CAPÍTULO 19 – COMO UM LAGARTO ENCURRALADO
"Você tem certeza? Certeza-certeza?"
"Claro que eu tenho certeza! Ela foi embora em dezembro. Estamos em outubro. Não tem como ela estar grávida de cinco meses e o bebê ser meu!"
Eu acordo relembrando a conversa que tive com Nick assim que retornei do território Fuwa. Ele pareceu tão confuso quando eu contei as novidades, que lamentei não ter esperado ao menos o dia amanhecer. Por conta da minha imprudência, certamente ele teve uma noite de sono tão merda quanto a minha.
Eu me preparo para o dia e encontro Nick na cozinha, no mesmo lugar em que eu me despedi dele ontem, como se ele não tivesse sequer se mexido.
"Não faz sentido, Ren!" Eu suspiro, resignado. Nem mesmo um bom dia, hein? "Kyoko não faria isso. Jamais!"
"Talvez não por si mesma, mas pela filha ela parece ser capaz de fazer qualquer coisa"
Que diabos? Agora parece que eu estou justificando os atos dela!
"Mesmo assim, Ren! Ela sempre encontrava um jeito de incluir o seu nome nas nossas conversas. Ela o acompanhava com o olhar sempre que você virava as costas. Sempre! Ela suspirava o tempo todo e ruborizava toda vez que se distraía olhando para o nada. É o tipo de coisa que não dá para dissimular!"
Por um segundo eu interrompo meus movimentos, atordoado com o que Nick acabou de dizer, mas disfarço quão abalado a novidade me deixou ao continuar recolhendo suprimentos para a viagem ao território Takarada. Lory não perdeu tempo em convocar uma reunião, como era de se esperar. Sem mencionar que eu preciso devolver o boneco para Maria antes dela ser enviada para a mãe.
"E daí?"
"E daí que Kyoko jamais dormiria com outro homem se é você quem ela ama!"
"Pare de presumir coisas, Nick"
"Mas é a verdade! Não finja que você não sabe disso! Se os sentimentos dela eram claros para mim, certamente estavam claros para você, com sua habilidade de ler a linguagem corporal. Não sei por que você está sendo teimoso sobre isso!"
De fato, por quê? É muito simples: porque é mais fácil taxa-la como traidora e odiá-la por isto do que admitir que ainda a quero de volta apesar de tudo.
"Ok, talvez ela estivesse se abrindo para mim. Isto foi antes dela ouvir o que não deveria, Nick. Agora, ela me odeia mais do que nunca. Eu voltei a ser apenas aquele que matou o homem que a salvou da morte, que a obrigou a se tornar uma procriadora e que a usou. De uma forma ou de outra, eu a usei, esta é a verdade. Se ela já sabia ou não de todo o plano quando veio para cá, eu não sei. Eu só sei que, na melhor das hipóteses, ela pensa que eu só a queria como um meio de ferrar os Fuwas; na pior, ela pensa que eu queria manipula-la e eventualmente descarta-la. Kyoko não entendeu o meu recado quando eu matei Sho, no final das contas. Ou, se entendeu, agora é tarde demais: ela está esperando um filho de Reino, o cara que deu um Clã inteiro para ela." Não dá para competir com isso. "Não sei desde quando ela e Reino estão em conluio; eu só sei que não posso culpa-la se transar com ele foi o que ela precisou fazer para ascender ao posto de Mestre e ter a filha de volta. Afinal, transar comigo foi o que eu a chantageei a fazer para proteger a filha"
Cá estou eu, defendendo os atos dela mais uma vez. Engraçado que há poucas horas eu estava furioso com ela.
"Ai, caralho! Puta que pariu!"
Hm?
"Quer saber de uma coisa, Mestre Ren? Foda-se!"
Hein? Atônito, eu vejo Nick se erguer furioso da mesa e caminhar pela cozinha, recolhendo algumas coisas que eu identifico como objetos pessoais.
"Para mim, chega! Se você vai ficar choramingando pelo que não fez, pelo que não conseguiu, pelo que perdeu, pelo que você acha que ela fez-pensou-sentiu ao invés de fazer alguma coisa que preste, eu vou fazer o que você deveria ter feito, o que você deveria estar fazendo e vou atrás dela!"
Agora eu estou puto.
"Você acha que eu vou me rebaixar ainda mais indo atrás dela, especialmente depois dela ter me manipulado e me usado para matar Sho?"
"Hmpf! Como se você estivesse muito arrependido por ter matado aquele verme! Ele merecia morrer e você sabe disso melhor do que ninguém! Aliás, você deveria ser grato a ela por ela ter articulado o esquema perfeito para que você tivesse a melhor chance possível de finalmente puni-lo pelo que ele fez há quase oito anos atrás!"
Eu vagamente me impressiono com a capacidade de Nick de falar sem pausas para respirar. Talvez esta seja uma habilidade excepcional, e todo este tempo eu erroneamente pensei que ele fosse um Trivial.
"Inferno, ela dormiu com outro homem!"
Eu pareço incapaz de me decidir se eu vou justificar ou recriminar os atos dela.
"Sim, e você dormiu com dezenas de mulheres!"
"Antes de conhece-la!"
"Você não assumiu nenhum compromisso com ela! Não fique bravo porque outro a quer! Se você a queria, então deveria ter colocado um anel!"
"Cacete, pare com as drogas de referências de música pop! É irritante!"
"Você não deu a ela qualquer chance para que ela se explicasse, deu? Você sequer perguntou a ela o que estava acontecendo?"
Não e não. Ela tentou falar comigo antes de se recolher mais cedo da própria festa, mas eu a dispensei friamente. Nick não sabe desta parte, porque é algo de que eu me arrependi assim que me acalmei, ou seja, algumas horas depois, quando já era tarde demais e Yashiro e eu retornávamos para casa. Desde então, curiosidade, dúvida e arrependimento me perseguem. Como uma criança birrenta, eu a rejeitei. Por mais que minha real vontade fosse extrair dela toda a verdade e minha mente exigisse explicações que somente ela poderia dar, eu me deixei dominar pela necessidade infantil de contraria-la, de derrota-la ao menos uma vez.
Nick acertadamente toma meu silêncio como negação.
"Tsk, não foi para um Mestre covarde que eu jurei aliança! Se você não tem iniciativa, eu farei o que você deveria estar fazendo: vou atrás de Kyoko, vou saber exatamente o que está acontecendo e vou oferecer ajuda a ela com o bebê que virá. Ela vai precisar de alguém, afinal, agora ela é Mestre e terá muitos afazeres. Sim, é o que eu vou fazer! Estou pedindo demissão, Mestre Ren. Vou oferecer meus serviços ao novo e melhorado Clã Fuwa. Talvez Reino seja como Michael Jackson e não queira o bebê, aí eu vou ser um pai para aquela criança. Se você não luta por eles, você não merece nenhum dos dois!"
Ele me destina um último olhar contrariado antes da porta se fechar atrás dele. Eu estou tão perplexo com o comportamento e a lógica de Nick, que só consigo repetir, em um balbucio, que é irritante o quanto ele utiliza as referências da extinta cultura pop que ele aprendeu com Kyoko como se fossem lições de vida.
Eu contemplo a perda do meu caseiro e as palavras do meu amigo por uma quantidade indefinível de tempo, até que Yashiro me encontra na cozinha e interrompe minhas ruminações com uma saraivada de perguntas: sobre Nick, sobre a viagem ao território Takarada, sobre a minha aparência. Eu o respondo o melhor que consigo e ignoro a expressão preocupada que ele faz. Seguimos viagem e eu sinto certo alívio: embora enfrentar uma reunião emergencial com Lory e Kuu não esteja na minha lista de circunstâncias favoritas, talvez eles me ajudem a clarear minhas ideias.
Território Takarada
Ah, a tortura que somente meu pai e meu padrinho conseguem infligir! Como eu pude ter imaginado que os dois me ajudariam a retomar o foco de alguma forma?
Lory não parece disposto a encerrar o dramalhão tão cedo. Eu cheguei tarde demais para devolver o boneco: Ruto já havia partido com Maria. Com direito a grossas lágrimas escorrendo pelo rosto, o Mestre Takarada nos relata como a menina estava radiante quando correu para fazer a mala para partir naquela mesma manhã. Agradeceu a todos pela hospitalidade como se soubesse que a estada dela como membro daquela família era temporária e foi uma perfeita dama ao se despedir e prometer visita-los sempre que possível, convidando-os a fazerem o mesmo.
Mãe e filha despedaçam corações com uma facilidade desconcertante. Ou elas são essencialmente cruéis, ou são extremamente ingênuas em se tratando de sentimentos.
Enquanto Lory prossegue com seu teatro, Kuu acrescenta um e outro comentário irritado sobre Kyoko. Está claro que ele só está enciumado com o fato de que eu não estaria um indisfarçável trapo se eu não estivesse apaixonado por ela. Quase uma hora assim me faz finalmente perder a paciência com os dois e ameaçar ir embora caso a reunião não comece imediatamente.
O motivo inicial do nosso encontro era discutir como abordaríamos a ascensão de Kyoko. A despeito dela ter obviamente contrariado Lory ao exigir Maria, ele é passional o suficiente para considerar o ato dela como uma "sublime manifestação de amor materno", como ele mesmo argumentou quando teatralmente parou de chorar. Por outro lado, ele é racional o bastante para perceber que, quanto mais aliados tivermos, melhor. Ou seja, seria contraproducente guardar rancor pela perda de Maria e rejeitar uma aliança com Kyoko por causa disso.
Enquanto trabalhamos com a certeza de que Reino seria o Mestre, sabíamos que os Clãs Morizumi e Koenji tentariam manter a aliança que tinham com o Clã Fuwa usando o fato de que Reino foi criado pelo Clã Morizumi. Para combater tal vantagem, a melhor estratégia que tínhamos era o elo de sangue que ele tem com Julie, uma Hizuri, para formarmos uma aliança inédita. Se conseguíssemos, seríamos quatro Clãs contra dois, não mais três contra três. Aprovaríamos facilmente todas as alterações que queremos fazer neste mundo podre, especialmente porque Sawara era considerado um aliado a mais no Conselho.
Resumindo, a aliança com Reino seria acirrada e fervorosamente disputada.
A situação agora, contudo, é outra. Não sabemos ainda como lidar com Kyoko se não sabemos o que, exatamente, ela pretende fazer. Eu creio que ela esteja do nosso lado, apesar de tudo, mas me preocupa principalmente a maneira brusca e apressada com a qual ela parece determinada a impor alterações na sociedade. Quero dizer, a mera ascensão dela já foi um golpe e tanto! Sawara também se tornou uma incógnita a ser considerada quando percebemos que ele está do lado dela, não do nosso.
Resumindo, Kyoko está em uma posição-chave para ambas as alianças. Ainda mais do que Reino estaria, eu diria, porque o apoio que ela tem de um Conselheiro a torna ainda mais influente do que Reino seria. As escolhas dela serão determinantes para os rumos do mundo, e por mais que eu acredite que ela quer o mesmo que nós, são os métodos dela que me preocupam. Certamente, Kuu e Lory não concordarão com a maneira drástica com a qual ela imporá as mudanças. Afinal, longe de ser a tão sonhada brisa que prenuncia novos tempos, Kyoko é o tsunami que arrasa com tudo em seu caminho.
"Lamento informa-los, mas não é apenas com a imprevisibilidade de Kyoko que nós precisaremos lidar. Meus informantes me disseram que os Nobres estão em polvorosa. Até aí, nenhuma novidade. Contudo, os olhos deles se voltaram para outro lugar, diferente do que eu supus inicialmente. Estão comentando muito sobre o fato de que eu conheço Kyoko, e apesar de não a terem relacionado à Kyoko do Clã Fuwa, ela foi relacionada à Kyoko do Clã Tsuruga"
Ah, entendo. Lory nem precisa continuar a falar, se eu já sei como esta reunião vai terminar. Pelo comportamento ansioso de Kuu, ele também percebeu. Você também previu que isso aconteceria, Kyoko? Seu ódio por mim chega a este ponto?
"Eu preciso admitir que a jogada dos Clãs Morizumi e Koenji foi inteligente. Kyoko seria um alvo fácil e óbvio demais, então, ao invés de se lançarem sobre ela como feras sanguinárias, estão deixando-a em paz porque perceberam que podem usa-la. Removendo dela todo o crédito por haver ascendido, estão atribuindo a mim e a Ren, com meras insinuações, a responsabilidade por Kyoko ter se tornado um Mestre"
Inteligente, de fato. Estão começando a manipular a opinião dos nobres contra nós, convencendo-os de que a ascensão de uma mulher é nossa culpa. Afinal, ontem à noite Lory demonstrou que a conhecia, e o episódio do tapa que ela me deu deve ter feito todos se lembrarem que eu tinha uma procriadora chamada Kyoko. Foi por isso que você e seus aliados permitiram que eu chegasse tão perto de você na festa, apesar de eu estar visivelmente irritado, Kyoko? Não para terem uma oportunidade de me matar caso eu a atacasse, mas contando com o desenrolar de uma cena passional entre ex-amantes?
Kyoko é uma novidade. Eles ainda não sabem como atingi-la e saírem ilesos, até porque ela agiu dentro da lei. No entanto, eles sabem exatamente como atingir Mestres de Clãs com boatos e boicotes.
Posso até apostar o que estão dizendo: é impossível uma mulher conseguir, sozinha, chegar ao posto de Mestre. Assim, tudo não passou de uma articulação entre Tsuruga e Takarada para enfraquecer a aliança rival. Certamente já especulam que eu matei Sho propositalmente; talvez eu esteja até mesmo sob suspeita de ter matado o patriarca.
No momento, Kyoko não é o alvo deles: eu sou. Atingindo a mim, atingem diretamente a aliança Takarada/Hizuri/Tsuruga. Será questão de tempo até o Clã de meu pai também se tornar alvo de críticas e represálias, já que será fácil divulgarem boatos maliciosos sobre como Kuu ajudou o filho no plano de matar os Fuwas e colocar uma procriadora Tsuruga no poder. Só não temo que clamem que eu pague com a minha vida porque Sawara é o meu aval e não há provas contra mim além do benefício que eu supostamente obterei com a ascensão de Kyoko, mas só isso já é o suficiente para manchar nossa reputação e dificultar qualquer articulação futura com os Nobres.
Estamos encurralados. Nosso desconhecimento sobre os planos de Kyoko não nos deixou de sobreaviso sobre o que fazer. A surpresa que experimentamos com a ascensão dela turvou nosso julgamento sobre como proceder publicamente com ela. O ineditismo de uma mulher no poder não nos permite antecipar como cada um dos envolvidos se comportará. Podemos, apenas, esperar pelos movimentos rivais e contra-atacar para minimizar possíveis danos, o que está longe de ser a nossa zona de conforto.
Será que Kyoko previu que tudo isso aconteceria? Será que ela estudou o bastante para antecipar as manobras adversárias e para saber como se proteger dos ataques políticos que certamente virão? Até que ponto ela contará apenas com o fator surpresa e a subestimação de sua capacidade?
Só há uma solução para o presente impasse e eu quase sorrio ao devolver minha atenção à reunião e perceber que os presentes estão debatendo como resolver a situação sem recorrer à única saída possível.
"E se nós deixarmos Kyoko se aliar aos Clãs Koenji e Morizumi? Desta forma, eles voltarão a ter três votos contra nós e poderão ficar satisfeitos que a balança de poder não se alterou"
Yashiro, você sabe tão bem quanto eu que é impossível Kyoko se aliar aos Clãs Koenji e Morizumi. Ela é inteligente demais para não ter percebido que o mundo está uma merda por conta das leis fodidas que eles criaram nos dois séculos em que estão no poder.
"É uma alternativa, mas muito arriscada. Se ela levar Sawara com ela para a aliança rival, perdemos a vantagem de termos Lory no Conselho"
"Não é uma alternativa, pai. Kyoko jamais se aliará a eles"
"Filho, como você pode ter certeza do que aquela mulher vai fazer, depois do que ela fez a você? Depois da situação em que ela está colocando você agora?"
Sim, sem dúvidas Kuu sabe qual é a única saída. Ele está apenas tão relutante em aceita-la quanto todos os outros parecem estar.
"É muito simples: todas as leis que a aliança FMK aprovou em sua longa existência contrariam todos os valores éticos e morais de Kyoko. Não fossem as determinações opressoras e segregacionistas contidas em tais leis, ela não estaria agora desenhando um alvo gigante nas costas e desafiando meio mundo ao confronta-las aberta e diretamente"
"Ah, valores éticos e morais, você diz? Como se ela tivesse algum!"
"Ela os tem, pai. Ninguém enfrentaria este mundo com tanto ódio e coragem se não soubesse exatamente quão desvirtuado ele está"
"Ren, por favor... deve haver outra maneira, filho!"
Enquanto Lory me observa com os olhos astutos de sempre e Kuu passa as mãos pelos cabelos em um gesto ansioso que eu sei que eu aprendi com ele, eu quase consigo ver as engrenagens funcionando furiosamente na cabeça de Yashiro. Ele está tentando fazer o trabalho dele até o último segundo. Aliás, ele sempre fez um ótimo trabalho protegendo o Clã Tsuruga. De tudo e de todos, inclusive de mim mesmo. É somente por pessoas como ele, membros do meu Clã que trabalharam arduamente por mim, que eu lamento profundamente o que farei.
É a minha cabeça que os Nobres estão querendo, é a minha cabeça que teremos que dar a eles. E rápido! Quanto mais cedo eles forem apaziguados, melhor. Como um lagarto aprisionado, sacrificaremos nossa cauda para que o resto do corpo possa escapar. O fato de que Lory e Kuu estão relutantes em me virar as costas e me deixar ser aquele que irá, sozinho, suportar as acusações e o escárnio da alta sociedade só consolida minha determinação de fazer o que é preciso para poupa-los do destino que cabe somente a mim. Afinal, o plano sobre Kyoko foi essencialmente meu. Fui eu quem conviveu com ela, fui eu quem teve todas as chances de descobrir o que ela estava tramando e falhou espetacularmente, movido como eu estava por sentimentos desnecessários. Eles precisam que alguém pague pela ascensão de Kyoko? Eu sou o cara certo.
Eu sempre soube que havia algo maior acontecendo. Desde que eu pus meus olhos nela, eu soube. No entanto, contrariando meu melhor julgamento, deixei-me levar por doces momentos que eu nem sei mais se foram reais ou não.
"Mestre Hizuri, Mestre e Conselheiro Takarada, com meus sinceros agradecimentos eu restituo a vocês as porções de terra que outrora me cederam. Que o Conselho seja avisado que o Clã Tsuruga acabou"
