CAPÍTULO 15 – PLANOS, SEGREDOS E PRESSÁGIOS

Com a chegada de Kyoko à Mansão Tsuruga, Ren se atrasou pela primeira vez desde que eu o conheço e passou o dia inteiro distraído. Ele disfarçou bem, mas eu não seria o Conselheiro do Clã nem seu melhor amigo se eu não fosse capaz de perceber que ele divagou enquanto eu reportava todos os eventos que necessitavam da atenção do Mestre. Também ficou óbvio, horas mais tarde, que ele foi mais severo que o habitual com as procriadoras porque elas se atreveram a vandalizar o que deveria ser o quarto de Kyoko.

Eu não sei como ele descobriu que as duas agiram em conluio, mas imagino que seja devido à experiência dele como juiz e à sagacidade de suas avaliações precisas. Aliás, é apenas por confiar na habilidade de Ren em analisar linguagem corporal e expressões faciais que eu fico tranquilo em deixa-lo sozinho com Kyoko, agora que ela não cobre mais o rosto.

Uma procriadora vivendo com o Mestre. Eu só ouvi falar de tal coisa com Mestre Hizuri, quando ele acolheu Julie e os dois se casaram poucos dias depois.

Após a segunda noite com Kyoko, Ren novamente se atrasou e eu quis adverti-lo sobre suas obrigações, mas ele estava com uma expressão tão ridiculamente feliz que eu não consegui dizer uma palavra além das necessárias para deixa-lo a par da situação do Clã e dos compromissos do dia.

Dias se passaram antes que Ren retomasse a rotina. Eu imaginei que ele havia finalmente se habituado à nova procriadora e que em breve ele voltaria a ser a pessoa previsível de sempre, até Nick me dizer que foi Kyoko quem passou a expulsar Ren do quarto para que ele não se atrasasse. Aparentemente, Nick transmitiu minhas preocupações a ela, que tomou para si a tarefa de garantir que o Mestre não desse um mau exemplo ao resto do Clã.

Uma procriadora expulsando o Mestre do quarto e dizendo a ele como conduzir o Clã. Estaria o mundo do avesso? Eu entrei em uma realidade paralela? Nem entre Mestre Hizuri e Julie eu ouvi falar de algo assim, e os dois têm uma quota considerável de bizarrices!

Quando eu quis intervir no relacionamento dos dois e alertar Ren sobre o disparate que era permitir que Kyoko o dominasse daquele jeito, eu me dei conta de que semanas haviam se passado e os dois permaneciam dividindo a mesma cama. Kyoko poderia estar grávida, o que explicaria a atitude indulgente de Ren para com ela. Contudo, quando eu fui aborda-lo a este respeito, ele apenas negou com a cabeça e mudou de assunto, dizendo que eu seria informado assim que o herdeiro Tsuruga fosse produzido.

"Assim que". Não "se". A confiança dele me intriga. Bem, eu preciso admitir que aqueles dois fornicam tanto, especialmente desde que Kimiko e Ruriko foram embora, que se até eles não conseguirem produzir um descendente não haverá mesmo continuação para a humanidade.

Novamente, foi Nick quem me explicou a situação. Eu deveria me preocupar com o fato de que o caseiro sabe mais sobre o que se passa com o Mestre do que eu, mas no momento eu só me sinto aliviado por poder contar com alguma fonte de informação, já que Ren transformou Kyoko em um assunto proibido para mim desde que ele sentiu minha intenção de elimina-la quando ela ainda estava sob a proteção do Mestre Lory.

Pelo costume, o Mestre não visita a procriadora em seu quarto enquanto ela estiver menstruada. Entretanto, como Ren inovou ao levar Kyoko para o quarto dele, ela voluntariamente se mudou para o próprio quarto assim que o sangramento começou. Eu preciso admitir que ela tem juízo, embora de nada adiante se Ren perdeu o dele completamente. Segundo o relato de um risonho Nick, Ren derrubou a porta do quarto de Kyoko e a carregou sobre um ombro de volta para o quarto dele, enquanto ela esperneava e se debatia e o chamava de selvagem e de Nean... dertal? Ainda preciso descobrir o que isso significa. Seria fácil se eu pudesse perguntar a ela, mas Ren ainda se inquieta quando eu me aproximo de Kyoko.

Sem as outras duas aqui, Ren a autorizou a vagar livremente pela Mansão, o que resultou em algumas situações bizarras. Uma delas foi Nick casualmente sentado no chão do lado de fora da cozinha após ser expulso de lá porque, aparentemente, Ren achava que Kyoko ficava "irresistível" entre temperos e panelas. "Então, estou aqui esperando os dois terminarem. Pelo barulho, já devem estar acabando". Naquele dia, uma ruborizada Kyoko se desculpou pelo atraso no almoço.

Noutro dia, Kyoko finalmente me dirigiu a palavra. Eu estava verificando os estoques de provisões, quando me deparei com ela encolhida entre caixotes. "Por favor, não diga a ele que eu estou aqui!" Ela tinha olhos tão grandes e ansiosos, que eu concordei sem pensar. Segundos depois, menti pela primeira vez ao meu Mestre ao dizer que não sabia onde Kyoko estava. Acho que ela ficou tão surpresa quanto eu, pois deixou escapar uma exclamação que a denunciou. No segundo seguinte, ela disparava para longe com um sorridente Ren em seu encalço murmurando "venha cá, tentação!", enquanto Nick ria da janela da cozinha e gritava palavras de encorajamento para Ren.

Com o passar dos meses, o clima na Mansão se transformou. Não que fosse ruim antes, apenas não era... convidativo. Após o jantar, Kyoko adquiriu o hábito de se sentar sobre algumas almofadas do salão principal para contar histórias para Nick. Como Ren apenas os observava atentamente, sem esboçar contrariedade, outras pessoas começaram a se juntar aos dois para ouvi-la. Logo havia uma pequena aglomeração de pessoas de todas as idades acompanhando avidamente as histórias que ela contava sobre fadas e duendes, bruxas e magos, árvores e animais falantes, pessoas amaldiçoadas com longos caninos que bebiam sangue humano para sobreviverem e até algumas que se transformavam em bestas durante a lua cheia.

Em pouco tempo, Ren proibiu as histórias de terror. Concluiu sozinho que era ruim para a imagem do Clã que seus homens demonstrassem medo a cada sombra que viam, um bom conselho que eu fui incapaz de dar porque eu queria muito saber como terminava a história da família que se mudou para um hotel mal-assombrado, do pai que estava enlouquecendo e do garotinho que tinha medo das gêmeas de vestido azul.

Aos poucos, as notícias sobre os talentos de Kyoko varreram o território Tsuruga. Os mais céticos riam e desacreditavam os boatos, dizendo ser impossível uma procriadora ter tantas habilidades, mas os mais curiosos formavam uma horda a rodear a Mansão em busca de um vislumbre da mulher que supostamente sabia ler, escrever, calcular, cozinhar, costurar, aconselhar e tinha uma imaginação prodigiosa.

Lógico que eu sempre temi tamanha repercussão. Por mais que tudo faça parte do plano arquitetado por Ren e Mestre Takarada, um Conselheiro tem uma missão muito clara a cumprir e tanto alvoroço agrega complicadores ao meu trabalho. Até mesmo Kyoko já comentou que eu estou estressado, seja lá o que isso significa. Porém, eu não posso ignorar o fato de que Kyoko trouxe um tipo de felicidade a Ren que eu não imaginei ser possível.

Eu o observo constantemente, atentamente. Embora ele permaneça atormentado pelas responsabilidades e pela crueldade do mundo, no instante em que ele se encontra com ela, é como se pesadas nuvens se dissipassem. Em contrapartida, que ninguém diga que o Monstro Tsuruga perdeu as garras, já que ele se tornou mais implacável desde que os criminosos imaginaram que ele havia amolecido e se atreveram a se infiltrar em seu território. Parece que, agora que ele tem Kyoko em sua vida, Ren está determinado a limpar o mundo com as próprias mãos, um assassino ou estuprador por vez.

Em seu devido tempo, os boatos sobre a misteriosa nova procriadora do Clã Tsuruga chegaram ao Conselho e aos outros Mestres. Como previsto e desejado por Mestre Lory e Ren, uma pequena comitiva vinda do território Fuwa solicitou abrigo e audiência ao Mestre do território Tsuruga. Era chegada a hora do passo dois do plano e eu celebrava intimamente que tudo estivesse correndo conforme as expectativas.

Uma pena que não consideramos a possibilidade de Kyoko estar escondendo uma habilidade excepcional.

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Em um segundo, eu estou no paraíso: Kyoko está aninhada em meus braços, gloriosamente nua e relaxada, traçando as linhas imaginárias de sempre em meu peito e murmurando alguma outra canção que eu não conheço.

Não é fácil extrair dela qualquer informação, especialmente porque eu nunca consegui fazer mais do que apenas perguntar. Não quero ser "Ren, o juiz" com ela, porque não quero que ela se sinta interrogada, coagida ou pressionada a me responder. Pelo mesmo motivo, também não quero ser "Mestre Tsuruga" com ela. Sim, eu quero que ela me conte tudo, mas porque confia em mim.

Eu me preocupo tanto com Kyoko que é ridículo. Não sei se ela sabe quanto poder tem sobre mim. Eu já me perguntei o que eu não faria por ela, e quando minha mente ficou vazia eu entendi porque Yashiro teme sua mera existência.

Tudo que ela me disse sobre o seu passado e o seu conhecimento foi que ela encontrou muita coisa. Dos sítios de escavação A ao E, ela desenterrou relíquias de todos os tipos e as revendeu a todos os Mestres, sem exceção, para não levantar suspeitas sobre o Escavador 47. Manobra inteligente. Contudo, antes de vende-las ela sempre se permitiu desfrutar por algum tempo do que encontrava, daí o seu vasto conhecimento.

Eu percebi que ela falou a verdade, mas também percebi que ela ocultou informações. Tudo bem, eu fico satisfeito em vencer a guerra uma batalha por vez. No seu devido tempo, ela irá confiar completamente em mim, e aí ela me dirá tudo que vem escondendo.

O Conselho nunca suspeitou que alguém estivesse estudando as relíquias, afinal, os Escavadores são mantidos na mais completa ignorância justamente para que nunca caiam na tentação de se apropriarem dos itens que devolvem para a superfície. Sem saberem quais tesouros estão desenterrando, são facilmente manipuláveis. Os nobres sequer imaginam que boa parte do que eles vieram a saber nos últimos seis anos passou antes por uma única pessoa. Aliás, agora eu compreendo porque os últimos cinco anos foram os mais profícuos em descobertas desde que os novos sítios foram delimitados: Kyoko era quem estava localizando boa parte das relíquias mais importantes.

A questão é: como? Seria ela como Lory? Teria ela, também, o que ele chama de "intuição aguçada"? Eu nunca consegui perguntar. De alguma forma, perguntar "ei, qual é a sua habilidade, exatamente?" parece mais invasivo que perguntar "ei, você está ovulando agora?". Ao menos foi isso o que Kyoko disse que tal pergunta era quando eu a fiz: invasiva. Como se esta não fosse uma pergunta padrão...

Quando eu penso que todo o conhecimento que ela diluiu pelos seis territórios se concentra nela, e que todos os Mestres se orgulham por tolamente acreditarem que o monopolizam, eu tenho vontade de rir. O Conselho nem imagina que foi superado em astúcia por uma mulher miúda de 20 anos considerada morta. Se não fosse tão perigoso para ela, eu adoraria ver a cara que eles fariam caso descobrissem.

Eu fecho os olhos e desfruto o momento: o calor e o contato pele a pele, a carícia suave em meu peito, o cheiro de Kyoko e de sexo e o melodioso som de seu cantarolar e penso que nada pode ser melhor do que aquilo, até que sou ruidosamente interrompido por Nick batendo à porta e praticamente gritando a desagradável – apesar de aguardada – notícia de que uma comitiva Fuwa acaba de chegar e que Sho solicita uma audiência comigo.

Neste mundo, basta um segundo para se ir do paraíso ao inferno. Ela tentou saltar da cama, mas meus braços a impediram. Eu tento acalma-la repetindo palavras de conforto e garantias de que está tudo bem, mas ela parece incapaz de se tranquilizar. Ela está tremendo tanto, que eu me visualizo arrancando a cabeça de Sho com minhas próprias mãos. Talvez isso a faça feliz. Certamente me faria feliz.

Eu decido que é melhor descobrir de uma vez se os Fuwa realmente morderam a isca que tão cuidadosamente elaboramos. Quanto mais cedo esta etapa do plano estiver concluída, mais cedo eu retornarei para Kyoko e poderei acalma-la adequadamente. Contudo, desta vez é ela quem não me deixa sair da cama.

"Kyoko, eu preciso-"

"Não, não vá! Fique aqui!" Ela está tão assustada que eu me visualizo dando uma surra em Sho antes de arrancar a cabeça dele com minhas próprias mãos.

"Oh? Será possível que você está preocupada comigo?" Eu destino a ela um sorriso arrogante que sempre a deixa irritada. Talvez, provocando-a, ela substitua o medo pela raiva. Eu nunca fico bem quando ela está abatida. Kyoko e abatimento simplesmente não combinam. "Será possível que você está começando a gostar de mim?"

"G-gostar de você? Quem, e-eu? Tsk, não seja ridículo!"

Agora sim, esta é a minha combinação favorita: ruborizada e indignada. "Não é isso? Bem, então... será que você já está com saudade de mim?"

"N-não! O que há com você, hoje?"

"Comigo? É você quem está se pendurando no meu braço e me impedindo de sair do quarto!" Ela faz uma expressão tão surpresa que eu quase rio. "O normal não é você me expulsar daqui dizendo que eu preciso ser mais responsável com minhas obrigações?"

"S-sim, mas... Mas..." Ela parece debater algo furiosamente consigo mesma. As mãos que seguram meu braço afrouxam e deslizam por ele, mas ainda o apertam vez ou outra. Ela sabe que precisa me soltar, mas ela não quer fazê-lo. Por fim, ela segura minha mão e levanta os olhos marejados para mim. "Eu sinto que algo terrível vai acontecer!"

A voz dela é apenas um sussurro assustado. Eu seguro o rosto dela com as duas mãos e seco as lágrimas que escorrem com meus polegares, enquanto me visualizo atirando o corpo inerte de Sho para as piranhas do rio devorarem.

"Nada vai acontecer, Kyoko. Você ficará aqui, em segurança. Tome um banho, costure uma nova boneca para Maria, sei lá, apenas pare de pensar que existe qualquer ameaça, porque não existe. Os visitantes ficarão na Ala Oeste, bem longe de você, e eles sabem bem que transitar pela ala privativa sem autorização é uma grave transgressão" Inferno, eu estou praticamente implorando a qualquer divindade que Sho seja estúpido ao ponto de transgredir em meu território. Tudo que eu queria agora era um mísero pretexto! "Portanto, o pior que pode acontecer é você ter que passar os próximos três dias, no máximo, limitada à Ala Leste, o que não seria um inconveniente tão grande assim, já que é onde estão os seus lugares favoritos, não é mesmo?"

Surpresa demais por descobrir que eu conheço as preferências dela, Kyoko finalmente para de chorar. Mais uma vez eu cedo à tentação de provoca-la.

"O jardim, a horta, a cozinha, a biblioteca, tudo permanecerá acessível a você. Até mesmo o estoque de provisões, onde nós-"

"Ok!"

"-gostamos de nos encontrar de vez em quando para-"

"Certo!"

"-fugir do mundo por alguns-"

"Ok!"

"-minutos sobre aquela pilha de caixotes em que eu debruço você e-"

"EU JÁ ENTENDI!"

Ela está vermelha e agitada e eu não resisto à vontade de beija-la. Quando nos separamos, ela está sem fôlego e desorientada o suficiente para me deixar ir sem me segurar outra vez. O meu ato de me vestir a faz lembrar a própria nudez e eu rio quando ela apressadamente se enrola nos lençóis. Como se ainda houvesse um centímetro do corpo dela que eu não conhecesse...

"Quando eu retornar, retomaremos de onde paramos"

É uma promessa.

"Volte logo!"

Ela está amedrontada de novo, mas eu finjo que não percebi.

"Oh, então você está realmente gostando um pouco de mim!"

"O q-quê? Não! E que expressão convencida é essa?"

"Certo, certo. Continue negando para si mesma, tanto faz. Mas quando eu voltar, você ficará rouca de tanto gritar o meu nome!". Eu dirijo a ela o olhar que sempre a deixa trêmula e saio do quarto, fechando a porta com mais força do que o necessário.

Hora de pôr em ação a parte mais crucial do plano.

A/N – Se você está sentindo falta do ponto de vista da Kyoko, ótimo, estou omitindo os pensamentos dela de propósito já há alguns capítulos! XD

Às maravilhosas pessoas que tanto me encorajam a colocar esta fic para fora apesar do eventual desconforto da tendinite, meus sinceros e profundos agradecimentos. Vocês iluminam meu dia!