.

"Nada pessoal, Rato. Eu até gosto de você e das coisas que você me ensinou, mas por mais que esta vida seja uma porcaria, é a melhor porcaria que eu consegui conquistar. Você precisaria me oferecer mais do que uma incursão suicida no deserto, confiando em um povo que obviamente não confia em ninguém, direto para o esconderijo de pessoas juradas de morte para me convencer a aceitar sua proposta"

Parece que Chiori pensa como eu. "Sem mencionar que a palavra do quase-líder de um bando de rebeldes não representa a melhor das garantias, não é mesmo? Você é só o maluco-mor", eu acrescento.

Eu o vejo levar as mãos ao pescoço e lentamente desafivelar o capacete.

"A melhor porcaria que você conquistou, você disse?"

Ele remove o capacete e abaixa o macacão até os quadris. Eu não sei Chiori, mas eu estou atônita.

"Longe de querer fazer pouco-caso da conquista de vocês, mas... vocês nunca pensaram que pode haver mais... que tem que haver mais para pessoas como nós do que o Conselho e a sociedade nos oferecem? Vocês nunca se perguntaram se é mesmo verdade que tudo que nós podemos fazer é parir?"

A voz dele... digo, a voz dela mudou!

"Caramba, Kanae! O viado é uma mulher!"

"Eu sei que estou fazendo uma proposta ousada e que não há resposta fácil. Eu não posso garantir a vida de vocês... inferno, eu não posso garantir nem a minha própria vida! Contudo, eu ofereço a vocês um papel que não envolve procriação. Eu quero que vocês usem suas mentes, não seus corpos. A escolha é de vocês"

Momento atual

No fundo, Chiori e eu tivemos que escolher entre a certeza da vida de reprodutora ou a incerteza da vida de rebelde. Era exatamente a mesma proposta que Rato nos fez, mas tudo mudou quando a proposta veio de Kyoko. Uma mulher, como nós... não, em situação ainda pior que a nossa, considerando sua identidade e que Maria provavelmente é sua filha... está coordenando um levante.

Seria vergonhoso não nos juntarmos a ela, especialmente quando ela nos encheu de algo que eu suspeito que seja orgulho. Não sei dizer com certeza, já que é a primeira vez que sinto isso.

"Ninguém em Bridge Rock sabe quem eu sou. Não seria seguro, nem para eles, nem para mim. Eu já dei a vocês todas as instruções que vocês precisam: sobre aonde ir, com quem falar, qual mensagem transmitir. O resto é comigo. Assim que minhas articulações no território Tsuruga estiverem concluídas, vamos nos encontrar novamente"

Chiori está animada, é perceptível no caminhar dela. É quase como se ela saltitasse, o que é irritante, mas também estranhamente reconfortante. Talvez eu seja a mais realista das duas, ou talvez ela seja apenas mais transparente quanto ao que estamos sentindo agora: o propósito de viver por um dia como parte de algo maior é incomparavelmente melhor do que passar o resto da vida em conivência com um sistema doentio.

###

Eu fingi que dormia enquanto ele se arrumava para o dia. Não sei se ele acreditou, já que ele me observou por alguns segundos antes de deixar o quarto, mas pelo menos ele partiu sem dizer uma palavra.

Eu não sei como avaliar o que acabou de acontecer entre nós. Eu não esperava... eu não sei o que eu esperava, mas certamente nada parecido com o comportamento dele. Ou com as reações do meu corpo. É quase como se eu ainda pudesse sentir as mãos dele em mim; quase como se o calor dele houvesse se entranhado em meus ossos. Meus ouvidos ainda reverberam as palavras sussurradas, os gemidos roucos e a respiração ofegante e entrecortada.

Eu não pude vê-lo, ainda bem que eu não pude vê-lo. Eu me concentrei em olhar apenas para o rosto dele, nada mais. Ao menos minha visão permanece intacta. E meu paladar. Meus outros sentidos, porém, foram todos dominados. Corrompidos. Descartes estava certo, não se deve confiar nos sentidos.

É como se ele estivesse contaminando cada um dos meus pensamentos. Eu preciso encontrar uma forma de fazer isso parar!

Não tenho motivos para permanecer na cama, então eu procuro e encontro a muda de roupa que ele deixou para mim. Calças. Ele certamente quer me fazer baixar a guarda, é a única explicação razoável.

Ok, hora de coletar informações.

"Ei, você deve ser Kyoko!"

Droga! Eu mal coloquei um pé fora do quarto!

"Mestre Ren me disse para vir cumprimenta-la"

Não reconheço o sujeito. O que ele tem de alto e loiro, tem de tagarela. E sorri excessivamente, também. O que é tão engraçado? Primeiro Ten, agora ele!

"Ah, mas que descortesia a minha! Muito prazer, eu sou Nick! Eu sou o encarregado aqui. Mestre Ren me contou que eu deveria lhe mostrar o lugar"

Sem esperar uma reposta minha, ele simplesmente começou a andar. Não tenho alternativa senão segui-lo.

"Ele comentou algo sobre você ser uma cozinheira, o que é uma surpresa, já que você é a única mulher de quem eu ouvi falar que sabe cozinhar, então... você disse alguma coisa?"

Sim, eu havia acabado de murmurar como seria imprudente da parte dos homens deixar as mulheres perto de facas, mas minha intenção não era ser ouvida por Nick, então eu apenas nego com a cabeça.

"Não? Bem, como eu dizia, será muito bom poder conversar com alguém sobre culinária. Talvez você até consiga fazer o Mestre Ren comer. Sinceramente, eu não sei como ele consegue se manter de pé comendo tão pouco. Ei, você é calada, hein?"

Ele é de verdade?

"Bem, estamos na Ala Leste. Toda a parte privativa do território Tsuruga fica aqui, inclusive os aposentos do Mestre. As procriadoras ficam na Ala Oeste e não são autorizadas a sair de lá em hipótese alguma"

Hein?

"Então, eu suponho que você seja especial!"

Ele vira a cabeça para trás para olhar para mim e me dá uma piscadela.

"A primeira que ele levou ao quarto dele. As outras duas devem estar furiosas, eu lhe digo, o que me faz automaticamente gostar de você. Eu estou escoltando você à área das procriadoras, para garantir que elas não aprontem algo contra você... e... puta merda!"

A cena diante de nós é tão cliché que me dá vontade de rir. Então, eu me lembro da minha vida como Desterrado e a revolta me faz recobrar a seriedade quase imediatamente.

"Eu suponho que este é o meu quarto?"

Nick está transfixado. Eu o conheço há apenas alguns minutos, mas suspeito que deva ser realmente um feito cala-lo. O que eu imagino que fossem roupas, lençóis, colchas e almofadas se transformou em uma pilha de retalhos e enchimentos. Um verdadeiro desperdício, primeiro pela absurda quantidade de artigos destinados a uma só pessoa, segundo pela leviandade de quem tentou destruí-los.

"Sim... quero dizer, não... Não era a intenção do Mestre..."

"Eh? Minha nossa, o que aconteceu aqui? Oh não, oh não, que horror! Quem seria capaz de tamanha maldade?"

Eu não entendi o que Nick quis dizer. Qual não era a intenção do Mestre? Eu me viro e me deparo com uma bela mulher atrás de mim, olhando o interior do quarto com olhos chocados e lacrimosos. Nick se eriçou no instante em que ouviu a voz dela, então ela deve ser uma das procriadoras.

"Ei, você-"

"Oh não, que cruel! Só porque você não gosta de mim, vai me acusar!"

Grossas lágrimas rolam dos olhos dela. É um comportamento tão obviamente encenado e infantil, que é quase nauseante. Seja quem for, parece ter menos maturidade que Maria.

"Eu não estava acusando você! Eu só ia perguntar se você sabe quem fez isso!"

"Oh, verdade?" As lágrimas param imediatamente. "Ora, mas é claro que só pode ter sido Ruriko, aquela invejosa! Passou os últimos dois dias reclamando que a novata ficaria com o maior quarto! E por falar na novata, onde ela está?"

Nick apenas aponta para mim.

"Eh? Eh? Eeeeeeehhhhh? Você é uma mulher?"

Ouch. Ela bate forte para uma "criança".

"Kimiko, tenha modos!"

"Mas Nick, eu não posso evitar! Eu poderia jurar que era um garoto!"

E eu nem estou com os seios amarrados. Maravilha, voltei a ser mulher há algumas horas e já estou insegura com o meu corpo.

"Kimiko!"

Chega a ser constrangedor ver como Nick repreende Kimiko. Quero dizer, os dois devem ter a mesma idade...

"Nossa, você não é muito bonita, não é? Estavam todos falando sobre uma 'beleza singular'! Bem, acho que ficarão decepcionados, não? Afinal, você tem uma aparência tão comum! Todos vão se perguntar o que Ren viu em você"

Sim, sim. Eu também não sei o que ele quer comigo, mas vou descobrir.

"Kimiko, não seja indelicada!"

"Mas Nick, eu sou apenas uma mulher sincera! Não tenho culpa se eu fui criada para dizer somente a verdade!"

"Ah, a velha falácia da grosseria camuflada como sinceridade! Um bom clássico nunca sai de moda"

Por que os dois estão calados e me olhando assim? Espera... eu falei em voz alta?

Agora Nick está gargalhando e o lindo rosto de Kimiko se tornou um esgar de ódio.

"Bem, talvez Ren tenha ficado com pena de você. Eu sei que não parece à primeira vista e que a fama dele é péssima, mas a verdade é que ele tem o coração mole. Sim, você deve ser mais um dos casos de caridade dele. O que houve, você estava passando fome? Nenhum homem quis você? É, eu aposto que não, pobrezinha. Mas não se preocupe, mesmo quando Ren e eu nos casarmos, você não ficará desamparada"

Ela bate com força e revida com mais força ainda. Mas por que as palavras dela estão me afetando tanto?

"Kimiko, Mestre Ren não vai se casar com você"

"Claro que vai! Eu posso estar grávida, sabia?"

Ouch! Por que eu estou desapontada?

"Claro que não! Nada cresceria nessa arapuca que você chama de útero!"

Uma nova voz feminina. Eu registro vagamente que a comoção no corredor atraiu a atenção de outra bela mulher, que só pode ser Ruriko. Minha mente está um caos, agora. Que sensação opressora é esta?

"Ótimo, a megera número dois se juntou ao show de horrores! Vamos aproveitar que as duas estão se digladiando para sair daqui. Mestre Ren cuidará delas depois. Ou não. Com sorte, elas se matarão aqui e agora"

Eu ouço o sussurro de Nick e o sigo por uma sucessão de portas e corredores, mas não consigo prestar atenção às informações que ele está me dando sobre os cômodos que estamos percorrendo. Só sei que há uma dor instalada no meu peito com a qual eu não estou conseguindo lidar.

"Sabe, Kyoko, eu não sei o que é falácia ou clássico ou moda, muito menos onde você aprendeu a falar assim, mas diabos, como você foi fodona lá atrás! E a cara retorcida de Kimiko, pfffffttt, impagável!" Ele está rindo outra vez. "Apenas... tome cuidado com aquelas duas, ok? Elas não ficarão aqui por muito mais tempo, o que significa que elas estão mais desesperadas. Mestre Ren sabe o que faz, e não é por acaso que ele a está mantendo com ele. Aquelas duas são encrenca, eu lhe digo. Especialmente Kimiko. Argh, mas o que eu estou dizendo? Eu não deveria falar assim das procriadoras do Clã. Deve ser porque eu gostei de você!"

Ele está tagarelando. De novo. Contudo, eu parei de escutar quando finalmente compreendi o que Nick quis dizer mais cedo.

"Então, eu suponho que você seja especial! A primeira que ele levou ao quarto dele"

"Sim... quero dizer, não... Não era a intenção do Mestre..."

"Mestre Ren sabe o que faz, e não é por acaso que ele a está mantendo com ele"

Ren está me mantendo no quarto dele para me manter longe de Kimiko e Ruriko. Para me proteger delas? Claro que não: para protege-las de mim! Porque ele sabe que se elas me atacarem fisicamente, eu revidarei fisicamente, e elas são apenas duas mulheres normais, enquanto ele já me viu derrubar três homens Excepcionais.

Eu devo me orgulhar. Sim, é o que eu vou fazer: engolir o choro e me orgulhar. Aliás, eu nem sei por que eu estou chorando. Os Cinco têm razão, eu sempre fui chorona e parece que não melhorei nem um pouco nos últimos anos. Eu seco rapidamente os olhos e respiro aliviada ao perceber que Nick permanece distraidamente falando e caminhando à minha frente. Quando eu recobro a noção de onde estamos, só consigo dizer que é um corredor. Se eu precisasse refazer o caminho que acabamos de percorrer, eu somente não me perderia se usasse minha habilidade.

Finalmente, a cozinha.

"Aqui é onde a mágica acontece! Venha, eu quero lhe mostrar a horta!"

Ele praticamente me puxa para a área externa com a afobação que eu esperaria em uma criança e orgulhosamente me mostra as plantações.

"Não é incrível? Tomate, pimenta, batata, repolho... tudo isso o Mestre Ren se encarregou pessoalmente de cultivar. Veja, berinjelas, espinafre..."

Ele parece ridiculamente feliz.

"Oh sim. Tudo aqui é praticamente erva daninha"

Eu me arrependo no instante em que as palavras deixam a minha boca. Eu não pretendia ser cruel ou fazer pouco-caso do que visivelmente é a fonte de orgulho de Nick. Ele parece ser um bom sujeito, afinal. Contudo, a sensação desagradável de antes está se alastrando e-

"Ora, você é difícil de impressionar, hum?"

Merda, Ren está atrás de mim. Nick sorri e se afasta rapidamente.

"Kyoko, o que houve? Você está com cara de quem esmagou algo importante com o pé"

Eu estou fazendo uma expressão tão dolorosa assim? Eu não sei. Eu não entendo. Há algo comprimindo meu peito e fazendo meus olhos arderem. O rosto de Ren só está fazendo tudo ficar pior. Que raio de expressão preocupada é essa que ele está me mostrando?

"Suas procriadoras arruinaram as minhas roupas. Meu quarto está um caos"

Eu disse a primeira coisa que me veio à cabeça. É claro que eu não estou lamentando algo tão trivial quanto o enxoval que Ren destinou ao meu uso, menos ainda a bagunça feita em um quarto que eu jamais entenderei como meu, mas eu precisava dizer alguma coisa.

Eu vejo um brilho de fúria acender os olhos dele e, no instante seguinte, ele está aninhando minha cabeça no peito dele.

"Não se preocupe, eu lhe darei roupas novas"

Beijo, afago. Oh não, pare com isso.

"Tantas quantas você quiser"

Beijo, afago. Apenas pare!

"E aquele quarto é só uma fachada"

Beijo, afago. Eu não sei lidar com você quando você faz essas coisas!

"Para que elas não espalhem por aí que você vive comigo"

Beijo, afago. Meu coração está...

###

Ela está petrificada em meus braços, mas eu não consigo evitar de abraça-la com força. Eu posso sentir o coração dela galopando e me pergunto se o nervosismo que ela obviamente está sentindo é do tipo bom ou ruim.

Eu passei as últimas duas horas tentando me concentrar no que Yashiro me dizia, porém só conseguia pensar nela: o que ela estaria fazendo, como estaria se sentindo, o que estaria pensando sobre mim, sobre esta manhã, sobre nós.

Não tivemos o melhor dos começos, mas será que eu sou o único que sente uma estranha felicidade quando estamos juntos? Será que eu sou o único que sente que nosso relacionamento está mudando?

Eu poderia passar o dia inteiro assim, com ela em meus braços, meus dedos em seus cabelos e-

GROOOOWWWWLLLLLLL.

"Hm? Uma fera, aqui?"

GROOOOWWWWLLLLLLL.

Espera, o som está vindo de Kyoko? Eu a afasto de mim e olho para ela. Seu rosto é um vermelho intenso. Como ela consegue ser tão adorável?

"Ah, entendo. Sim, você deve estar com fome. Vou deixa-la com Nick, então. Mas depois, você deve descansar"

Oh não, você não vai argumentar contra isso!

"Kyoko, por favor"

Sim, eu entendo sua expressão perplexa; eu também estou perplexo, já que há anos eu não peço 'por favor' a quem quer que seja. Entretanto, desde que uma certa possibilidade se infiltrou em minha mente, eu não consigo descarta-la sem antes testa-la.

"Seus olhos estão tão vermelhos... você mal conseguiu dormir esta noite, não foi?"

Eu traço as profundas olheiras com meus polegares e sorrio quando ouço um suspiro trêmulo.

Sim, meu palpite está certo. Eu estava fazendo tudo errado! Eu pensei que conseguiria domar a rebeldia dela sendo severo e disciplinador, mas tudo que consegui foi cultivar seu ódio e seu rancor. Entretanto, com um pouco de ternura...

"Apenas por algumas horas, está bem? Eu ficarei preocupado se você não descansar. Por favor?"

A contrariedade dela me convenceria, não fosse pelo adorável rubor. E pelo beicinho que eu aposto que ela não sabe que faz. Kyoko finalmente confirma com um gesto de cabeça e eu comemoro intimamente. Sim, carinho é a chave. Eu a agradeço com um sorriso e ela ruboriza um pouco mais. É um pensamento desejoso ou ela está se abrindo um pouco mais para mim?

Horas depois, quarto de Ren

Como eu vou me proteger contra a inusitada habilidade que ele tem? Eu sabia da força e da agilidade, mas... como eu vou chamar o que ele faz comigo? Como nomear a capacidade de Ren em extrair as reações que ele extrai de mim?

(Sex appeal?)

(Feromônios?)

(Macho alfa?)

(E o nome importa? Deveríamos nos concentrar em impedir que ela se torne massa de modelar nas mãos dele!)

(Ou talvez devamos deixar que ela se torne massa de modelar nas mãos dele. Convenhamos, ela precisa urgentemente 'tirar o atraso')

(Natsu, você é uma succubus! Como pode pensar que Kyoko terá alguma chance contra ele? Não viu o caos que ele criou aqui dentro em poucas horas?)

Sim, caos. Eu preciso me concentrar no plano, apenas no plano, e este envolve Ren. Eu preciso descobrir como manipula-lo, mas vergonhosamente só consigo pensar em como evitar que ele manipule a mim!

Que dia inútil. Eu nunca fiquei tanto tempo fazendo nada. Eu praticamente dormi e comi o dia inteiro! Ok, eu ajudei Nick na cozinha e com a arrumação do quarto que eu deveria estar ocupando. Por sorte, não encontrei as "duas víboras", como Nick as chamam. Provavelmente, elas estavam rodeando o macho alfa. Eu também trouxe todos os retalhos para cá, já que eu posso reaproveita-los. Mesmo assim, foram tarefas tão fáceis que eu não consigo me sentir útil por elas.

Onde estão o risco de morte, a fadiga, os músculos extenuados de sempre?

"Isto é uma boneca?"

Divindade protetora das mulheres distraídas, este homem ainda vai me matar de susto! Sem mencionar que eu praticamente costurei meu dedo.

"Ah, deixe-me ver!" Ele pega a minha mão e a examina. Espera um pouco, o que ele está-

"KYYYYAAAAAHHHHHHH!"

Puta merda, puta merda, puta merda! Eu tentei puxar minha mão, mas ele não a soltou. Agora meu dedo está na boca dele. E ele está chupando. E lambendo. E rindo! O filho da puta está rindo, e eu devo estar da cor de um tomate maduro!

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Eu a encontrei distraidamente sentada no chão, costurando furiosamente. Francamente, quantas coisas mais ela sabe fazer?

O jantar hoje estava muito melhor que de costume, portanto eu deduzi que ela ajudou Nick. Quando eu a procurei na cozinha, encontrei-o olhando extasiado pela janela e suportei a torrente de elogios que ele fez a ela assim que me viu.

"Mestre Ren, que maravilha! Experimentou a sopa? O que foi aquilo? Quem diria que um pouco de coentro faria tanta diferença! Ei, ela é especial, não é? Por favor, diga que você vai se casar com ela! Mesmo que ela não engravide, quero dizer, ela sabe limpar! E costurar! E cozinhar! E me ensinou sobre falácia e moda e clássicos e ela conhece umas músicas que eu nunca ouvi na vida! Ela estava cantarolando sobre uma tal de 'Billie Jean', você sabia que antigamente muitos homens não queriam assumir a paternidade das crianças? Por que um homem faria uma coisa dessas? Cara, se uma mulher me dissesse 'toma, o filho é seu', eu ficaria tão feliz que poderia morrer e-"

"Nick, devagar. Billie Jean, você disse? Quem é ela?"

"Eu também não sei! Eu perguntei a Kyoko, mas tudo que ela me respondeu foi 'uma mulher que Michael Jackson não quer assumir como amante, apesar do bebê ter os olhos dele'. Você sabe quem é Michael Jackson? Porque se o cara não quer a criança, eu quero!"

Foi nessa hora que eu percebi que Kyoko fez mais do que desenterrar e ler alguns livros. Somente os antepassados usavam sobrenomes, portanto ela encontrou bem mais do nosso passado do que as informações que o próprio Conselho reuniu. É um pensamento ousado, mas... e se ela encontrou uma Arca? E se ela, sozinha, tem acesso aos dados que os ancestrais se empenharam tanto em preservar para as gerações futuras quando a destruição de boa parte do planeta se tornou iminente?

Minha intenção imediata foi interroga-la, mas assim que a vi envolta em tecidos e concentrada em uma pequena peça, não resisti à vontade de apenas conversar com ela. Apenas... sentar-me ao lado dela no chão e observa-la. De tão concentrada, ela não me notou. Eu não estava tentando ser furtivo, portanto o susto dela foi uma surpresa para mim também. É óbvio que ela está preocupada com algo e eu suponho que tenha a ver comigo. Conosco. Kyoko provavelmente estava preparada para lidar tanto com o Monstro quanto com o Mestre Tsuruga, contudo não sabe como reagir a mim. Como reagir a Ren.

Há sangue brotando do dedo dela e eu ajo sem pensar. Claro, com tanto pano à nossa volta, o mais lógico seria usar qualquer um deles para estancar o sangue, mas eu fiz a primeira coisa que me veio à cabeça. Quando ela tentou recolher a mão, a ideia já me parecia perfeita demais para que eu a deixasse escapar.

O gritinho foi um bônus inesperado e cômico. Eu imaginei que ela usaria a estranha habilidade para tentar me afastar, mas não, ela está bravamente suportando o assalto da minha boca. Kyoko está conscientemente evitando usar sua habilidade? Eu já a vi recorrer ao dom em momentos de medo e susto, então, por que não agora?

Ela está com a cabeça baixa, recusando-se a olhar para mim. Tudo bem. Contanto que ela continue ruborizada até as orelhas e a estremecer a cada vez que eu passar a língua no dedo dela, estarei satisfeito.

A/N – Eu tive que cortar o capítulo aqui porque estava ficando colossalmente grande! (Por que tudo que eu escrevo ultimamente me parece ter duplo sentido? XD)

Nova atualização em breve, provavelmente para suprir os níveis de fluff e lemon que todas nós precisamos e que Nakamura-Sensei teima em nos deixar sem T_T (Por que, sensei? Por que? TT_TT)

Beijos e bom fim de domingo para todas!