Disclaimer: Card Captor Sakura e seus personagens pertencem ao CLAMP
O Último Reino Antes do Fim
Escrito por: Cherry_hi
Revisado por: Yoruki Hiiragizawa
Ato 2 - A primeira batalha da Hime
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A Hime e Kero se viraram imediatamente. Ali, em cima do mirante, estava sentado um garoto loiro, mais novo que a Hime, com vestes longas laranjas e vermelhas largas. Tinha pele muito pálida e olhos amarelos, que os encaravam com arrogância.
- Quem é você?! - Perguntou Kero, interpondo-se na frente da Hime.
- Ué, você não lembra de mim, Kerberus? - Ele perguntou, usando um tom de voz horrível, meio infantil e meio insolente.
- Não tenho nem ideia!
- Então permita que eu me apresente.
Ele saltou de cima do mirante para o chão, com muita graça e sem nenhum esforço.
- Eu sou Firey, ex-conselheiro Real e atual servo de Phobos, o Senhor da Sombra Púrpura.
- Espera… você fazia parte… do Conselho? - Perguntou a Hime, chocada
- Sim, eu era… mas quando Phobos assumiu o trono e você fugiu, achei que seria mais interessante pra mim me juntar a ele. Afinal, você não passa de uma covarde.
A Hime se encolheu, mas Kero não ia deixar barato.
- Nós não lembramos do que aconteceu, mas tenho certeza que não foi assim como você está dizendo!
- Um dia estávamos cuidando dos nossos assuntos entediantes. - O garoto, Firey, ia dizendo com sua voz arrastada, enquanto se aproximava deles, devagar - Quando, de repente, Phobos surgiu e arrancou a Hime a força do trono! - Ele deu uma risada cruel - Foi excelente! Sempre achei que a Hime tinha pulso fraco para controlar o Reino. Phobos está sendo um regente muito melhor.
- MUITO MELHOR?! - Gritou Kero, indignado - Olhe a sua volta! O Reino está morrendo! As pessoas estão sofrendo! Isso pra você é governar melhor?!
- Ah, isso nunca me interessou. - Ele dispensou o argumento do guardião com um aceno displicente da mão. - Mas as coisas no palácio estão bem melhores, ah isso sim! A pessoas agora me obedecem sem me questionar… e quem questiona… é punido!
A Hime começou a dar passos para trás. Aquele garoto parecia louco. Embora aparentasse ter uns dez, onze anos, sua linguagem corporal, suas palavras e seu olhar sugeriam perigo e violência.
- Como nos encontrou? - Perguntou Kero, sem se mexer
- Ah… um "passarinho" me contou. Literalmente.
- Passarinho… está falando daquele pássaro gigante?! - Ele perguntou, pasmo
- Ele mesmo. Viu vocês subindo a colina e veio me contar.
- E o que você… quer conosco?! - Ela perguntou, encarando-a corajosamente no olhar.
- Estou aqui obedecendo Phobos, que pediu a cabeça da princesinha fujona… - Firey riu desagradavelmente - Mas, como o piedoso que é, disse que poderia polpar sua vida se me entregasse a chave.
- Q-que chave?
- Não se faça de burra. Estou falando dessa chave que você carrega pendurada no pescoço.
Automaticamente, a Hime levou a mão ao peito onde, por debaixo do vestido, a chave repousava
- N-não… posso!
Firey suspirou pesadamente, com falsidade
- Então não tenho escolha a não ser te matar, né? - Ele sorriu, sinistramente
- Você vai cometer um crime se nos atacar! - Gritou Kero
- HAHAHAHA! Como se eu me importasse com isso! E, sob a nova lei de Phobos, o que estou fazendo é punir os perdedores por seus crimes de guerra.
- Mas…
- Chega de conversa! - ele ergueu uma das mãos, de onde brotaram chamas que lambiam seus dedos, mas não o queimavam - Vou me divertir um pouquinho antes de matar vocês. Assim fica mais emocionante, não acham?
Ele estendeu a mão para a frente e atirou uma esfera de fogo bem aos pés da Hime, que recuou, pulando.
- Cuidado, Hime-Sama! - Gritou Kero
Quando a moça olhou para trás, viu que estava a três passos da beira da colina. Firey lançou mais uma vez sua magia e a Hime pulou para a esquerda. Depois, para a direita
- Olha só! Não sabia que a Hime sabia dançar! - Gargalhou Firey, lançando mais esferas de fogo.
- Chega, Firey! - Gritou Kero, extremamente zangado.
- Ah, cale a boca, Kerberus! - o garoto mandou, esticando sua mão na direção do guardião e lançando sua magia de fogo - Sempre foi um saco te aturar no Conselho. E não gosto que me mandem fazer as coisas.
Ele lançou várias várias contra Kero, que desviava habilmente. Até que finalmente uma atingiu em suas asas, ele bateu numa pedra e ficou imóvel.
- Kero-chan!
- Ah não, Princesinha! - Ele fez uma parede de fogo entre Kero e ela, enquanto se aproximava devagar - Agora somos só nós dois.
A Hime engoliu em seco. Olhou ao redor, procurando algum lugar para se esconder. Não havia nada. O mirante estava além, atrás de Firey e o resto da colina era completamente descampada. Ela deu mais um passinho para trás, com cuidado. Ao fazer isso, ouviu um barulho metálico suave. Olhou para baixo e viu a espada. Era tudo que tinha para se defender. Devagar, ela levou a mão à bainha e começou a puxá-la devagar. Firey limitou-se a olhá-la com desdém e certa curiosidade.
- Olha… a princesinha vai lutar. Pode ser divertido. Vamos ver… - Ele fez um movimento com a mão e, de uma labareda de chamas, uma espada curva surgiu. Ele experimentou fazer uns movimentos com a arma, rápidos e precisos - Acho que será o suficiente.
A Hime não falou nada, apenas segurou a espada na sua frente, com as duas mãos, tremendo levemente. Estava com medo, mas determinada a lutar, do jeito que podia, mesmo que perdesse no primeiro golpe.
- Então… vamos começar? Ou melhor… terminar logo com isso? - Riu Firey. E a atacou.
Foi muito rápido. Ele correu na sua direção, numa velocidade inumana, e desferiu um golpe preciso, que com certeza cortaria sua cabeça fora se não tivesse erguido a espada no último segundo. No momento em que as lâminas se chocaram, com violência, soltando faíscas amarelas e quentes, a espada da Hime vibrou. A vibração lhe correu pelo corpo inteiro, estranha, concentrado-se no centro do seu peito e pulsando no ritmo das batidas de seu coração. Algo pareceu explodir dentro dela, uma sensação de familiaridade que correu pelo seu braço dominante e segurou a espada com mais firmeza. Com uma força que não parecia sua, ela empurrou Firey para o centro da colina. O garoto parecia levemente surpreso, mas recuperou o sorriso insolente e posicionou-se para lutar.
- Vamos ver o que a Hime sabe fazer.
A Hime atacou. Seus movimentos estavam coordenados e precisos, tanto quanto Firey havia demonstrado antes e, embora isso devesse lhe surpreender, na verdade parecia ser o certo. Como se, durante toda a sua vida, tivesse sido acostumada a lutar com espadas. Firey se defendeu e logo em seguida tentou atacá-la, por baixo. Mais faíscas voaram quando a Hime evitou o golpe.
A espada vibrava, parecia cantar enquanto zunia pelo ar em movimentos cada vez mais precisos, coordenados e rápidos. Aos poucos, o sorriso de Firey se transformou num esgar de preocupação. Depois de uma sequência longa de defesas, em que a Hime empurrava o garoto cada vez mais para o centro da colina, ela conseguiu furar o bloqueio. Embora a espada parecesse cega e Firey tivesse conseguido recuar, a ponta da lâmina rasgou a primeira camada de roupas.
- Agora está perdendo a graça - Firey resmungou. Fez surgir outra labareda no ar, de onde saiu outra espada curva, igual a primeira, que segurou com outra mão. Girou as duas ao mesmo tempo - Quero ver você lutar agora, princesinha.
Embora estivesse receosa, ela entrou em posição de defesa, encarando-o com firmeza. A espada vibrou na sua mão, como se estivesse excitada. Firey atacou de novo e ela conseguiu a parar as duas espadas em um movimento só. Sucedeu uma sequência de golpes violentos, frenéticos, em que Firey atacava e a Hime defendia, sem se abalar. A espada cega, que lhe parecia tão inútil ao primeiro olhar, travava todos os ataques, defendia sua portadora com bravura enquanto ela fazia os movimentos certos.
Em determinado momento, quando a lâmina curva quase cortou sua mão esquerda fora, a espada dourada conduziu seu braço com uma velocidade incrível e aparou o golpe. Foi quando a Hime percebeu que a arma tinha consciência própria, coordenando seus movimentos com a habilidade de um mestre espadachim. Firey também percebeu.
- Espere um pouco… essa espada… - Ele recuou com um salto, parecendo repentinamente muito zangado - Não vale! Você está usando ele! Está usando Sword!
Assim que seu nome foi dito, a espada vibrou com mais força, chegando a brilhar ligeiramente e impulsionou o corpo da Hime da frente. Firey aparou o golpe, tentou desferir outro, mas Sword era muito rápido. A Hime girou o corpo, resvalou nas duas espadas juntas e, outra vez, furou o bloqueio, atingindo mais acima. Firey soltou um grito de dor e se afastou, desajeitado. Largou as espadas no chão e levou as mãos ao rosto, um pouco abaixo do olho esquerdo.
- Sua… sua… - Firey se tremia todo, parecendo completamente fora de si - OLHA O QUE VOCÊ FEZ!
Ao abaixar a mão, a Hime viu um corte longo que ia da ponta do nariz até quase a orelha esquerda. Apesar disso, o corte não sangrava, mas brilhava numa cor amarelo intensa. Mas o que realmente lhe assustou foi o olhar de Firey, demente.
- EU VOU ACABAR COM VOCÊ! - Ele gritou e começou a pegar fogo. Literalmente, pegar fogo.
As roupas entraram em combustão, sua pele se tornou amarela, seu cabelo transformou-se numa labareda flamejante. Por um minuto, ela pensou ter vistos duas asas enormes em suas costas, mas logo tudo pegou fogo, se transformando numa grande chama ofuscante, tão quente que parecia derreter o ar ao seu redor. Lá em cima, havia uma vaga sugestão de rosto, onde os dois olhos abrasadores - o esquerdo ladeado por uma fina chama horizontal - estavam cravados nela. Um segundo antes de acontecer, a Hime se mexeu, pulando para o lado numa explosão infernal. Exatamente onde ela estivera antes, havia um profundo buraco preto chamuscado. Nem teve tempo de se assustar pois uma segunda labareda veio em sua direção, chamuscando seu vestido no momento que conseguia escapar outra vez.
Firey disparou várias vezes, rápido, fazendo profundos sulcos na terra, enquanto a Hime fugia, desesperada. Sword, ainda em sua mão, vibrava ligeiramente, guiando a garota para os lados para evitar as chamas. Mas aquilo não poderia durar para sempre. Precisava se esconder.
O mirante! Pensou, desesperada, enquanto se esquivava de mais um golpe. Correndo mais rápido que seu vestido lhe permitia, ela foi na direção da velha construção de pedra. Infelizmente, quando estava quase chegando nas escadas, uma das labaredas de Firey quase a atingiu. Ela conseguiu evitar, mas acabou caindo bem em cima do buraco recém formado. Ela gritou de dor quando sentia sua mão direita queimar. Mas não podia perder tempo. Mesmo sentindo uma dor lancinante, ela pegou Sword e conseguiu se esgueirar pela escada e se esconder dentro do mirante, na parte de pedra
- SAIA DAÍ, SUA COVARDE! - Firey gritou, numa voz que parecia um rugido. A Hime sentiu o teto da construção tremer, com o impacto de algo pesado e algumas pedras caíram. Outro impacto e uma rachadura enorme se formou logo acima de sua cabeça - SE NÃO QUER SAIR, ENTÃO VOU QUEIMAR ESSA CONSTRUÇÃO COM VOCÊ AÍ DENTRO!
Trêmula, ela colocou Sword no chão, ao seu lado, e se encolheu completamente, segurando a mão machucada com a outra. Soltou um grito quando, uma outra pancada mais forte se fez ouvir e algumas pedras caíram sobre sua cabeça. Sentiu um filete de uma coisa quente escorrer pela sua testa e, pela visão embaçada pelas lágrimas, ela viu que era sangue.
Ela sentiu o chão e as paredes esquentarem muito rápido, enquanto o ar ao seu redor tremia e se tornava difícil de respirar. As lágrimas caíam do seu rosto para o piso de pedra e evaporavam quase que imediatamente
- É… é assim que vai… -a-acabar? - Ela perguntou, sentindo-se cansada, infeliz, apavorada. Mas uma pancada - E-eu… n-não… quero… n-não quero… morrer… a-assim…
Sword vibrou ao seu lado, suavemente, como se estivesse consolando-a
- P-por favor… alguém… K-kero-chan… a-a-alguém… me… ajude.
Uma pancada muito forte terminou de rachar o teto que, com um barulho ensurdecedor, desmoronou. O único impulso que a Hime teve foi de pegar Sword, que a guiou com suas vibrações mais uma vez para longe do perigo. Ela foi parar perto da cesta que Sasaki-chan havia lhe dado, caída no chão e com alguns doces espalhados. Sentiu uma coisa fria contra sua mão boa. Era o cantil com água.
Firey apoiou seus enormes braços de fogo pela abertura no teto e seus olhos infernais a encontraram. A boca se abriu num sorriso cheio de dentes serrilhados de chamas. Ainda trêmula ela pegou o cantil de água. Quase não conseguiu abrir a tampa. Então segurou o recipiente, como se tivesse esperando ele atacar apenas para lançar seu conteúdo. O sorriso de dentes serrilhados aumentou, junto com o som de um rugido arrepiante. Sword vibrou ao seu lado, como se lhe desse coragem. A Hime fechou os olhos.
O rugido se transformou num grito e em uma chiadeira alta. Quando abriu os olhos de novo, precisou fechá-los imediatamente porque eles arderam imensamente em razão do vapor branco intenso que a sufocava. Ela tossia, enquanto seus pulmões clamavam por ar mais frio. Ela tateou a sua volta até encontrar o cabo metálico da sua espada.
- Me guie para fora daqui. - A Hime nunca soube se murmurou a ordem ou simplesmente desejara com todas as suas forças com o coração, mas Sword lhe obedeceu. Sempre vibrando, fez a moça levantar e a guiou cegamente até fora do mirante, na área das árvores secas e da estradinha. Ali o ar estava menos seco e ela inspirou grandes haustos de ar, enquanto também tossia.
alguns minutos depois, quando sentiu-se melhor, cautelosamente adentrou de novo pelo mirante. A primeira coisa que percebeu foi que as paredes e o piso voltaram a temperatura normal. Ela se apoiou na pedra para poder passar os escombros do teto destruído e sentiu sua mão úmida. Quando finalmente alcançou a abertura do mirante, entendeu o porquê.
Havia uma enorme fluxo de água, como uma cobra transparente gigante, que corria acima do solo e prendia Firey numa prisão circular aquática. Toda vez que a garota de fogo tentava escapar por uma fresta, a parede d'água se mexia e a impedia, causando mais chiados e nuvens de vapor branco.
- WATERY! - Firey gritou - Cadê você?! Aparece, sua covarde!
- Ai, que mania besta essa sua, Firey! - Resmungou uma voz vinda bem do lado da Hime, que levou um susto.
Havia um corpo em formato de uma garota feito de água, com cabelos compridos e um grande rabo de peixe que se perdia no solo molhado. Ela também tinha imensas asas de dragão. Ela estava com os braços cruzados, muito tranquila olhando a prisão aquática no qual prendera Firey. Ela olhou para a Hime
- Ele adora chamar os outros de covardes. - Sua voz era arrastada e ligeiramente arrogante - Aposto que ele a chamou de covarde também, Hime-sama.
- S-sim… - Respondeu a Hime, surpresa e confusa - D-desculpe, mas quem é vo-você?
- Não se lembra de mim? - A Hime fez que não com a cabeça - Nossa, que estranho…
- WAAAAATEEEERYYY!
Houve uma grande explosão, que evaporou toda a água que detia Firey. Um monte de faíscas voaram para todos os lados, inclusive na direção da Hime, que foi protegida por um escudo de água
- Ai ai… sempre tão explosivo… literalmente. - Ela deu uma risadinha pela própria piada. - É melhor ver o que ele quer antes que fique ainda mais inflamado… - E riu de novo
A garota de água impulsionou seu corpo líquido pelo ar até chegar bem pertinho da labareda de fogo, que queimava rapidamente
- O que que você quer, irmãozinho? - A Hime arregalou os olhos. Irmãos?!
- Não se faça de tonta, Watery! - Esbravejou Firey, retomando aos poucos a sua forma de garoto de fogo - Por que diabos você me atacou?
- Na verdade, sou eu quem deveria estar perguntando por que você está atacando a nossa Hime. Por acaso realmente levou a sério essa história de ficar do lado daquele usurpador?
- Faço o que é melhor pra mim e acho que você deveria seguir esse conselho também! Phobos foi a melhor coisa que me aconteceu!
- Então é assim que vai ser, né, Firey? - Pela primeira vez Watery parecia realmente penalizada - Não posso permitir que você machuque a nossa princesa. Significa que seremos inimigos. Me entristece saber disso.
- Por mim, não me importo se você ou os outros Conselheiros idiotas o bastante para ficar do lado da Hime tenham o mesmo destino dela! Que seja então!
Atacou com esferas de fogo e Watery habilmente se defendeu, partindo para o ataque também. Os dois se engalfinharam no ar, lançando faíscas de fogo e jatos d'água para todos os lados. A Hime percebeu que mais e mais Watery levava o irmão para o alto. Foram se tornando menores, menores, menores… até serem apenas um pontinho no céu. Nesse momento, a Hime se lembrou do seu pequeno guardião. Ela embainhou a espada e correu, na direção onde o tinha visto pela última vez.
- Kero-chan! - Ela chamou, aflita - Kero-chan! Onde você está?! Kero-chan!
- Ai, minha cabeça… - Ela ouviu, aliviada, a voz de Kero, ali perto
Ele estava deitado no chão e parecia meio tonto, mas, fora isso, parecia bem. Ela correu para perto dele, pegando-o delicadamente em suas mãos.
- Kero-chan! Você está bem? Está machucado?
- Eu estou bem… só tonto por causa da queda.
- Mas… e a queimadura?
- Que queimadura?
- O garoto… Firey… lançou aquelas chamas em você… nas suas asas…
Ela parou de falar, a medida que virava delicadamente o guardião em suas mãos. As asas estavam intactas, sem marcas de queimaduras.
- Será que eu vi errado? - Ela perguntou, confusa
- Não… eu me lembro de ser atingido - Kero falou, ainda esfregando a cabeça - Mas o que me pegou mesmo foi a batida na pedra.
Eles ouviram um grito agudo, lá do alto. Olharam para cima a tempo de ver o que parecia ser uma bola de fogo cair muito rápido, deixando uma trilha de fumaça negra. O impacto no solo fez a colina inteira estremecer e abriu uma pequena cratera.
- Nossa, Firey… você ainda cai nessa? - Watery descia devagar, parecendo inteira, olhando com leve interesse para a cratera - Desde sempre você cai na pilha de subir demais e começar a perder forças por causa do ar rarefeito.
- Cala… a boca… Watery - Firey retrucou, rangendo os dentes, tentando se por em pé de novo.
Estava na forma do menino loiro outra vez. Suas vestes estavam amarrotadas, sujas e rasgadas, seu cabelo completamente embaraçado. Segurava o braço esquerdo com o direito e estava cheio de escoriações. Watery pousou no chão, ainda em sua forma aquática, com a expressão tranquila.
- E então, irmãozinho? Vai continuar comprando briga comigo? - O outro só continuou olhando-a com muita raiva no olhar - Eu sugiro que você vá embora, senão quiser se machucar ainda mais.
- Droga! - Firey rugiu, irado, pois sabia que não teria escolha. Ele então correu para a beira da colina mas, antes de ir embora, virou-se e gritou - Você me paga, Watery! Aproveite enquanto pode, princesinha! Da próxima vez, vocês não vão escapar!
Virou-se novamente e, transformando-se de novo em fogo, disparou pelo ar, mais rápido que uma flecha, em direção ao muro. Quando ele finalmente sumiu de vista, Watery deu um suspiro
- Ai ai… Firey sempre foi problemático, mas nem tanto assim. Não sei o que houve com ele.
- Er… será que deveríamos ter deixado ela ir embora?
- Se nós tentássemos fazê-lo ficar, ele com certeza iria lutar mais. E, embora tenha levado a melhor, não significa que eu esteja inteira…
Só então que a Hime notou que boa parte a água que compunha os cabelos, dedos e extremidades de Watery estavam completamente congelados.
- Oh! Você está bem?!
- Sim, sim! É um pouco dolorido, mas o dia está bem quente e logo vou voltar ao normal. E você? Está tudo bem com Vossa Alteza?
- S-sim. Estou bem. Só a minha mão… - Ela mostrou a mão queimada para Watery.
- Huuum… não é nada grave, mas vai doer um pouco segurar qualquer coisa por alguns dias. Deixe-me... tentar uma coisa.
Ela pegou a mão machucada da Hime entre as suas. Os dedos congelados pressionaram as queimaduras. Doeu no início, mas em seguida o alívio foi indescritível. Depois, quando os dedos finalmente descongelaram, Watery fez um movimento com as mãos e criou uma pequena corrente d'água, que envolveu a palma queimada como uma faixa.
- Vamos deixar assim até chegarmos em algum lugar onde você possa colocar bandagens de verdade.
- Estamos hospedados numa pequena estalagem na cidade perto da colina. - Falou Kero, olhando preocupado para o horizonte.
Watery piscou. Várias vezes.
- Er… Kerberus? Por que você está nessa forma?
- O que quer dizer com isso?
- Hã… você DETESTA essa forma de bicho de pelúcia. Por que não volta para sua forma verdadeira?
- E qual é a minha forma verdadeira?
Ela piscou ainda mais, muito confusa.
- Você… não se lembra?!
- Na verdade… a gente não se lembra de muita coisa… er… Watery, né?
A confusão se transformou em horror.
- Vocês estão me dizendo que não se lembram de nada?! Do golpe, da fuga… nada?!
- Desculpe.
- Nossa… está pior do que eu pensei. Deve ser por isso que o Reino está desse jeito.
- D-desculpe! - Pediu a Hime, sentindo-se mal
- Oh, não. Não fique assim! Só é preocupante que você tenha esquecido… mas não importa. - Ela olhou para o horizonte, para o Muro - Acho melhor sairmos daqui. Firey pode mandar reforços e não estamos em condições de lutar. Você disse que estão hospedados em uma estalagem, certo, Kerberus? Vamos para lá e no caminho vocês me contam o que houve. Só… preciso me trocar.
Ela fechou os olhos e a água que fazia parte do seu corpo foi se tornando sólida e opaca. Os cabelos foram ficando escuros, no comprimento da cintura, além de lisos e muito brilhantes. A pele também se tornou opaca e foi escurecendo, até adquirir a cor de ouro velho. Roupas largas como as de Firey apareceram no corpo delgado da garota, mas eram de vários tons de azul. Em seus braços, sugiram grandes pulseiras de ouro, além de um colar e um brinco do mesmo material, que eram ricamente trabalhados. Finalmente, quanto a última gota de água secou, ela abriu os olhos, que eram de um castanho escuro bastante penetrante. Ela riu da cara de espanto da Hime.
- É bom você ir se acostumando, Hime-sama.
Deixaram a clareira e embrenharam-se pelo o que restou do mirante. Olhando pela última vez a colina, reparou que o solo estava todo queimado e cheio de buracos, mas pelo menos o fogo se extinguira.
Enquanto desciam pela estradinha ladeada de árvores, Hime e Kero iam contando tudo o que lhes acontecera até ali.
- Um pássaro azul gigante, né? - Watery franziu o cenho, enquanto a Hime confirmava com a cabeça. Ela suspirou - Então Fly também está do lado deles. Me pergunto quantos de nós traíram o Reino para se aliar a Phobos.
- Espere um momento… - Kero voou das mãos da Hime até o ombro de Watery - Está dizendo que aquela coisa enorme é um dos conselheiros?! Como é que cabia no palácio?
- Ah, aquela é uma das formas de Fly. Ele consegue se transformar em humano, como todos os outros. Mas, convenhamos… o pássaro gigante é muito mais intimidante que um adolescente, não é?
- Acho que sim.
- Imagino que Fly deve ter visto vocês e avisou Firey, que atacou. - A Hime voltou a balançar positivamente a cabeça - Eu vi a fumaça lá debaixo e resolvi investigar, mas demorei para conseguir subir a colina… como você conseguiu se virar, com Kerberus na sua forma inútil?
- Ei!
- Bom… eu usei esta espada. - Ela tirou a arma da bainha com cuidado. - Ela… acho que é mágica. Firey se referiu a ela como Sword.
- Sword?! - Repetiu Watery, espantada, se movendo tão rápido que fez Kero se desequilibrar de seus ombros. Ela pegou a espada dourada das mãos da Hime e a examinou de perto, chegando a ficar vesga ao inspecionar a ponta da lâmina - Mas é! Não acredito! É ele mesmo!
- Então você também conhece essa espada?
- Claro que sim. Ele é um dos nossos! É um dos Conselheiros Reais!
- O QUE?! - Perguntaram a Hime e Kero ao mesmo tempo, boquiabertos.
- Sim! É o nosso mestre capitão da Guarda Real! Não o reconheci porque faz tempo que não vejo essa forma. Caramba!
- Estão eu estive com um conselheiro o tempo inteiro e não sabia? Mas por que ele não falou nada? Por que não se transformou para falar comigo?
- Huuum… realmente é uma boa pergunta. Quando Sword está na forma de arma, ele só se comunica através de magia. E, apesar de ser capitão da guarda, sempre foi um preguiçoso. - Ela empunhou a espada com mais firmeza e seus olhos brilharam ligeiramente. A Hime e Kero viram a espada vibrar. Watery suspirou - Estão vendo? Sabia o tempo todo que estava com vocês, mas não se manifestou até quando se fez necessário! Caramba, Sword!
- E por que não ele não virou humano? Por que está nessa forma?
A garota morena se concentrou outra vez. Voltou a olhar para a Hime, parecia perplexa.
- Ele disse que não consegue. Não tem magia suficiente para voltar ao normal.
- Ele está fraco então? Eu… gastei a energia dele? - Ela parecia horrorizada.
- Não, não… ele tem poder suficiente para exercer seu principal dever, que é protegê-la, Hime-sama. Basta você desejar.
- Mas tem algo que possamos fazer para que ele volte a ser humano? Talvez ele seja mais útil para nós assim! - Comentou Kero, animado.
Watery devolveu Sword para a Hime, que voltou a guardá-lo na bainha.
- Não é tão fácil assim. Requer muita magia. Então, ele iria precisar de ajuda.
- Do quê?
- De quem, na verdade. - Watery olhou direto nos olhos da Hime - Da sua, Hime-sama.
- EU?
- Sim! Estou até com medo de perguntar, mas… você ainda está com a Chave Real?
Por um momento, a Hime não soube do que Watery estava falando. Quando se lembrou da chave que levava pendurada no pescoço, que puxou para fora das vestes.
- Imagino que esteja falando disto, não?
- Isso! Que bom que ainda está com você!
- Era isso que Firey estava querendo. A chave e… me matar. - A Hime estremeceu.
- É uma ótima notícia que Phobos não tenha conseguido a chave.
- Mas… afinal o que ela faz? - perguntou Kero.
Os ombros de Watery caíram.
- Não me digam… que também não se lembram… da chave?
Os dois balançaram negativamente a cabeça. A menina começou a andar de um lado para o outro, tropeçando nas vestes muito grandes de vez em quando.
- Isso explica porque o Reino está morrendo. E também porque alguns Conselheiros se bandearam pros lados de Phobos. - Watery notou as caras confusas de Kero e da Hime e apressou-se a explicar - Imagino que vocês não saibam mas nós, os 19 Conselheiros Reais, somos responsáveis por manter a Ordem do Reino.
- Isso nós sabemos. Já nos explicaram na vila sobre isso. - Comentou Kero.
- Eu, por exemplo, cuido da manutenção dos rios e chuvas. Windy, uma das minhas minhas irmãs, é responsável pelos ventos que refrescam o Reino. Wood cuida das florestas. Light e Dark são encarregadas, respectivamente, do dia e da noite. Todos os Conselheiros possuem uma atribuição, por menor que seja. Essa chave, na verdade, é um báculo, que se transforma no catalisador de seus poderes, Hime-sama. Você é uma pessoa extremamente poderosa!
"Você usa o báculo para nos controlar e garantir que façamos todos os nossos deveres, emprestando seus poderes para que nós, mesmo a distância, consigamos suprir todas as necessidades do Reino. Contudo, quando Phobos usurpou o trono, esse equilíbrio se desfez. Com o báculo em forma de chave e com o Conselho desfeito, o Reino mergulhou no caos. Suponho que você não se lembre de como faz para abrir a chave e transformá-la em báculo, não é?"
- Não, não lembro. Você sabe? - Perguntou a Hime, esperançosa.
- Você precisa recitar as palavras mágicas que abrem a chave. Mas eu não sei quais são. Na verdade, ninguém do Conselho sabe. Só você e os Guardiões.
- Então… não tem solução, não é mesmo? - Perguntou a Hime, desanimada, olhando para misteriosa chavinha.
- Eu não disse isso. - Ela se encaminhou até a Hime e colocou uma mão nos seu ombro. Era gelada e úmida - Tenho certeza que, com o tempo, você vai se lembrar. Só não podemos desanimar. "Zettai daijoubu dayo".
Como sempre acontecia, ela se animou ao som daquelas palavras.
- Então… o que devemos fazer primeiro?
- Primeiro vamos voltar para Tokei. Você precisa cuidar dessa mão e descansar. Depois decidiremos qual será nosso próximo passo.
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Assim que chegaram na porta da estalagem, Hisakawa-san deu um grito de horror. Só então a Hime percebeu que estava toda suja, com sangue seco na cabeça, o vestido chamuscado e a mão queimada. Felizmente, a velha senhora não fez perguntas: tratou apenas de preparar um bom banho para ela, cuidar de suas feridas e providenciar um excelente almoço para Kero e Watery, que devoraram a deliciosa comida.
Inclusive, Watery foi apresentada como Mizuho, uma "amiga" que eles encontraram por "coincidência" no caminho. A Hime já havia avisado que, na vila, todos pensavam que ela se chamava Maki Hanako, mas estava sendo difícil não chamá-la pelo título. Então Watery preferia ficar calada.
Depois de limpa e bem cuidada, Hisakawa-san insistiu para que a garota fosse descansar um pouco. Ela se deitou, mas sem conseguir dormir, preocupada, tentando absorver tudo o que acontecera. Kero, por outro lado, dormia placidamente ao seu lado. Olhou para a mão direita, enfaixada, que ainda latejava um pouco. Depois, olhou a espada, que repousava placidamente em cima de uma cômoda. Por fim, suspirou. Ao menos era bom saber que não estava sozinha afinal, que se Watery e Sword estavam do seu lado, outros conselheiros poderiam estar por aí, talvez procurando por ela.
Virou-se na cama e viu que Watery lhe observava, pelo lado de fora da janela.
- Não consegue dormir, Hime-sama?
- Não. E você? Não está cansada?
- Agora estou melhor, depois do almoço. - Ela olhou para os lados - Eu fiquei fora de ação alguns dias e tudo está uma zona. Perguntei para os moradores como está o nível do poço e me disseram que está quase seco. Preciso fazer alguma coisa em relação a isso. Nós só vamos embora amanhã, pela manhã, não é?
- Creio que sim.
- Certo. Hime-sama, não saia daí, por favor.
- Por quê? Ei, aonde você vai?
A Hime chegou a se sentar na cama, mas Watery já tinha ido. Alguns minutos mais tarde, ela sentiu a luminosidade diminuir bruscamente lá fora. Curiosa, espiou pela janela e viu nuvens negras e pesadas de chuva dominarem toda a vila de Tokei e uma boa parte da região. Logo depois, os primeiros pingos de chuva começaram a cair, aumentando gradativamente, lavando a vila, molhando as plantas e refrescando o ar. Os moradores de vila, apesar de parecerem surpresos, comemoraram. As crianças saíram para brincar na chuva e os adultos correrem para encher baldes, potes e barris.
A Hime colocou a mão em formato de concha pela janela, aparando um pouco da água, que era bem fresca, sorrindo. Talvez as coisas não estivessem tão ruins, apesar de tudo.
'
A chuva durou a tarde inteira e boa parte da noite. Lá pelas onze, ela foi diminuindo até parar completamente. Algum tempo depois, Watery entrou arrastando os pés pelo alojamento dos criados. Sasaki-chan já estava dormindo profundamente, mas ela fez um sinal positivo com as mãos para a Hime, com um sorriso cansado. Ela foi até a cama onde Kero estava deitado, pegou o guardião e o jogou no chão.
- Ei!
- SHHHHHHH! - Apressou-se a fazer a Hime, apontando para Sasaki-chan
Watery se cobriu com o lençol de algodão. Segundos depois, estava ressonando profundamente.
- Se ela tivesse pedido com educação eu teria cedido metade da cama pra ela. - Reclamou Kero, aos cochichos.
- Coitada, ela fez chover um tempão, além de ter lutado contra Firey para nos salvar. Deve estar muito cansada. - Volveu a Hime, no mesmo tom de voz.
- Sobrou pra você então, que vai te que dividir a cama comigo.
- Por favor, Kero-chan! Você só precisa de um travesseiro para conseguir dormir bem!
- Mas eu mereço todo o conforto de uma cama, né?
- Afff…
- Maki-chan.
Hisakawa-san estava na porta do quarto, sorrindo.
- Será que podemos conversar? Sei que amanhã você vai partir bem cedinho, talvez não dê tempo e eu gostaria de dar uma palavrinha com você.
- C-claro, Hisakawa-san.
- Enquanto você vai lá, vou esquentando a cama pra você. - Falou Kero, se acomodando para dormir.
A Hime saiu do quarto na ponta dos pés. A senhora guiou a garota até o salão da estalagem, que estava vazio, na penumbra, com as cadeiras em cima das mesas. Hisakawa-san acendeu uma vela, desceu duas cadeiras de uma mesa e pediu para a moça sentar-se, enquanto ia até o balcão do bar. Quando voltou, trazia uma garrafa com um líquido marrom, juntamente com um copo.
- Você não se importa se eu beber um pouquinho, não? Esses últimos dias foram bem longos. - Ela despejou uma boa quantia no copo. O líquido tinha um cheiro bem forte. Ela tomou um gole pequeno, fazendo uma caretinha. - Até ofereceria para você, Hime-sama. Mas você ainda não tem idade para essas coisas. E também, pelo que percebi, não bebe nem come nada.
- Eu não sinto vontade nenhuma. Isso é normal?
A senhora fez um gesto descontraído com os ombros
- Você é a Hime do nosso Reino e nós sabemos pouca coisa sobre você. Se você não sente vontade, deve ser porque não precisa. - Ela tomou mais um gole da bebida e colocou o copo na mesa com um barulho seco - Agora, eu gostaria que você me contasse o que aconteceu naquela colina. Fiquei louca de preocupação quando vimos a coluna de fumaça negra e o brilho de fogo. Eu sabia que tinha acontecido alguma coisa e já estava preparada para subir aquela maldita estradinha, mesmo que isso terminasse de estragar os meus joelhos. Mas então, a fumaça diminuiu. Horas depois, você me aparece com aquela garota…
Levou cerca de quinze minutos até que a Hime conseguisse contar tudo o que acontecera naquela manhã. A medida que ela descrevia os perigos que correra, Hisakawa-san tomava goles cada vez maiores da sua bebida. Quando ela finalmente terminara, o copo estava vazio e a boa senhora estava enchendo-o outra vez, perplexa.
- Então… essa garotinha é Watery, a Conselheira Real?! Não achei que o nosso Conselho fosse composto também por crianças!
- Para ser bem honesta, nem eu.
- Então foi por isso que choveu hoje… Uma das minhas amigas me disse hoje que o poço voltou a ficar cheio.
- Não vai ficar assim por muito tempo. - A Hime observou, cabisbaixa - Iremos embora amanhã e provavelmente o poço secará outra vez.
- Ainda assim, é um alívio, mesmo que temporário. - Reiterou Hisakawa-san, com firmeza - Ouça-me, Hime-sama: o seu poder foi tomado a força e é natural que as coisas estejam confusas. Vão ficar assim por um tempo. Precisamos fazer a nossa parte, vivendo nossas vidas e enfrentando as dificuldades que virão.
- Dificuldades?
Hisakawa tomou um longo gole de sua bebida
- Tenho certeza que aquele usurpador mandará alguém no seu encalço. Fatalmente, procurarão saber se você esteve aqui e não medirão meios para conseguir as informações que precisam.
- Pelos céus! - A Hime colocou as mãos na cabeça, horrorizada - Eu… E-eu não tinha pensado nisso antes! Vocês poderão se machucar… Por minha causa!
- É um risco que correrei com prazer! - Rebateu a senhora, orgulhosamente - E também Sasaki-chan ou qualquer um que seja desta vila ou deste Reino. Ninguém quer aquele homem no poder e faremos a nossa parte para que esta situação mude.
A Hime continuava segurando sua cabeça em suas mãos, angustiada. Hisakawa-san segurou-lhe os ombros com carinho, falando com muita ternura:
- A situação parece ruim, mas tenho fé. Faremos nossa parte com a certeza de que você está fazendo a sua. Então, anime-se, minha querida.
Aquelas palavras, entretanto, a fizeram chorar. A boa senhora a abraçou apertado, enquanto ela percebia que estava precisando daquele conforto. Não porque estivesse triste ou com medo da sua tarefa. Ela apenas sentia que um peso muito grande lhe saía do peito, junto com as lágrimas.
Chorou até seus olhos arderem, entretanto, quando finalmente parou, sentia-se bem melhor. Até arriscou um sorrisinho.
- Isso mesmo, Hime-sama. "Zettai daijoubu dayo". - O sorriso da moça aumentou ainda mais. - Bom… agora vamos acertar algumas coisas… Seu pagamento pela ajuda…
- Espere, Hisakawa-san! Não precisa! Você me deu abrigo, alimentou o Kero e não falou nada quando cheguei com Watery… - Ela ia continuar falando, mas a boa senhora apenas balançou a cabeça em negativa.
- Não, não. Eu sempre dou comida e alojamento para os meus empregados. Kero também trabalhou e também vai receber um pagamento. Vai ser menor que o seu, já que ele comeu por ele, por você e por mais umas três pessoas. Quanto a sua amiga… ela já me pagou quando lhe protegeu.
Os olhos da Hime se encheram de lágrimas novamente. Só que desta vez eram lágrimas de gratidão.
- Obrigada, Hisakawa-san.
- Não me agradeça, querida. Sinto-me honrada por ter podido ajudar a Hime do nosso Reino. Você merece tudo de melhor. Pena que não pude oferecer instalações mais confortáveis.
- Oh, imagine! Eu fiquei muito confortável aqui. E segura.
- Ótimo. Existe mais alguma coisa que eu possa fazer por você?
- Huuuum… Na verdade, sim… gostaria de saber para onde você me sugere ir. Pra… coletar informações, passar despercebida…
Hisakawa-san ficou calada alguns instantes, considerando possibilidades, mas quando sorriu, a Hime sabia que ela tinha pensado em alguma coisa.
- As maiores cidades do Reino são a Capital, Watashi; Logo em seguida vem Kasokuma, mas ela também fica muito perto da Capital, então sugiro que você a evite por enquanto. E nos resta Seitomura, a Cidade dos Estudantes. Fica relativamente perto daqui e você poderá passar despercebida, porque todos os habitantes em idade escolar vão para a cidade, então terá bastante gente da sua idade para você se mesclar. E lá com certeza você conseguirá melhores informações sobre o que está acontecendo em Watashi.
- Você tem razão. Obrigada, Hisakawa-san! Teria como você me passar as direções de Seitomura?
- Posso fazer melhor que isso. - Ela se levantou e foi até o balcão da estalagem. Remexeu em uma gaveta cheia de papéis até encontrar um grande papel amarelado, dobrado em várias partes. Entregou-o para a Hime - Acho que com isto você vai se achar rapidinho.
A moça soltou uma exclamação de surpresa e alegria ao abrir o grande mapa da Região.
- Esse mapa se foca mais na região leste do Reino, o que é uma coisa boa. Veja - Ela pontou para um pontinho a sudeste do mapa - Aqui é Tokei. Se você for por aqui, vai chegar mais rápido, mas é uma estrada bem deserta e perigosa. Já por aqui, passando por Hanamura, Taiyohama e Penginki, embora um caminho mais longo, será mais seguro, desde que a Hime-sama tome alguns cuidados. Aquela sua roupa com a qual você chegou e a presença de Kero-chan lhe denunciaram para mim.
- Kero vai ser fácil de esconder, é só ele fingir que é um boneco ou bicho de pelúcia. Quanto às minhas roupas…
- Não se preocupe com isso também. Darei a você algumas roupas simples e confortáveis.
- Ah, não, Hisakawa-san! Assim já é demais! Não posso aceitar!
- Mas você precisa, minha querida.
- Mas eu… Ah! Então você pode descontar do dinheiro que ganhei aqui?
- Hime-sama…
- Por favor…! - O rosto da garota estava envergonhado e súplice, ao mesmo tempo. Hisakawa deu um sorrisinho derrotado.
- Se você insiste tanto…. tudo bem, descontarei de seu pagamento.
- Vou me sentir melhor assim.
- Eu vou pedir apenas que você não gaste seu dinheiro com bobagens. Guarde para suprimentos de maior importância. Tenho a impressão que Kero-chan vai implorar para que você compre doces em cada cidade pelas quais vocês passarem.
A Hime deu uma risada gostosa.
- Tenho certeza que sim.
A senhora olhou pela janela, em direção a torre do relógio.
- Já está bem tarde e, quanto mais cedo vocês saírem, melhor será. Tente dormir um pouco.
A Hime sorriu e deu mais um abraço na boa senhora, que retribuiu com força.
- Eu nunca serei capaz de lhe agradecer completamente por tudo que a senhora fez por nós.
- Quando você tomar seu Reino de volta, será o suficiente para mim.
- Mesmo assim… muito obrigada...
'
- Aqui estão algumas coisas que preparei para a viagem de vocês. - Sasaki-chan entregou-lhes uma cesta grande, da qual saia um cheiro delicioso que fez Kero suspirar - Deve durar até vocês alcançarem a cidade de Hanamura.
- Eu levo. - Watery pegou a cesta da mão da Hime - Acho que conseguirei ser mais firme que a Hi… er… que a Hanako quando Kero-chan implorar por mais doces.
- Bom saber o quanto você me subestima, Wa… Mizuho. - Resmungou o guardião, indo se sentar nos ombros da Hime.
Eram quase oito da manhã e o dia, como sempre, já estava bem quente e seco. Mas, desta vez, a Hime vestia um vestido bem leve, da cor verde. Dentro da mochila, levava as vestes com as quais chegara na cidade e mais uma muda de roupas fornecidas por Hisakawa-san. Eles já haviam se despedido da boa senhora, que tivera que correr para atender alguns clientes que chegaram inesperadamente aquela manhã.
- Obrigada, Sasaki-chan. - A garota sorriu com doçura e a Hime sentiu uma profunda afeição por ela. - Espero que um dia eu te veja de novo.
- Eu também. - Ela pareceu hesitar, timidamente. - Eu tenho dois pedidos para fazer a você.
- E quais são?
- Hum… se não for te atrapalhar, será que você poderia entregar essa carta para mim? - Ela tirou um papel dobrado e selado com cera. - Sei que vocês vão passar por Seitomura e meu noivo é professor.
- Não sabia que você era noiva. Que legal! Não se preocupe, entregarei sua carta. Como ele se chama?
- Terada Yoshiyuki. Ele dá aulas para o primário, na Segunda Escola. Não tem como errar.
- Será um prazer. E qual é o outro favor?
Ela enrubesceu um pouquinho, mas falou, com doçura:
- Er… eu… posso te chamar de Hanako-chan?
- Claro. - Ela se sentiu um pouco culpada por ter mentido sobre o seu nome e sua verdadeira posição. Mas era melhor assim - E eu posso te chamar de Rika-chan?
- Sim. Desde que eu a vi pela primeira vez, tive esse sentimento muito intenso de que nós nos daríamos bem. Estranho, não é?
- Acho que você está certa. - A Hime pegou as mãos de Sasaki, ou melhor, Rika-chan e as apertou. - Seríamos grandes amigas se eu pudesse ficar mais tempo.
Elas se abraçaram e a Hime teve uma fugaz sensação de familiaridade, conforto, que reiterou seu pensamento que Rika-chan era, de fato, uma pessoa extraordinária.
- Vou escrever pra você assim que chegarmos em Seitomura. Obrigada, obrigada por tudo… e até mais.
- Até.
Rika-chan permaneceu na porta da estalagem, acenando, até que eles sumiram na curva da estrada. Então, ela fez uma prece com todo o seu coração, para que a Hime-sama conseguisse vencer as dificuldades que ela iria encontrar pelo caminho.
'
(continua)
Segundo capítulo no ar! Espero que tenham gostado!
Será que alguém ficou muito surpreso que eu transformei as cartas em Conselheiros? Que ficou, levante a mão! ;) No original, havia esses conselheiros e transformar as cartas no Conselho do Reino me pareceu uma decisão óbvia. Espero que tenham gostado.
Talvez alguém reclame que eu transformei Firey em um menino. Bom, tomei essa decisão porque a maioria das cartas Clow tem formas femininas. Assim, deixei Firey como homem e Sword também (embora, no português, espada seja um substantivo feminino). Acredito que isso não deva atrapalhar em nada, mas peço desculpas àqueles que não gostarem dessa novidade.
Bom... E é isso. Estou com uma política de não me estender muito nos comentários, falando somente o necessário.
Agradecimentos especiais para a Juia Kinomoto Li, Ana Pri-chan e Mary3009, que deixaram reviews aqui no site. Também agradeço todo mundo que está lendo. Críticas, elogios e sugestões, mandem nos reviews.
Um grande beijo,
By Cherry_hi
