Mais um capítulo. Divirtam-se!

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Anteriormente:

Ela havia sonhado com algo, mas não se lembrava exatamente o que era. Não tinha certeza se foi um pesadelo ou não, mas se lhe causava uma sensação estranha, também não poderia dizer que foi um bom sonho. A sensação que experimentava não era nem boa, nem ruim. Era mais... estranha. Talvez um pressentimento. Mas de quê?

Tentou se recordar. Mas nada de concreto lhe vinha a mente. Sonhou com Sam? Não tinha certeza. Tentou se concentrar. Algo lhe veio a mente. Sim, o sonho implicava seu namorado de alguma forma, mas não sabia como.

Ah! Teve uma certeza. Dean também estava nele. Na verdade, pensando bem, era mais forte a sensação de ter sonhado com ele. Não o sonho que teve da última vez, bem vívido, a "transa onírica" ou mesmo aqueles que tinha antes de conhecê-lo. Mas ele estava nesse sonho. Isso podia afirmar.

E Sam? Realmente estava nesse sonho ou era mais algo referente a ele? Talvez fosse isso. Talvez fosse mais a ausência de Sam. E era por isso que ela acordou daquele jeito e inquietou-se por não vê-lo logo ao seu lado.

(...)

Vic, faço isso com você porque te amo e quero te proteger, pensou. Tomara que você me perdoe e supere a minha perda.

Sam largou a garrafa em cima da lareira, apanhou seu laptop e acionou o dispositivo da câmera.

Inspirou e expirou o ar várias vezes profundamente.

Gravou um vídeo.

(...)

- Assim que não há bruxo ou feiticeira algum que tenha a informação que eu preciso – disse Castiel, mas falava mais para si do que para Mitica.

O outro não conteve o riso.

- Nenhum bruxo ou feiticeira da face da terra, meu amigo alado. Nenhum vivo.

- O que disse? – seu comentário despertou a atenção do anjo.

- Talvez o único que soubesse algo se encontra morto... há dois ou três meses.

- Quem? – o bruxo ficou calado. Castiel se aproximou mais uma vez com postura ameaçadora. O outro engoliu em seco. – Quem?

- George Tudor.

(...)

- Vic não estava negociando a soltura do Sam – retrucou Dean – Estava negociando sua ida permanente ao inferno apenas para ficar perto de Sam.

- O quê? – Bobby praticamente gritou sem se importar se Collins o havia escutado – Ah... mas agora mesmo vou falar umas com essa menina!

- Não, Bobby, deixe – Dean o segurou pelo ombro

- Deixar? Dean, você percebe que nível de insanidade ela atingiu?

- Mas agora ela vai se recuperar... você viu a expressão dela... ela chorou, Bobby. Finalmente, botou tudo pra fora. O processo vai ser doloroso, mas agora ela vai começar a reagir.

Garota Interrompida (3ª parte) - Final

Victoria estava do lado de fora da casa de Bobby, na entrada do ferro-velho. Olhava para o relógio a toda hora.

"Onde ele está? Ele não costuma se atrasar assim."

Estava preocupada. Ele era sempre pontual... a não ser. Alguma coisa havia lhe acontecido. Afastou imediatamente o pensamento agourento.

Claro que não! Ele era forte e cuidadoso. E além disso, não cometeria nenhuma imprudência. Não com seu Impala branco que havia lhe confiado cegamente. Não. Sam com certeza estava bem.

Por fim, avistou um carro se aproximando. Um impala... mas não era o seu. Era preto. O que pertencia a Dean.

O veículo parou à sua frente e de dentro saiu um Dean sorridente e com expressão abobada. Olhava diretamente para ela. Trazia um ramalhete de rosas azuis em suas mãos e estava todo vestido de preto e couro, inclusive as botas. Vic o encarou intrigada.

Dean se abaixou e apoiou-se num dos joelhos e estendeu o buquê para ela. Collins arregalou os olhos espantada.

- Oh, minha princesa. – disse o Winchester - Aceite essas flores que lhe entrego de todo coração. Ofereço a mim e ao meu Impala como seus escravos. Faça com a gente o que quiser.

- Ô, Dean... você bebeu? – esbravejou ela – Deixe de ser ridículo e levanta daí!

O Winchester se levantou possesso e encarou-a com os olhos fulminantes.

- Vem cá... Custa você ser romântica uma vez na sua vida?

E sem esperar resposta a beijou. Vic, a princípio surpresa com o gesto, tentou sem libertar. Sam poderia chegar a qualquer momento. Porém, acabou cedendo com a pressão dos lábios do Winchester sobre os seus.

Súbito, acordou e sentou-se sobressaltada na cama. Olhou para o lado e viu Dean sentado numa cadeira a seu lado. Estremeceu por contemplá-lo.

Foi… foi só um sonho, pensou entre confusa, aliviada… e um pouco frustrada.

Súbito, teve um estalo. Era aquele sonho que teve por duas vezes do qual não se lembrava! Mas por que será que o teve? Haveria algum significado como os demais que costumava ter com Dean ou Sam?

Não. Obviamente não. Esse era mais irreal. Ela esperava tanto por Sam e por seu Impala que não chegavam. E nenhum dos dois estava presente em sua vida, não uma pontada ao se recordar do fato.

TampoucoDean Winchester agiria como um príncipe meloso de contos de fada. E jamais poderia beijá-lo.

Engoliu em seco ao contemplá-lo. Virou o rosto envergonhada por sentir calor ao se recordar do sonho. Era até um sacrilégio contra Sam.

Atreveu-se a olhar Dean novamente. Ele parecia tão cansado! Por que será que estava ali?

Como se sentisse o olhar da caçadora sobre si, o Winchester finalmente despertou. Sua expressão foi de alívio e preocupação. Ele tomou as mãos dela com ânsia.

- Vic.! Você... você está bem?

- Estou... – ela o encarou com estranheza e constrangimento. Desviou os olhos ao se lembrar da última imagem onírica e pelo olhar abrasador do homem – Acho que sim.

Dean sorriu e, em seguida, a abraçou. Victoria aceitou o abraço um tanto constrangida pelo sonho e, por outro lado, sem entender o motivo do Winchester agir daquela maneira.

- Dean... o que houve? – perguntou sem coragem de afastá-lo.

- Por Deus, Vic... você ficou quase dois dias desacordada e com uma febre tremenda! – esclareceu após ele mesmo desfazer o abraço e contemplá-la – Não sabe o sufoco que Bobby e eu passamos. A gente chamou o médico no mesmo dia, mas ele disse que não era uma febre comum... não soube dizer exatamente o que você tinha, achou que pudesse ser algum tipo de uma crise nervosa. Disse que se você não melhorasse até a noite de ontem era para chamá-lo, talvez precisasse te internar. E aí... – interrompeu-se

- E aí? – incentivou ela

- E aí recorremos ao Cass.

- Pobre Cass... – ela esboçou um leve sorriso – Segunda vez em poucos dias que ele vem me salvar. Primeiro, do meu pacto com o Crowley… e agora isso.

- Mas nem ele mesmo pode fazer alguma coisa mesmo tendo recuperado os poderes.

- Não? – ela estranhou

- Ele disse que... estava além da capacidade dele e da medicina. Que sua febre, sua doença não era de ordem física... Era da alma ou algo assim. Por causa das últimas semanas... do que aconteceu – Dean desviou o rosto, não queria citar a ausência de Sam, mas Victoria entendeu. – Ele disse que só dependia de sua vontade querer sair desse estado. De sua vontade de viver.

O Winchester voltou a encará-la com um nó na garganta. Vic sentiu um aperto ao ver certa dor estampada em seu rosto. E medo. Medo de perdê-la. A culpa e o constrangimento fizeram-na abaixar o rosto.

- Bom... parece que minha vontade de viver foi maior. – foi tudo que disse.

Sim, maior do que sua dor e desespero pela perda de Sam. Mas estes, a despeito de começarem a atingi-la com golpes pontiagudos na alma, ao mesmo tempo, estavam se apaziguando ao serem externados. Como um gás que esvaziasse de um balão prestes a explodir.

- Parece mesmo – concordou ele. E ficaram alguns instantes em silêncio sem se encarem – Er... vou dizer ao Bobby que você acordou e está bem – esboçou um sorriso sem graça – Ele vai ficar aliviado.

Ia se levantar, porém, Victoria segurou seu pulso.

- Espere, Dean... Só um momento... Tenho algo a lhe dizer.

- Diga – ele se sentou novamente mal escondendo a curiosidade

- Eu quero te pedir desculpas... a você e a Bobby por toda preocupação que lhes causei.

- Vic, tudo bem. Você...

- Me deixe terminar de falar, por favor – ela o silenciou colocando a mão sobre seus lábios. Sentiu-o estremecer com contato, mas ignorou. – Eu preciso fazer isso.

- OK.

- Todos sofremos a perda de Sam, você e eu principalmente – ela o encarou sabendo que estava cutucando a ferida. Mas ambos sabiam que ela precisava disso – Eu fui egoísta e só pensei em minha própria dor me esquecendo de você... e tudo o que passou e se sacrificou por Sam. Sei que justo nesse momento é que deveria ter me apoiado em você... e também no Bobby. E ter sido o apoio que você precisava. Me desculpe se falhei.

- Tudo bem, Vic, sei como foi difícil pra você. O que você e Sam tiveram foi... é um lance muito forte. Algo que não vejo assim em outros casais.

- Mesmo assim não justifica minha atitude. Eu... amava Sam... quer dizer... eu o amo como nunca amei ninguém. É como se ele fosse uma parte de mim e eu estivesse pela metade.

- Sei como se sente, Vic porque me sinto da mesma maneira – admitiu ele – O que sinto por Sam vai muito mais do que algo de irmãos. Quer dizer... não vá me interpretar mal... – ele coçou a cabeça –...não é nada gay... er... bem...

- Sei. Eu entendo – ambos sorriram. Só Dean para soar engraçado mesmo naquele modo de se expressar – Eu também via algo assim em relação a vocês como se um completasse o outro.

- Er... isso. – Dean sorriu constrangido – Não soa gay?

- Não, soa algo verdadeiro. – ela sorriu. Depois, sua expressão se anuviou – Eu... eu sei que tenho que seguir em frente e vou tentar daqui em diante. Mas... não vai ser fácil pra mim. – seu rosto se contorceu de dor, mas segurou as lágrimas – Dói muito, Dean... e não como as outras perdas que sofri. É algo bem maior. E tenho a impressão de que não vai parar de doer.

- Não vai – ele confirmou – Talvez só amenize com o tempo. Mas precisamos aprender a viver com essa dor. E só vamos conseguir se tivermos um ao outro – encarou-a firme – Se você precisar, estarei aqui. OK?

- OK. – ela assentiu. Seus olhos umedeceram – Me desculpe mais uma vez

- Ei, pare com isso – ele enxugou uma lágrima que começava a se formar em um de seus olhos. Forçou um sorriso animador – Não quero mais saber de choradeiras. Onde está a velha e conhecida Indomável? É está que quero ver daqui pra frente.

- Cuidado com o que deseja – ela o advertiu com o dedo em riste após rir de seu comentário – Posso voltar com força redobrada as minhas patadas.

- Uh! Conto com isso! Agora, descanse que vou chamar o Bobby e preparar algo para você comer.

- Nossa, Dean Winchester cozinhando! Essa eu pago pra ver!

- Pode começar a desembolsar agora mesmo. – riram-se – Seja bem-vinda de volta, Vic.

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- Então temos um trato... Se eu ajudá-lo a tirar Sam Winchester da gaiola, eu estou livre?

Quem perguntava era Richard Mason, ou melhor, George Tudor. E a pessoa para quem perguntava, ou melhor, o ser para quem perguntava era ninguém menos do que Castiel. Encontravam-se na antiga mansão de Mason em sua ilha.

- Sim. – assentiu com expressão severa – Desde que não tente fazer nada contra ele depois que voltar, nem contra Dean Winchester e, muito menos, contra Victoria Collins.

- Feito. – retrucou Mason com expressão neutra – Então... começarei imediatamente o feitiço que abrirá a gaiola sem que Lúcifer saia.

- Precisa de alguma coisa específica?

- Já que perguntou… do sangue do seu receptáculo. E também de uma porção de terra do último lugar em que Sam Winchester... e Lúcifer estiveram... e dos anéis dos Cavaleiros. O resto tenho aqui comigo.

- Será providenciado. Não demorarei – aproximou-se de Richard, os olhos estreitados – Não tente me enganar. Você pode ser um bruxo poderoso, talvez o maior de todos, mas eu ainda sou um anjo do Senhor.

- E você pode me jogar de volta no inferno – o outro não se abalou, pelo contrário, esboçou um sorriso zombeteiro – Entendido.

- Não. Não te jogarei lá. Mas você desejará que eu o faça.

Mason desmanchou o sorriso. O anjo era mais intimidador do que parecia. E não blefava, disso ele teve certeza.

- Nem em sonho, eu o faria. – colocou a mão sobre o peito – Você fez a marca em mim, lembra-se? Nem todos os meus feitiços conseguiriam removê-la.

- Agora você entendeu

- Mas lembre-se que é um caminho de duas vias. Você também não pode descumprir sua parte

–Sei disso... ou eu não o faria. – Cass assentiu – Me espere que voltarei logo.

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Dean preparava o almoço ou, pelo menos, tentava. Bobby duvidou em deixá-lo se aventurar, mas resolveu arriscar sua cozinha e seu estômago nas mãos do Winchester para tratar de um assunto fora após ver a sobrinha. Além disso, não podia negar o oferecimento de Dean já que ambos estavam tão contentes pela recuperação de Victoria. Uma recuperação que parecia não só ser física, mas também emocional.

Ao menos ela tentava. Mas Dean tinha certeza que Victoria conseguiria seguir em frente.

E ele? Conseguiria também seguir em frente? Aparentemente estava bem, mas era mais por Victoria, para lhe dar força. Só Deus sabia o quanto estava insuportável sentir o buraco que o irmão lhe havia aberto no peito.

Pelo menos a alegria em contemplar Victoria recuperada era uma espécie de remédio apaziguador depois daquelas três semanas de angústia e preocupação, sobretudo dos dois últimos dias.

A febre, os delírios, o estado inconsciente... Ele ficou desesperado! Ele e Bobby.

Dean receou que fosse perder também Victoria e isso teria sido o golpe final para ele. Não teria mais razão para viver sem ela, já que não tinha mais Sam.

Revezou com Bobby para velarem as horas ao seu lado, trocando o pano em sua testa para abaixar a febre e atentos ao mínimo de mudança em seu estado. Mas ele fez questão de virar a madrugada ao lado dela. Foram horas de suplício, as mais difíceis para ele. Escutava-a chamar por Sam sem parar e implorar para que a levasse com ele.

Dean desabou. Derramou lágrimas, ajoelhou-se ao lado de sua cama, tomou as mãos dela e, mesmo que tivesse certeza de que ela não poderia escutar, dirigiu-lhe palavras de súplicas:

- Vic, por favor... tem que lutar contra essa doença. Eu sei que... que está sofrendo muito a perda de Sam... Eu também estou... não nego. Mas você tem que reagir. Se você morrer também, eu... – ele se interrompeu e soluçou alto por alguns segundos – Se você morrer, pra mim também... será o fim. Eu... não vou mais conseguir. Só estou conseguindo me manter de pé sem o Sam por você. Mas se você partir...

Sentiu uma mão sobre seu ombro. Sobressaltou-se. Era Bobby parado ao seu lado de pé. Lágrimas também deslizavam por seu rosto. Normalmente, Dean teria ficado constrangido e disfarçado, porém, ele se levantou e aceitou o abraço que o velho caçador lhe ofereceu para se entregar a um pranto.

- Ela... vai conseguir, garoto – dizia o Bobby enquanto o confortava e se confortava – Ela é forte. Temos que acreditar nisso.

Sim. Vic havia conseguido, ela era forte. Talvez até escutou suas súplicas mesmo num estado inconsciente. E talvez isso a incentivara a não sucumbir àquela febre.

Seja como fosse, agora tudo o que queria era viver para lhe oferecer conforto e alegria. Não estava cogitando a possibilidade de ter um relacionamento com ela, conforme sugerido por seu irmão. Não. Seria uma traição e um sacrilégio fazer isso, mesmo que Sam houvesse lhe pedido.

Não era justo ele ter uma felicidade como aquela negada para Sam. Para Dean, bastava estar ao lado de Victoria e vê-la bem, participar de sua vida de alguma forma. Ele voltaria a se relacionar com as vadias assim que desse vontade – nas últimas semanas se entregou a um celibato involuntário. Mas com Vic não, mesmo que seu corpo e seu coração pedissem pelo contrário. Ela era intocável para ele.

- Acho que está bom – disse para si mesmo observando as carnes que terminava de fritar e os legumes que cozinhava. Desligou o fogão – Agora... preparar uma salada. Ah! Mas antes...

E foi ao banheiro. Contudo, no caminho escutou um ruído mínimo em seu quarto. Imediatamente, apanhou o revólver. Mesmo cozinhando, nunca andaria sem uma arma.

Caminhou devagarinho até o cômodo. Parou. Tentou apurar o ouvido para ver se escutava algo mais. Nada. Seria sua imaginação? Em todo caso, entrou no quarto de supetão para surpreender se houvesse alguém ali. Ou alguma coisa.

Nada. Olhou para todos os cantos. Não havia sinal de que algo estivera por ali, nem se havia levado algum pertence seu. Mesmo assim a conhecida sensação de que estava sendo observado não lhe abandonava.

- Cass?

Talvez fosse ele. Mas nenhuma resposta.

Bobagem. Talvez dessa vez estivesse sendo paranoico. É, pelos dias de tensão experimentados por sua preocupação com Victoria. Sim. Paranoia. Não havia nada de valor ali que pudesse interessar a alguém. E se quisessem atacá-lo, já o teriam feito.

Assim mesmo, deu uma última conferida no quarto para ver se havia alguma coisa fora do lugar, mas depois saiu mais relaxado.

Castiel esperou alguns segundos até ter certeza de que Dean não estava mais por perto.

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Mason começava os preparativos do seu feitiço no velho porão de sua antiga mansão enquanto aguardava por Castiel.

Por mais que estivesse feliz por estar fora do inferno e de todas as penas que havia sofrido, por outro lado, não estava nada satisfeito em receber ordens de um anjo e ainda mais que pudessem favorecer Sam Winchester.

Quisera que o maldito apodrecesse eternamente na gaiola nas mãos de Lúcifer e Miguel! E era irônico ter que criar um feitiço que fosse justamente para salvá-lo.

Bom, não totalmente... Se Castiel soubesse. Esboçou um sorriso perverso.

Antes que o anjo pudesse se dar conta, já seria tarde demais, o acordo deles estaria cumprido e ele livre daquela marca. Uma marca que Castiel colocou em seu coração, uma espécie de pacto que não poderia ser violado e que forçava ambas as partes a cumprirem sua parte. O anjo estava tão desesperado que fora obrigado a recorrer àquele expediente. Selar um pacto com um humano, ainda que bruxo.

Isso não significava que o acordo não pudesse ser por assim dizer... dobrado. Que não se pudesse ir pela tangente.

Mason fora incumbido de ajudar Castiel a trazer Sam de volta. E sabia que a única maneira eficiente não estava ao alcance do anjo, nem mesmo ao dele, por mais feitiços que soubesse. Não. Só havia apenas outro tipo de ser mais poderoso que conseguira tamanha façanha sem grandes problemas. Talvez Castiel também já soubesse disso, mas teimava em encontrar outro expediente. Bem, o bruxo o ajudaria, só não precisava especificar que, por assim dizer, alguma parte faltaria do maldito Winchester.

É claro que não ia facilitar para o miserável e nem seu irmão arrogante lhe arrebatarem de novo a sua Elizabeth. Não agora que estava de volta e tinha oportunidade para impedi-los. Aquela oportunidade não era por acaso. Não. Isso provava que era ele o destinado à sua Elizabeth. Ou Victoria, como era atualmente conhecida.

Havia garantido ao anjo que não faria mal aos Winchesters, mas isso não significava que não pudesse fazer um feitiço poderoso para afastá-los do caminho de Victoria. E quanto à sua amada... jamais poderia prejudicá-la. Ele a amava! Tudo o que fazia era por ela, mesmo que não pudesse entendê-lo. Agora não entendia, mas depois, com o tempo, lhe agradeceria.

Estava tão entretido em suas reflexões que – ele que não era de se assustar facilmente – sobressaltou-se ao escutar a voz de Castiel atrás de si:

- Trouxe tudo o que faltava.

- Por favor... não chegue assim.

- Te assustei? – o anjo arqueou a sobrancelha.

- Não, eu... eu apenas estava concentrado.

- Uma porção de terra do último lugar em que Sam e Lúcifer estavam... – Castiel tirou um frasco cheio de terra do interior do sobretudo e colocou-o diante duma velha mesa onde haviam outros ingredientes dos mais exóticos para o feitiço de Mason –... e os anéis dos Cavaleiros. Tive que roubar isto de Dean sem que ele soubesse.

- Acho estranho você esconder isso dele, considerando que ele é um dos maiores interessados. Mas não é da minha conta.

- Tem razão – concordou o anjo com olhar fulminante.

- Não se preocupe que só preciso mergulhá-los na poção. Você já vai poder devolvê-los. Ah! E agora, o ingrediente final... o sangue...

-... do meu receptáculo – completou o anjo e sem titubear, cortou a palma da mão com uma faca que se encontrava na mesa e escorreu uma boa quantidade de sangue no caldeirão em que Mason elaborava o feitiço – Suficiente?

- E como... bem, com isso já dá.

- O feitiço já está pronto?

- Calma... os ingredientes estão todos misturados. Mas temos que deixar a poção ferver por um bom tempo.

- Até quando?

- Até a próxima lua cheia.

- Então só daqui a uma semana?

- Correto. Mas o que é uma semana para um anjo?

Cass não respondeu. Para ele, aquele prazo não era nada. Mas para os humanos é uma eternidade, dependendo da situação. Pensava em Dean e Vic, sobretudo nesta. Estava comovido pelo sofrimento evidente dela, a ponto de padecer de uma enfermidade que nem ele mesmo com seus poderes de volta conseguiu curar.

Também via a angústia no olhar de Dean por seu estado. O Winchester não aguentaria se também a perdesse.

É verdade que Victoria estava recuperada e Dean, mais aliviado. Teve um rápido vislumbre quando foi "pegar emprestado" os anéis do seu amigo.

Mesmo assim, até quando suportariam a ausência de Sam?

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Vic ainda estava indecisa ao olhar para a tela do laptop de Sam. O DVD ainda estava em uma de suas mãos. Uma gravação contendo uma mensagem de seu amado para ela.

A outra mão segurava o anel de compromisso que Sam havia lhe dado e que ela jogou no chão ao se inteirar que o noivado deles não passava de uma farsa.

Bobby havia guardado tanto o DVD como o anel todo aquele tempo a pedido de Sam com instruções para serem entregues a Collins somente depois que ele estivesse na jaula. O velho caçador só não lhe mostrou antes devido a seu estado emocional das últimas semanas. Agora que parecia mais lúcida e recuperada, segundo as palavras dele, considerou a hora apropriada para lhe entregar tais coisas.

Vic esboçou um sorriso amargo. Lúcida? Talvez. Recuperada? Nunca. Apenas estava motivada a seguir em frente por Dean. Apenas para não lhe amargar mais a vida. E sim, também por seu tio. Ele não merecia sofrer mais uma perda.

Victoria olhou para ambos os objetos em suas mãos. Suspirou. Eram suas últimas recordações de Sam, mas, ao mesmo tempo, eram uma tortura segurar tais lembranças; pesavam em seu coração, sobretudo por serem lembretes de que ele pretendia deixá-la para se sacrificar. Principalmente o DVD. Uma mensagem final.

O que será que Sam tinha para lhe dizer? Só saberia se assistisse. E para assistir teria... que ver o rosto de Sam. E se lembrar de que não estava mais ali com ela e nunca mais o veria novamente.

O estômago se revirou. Não. Não queria ver. Para quê? Não era masoquista. Mas, por outro lado, por que não escutar pela última vez a voz de seu namorado? Além disso, certa dose de curiosidade e ânsia lhe picavam por dentro. Fechou os olhos e mordeu os lábios.

Está bem. Acabemos com isso.

Decidida, ligou o notebook e esperou que o sistema carregasse. Em seguida, apertou o botão da portinhola do driver, inseriu o disco com mão trêmula e aguardou. Apertou o anel na outra mão.

Alguns instantes depois, o rosto lindo de Sam surgia na tela. Para Vic, foi como sentir um soco forte no estômago e o coração querer saltar do peito. Os olhos marejaram, mas ela segurou as lágrimas. Formou-se um nó em sua garganta.

Sam parecia meio constrangido na tela. Suspirou três vezes antes de começar a se pronunciar.

- Oi, Vic.. – tentou esboçar um sorriso, mas falhou – Er... acredito que se você está assistindo esse vídeo, significa que meu plano deu certo. – abaixou a cabeça – Eu enganei o diabo e saltei com ele para a gaiola... e o mundo se salvou.

Victoria estremeceu e abriu a boca, incapaz de pronunciar som.

- Sei que você deve estar ressentida comigo, magoada, decepcionada... e pra não falar arrasada – levantou a cabeça – Mas acredite em mim... não queria que fosse desse jeito. – dessa vez, esboçou um sorriso largo – Acredite em mim, Vic, tudo o que eu queria era estar ao seu lado agora, encontrar uma maneira de vencer o diabo sem precisar ter que fazer isso... e casar com você como eu pretendia desde o início quando te pedi lá naquela ponte. Lembra-se?

Como não poderia? Collins sorriu levemente.

- Naquela hora, apesar de tudo estar contra a gente… o anjo Joshua falou que Deus havia nos abandonado e Dean sem fé em mim, o que eu já desconfiava, eu… eu tinha esperanças de que pudéssemos chegar juntos ao final disso tudo – desfez o sorriso – O irônico é que justo agora que temos uma pequena chance de vencer e até Dean estar mais confiante em mim, é que sei que não será mais possível estar com você – suspirou

Vic fechou os olhos. O coração se lhe apertava.

– Eu te amo, Vic. Amo você muito mais do que possa imaginar. Você foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida... desde sempre. Mesmo quando eu acreditava que você não passava de uma fantasia, um delírio da minha mente. A minha fada mágica... – riu – Toda vez que eu sonhava com você, era como se eu ganhasse nova energia pra seguir em frente acontecesse o que acontecesse. – engoliu em seco – Ainda bem que você se mostrou, provou que existe, que é real... e apareceu na minha vida num momento delicado entre Dean e eu. De certa forma, você nos uniu mais ainda.

Uma lágrima deslizou pelo rosto dela.

-Nunca tenha dúvidas sobre o quanto a amo... mesmo que essa atitude que vou tomar lhe pareça cruel e até traiçoeira. – o rosto de Sam se contorceu – Acredite... estou fazendo isso pensando em você e em Dean... antes de tudo. Não me importo de me sacrificar sabendo que vocês dois vão ficar bem... e o resto do mundo. – fez uma pausa longa como se meditasse bem nas próximas palavras que diria – E é por isso que lhe faço um último pedido. Sei que talvez não tenha o direito de lhe pedir nada... Você deve estar magoada ou zangada comigo nesse momento e... esperava que não, mas talvez dolorida. Mesmo assim eu preciso lhe pedir isso – soltou um longo suspiro – Eu quero que você siga em frente... encontre alguém que a ame, que seja feliz e não se sinta culpada por isso

A expressão no rosto de Victoria foi de surpresa.

– E eu sei que a única pessoa com quem você será capaz de fazer isso é o Dean – Sam apertou os lábios

Victoria abriu a boca.

– Sei que você deve estar pensando agora "Como posso lhe pedir um absurdo desses, ainda mais com meu irmão?" – ficou sério – Vic, sei do que estou falando. Eu sei que você está apaixonada pelo Dean e... que aconteceu no mesmo instante em que se apaixonou também por mim. – riu e balançou a cabeça – É, uma loucura, mas não podemos negar que foi sempre assim, não é? Não é coisa da minha cabeça, você sabe que não. - mordeu os lábios – Acredito que você deve ter lutado contra o que sentia por meu irmão, acho que por isso implica muito com ele até hoje, mas... não é algo em que se manda, não é? – esboçou um sorriso triste. – E eu também tentei lutar contra as evidências, contra meus ciúmes por essa ligação entre vocês. Tentei mentir pra mim, fingi não perceber o que havia, mas estava na minha cara. Eu já sabia antes mesmo de... descobrir sobre o beijo de vocês.

Victoria sentiu uma ponta de culpa. Engoliu em seco. Sabia que ele havia descoberto sobre isso, mas escutá-lo admitir era doloroso. Sam lhe dirigia um olhar penetrante da tela

– Sim, eu sei disso, escutei Dean murmurando sozinho sem saber que eu ouvia... e depois ele acabou confessando. Não se zangue com ele... Dean não queria admitir, eu praticamente o forcei. Foi quando você estava no hospital e eu... agindo como um tresloucado. – assentiu várias vezes – Claro que me perturbou, mas... tudo o que mais me importava era não te perder pra morte. - suspirou – Eu seria capaz de deixar o caminho livre pra vocês dois se fosse seu desejo de ficar com ele, mas no fim... você acabou confirmando não só com suas palavras, mas com seu olhar que ainda me amava e queria ficar comigo.

Vic fechou os olhos e acenou a cabeça várias vezes como se Sam estivesse ali e pudesse ver seu gesto.

- Mas Dean também te ama – cruzou os braços e assentiu – Sim, ele te ama... ele pode não ter me falado com todas as letras, mas é visível o quanto a ama, talvez da mesma forma que eu. E assim como eu, ele sonhava com você desde quando éramos crianças... mas isso você também sabe. Você sonhava com ele, não é? - arqueou as sobrancelhas – Ele não me disse, nem você, mas eu sei. O último sonho que tive com você pouco antes de nos conhecermos no mundo real... Dean estava lá... você também o viu.

Victoria mordeu os lábios. Sam era mais perspicaz do que imaginava, mas lhe doía ter lhe causado dor, mesmo que involuntária.

- Não falo pra que você se sinta culpada e muito menos triste por mim. – a expressão dele era serena – Eu decidi ficar com você mesmo sabendo de tudo isso pelo simples fato de te amar... e de me sentir feliz pelo que você me dá. Eu sei que você me ama, mesmo com esse seu sentimento por Dean. – fez uma pausa – E não sei o que significa esses seus sonhos com ele, assim como nunca conseguimos descobrir o que significam os que você e eu tínhamos juntos. A única coisa que está clara é que assim como nós dois temos uma ligação muito forte, você e Dean também.

Victoria balançou a cabeça

- É por isso que estou te pedindo pra vocês ficarem juntos. Dê uma chance para Dean e para você mesma. Não se sintam culpados por eu estar na jaula... foi uma escolha minha. E vocês não tem que pagar por isso. – a expressão de Sam se fechou – E não tentem me trazer de volta e se arriscar a soltar o Diabo junto... caso contrário, meu sacrifício terá sido em vão. Se querem fazer algo por mim, vocês devem é atender esse meu último pedido. Fiquem juntos... e sejam felizes.

Victoria apertou o anel. A vontade que tinha era de arremessá-lo contra a tela do laptop. Como Sam podia lhe fazer semelhante pedido?

- Vic... parece um absurdo eu te pedir isso, mas não é. Seria absurdo é desejar que você passasse o resto da vida sozinha e infeliz como uma forma distorcida de ser fiel a mim. Isso não quero para você... porque eu te amo... e quero sua felicidade. E se me ama de verdade... você vai se libertar de qualquer dor que possa sentir... e honrar minha memória fazendo o que lhe peço.

Victoria engoliu em seco. O momentâneo sentimento de raiva por Sam deixado de lado. Como poderia se zangar com ele ao lhe falar assim?

- Bem... é isso – ele abaixou o rosto e, poucos instantes depois, levantava a cabeça. Aproximou a face mais ainda da tela, a expressão de tristeza. Por duas vezes, a boca se lhe abriu como se quisesse dizer mais coisas, porém, as palavras lhe faltavam – Adeus.

A mão de Sam mexeu na câmera e sua imagem sumiu da tela.

Sem mais se conter, Victoria abaixou a cabeça e entregou-se a um pranto dolorido.

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Uma semana se transcorreu. E a próxima noite de lua cheia chegou. Os raios lunares incidiam sobre a mansão de Richard Mason.

- Feito. Está pronto – o bruxo afirmou com ar de vitória. Encarou a expressão desconfiada de Castiel – Agora você pode libertar Sam Winchester sem abalar a jaula.

O anjo se aproximou do pequeno caldeirão fumegante, porém, Mason se interpôs.

- Um momento, amigo alado. E nossa parte do acordo? Você prometeu me libertar se eu o ajudasse.

- Quero me certificar de que o feitiço funciona… se vou conseguir mesmo libertar Sam – Mason lhe brindou com expressão contrariada. Cass estreitou os olhos – Algum inconveniente?

- Não – Mason abriu um largo sorriso zombeteiro – Podemos deixar que o cliente comprove que o produto funcione já que não confia na palavra do vendedor mesmo com o selo de garantia – colocou a mão sobre o peito

Castiel desapareceu das vistas do bruxo para reaparecer na outra ponta. Mason se virou confuso para ele. E sem esperar resposta, o anjo enfiou a mão dentro da poção

- Fique à vontade – ironizou o bruxo

De dentro do caldeirão, Castiel tirou uma minúscula chave feita de cristal, tudo que consistia do feitiço. Era incrível que um objeto tão pequeno pudesse ter poder suficiente para que ele realizasse seu intento. Mas se Richard o afirmava...

Sam Winchester, não se preocupe. Seu tormento acaba hoje. E o de Victoria e o de Dean também.

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E aí? O que acharam?

Finalmente Victoria vai sair do marasmo de dor. E no próximo capítulo, creio que sai um beijo entre ela e Dean ( mais cedo do que planejei). Mas só se comentarem, rsrsrsrs...

Até a próxima.