Disclaimer: Sakura Cardcaptor e seus personagens pertencem ao CLAMP
Ps: Muito, mas MUITO cuidado com o que vocês desejam... ):3
O Último Reino Antes do Fim
Escrito por: Cherry_hi
Revisado por: Yoruki Hiiragizawa
Ato 9 - A Hime e o Senpai insistente
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- Nakano!
A Hime parou de caminhar no instante que ouviu aquela voz dura lhe chamando e fez uma careta. Sem se virar, ela já sabia quem era. Tomoyo, ao seu lado, deu uma risadinha meio nervosa. Virou-se e deu de cara com a figura alta de Kurōkami-senpai.
- Okuma-san me disse que ontem você chegou em cima da hora do toque de recolher. - Okuma Nagisa era a vice presidente do Conselho estudantil, da mesma série que elas. Era a garota que estivera com ele no telhado há quatro dias. - E antes de ontem também. Gostaria de saber por onde você tanto perambula na escola se não participa de nenhum clube.
Ela cruzou os braços, levantando a cabeça para encarar os olhos azuis do rapaz.
- Pelo o que eu me lembre, não violei nenhuma regra se cheguei antes do toque de recolher.
- É verdade, mas fui reportado que, no dia do incidente no telhado, você chegou após o toque de recolher.
Ela ficou calada, tentando arranjar alguma desculpa, mas era bem difícil enquanto aqueles olhos azuis claros lhe fitavam daquela maneira...
- Na verdade, naquele dia eu também cheguei atrasada. - Tomoyo falou, com a naturalidade de sempre. - Ficamos tão distraídas com a beleza da cidade que perdemos a hora. Mas Kurokawa sensei nos advertiu no mesmo dia.
Kurōkami-senpai desviou o olhar da Hime, que enfim conseguiu respirar direito.
- Foi ela mesma quem me falou isso. Estou tentando descobrir quem estava no alto do telhado da escola naquele dia.
- Não éramos nós. - A Hime conseguiu dizer, rabugenta, e arrependeu-se logo em seguida porque os olhos azuis se voltaram novamente para os seus.
- Mas certamente era alguém e pretendo descobrir quem. Investiguei nos alojamentos do colegial 2 e vocês foram as únicas que chegaram depois do toque de recolher. - Ele deu um passo pra frente, encurtando a distância até a Hime. - E agora descubro que praticamente todos os dias está quase queimando o toque de recolher. Estou bastante curioso.
- Não… não é da sua conta. - Ela balbuciou, suando frio.
- É da minha conta se você está aprontando alguma coisa. - Repentinamente, o olhar dele se desviou para o casaco do seu uniforme. - O que é isso?
A Hime colocou a mão em cima do broche de espada, defensivamente.
- É um enfeite! Vai me dizer agora que broches estão proibidos?!
-Para dizer a verdade, joias muito vistosas são desaconselhadas.
- Mas é proibido? - A Hime enfatizou a última palavra.
- Bem, não…
- Oras, então deixe-me em paz!
Ele deu um sorrisinho destituído de humor.
- Está certo. Acho que vou pedir para que isso seja anotado na sua ficha. Mas eu a aconselho a não quebrar as regras. Não sei como são as coisas no país do qual você veio, mas no Reino das Flores de Cerejeira gostamos de ordem. Por isso vou ficar de olho em você.
Ele nem deu tempo a Hime de responder e foi andando pelo corredor. Ela soltou uma espécie de suspiro com um grunhido.
- Por que, de todas as pessoas no mundo, ele resolveu implicar logo comigo?
Tomoyo deu uma risadinha enquanto recomeçaram a andar pelo corredor, em direção ao refeitório.
- Deve ser porque somos estrangeiras…
- Não… não! - Ela interrompeu a amiga, enfaticamente. - Ele não implica conosco, ele implica comigo! Hoje foi os meus horários, ontem ele ficou me perguntando por que eu nunca como nada na hora do almoço. Antes disso, ele implicou com a cor das minhas meias! Com tanta gente nessa escola, ele foi logo me notar! Que coisa! - Tomoyo riu de novo.
- Ah… bom… eu tenho uma teoria, mas acho que você não vai gostar…
- Ué, fala.
- Bom… eu acho que ele gosta de você.
A Hime até parou de andar de tão surpresa que ficou.
- Acho que você enlouqueceu, Tomoyo-chan! Esse cara? Gostar de mim?!
- Acho que ele não sabe se expressar direito. Ou ele é tímido. Aí a única maneira de falar com você é pegando no seu pé.
- Eu acho que ele simplesmente é muito rígido com as regras. Como sou uma forasteira e fui pega fazendo besteira logo no primeiro dia, ele resolveu ficar de olho em mim.
- Mas o engraçado é que eu também sou forasteira e também fui pega fazendo besteira logo no primeiro dia…. - Tomoyo falou significamente e deixou no ar a insinuação, que a Hime fez questão de ignorar.
- Mas… eu realmente preciso ter cuidado com esse toque de recolher. Ainda mais com esse mala na minha cola.
- Você ainda não encontrou um lugar bom para treinar sua magia?
- Não.
Nos últimos três dias, ela vinha se encontrando secretamente pela cidade com Watery, Flower ou Glow para tentar fortalecer e controlar seus poderes. Depois do telhado do Colegial 2, encontraram-se numa sala vazia do Fundamental 1, mas ela e Glow quase foram pegas pelo clube de música, que ficaram ensaiando até tarde. No dia seguinte, tentaram no ginásio abandonado, perto do ginasial 3. Embora a Hime tenha feito bastante progresso nesse dia, conseguindo focar seus poderes somente em Watery, o círculo mágico estava mais iluminado que nunca, o que chamou a atenção de alguns professores e a Conselheira teve que usar novamente sua parede de água para poderem escapar. E, por fim, na noite passada, ela conseguiu fortalecer Flower e Sword significantemente, mas o armário de vassouras do terceiro andar da Universidade 2 era pequeno demais e um dos zeladores estranhou a porta trancada. Mal tiveram tempo de sair correndo antes que ele trouxesse as chaves reservas para abrí-la.
- Estou conseguindo usar e controlar a magia, mas tenho certeza que faria um progresso bem melhor se não fosse constantemente interrompida e não ficasse o tempo todo com medo de ser pega.
- Por que não treina no nosso quarto? - Tomoyo sugeriu, mas logo em seguida respondeu sua própria pergunta. - Ah… os janelões… mesmo com cortinas, vão chamar muito a atenção e logo vão saber que somos nós.
- Sim… o Kero já havia sugerido isso. - Ela soltou um suspiro de frustração. - Além disso, Glow me disse ontem que estão surgindo boatos de fantasmas no Fundamental. Se Kurōkami-senpai ouvir essa história, vai ficar ainda mais desconfiado.
- Sim. - Tomoyo notou o semblante triste da amiga e pegou na sua mão, delicadamente. - Não fique assim, Hanako-chan! Vamos achar uma solução, com certeza.
- Tomoyo...chan?
As duas se viraram e deram de cara com uma moça da idade delas, de cabelos escuros e cortados nos ombros, grandes óculos redondos e olhos castanhos que fitavam a morena com indisfarçada surpresa.
- Na-Naoko-chan? - Tomoyo volveu, ficando muito pálida.
- O que você está fazendo aqui? Pensei que tinha parado de estudar para ajudar sua mãe nos negócios…
- Sim, mas… eu voltei.
Tomoyo, sempre tão natural em contar mentiras, parecia bem nervosa agora, o que preocupou a Hime.
- Quem… é ela, Tomoyo-chan? - perguntou, fitando a garota.
- Esta é… Naoko-chan… uma antiga amiga minha de escola.
Foi a vez da Hime ficar branca.
- O que você está fazendo aqui? - Naoko perguntou, sem se conter, de repente abrindo um sorriso. - Voltou a estudar? Mas por que não está no Colegial 1? Você sempre foi tão inteligente…
Repentinamente, Tomoyo segurou o braço da garota e se afastou da Hime, que olhava as duas, preocupada. Ela a levou até um canto mais vazio do pátio, perto do jardim, onde podiam conversar sem serem interrompidas.
- O que está acontecendo, Tomoyo-chan?
- É que eu voltei pra cá… mas estou usando um nome diferente… e disse que vim de outro país.
- O quê? Mas por quê?
- Eu tenho os meus motivos.
- Tem algo a ver com aquela garota. - ela afirmou, olhando para a Hime.
Essa era a maior qualidade de Naoko: era muito inteligente. Mas seu pior defeito era a curiosidade.
- Quem é ela?
- Uma amiga… que eu estou ajudando. O que você está fazendo aqui? - Ela mudou de assunto, querendo distrair a outra. - Você estudava no ginásio 1 comigo… por que você foi para o Colegial 2?
Naoko suspirou, triste.
- Não sei se você se lembra, mas no final do fundamental, minha mãe ficou muito doente. Tentamos de tudo para salvá-las, mas… infelizmente…
- Oh, Naoko-chan…. - Tomoyo colocou a mão carinhosamente no ombro da amiga. - Eu sinto muito. Lembro-me o quanto você a amava.
- Sim… mas não teve jeito…. - Ela enxugou quase com raiva uma lágrima que caía teimosa pelo rosto. - Fiquei tão transtornada que minhas notas caíram e não estudei direito para o exame de admissão do colegial. Acabei ficando no Colegial 2.
- Entendi. Mas então… por que eu não a vi por aí antes?
A garota de óculos pareceu meio encabulada…
- Bom eu… estive… hum… ocupada…
- Espere um pouco… "pensei que fosse a Yanagisawa de novo…" seu sobrenome é Yanagisawa! Você estava suspensa!
- Como você sabe disso?! - Assim que Naoko perguntou aquilo, Tomoyo percebeu a besteira que tinha feito.
- Hum… Kurōkami… senpai falou que você estava suspensa… na turma…. - desconversou.
- Mas ele disse "Pensei que fosse a Yanagisawa de novo" na turma? Não faz sentido.
- Não importa, Naoko-chan! Por que você foi suspensa?
- Eu… er…. - Foi a vez dela ficar sem graça. - Estava investigando uma coisa…
- Então você continua interessada nos "pequenos mistérios"? - Tomoyo perguntou, rindo um pouquinho.
- Lógico que sim! Faz parte de mim! - Naoko respondeu animada.
Os "pequenos mistérios" eram coisas com as quais Naoko se deparava e investigava e que ao primeiro olhar eram incompreensíveis. Não era nada importante e envolvia coisas como "por que a terceira porta do terceiro banheiro vive trancada?" ou "Seria verdade que existiu um bruxo que viveu 1000 anos em Okiyama e que está enterrado debaixo da montanha?". Ela sempre gostara de mistério e coisas ocultas. Embora achasse isso muito bonitinho da parte de Naoko-chan, Tomoyo sabia que a curiosidade da garota facilmente poderia transformá-la e a sua amiga misteriosa em um "pequeno mistério". Seria um desastre.
- Bom… então não vou perguntar quais fantasmas você anda perseguindo hoje em dia, mas eu diria para você ter cuidado da próxima vez. Deve ter sido uma droga ser suspensa.
Naoko cruzou os braços, bufou e fez um biquinho.
- Ah, mas isso foi ridículo! Quando fui pega, o toque de recolher ainda não tinha tocado, mas, segundo o diretor da escola... - Essas últimas três palavras foram ditas em um profundo tom de desdém. - "o caminho que eu faria para chegar no meu dormitório seria muito mais longo do que os cinco minutos que eu teria antes do toque." Aí me suspendeu. Cinco dias sem aulas!
- Parece muita coisa para uma infração tão boba. Ainda mais nessas circunstâncias. - murmurou Tomoyo.
- Com certeza que foi! O… Diretor anda meio esquisito ultimamente…
- Como assim?
Repentinamente, Naoko ficou vermelha e desconversou:
- Nada não. Enfim, não adianta chorar pelo leite derramado. Vou ter que correr para repor as aulas.
- Se você precisar de ajuda, ficarei feliz em ajudá-la.
- Obrigada, Tomoyo-chan. Você sempre foi muito legal. Em que classe você está?
- 2-2-2. E você?
-2-2-1.
Nesse momento, o sinal para a próxima aula tocou.
- Preciso ir. Nos veremos na hora do almoço?
- Claro. Foi bom vê-la de novo, Tomoyo-chan.
Naoko observou a amiga correr até àquela estranha garota de cabelos pretos e óculos. Elas conversaram rapidamente, acenaram para ela e depois entraram na escola. Assim que passaram pelas grandes portas duplas, Naoko ficou extremamente séria. Escutou um movimento atrás de si, onde algo se avolumou entre as árvores do jardim.
- Acha que pode ser eles? - Ela perguntou, sem se virar.
- Talvez. - O vulto respondeu numa voz grave, como um barítono. - Outras pessoas muito interessantes entraram na cidade. Estão espalhadas pelas escolas, mas é uma coincidência muito grande para passar despercebida por nós.
- Muito bem. Investigue isso. Farei minhas próprias perguntas por aí.
Ela caminhou calmamente para dentro da escola, sem olhar nenhuma vez para trás. Pois ela sabia que, mesmo que olhasse, já não haveria ninguém entre as árvores.
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A Hime caminhava inquieta pelo pátio da escola, de um lado para o outro. Além de Glow estar atrasada (outra vez!), as revelações inquietantes de Tomoyo sobre Naoko a deixaram bem preocupada. Estava gostando da cidade e queria ficar mais um tempo por ali antes de seguir viagem. A última coisa que desejava era sair às pressas dali por ter sido descoberta (de novo!).
Por fim, sentou-se em um banco, mas seus pés se recusavam a ficar parados, batendo ritmicamente no chão de terra. Onde estava aquela menina? Olhava ao redor, esperando ver a garota, quando se deparou com um homem mais velho olhando-a. Ele tinha cabelos grisalho, era alto e magro, com um olhar muito arrogante e severo. Ela franziu a testa, estranhando, mas desviou o olhar, evitando encará-lo. Quem seria aquele? Algum professor? Não se lembrava dele…
"Naoko-chan comentou que o diretor da escola anda muito estranho…" Ela podia ouvir a voz de Tomoyo soprando essa lembrança. Seria ele? Mas por que ele a olhava daquela maneira? Será que...
- Desculpe… a demora… Hime-sama! - Glow despejou assim assim que parou a sua frente. - Mas é que… fui eleita… tesoureira… do clube de literatura… e precisei fazer… um discurso…
- Caramba! Tesoureira do clube? - A Hime estava impressionada e aquilo varreu o homem misterioso da sua cabeça. - No seu quarto dia de aula?
- Aparentemente, as pessoas gostam muito de mim…. - Disse isso tão meigamente que a Hime entendeu o porquê.
- Tudo bem, Glow-chan. Olha, não fique preocupada comigo. Posso pedir para Kero, Flower e Watery me ajudarem. Sei que você está adorando estudar e quero que você aproveite o máximo disso!
- Mas eu quero ajudar a Hime-sama! - Ela exclamou, pegando nas mãos dela. - Prometo que vou me esforçar mais!
- Eu não quero que você se canse demais. Só isso.
- Eu vou conseguir! - Ela prometeu, com uma expressão determinada nos seus olhos azuis claros. Ela até parecia um pouco Kurōkami-senpai. A Hime viu que não adiantava insistir.
- Está bem. Então… você encontrou algum lugar interessante para treinarmos?
- Encontrei, mas não tenho muita certeza se é completamente seguro. - A Hime suspirou, resignada e Glow continuou, depressa. - Podemos fazer o treinamento hoje lá e procurarei um lugar ainda melhor depois!
A Hime estava para recomendar outra vez que ela não se esforçasse tanto quando ouviu alguém chamando seu nome à distância. Viu uma garota de longos cabelos loiros e pele branca vir andando rápido na sua direção. Era Okuma-chan, a vice presidente do Conselho Estudantil. A Hime gostava bastante da garota, mas ela era subordinada direta de Kurōkami-senpai, então sua presença ali não podia ser coisa boa.
- Nakano-chan. O Presidente quer vê-la. Disse que é urgente.
- Agora?
- Sim.
- Mas eu preciso resolver uma coisa com Hotaru-chan…
- Não acho que vá demorar muito.
- Preciso ir mesmo? - Ela acabou perguntando, embora meio involuntariamente, derrotada.
- Creio que sim, Nakano-chan. - Okuma respondeu, parecendo entender o que a Hime sentia.
- Vou com você! - Disse Glow, parecendo irritada com aquela situação. - Assim ele fala o que tem que falar mais rápido, Hi… Hanako-chan!
A Hime suspirou e seguiu Okuma-chan de volta pelo pátio.
- O que será que ele quer com você, Hime-sama? - Perguntou Glow, bem baixinho, no ouvido da Hime.
- Provavelmente falar sobre o comprimento da minha saia ou sobre minhas notas dos exercício de matemática! - Ela volveu, causticamente. Então acrescentou, mais baixo ainda, para que Okuma não escutasse de jeito nenhum. - Vou avisar logo para que você não se surpreenda. Ele é o rapaz que apareceu no telhado no nosso primeiro dia de aula.
Glow arregalou os olhos
- Nossa! Que azar ele ser o presidente do Conselho…
- Sim.
Depois ficaram caladas o resto do caminho. Finalmente, Okuma-san abriu uma porta no último andar do edifício e eles entraram numa sala não muito grande, ocupada principalmente por uma mesa retangular de madeira escura, com várias cadeiras vazias. Havia algumas estantes cheias de papéis e volumes de livros encostados nas paredes, que exibiam alguns certificados emoldurados. No fundo da sala, a frente de uma grande janela, havia uma escrivaninha simples onde Kurōkami-senpai estava sentado, parecendo bastante concentrado em uns papéis em sua mesa.
- Kurōkami-senpai, ela está aqui.
O rapaz levantou a cabeça e deu um sorriso frio.
- Obrigado por vir, Nakano.
- Acho que eu não tinha muita escolha.
A porta se abriu mais uma vez e Tomoyo entrou, parecendo surpresa, ainda mais ao ver a Hime e Glow na sala.
- Sentem-se, por favor. Akuma-san, pode ir. Você também. - Ele indicou a porta para Glow com a cabeça e a garota cruzou os braços, emburrada.
- Não vou sair! Você chamou a Hi-...Hanako-chan aqui e nós íamos fazer uma coisa. Então vou esperar aqui… em pé!
Aquela atitude não fez nada além de atiçar a curiosidade do rapaz.
- Qual é o seu nome mesmo?
- Haruki Hotaru.
- E está em que ano…?
- Isso importa? - Falou a Hime, agressivamente, pois ele saber sobre Glow não era um bom sinal. - Você nos chamou aqui para interrogar a minha amiga?
- Não, não. Na verdade, eu as chamei aqui, Nakano-san e Kamei-san, para que vocês possam esclarecer algo para mim. - Olhou bastante sério para as duas. - Vocês chegaram no domingo e deram entrada nos alojamentos, entregando algumas documentações para Kurokawa-sensei, correto?
- Sim. - Confirmou Tomoyo, calmamente
- Eu examinei os papéis e percebi que estão faltando algumas coisas… como confirmação de matrícula e o visto de entrada. E também, não achei nenhuma carta informando da chegada de vocês. Também nenhum professor sabia desse fato…
Houve um pequeno momento de silêncio e ele voltou a cravar os olhos somente na Hime.
- Sei que você deve achar que sou um chato, mas é meu dever manter a ordem entre os estudantes e ultimamente… andaram acontecendo algumas coisas estranhas e desagradáveis.
- Que coisas estranhas? - A Hime perguntou, ficando imediatamente alerta.
- Mesmo se forem estudantes estrangeiras, vocês devem ter ficado sabendo que a nossa princesa desapareceu assim que aquele usurpador tomou o trono para si. Além de criar o Muro em volta da nossa Capital, anda enviando emissários atrás dela, que não temem a nada e fazem coisas terríveis com as pessoas. Relatos de pessoas sendo sequestradas e feridas chegam a Seitomura todos os dias, assim como as notícias dos avanços desses emissários. Inclusive, alguns dos conselheiros se voltaram contra a Hime e trabalham para Phobos.
Tomoyo e a Hime se entreolharam muito rápido.
- Alguns desses Conselheiros. - continuou ele. - são taticamente mais perigosos que os outros, pois podem assumir outras identidades e outras formas. Watery é a única que temos certeza ser fiel a princesa, pois foi vista recentemente em Taiyohama. Mas Mirror, que pode assumir outras identidades, Shadow, um tipo muito esquivo e silencioso e Illusion, cujo poder de fazer ilusões e se disfarçar de qualquer coisa é infinito, estão desaparecidos e podem estar trabalhando para o usurpador. Portanto, é compreensível que estejamos tomando tantos cuidados.
- Então… você acha… que um de nós podemos ser os Conselheiros disfarçados? - A Hime perguntou porque sabia que aquilo era esperado dela.
- Sim… ou podem ser agentes de Phobos disfarçados. Além disso, chegaram aos meus ouvidos alguns boatos realmente alarmantes…. - Ele deixou no ar e a Hime mordeu a isca:
- Que boatos?
- Bom… você não espera que eu conte algo que pode me dar vantagem sobre meus inimigos, não é? - Seu sorriso ao falar isso era todo sarcástico. Voltou a ficar sério quando continuou. - Além disso, são boatos de uma fonte não muito confiável e preciso de mais evidências até para não sair acusando as pessoas de algo que não posso provar.
- Se você não quer dar vantagem aos seus inimigos, como você mesmo disse… - Tomoyo argumentou, lentamente. - Então por que está nos falando sobre o assunto?
- Vocês são inocentes até que se prove o contrário. Então preciso que vocês me passem o maior número de informações possíveis.
- Que tipo de informação?
- Por exemplo, quem foi a pessoa que intermediou o contato com vocês enquanto ainda estavam em seu país de origem.
- Quem cuidou disso foram nossos senseis. - Tomoyo, como sempre, deu uma resposta rápida e crível. - Não lembramos o nome do responsável. O que posso fazer é procurar nas cartas que a Sensei nos escreveu com recomendações de quem seria a pessoa.
- Sim, faça isso. Então vou procurar conversar com o professor e corroborar a história de vocês. Até lá. - Seus olhos voltaram-se mais uma vez para a Hime. - Vou ficar de olho em vocês.
- Nossa, que cara maçante! - Glow reclamou, assim que saíram da sala da presidência.
- Mas, no final das contas, ele só está fazendo o trabalho dele. - Tomyo o defendeu. Estava bastante séria. - Preocupa-me em como vamos arranjar esses documentos e onde encontraremos esse professor.
- Essa mentira está tomando proporções cada vez maiores. - A Hime comentou, meio distraída. - Não só teremos que arranjar documentos para nós, como também para Glow, Watery e Flower. Porque eu tenho certeza que ele vai investigar Glow e acabará descobrindo sobre as outras também.
- Talvez… seja melhor simplesmente irmos embora…
- Não acho que seja uma boa ideia, Glow-san. - Argumentou Tomoyo. - Ele ficaria desconfiado.
- Mas já não estaríamos aqui.
- Não… eu quero ficar mais um tempo. - A Hime falou, decidida. - Ele falou de uns boatos… acho bom que nós também façamos uma investigação.
- O que você espera encontrar?
- Não sei, Glow-chan… mas algo virá disso, com certeza. - Ela pensou no homem que havia visto mais cedo e na conversa com Naoko-chan. Definitivamente, algo estranho estava acontecendo naquela cidade. - Preciso que você, Watery e Flower procurem pistas pelas respectivas escolas. Qualquer boato ou sussurros venham me contar imediatamente.
- Na verdade, eu tenho ideia melhor. - Tomoyo falou, animada. - Por que não mandamos Watery-san ou mesmo a Glow-san para a sala do Presidente e elas mesmas procuram algo que possa nos dar uma pista sobre o boato?
- Excelente ideia, Tomoyo-chan! Aliás, vocês poderiam aproveitar essa excursão clandestina pela escola e procurar no registro de professores algum que no momento esteja impossível de localizar…. - Repentinamente, a Hime se lembrou do porque estava ocupando o quarto 2S. - Se tiveram alunos que ficaram presos na Capital por causa do Muro, então haverá de ter professores que também ficaram!
- Boa ideia, Hime-sama! - Glow ficou animada. - Vou agora mesmo falar com Watery e iremos hoje mesmo!
Glow saiu correndo em disparada e as meninas ficaram observando-a até ela desaparecer na esquina do corredor.
- Ela parece uma criança mesmo! - Observou Tomoyo, com meiguice. - Nem parece uma Conselheira do Reino.
- Sim, ela é um amor, assim como Watery e Flower são.
- Hanako-chan… você sabe que, provavelmente, Kurōkami-senpai não vai ficar completamente satisfeito quando dissermos que o sensei que é responsável por nessa vinda a Seitomura não está presente, não é?
A Hime suspirou.
- Sim, imagino que isso vá acontecer. Ele vai continuar pegando no nosso pé.
- No SEU pé, você quis dizer, né? - Tomoyo perguntou com um ar falsamente inocente.
- Ah, Tomoyo-chan, para com isso! - A Hime falou, andando mais rápido para esconder o embaraço e as bochechas vermelhas.
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- Você sabe onde é, Glow? - Watery perguntou, num sussurro, após passar em sua forma aquosa pela fresta da porta de entrada do Colegial 2.
- Sim. - A pequena Conselheira respondeu com outro sussurro, apontando para a escada no final do corredor. - Fica no último andar.
Silenciosamente, Watery voltou a se transformar em água, movimentando-se muito rápida pelo saguão escuro até as , brilhando o mínimo possível, foi atrás. Em minutos chegaram até a sala da Presidência do Conselho estudantil.
- Ei! Você escutou isso? - Glow falou de repente, colando o ouvido na porta.
- O quê? Não ouvi nada!
Glow não respondeu e passou pelo buraco da fechadura. Watery a seguiu entrando pela fresta da porta. Uma vez lá dentro, as duas voltaram aos seus disfarces humanos.
- O que foi que você ouviu? - Voltou a perguntar Watery, alarmada, olhando para todos os lados da sala aparentemente vazia
- Eu ouvi um barulho baixo de folhas sendo… mexidas. - Glow também esquadrinhou a sala com seus olhos atentos. Ela fez uma pequena bola de luz surgir entre seus dedos para enxergar na penumbra
- Ei, calma aí! - Watery exclamou, correndo até a grande janela no fundo do aposento, fechando as cortinas rapidamente. - Alguém pode ver a luz e tudo o que não queremos são mais boatos de fantasmas!
Mas Glow continuava a perscrutar a sala, passando seus olhos claros pelas estantes de livros e papéis, pela mesa de reunião e pela escrivaninha. Caminhou silenciosamente pela sala, iluminando cada canto, olhando dentro do pequeno armário encostado em uma das paredes, nas gavetas da escrivaninha e embaixo da mesa. Não havia ninguém nem nada.
- O que você esperava encontrar? - Perguntou Watery, curiosa.
- O Presidente do Conselho estudantil me lembrou hoje do quanto somos versáteis. - Ela respondeu, franzindo a testa. Vendo que a outra não havia entendido, explicou. - Você se transforma em poças de água e pode assumir outras formas; Eu passo por buracos de fechadura e posso ficar ainda menor. Mirror se transforma em outras pessoas; Shadow pode se esconder em qualquer canto escuro; Illusion se transforma em qualquer coisa ou objeto; Dark também pode se esconder na escuridão; Light…
- Ei, eu sei o que cada um de nós pode fazer. Não precisa listar. - Watery resmungou.
- O que não sabemos é quem exatamente está do lado de Phobos e quem está do nosso. E se um deles estiver aqui, espionando para aquele usurpador?
- Você diz… aqui, nesta sala? Acho bem improvável.
- Por quê?
- Se realmente algum emissário de Phobos estivesse aqui, provavelmente já teria nos atacado, não acha?
- É… pode ser…. - Concordou Glow, hesitante.
- Você, com certeza, deve ter ouvido coisas. Agora, vamos logo procurar por pistas desse boato. Preciso dormir decentemente hoje. Se a sensei me pega dormindo de novo na sala, com certeza serei suspensa.
- Como você consegue dormir na aula, Watery?! É tudo tão interessante!
- Para você, que gosta de ler e estudar. As aulas de ciências são as piores para mim! Se ficássemos tempo suficiente até os exames, com certeza seria reprovada.
Felizmente para Watery, não demorou muito para encontrarem o que estavam procurando. Em cima da mesa de Kurōkami-senpai havia alguns papéis rabiscados com uma caligrafia firme. Watery tirou uma caneta que estava em cima das folhas, alisou e leu:
"Yanasigawa-san foi pega perto da sala do diretor um pouco antes do toque de recolher. Embora eu tenha protestado contra a punição exagerada, a aluna foi suspensa. Quando interroguei o motivo dela estar naquele lugar e naquele horário, ela foi evasiva, porém acabou dizendo que estava investigando uma mudança de comportamento de alguns alunos e docentes. Citou Fukase Moriko, da turma 2-1-3; Nara Hisano, da 2-2-1 e Uesaka Haru, da 2-3-4. Citou Mori-sensei, professor de Japonês responsável pela turma 2-1-4 e o diretor do colégio o que justificaria o castigo exagerado que ela havia levado."
"Contou também que o comportamento de Nara-san foi o que primeiro levantou suas suspeitas. Há duas semanas, ela saiu no fim de semana para visitar sua família em Yamamoto e voltou com o comportamento alterado. Sua expressão, geralmente risonha, estava fria. Parecia muito mais disposta a contestar as ações da Monarquia do Reino e parecia apoiar Phobos. Quando lembrei Yanasigawa que ela não era única que estava a favor do usurpador, ela me disse que até a sexta-feira antes de ir para casa ela estava completamente a favor da Hime e agora mostrava uma rejeição quase fanática, enfrentando outros alunos que se mostravam a favor da princesa."
- Realmente, isso é estranho. - Comentou Glow. - Já percebi que alguns dos meus colegas parecem questionar as ações da Hime, o que é completamente compreensível, mas conversam normalmente e parecem estar dispostos a ouvir a opinião dos outros alunos.
- Aqui tem mais coisa. - Watery falou e continuou a ler em voz alta:
"Suas suspeitas aumentaram depois da aparição pública da Hime em Taiyohama, quando vários alunos residentes da cidade costeira receberam cartas animadas de seus pais relatando o ocorrido. A notícia se espalhou como fogo em palha por Seitomura e muitos estudantes ainda duvidosos das intenções da Hime começaram a pender para o lado da Princesa. Porém Nara-san se tornou ainda mais exaltada no seu discurso anti-monarquia, chegando a agredir verbalmente uma outra aluna. Foi então que ela começou a investigar pela escola outras pessoas com comportamentos semelhantes e descobriu os alunos e o professor citados acima…"
- Caramba, isso é estranho mesmo! - Watery enfatizou a última palavra, virando a folha para ler mais:
"Falei com os presidentes dos estudantes dos colegias 1, 3 e 4, pedindo que eles me relatassem comportamentos parecidos com os descritos por Yanasigawa. Um dia dias depois, a Presidente do Colegial 4 relatou um comportamento semelhante em cinco alunos e dois professores; mais tarde, o responsável pelos alunos do Colegial 1 também reportou 5 casos semelhantes. Mas, pelo visto, embora estranhem o comportamento dos colegas, os outros alunos não parecem muito preocupados. É compreensível, visto que os boatos sobre fantasmas na cidade não param de aumentar. Eu mesmo testemunhei um fenômeno estranho, quando, nesta segunda-feira, escutei um som estranho vindo do telhado da escola. Quando cheguei ao local, não havia nada ali, porém escutei relatos de alunos que viram luzes muito intensas no mesmo lugar. Embora não bata com os relatos dos boatos anteriores, é necessário investigar…"
- Pera… que boatos anteriores?! - Perguntou Glow, surpresa.
- Esse cara é bem metódico e coloca as datas em que escreveu os relatórios. - Watery passou o olho nas páginas. - E aqui só tem descrição de eventos recentes, pelo visto.
- Ah, mas ele deve ter escrito algo sobre isso antes!
Glow se abaixou e começou a abrir as gavetas da escrivaninha. Depois de alguns minutos revirando os papéis cuidadosamente, ela pareceu achar algo promissor.
- Escuta isso, Watery. É de três semanas atrás… "Duas alunas do Colegial 1 juram ter escutado uma voz abafada vinda de uma sala vazia, no primeiro andar. Quando abriram a porta, relataram ter visto um espectro de luz fraca desaparecer pela janela…" - ela passou os olhos rapidamente pela folha e virou a página. - Tem mais relatos que aconteceram nos Colegiais… Alguns escutaram sons de piano na sala de culinária à noite… Um rapaz do clube de Kendô jura que viu uma espada se mexer sozinha… Um dos professores relatou que seus livros de notas desapareceram e foram encontrados numa sala de aula dois dias depois… E seguem muitos depoimentos parecidos.
- Deve ser alguém pregando peças, com certeza. - Watery comentou, com firmeza. - Todos nós sabemos que os fantasma do Reino vivem em Kehasai e não podem sair de lá por causa da Floresta do Silêncio.
- E se for algum Conselheiro? - Glow perguntou, baixinho.
- Pra que diabos um dos nossos faria uma coisa dessas? - Watery perguntou com pouco mais de rispidez que o necessário.
- Simplesmente pela brincadeira. Vejo facilmente Flower fazendo esse tipo de coisa, assim como Illusion, Maze, Jump…
- Vamos supor que seja… Não acha que já teríamos nos dado conta da presença deles?
- Não se eles quisessem se esconder… e lembre-se que estamos aqui disfarçados, então dificilmente se dariam conta de nós também.
- Será que devemos investigar isso também? - Watery suspirou, frustrada. - E eu que queria passar um tempo tranquila em Seitomura...
- Vamos perguntar para a Hime, mas já sei que ela irá pedir que sim.
- Está bem. Acho que já conseguimos as informações que…. - Watery parou de falar ao ler mais um trecho dos relatórios do Presidente que ainda segurava. - Olha só isso aqui:
"Chegou ao meu conhecimento que duas alunas novatas entraram na turma 2-2-2, Kamei Tomoyo e Nakano Hanako. Os senseis responsáveis estão confusos porque não foram avisados de nenhuma transferência, embora elas portassem documentos oficiais da escola. Hoje quando fui dar o aviso sobre o toque de recolher eu as vi. Kamei-san é o tipo exuberante e meigo pelo qual os rapazes se sentem atraídos. Mas me interessei mais por Nakano-san, que parece querer desaparecer em uma timidez nada convincente."
- Uau, esse cara é muito sensível! - Glow comentou.
- Espantosa e perigosamente sensível, eu diria. Ele ainda não terminou…
"Durante os dias seguintes, fui extremamente rígido em cada detalhe para tentar fazê-la sair de sua casca. Ela parece nervosa e bastante digna. Por duas vezes confirmou minhas suspeitas, rebatendo minhas críticas. Pergunto o que estaria escondendo. Se as suspeitas de Yanagisawa estiverem corretas e os relatos de agentes de Phobos espionando cidades forem verdadeiros, precisarei investigar ela e sua amiga com mais afinco."
As duas se olharam por alguns segundos.
- Tomoyo-chan tem razão… precisamos fazer de tudo para tirar a atenção desse cara da Hime. - Disse Watery, bastante séria.
- Vamos embora daqui, então. Ainda temos que procurar por algum professor que não esteja mais na escola ou que esteja preso na Capital.
Elas colocaram tudo em seus respectivos lugares. Glow apagou sua bola de luz enquanto Watery voltava a abrir as cortinas da sala. Em seguida, voltaram para suas formas verdadeiras e saíram da sala, que ficou em silêncio. Minutos depois, uma espécie de distorção, como ar quente num dia de verão, apareceu e pairou por alguns segundos em cima da escrivaninha. Depois, saiu pelas frestas da janela e desapareceu na noite.
'
Logo nas primeiras horas da manhã, Watery e Glow se reuniram com a Hime, Tomoyo, Flower e Kero para contar as descobertas que haviam feito.
- Então… ele anda desconfiado de mim. Como eu suspeitava. - A Hime falou, frustrada. - Entre fantasmas e pessoas com comportamentos estranhos, ainda tenho que lidar com Kurōkami-senpai nos meu calcanhares!
- Quanto a isso, achamos algo que poderá ajudar vocês. - Glow falou, tirando um pedacinho de papel do bolso. - Você estava certa, Hime-sama: Nakamura-sensei, professora de Música do Colegial 2, está reportada como desaparecida, presa em Watashi. Copiamos os dados dela, caso vocês precisem. Ela é perfeita porque já intermediou outros intercâmbios no passado.
- Bom… é um problema a menos. - Tomoyo retrucou. - Agora precisamos forjar uma carta da suposta sensei do outro continente.
- Estou pensando que, talvez, a melhor solução seria eu fingir ser essa sensei, responsável por todo mundo. - Flower falou, de repente.
- Mas será que daria certo? - Kero perguntou, pensativo. - Tomoyo-chan contou que falou ao tal de Kurōkami que não se lembrava quem era a professora.
- Sou uma professora do ginasial, a princípio. Vocês teriam pouco contato comigo e seria normal não lembrarem do meu nome. Acho que daria certo.
- Ele vai querer falar com você, Flower-san. - Tomoyo argumentou, preocupada.
- Pois que fale. Vou dizer que trocamos correspondências por uns três meses, acertando os detalhes. Então as carta de Nakamura-sensei pararam, mas eu pensei que estivesse tudo certo e viemos para cá. Só depois eu descobri que ela estava presa em Watashi e que tinha toda a situação política acontecendo no Reino. Mas já era tarde demais. Talvez isso seja até uma ótima desculpa para ficarmos pouco tempo, visto que as coisas por aqui andam bastante complicadas.
- Os outros professores com os quais você trabalha não vão desconfiar?
Ela deu com os ombros.
- Não. Eles fizeram poucas perguntas e respondi todas evasivamente. Pelo menos agora tenho uma história muito boa e concreta caso alguém pergunte algo diretamente.
Mesmo um tanto temerosa, a Hime acabou concordando que essa era a melhor ideia que teriam. Flower escreveu uma carta bastante convincente e entregou a Tomoyo. Depois, todos foram para seus respectivos dormitórios.
- Vou amassar um pouco para fingir que é uma carta velha. - Em seguida, ela sorriu, marota, e ofereceu a carta para a Hime. - Quer entregar para o Presidente?
- Mas nem pensar! Faço questão de ficar longe do caminho dele!
- Hahahaha… eu vou entregar, fica tranquila. Mas… eu tenho a impressão que ele não faz questão nenhuma de ficar longe do seu caminho!
- Para com isso, Tomoyo-chan! - Mas a Hime no fundo também desconfiava disso.
Não deu outra. Na hora do almoço, ela viu Okuma-san se aproximando dela e sentiu-se murchar completamente.
- Nakano-san… o Presidente gostaria de dar uma palavrinha com você…
- Okuma-san…. - Ela falou, tentando não transparecer a irritação que sentia. - Fale pro Senpai que eu estou ocupada!
- Hã…. - A Vice-presidente olhou confusa para a Hime, que estava apenas olhando os colegas comerem. - Mas…
- Tenho certeza que não é nada importante. Depois eu falo com ele!
- ...Tá bem então…
Ela passou o resto do dia fugindo de Okuma-san e de Kurōkami-senpai. No dia seguinte, sábado, a Hime conseguiu manobrar os dois habilmente escondendo-se na biblioteca nos intervalos. Aproveitou para procurar algum livro que talvez a ajudasse a soltar os seus poderes. Um chamado "Poder Real: Um breve relato da Herança Mágica do Reino das Flores de Cerejeira" lhe chamou a atenção. Quando o sinal para as aulas da tarde tocou, ela simplesmente colocou o livro debaixo da roupa e saiu.
Os professores estavam bastante inspirados, pois mandaram uma pilha enorme de deveres de casa.
- Adeus, domingo livre! - a Hime ia falando para Tomoyo, enquanto seguiam a multidão de alunos que saíam pela porta da sala de história. - E eu que pensava que poderia treinar minha magia sossegada. Isso porque nem estamos na época das provas...
- Na verdade, Hanako-chan…. - Tomoyo falou de repente, com a voz risonha, olhando para um ponto mais a frente. - Você vai ter que passar por uma prova agora mesmo.
Quando olhou na direção que a morena lhe apontou, viu a figura alta e inconfundível de Kurōkami-senpai parado perto da porta, fiscalizando a saída dos alunos e procurando por alguém…
- Ah, não! - Gemeu a Hime, se escondendo atrás de Tomoyo, sentindo o coração bater inexplicavelmente mais depressa. - Ele não desiste!
- Você não fica nem um pouco curiosa pra saber o que ele quer falar com você?
- Não! Porque com certeza vai querer me provocar até eu gritar com ele e aí vai ter certeza que sou um emissário de Phobos!
- Quanta imaginação!
- Imaginação ou não, eu vou me esconder até esse cara desistir de me procurar. Se ele perguntar, Tomoyo-chan, diz que eu saí antes.
Antes que a amiga pudesse responder, ela se meteu por entre um grupinho de garotas do terceiro ano e sumiu. Pensou em ir para a biblioteca, mas desistiu, indo parar no telhado da escola. Encontrou um canto menos desconfortável no chão e começou a ler o livro da biblioteca. Nem viu o tempo passar, de tão concentrada que estava. O capítulo que lia agora, "O poder do Foco" falava sobre abstração:
'Desvincular-se da realidade e concentrar o espírito em apenas um elemento da própria magia é a chave para canalizar o poder de forma mais efetiva. A maneira mais fácil de fazê-lo é através de um objeto mágico poderoso, como o Báculo Real, que está na família Real há séculos, mas também com varinhas, amuletos, joias ou outros itens. No entanto é possível, através de muita concentração e foco, conseguir abstrair-se da realidade.'
Provavelmente era isso que estivera fazendo, inconscientemente, ao evocar o círculo mágico. Felizmente o livro ensinava algumas técnicas de abstração que provavelmente deixariam sua tarefa bem mais fácil…
- Finalmente achei você!
Ela sentiu o coração bater mais depressa outra vez ao escutar a voz profunda e dura Kurōkami-senpai. Ela fechou o livro imediatamente e se pôs de pé, enquanto o via se aproximar com passos rápidos e decididos.
- Eu disse que precisava falar com você, sua tonta! - Ele foi logo dizendo, agigantando-se sobre ela com o olhar zangado.
Ela deu um passo para trás, usando o livro quase como um escudo.
- Kurōkami-senpai. - Ela começou, fazendo o máximo possível para controlar a sua voz e mantê-la calma. - Tenho certeza que Tomoyo-chan já lhe entregou a carta e deve estar tudo resolvido. Por que não me deixa estudar em paz?!
- E quem disse que ficou "tudo resolvido"? A sensei que cuidou do intercâmbio de vocês está "convenientemente" presa em Watashi! Não tenho como falar com ela! Então continuo desconfiado.
- Pensei que fôssemos "inocentes até que se prove o contrário".
- Não posso fazer nada se suas ações levantam suspeitas!
- Tipo o quê?
- Tipo fugir de mim!
- Por favor! - Ela volveu, irritando-se. - Só estou cansada dessa perseguição sem fundamento! De tantos alunos, você resolveu encrencar justamente comigo!
Ele cruzou os braços.
- Os outros alunos não estão fugindo de uma conversa sobre os clubes escolares!
- Mas eu já disse que…! - Ela parou, confusa. - Clubes escolares?
- Sim. Queria simplesmente perguntar em qual clube você quer entrar.
- Ah!
Ela sentiu o rosto ficar muito vermelho. Então era só isso.
- Eu… não quero entrar para nenhum clube.
Ele levantou uma das sobrancelhas grossas
- Tem certeza? Você nem viu as opções ainda.
- Não precisa. Tenho muitas coisas pra fazer, então não posso entrar em nenhum clube…
- Que coisas seriam essas?
- Acho que não é da sua conta. - Ela respondeu, na defensiva outra vez.
- Não precisa ser tão agressiva.
- Isso é tudo? Posso ir para o meu quarto?
- Só depois que me disser o que você está fazendo com um livro da sessão reservada da biblioteca.
Pelo visto, esse cara não deixava passar nada. Ela olhou para o livro, tentando se fazer de desentendida.
- Não sabia que era da sessão reservada.
- Você deve ter levado sem ter passado pela bibliotecária, pois ela falaria que ele não pode sair da biblioteca.
- No meu país, levamos os livros que precisamos a hora que quisermos. - Mentiu ela, arrogante.
- Aqui é diferente. Você vai ter que devolver o livro.
- Tudo bem. Eu devolvo na segunda
- Não precisa. É só me dar que eu mesmo devolvo.
Ele estendeu a mão e ela mordeu os lábios. Precisava do livro.
- Eu… faço questão de devolver. E de pedir desculpas à bibliotecária.
- Pergunto-me por que você está tão interessada em um livro sobre magia.
- Kurōkami-senpai, pare com isso! Está me deixando nervosa!
Ele deu um passo na direção dela e ela tentou dar um passo para trás, mas a parede não deixou. O rosto dele estava a centímetros do seu e aquele olhar penetrante lhe causava arrepios.
- Inocentes não ficam nervosos com perguntas.
- Qualquer um ficaria nervoso com isso, senpai! - Ela retrucou, com a voz subitamente trêmula. - Você está perseguindo a pessoa errada.
- Quem seria a pessoa certa a perseguir? Kamei-san? Ou aquela sua amiga do fundamental?
- Deixe-as em paz! Por que não vai ficar no pé dos alunos que estão agindo esquisito?
Houve um súbito silêncio entre eles. Surpreso da parte dele e desconcertado da parte dela. Acabara falando demais.
- Como sabe desses alunos? - Ele perguntou, parecendo (se possível) ainda mais desconfiado.
- Eu ouvi um boato.
- Poucas pessoas sabem sobre isso e todas elas estão mantendo isso em segredo. Como você soube?
- Já disse: eu ouvi um boato! Não posso fazer nada se você não acredita em mim!
- Não acredito mesmo! - Ele se aproximou mais ainda e ela podia sentir o hálito quente em seu rosto, deixando-a subitamente… inebriada?! O que estava acontecendo com ela?
- Eu… eu… tenho que ir! - Ela falou, desconexa, empurrando-o para o lado como se aquela proximidade a sufocasse. Tentou correr para sair daquela inquietante situação.
- Espera um pouco! Não pense que vai embora assim…! - Ele pegou com força no seu braço enquanto falava… justamente onde estava ferida.
Ela soltou um grito longo e sofrido e a dor súbita fez suas pernas vacilarem. Ela teria caído se Kurōkami não a tivesse segurado.
- Ei! Você está bem?! - Perguntou, parecendo genuinamente preocupado.
- Es-estou…. - Mas a dor fez com que ela derrubasse o livro no chão e pendesse para a frente, onde encontrou o peito do rapaz. - Só… preciso… de um minutinho…
- O que está acontecendo? Você está… ferida?
- S-sim…. - Ela não tinha forças para mentir e deixou-se ficar, escutando o martelar muito rápido do coração dele.
- Vou levá-la para a enfermaria.
- Não precisa…
- Será que você pode ficar quieta um minuto, sem argumentar minhas decisões? - Ele volveu, ríspido. - Consegue andar?
- Sim…
Ela conseguiu ficar em pé, sem ajuda. A dor pulsava em seu braço, quase tão forte quanto no dia em que levara o corte. Provavelmente, a ferida abrira outra vez. Ele delicadamente segurou no seu braço bom e a guiou pelas escadas de acesso ao telhado e, por alguns corredores até a enfermaria. Ele a fez sentar em uma das camas e depois sumiu por uma outra porta por alguns segundos.
- Acho que a enfermeira já foi. Então eu mesmo farei o curativo.
- Não preci…. - Mas ela parou de falar no momento em que ele lhe lançou um olhar glacial.
Ela tirou o casaco e viu que a camisa branca de manga comprida que usava por baixo estava com uma pequena mancha vermelha. Enquanto isso, Kurōkami-senpai pegou um kit de primeiros socorros e sentou-se ao seu lado, perto demais para o seu gosto.
-Tire a blusa. - Pediu e ela ficou vermelha até a raiz dos cabelos.
- Não. - Ela começou a enrolar a manga. Ouviu-o suspirar, frustrado.
- Não vai dar certo. É preciso tirar a blusa para descer a manga!
- Não… Dá para enro... lar…. - ela hesitou na última palavra pois o tecido foi se apertando na sua pele e comprimiu a ferida dolorosamente.
- Como você é teimosa, Nakano! - Ele exclamou, impaciente. - Não vou deixar você ir embora enquanto não desabotoar essa camisa maldita para que eu possa cuidar do ferimento!
- Você não faria isso…
- Quer apostar? - Ele deu um sorriso de canto de boca sarcástico.
A Hime era perspicaz o bastante para reconhecer uma pessoa obstinada. Suspirando e com as bochechas ardendo, ela desabotoou os primeiros botões o suficiente para abaixar camisa, cobrindo com o braço bom seus seios. Kurōkami-senpai a olhava muito tranquilamente, parecendo não se importar com uma garota semi-despida em sua frente. Ele ajudou a abaixar a manga até o cotovelo e seus dedos roçaram na pele branca da moça, que sentiu um arrepio que nada tinha a ver com a dor…
-Nossa! - Ele exclamou assim que tirou o curativo velho e o talho na pele se revelou. Estava quase fechando, mas sangrava em um dos lados e a pele ao redor estava esverdeada. - Como foi que você se machucou desse jeito?
- Eu… Cai…. - Ela balbuciou, nervosa, embora não soubesse exatamente o motivo.
- Caiu em cima de uma faca? Ou de uma espada? - Sua voz estava ligeiramente sarcástica, mas sua atenção estava toda voltada para o ferimento.
Ela ficou em silêncio enquanto tentava se cobrir e não fazer caretas enquanto as mãos dele seguravam seu braço e limpava o sangue que havia escorrido. Seu olhar se fixou nos cabelos castanhos e bagunçados, que pareciam bastante macios. Os cílios que emolduravam os olhos azuis-claros eram longos, muito escuros, que faziam um bonito contraste com a pele ligeiramente bronzeada. Ele era realmente um homem lindo e, de novo, ela teve a estranha sensação de que ele a lembrava de alguém… mas quem?!
- Bom, isso deve resolver, por enquanto…. - Ele parou de falar ao encontrar seu olhar com o dela.
Não era a cor de seus olhos claros que lhe chamava atenção e a deixava estonteada: era a força e intensidade que havia neles.
A Hime engoliu em seco. Apesar dele ser muito rígido, mandão e desconfiado, havia algo nele que a atraía. Um das mãos deles foi até o seu rosto, afastando os cabelos negros da peruca muito delicadamente, acariciando suas bochechas levemente.
- A primeira coisa que reparei em você foram seus olhos. - Ele falou impulsivamente, num tom de voz intenso. - São de uma cor… diferente do que costumo ver. São lindos. Você é linda.
Se possível, o coração dela bateu mais depressa ainda. Não conseguia falar nada, completamente envolvida por ele.
- Com tantos boatos e notícias preocupantes de invasões e espiões, havia a possibilidade de você ser um deles, mas eu não queria que você fosse. Por isso eu a persegui e tentei arranjar qualquer prova que pudesse do contrário.
- Por que… você não queria… que eu fosse um… deles? - Ela conseguiu perguntar, com voz sumida.
O Polegar de Kurōkami-senpai que contornava as linhas do rosto dela subitamente pararam em cima de seus lábios entreabertos e trêmulos
- Será que preciso dizer o porquê? - Ele sussurrou, inclinando-se para frente. Ela, por sua vez, fechou os olhos…
O relógio da torre principal badalou, muito alto, cortando o clima. Ela abriu os olhos e subitamente se sentiu extremamente tímida. Ela virou de costas para ele e abotoou a camisa o mais rápido que seus dedos trêmulos conseguiram. depois pegou seu casaco no chão e correu para porta. Parou com mão na maçaneta.
- O-obrigada… por cuidar da minha… ferida. - Agradeceu, sem coragem de olhar para trás.
Correndo pelo corredor, parecia fugir de alguma coisa e nem ela sabia exatamente o que era.
(continua)
AÊÊÊÊ!
Eu tardo, mas não falho! Mais uma vez, peço desculpas pelo atraso, mas, para compensar, semana que vem (isso mesmo, terça feira que vem, dia 6 de Junho) eu postarei o capítulo 10 para me redimir. Já está escrito e revisado, então não vai ter desculpa. Na verdade, eu postaria essa semana mesmo, mas quero deixar vocês sofrendo um pouquinho, especialmente pelo finalzinho do capítulo… hihihihihi
Antes que vocês me matem, duas coisas que preciso dizer: 1- Kurōkami-senpai não é o Eriol (Eriol tem cabelos pretos lisos e pesados e olhos azuis escuros, galera. A descrição tá diferente)
2- Kurōkami é uma junção de duas palavras japonesas: Kuro e ōkami. Coloquem no Google translator e depois tirem suas conclusões…
Espero que vocês tenham gostado do capítulo. Crítica, elogios e ameaças de morte por demora de publicação através dos reviews, plisi. Agradecimentos especiais a Essen Senf (A.K.A. Minhoquinha) e a Ana Pri-chan pelos reviews.
Vejo vocês semana que vem.
Beijocas
Cherry_hi
