Lamento pela demora! A meu favor, tenho a dizer que estou vivendo no meio de um canteiro de obras, então a vida está meio caótica no momento T_T
EPÍLOGO
"Vovó, me pega!"
Ah, lá vem a minha neta mais enérgica!
"Pandora, você sabe que a vovó não tem mais idade para-"
"Bobagem, Taira! Eu sempre terei idade suficiente para pegar minha neta no colo!" Eu acomodo a pequena espoleta sobre minhas pernas, já sabendo o que ela vai me pedir. É aquela época do ano de novo. Taira, meu filho mais novo, resignadamente sai da sala murmurando algo sobre teimosia e nos deixa a sós. Ele também sabe o que a filha dele vai me pedir, e como ele mesmo já cansou de ouvir a mesma história na infância, não pretende ouvi-la de novo.
"Vovó, me conta a história da princesa e do príncipe?"
"Hm, deixe-me ver... Como era, mesmo?" É claro que eu poderia conta-la até dormindo, tantas vezes já repeti a história, mas Pandora adora um pouco de drama. "Oh, sim! Era uma vez uma princesa profanada e um príncipe decaído-"
"É a minha história favorita!"
"Sim, sim. A minha também! Espera, onde eu estava?"
"A princesa estava machucada e só e o príncipe era desprezado e chamado de Monstro!"
"Ah, é verdade... Porém, a princesa era muita corajosa e o príncipe, na verdade, tinha um coração bondoso"
"Sim! Muito bondoso!"
Conforme eu reconto a história inúmeras vezes contada, minha mente relembra os preciosos momentos compartilhados. É aquela época do ano de novo, e ela sempre me deixa nostálgica.
"É verdade que eu tenho o sangue deles, vovó?"
"Sim, Pan. Você carrega um poderoso legado de grandes líderes. É uma grande responsabilidade e também um privilégio, portanto, não se esqueça de se dedicar aos seus estudos para valorizar o presente que eles nos deram"
"Awww, mas eu não gosto de estudar!"
"Pois saiba que há poucas décadas nenhuma menina tinha sequer a chance de desgostar de estudar. Simplesmente não éramos ensinadas, Pan. Se você não gosta, você experimentou, e isto, por si só, envolveu incontáveis sacrifícios para acontecer"
"Awww... tudo bem, vovó. Eu vou me dedicar mais. Mas é tão chato!"
Ela é tão parecida comigo que eu rio.
"Eu também achava chato, minha querida! Mas veja o exemplo da princesa: mesmo ferida e só, ela encontrou meios de transformar sua realidade. Você sabe como ela conseguiu isso?"
"Casando-se com um príncipe!"
"Não, Pandora! De onde você tirou essa ideia? Já sei, foi Hiou, não foi?" Aquele moleque gosta de me provocar! "A princesa estudou, Pandora. Estudou muito! Conhecimento é tudo, minha cara. O conhecimento nos liberta de prisões que éramos ignorantes demais para sequer saber que existiam antes de estudarmos!"
"Ai, já está você doutrinando a menina outra vez!"
"Vovô!"
A menina desce correndo do meu colo e se atira sobre o recém-chegado.
"Hiou, não alimente a mente de Pandora com bobagens!"
"Ela só tem cinco anos. Com cinco anos ela não precisa pensar em legados e responsabilidades"
Tsk, eu preferia quando ele era só um garoto inseguro que reclamava diariamente por haver herdado a altura da mãe e não do pai. Foi só crescer absurdamente de um dia para o outro, para se tornar confiante até demais.
Nossa, como eu o amo!
"Venham, vou acompanha-las até em casa. Tome, aqui está sua bengala"
Não é que eu precise dela para andar; apenas é difícil me levantar e me sentar sem a ajuda dela. Só isso. Nada demais.
Quem eu estou tentando enganar?
Caminhamos em silêncio por alguns metros, Pandora correndo à frente e cumprimentando pessoas a esmo. Apesar da idade avançada, Hiou não aparenta qualquer dificuldade de locomoção, o que não pode ser dito sobre mim. Bem, ter quatro filhos biológicos e dois adotivos realmente debilita uma mulher.
Meus olhos vagam pelas conhecidas construções: a escola, a enfermaria, os dormitórios. Há enfeites em toda parte, lembrando às pessoas que é tempo de celebrar o "Dia da Retomada" mais uma vez.
"É aquela época do ano de novo"
Hiou finalmente decidiu quebrar o silêncio.
"...Sim"
"Seu aniversário"
"Dia da Retomada, Hiou. Somente o Dia da Retomada importa"
Paramos no centro do pátio principal, onde estão as esculturas dos Grandes Líderes. Todos os dias eu faço este caminho, apenas para olhar para eles. Quando estou sozinha e com tempo, faço questão de parar diante de cada um e "conversar". Eu posso jurar que alguns deles me respondem.
"...Maria, por que você conta a história dos nossos pais como se fosse um conto de fadas?"
"Que pergunta boba, Hiou. Porque eles eram mágicos, não é óbvio?" Ele faz o som zombeteiro que sempre me irritava quando éramos jovens. "Falando sério, mamãe costumava me dizer que contos são poderosos. Eles carregam lições valiosas e exercem estranho fascínio nas pessoas. Então, eu imaginei que seria útil contar às crianças como se fosse uma fábula"
"Ahhh... suas técnicas de doutrinação se tornaram apuradas!"
Antes que eu pudesse dar voz à minha indignação, Pandora decide parar de correr em círculos e se posta diante das estátuas de Ren e Kyoko.
"O bisavô era bonitão, né vovó?"
"Sim, Pan. Ele era muito bonito"
"Mas a bisavó era tão comum!"
Enquanto Hiou gargalha, provavelmente pensando sobre a expressão que nossa mãe faria se ouvisse a própria bisneta dizer tais coisas, eu explico algo essencial para Pandora.
"Minha querida, a estátua dela não lhe faz justiça. Não há no mundo artista capaz de captar a inteligência de seus olhos, nem a pureza de seu coração. Sua bisavó foi a mulher mais extraordinária que eu já conheci. Ela era obstinada, mas doce. Implacável, mas gentil. Não houve um erro neste mundo que ela não tenha tentado corrigir, e mesmo depois de ter feito tanto, ela ainda partiu dizendo que gostaria de..."
Eu não consigo continuar a falar.
"Ela gostaria de ter feito mais. Estas foram as últimas palavras da sua bisavó, Pandora. Vovó Maria e eu herdamos o diário no qual ela anotava todos os planos que ela tinha para desenvolver Kyoto, e até hoje nós o usamos como guia quando temos dúvidas quanto ao que fazer. Agora que penso nisso, acho que ela se tornou particularmente empenhada depois que seu bisavô morreu. Talvez ela estivesse se esforçando também por ele, já que Ren foi o maior jurista que tivemos"
Pandora volta os curiosos olhos para as duas estátuas e parece em solene contemplação. Eu aproveito a distração da menina para secar meus olhos, enquanto Hiou me conforta com a mão em meu ombro.
"Bisavó, me desculpa por ter dito que a senhora era comum!"
Após alguns momentos apontando para as estátuas e contando (mais uma vez) as histórias de Kanae, Chiori, Kuu e Lory, nós percorremos o restante do caminho e finalmente estamos em casa. Hiou se mudou para a minha residência com a esposa e o filho mais novo desde que meu marido faleceu. Ele diz que é por conta da comida horrível que a esposa dele prepara, mas todos sabemos que é para cuidar de mim.
Ele passou o dia todo querendo me fazer uma pergunta, então eu fico aliviada quando ele finalmente a faz.
"Você acha que... nós vamos vê-los de novo?"
Ah, esta pergunta, huh?
"Eu realmente não sei, irmão" Ele parece desapontado por um segundo, mas logo se anima com o resto da minha resposta. "Mas se houver uma chance de nos reencontrarmos, por mais improvável que ela seja..."
"Sim... sem dúvidas, papai e mamãe darão um jeito de fazer acontecer!"
Naquele dia, eu adormeci com um sorriso no rosto, embalada pelas lembranças das pessoas incríveis que me cercaram. Eu pude sentir nitidamente o beijo de boa noite de minha mãe e o som morno da voz de meu pai. Naquela noite, eu não senti as dores de sempre, e quando eu abri meus olhos novamente, sorri para os rostos familiares que me saudavam e corri para os braços abertos que me aguardavam.
Estávamos certos, Hiou!
A/N – Eu chorei feito criança escrevendo este epílogo. Ele fazia parte dos capítulos trágicos que eu não consegui escrever, mas enquanto os capítulos me incomodavam, incomodava-me abrir mão deste epílogo. Portanto, aqui está ele!
Eu não tenho palavras para descrever quão grata eu sou pelo incentivo que recebi de tod s vocês. Foi um exercício difícil escrever uma fic dark, mas vocês tornaram a jornada menos turbulenta. Obrigada do fundo do meu coração!
