CAPÍTULO 18 – XEQUE-MATE
"Você realmente sabe como dar um recado, meu rapaz!"
Foi mais ou menos a mesma coisa que eu ouvi de Lory, Yashiro e Rick. Os três perceberam que eu não queria apenas matar Sho: eu precisava, também, deixar claro a Kyoko que eu fiz aquilo por ela. Não havia outra maneira de contata-la. Às outras pessoas, os detalhes não ficaram claros, já que o mundo pensa que Kyoko morreu à beira do rio sete anos atrás após ter sido abduzida e estuprada por um Desterrado. Contudo, se ela souber onde e como eu o matei, saberá que eu fiz tudo por ela. Pelo menos, assim eu espero.
Eu também espero que isso a faça perceber que eu nunca tive aliança alguma com os Fuwas, e que tudo que ela ouviu ano passado foi apenas dissimulação. Eu espero, sobretudo, que isso a faça voltar.
"Uma declaração de amor em vermelho", foi como Lory batizou meu último trabalho. É um sinal dos tempos que meu gesto de abrir a garganta do filho da puta que estuprou minha garota sete anos atrás seja considerado romântico. Bem, por mais que o nome seja extravagante, não consigo deixar de pensar que é a definição mais acurada que ele conseguiu dar a alguma coisa. Se nem isso trouxer Kyoko de volta, eu não saberei mais o que fazer além de espera-la voltar. Ao menos foi esta a esperança que Maria me deu quando me emprestou o boneco que Kyoko fez.
"Pode ficar com ele até a mamãe voltar!". Relembrar as palavras de Maria me traz algum conforto. Sim, Kyoko procurará a filha mais cedo ou mais tarde, e quando isso acontecer, eu não a deixarei partir novamente.
"Eu sinto a sua falta"
Mais uma vez, estou falando para um boneco. Ninguém sabe que eu o carrego por aí, afinal, basta que Yashiro e Nick pensem que eu enlouqueci por falar sozinho. Não preciso incluir "carrega um boneco consigo como se fosse uma criança" à lista de preocupações deles comigo.
"A Cidade Alta virou um pandemônio e o Conselho está puto comigo. Bem, não todo o Conselho, porque pelo menos Lory e Sawara estão a meu favor; no entanto, eu preciso concordar que é no mínimo inconveniente para eles que eu tenha criado um segundo problema quando me enviaram para resolver o primeiro"
Eu não enlouqueci: eu estou apenas torcendo para que ela me escute, como me escutou naquela maldita noite em que ela partiu.
"Você já sabe, certo? Pai e filho estão mortos. Você já pode sair de onde quer que você esteja se escondendo. Por favor. Se eu me lembro bem, você me deve mais um ano como minha procriadora"
Às vezes eu tento força-la a aparecer dizendo coisas que eu sei que a irritariam. Eu a quero de volta, nem que seja para brigar comigo.
"Você não sente a minha falta nem um pouco? Nem mesmo das coisas que eu fazia com o seu corpo?"
Pensando bem, eu devo mesmo estar ficando louco. Mas talvez, talvez haja alguma pequena sombra me espreitando, e se eu puder me aproveitar deste fato para convence-la a voltar, é o que eu farei.
"Kyoko, o que mais você quer que eu diga? Quantas vezes mais eu precisarei repetir que você só ouviu mentiras naquela conversa? Foi tudo um plano! Um maldito plano para fazer os Fuwas confiarem em mim, nada além disso!"
Somente o silêncio me responde. O boneco em minhas mãos é tão inexpressivo que me deixa inquieto, da mesma maneira que não conseguir ver o rosto de Kyoko sob o capacete me inquietava.
Pelo visto, não será hoje que ela vai voltar. Amanhã eu tentarei novamente. E amanhã, e amanhã...
Dias depois...
"Lina está grávida, sabia? Lory está tão ridiculamente feliz que chega a ser constrangedor. A propósito, ele nunca conseguiu fazer Maria chama-lo de vovô. Ela também não chama Kouki de papai nem Lina de mamãe. A pequena é tão voluntariosa quanto você. Vai deixar algum pobre coitado louco algum dia, tenho certeza. Kyoko, o que faremos sem você? Maria está esperando você voltar. Eu estou esperando você voltar. Até Nick está esperando você voltar! Você se surpreenderia com o estado dele agora, falando umas mil palavras a menos do que costumava falar por dia. Eu não devia sentir ciúmes do relacionamento de vocês, porque... bem, imagino que você saiba. Sim, faz sentido que ele tenha contado para você, afinal, isso explicaria por que você ficava tão à vontade com ele. Eu sei que ele não tem qualquer interesse físico em você, mas mesmo assim, ver com que facilidade ele a fazia sorrir sempre me deixava enciumado. Eu só era muito bom em disfarçar..."
Yashiro veio me avisar que está tudo pronto para a nossa partida, então eu interrompo meu "relatório" para me despedir da Kyoko imaginária com a qual eu converso diariamente. É chegado o momento de recepcionar o novo Mestre Fuwa.
Como se tornou meu hábito, eu faço todo o trajeto reparando nas pessoas de mesma estatura que ela. Por mais improvável que seja encontrá-la perambulando pelo território Fuwa, toda chance que eu tenho de procura-la é aproveitada.
Demoramos mais tempo para chegar ao palácio por conta do intenso fluxo de pessoas que surgiram repentinamente. Ao contrário de mim, parece que Reino é popular e atraiu uma verdadeira multidão. Há uma festa acontecendo fora dos muros do palácio, o que me faz refletir que talvez não seja só a popularidade do novo Mestre que esteja provocando tamanha comoção: sem dúvidas, a impopularidade dos falecidos está contribuindo para a alegria geral.
Assim que eu entro no salão principal, contudo, a energia é completamente diferente. Um silêncio agourento que só é interrompido pelos festejos externos e pelos murmúrios contrariados dos convidados oficiais se instalou. Eu reconheço vários rostos, dentre Chefes de Guildas, Mestres de Clãs e Membros do Conselho. Há muitos outros que eu não reconheço, mas deduzo que sejam convidados de Reino. Procurando-o com os olhos, localizo-o facilmente, afinal, ele parece ser o epicentro da incredulidade que eu identifico em algumas pessoas e da indignação de outras.
Eu absorvo a imagem dele com certa perplexidade. Faz tanto tempo que eu não o via, que acabei me esquecendo de quão parecido ele é com Julie. A versão masculina dela, eu diria.
Eu ouço alguns comentários revoltados, outros jocosos. "Disparate", "absurdo" e "louco" são as palavras mais frequentes. Yashiro parece tão perdido quanto eu, mas enquanto eu estou ocupado analisando a linguagem corporal dos presentes, ele está se inteirando da situação com as pessoas ao nosso redor.
O que eu consigo identificar é que o salão está dividido entre os "membros obrigatórios" da celebração e os convidados de Reino. Estes estão visivelmente preparados para um confronto, caso se faça necessário, o que me intriga. Por que haveria pessoas preparadas para proteger Reino, se esta é a comemoração dele?
"Ren, eu acho melhor irmos embora"
"Como assim, Yashiro? Nós acabamos de chegar!"
"..."
"Yashiro?"
"..."
"Fala logo que merda está acontecendo!"
Não sei por que meu Conselheiro faz isso. Ele já deveria saber que me deixar no escuro só serve para me irritar e me fazer ter mais vontade de descobrir o que ele tanto tenta esconder.
"...Reino acabou de anunciar suas duas primeiras medidas como Mestre. Um tanto impopulares entre os nobres, eu diria"
Ele se cala e eu quase consigo sentir o gosto da inquietação dele.
"Desembucha, homem!"
"...A primeira é a criação de uma Guilda de Escavadores"
Oh, entendo. Uma Guilda significa direitos, coisa que os nobres não querem que os Desterrados tenham. E logo uma de Escavadores! Kyoko ficaria feliz. Por que eu não tive essa ideia? Talvez venha daí a reticência de Yashiro em me contar o que está acontecendo.
"E a segunda é que ele acabou de conceder terras para outra pessoa"
Surpreendente! Agora eu compreendo a comoção que estamos presenciando. Conceder terras é o primeiro passo para a criação de um novo território. Assim como eu recebi terras de Lory e de Kuu e me tornei Mestre delas após provar minha capacidade em administra-las, Reino está fracionando o próprio território para que, eventualmente, um novo Mestre surja.
Os Mestres e os Membros do Conselho presentes estão tão indignados quanto estiveram quando o mesmo aconteceu comigo. Não, eles estão ainda mais. Eu só não compreendo por que Yashiro está tão abalado.
"Quanto da propriedade Fuwa ele fracionou?"
"..."
"Yashiro?"
"...Ele não fracionou"
"O quê?"
"Ele não fracionou. Ele deu tudo para ela"
Ela? Oh não.
"À exceção do palácio, onde ele vai morar, todo o resto... tudo foi concedido para-"
"Kyoko"
Eu pronuncio o nome assim que a figura dela se torna visível na multidão, conjurada pela mão estendida de Reino. Imediatamente, os murmúrios cessam. Eu posso compreender a perplexidade geral, afinal, a mera ideia de uma mulher ocupando a posição mais alta que existe já seria suficiente para causar abalos na estrutura social. O que está acontecendo, contudo, vai muito além. Simplesmente não há escala que mesure o tamanho do rasgo no tecido social que Kyoko, com a ajuda de Reino, está realizando.
Eu imediatamente sinto a fisgada dolorosa do ciúme. Com Reino, não comigo.
Ela está vestindo roupas dignas de uma rainha, caso ainda houvesse uma. Um quimono, se eu não me engano, e ainda mais deslumbrante do que o da imagem que vi certa vez. Como diabos ela conseguiu um quimono, e em tal estado de conservação, deve ser o que todos se perguntam.
Eu a vejo caminhar e meus olhos não podem acreditar no que estão vendo. Aqui está ela, no último lugar em que eu pensaria em procura-la, confortavelmente apoiando a mão na mão estendida de Reino. Eu sorvo a imagem dela e sinto meu coração parar e a respiração ficar presa no peito. Quantas vezes minhas mãos desenharam os contornos daquele corpo? Quantas vezes eu a vi nua, tanto sob o sol quanto na penumbra do quarto que dividimos? Eu a conheço talvez melhor do que a mim mesmo, então, por mais que eu queira acreditar que estou enganado, que meus olhos estão me pregando peças, não há como ignorar o volume aumentado dos seios, nem o arredondado do ventre.
Estimo que ela esteja no quarto, quinto mês de gravidez, no máximo.
Por quê, Kyoko? Para me punir? Para se vingar? O que a faria descer tão baixo a ponto de se deitar com Reino? Ele obrigou você? Não... você não estaria tão tranquila ao lado dele, se ele a tivesse forçado. Então, este foi o preço que você pagou pelas terras que ele lhe concedeu?
Eu a vejo retribuir os acenos e os cumprimentos que recebe das pessoas que eu não conheço enquanto meu mundo desmorona. Sem dúvidas, ela não passou os últimos meses tão escondida quanto eu imaginava, se conseguiu formar amizades e alianças. Meu impulso é de correr até ela, arrasta-la até a primeira sala privativa e exigir explicações, mas quando penso em me mover, percebo que não consigo. Há algo me mantendo preso ao chão. Olho ao redor, mas nada vejo. Até que, finalmente, sinto os olhos dela em mim.
Ela desvia o olhar rapidamente, e eu percebo que ela está desconfortável. Sim, é bom mesmo você se sentir incomodada com a minha presença! Sabe há quantos meses eu procuro você? Há quantos meses eu me preocupo com você? Quantas incursões no deserto eu fiz? Quantas noites eu não dormi por sua causa? Tudo para encontrá-la agora, pendurada no braço de outro homem, grávida de outro homem! Maldição, seja clemente e arranque logo meu coração do peito!
Aos poucos, uma fria resolução substitui a dor e a revolta iniciais, até que eu recobro o autocontrole e percebo que a força invisível me soltou. Kyoko não era tão poderosa assim antes, então algo deve ter acontecido. Bem, que se dane; se ela queria deixar claro que eu nada significo para ela, conseguiu.
Eu vejo a interação dela com todos e percebo que os desconhecidos não estão ali para proteger Reino, mas para protege-la. Se por ela ser uma mulher, e grávida, ou se por ela ter firmado alianças, eu não sei dizer. Eu me desloco para uma das janelas com Yashiro sempre em meus calcanhares, preocupado com o que eu possa fazer, mas ignoro tanto a ele quanto a Lory e Kuu, que tentam atrair minha atenção. Finalmente observando mais do que apenas a estatura das pessoas que comemoram do lado de fora, vejo que são todos Desterrados. Pessoas como Kyoko foi e que sem dúvida celebram o fato de que alguém como eles chegou ao palácio.
Sim, tenho certeza de que ela será um excelente Mestre, a julgar pela maneira com a qual ela conseguiu me manipular esplendidamente. Há quanto tempo ela tinha tudo planejado? Será que minha conversa com Sho foi, realmente, uma surpresa para ela? Afinal, se ela podia se projetar para outro lugar e ouvir conversas secretas, não poderia ela, também, ter escutado todo o plano que eu tracei com Lory no dia em que determinamos que ela seria minha procriadora em troca de não entregarmos Maria para os Fuwas?
Ah, Kyoko. Há quanto tempo você me engana?
Eu volto a observar as pessoas no salão principal. Os descontentes finalmente perceberam que não podem tocar em Kyoko, já que há uma multidão dentro e fora do palácio disposta a protege-la ou a vinga-la, conforme o caso. Sem mencionar que eles estão presos à gravíssima transgressão que seria atacar uma mulher, ainda mais na condição em que ela está.
Da mesma forma, não podem tocar em Reino, já que ele é o último herdeiro Fuwa. Mata-lo agora seria criar uma ruptura na linha sucessória, o que culminaria em um novo abalo na delicada balança de poder, já tão fragilizada pelos anúncios de Reino.
Os nobres estão visivelmente atordoados. Alguns tolos esbravejaram que invalidarão a decisão de Reino de transferir o território Fuwa para uma mulher, apenas para serem imediatamente rebatidos por uma jovem alta com cicatriz no rosto e que acompanha Kyoko para onde quer que ela vá: recitando a lei palavra por palavra, inclusive indicando página, artigo e linha, ela explica aos idiotas que a lei não proíbe expressamente que mulheres ocupem postos de comando, assim como não especifica o percentual máximo do território a ser cedido nem limita a cessão aos homens.
Muito bem, Kyoko. Você usou a cultura da submissão a seu favor. Você percebeu que as mulheres são tão subestimadas, que a única medida que se preocuparam em adotar para evitar que vocês escalassem a pirâmide social foi faze-las duvidar de suas próprias capacidades. Mas você explorou as suas, não é mesmo? E, quando o fez, percebeu que não havia um único argumento convincente para mantê-la abaixo dos homens. Então, você se ergueu, e está levando outros com você, homens e mulheres.
Eu a parabenizo, mas também lhe pergunto: por que me usar como um degrau, se eu poderia ser um aliado?
Não tem mais volta. O Conselho teria que matar todos aqui dentro e todos lá fora para evitar que a notícia se espalhe pelo mundo como fogo no palheiro: uma mulher será o novo Mestre Fuwa.
Eu a vejo sorrir e acenar para Taisho e o homem surpreendentemente retribuir ambos os gestos. Eu a vejo abraçar Sawara afetuosamente em um ato que, longe de ser despretensioso, deixa claro a todos que ela tem apoio no Conselho. Ainda mais, é um ato que deixa claro a mim todo o esquema no qual eu fui um partícipe ingênuo: Reino, Taisho, Sawara.
"Eu estava descansando no jardim, tomando chá. Eu vi tudo por aquela janela. Foi o filho. O próprio filho o matou"
"É o suficiente para mim. Vamos logo com isso, eu ainda quero jantar com minha esposa e filha esta noite"
Eu não me enganaria quanto à honradez de Taisho. Não, o homem não mentiria, e nisto eu acertei. Ele apenas contou uma verdade dúbia e deixou que eu escolhesse em qual versão acreditar. Igualmente, Sawara me deu a chance de recusar o papel de juiz do caso quando me perguntou se eu tinha motivos para ser parcial. No final das contas, fui eu quem mentiu ao dizer que não e aceitar a missão. A responsabilidade é toda minha até mesmo alívio que eu senti quando Sawara me apressou para que terminássemos logo o trabalho e voltássemos para casa a tempo do jantar.
Foi por que eu matei o Desterrado que ela chamou de pai que ela retaliou e fez de mim um assassino para ela? Foi para me dizer que eu sou estúpido o bastante para me prestar a este papel pela segunda vez, punindo o homem errado por um crime de assassinato, apesar de ter jurado jamais repetir tal erro? Cacete! Tão ávido eu estava para matar Sho, que não gastei um segundo sequer refletindo como era estranho que tudo estivesse tão fácil.
Fácil ao ponto de ser enfadonho.
"Lory, foi você quem colocou Sawara no Conselho?"
Uma pergunta direta e reta, porque no momento eu não tenho estômago para firulas.
"Eu imaginei que você perguntaria mais cedo ou mais tarde. Não, não fui eu. Ele me procurou dizendo que pensava em se candidatar ao posto, e eu imediatamente aceitei apoia-lo. A ideia me pareceu tão boa, que eu nunca me perguntei de onde ela havia surgido, já que ele nunca manifestou qualquer vontade em assumir carreira na política"
A expressão pesarosa de Lory é humilhante. Como eu, ele já percebeu todo o esquema. Tarde demais. Como eu, ele também foi manipulado. Kyoko serviu a nós dois, em uma bandeja de prata, exatamente o que queríamos, de uma maneira que não conseguiríamos recursar: a cabeça de Sho e mais um aliado no Conselho. Saltamos sobre as oferendas com a voracidade de homens famintos, exatamente como ela queria que fizéssemos.
Seu corpo também foi uma oferenda para mim, Kyoko? Seus doces rubores, seus gemidos mal contidos, suas carícias tímidas e seus olhares lânguidos também foram parte da farsa?
Meus pés me levam diretamente até ela antes que qualquer um me impeça. Desta vez, ela não me segura e por um segundo eu fico surpreso com quão perto dela eu consigo chegar, a despeito das pessoas que a cercam protetoramente. Então, eu percebo que devem estar esperando que eu a ataque para que assim tenham o pretexto perfeito para me matar.
Também faz parte dos seus planos me destruir, Kyoko? Bem, não posso dizer que você não tenha sido bem-sucedida, se seu intento era esse. Sim, você acabou comigo da forma mais espetacular possível.
"Parabéns, você conseguiu tudo que sempre quis"
Minhas palavras não passaram de sussurros, mas as dela foram ainda mais baixas.
"Não, não tudo"
Ao meu sarcasmo venenoso, ela respondeu com uma expressão pesarosa. Ah não, você não vai me enganar outra vez com sua encenação de boa moça!
"Você deixou ele ficar por cima?"
A esta altura, a resposta dela não deveria me importar, mas importa. Caralho, foi comigo que você superou a violência que sofreu! Enquanto ela gagueja, ruboriza e balbucia, eu aponto para a barriga dela e armo meu segundo ataque verbal.
"Este foi o preço que você pagou pela posição de Mestre?"
Eu sei que eu fui rude para caralho. Qualquer pessoa responsável pela minha educação ficaria profundamente decepcionada comigo: Kuu, Julie, Lory, Rick, até mesmo Yashiro diriam que eu me excedi, por isso eu recebi a forte bofetada dela com alívio. Eu me concentrei no latejar do meu rosto para tentar ignorar como ela impediu algumas pessoas de me atacarem e como o salão entrou em tensa expectativa até muito tempo depois de eu me desculpar e me afastar.
Meu orgulho estava muito mais ferido que meu rosto, e saber que algumas pessoas sabiam disso só aumentava minha humilhação.
Yashiro persistia em sua ideia de irmos embora, o que agora era endossado por Kuu e Lory, mas eu não queria ir. Ainda não. Não, enquanto ela permanecesse no salão. Os descontentes organizavam suas partidas prematuras em protesto contra a nomeação de Kyoko, o que eu imaginei que a deixaria satisfeita; afinal, ela finalmente poderia celebrar em paz com seus amigos e aliados, seleto grupo ao qual eu obviamente não pertenço. Ainda assim, eu não quero partir mais cedo e dar a ela a falsa impressão de que eu endosso o protesto ridículo que estão fazendo.
Eu devo ser o maior dos idiotas.
Estranhamente, eu percebi a ansiedade dela tão logo as pessoas se movimentaram para partir. Sem dúvidas, havia algo que ela queria fazer e que precisava de testemunhas. Sinais de alarme instantaneamente soaram em minha cabeça. Sim, faltava algo para encerrar o show, eu só não sabia o quê. Menos ainda, se eu estava tenso porque temia o que ela poderia revelar ou fazer, ou se eu me preparava para ajudar caso algo desse errado.
É um fato: eu sou maior dos imbecis. Fui traído de todas as maneiras, mas persisto me importando com as coisas que importam para ela.
Para minha surpresa, é Lory quem ela busca. Intrigadas, algumas pessoas que deixavam o palácio desaceleram a marcha para ver o que ela fará a seguir. Lory, o exímio diplomata, sorri-lhe cortês e abre os braços em um gesto amplo.
"Minha cara, impressionado é pouco para descrever como eu me sinto! Realmente, você superou todas as minhas expectativas!"
"Eu não me importo com a sua aprovação, Lory. Menos ainda com as suas expectativas a meu respeito"
Oh, sem dúvidas esta é uma maneira de atrair a atenção de todos no salão. Em uma única noite, ela se tornou a mulher mais poderosa do mundo, estapeou o Monstro Tsuruga e desdenhou de um Membro do Conselho e Chefe de Clã em público.
Lory, por outro lado, não se deixou abalar.
"Ah, assim você me magoa, minha cara! Logo a mim, que sempre tive um apreço especial por você!"
"Eu não quero seu apreço, Conselheiro Lory. Eu só quero que você cumpra o seu dever"
Isto atraiu a atenção de Lory.
"Meu dever? Ora, mas é claro! O que quer que você precise, se for meu dever cumprir, cumprirei com prazer!"
Lory não se deixaria intimidar, mas talvez devesse, julgando pelo sorriso satisfeito com o qual Kyoko retribuiu as palavras automáticas dele.
"Bem, neste caso, como Membro do Conselho há uma tarefa que nem mesmo o Grande Lory pode descumprir. Lembra-se? Há quase dois anos você me disse essas palavras: um Membro do Conselho não pode ocultar informações sobre as linhagens dos Clãs"
Puta merda. Ela pegou ele. Lory, meu velho... desta vez, Kyoko realmente o superou!
Os olhos dele se arregalam quase em câmera lenta. Yep, encurralado. Bem-vindo ao meu mundo!
"Você disse, Lory. Foram suas palavras: um Membro do Conselho precisa preservar as linhagens dos Clãs. Bem, há uma herdeira Fuwa em sua posse que deve ser devolvida a seu lugar de direito. Afinal, é seu dever como Membro do Conselho"
Um dia eu desejei ver as expressões dos nobres caso descobrissem que foram tapeados por Kyoko. Quem imaginaria que meu desejo se realizaria?
Não há saída para Lory e eu percebo o momento exato em que ele se dá conta disso. Aparentemente, Kyoko também percebeu, porque ela se permite derramar uma silenciosa lágrima de alívio. Com a voz embargada, mas com os olhos ardentes e determinados de quem percorreu um longo caminho para chegar até ali, ela dá o golpe final.
"Devolva-me a minha garotinha, Lory!"
A/N – Não acendam as tochas ainda! T_T
Estamos na reta final desta fic e tudo será devidamente esclarecido, não temam!
Para quem não se lembra, as palavras de Lory às quais Kyoko se refere estão no final do capítulo 9 (que se chama Capítulo 8 – Schemes and Blackmail).
Mutemuia já consegue prever minhas artimanhas XD
