CAPÍTULO 20 – REN E REINO

Eu retornei ao que ainda há pouco era meu território antes que o dia seguinte raiasse. Eu queria transmitir pessoalmente a notícia ao Clã, ao invés de deixar todos saberem por fofocas sobre o fim do Clã Tsuruga. Reunir todos em tão pouco tempo foi difícil, mas Yashiro e eu conseguimos fazê-lo antes que a notícia que o Conselho já deveria ter em mãos se espalhasse.

Como esperado, as pessoas ficaram desnorteadas diante da inesperada escolha que terão que fazer. No curto período em que os dois territórios foram um só, algumas famílias e vários laços de amizade se formaram. Agora que o território Tsuruga volta a ser dois, todos se veem no impasse de qual Clã escolher: Takarada ou Hizuri.

A Mansão Tsuruga continua sendo minha, pois já era minha residência antes mesmo de se tornar a sede do território, mas agora me parece só um lugar enorme e vazio. Especialmente porque, dois dias depois, metade dos membros do meu extinto Clã já havia migrado.

Eu francamente não sei como cuidar sozinho deste lugar. Não seria possível nem mesmo se eu ainda contasse com a ajuda de Nick. Sem mencionar que eu não pretendo passar muito tempo aqui: Kyoko tem explicações a me dar, considerando que as armações dela me fizeram perder tudo que eu tinha. Eu não descansarei até saber qual parte da nossa história foi real, qual parte foi somente ela me ferrando.

Sim, eu sei que fui eu quem escolheu ignorar todos os sinais de alerta que captei nos onze meses em que estivemos juntos; eu também fui o único responsável por me desviar do plano original para desfrutar do sonho de viver com ela. Contudo, lamentos e arrependimentos de nada adiantam se eu não descobrir onde ela pretende chegar com seus planos, porque minha maior preocupação agora é evitar que ela prejudique os Clãs Takarada e Hizuri. Afinal, o mais elevado dos objetivos não pode ser obtido às custas das duas principais linhas de defesa da humanidade contra a iniquidade promovida pelos Clãs Koenji e Morizumi.

A verdade é que eu me sinto responsável por ela, como se ela fosse a fera que eu soltei da jaula e agora corre desenfreada fazendo vítimas aleatórias. Exceto que as vítimas dela não são aleatórias, mas Mestres de Clãs e outros Nobres, as pessoas supostamente mais bem protegidas do mundo; e, longe de ser movida por impulsos primitivos e bestiais, Kyoko parece saber exatamente o que está fazendo.

Ou seja, a situação é muito pior. Especialmente se eu considerar o estrago que ela já fez como um Desterrado e como uma procriadora. Qual não será a confusão que ela é capaz de provocar tendo os recursos de um Mestre ao alcance das mãos?

O único consolo que eu tenho no momento é saber que Lory e Kuu não correm o mesmo risco que eu ingenuamente corri. É um fato incontestável que Kyoko não teria conseguido destruir meu Clã se eu não tivesse sido mais um amante que um Mestre. Aliás, esta é a verdade sobre a qual Yashiro tentou me alertar continuamente e pela qual ele estava, inclusive, disposto a matar. Meu Conselheiro enxergou o perigo onde eu só via o que eu queria ver. Igualmente, é impossível que Kyoko não tenha divisado as consequências de me envolver na morte de Sho, menos ainda que seria questão de tempo até associarem o nome dela ao meu no instante em que ela se tornasse Mestre.

Se Lory, Kuu, Yashiro e eu chegamos a alguma conclusão na nossa última reunião é que Kyoko está pelo menos dois passos à nossa frente. Dois malditos passos que estão fazendo toda a diferença, portanto, eu pretendo encurtar essa distância: ou eu a trago para o nosso lado, ou eu descubro um meio de impedi-la caso ela tenha a intenção de nos prejudicar ainda mais.

Dias depois

A única vantagem de ter perdido tudo é que agora eu não tenho as obrigações como Mestre para me impedir de usar o tempo que for necessário para descobrir toda a verdade. Eu iniciei minha empreitada perambulando incógnito pelo território dela, ouvindo discretamente as conversas alheias e fazendo as perguntas usuais que qualquer curioso sobre o ineditismo de haver uma mulher no comando de um território faria. Toda informação é bem-vinda, se estou lidando com uma mente como a dela.

Se ela conseguiu tapear Lory, estamos fodidos se ela se voltar contra nós e não tivermos nada contra ela!

Em uma voz carregada de deferência, eles a chamam de Lady Kyoko. "Porque o Mestre é uma mulher!", foi como me explicaram. Hmpf, como se eu não soubesse disso em detalhes de cor, cheiro, textura e sabor! O território Fuwa foi comicamente renomeado como Kyoto em uma óbvia homenagem à mulher que o está reconfigurando de tal forma que em breve nada sobrará para nos fazer lembrar o que ele foi antes dela assumir seu comando. Sim, porque chama-lo de 'Kyoko' seria óbvio demais e trocar uma letra faz muita diferença! Bem, eu entendo que ela queira mudar o nome do Clã. Devia ser desagradável ser chamada de "Mestre Fuwa" o tempo todo. Eu sei que eu detestaria.

Os maltrapilhos e esfomeados olham na direção da colina onde o palácio está e se emocionam ao falar da mulher que ordenou o desmonte de metade dele para reaproveitar os materiais na construção de moradias decentes aos Desterrados. Parece que Reino não é tão apegado ao palácio com o qual ficou, a propósito. Mesmo destino ela está dando às muralhas que dividiam as Cidades Baixa, Média e Central: as pedras estão progressivamente virando residências.

"Ouvi dizer que ela falou que somos ricos; só usamos mal nossos recu... recurs... o que temos! E eu nem sabia que eu tinha algo!"

Ela está transformando símbolos de segregação em oportunidades para quem já estava acostumado à incerteza do amanhã. Esperança é algo que esse povo jamais conheceu antes dela surgir. Diabos, ela está se transformando rapidamente em um maldito ícone, e ela só precisou de duas semanas para fazer algo assim!

A cada dia que passa, mais Escavadores surgem de todos os cantos do mundo para ingressar na Guilda que Kyoko – de jeito nenhum eu vou acreditar que a ideia partiu de Reino – criou. Em um fluxo contrário, vários nobres migraram do território Fuwa (agora Kyoto) para os Clãs vizinhos em busca de asilo, amedrontados que estão com o que parece ser o fim de seus privilégios. Contra eles, Kyoko decretou deserção e a expropriação de bens, que passaram a engrossar os recursos que ela está mobilizando para reconfigurar as três cidades.

Inicialmente eu não compreendi o que ela está tentando fazer, até descobrir que ela delimitou os sítios de escavações F e G. Sem dúvidas, ela não fez isso à toa: Kyoko descobriu algo grande o bastante para justificar a criação de uma Guilda de Escavadores e suportar o consequente influxo de Desterrados que tal medida provocou. Longe de ficar com uma horda de desocupados nas mãos, ela está controlando um enorme contingente de pessoas capazes de desenterrar tesouros suficientes para fazer o território dela prosperar, a despeito de mais e mais Desterrados adentrarem seu território em busca de melhores condições de vida.

Não demorou muito tempo para que eu descobrisse que praticamente meu Clã inteiro veio para cá. Eu poderia jurar que eles haviam retornado para seus Clãs de origem, mas pelo visto os meses em que conviveram com Kyoko foram suficientes para que eles quisessem apostar na atuação dela como Mestre. Por outro lado, demorou mais do que eu esperava para que eu escutasse os primeiros boatos sobre as preocupações do Conselho com as decisões dela.

Inicialmente, o Conselho não enxergou a profundidade das transformações que ela está iniciando. Desdenharam da criação de uma Guilda de Escavadores, já que os sítios A ao E nada mais contém além de cacarecos. Qual não deve ter sido a surpresa deles ao descobrirem que Kyoko delimitou os sítios F e G? Droga, eu queria ter visto a cara que eles fizeram. Preciso me lembrar de perguntar a Lory quando for possível. Tenho certeza que ele será bastante teatral ao encenar a porra toda. Os idiotas acreditavam que ela estava destruindo a si mesma ao praticamente convocar uma horda de vagabundos e desordeiros, enquanto comemoravam a "limpeza" representada pela diminuição de Desterrados perambulando as fronteiras em busca de trabalho ou caridade.

Pararam de rir quando se viram com escassez de mão-de-obra e pagando o dobro do que pagavam aos pobres-coitados remanescentes, que rapidamente entenderam o trunfo que têm nas mãos. Eles são ignorantes, mas não são estúpidos.

Indiretamente, Kyoko está contribuindo para a melhoria das condições de vida até mesmo daqueles que não quiseram deixar seus lares. Não demorará muito para que os outros Mestres se vejam sem outra escolha senão melhorar suas favelas, sob o risco de se verem sem força bruta de trabalho.

Um mês. Ela só precisou de um mês.

Eu vejo homens encenarem nas ruas um Nobre pomposo e gordo bradar "Ela não pode fazer isso!", ao que a plateia de homens e mulheres, jovens e velhos responde "Ah, ela fez!" entre risos e comemorações. Pessoas que nada entendem sobre manobras políticas e não sabem dizer se ela está acertando ou errando gostam da atuação dela simplesmente porque ela sacaneia os até então inabaláveis e intocáveis Nobres com uma facilidade alarmante.

"Certa ou errada, ela está fodendo com todos eles! Um viva à Lady Kyoko!"

Eu suponho que o Conselho finalmente percebeu com quem está lidando, já que todo e qualquer boato sobre o que acontece lá dentro simplesmente parou e eu estou muito longe de Lory para confirmar com ele. Contudo, é provável que os Nobres tenham se dado conta de que, bem mais do que uma aventureira adotando medidas drásticas e bizarras que culminariam em sua autodestruição, Kyoko se tornou, rapidamente, o símbolo da esperança de dias melhores para as camadas mais subjugadas. Os tolos demoraram tempo demais para perceber que a mesma horda que a seguiu morreria por ela sem pensar duas vezes.

Ela só pode estar tentando iniciar uma guerra, foi a conclusão à qual eu cheguei. Ela aguardará calmamente em Kyoto pelo ultimatum do Conselho, e quando isso acontecer, ela terá um exército a sua disposição.

Após um mês vivendo incógnito e ouvindo as ruas, finalmente chegou o momento de confronta-la com mais do que perguntas. Eu entendi o que ela pretende e a loucura que o plano dela representa. Sim, Kyoko tem um exército, mas é um exército não treinado de pessoas cansadas e malnutridas. Será um verdadeiro massacre, especialmente considerando a franca desconstrução das muralhas que dividiam os habitantes e que poderiam protege-los em uma invasão. Será possível que ela não enxergou isso? Será que ela não percebe o risco que ela passou a correr? Ela encurralou os Nobres de tal maneira que eles não conseguirão escapar sem lutar. Ignora-la não é mais uma opção para eles, já que ela se revela uma ameaça maior a cada dia.

É isso que você pretende, Kyoko? Transformar-se em um maldito mártir?

Eu concordo que ideias vivem muito mais do que pessoas e ela já se tornou um símbolo que será lembrado, especialmente se... ela morrer pela causa que defende.

Eu não vou permitir.

Eu decidi finalmente me infiltrar no palácio e aborda-la. Dizer a ela que sua manobra suicida é ridícula e convence-la a mudar de ideia. Até que eu descubro que ela está não dois, mas vinte passos à minha frente.

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A primeira vez que eu vi Kyoko foi na feira na qual ela foi vendida para o Clã Fuwa. Ela tinha seis e eu cinco anos. O Mestre me levou com ele porque ele não perdia qualquer oportunidade de me ter por perto, zeloso como ele era. Para me fazer um agrado, porque eu estava particularmente arredio no dia, ele me deixou escolher a criança que ele compraria. "Mas que seja uma menina bonita!", foi a única instrução que ele me deu. Absolutamente todas as crianças pareciam iguais, exceto uma. Havia algo especial nela, portanto eu a indiquei sem pensar duas vezes.

Demoraria anos até que eu percebesse que aquela foi a primeira vez que minha habilidade se manifestou. Poucas pessoas sabem que eu consigo diferenciar os Excepcionais só de olhar para eles. E Kyoko foi a primeira que eu identifiquei.

Pobrezinha.

Quando fiquei sabendo sobre o ataque que ela sofreu, senti-me responsável. Treze anos parece pouco tempo de vida para muitas pessoas, mas eu já conhecia a podridão dos Fuwas o suficiente para deduzir o que havia acontecido a ela. Qual não foi minha surpresa quando eu ouvi os boatos sobre a procriadora Kyoko? Ela estava viva, no final das contas, e em apuros, ao que tudo indicava.

Talvez, se eu a ajudasse, a culpa que eu sentia por havê-la indicado para o patriarca Fuwa parasse de me perseguir. O problema era como eu conseguiria me aproximar dela.

Não foi necessário, contudo. O influxo de poder na noite em que ela fugiu do território Tsuruga foi tão intenso, que uma de suas projeções inadvertidamente chegou até mim. Antes que a pequena sombra conseguisse retornar a sua ama, eu a capturei. Então, passamos a "conversar".

Quando finalmente concordamos com os termos da nossa aliança, ficamos cara a cara. Eu não esperava encontrá-la no estado em que ela estava porque ela nunca havia mencionado que eu teria que abrigar mais seis além dela, mas por fim foi uma grata surpresa. Mio foi de quem eu mais gostei e sua imagem predominante nos meses que se seguiram, até que algo aconteceu e ela começou a suavizar e a se tornar Kyoko novamente.

Provavelmente, algo que Ren estava fazendo estava calando a minha Mio. Em um momento ela o odiava, noutro momento não o odiava mais. Por várias vezes eu acreditei que ela desistiria do plano por causa dele, apenas para ser surpreendido pela fria determinação dela em leva-lo adiante. É um privilégio testemunhar os sacrifícios que ela é capaz de fazer para proteger a cria. Observando-a, parte de mim se ressente do fato de que Julie não lutou assim por mim, enquanto a outra parte admite que Kyoko possui uma determinação ímpar.

Talvez esta seja sua maior excepcionalidade.

Estou empolgado para ver até onde ela consegue chegar, quanta confusão ela consegue criar. É em nome de tal entretenimento e da culpa que eu sentia que eu disponibilizei a ela todos os recursos que eu tinha. Eu nunca quis ser Mestre, muito trabalho e aporrinhação. Mas eu sempre quis me livrar da família Fuwa, e tal foi o presente que Kyoko me deu.

Os ghouls, Excepcionais que eu secretamente escolhi e treinei para serem espiões e assassinos e eventualmente me ajudarem a exterminar os Fuwas, avisaram-me sobre a infiltração daquele cara no palácio. Após um mês fazendo-se passar por mais um Desterrado, ele finalmente decidiu se mover.

É tão irritante olhar para ele. Tudo nele me incomoda, das habilidades excepcionais à puta sorte que ele teve na vida. Ren não faz ideia de quão afortunado ele é. Primeiro Julie, depois Kyoko. Melhor aborda-lo de uma vez e parar com a encenação em que ele finge que não me notou e eu finjo que não fui notado.

"Você demorou mais tempo para aparecer do que eu pensava"

"Reino. É costume seu se esgueirar pelas costas das pessoas? Pretendia me esfaquear, também?"

Hm, lógico que ele descobriu que fui eu quem matou aquele maldito. Kyoko estava certa, mais uma vez.

Eu o vejo se virar lentamente para mim e os olhos dele estão frios e injetados. Ódio, rancor, inveja, está tudo escrito neles com clareza solar. Seu cretino, você tem tudo que eu sempre quis e nem sabe!

"Depende. Você é um filho da puta sádico e pervertido?"

Ele nada responde e eu quase consigo sentir a intensidade do pensamento dele. Ele é inteligente e perspicaz como Kyoko. Como ela, ele também deve ter adivinhado o que eu passei enquanto criança nas mãos de uma criatura desprezível e obcecada por Julie, sendo tão parecido com ela.

"Eu esperava que um dos seus amigos que vêm me seguindo me abordasse para que eu pudesse perguntar sobre Kyoko, mas como eles sempre se mantiveram a uma distância educada, eu decidi deixá-los viver e vim pessoalmente ter uma audiência com ela"

O rosto dele é inexpressivo e ele conseguiu sentir os ghouls. Sem dúvidas ele foi muito bem treinado.

"Uma audiência, você diz? Ora, chegou tarde. Ela partiu há três dias"

Se a informação o surpreendeu, ele não demonstrou. O Ren diante de mim em nada se parece com o idiota apaixonado que eu esperava ver.

"Oh? E para onde ela foi?"

"Algum lugar no deserto. Não sei ao certo, nunca estive lá e ela nunca me contou o caminho"

Finalmente uma reação. Se ele me detestava antes, agora ele está realmente puto comigo.

"Você a deixou atravessar o deserto naquele estado?"

É cômico ver quão errado ele entendeu tudo.

"Você já a viu no deserto alguma vez? Eu já. Ela parece um maldito nômade, tão à vontade e confiante de seus passos que parece que ela está em casa"

"Que merda de diferença isso faz? É perigoso! Você deveria ter ido com ela, pelo menos!"

"Eu não fui, mas Maria e aquele seu amigo foram. Nick, acho que este é o nome. Não desgruda dela um segundo. Ele tentou faze-la desistir da ideia, mas diabos, quando ela coloca uma ideia na cabeça, ninguém consegue demove-la"

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Incredulidade e ira se digladiam dentro de mim para decidir o que eu sinto mais. Esse filho da puta... não, desculpe Julie! Esse maldito deixou uma mulher grávida se aventurar no deserto com uma criança e um sujeito que nunca pôs os pés em areia. Eu juro que vou mata-lo. Primeiro, eu vou extrair dele toda a informação que eu puder. Depois, vou mata-lo.

"Não importa quem foi junto, Reino. Era sua responsabilidade estar com ela" Nick estava certo, no final das contas. Reino não merece nem ela, nem o bebê e eu estava indo pelo mesmo caminho.

"Minha única responsabilidade é garantir que o plano dela funcione, e para tanto eu preciso protege-la. Eu não seria de ajuda no deserto, o sol me faz adoecer. Sem mencionar que eu tenho que proteger o palácio do ataque iminente"

Opa.

"...Ataque iminente?"

"Não é algo que dê para descobrir perambulando pelas ruas de Kyoto, não é mesmo? Sim, ataque iminente. Segundo Kyoko, a próxima manobra dos Clãs Morizumi e Koenji é apoiar Yayoi como legítima sucessora do Clã Fuwa. Eles já estão se articulando com os Nobres para questionar que, se uma mulher será Mestre de Clã, Yayoi tem mais legitimidade para tanto que Kyoko"

Estou perplexo. Kyoko não está a dois passos à nossa frente: ela está a vinte!

"Eu não o culpo pela cara surpresa que você finalmente está fazendo. Eu também fiquei pasmo quando ela tranquilamente me adiantou que isso aconteceria. Parece que nós ainda subestimamos as mulheres, coisa que Kyoko não faz. Aquela megera foi completamente esquecida por nós, mas Kyoko sabia bem que era questão de tempo até ela se tornar uma ameaça. O Clã Fuwa não acabou porque pai e primeiro herdeiro morreram: a matriarca está por aí, aliando-se aos comparsas de sempre"

Puta merda. Eu não fazia ideia. Eu nem sequer me lembrei da existência de Yayoi!

Eu não deveria ter pensado, nem por um segundo, que Kyoko agiria sem deliberação. Tudo que ela fez deve ter um propósito, já que ela não chegou tão longe para estragar tudo agora.

"...Se eu estou entendendo corretamente, o plano é atrai-los para cá. Mas a cidade está desprotegida com a derrubada dos muros, então-"

"Então, segundo a previsão de Kyoko, os inimigos não atacarão a cidade com tudo. Não faria sentido guerrear por recursos, humanos ou não, se eles forem destruídos na confusão. Portanto, ao invés de um confronto direto eles enviarão assassinos bem treinados para se infiltrarem no palácio e matarem nós dois. Yayoi se tornará oficialmente a única herdeira legítima em condições de assumir o comando de Kyoto e tudo terá o aval da maioria dos Nobres, putos como eles estão com as decisões de Kyoko"

É brilhante. Derrubando os muros ela garantiu o apoio da maioria da população e determinou como será o ataque adversário ao mesmo tempo.

"Entretanto, saber disso só garantirá que vocês sobrevivam ao primeiro ataque. Portanto, Kyoko vai-"

"Contra-atacar os Clãs rivais enquanto eles estiverem enfraquecidos por haverem destinado seus assassinos para cá. Precisamente"

Fantástico. Ela vai surpreende-los usando exatamente a mesma tática que eles usarão contra ela: infiltração e eliminação.

"Preciso avisar Lory e Kuu. Kyoko vai precisar de toda a ajuda possível"

"Yashiro já foi. Ora, não fique tão surpreso: seu Clã inteiro veio para cá, era questão de tempo até Yashiro se juntar a nós. Especialmente porque você desapareceu, não é mesmo?"

"Meu ex-Clã, você quer dizer"

Sim, faz sentido que todos tenham vindo para cá, até mesmo Yashiro. Kyoko tem demonstrado claramente que é uma mente sagaz, audaciosa e generosa, um bálsamo contra as decisões ora banais ora cruéis de sempre. Vale a pena estar perto dela só para testemunhar o que ela fará a seguir.

"Ah, como eu detesto você!"

Hm?

"Só de olhar para sua expressão de pesar por haver perdido seu precioso Clã eu tenho vontade de mata-lo. Só não faço isso porque sei que eu não teria chances contra sua agilidade e força descomunais"

Parece que Reino interpretou meu pesar por não estar ao lado dela como pesar por haver perdido o posto de Mestre.

"Eu gostaria de vê-lo tentar, Reino"

"Tsk, você não sabe a sorte que tem, sabe? Caras como você são realmente irritantes. Afogam-se em autocomiseração tendo tudo que caras como eu dariam tudo para ter"

"Como você deu seu Clã a ela para tê-la?"

De alguma maneira a conversa se tornou pessoal.

"Antes fosse. Antes um Clã fosse o preço irrisório a pagar por ela. Não, Ren; o Clã foi um pedido de desculpas. Fui eu dizendo 'sinto muito por havê-la escolhido naquela feira e por ter selado seu destino como mais um brinquedo dos Fuwas'. Fui eu dando a ela condições de fazer o somente ela poderia. O Clã foi o prêmio que dei a ela por ter sido capaz de florescer na lama. O Clã eu teria dado de graça, mas infelizmente não foi: ela pagou um preço alto por ele. De todos os sacrifícios, o dela foi o maior. Eu só tive que abrir mão de uma merda de status que eu nunca quis; ela teve que abrir mão da sua confiança nela"

Sinto meu coração disparar. Ela sacrificou a confiança que eu tinha nela?

"E quanto ao bebê, Reino?"

"O que tem o bebê?"

"Talvez ele seja como Michael Jackson e não queira o bebê!" Porra, eu não deveria estar ouvindo a voz de Nick agora.

"Você não quer o bebê?"

Reino está rindo e eu não sei se isto é um bom ou um mau sinal.

"É realmente irritante que você seja o favorito das únicas duas mulheres que eu amei, sendo o completo idiota que você é. Bem, eu preciso conceder que não é sempre que temos a oportunidade de acompanhar uma gravidez. Então, não posso culpa-lo por confundir o corpo de uma mulher que acabou de dar à luz com o corpo de uma mulher no quarto, quinto mês de gestação"

O... quê?

"Era sua responsabilidade estar com ela, Ren. Você deixou ela atravessar o deserto com uma criança, um sujeito alegre e o seu filho de menos de dois meses de vida"