Aviso: violência à frente.

CAPÍTULO 17 – O ENORME SORRISO ARROGANTE DE SHO

Ren retornou, três dias depois, sem qualquer indício do paradeiro de Kyoko. É chocante quão invisível um Escavador consegue ser. Parece que ninguém consegue (ou quer) ver uma figura anônima e sem rosto que passa os dias revirando a terra e vasculhando escombros. Nem mesmo outros Desterrados.

Se eu pudesse escolher, jamais teria contado a Ren o que eu presenciei na fatídica noite em que ele e Sho conversaram. Eu fui e continuo sendo da firme opinião de que ele não precisava conhecer os detalhes, mas ele estava convicto de que saber como havia acontecido o ajudaria a formular um plano de ação.

Então, eu contei a ele sobre os sons que me atraíram para o quarto. Sobre como ela chorava copiosamente e balbuciava palavras desconexas. Sobre como meu primeiro pensamento foi de que ela estava sob o efeito de alguma droga ou veneno e que quando eu toquei nela para examina-la, tudo ficou escuro. Depois, na escuridão, eu ouvi vozes que sussurravam, até finalmente compreender que os sussurros reproduziam o que só poderia ser a conversa que estava ocorrendo no escritório. Por fim, os sussurros pararam e a escuridão de outrora se iluminou por dezenas, centenas, milhares de pontos brancos, e que quando eu fui arremessado, fiquei distante o suficiente para perceber que os pontos brancos eram olhos. Órbitas vazias dentro das sombras. Sombras que saíam de Kyoko. Sombras que tinham a forma de Kyoko e os mesmos olhos vazios que ela dirigiu a mim antes que eu perdesse a consciência.

Para minha surpresa, Ren acreditou imediatamente no que eu dizia. Como eu, ele lamentava não saber que ela tinha tal habilidade. Lamentava não havê-la interrogado para descobrir tudo que ela escondia. Lamentava ter cedido aos próprios desejos sobre como trata-la, já que ela não ficaria tão devastada se ele tivesse agido o tempo todo como um bastardo frio e sem coração. Lamentava, alternativamente, não ter contado tudo a ela. Como eu, Ren sabia que lamentar não mudaria coisa alguma.

Ele demonstrou algum alívio quando eu lhe contei sobre as mensagens que eu enviei a Rick e a Lory assim que ele partiu em busca de Kyoko. O irmão chegou no dia seguinte, acompanhado por Tina, já que eu deixei claro na mensagem que ele seria necessário por um período indeterminado de tempo. Lory, por sua vez, respondeu minha mensagem informando que incumbiu Ruto de procurar Kyoko, e talvez esta tenha sido a notícia que mais animou Ren, já que Ruto é um excelente rastreador.

O alívio dele, contudo, durou pouco tempo. Primeiro, houve o desprazer de precisar praticamente expulsar Sho e sua comitiva do território Tsuruga, já que o moleque parecia disposto a consumir todo o estoque do Clã e ainda exigia ver Kyoko antes de partir. Eu temi que Ren perderia o controle, então eu precisei intervir para que os ânimos não se exaltassem e usei minha habilidade: eu sutilmente sugeri a Sho que seria mais inteligente da parte dele desistir daquela ideia, já que o ver agora poderia abalar Kyoko e comprometer o delicado plano. Felizmente, minha sugestão funcionou e nenhum sangue foi derramado. Ainda.

Depois, a ausência de Kyoko se fez sentir na Mansão da pior forma possível. Os risos e os sorrisos se foram. O Mestre se encaixava perfeitamente na descrição de um zumbi feita por ela em uma de suas histórias mirabolantes. Os mais próximos, que viviam na Mansão e se acostumaram (e afeiçoaram) a ela, foram instruídos a agir normalmente, e como o impacto do desaparecimento de Kyoko foi gradual, aos demais pareceu que a novidade simplesmente perdia a força.

Nick, contudo, foi o mais afetado depois de Ren. Eu passei a chama-lo, em minha cabeça, de Zumbi nº 2.

Com o passar dos dias, veio o aniversário de Maria. Na festa organizada por Lory, a expectativa de Ren era palpável, já que ele olhava ao redor como se procurasse algum sinal de Kyoko. Como se houvesse a mínima possibilidade de que ela fosse aparecer a qualquer minuto.

No lugar de Kyoko, quem apareceu foi Ruto, retornando de sua busca. No lugar da própria, ele trazia consigo uma boneca, ou melhor, uma réplica perfeita do Escavador 47. A maior surpresa para mim não foi o fato de que Ren conseguiu reconhecer o boneco como o trabalho inacabado de Kyoko, já que há muito tempo eu me conformei com o fato de que Ren passava tempo demais apenas observando Kyoko e tudo que ela fazia. Também não foi o fato de que ela tenha se lembrado de levar o brinquedo consigo quando fugiu, já que há muito tempo eu me conformei com o fato de que eu não consigo entender como a cabeça dela funciona.

Não me surpreendeu que ela soubesse tão bem que estava sendo procurada, que deixou o brinquedo para Ruto encontrar no final da trilha que ela montou especialmente com a finalidade de fazer o presente de aniversário chegar até a filha, já que há muito tempo eu percebi que aquela mulher é uma sobrevivente, e das mais duronas. Menos ainda, o fato de que Ren exibia a complexa combinação entre olhos angustiados e um sorriso aliviado enquanto observava o boneco, já que ao menos agora ele tinha um indício indiscutível de que Kyoko estava viva, e bem o suficiente para despistar a ele e a Ruto como se zombasse dos dois.

Não, nada disso me surpreendeu de verdade. O que me chocou naquela noite foi que Maria, vendo a reação de Ren ao examinar o boneco, puxou-o para baixo para abraça-lo e cochichou em seu ouvido: "pode ficar com ele até a mamãe voltar".

Somente Ren ouviu. Eu fiquei sabendo apenas porque ele me confidenciou depois.

No dia seguinte, ele comemorou o aniversário de Kyoko trancando-se em seus aposentos. Dias depois, Nick me disse que estava preocupado com a sanidade de Ren, já que ele o flagrou falando sozinho algumas vezes. De início, ele pensou que o Mestre estivesse imitando o cantarolar de Kyoko por sentir falta dela; depois, pensou que ele estivesse apenas muito cansado e precisasse repetir em voz alta os compromissos e o que estava pensando para não se esquecer. De qualquer forma, começamos a observa-lo mais atentamente e percebemos que Ren estava, de fato, balbuciando incoerências.

Kyoko precisa aparecer, e rápido. Antes que o estrago em Ren se torne irreversível. Se eu costumava temer a existência dela, agora eu temo como ele ficará sem ela. Além do mais, é melhor lidar com um Mestre que não se concentra no que eu digo porque está feliz, do que lidar com um Mestre que não se concentra no que eu digo porque está sofrendo.

Rick, fazendo as vezes de Mestre interino, foi de enorme ajuda nos meses que se seguiram. Ren sumia por dias a fio procurando Kyoko, o que somente era possível porque ele era constantemente acobertado por Rick, Kuu e Lory. Até que, finalmente, Ren ficou semanas perambulando sem dar notícias, o que deixou a situação insustentável e obrigou Kuu e Lory a adotarem a drástica medida de ameaça-lo com a perda do território. Afinal, o território Tsuruga não passa de cessões dos territórios Takarada e Hizuri.

Encurralado, Ren não teve alternativa senão retornar ao território Tsuruga, aos seus afazeres como Mestre e ao plano que, segundo Lory, ainda não estava perdido. Enquanto os Fuwas não soubessem do desaparecimento de Kyoko, tudo estaria bem, era o que o Mestre Takarada nos dizia e no que nós nos esforçávamos para acreditar, apesar do medo constante de que também isso desse errado.

Afinal, ultimamente parece haver uma nuvem escura pairando sobre a Mansão Tsuruga. Era menos ruim antes, quando não sabíamos quão acolhedor este lugar poderia ser. Até eu sou obrigado a admitir que Kyoko faz falta, apesar de concordar intimamente com Ren toda vez que ele ternamente se refere a ela como "encrenqueira". Sim, os problemas a acompanham aonde quer que ela vá, mas de alguma forma ela me faz repensar se a mera sobrevivência justifica as atrocidades que cometemos diariamente em nome dela.

Ou, como Nick tão bem explicou outro dia, Kyoko é o tipo de problema com o qual vale a pena ter que lidar, se for para ter de volta a alegria que este lugar perdeu.

Sob uma nuvem escura, vivíamos à espera da nova péssima notícia, daí a surpresa quando a sorte finalmente nos sorriu. A alguns meses para terminar o prazo de Kyoko como procriadora de Ren, uma visita inesperada nos trouxe notícias mais inesperadas ainda.

Mestre Fuwa estava morto.

###

Quando Sawara apareceu em minha porta, eu não imaginava ouvir que ele havia substituído o Conselheiro Uesugui. Bem, o homem mais velho do mundo precisaria ser substituído mais cedo ou mais tarde, mas que algo assim tivesse acontecido e eu só ficasse sabendo semanas depois, realmente me mostrou quão irresponsável eu estava sendo com minhas obrigações como Mestre.

Kyoko ficaria brava comigo.

Eu gostava das decisões austeras de Uesugui, mas apenas porque elas eram sempre austeras. Não havia surpresas, com ele. Sawara administrava o Centro Love Me de Reprodução Humana do território Takarada, logo, ele é mais um aliado no Conselho. Nada mal, Lory! Pelo visto, eu ainda tenho muito o que aprender: enquanto os meus olhos se voltavam para a Cidade Baixa, o deserto e as Terras Ermas, Lory articulava na Cidade Central e substituía um provável opositor por alguém que lhe devia favores. Nada mal, mesmo.

"Mestre Fuwa foi assassinado. A família solicitou você como juiz. Eu sou favorável ao pedido, a menos que você me diga que não conseguirá ser imparcial nas investigações e no julgamento do caso. E então, o que vai ser?"

"Eu aceito"

Eu estava atordoado quando respondi, mas se Sawara percebeu, não demonstrou.

Não deixa de ser uma ironia que eu somente pise em território Fuwa quando um crime acontece dentro do palácio. A única diferença, desta vez, é que Sawara acompanhou as investigações. Afinal, quando se trata de um crime contra o Mestre, o juiz é sempre acompanhado por um membro do Conselho.

Assim que eu cheguei ao território Fuwa, Sho disfarçou o alívio ao me ver com um enorme sorriso arrogante. Foi a primeira vez que algo assim aconteceu. Geralmente, as pessoas começam a tremer quando descobrem que eu sou o juiz designado para o caso. Bem, ao menos esta parte do plano funcionou corretamente: Sho identificava em mim um aliado. Alguém tão podre quanto ele, a quem ele poderia se gabar de detalhes sórdidos e incriminadores o suficiente para arrastar tanto a ele quanto ao pai para uma condenação sumária. No entanto, o pai já estava morto, o que só deixava um verme para eu esmagar.

No plano original, Kyoko seria a isca perfeita tanto para atrair os Fuwas quanto para deixá-los atordoados e inquietos o bastante para se tornarem descuidados. Em meio ao caos, eu surgiria como um companheiro de infortúnios para Sho e um aliado necessário para o Mestre Fuwa, alguém com quem ambos só obteriam vantagens em se associar.

A ideia era manipular um contra o outro, tarefa simples considerando que eles se odiavam. Melhor ainda, eu teria condições de recolher evidências suficientes das várias transgressões que os dois sem dúvidas cometeram e que não necessariamente teriam relação com Kyoko. O importante era destruir os dois, não a justificativa que eu daria ao mundo por tê-lo feito.

O plano não saiu exatamente como arquitetado, mas que se foda, o Mestre estava morto e Sho não via a hora de assumir a vaga deixada pelo pai assim que as investigações terminassem. Ele estava tão ansioso para isso e tão confiante de que eu seria, mais uma vez, um mero fantoche para os Fuwas, que se tornou descuidado.

Praticamente a mesma farsa de sete anos atrás, quando eu investiguei o desaparecimento de Kyoko, esperava por mim: as expressões dissimuladas de pessoas que fingiam lamentar os acontecimentos, os álibis conflitantes e as respostas vagas. A única diferença foi que, sem o Mestre Fuwa, ninguém pensou em empurrar a culpa para outra pessoa. Ou Sho nunca se preocupou em aprender com o pai que até o mais negligente dos juízes precisa dar uma resposta ao Conselho, mais ainda quando se trata do assassinato de um Mestre; ou ele estava tão confiante de que o jogo estava ganho quando me solicitou como juiz, que não pensou ser necessário encontrar um bode expiatório.

Ao menos o finado sabia algo sobre política, e se ele se recusava a se aposentar, desconfio que era porque não queria estar vivo para ver o filho destruir o legado dele em poucos meses de farras.

A investigação da cena do crime foi enfadonha de tão rápida. Confesso que eu esperava mais, a julgar pelo ódio que o defunto em questão conseguiu cultivar em tantas pessoas, inclusive em mim. Pelo menos, mais do que uma simples facada nas costas, enquanto o maldito trabalhava em seu escritório. Meus olhos percorreram faca, Fuwa, mesa. Levantando-o, vi que ele trabalhava em algumas anotações. Um pouco de contabilidade, uma mensagem sobre alguns problemas com Desterrados, nada que me chamasse a atenção. Até que, sob todos os papéis, eu vi meu nome em uma missiva.

Mestre Fuwa havia escrito uma carta para mim. Uma que ele não teve a oportunidade de encaminhar, mas que era importante o bastante para configurar o motivo do crime: mais uma vez, Mestre Fuwa usava sua autoridade de pai para substituir Sho na fila por uma procriadora.

Mestre Fuwa queria Kyoko. O maldito tinha sorte por já estar morto.

Enquanto eu mostrava a carta a Sawara para que ele tirasse as próprias conclusões, um homem à porta atraiu minha atenção. Eu me lembrava do estoico cozinheiro que foi o mentor de Kyoko, portanto o fato de que ele me procurava só poderia significar que ele tinha valiosas informações a me dar. Não me decepcionei.

"Eu estava descansando no jardim, tomando chá. Eu vi tudo por aquela janela. Foi o filho. O próprio filho o matou"

Eu apenas ergui uma sobrancelha para Sawara para receber a resposta que eu precisava: "é o suficiente para mim. Vamos logo com isso, eu ainda quero jantar com minha esposa e filha esta noite".

Eu dispensei Taisho com um agradecimento e parti em busca de Sho. Encontrei-o bolinando Shoko. Não fiz caso nem do olhar saudoso que ela me destinou, nem do olhar contrariado que recebi de Sho. Eu o fiz caminhar comigo pelo palácio Fuwa enquanto o incitava a permanecer falando sobre como era bom ter se livrado do incômodo do pai, apesar de todo o inconveniente da investigação.

Sho somente percebeu que nossos passos nos levaram ao quarto que era de Kyoko, quando chegamos. Ele olhou ao redor com desdém antes de me contar que levava as procriadoras para lá para foder, de vez em quando. "Há algo excitante neste quarto". Depois, com um enorme sorriso arrogante, ele me perguntou se eu havia ensinado a ela sobre como satisfazer um homem, ou se ele teria que fazer isso.

Eu o ataquei de surpresa, um ataque tão covarde quanto o dele foi ao se lançar sobre Kyoko enquanto ela dormia.

"Você nunca mais vai feri-la".

Eu o imobilizei no chão, porque foi isso que ele fez com ela.

"Seus olhos nunca mais vão vê-la. Suas mãos imundas não vão toca-la outra vez".

Ele se debatia, gritava e xingava, mas eu apenas o observava de cima, impassível, deixando-o absorver quão fraco e impotente ele era diante da minha força física. Eu quis que ele sentisse o desespero que ela sentiu.

"Sua boca não vai mais profanar o nome dela".

Eu saquei minha faca de caça e fiz com que ele desse uma boa olhada nela, para sentir o terror de antecipar algo penetrando seu corpo contra a sua vontade.

"Ela não terá mais medo de você. Você não terá mais qualquer poder sobre ela".

E por ele estar aterrorizado o suficiente, eu fiz um enorme sorriso arrogante na garganta dele.