Disclaimer: Sakura Cardcaptor e seus personagens pertencem ao CLAMP


O Último Reino Antes do Fim

Escrito por: Cherry_hi

Revisado por: Yoruki Hiiragizawa

Ato 7 - A Hime e as vozes.

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O vento forte obrigou a Hime a semicerrar os olhos.

Estava, outra vez, a beira do Abismo do Fim, sentindo o vento gélido que subia pela encosta sem fundo revirar as sedas das suas vestes e os seus cabelos. Estava, novamente, com suas roupas reais e não havia sinal de Kero, Watery, Flower ou Sword.

- Olá?! - Ela gritou e sua voz se perdeu no eco sombrio.

Ela arriscou dar uma olhada para o fundo do abismo, mas a escarpa se perdia numa escuridão tão profunda que parecia absorver a luz intensa do dia que brilhava sobre sua cabeça. Inconscientemente, ela deu uma passo para trás.

Olhou para a ambos os lados e viu que o abismo se estendia de norte a sul continuamente, além de onde sua vista alcançava. O chão era de pedra cinza crua, que gradualmente virava uma grama seca enquanto avançava para oeste, em direção a floresta seca das Terras Ermas.

Do outro lado do abismo, erguia-se uma escarpa tão comprida como a em que ela se encontrava, embora mais alta, sendo encoberta por uma névoa branca. No entanto, ela pôde distinguir duas silhuetas em pé na beira do Abismo.

- Oi?! - Ela gritou, muito alto. - Quem são vocês?!

A Princípio, não houve resposta e as figuras continuaram lá, paradas, em meio a névoa branca.

- QUEM… SÃO… VOCÊS?! - Ela voltou a gritar, com toda a força que conseguia

"Encontre-nos..."

Não era uma voz. Não era um pensamento. Era uma sensação, tão nítida quanto frio e calor.

- O QUÊ? ONDE?!

"Encontre-nosEncontre-nosEspelhoOnde as almas…"

- Não entendo… - A voz da Hime foi sumindo.

"Encontre-nosOnde as almasEncontre-nos…"

- AAAAAAAIIIII! - A Hime acordou, gritando, sentindo uma picada no braço.

- Finalmente! - Kero resmungou, aborrecido. - Isso já está ficando ridículo, Hime-sama! Até a Flower já acordou.

- O que vocês fizeram comigo dessa vez?! - A Hime perguntou, passando a mão no braço, onde doía.

- Um beliscão bem dado, querida. - Flower falou, sorrindo. - Precisamos trabalhar, lembra? Não dá pra ficar dormindo a manhã inteira, embora quiséssemos. - Ela suspirou.

- Com o que você estava sonhando? - Perguntou Kero, curioso. - Estava falando durante o sono… "Encontre-nos".

- Por causa do beliscão, não vou contar pra vocês! - Ela retrucou, chateada, levantando-se da cama. - Só quando eu chegar a casa, à noite, eu vou contar.

- Nossa… que rancorosa…

- Você quer que eu a acompanhe até a floricultura, Hime-sama?

- Não, Flower. Está tudo bem. Você destruiu os soldados que estavam na cidade, não é?

- Sim, ontem à noite. Na minha ronda pela manhã, não vi um sequer. Acho que estamos seguros por enquanto.

- Perfeito.

- Ainda assim… - Flower fez um movimento com a mão e uma flor muito bonita, de pétalas brancas e amarelas, surgiu em sua mão. Ela colocou a flor nos cabelos da Hime. - Se por acaso você precisar de mim, arranque todas as pétalas dessa flor e eu aparecerei imediatamente.

- Obrigada, Flower.

- Ei! Não esquece de pegar meu café da manhã! - Lembrou Kero. A Hime sorriu maldosamente.

- Huuum… por causa do beliscão, acho que vou "esquecer" seu café hoje.

- O quê?! Mas nem fui eu quem fez isso!

- Pode até ser, mas tenho certeza que você foi conivente com a ideia.

A Hime fechou a porta antes que algum outro hóspede escutasse os resmungos indignados de Kero.

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- Eles ficavam repetindo "O espelho" e "Onde as almas"... - A Hime terminou de relatar o sonho pra Tomoyo, de pé em cima de um banquinho, enquanto a morena terminava de ajustar o vestido. - Eu sinto que é algo importante, mas não entendi o que poderia ser.

- Se eu fosse você, não pensaria muito sobre isso. - A outra retrucou, concentrada em arrumar a barra da roupa - Pode ter sido só um sonho, não?

- É mas… É que eu já sonhei com algo que aconteceu depois.

Tomoyo parou no meio da ação de enfiar a agulha no tecido, olhando admirada para a Hime.

- Sério?! Você então tem sonhos premonitórios?

- Não com tanta frequência. Tive só uma vez. Sonhei que ia conhecer Fl… er… Tachibana-san e acabou acontecendo.

- Huuum…

- O que foi?

- É que essa habilidade é bem rara aqui no Reino. Poucas pessoas a possuem. A mais famosa é a Tsukimiko.

- Tsukimiko?

- Sim… a sarcedotisa do Tsukimine jinja. Ela é muito versada em divinação. Sabe tudo do passado, presente e futuro.

- Sério? - A Hime se empolgou. Talvez a sacerdotisa pudesse ajudá-la a lembrar de seu passado. - Onde fica esse templo?

- Tsukimine, uma cidade perto da Floresta do Silêncio.

A Hime pensou um pouco.

- Fica muito longe daqui?

- Quase duas semanas de viagem.

- Droga... acho que não faz parte do meu roteiro de viagem. Vai ficar para a próxima. - Tomoyo ficou calada e, depois de alguns segundos, a Hime perguntou: - Existe mais alguém que tenha esse tipo de poder?

- Olha… pelo que eu saiba, não. O Ou-sama possuía esse poder e dizem que a Hime-sama também possui… - Outra vez, o sangue da Hime gelou. - Mas nunca ninguém soube ao certo. Enfim… me surpreendi porque é um dom bastante raro.

Depois disso, ela se calou, concentrada na sua costura e a Hime ficou pensando. Seu instinto lhe dizia que era um sonho importante, mas que fora diferente do que tivera com Flower. Mais tarde falaria com suas Conselheiras sobre o sonho e pediria suas opiniões.

- Pronto! - Exclamou Tomoyo, satisfeita, levantando-se e admirando seu trabalho, entusiasmada - Ficou perfeito, como achei que ficaria.

- Tem algum espelho grande para que eu possa olhar?

- Sim, tem sim! - Tomoyo pegou a mão da Hime e a arrastou até o escritório da mãe, tirando alguns vasos de flores e um cabideiro da frente de um grande espelho de parede. Depois empurrou a garota para frente do objeto. - Olha, olha, olha!

A Hime perdeu o fôlego: o vestido violeta que usava era lindo, com uma saia esvoaçante de muitos tecidos leves, corpete justo e todo bordado, e mangas transparentes caídas sobre os ombros. Combinou perfeitamente com seu tom de pele e realçou a cor de seus olhos.

- Tomoyo-chan, que vestido maravilhoso! - Ela deu uma rodopiada, fazendo o tecido leve da saia levantar como nuvens. - É perfeito!

- Obrigada, mas, é claro, a modelo ajuda. - Ela agradeceu, parecendo muito feliz. - Você está parecendo uma princesa.

A Hime corou com os elogios, mas sentiu estremecer de leve com a comparação. Coincidência ou não, a morena mencionava o termo "princesa" com muita frequência em sua presença.

- Será que você poderia ficar parada um tempinho para mim? - Tomoyo perguntou, de repente, pegando um bloco de desenho e um lápis de dentro do bolsão do avental que usava. - Queria registrar esse momento.

Embora ainda encabulada, a Hime balançou afirmativamente a cabeça. Tentou ficar imóvel o máximo que conseguia durante os cinco minutos que levaram para Tomoyo desenhar um esboço muito bem feito dela usando o vestido.

- Caramba! Costura bem, tem bom gosto e ainda desenha! Você é demais, Tomoyo-chan! - A Hime exclamou, empolgada.

- É muito gentil da sua parte dizer isso.

Antes que a Hime pudesse retrucar, a porta se abriu de supetão e Sonomi entrou, carregando um grande bouquet de flores brancas.

- Ah, você está aqui, Tomoyo-chan! Os lírios finalmente chegaram! Você já almoçou? Oh, oi, Maki-chan! Que vestido lindo esse seu!

- Obrigada, Daidouji-san. Mas é da Tomoyo-chan, foi ela quem fez.

A Hime, que imaginava que Sonomi fosse elogiar a filha, ficou muito surpresa quando a mulher fechou a cara e dirigiu um olhar muito zangado para Tomoyo, que se encolheu ligeiramente.

- Eu deveria ter imaginado! Já disse para você parar com essa história de costura, Tomoyo! Precisa se concentrar em coisas importantes e parar de ficar sonhando! - Com raiva, ela depositou as flores de qualquer jeito na sua mesa e foi saindo, pisando duro. Parou a porta e falou, bruscamente. - Espero que não tenha perdido seu horário de almoço todo com essa bobagem, porque preciso dessas flores cortadas e limpas em vinte minutos!

A porta bateu com força e as duas ficaram num silêncio pesado e desconfortável durante alguns segundos. A Hime estava chocada, olhando para Tomoyo que parecia estar fazendo força para engolir o choro e a tristeza. Ainda em silêncio, ela voltou a guardar o bloco de desenho no avental e foi até a escrivaninha, recolhendo vagarosamente algumas flores que haviam rolado para o chão.

- Tomoyo-chan…

- Hanako-chan, será que você poderia avisar a uma das meninas que os lírios chegaram? - A morena cortou com muita suavidade, tentando sorrir. - Precisamos terminar o arranjo do altar.

- Hã… claro… er… quando eu voltar, devolverei o vestido para você…

- Eu… ia ficar muito feliz se você o usasse hoje. Como sabe, vamos montar tudo na praia e é bom estarmos bem vestidas. Ficaria feliz se você o usasse hoje.

- Mas não vai sujar? É tão bonito...

- Não se preocupe com isso.

- Então está bem. - A Hime sorriu docemente para a moça. Depois pegou o vestido que estava usando antes e o broche de espada. - Vou avisar as meninas e depois venho ajudá-la.

Tomoyo só balançou a cabeça afirmativamente. Antes de fechar a porta, a Hime viu a mocinha discretamente enxugar uma lágrima teimosa.

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Depois de muita correria, ajustes de última hora e dois ataques histéricos da noiva, a Hime e Tomoyo assistiram, de longe, o casamento acontecer. Não havia muitos convidados, a maioria presos na Capital sitiada ou com medo de saírem de suas cidades, mas, ainda assim, foi muito emocionante. A Hime chegou mesmo a derramar uma ou duas lágrimas. O celebrante falou suas últimas palavras e todos aplaudiram, entusiasmados.

- É tão bonito quando alguém se casa, não é? - Tomoyo comentou. - Você tem namorado, Hanako-chan?

- Huuum… não… - Respondeu a Hime, hesitante. Provavelmente não tinha, ou então Flower ou Watery teriam falado alguma coisa - E Você?

- Não tenho, não. Eu…

- Tomoyo!

Era Sonomi outra vez. Ainda parecia aborrecida com a filha.

- Quero que você supervisione a desmontagem dos arranjos. Depois, eu e você vamos ter uma conversa definitiva!

Sem esperar resposta, ela saiu de perto e Tomoyo ficou com uma expressão tão magoada que a Hime perguntou, impulsivamente:

- Hã… você… conhece o Marco da cidade de Taiyohama?

- Sim, conheço. - Ela apontou para uma caverna, na ponta esquerda da orla da praia. - É ali dentro.

- Será que você poderia me levar até lá, depois que terminarmos o serviço?

- Eu deveria levar as coisas de volta para a floricultura... - Tomoyo parecia estar falando consigo mesma. Entretanto, abriu um sorriso repentino e disse. - Oras, por que não? Vamos terminar logo com isso e mandarei as meninas na minha frente.

Demoraram quase duas horas para desmontarem os arranjos e arrumarem tudo para subirem a encosta e o dia já havia terminado. Após mandarem as ajudantes da floricultura voltarem para com os materiais, Tomoyo e a Hime rumaram para a caverna. Tomoyo levava uma pequena lanterna que iluminava a areia branca a frente delas. A brisa suave balançava os cabelos das garotas e o vestido da Hime, enquanto as ondas quebravam suavemente na praia. A Hime tentava encontrar as palavras certas para poder abordar o assunto sobre a mãe da amiga, mas simplesmente nada lhe vinha a cabeça. Também pensava que a nova amiga talvez não quisesse falar sobre o assunto, ainda mais com uma estranha…

- Ela quer que eu continue com o negócio da família.

A Hime até errou o passo e quase tropeçou na barra do vestido.

- O quê?

- Está escrito na sua cara que você quer me perguntar qual é o problema entre eu e a minha mãe. - Tomoyo deu uma risadinha. Depois ficou séria e suspirou, triste. - A floricultura está na família há muitos anos e eu, como filha única, devo assumir o negócio. Mas eu gosto de moda e queria abrir uma casa de costura. E ela não aceita.

- Tomoyo-chan… - A Hime se calou, pensando no que poderia dizer para alegrá-la.

- Está tudo bem… - Ela suspirou outra vez. - Acho que não tenho muita escolha. Meu bisavô morreria de desgosto se eu simplesmente largasse tudo.

- Mas… e você?

- Como assim?

- E seu desejo? - A Hime estava indignada. - O seu sonho? Vai jogar tudo fora por causa dos outros?

Tomoyo pareceu chocada com aquela última pergunta. Seus bonitos olhos se arregalaram…

- Minha… minha mãe… também não teve escolha…

- Sim, sua mãe tinha escolha! Ela podia dizer não! Assim como você pode!

- É… complicado…

- Não, não é! - A Hime retrucou, obstinada. Ela até parou de caminhar. - Ou talvez seja, se para você desistir dos seus sonhos e se curvar às vontades de outra pessoa for mais fácil que lutar pelo que deseja para ser feliz!

Os olhos de Tomoyo se arregalaram ainda mais, ficando muito brilhantes. Dessa vez, ela não falou nada, em choque. A Hime prosseguiu, com mais calma.

- Olha… eu a conheci ontem, mas eu sinto que você é uma pessoa importante pra mim. Por isso, quero que você seja feliz. Então eu digo que você deve ser modista e sei que terá muito sucesso.

Uma lágrima solitária rolou pelo rosto da moça, que rapidamente a enxugou, um tanto impaciente. Ela voltou a caminhar, num passo um pouco mais rápido.

- Eu… não… não… sei…

- Você pode tentar fugir o quanto quiser… - Falou a Hime, andando atrás dela. - Mas uma hora você vai dar de frente com o problema e vai ter que enfrentá-lo. Acredite… eu sei… do que estou falando. - Finalizou, pensando nos seus próprios problemas.

- No momento, não adianta muita coisa. Os lugares que eu teria mais chance de sucesso são Watashi, que está sitiada e Kasokuma, também a beira de ser tomada. O problema só vai ser resolvido quando essa confusão envolvendo o Reino acabar.

A Hime apressou o passo para poder ficar bem em frente a morena e pegou suas mãos, apertando-as forte.

- Eu tenho certeza que, onde quer que ela esteja, a Hime está cuidando disso. Ela vai conseguir tirar o usurpador do trono. Então… você vai poder realizar todos os seus sonhos. - Tomoyo ainda parecia infeliz, então a Hime apertou suas mãos com mais força, dizendo. - "Zettai daijoubu dayo"!

E, finalmente, a morena abriu um sorriso, ainda que incerto, balançando a cabeça afirmativamente. E, mais do que nunca, a Hime se sentiu impelida a vencer Phobos.

- Obrigada por me animar. Pode crer que vou pensar com muito carinho sobre isso. - Tomoyo agradeceu. - Acho que eu precisava ouvir essas coisas. Geralmente as pessoas dizem que a costura é um bom hobby ou que devo continuar no negócio da família.

- Realmente, você precisava de um ponto de vista diferente. Ainda bem que eu…

A Hime parou de falar, bruscamente. Acabara de sentir uma coisa muito estranha, que fazia os pelos de sua nuca se arrepiarem. Era uma impressão de que havia alguma coisa - ou alguém - ali perto.

- O que foi? - Questionou Tomoyo, curiosa, ao ver a amiga girar para os lados, procurando alguma coisa.

- Eu… estou sentindo… uma presença… acho. - Respondeu, incerta.

Era como as ondas, que iam e voltavam na areia da praia: a presença pulsava, fazia sua pele formigar e o coração acelerar. Com a boca seca ela se virou para a entrada da caverna a poucos metros dela.

- Hanako-chan, espera! - Tomoyo pediu, quando a amiga correu em direção a abertura escura de pedra.

A Hime parou na entrada e a presença pulsou forte mais uma vez, fazendo seu sangue gelar. Engoliu em seco.

- O… que… que tem… aí dentro? - Perguntou baixinho a Tomoyo, que havia acabado de parar ao seu lado.

- O marco da cidade: um pequeno altar circundado por um lago. - A Hime ficou em silêncio, enquanto sentia sua ansiedade crescer. - Você quer voltar?

- Não… eu… não vai dar tempo de fazer isso depois…

- Entendo… então vamos?

- Sim.

Mas a Hime continuou parada no mesmo lugar, sentindo o nervosismo crescer.

- O que houve? - Tomoyo perguntou, pacientemente.

- É que… Wa… er… me falaram de fantasmas nessa caverna…

- Ah, mas são só histórias. Tenho certeza que não existem fantasmas aqui.

- Mas… e essa sensação?

- Que sensação?

A Hime ficou calada, enquanto observava atentamente a entrada da caverna. Definitivamente, havia algo diferente ali dentro. Mas só havia uma maneira de saber. Quase sem perceber, agarrou o braço de sua companheira, que suprimiu uma risadinha.

- V-vamos… lá…

A caverna era úmida e fria. Os passos das moças ecoavam nas paredes de pedra, perdendo-se na escuridão que a luz da vela não alcançava. O chão estava ligeiramente enlameado e escorregadio, obrigando as moças a redobrarem sua atenção. A Hime se assustava com qualquer som diferente das passadas ou do gotejar constante da água pela pedra. Quando ouviram uma coisa que pareceu um bater de asas alto, a Hime soltou um grito e apertou o braço de Tomoyo com mais força.

- Calma, Hanako-chan. Deve ter sido um morcego. - Tomoyo falou, tentando acalmá-la.

- Ai ai ai… detesto essas coisas…

- Você quer voltar? - A Hime fez que não com a cabeça. - Não se preocupe… estou com você e falta só um pouquinho.

Para a Hime, pareceu que se passaram séculos até que, enfim, a caverna se abriu e as águas de um pequeno lago refletiram placidamente a luz da vela. Ainda na penumbra, elas podiam ver a sombra de uma pequena construção no meio dele. Quanto mais se aproximavam, mais a presença pulsava e mais a Hime tremia e apertava o braço de Tomoyo.

- Que… medo…

- Engraçado… Fora a atmosfera assustadora, não sinto nada. - Tomoyo falou - Talvez você tenha uma sensibilidade muito grande. O que você sente?

- U-uma… presença…

- Mas como assim? Consegue me descrever?

- É como se algo… estivesse invisível… e me causa… um… um medo… incontrolável!

- Entendo… - Tomoyo pareceu pensar um pouco, depois pegou na mão da Hime e a trouxe para mais perto do lago - Mas veja só… não tem nada aqui.

A Hime olhou ao redor com seus olhos vidrados. Realmente, não parecia ter nada ali… mas então por que sentia aquele pavor tão grande?! Mais uma vez, ela viu a sombra no meio do lago e o medo pareceu crescer dentro do seu coração. Deu um passo para trás, prestes a soltar um grito e se descontrolar de vez…

"FIQUE CALMA!"

- O quê?!

- "O que", o quê? - Perguntou Tomoyo, surpresa.

- Essa voz…!

- Que voz?

- Você não ouviu?

- Não.

Mas a Hime ouviu claramente uma voz, dura e direta, do que parecia uma criança. Um menino, muito possivelmente. Seu corpo voltou a tremer: se só ela estava escutando, possivelmente era um fantas…

"FIQUE CALMA E SINTA A…"

A voz foi morrendo e se perdeu nas paredes da caverna, mas havia qualquer coisa nela, talvez no timbre decidido e sério, que a acalmou profundamente. Embora a força daquela estranha presença ainda a perturbasse, ela conseguiu acalmar sua respiração e pensar mais claramente.

- Hanako...chan…? - Chamou Tomoyo, incerta, ao ver a Hime avançar até a beira do lago.

Havia o que pareciam ser os restos de uma ponte de madeira queimada na margem e não havia outro meio de chegar até o altarzinho a não ser atravessando pela água. Sem hesitar, ela se deixou cair para dentro do lago. Embora Tomoyo fosse alertá-la para ter cuidado, ficou admirada ao perceber que ela ficou em pé acima da água, como se flutuasse.

- Como… você sabia que isso iria acontecer?

- Eu não sabia… - Murmurou a Hime, sem olhar para a amiga atrás dela.

Ela avançou por cima da superfície do lago, dando exatamente seis passos até chegar à frente da construção. E, ali, a presença era intensa e assustadora. Definitivamente, aquilo estava vindo do pequeno altar, que estava fechado. Mesmo tendo se acalmado, sua mão tremia quando a estendeu para abrí-lo. Quando tocou na pequena maçaneta, a presença pareceu aumentar ainda mais. Era como se não quisesse ser descoberta e tentasse se defender aumentando sua presença ruim. O sentimento da Hime era que, se abrisse o altar, alguma coisa - um monstro, um espírito maligno ou algo assim - sairia lá de dentro. Mas, de alguma forma, a Hime sabia que a presença só iria parar se ela a enfrentasse… e que ela precisava fazer aquilo. Ela respirou fundo, levando a mão no broche de espada. Controlou seu medo e então… abriu!

Não havia nada lá dentro. Mas, assim que o altar foi aberto, a presença sumiu e a Hime se sentiu mais leve, como se um grande peso tivesse sido tirado de seus ombros. Até o ar pareceu ficar mais leve e a caverna, mais iluminada e menos assustadora.

- O que tem aí dentro? - Perguntou Tomoyo, aproximando-se e tirando a Hime de seu estupor.

- Nada. Está vazio…

- Não falei que não era nada? São só histórias .

A luz da vela iluminou um pedaço retangular prateado no chão. A Hime se abaixou e conseguiu ler o Mantra Real. Abaixo, havia o misterioso buraco circular. Igual a Hanamura. Levantou-se de novo e olhou ao redor. Definitivamente, aquela caverna não tinha nada de assustadora. Seria possível que ela mesma tivesse criado aquele medo irracional? Ou haveria, de fato, alguma coisa que ali existiu e ela, de alguma forma, conseguiu vencer e eliminar? Talvez nunca soubesse. Ela suspirou.

- Vamos voltar. Já estamos há muito tempo aqui e não quero que você leve bronca da sua mãe por minha causa.

Tomoyo só balançou a cabeça, concordando. A Hime voltou para a beira do lago mas, para a sua surpresa, ela não flutuou e afundou até quase os joelhos na água

- O quê?! Que droga é essa?

- Parece que só dava pra ir até o centro do lago, mas não pra voltar… - Tomoyo comentou, dando uma risadinha.

A Hime andou com certa dificuldade até a margem, onde a outra garota a ajudou a sair da água. O bonito vestido de Tomoyo agora parecia uma papa meio transparente nas pernas da Hime.

- Desculpe-me por isso, Tomoyo-chan. Estraguei o seu vestido.

- Sem problemas. É só secar e ele estará novinho em folha.

Elas saíram da caverna e foram recepcionadas por um vento úmido e gelado. A Hime sofreu mais do que Tomoyo por causa das roupas molhadas. O Céu já estava bem escuro, o que indicava que elas haviam ficado mais tempo do que imaginaram dentro da caverna.

Andaram em silêncio pela orla da praia, vendo as ondas do mar morrerem lentamente na areia. A Hime ainda estava bastante intrigada com a voz que escutara. De alguma forma, como muitas das coisas que vivenciou desde que acordara, era como se fosse algo importante, que estivesse perto de lembrar, mas que, por algum motivo… não se lembrava.

- Droga… - Murmurou, frustrada. Tomoyo ouviu.

- O que foi?

- Apenas…

A Hime interrompida por uma outra voz. Um grito que pareceu ecoar ao longe pela orla da praia e fez os pelos da nuca dela se arrepiarem. Mais uma vez, escutava vozes que não tinha explicação.

- O que foi isso? - Perguntou Tomoyo, alarmada.

- Espera… você também ouviu?!

- Sim!

O grito se repetiu. Era agudo e infantil.

- Parece que tá vindo da rua principal.

A Hime não esperou mais. Levantou levemente as saias molhadas e começou a correr, com a morena em seu encalço. Outras pessoas, que nem ela, corriam em direção aos prédios iluminados. Entretanto, quando voltaram a pisar na pedra da pavimentação da via, elas viram algumas pessoas correndo na direção contrária, parecendo muito assustadas, entrando em suas casas e fechando suas portas.

- O que está acontecendo? - Tomoyo externou a pergunta que a Hime se fazia, preocupada.

Quando finalmente chegaram a rua principal, viram muitas pessoas correndo encosta abaixo e, lá no meio da rua, uma menininha de cabelos castanho-claros, menor que Watery, corria e gritava, fugindo de seis guardas sem expressão. O primeiro impulso da Hime foi se esconder atrás de uma árvore, com o coração acelerado de medo.

- Pensei que esses homens tinham ido embora daqui! - Falou Tomoyo, espiando pelos lados da árvore. Seu cenho estava franzido. - O que será que essa garotinha fez para eles a estarem perseguindo assim?

- Ela faz parte do Conselho da Hime. - Antes mesmo que pudesse processar as palavras, a Hime havia dito em voz baixa. E a atenta Tomoyo escutou.

- Como você sabe?

- É… um palpite. Mas… eu sei que eles estão atrás da Hime e dos conselheiros, então…

- Pode ser. - A morena se voltou para onde os guardas avançavam e franziu a testa, com desgosto. - Caramba, eles estão sendo muito violentos com as pessoas. Não é a toa que ninguém gosta deles!

O Coração da Hime se apertou. Se tentasse interferir, seria reconhecida e teria que lutar. Mas ficar escondida enquanto outras pessoas sofriam por sua causa era inconcebível! Se ao menos Watery ou Flower estivessem com ela… FLOWER!

Ela lembrou da flor que a conselheira ruiva havia lhe dado uma flor para que puxasse todas as pétalas caso estivesse em perigo. Levou a mão aos cabelos e sentiu seu coração parar quando não encontrou a flor. Desesperada, tateou pela cabeça, procurou na roupa, apalpou as costas… nada

- O que houve? - Perguntou Tomoyo, confusa com aquele estranho comportamento.

- A flor… que estava no meu cabelo… sumiu!

- Ela era importante?

- Era sim!

- Nossa… - A morena colocou as mãos na boca, perturbada. - Eu vi quando ela voou pra longe, lá na praia. Não falei nada porque pensei que fosse só um enfeite! Sinto muito!

- Droga…!

A Hime não tinha muito tempo para se lamentar ou se frustrar. Os gritos ficavam mais altos, assim como o clanc clanc das armaduras dos guardas. O pânico se espalhava e várias pessoas gritavam…

- O que você está fazendo? - Perguntou Tomoyo ao ver a amiga sair de trás da árvore e correr ladeira acima. - Eles também não estavam atrás de você?

A Hime não respondeu. Só correu e ficou bem no meio da via. Levou a mão ao broche e fez Sword assumir sua forma verdadeira. Segurou a espada bem firme em sua mão, enquanto ela vibrava em antecipação a batalha.

A garotinha que corria arregalou os olhos azuis claros na direção da moça, enquanto que os guarda hesitaram por um instante, até um deles gritar:

- É a Hime-sama! Você, avise os outros. E vocês venham comigo!

A Hime mal ouviu as exclamações de surpresa das pessoas que ainda estavam na rua, concentrada nos homens que agora haviam esquecido completamente a garotinha, partindo pra cima dela. Mais uma vez, ela sentiu Sword esquentar e vibrar brevemente, transformando-se no machado de guerra. O primeiro que chegou levou um golpe certeiro na perna e se ajoelhou, imobilizado. A espada do segundo foi habilmente parada com o cabo do machado, que logo em seguida desferiu uma lanhada forte o suficiente para cortar a armadura como se fosse manteiga. Quando ele explodiu, a Hime, tossindo, recuou um pouco.

Os último três chegaram praticamente ao mesmo tempo em cima da moça. Conseguiu aparar o primeiro golpe, mas o segundo guarda foi mais rápido e conseguiu passar perto o suficiente para rasgar um bom pedaço das saias do vestido.

- Hime-sama, feche os olhos! - Gritou uma voz desconhecida e infantil, enquanto um clarão surgia por trás de onde ela lutava com os soldados.

Ela fechou os olhos bem na hora que um intenso facho de luz explodiu entre ela e os homens sem expressão, cegando quem estava ao redor. Mesmo com os olhos fechados, a Hime sentiu o clarão intenso e rápido brilhar através das pálpebras. Quando voltou a abrí-los, viu os soldados de Phobos, desorientados piscando os olhos frios rapidamente. Sem perder tempo, ela aproveitou para desferir duas lanhadas fulminantes nos soldados mais próximos. O terceiro conseguiu se esquivar uma vez, mas duas tentativas depois, ele teve o mesmo destino que os outros. Aproveitando a fumaça preta que encobria parte da rua, a Hime pegou o pulso da menina que estivera fugindo dos soldados até a pouco e correu para a orla da praia. Tomoyo, sempre atenta, correu atrás delas. Assim que colocaram os pés na areia fofa da praia, elas finalmente pararam.

- Acho que estamos seguras, por enquanto. - Falou a Hime.

- Obrigada… Hime-sama. - Falou a menina, com os grandes olhos azuis brilhantes de lágrimas. A Hime percebeu que era a mesma voz que mandara que ela fechasse os olhos.

- Foi você quem fez aquele clarão?

- Sim! - Ela estendeu a mão e fez brilhar uma bolinha de luz dourada. - É o meu poder, lembra?

- Bom…

- Hana… er… Hime-sama! - falou Tomoyo de repente, com a voz urgente, apontando para cima - Eles estão voltando!

De fato, uns vinte soldados vinham correndo descendo a rua principal, entre eles três com armadura completa e espadas longas. A Hime engoliu em seco. Não havia tempo para se esconderem.

- Tomoyo-chan, preciso que você me faça um grande favor! - A Morena apenas ficou olhando para ela, apreensiva. - Vá até o topo da cidade, naquele restaurante de mariscos. Preciso que você chame Flower para mim!

- Flower?! - Ela repetiu, arregalando os olhos.

- Sim… Tachibana-san! Diga que preciso dela imediatamente!

- C-certo!

A morena não perdeu tempo com perguntas. Simplesmente levantou as saias e começou a correr, indo por uma das ruas paralelas para fugir dos soldados.

- Você deve se esconder! - Ela falou para a mocinha, que a olhava com os olhos esbugalhados - Vou cuidar disso…

- Não, não! - Protestou a menina, efusiva. - Vou ajudar a HIme-sama! Como eu sempre fiz no Conselho! Sei que não sou tão poderosa como os outros, mas farei o que puder para ajudar!

Aquilo confirmava as suspeitas da Hime. Embora a menina parecesse frágil e prestes a cair no choro, ela sabia que deveria ser poderosa. Watery e Firey já haviam provado isso para ela. Ela simplesmente concordou com a cabeça e a menina deu um sorriso trêmulo.

- Vamos precisar também da ajuda das outras. Pedi para Tomoyo chamar Flower, mas vamos precisar de Watery também.

- Watery também está com você?! Que bom! - A menina sorriu, parecendo ficar um pouco menos temerosa. - E onde ela está?

- Na praia…

A Hime ia dizer mais alguma coisa, mas uma flecha vinda do nada se cravou a centímetros de onde elas estavam. Quando olharam para cima, viram que, entre os soldados, havia um que portava um arco e uma flecha.

- Precisamos sair do alcance dele! - A Hime gritou, recomeçando a correr em direção a praia

- Eu posso cuidar disso, Hime-sama!

Mal tinha falado essas palavras, seu corpo inteiro começou a brilhar intensamente. A Hime assistiu o brilho diminuir de tamanho até ficar um pouco maior que Kero. Finalmente a luz se enfraqueceu o suficiente para que pudesse ver a garota flutuando no ar, do tamanho de uma fada, com vestes verdes, segurando um dente de leão nas mãos. Sem pestanejar, ela fez surgir no ar várias bolas de luz ao seu redor e com um movimento rápido, elas sumiram e a Hime viu pequenos brilhos estourarem bem onde os soldados de Phobos estavam, desorientando-os. Uma nova flecha atirada pelo arqueiro passou muito longe e a garota aproveitou para correr.

Com uma das mãos, segurava Sword (que voltara a sua forma de espada) e com a outra segurava as saias molhadas que atrapalhavam seus movimentos. A menina que salvara voava a seu lado, deixando um rastro de pequenas faíscas verdes. Nunca aquela faixa de areia que separava a cidade do mar lhe pareceu tão longa e pareceu terem se passado horas e quilômetros até que finalmente seus pés alcançassem a areia úmida. A Hime tirou os sapatos e caminhou até onde as ondas morriam placidamente, hesitou por um instante e assoviou baixinho.

Alguns segundo se passaram antes que as ondas começassem a se amontoar e se levantarem no ar, formando a figura humanóide de Watery. E antes que a Hime pudesse falar qualquer coisa, ela soltou um grito de alegria:

- Glow! Como é bom ver você!

- Também é bom vê-la, Watery! - A menina falou, flutuando na direção das ondas, em sua vozinha infantil e tensa. - Mas agora não é hora pra isso!

- O que houve?

- Soldados de Phobos… aos montes! - A Hime falou, apontando para o grupo que acabava de descer para a praia, levantando montes de areia ao passar. O arqueiro parecia ter se recuperado do ataque de Glow, porque atirou e só não acertou a Hime porque Watery criou um escudo de água que parou a flecha, a centímetros de seu peito.

- Droga! Será que esses caras não desistem?! - Watery resmungou, aborrecida.

A Hime e Glow deram alguns passos para trás a medida que Watery ia absorvendo a água ao seu redor e crescia. Os poucos corajosos ou desavisados que ainda estavam na praia gritaram ao ver a figura humanoide com rabo de peixe alcançar quase 5 metros de altura, com uma expressão feroz em seus olhos. O arqueiro lançou uma última flecha que foi novamente interceptada pela água e recebeu em troca um um jato de água violento e tão letal como uma lança. Ele explodiu na fumaça preta, mas seus companheiros continuaram avançando, inexpressivos e sem hesitação.

- Watery, cuide primeiro dos que vestem armadura completa! - Ordenou a Hime, fazendo Sword se transformar outra vez em machado. - Glow, me dê cobertura com suas luzes!

Com uma violência desconhecida até então pela Hime, Watery atacou os homens de armadura completa e mais dois soldados comuns de uma vez, usando pequenos jatos d'água que viajavam a uma grande velocidade. Elas furaram as armaduras como se estas fossem feitas de papel e os soldados explodiram.

Aproveitando aquela confusão, a Hime correu o mais rápido que suas vestes permitiam, indo de encontro com os soldados que restaram. Glow ia na frente, preparando sua magia de luz, que disparou bem na frente de dois soldados que estavam na dianteira. Eles pararam, desorientados e a Hime os alcançou, sendo rápida e implacável. Quando eles explodiram, Watery já havia dado cabo de mais seis soldados. Quando ia atacar o grupo restante, ela hesitou, por um instante, parecendo assustada.

Não houve tempo pra nada. Um brilho amarelo intenso percorreu o corpo aquoso, que se contorceu e soltou um grito longo e muito sofrido. E, em seguida, Watery perdeu a consciência e caiu por cima de um dos soldados, espalhando água por uma boa parte da orla.

- Watery! - Gritaram Glow e a Hime, assustadas.

Não houve resposta. A água do mar era rapidamente absorvida pela areia. Watery havia voltado a sua forma de menina e estava caída a alguns metros da Hime, que olhava confusa para os lados, tentando entender o que acontecera. Só então notou que o céu havia ficado repentinamente coberto de nuvens negras e que relâmpagos se agitavam entre elas. Com um estrondo ensurdecedor, um relâmpago caiu bem na frente dela, assustando-a.

- Ah, não! - Glow gemeu e foi se esconder atrás do ombro da Hime, trêmula. - Thunder!

Como se tivesse sido invocado ao falarem seu nome, mais um relâmpago caiu do céu, dessa vez um pouco mais afastado, lançando um brilho amarelado muito mais forte do que aquele que Glow emitia e ficou pairando, com uma forma indefinida, acima das ondas da praia.

A Hime estava muito preocupada com Watery e tudo o que mais queria era checar para ver se sua companheira estava bem. Embora Watery tivesse feito um ótimo trabalho eliminando a maioria dos soldados, ainda restavam seis que estavam cercando-a e a impediam de se aproximar dela, com suas espadas em posição de ataque.

Dois atacaram primeiro e ela mal teve tempo de aparar os golpes e mais um chegava por trás. Se não fosse por Glow, que o distraíra com suas luzes, ela teria sido cortada ao meio.

- "Você está cansada". - A Voz profunda de Sword pulsou pela arma que ela segurava. - "Precisamos fazer uma retirada estratégica."

- Em, outras palavras… - A Hime rilhou entre os dentes, enquanto aparava mais um ataque que soltara faíscas do cabo do machado. - Nós devemos fugir!

- "Não podemos fazer nada. Ou fugimos ou seremos todos mortos."

- Não posso… deixar Watery... aqui… - Ela falava com dificuldade devido a sua respiração ofegante.

- "Ela não iria querer que vossa Alteza morresse por causa dela."

A Hime conseguiu quebrar a defesa de um dos soldados e ele explodiu naquela fumaça preta. Infelizmente, logo em seguida um outro soldado pegou o seu lugar e a Hime voltou a ficar flanqueada. Numa atitude desesperada, ela atacou com mais selvageria e conseguiu derrubar dois deles, conseguindo fugir brevemente do cerco e começando a correr.

Porém, mal tinha percorrido alguns metros, um relâmpago obrigou-a a recuar alguns passos e quase a fez se desequilibrar. Olhou brevemente para onde antes havia visto o brilho amarelo pairando sobre a praia e viu de relance um enorme animal quadrúpede todo feito de luz observando a luta. Parecia haver um sorriso em sua boca rasgada e cheia de dentes.

Ela sentiu a raiva e o desespero tomarem conta dela. Ele sabia que ela não escaparia e estava apenas brincando com ela, observando aqueles seres sem alma fazerem o trabalho sujo. Ao mesmo tempo que sentia o pequenino corpinho de Glow tremer de encontro ao seu ombro, apertou ainda mais o cabo da espada, encarando os soldados que, calmamente, voltavam a cercá-la. Agora, eram cinco.

Embora suas chances fossem poucas, ela não podia desistir. Iria lutar até a morte, mas não se entregaria…

'

Tomoyo corria desesperadamente ladeira acima, desviando-se da confusão de pessoas que se amontoavam nas portas das casas para comentar o que havia acontecido. Como ela, estavam surpresos e espantados com os eventos que aconteciam numa cidade tão pequena, mas ela tinha motivos para ficar ainda mais assombrada.

Hanako-chan era a Hime e ela nem desconfiara! Notara que a amiga recém-feita parecia guardar um segredo, mas nunca lhe passara pela cabeça que aquela garota meiga de olhos verdes podia ser a governante usurpada do Reino das Flores de Cerejeira!

Quase caiu ao trombar com uma criança na esquina da rua do restaurante de frutos do mar onde Tachibana… aliás, onde a Conselheira Flower estava trabalhando. Os metros finais até o estabelecimento pareciam se esticar a cada passo que dava. Mas finalmente, ela adentrou pela porta, esbaforida, assustando algumas pessoas sentadas ali perto. Como o restaurante ficava em uma das últimas casas na rua mais alta da encosta, era compreensível que ninguém tivesse percebido a agitação que se passava no resto da cidade.

- Boa noite, Senhorita. Mesa para quantos? - Falou um garçom hesitante, olhando a figura graciosa, porém esbaforida e desalinhada de Tomoyo.

- Não… eu preciso… falar com… Tachibana… Tachibana-san!

- Ei, você não pode entrar assim! Temos fila de espera!

Mas a morena se desviou habilmente das mesas e dos outros garçons surpresos, procurando freneticamente a figura alta da ruiva. Não a viu ali, o que significava que ela deveria trabalhando como cozinheira. Quando se aproximou das portas duplas que levavam a cozinha, sentiu uma mão agarrar seu punho com tanta força que doeu.

- Eu disse que você não pode entrar assim! - Ele falou, agressivo, tentando puxar a moça para fora - Você é maluca?!

- Não… preciso falar com… Tachibana… san! - Ela gritou as últimas duas palavras, enquanto os murmúrios indignados dos clientes cresciam de intensidade.

- Você vai pra fora agora!

-Tachibana-san!

- Cale a boca!

- O que está acontecendo… Tomoyo-chan?!

Tachibana-san saiu da cozinha, usando um grande avental branco sobre o vestido.

- Tachibana-san! - Tomoyo deu um puxão no braço e se soltou do garçom, correndo para a moça ruiva - Hanako-chan… Ou melhor… Hime-sama…

Todas as sardas de Tachibana ficaram brancas ao ouvir o nome pelo qual Tomoyo chamara a amiga.

-Aconteceu alguma coisa muito grave?! Mas ela não puxou as pétalas da flor…!

- Ela perdeu a flor! - Explicou rapidamente a morena - Os soldados a perseguiram… Estão na praia… E são muitos!

A ruiva não ficou para esperar mais explicações. Muito rapidamente, tirou o avental e o jogou no chão, saindo logo em seguida do restaurante, numa correria desenfreada. Só rezava para que a Hime estivesse a salvo.

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Evitando mais um golpe que com certeza seria letal, a Hime contra atacou e conseguiu atingir mais um soldado em uma parte vital. Ele explodiu, intoxicando-a com aquela fumaça negra. Ela tossiu e tentou sair daquele local, mas outra vez, um relâmpago a impediu de fugir.

-"Você mal consegue ficar de pé." - Sword vibrou, bastante preocupado.

- Mas... eu não… consigo fugir… E nem posso… Me entregar… - Ela respondeu, entre arquejos e tossidas. - Só posso… Lutar até… O fim!

Sword vibrou intensamente em resposta, o que era reconfortante.

– Hime-sama… - murmurou Glow, trêmula. Sendo tão pequena, ela não podia lutar, embora tentasse ajudar como podia, atordoando os guardas com suas luzes. Mas ela também estava ficando cansada.

A mão que segurava o machado parecia estar dormente e pesada e com muito esforço conseguiu levantá-la para aparar mais um golpe dos soldados púrpura. Ao contrário dela, eles não pareciam nem um pouco cansados.

– Hime-sama, cuidado! - Gritou Glow, mas ela não reagiu a tempo de evitar por completo o ataque e sentiu uma dor lancinante no braço direito. Logo em seguida, contra-atacou violentamente e conseguiu destruir mais um soldado.

Ela sentiu um liquido quente escorrer pelo braço, sentindo-se subitamente fraca. Agora restavam apenas três soldados, mas eles pareciam um exército agigantando-se acima dela. E Thunder, que ainda observava tudo, parecendo se divertir com a situação. Ela rilhou os dentes, tentando encontrar forças em seu íntimo. Mas estava no seu limite…

– Hime-sama!

Era Tachibana-san, que se esforçava para passar pelo aglomerado de pessoas que assistia tudo na orla da praia. Parecia horrorizada ao ver o sangue escorrendo pelo seu braço e mais ainda ao ver homens de Phobos cercando-a. Ela fez um movimento rápido com as mãos bem a tempo de prender com suas vinhas mágicas um dos soldados que havia atacado a Hime. Mais um movimento e criou vinhas para segurar os restantes. E enquanto fazia surgir os espinhos que penetravam nas armaduras púrpuras e explodiam os guardas, a Hime se deixou cair no chão, exausta.

- Glow… - Ela sussurrou para a menininha, que continuava em seus ombros - Vá ver Watery… estou preocupada com ela…

Ainda bem que Glow era bem rápida, porque Thunder fez mais um relâmpago cair no momento que a menina atravessava a distância entre a Hime e Watery, errando-a por poucos centímetros. E Flower, que finalmente conseguira passar pelo apinhado de pessoas e se aproximava correndo, viu tudo e se deu conta da presença de Thunder, desacelerando um pouco, instintivamente.

Thunder, até então imóvel, rugiu muito alto, como um trovão, começando uma corrida desenfreada em direção a Hime, as nuvens pesadas se remexendo acima dele mais violentamente do que nunca. A Hime instintivamente pulou para o lado, milisegundos antes de um raio atingí-la.

Neste instante Flower brilhou para assumir sua forma verdadeira, assombrando o público que assistia tudo e, logo em seguida, criou o que parecia ser uma explosão de rosas, que se espalharam pelo ar como uma nuvem densa vermelha que atrapalhava a visão de Thunder. A Hime aproveitou a deixa para se levantar, atrapalhada, segurando o braço ferido e saiu do lugar onde estava, esperando desorientar Thunder. Ouviu-se um rugido e vários estampidos e ela sentiu cheiro de coisa queimada…

- AH...! - Ela quase gritou de susto ao sentir Flower segurar firmemente seu ombro.

- Você está bem? - Perguntou a guardiã, olhando para ferida em seu braço.

- Sim, estou… mas Watery… acho que ela… levou um choque! - Viu Flower morder os lábios, preocupada.

- De todos nós, Watery é mais fraca contra Thunder. Eu também não devo durar muito, mas acho que vai ser o suficiente para você fugir.

- Eu não vou fugir enquanto deixo meus amigos aqui.

O olhar que Flower lhe lançou era o mais sério que a Hime já havia visto no rosto geralmente sorridente,

- Isto não é um pedido, Hime-sama! - Então ateou a voz para gritar com a multidão. - Levem-na daqui!

Antes que ela pudesse protestar, a Conselheira fez brotar vinhas do chão que a amarram e a levaram em velocidade recorde para o meio da multidão. E ela caiu, parecendo mais exausta ainda, enquanto assistia entre as pernas dos curiosos a barreira de flores se dispersar.

Thunder, notando que a Hime não estava mais na praia, começou a procurar pelos lados, enquanto sua inquietude era percebida pelos raios que cascateavam pelo céu.

- Eu serei sua oponente, Thunder! - Gritou Flower, lançando algumas rosas vermelhas com muitos espinho na direção do animal, obrigando-o a encará-la. - Embora me doa ter que lutar contra um antigo companheiro, não posso perdoá-lo por tentar ferir meus amigos, especialmente a Hime!

Em resposta, Thunder apenas rugiu, parecendo desdenhar de Flower. E, logo em seguida, atacou, disparando em direção dela, brilhando tão forte que era difícil olhar. Flower se moveu, rápida, lançando, mais uma vez, sua nuvem de flores vermelhas para desorientar seu atacante. Grossas vinhas surgidas da areia tentaram prender as patas traseiras de Thunder, mas elas se queimaram assim que se enroscaram no bicho. Ao mesmo tempo, ele fez surgir muitos raios pequenos que se intercalavam no ar como teias de aranha, queimando grande parte das pétalas vermelhas. Flower parecia dançar de tão rápida e graciosa que se movimentava, escondendo-se e atacando ao mesmo tempo. Infelizmente, ela foi atingida e gritou muito alto, de dor, caindo ajoelhada no chão.

A Hime sentiu as lágrimas brotarem em seus olhos ao ver sua amiga tentando se levantar com dificuldade, soltando uma leve fumaça branca de seu corpo. Tentou se levantar, apoiando o cabo do machado, mas o braço doeu e acabou caindo de novo. Algumas pessoas tentavam ajudar, inclusive sentiu alguém enfaixando sua ferida, perguntando se ela estava bem.

- Hime-sama… - Uma voz desconhecida falou. - Você precisa sair daqui!

- Não… Não posso deixar…

- Flower-sama mandou que você fugisse.

- Não! - Ela teimava, dilacerada de preocupação.

A maioria das pessoas parecia hipnotizada pela luta que acontecia na praia, assistindo Flower criar muitas vinhas que envolveram brevemente Thunder completamente numa espécie de casulo. Mas, com uma explosão, ele se libertou e mais uma vez Flower foi atingida, gritando longamente de dor…

- Hanako-chan! Hanako-chan!

Tomoyo forçava as pessoas a saírem de seu caminho e chegou bem perto da amiga, parecendo apavorada com estado da garota.

- Tomoyo… chan…

- Pelos céus! Que horror!

- Me… ajuda… a levantar…

A morena fez o que lhe foi pedido e com algum esforço a Hime ficou de pé, sendo sustentada por Tomoyo e por um dos habitantes de Taiyohama.

Flower se levantou mais devagar dessa vez e por alguns segundos os dois oponentes ficaram apenas se encarando. Ela lançou um brevíssimo olhar para a multidão e em seguida brilhou, mas em vez do rosa dourado habitual, a luz era de um púrpura intenso, profundo, quase tanto como as armaduras do soldados de Phobos. Ela soltou um grito de ataque, estendendo suas duas mãos em forma de garras para a frente e milhares de flores de pétalas daquela mesma cor dispararam na direção de Thunder, que ficou inerte, quase como se estivesse resistindo a um vento mais forte. Mais um movimento de Flower e as flores começaram a circular ao redor dele com muita rapidez. Elas queimavam imediatamente ao contato com o corpo eletrizado do animal e parecia não estar fazendo efeito nenhum… mas Thunder de repente começou a recuar, parecendo fraquejar primeiro das patas dianteiras, depois das traseiras…

- Ah! - Tomoyo de repente exclamou no meio da turba confusa de pessoas. - Ela… tá usando algum tipo de flor venenosa… só pode ser!

- Flor venenosa…? - Repetiu a Hime, parecendo confusa.

- Sim! Existem muitas flores que são perigosas para humanos e para animais… - A morena franziu a testa em direção a praia. - Pela cor, eu chutaria Acônito ou mesmo Lírio de Sapo...

Várias pessoas gritaram quando um terceiro raio atingiu Flower que gritou, caiu… e não mais se levantou.

- Droga… - Praguejou a Hime

- Hime-sama, Flower-sama mandou que você fosse embora. - Falou o homem que a ajudava, preocupado.

- Ela tem razão. Precisamos sair daqui! - Tomoyo concordou, tentando puxar a Hime para longe dali.

Rapidamente, com um movimento, transformou Sword outra vez em espada e a cravou no chão, segurando-se nela e resistindo.

- Não!

- Hime-sama…

- Não!

- Hanako-chan!

- Eu disse NÃO!

Ela se aprumou, ignorando a dor e os protestos de Tomoyo. Pelo que ela enxergava entre os muitos ombros da multidão, Thunder se aproximava cautelosamente, vasculhando com o olhar cada rosto assustado procurando por ela… mas viu também que ele parecia estar arfando e com bastante dor. Pelo visto, o derradeiro ataque de Flower surtira o efeito desejado. Era agora ou nunca. Ela desencravou a espada do chão e deu um passo para frente, sendo imediatamente agarrada por Tomoyo.

- Não! Hanako-chan!

- Não vou deixar Watery e Flower aqui!

- Mas...

- Se eu fugir agora, ele vai me pegar mais cedo ou mais tarde, fraca do jeito que estou. Prefiro acabar de vez com isso!

- Hanako… chan… - Os olhos de Tomoyo estava cheios de lágrimas.

Ela conseguiu sorrir fracamente.

- "Zettai daijoubu dayo".

O mantra conseguiu trazer algum alento a sua alma cansada e ela avançou mais alguns passos. Os olhos de Thunder se cravaram nela assim que ela saiu da multidão. Parecia que a cada minuto que passava, mais o veneno das flores de Flower fazia mais efeito e a respiração dele se aprofundava. Ainda assim, a Hime sabia que não podia prolongar aquilo por muito tempo e que ele era muito perigoso…

Passeou os olhos pela praia, pensando desesperadamente no que poderia fazer e seu olhar caiu sobre uma flecha quebrada enterrada na areia, disparada mais cedo contra ela enquanto fugia… ela apertou mais forte o cabo de Sword.

- Você consegue se transformar em arco e flecha?

- "Posso me transformar em arco, Hime-sama, mas as flechas precisam vir de outra fonte". - Ele vibrou de volta, parecendo estar pensativo também. - "Mas é uma boa ideia atacar com algo que possa ser disparado, já que não podemos chegar muito perto dele".

Do céu, um raio caiu a poucos metros dela, fazendo seu coração disparar. Continuou a pensar furiosamente, tentando encontrar uma solução. Sem querer, ela olhou em direção a caverna em que ela e Tomoyo estiveram mais cedo, mas que parecia ter sido há muitos anos. Lembrou de como o medo lhe dominara e como a voz do garoto viera e a acalmara instantaneamente…

- Fique… calma… - ela murmurou a si mesma, fechando os olhos. - "Zettai daijoubu dayo"... "Zettai daijoubu dayo"...

Ela repetia o mantra entre uma respiração e outra, tornando-se surda ao murmurinho das pessoas e até mesmo em relação às próprias batidas do coração. Não viu quando um raio caiu ainda mais perto dela, ou quando Thunder se aproximou ainda mais, vacilando sobre as próprias patas. Tampouco viu quando o vento começou a soprar mais forte e as ondas do mar baterem mais violentamente contra a areia. Também não viu Flower gemer e levantar a cabeça, chamando por ela baixinho.

Estava perdida dentro das profundezas de si mesma, procurando uma resposta e força para derrotar aquele adversário. Ela sabia que podia derrotá-lo… só precisava saber como. Sentiu um brilho esquentar seu peito e fluir por todo o seu corpo, parecendo lutar contra a barreira de sua pele, de seu ser e finalmente explodir em luz, que a enchia de energia.

Subitamente abriu os olhos, resoluta. Mal notou as exclamações de surpresa da multidão e um intenso brilho que parecia vir do chão circundando onde ela estava em pé. A única coisa em que se concentrava agora era em vencer Thunder… e ela sabia como!

O cabo de Sword esquentou e vibrou, intensa e demoradamente, parecendo se esticar e afinar num turbilhão de luz dourada, até que finalmente se transformou numa enorme lança de ponta afiada. Ela girou brevemente a arma nas mão e apontou na direção de Thunder, lançando-a em seguida com uma força que nem sabia ter. Thunder pareceu se recuperar brevemente, conseguindo se desviar e partindo para atacá-la, mas isso não importava muito porque a Hime simplesmente sabia que podia controlar a lança no ar. Fez a arma fazer uma curva fechada, sibilando enquanto cortava o ar e, dessa vez, Thunder não estava esperando. Conseguiu se desviar de parte do ataque, mas urrou de dor quando a ponta da lança raspou todo o seu flanco direito, deixando um rastro de luz dourada no seu corpo que jorrava como sangue. Ele caiu no chão, parecendo chorar de dor.

Nisso a lança voltou para a mão da Hime, que a segurou como se estivesse pronta para atacar de novo. Contudo, aquilo era demais para o Conselheiro traidor. Ferido, e ainda sob efeito do veneno das flores, ele se levantou com muita dificuldade e com um último rugido, transformou-se em luz, que subiu aos céus. De repente, não havia mais nuvens negras nem relâmpagos. A noite pareceu se encher com o silêncio que se formou por alguns segundos antes de ser quebrado por centenas de gritos de vitória dos cidadão de Taiyohama.

Entretanto, a Hime mal ouviu isso. Seu último movimento consciente foi transformar Sword novamente em espada e sentir a areia em seu rosto enquanto suas pernas fraquejaram e a deixaram cair na praia. Depois, só havia escuridão.

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A Hime tremeu as pálpebras, que pareciam pesar uma tonelada, e abriu os olhos com dificuldade. A vista embaçada não reconheceu o lugar onde estava, mas ela viu vultos se movimentarem ao seu redor e pequenas luzes acima dela que pareciam estrelas. Tentou levar a mão até o broche de espada, mas seu corpo parecia se recusar a obedecer. Então, um borrão amarelo entrou no seu campo de visão.

- Hime-sama! - A vozinha de Kero estava alegre.

Outros vultos entraram em seu campo de visão e ela piscou, tentando focar sua visão. Finalmente Kero entrou em foco, assim como os rostos sorridentes e aliviados de Watery, Flower e Glow.

- Vocês… estão… bem..? Watery… - Sua voz parecia vir de muito longe.

- Sim, graças a Hime-sama! - O bonito rosto de olhos amendoados estava muito emocionado - Embora nós devêssemos lhe dar uma bronca por não ter fugido como Flower mandou, estamos felizes que tudo acabou bem!

- Ah…

A Hime parecia ter dificuldade até para pensar. Com muito esforço, levantou a cabeça para poder olhar melhor onde estava. Parecia ser uma caverna, pelo que podia ver. As paredes rochosas, entretanto, estavam cheias de pequenos pedaços de luz que iluminavam suavemente o lugar. Ela conseguiu apontar para uma das luzes.

- Foi… você? - Perguntou a Glow.

- Sim. - Ela fez uma bola de luz suave surgir em sua mão e mostrou pra Hime, seus enorme olhos azuis parecendo prateados por causa do brilho. - Precisávamos de uma iluminação mais suave ou poderíamos ser descobertos.

- Descobertos? - Ela parecia ter problemas para raciocinar logicamente. - Onde… estamos…?

- Na caverna de Taiyohama.

Repentinamente a Hime pareceu mais desperta.

- Calma, Hime-sama! - Flower a impediu de se levantar com as mãos. - Você dormiu um bocado, mas ainda não deve estar 100% recuperada.

- A caverna… dos espíritos?!

Watery rolou os olhos.

- Já falei pra você que é só uma lenda! Como vê, não existe nada aqui.

Então subitamente lembrou que na noite em que tudo aconteceu, estivera ali com Tomoyo-chan, vencendo seus medos… Espera um pouco!

- Um Bocado? Quanto tempo eu dormi?

Kero e as conselheiras se olharam brevemente, como se tentassem calcular corretamente a quantidade certa.

- Devem ter sido uns três dias.

- TRÊS DIAS?

- SHHH, Hime-sama! - Pediu Glow, falando baixinho. - Nós estamos escondidos aqui e falar alto não é uma boa ideia…

- Por que eu dormi tanto tempo?

- Você gastou muita energia para vencer Thunder. É natural que você precisasse se recuperar.

- Você sempre dorme depois que usa muita magia. - Falou Watery. Então soltou uma risadinha antes de continuar. - Mas acho que você bateu o seu recorde pessoal.

Bem devagar, ela se sentou. Reparou que estava deitada em cima de algumas colchas de retalhos, em um vão mais fundo perto do altar que ela não tinha visto na sua primeira visita. Só então percebeu que, na verdade, estava no fundo do lago seco.

- Foi você quem drenou a água do lago? - Perguntou a Watery.

- Sim. Não havia espaço para todo mundo na caverna, que não é muito ampla e queríamos ficar o mais fundo possível. Drenar o lago me pareceu uma solução muito boa.

- Foi a Tomoyo-chan que pensou nisso! - Completou Glow, entusiasmada.

- Tomoyo-chan?

Como se tivesse sido evocada, eles ouviram passos que ecoavam pelas paredes de pedra e, logo, a garota apareceu, carregando uma cesta nas mãos.

- Gente, vocês não vai acreditar, mas eu encontrei uma macieira cheia de… HANAKO-CHAN!

Ela largou a cesta nas mãos de Watery e correu para abraçar a amiga.

- Você acordou! Estou tão feliz!

- Também estou feliz de vê-la, Tomoyo-chan!

- Aliás… é Hime-sama! - Ela então se aprumou e fez uma profunda reverência, parecendo um tanto encabulada. - Vai demorar um pouco para eu me acostumar com isso!

- Não precisa fazer isso, Tomoyo-chan! - foi a vez da Hime ficar sem graça.

Kero foi o único que pareceu interessado no conteúdo da cesta. Pegou uma maçã e sentou-se para comê-la.

- Alguma novidade da cidade?

- Nada muito significativo. - Ela respondeu, sentando-se ao lado da Hime. - Desde ontem não se vê mais os soldados rondando Taiyohama. É possível que eles acreditem que nós tenhamos fugido rumo a outra cidade, talvez Penginki ou Hanamura.

- Nós? - A Hime perguntou, olhando para a garota, que corou um pouco.

- Ah… é que… eu decidi ir com vocês… pelo menos até chegar em Kazokuma ou algum lugar perto. - Ela sorriu docemente. - Eu pensei bastante sobre o que você me disse. Eu preciso perseguir os meus sonhos e a escolha é minha. Depois que eu indiquei a caverna como esconderijo e deixei todo mundo seguro, voltei pra casa, disposta a enfrentar minha mãe. - Ela suspirou - Foi uma briga feia. Percebi, então, que ela nunca me apoiaria por isso, simplesmente peguei as minhas coisas e fugi.

- Eu fico muito triste por você ter brigado com sua mãe, mas ao mesmo tempo, muito feliz porque você decidiu tornar seu sonho realidade. - A Hime sorriu, pegando na mão de Tomoyo - E Mais feliz estou porque você vai com a gente.

- Sim. Lógico que jamais colocaria sua segurança em risco, mas Flower-san me garantiu que isso não vai acontecer.

- Vai ser até melhor, porque alguém vai poder ficar de olho na Hime-sama o tempo inteiro. - Ela replicou, bem humorada. Depois bateu ligeiramente as mãos, chamando a atenção de todos. - Agora, creio que devemos descansar o máximo possível. Já que a Hime-sama está melhor, acho que poderemos deixar Taiyohama e seguir viagem.

- Mas eu acabei de acordar! - A Hime fez um biquinho.

- E vai dormir de novo. Realmente, Vossa Alteza gastou muito da sua magia sem transformar a chave e deve ter chegado no limite. O descanso será essencial para sua total recuperação.

Ela ia retrucar, porém tudo o que fez foi bocejar. Tomoyo e Glow riram com vontade.

- Está vendo? Vamos, deite-se. - Flower forçou o corpo da Hime para que ela pudesse se deitar de novo. - E todo mundo vai fazer o mesmo. Glow, você pode diminuir as luzes?

Enquanto todos se deitavam, murmurando boa noite e Glow fazia o que fora pedido, o sono fez as pálpebras da Hime pesarem, embora ela quisesse ficar acordada para repassar tudo o que acontecera até ali.

Mas, antes que dormisse outra vez, sentiu-se muito feliz por ter conseguido salvar todos os seus amigos.

(continua)

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Olá, Crianças

Por favor, eu peço muitas desculpas a todos pela IMENSA demora que tive para postar esse capítulo. Como havia colocado no finzinho do capítulo anterior, comecei a trabalhar e é muito exaustivo passar nove horas trabalhando, isso fora o tempo que passo indo pra lá e voltando pra casa. Acabo chegando em casa exausta e tudo o que quero é colocar as pernas pro ar e ficar com a cara na frente do ventilador, que nem um cachorro na janela de um carro. XD

Mas finalmente voltei a escrever e aqui estou com mais um capítulo da Fic. Acho que nunca havia comentado, mas havia feito uma promessa a mim mesma de não deixar passar de 15 páginas de word (sem espaçamento duplo entre parágrafos) nessa fic, pra tentar ficar objetiva. MAAAS… como já havia quebrado a promessa de escrever de ao menos mês a mês, achei justo quebrar essa promessa também e esse capítulo ficou mais compridinho. Espero que vocês tenham gostado, porque ele deu um trabalho danado para escrever

Não sou muito boa descrevendo cenas de batalhas e tive que pegar um monte de referências (aliás, agradecimentos especiais a minha mesa de RPG, pois a vivência jogando role playing foi fundamental). Também quebrei a cabeça pensando num jeito de como elas poderiam fazer para vencer Thunder, já que obviamente elas estavam em desvantagem. Felizmente eu lembrei que existem flores (e, depois de uma pesquisa rápida na internet, descobri que eram muitas) venenosas até mesmo ao contato. As duas que eu citei (Acônito e Lírio de Sapo) podem até matar.

Depois, a Hime foi lá e terminou o trabalho. Quem prestou atenção deve ter percebido que, pela primeira vez, apareceu o círculo mágico embaixo dela… hehehehehe

Bom… espero que tenham gostado. Queria muito dizer que daqui a mês vai ter capítulo pronto, mas eu realmente não sei. Detesto manter o suspense de vocês mas, acima de tudo, detesto ficar tanto tempo sem escrever. Me divirto muito escrevendo "O Último Reino", gosto de enveredar pra aventura e deixar de lado um pouco o romance (mesmo que seja cobrada em quase toda review pelo Shaoran. Tenham paciência, crianças!). Gostaria de ter mais tempo pra fazer e não ter tantos bloqueios quanto tenho. Mas de uma coisa é certa: assim como minhas outras duas fics, mesmo que demore, eu vou até o fim. Quanto a isso podem ficar tranquilos. :)

Queria agradecer a todos os leitores que deixaram reviews (Ninha Souma, Catharina e Ana Pri-chan) e aos outros leitores silenciosos. Tenham paciência comigo, por favor, mas cobrem se eu demorar.

Vou ficando por aqui. Até o próximo capítulo.

Beijos!

By Cherry_hi