CAPÍTULO 21 – HIOU
Onde você está, Kyoko?
Eu rabisco na terra com um galho seco enquanto tento, inutilmente, organizar meus pensamentos frenéticos o suficiente para ignorar a presença irritante de Reino e meu coração acelerado. Temos um filho. Temos um filho. Temos um filho. Quando tudo que eu conheço do deserto a partir das minhas incursões e de ouvir falar está esboçado no chão, afasto-me de minha obra e a observo. É um mapa grosseiro, mas eu preciso de qualquer ajuda visual que puder obter para conseguir localiza-la.
"Oh? E para onde ela foi?"
"Algum lugar no deserto. Não sei ao certo, nunca estive lá e ela nunca me contou o caminho"
Kyoko não contou a Reino sobre o esconderijo dela, mas levou Nick para lá. Ela gosta de Nick. Ela confia em Nick.
"Era sua responsabilidade estar com ela, Ren. Você deixou ela atravessar o deserto com uma criança, um sujeito alegre e o seu filho de menos de dois meses de vida"
Maldição, ela tentou me contar. Na noite da comemoração, ela pediu para falar comigo e eu a rejeitei. Ela ficou pouco tempo na própria festa: chegou depois de mim e foi embora logo após a tentativa fracassada de falar a sós comigo. Agora eu entendo o motivo, ela tinha um bebê para cuidar. Meu filho. Nosso filho.
"...Kyoko jamais dormiria com outro homem se é você quem ela ama!"
Eu não dou a mínima para o espetáculo que estou propiciando a Reino, que se acomodou tranquilamente para me observar andar de um lado para o outro e correr os dedos pelos cabelos. O patife quer estar confortável para apreciar melhor a minha agonia.
"O que você espera obter desse mapa no chão, Ren? Já lhe adianto que a clarividência não é uma de suas habilidades Excepcionais, caso seja isto que você esteja verificando"
"Tem certeza que ela nunca lhe contou sobre o esconderijo? Nenhum comentário descuidado, nenhuma informação aparentemente inútil?"
"Ela jamais diria algo sobre o esconderijo para mim. Eu não tenho medo da morte, mas em se tratando de dor, a mera menção à palavra tortura já me faria cantar feito um canário e Kyoko sabe disto"
Tsk, sujeito inútil. Melhor voltar minha atenção ao mapa grosseiro diante de mim e às lembranças. Algo deve me dizer para onde ela foi.
"Mesmo assim, Ren! Ela sempre encontrava um jeito de incluir o seu nome nas nossas conversas. Ela o acompanhava com o olhar sempre que você virava as costas. Sempre! Ela suspirava o tempo todo e ruborizava toda vez que se distraía olhando para o nada. É o tipo de coisa que não dá para dissimular!"
Eu relembro todas as nossas conversas, mesmo sabendo que não há nada nelas. Afinal, eu tive tempo de sobra para analisa-las à exaustão. Então, eu relembro as estórias que ela contava à noite para o meu Clã, mesmo sabendo que é impossível que ela tenha arriscado revelar demais a tantos ouvintes. Por fim, eu relembro as músicas que ela cantarolava e até aquelas que eu ouvi por intermédio de Nick, mas nada encontro que se encaixe no mapa diante de mim.
A frustração começa a me dominar. Talvez ela não tenha me contado, no final das contas. Eu estou trabalhando com a remota possibilidade de que ela tenha...
"Não, não vá! Fique aqui!"
...inconscientemente, compartilhado comigo...
"Eu sinto que algo terrível vai acontecer!"
...algo tão importante para ela. Algo que ela só compartilharia se ela confiasse em mim.
"O Clã eu teria dado de graça, mas infelizmente não foi: ela pagou um preço alto por ele. De todos os sacrifícios, o dela foi o maior. Eu só tive que abrir mão de uma merda de status que eu nunca quis; ela teve que abrir mão da sua confiança nela"
Algo que ela só compartilharia comigo se ela me amasse.
"Tsk, você não sabe a sorte que tem, sabe? Caras como você são realmente irritantes. Afogam-se em autocomiseração tendo tudo que caras como eu dariam tudo para ter"
O que eu não estou vendo?
"É realmente irritante que você seja o favorito das únicas duas mulheres que eu amei, sendo o completo idiota que você é"
Quando foi que você me contou, Kyoko? Quando foi que...
A resposta se fez óbvia em um estalo. De repente, o mapa ficou claro. Eu devo estar sorrindo feito um idiota, porque Reino está me olhando como se estivesse nascendo uma segunda cabeça no meu pescoço. Foda-se, não dou a mínima.
Achei você!
Dias depois
Merda, eu estou perdido. Eu sei que eu fiz o caminho correto, mas não havia nada no último local que Kyoko me indicou. Por que ela me daria um mapa incompleto foge à minha compreensão. Estou há dias caminhando pelos arredores do último ponto de referência, mas nada encontrei além de alguns nômades e duas malditas tempestades de areia. Minhas provisões acabaram e minhas forças estão no fim, mitigadas pelo que eu sei serem os efeitos da insolação.
Eu sempre me considerei um cara resistente. Do tipo que nunca adoece e raramente se cansa. Contudo, eu nunca testei minha resistência no deserto como estou fazendo agora. Talvez eu tenha sido excessivamente confiante por ter decifrado a mensagem dela, talvez eu estivesse eufórico por descobrir que temos um filho juntos e as implicações contidas no fato de que ela revelou o esconderijo dela para mim. Eu só sei que será uma forma patética de morrer, caso eu sucumba à imaturidade de haver desafiado o deserto com mais petulância que planejamento.
Ha ha, que jeito estúpido de morrer! é o meu último pensamento antes de ver o céu girar e a vastidão de areia lentamente se aproximar do meu rosto.
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"É o Mestre... O que houve...?"
"Insolação... água... Nick..."
"...cabeça...mais água..."
"Vai... tudo bem... ouvir?... ficar bem..."
Eu tento despertar, mas não consigo. Eu ouço vozes distantes e frases fragmentadas e sinto alguém manipulando meu corpo, mas não consigo manter o foco nem mover meus membros. Minha cabeça lateja insuportavelmente. Às vezes eu ouço uma sirene ao fundo, como um alarme, seguido de passos apressados. Eu quero correr também, alarmes sempre significam que algo ruim está acontecendo, mas meu corpo não me obedece.
Eventualmente as palavras se tornam mais nítidas e eu finalmente reconheço a voz de Kyoko. Quando meu corpo fica menos pesado, eu abençoadamente consigo sentir os dedos dela no meu couro cabeludo, afugentando o latejar que tanto me incomodava. Alguém me dá banho, infelizmente é Nick. Ele não para de falar nem quando o ouvinte parece inconsciente. A sirene está de volta e eu quase consigo erguer o corpo, embora meus olhos teimem em permanecer fechados. Kyoko, eu preciso salvar Kyoko. A sirene para e tudo é silencio novamente.
Eu consigo erguer um braço, mas meus olhos ainda se recusam a abrir. Por um instante eu temo estar cego, o que me faz instintivamente tocar meus olhos, mas no lugar deles eu sinto um pano úmido. Ufa, então é por isso que eu não conseguia abri-los!
Eu removo a venda e minhas pálpebras se abrem, vacilantes. Os grandes e apreensivos olhos ambarinos focados em mim me fazem sorrir.
"Olá, encrenqueira"
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Eu estou tentando arduamente não chorar, mas pela expressão terna que ele está fazendo, eu estou falhando miseravelmente. Malditos hormônios do pós-parto!
"Oh? Quando você me olha assim, com tanta preocupação e alívio estampados no rosto, eu começo a imaginar que você gosta um pouquinho de mim..."
Alívio? Precisamente. Ele veio atrás de mim, então ele não me odeia, certo? E ele está sorrindo para mim, como se estivesse realmente feliz em me ver, então talvez ele me perdoe quando souber das coisas que eu fiz. E ele recobrou os sentidos, o que significa que ele está se recuperando, então ele vai ficar bem. Ou seja, eu tenho muitos motivos para estar aliviada.
Eu tento rir, mas só consigo soluçar. Eu tento novamente e é mais um soluço que me escapa. Quando a primeira lágrima escorre, ele encontra forças suficientes para me puxar para o peito dele.
Eu não sei quanto tempo ficamos assim, ele aninhando minha cabeça enquanto eu praticamente urro toda a tristeza, solidão e medo dos últimos meses; eu só sei que, quando eu me acalmei o suficiente, percebi que havia encharcado o peito dele.
Eu sou tão boa em constranger a mim mesma...
Eu tento enxuga-lo discretamente, mas pela reverberação da risada baixa no meu rosto, eu falhei. Droga, eu senti falta até de quando ele ria de mim! Malditos hormônios da gravidez e do pós-parto!
"Como foi que você me encontrou?" Bem, tecnicamente ele não me achou, mas como os nômades disseram que ele estava bem próximo daqui, imagino que ele deva ter descoberto o caminho.
"Eu poderia perguntar a mesma coisa a você..." Eu senti falta das tiradas irritantes dele, também. Hormônios são perigosos! "...mas já que você perguntou primeiro..." Ele começa a mover minha mão pelo peito dele. "Eu percebi que você me contou. Inúmeras vezes, aliás. Toda vez que fazíamos amor, as linhas imaginárias que você traçava no meu peito eram o mapa para chegar até você. Só que você não o completou, o que me deixou perdido por dias. Então, já que eu respondi a sua pergunta, diga-me: como foi que você-"
"Você ficou perdido por dias e não pediu orientação?"
"...Como assim, pedir orientação?"
"Ora, você não perguntou aos nômades sobre mim?"
"...Aos nômades?"
"É sério, Ren?"
"..."
"O que há de errado com os homens, afinal? Por que vocês nunca perguntam a droga da direção?"
"Ei, como eu ia saber que-"
"A quem mais você perguntaria no meio do deserto?"
"Como eu saberia que os nômades conhecem seu esconderijo?"
"Muito simples: perguntando! 'Ei, estou procurando Kyoko. Vocês a conhecem?' Algo assim! O pior que poderia acontecer seria eles dizerem não!"
"Errrrr... pessoal, está tudo bem?"
Eu levanto a cabeça abruptamente do peito de Ren e me deparo com Nick e Maria parados à porta, boquiabertos, acompanhando nossa discussão inflamada.
"Por que vocês estão brigando, mamãe, se na verdade vocês querem-"
"MARIA! O que foi que eu lhe falei sobre usar sua habilidade com sua família?"
"...Que é rude e que eu não devo fazer"
"Habilidade? Maria tem uma habilidade?" Ops. Ren está olhando de mim para Maria como se estivesse entendendo nossa comunicação não verbal. "Oh, pelo visto a filha também escondeu algumas informações relevantes de mim! E aposto que ela o fez sob orientação da mãe..."
Há um brilho maldoso nos olhos dele, mas Ren não está irritado. É o mesmo olhar que ele tinha quando me encontrava após eu ter passado horas me escondendo dele e que, como sempre, faz um arrepio percorrer meu corpo.
"Olá, Mestre Ren! Bom vê-lo consciente, finalmente! Que baita susto você nos deu! Então, antes que vocês deem vazão à óbvia tensão sexual entre vocês-"
"O que é tensão sexual?"
"Não é nada, Maria. Tio Nick escolheu errado as palavras, só isso" Eu o amo, mas vou mata-lo qualquer dia desses.
"-Hiou acordou outra vez e Kanae não está conseguindo acalma-lo. Eu não o trouxe comigo porque o choro dele sempre agitava Mestre Ren, mas agora eu posso traze-lo?"
Eu olho para Ren em busca de uma resposta, mas ele parece petrificado olhando para Nick. Eu não sei como interpretar a expressão que ele está fazendo, especialmente porque ainda não conversamos sobre Hiou.
Nick me contou sobre como Ren ficou desde a minha fuga e com o meu inesperado retorno e suposta gravidez. E pensar que esse idiota pensou que eu estivesse grávida de Reino!
"Pode ir buscar Hiou, mamãe. Eu faço companhia ao Ren"
Maria percebeu minha apreensão e encontrou a maneira dela de me dizer que eu não preciso me preocupar. Eu deveria repetir a ela para não usar a habilidade dela comigo, mas não posso exigir que a menina faça algo que eu não posso ensina-la a fazer. Raios, eu sequer sei se é possível! É um fardo, realmente, sentir a real intenção das pessoas. Se vivêssemos em um mundo de paz, eu não me preocuparia tanto, mas Maria é bombardeada desde o nascimento com as intenções mais vis. Não é por acaso que ela é tão madura para a idade.
Enquanto eu saio do quarto, ouço Maria contar a Ren o que eu deixei de dizer: que os nômades só o trouxeram para mim quando ele desmaiou porque encontraram, no meio das roupas dele, a réplica do Escavador 47. Reconheceram imediatamente o boneco e entenderam que ele estava a minha procura. Eu o escuto responder que trouxe o boneco para finalmente devolve-lo a Maria antes de fechar a porta atrás de mim e entrar no cômodo ao lado, onde Hiou protesta a falta da mãe e enlouquece Kanae.
"Eu juro que seu filho me odeia!"
Ela insiste em aparentar que detesta crianças, mesmo depois de eu ter descoberto que ela, na verdade, tem tanta compaixão pela fragilidade dos pequenos neste mundo cruel que não suporta olhar para eles. Sob uma fachada de indiferença, ela tem um grande coração. Aliás, desde que eu fui forçada a interagir com as pessoas em um nível pessoal, sendo eu mesma e não uma de minhas personas, eu percebi traços latentes e inesperados de humanidade em toda parte.
É como se a humanidade – bondade e compaixão – estivesse lutando para sobreviver tanto quanto a humanidade – raça humana: ambas estão maltratadas e desesperançadas, mas basta a oportunidade certa para que elas se manifestem em toda a sua glória.
Ou são apenas os hormônios falando e me fazendo ver arco-íris e borboletas em toda parte.
Eu me desculpo com Kanae pelo transtorno e acomodo Hiou nos meus braços. Ele fica excepcionalmente calmo, como se pudesse sentir quão tensa eu estou por finalmente leva-lo para conhecer o pai.
Quando eu retorno para o quarto, Nick e Maria se despedem de Ren e saem discretamente. Quero dizer, tão discretamente quanto os dois conseguem. Ren está sentado, imagino que Nick o tenha ajudado. Ele também comeu um pouco, provavelmente Maria o convenceu a engolir algumas colheradas.
Ren olha o pequeno embrulho nos meus braços como se fosse o machado do carrasco e por pouco eu não rio: o homem mais forte do planeta está com medo de um bebê que mal aguenta o peso da própria cabeça.
"O nome dele é Hiou" Ren testa o nome algumas vezes, até finalmente proclamar que gosta dele. Eu solto a respiração que eu não sabia estar prendendo e faço menção de entrega-lo para ele, mas Ren apenas se escora mais contra a parede. Os olhos dele não deixaram o filho por um segundo e parecem tão admirados e irrequietos que eu sorrio. "Você não quer segura-lo?"
Ele finalmente olha para mim, e o faz como se eu fosse maluca.
"Pega-lo? Não, não! Péssima ideia!"
"Oh, verdade? Neste caso eu posso dizer a Nick que ele pode ser o pai de Hiou, afinal?"
Ele me destina um olhar insultado que teria um efeito melhor se os braços que ele esticou para segurar o filho não estivessem vacilantes. Eu entrego Hiou para ele e fica óbvio que Ren nunca segurou um bebê na vida, porque ele parece apavorado e atrapalha-se com as próprias mãos. É a segunda coisa mais adorável que eu já vi na vida, depois de Maria e Hiou, empatados em primeiro lugar.
"Ele está bem? Está tão mole! Será que ele está doente?"
"Ele está ótimo"
"Tem certeza? Parece haver algo de errado com o pescoço dele!"
"Acredite, o pescoço dele está ótimo"
"Acho que eu sou péssimo nisso. Ele parece tão inquieto!"
"Bebês são assim"
"E que... expressões faciais são essas? Eu não entendo o que ele está tentando me dizer!"
Por fora eu estou calma, mas por dentro eu estou me mijando de rir. Nós seis estamos, na verdade.
"Ele está dizendo: 'eu não sei quem é esse cara, mas gostaria que ele trocasse as minhas fraldas'. Algo assim"
"...Você está zombando de mim, não está?"
Eu rio mesmo pensando que talvez eu tenha exagerado desta vez, mas Ren apenas sorri. Como recompensa, eu digo a ele tudo que eu sei sobre espasmos faciais e as expressões básicas de alegria, excitação e angústia que eu já o vi fazer, o que parece acalma-lo. O fato de que Ren está preocupado em compreender o filho me comove quase às lágrimas. Malditos hormônios!
"Ele é tão pequeno e leve... ele está comendo direito?"
"Oh sim, o pequeno é voraz!"
Como se lembrado de algo importante, Hiou começa a choramingar.
"O quê? O que eu fiz de errado? Eu machuquei ele?"
Eu sentiria pena de Ren, se a inquietação dele não fosse tão engraçada. Eu pego Hiou dos braços dele, não sem antes registrar a relutância com a qual ele me entregou o filho. A esta altura, o choramingo já se tornou um choro furioso que quase não me permite ouvir Ren murmurando "sirene" e acomodo Hiou para mamar.
Após alguns segundos apenas observando o pequenino sugando meu seio, ele deixa escapar um suspiro. Ren parece fascinado pela visão, e eu estou fascinada com o fascínio dele. Eu me recosto contra o peito dele e ele alegremente nos recebe. Ficamos assim, em nossa bolha, por muitos minutos. É como se não houvesse segredos ou culpa entre nós, apenas calor e conforto, até que o cansaço pelos dias que eu passei cuidando de Ren me vence e eu adormeço sentindo os braços dele em volta de mim e do nosso filho.
Quando eu despertar, duas guerras me aguardam. A mais difícil delas será a primeira: contar toda a verdade a Ren e convence-lo a me perdoar, mesmo achando que eu não o perdoaria se eu estivesse no lugar dele.
