Disclaimer: Sakura Cardcaptor e seus personagens pertencem ao CLAMP


O Último Reino Antes do Fim

Escrito por: Cherry_hi

Ato 13 - A Hime, o sonho e as despedidas

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Uma criatura pequena, mas muito rápida, se movia entre as árvores.

Parecia um borrão cor de rosa, que se mexia veloz e precisamente entre as árvores cinzas e mortas, levantando as folhas secas quando suas patas pisavam no chão. Estava com pressa, fugindo de um inimigo invisível que o perseguia.

Por duas vezes, a criatura parou e mexeu suas longas orelhas em todos os lados, tentando escutar qualquer coisa que indicasse que seu perseguidor havia desistido ou se ainda estava lhe caçando. Então, continuava correndo, saltando com graça por entre as árvores cada vez mais juntas e escuras.

Repentinamente, a criatura parou. Havia chegado no limiar entre a floresta de árvores secas e sem folhas e olhava agora para uma fileira de árvores frondosas, de troncos marrons saudáveis e copas de folhas muito verdes, bonitas. Mas aquela visão fez o pequeno ser estremecer. Aquele lugar talvez fosse um pior destino do que aquele que lhe esperava se voltasse por onde viera…

Um barulho quase inaudível fez a longa cauda do bicho se retesar. Ele pulou no instante que uma longa espada de metal dourado cortou o ar no exato lugar onde estivera milissegundos antes. Infelizmente, ele não foi rápido o suficiente e a ponta da lâmina cortou parte de seu flanco e patas direitas, fazendo-o guinchar de dor. Sem escolha, ele adentrou a floresta de árvores sadias, olhando rapidamente para ver se seu inimigo iria lhe seguir. Viu uma silhueta feminina segurando a espada, entre as sombras dos galhos mortos, parada. Achava que ela não o seguiria, mas, pra garantir, adentraria naquela maldita floresta o máximo que suas forças o levassem.

A garota que o atacara realmente não o seguiu. Apenas sorriu, guardou a espada e seguiu na direção oposta, desaparecendo entre as árvores cinzas.

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A Hime acordou e não reconheceu onde estava.

Piscou os olhos duas, três vezes para conseguir focalizar a estranha textura que estava acima dela. Inicialmente pensou que fosse o teto de alguma estranha caverna coberta de limo verde. Somente quando sua visão voltou ao normal ela percebeu que na verdade estava vendo centenas de vinhas muito finas entrelaçadas em uma abóbada de tamanho considerável. Ela mexeu o pescoço para ver até onde aquela estranha construção iria. Um vulto a sua esquerda, que até então, não tinha visto, se mexeu.

- Hime-sama! - Ela reconheceu a voz de Glow num guincho de alegria. - Pessoal, ela acordou! Ela acordou!

Várias cabeças entraram no seu campo de visão, entre elas…

- Tomoyo… chan! - Sua voz saiu fraca, mas definitivamente cheia de alegria e alívio.

- Sim, Hanako-chan! Estou sã e salva! - A morena respondeu, feliz. - Flower-san e Illusion-san foram incríveis durante o resgate.

A Hime se esforçou para sentar e Flower, muito sorridente, a ajudou. Olhou a redor e seu coração perdeu um compasso ao perceber que ele não estava ali. Mas ficou feliz ao ver Kero lhe sorrindo de orelha a orelha; Watery, sentada quieta em um canto do minúsculo abrigo, mas parecendo aliviada; Glow, Tomoyo… e duas Naokos.

- Vocês ainda estão conosco? - Ela perguntou, olhando para as garotas idênticas de óculos, que sorriram.

- Estávamos preocupados. - Respondeu uma delas.

- Embora Flower-san tenha dito que você já esteve assim apagada antes. - Completou a outra.

- Quanto tempo eu dormi dessa vez?

- Dois dias. - Glow respondeu. A Hime reparou que seus grandes olhos claros estavam vermelhos.

- Desculpe por preocupar vocês. - Pediu, fazendo carinhos cabelos claros da menina.

- Depois do que você fez naquele telhado, lógico que você precisava de um descanso. - Retrucou a Conselheira do Brilho. - Sou uma chorona mesmo, então não ligue pra mim.

- Estão todos bem? - A Hime olhou de novo ao redor. O abrigo era pequeno, um quadrado não muito alto, feito de plantas floridas. Coisa de Flower, com certeza. - Onde estamos?

- Perto demais de Seitomura, se querem saber minha opinião. - Kero falou, estremecendo as asinhas.

- Estamos seguros aqui, Kerberus. - Uma das Naokos respondeu e a Hime deduziu que fosse Illusion - A chuva de Watery ainda está bem forte e ninguém se atreveria a sair da cidade com esse tempo.

- Além disso, a Hime fez um excelente trabalho enfraquecendo Shadow. - Watery completou, sorrindo pela primeira vez. - Com isso, ele perdeu o controle sobre as pessoas e suas sombras foram devolvidas.

- O que aconteceu com ele? Vocês… o pegaram? - Procurou outra vez pelo abrigo com os olhos.

- Infelizmente ele fugiu, Hime-sama. - Glow arregalou os enorme olhos. - Estávamos muito preocupados com você para corrermos atrás dele.

- Mas, provavelmente, ele ficará fora de circulação algum tempo. Com alguma sorte, aqueles soldados também. - Completou Flower.

- Agora, a má notícia… - Falou de repente Naoko, a verdadeira. - Vimos aquele pássaro enorme no céu ontem, procurando por nós, com certeza.

- Fly? - A Hime perguntou e Watery, Tomoyo e Kero concordaram com a cabeça. - Fazia tempo que não o víamos.

- Achamos que como Shadow controlava o exército de Phobos e você o deixou fora de ação, aqueles soldados ou devem ter enfraquecido ou desaparecido. - Atalhou Flower, pensativa. - Então Fly voltou a circular pelos céus do Reino. E isso pode significar que os outros Conselheiros traidores devem estar por aí.

- Estamos vigiando os arredores, caso haja alguma novidade. - Finalizou Tomoyo.

A Hime piscou. Pareciam estar todos ali.

- Mas… quem está vigiando agora?

Então, como se evocado pelas palavras da Hime, Kurōkami-senpai surgiu por uma entrada invisível no abrigo, segurando Sword. Ele ia falar alguma coisa quando percebeu a Hime acordada, que corou. Ele simplesmente largou Sword no chão com um estrépito e andou apressadamente a o pouca distância que os separava. Seus intensos olhos a fitaram, aliviados.

- Finalmente você acordou!

- Achei… que… você… tinha ficado… em Seitomura. - Ela replicou, gaguejando um pouco.

- Como se fosse ficar naquela cidade depois do que aconteceu e sem saber se você estava bem.

- Ele foi bem insistente, mas está sendo bem útil. - Naoko/Illusion retrucou, abaixando-se para pegar Sword do chão. - Embora pudesse tratar os Conselheiros com mais respeito.

Kurōkami-senpai ignorou a alfinetada.

- Obrigada por ter vindo. Eu… fico muito feliz. - Falou a Hime, timidamente. - Mas… não precisa se arriscar…

- Você não tem jeito mesmo, né? - Ele ralhou com ela, mas sorria levemente. - Estou aqui porque queria ter certeza que você estava bem e quis ajudar como podia. Ninguém me obrigou e estou ciente dos riscos.

A Hime bem que queria argumentar, dizer que não valia pena, porém manteve-se calada. Na verdade, gostou de saber que poderia estar perto dele mais tempo, por mais curto que fosse esse período. Antes que pudesse perguntar ou falar qualquer coisa, Flower bateu palmas para chamar a atenção de todo mundo.

- Agora é a minha vez de vigiar lá fora. Você viu algo suspeito enquanto esteve lá fora?

- Não. Tudo calmo e silencioso.

Enquanto ele falava, a Hime notou Illusion olhando esquisito para o rapaz. Brilhava levemente, segurando Sword, provavelmente conversando com o Conselheiro e podia adivinhar que o assunto era o Presidente do Conselho Estudantil. Ela franziu o cenho.

- Ótimo. - Flower retrucou, indo para a entrada do abrigo. - Hime-sama, descanse um pouco mais enquanto eu estiver de vigia. Mais tarde planejaremos o que faremos a partir de agora.

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- Você está bem de verdade? Eles não a machucaram?

Tomoyo, sentada encostada em uma das paredes do abrigo, sorriu meigamente.

- Estou ótima, não se preocupe. Eu é que deveria perguntar se você está bem. Deu um susto danado em Watery-san.

A Hime ficou calada algum tempo, pensando no que havia acontecido.

- Eu realmente me cansei bastante. Afinal, o dia inteiro foi cheio de emoções. - Repentinamente lembrou-se de Nara-san e apressadamente afastou a lembrança horrenda da cabeça decepada de sua mente. - Mas… mesmo assim… foi estranho…

- Em que sentido? - Kurōkami-senpai perguntou, entrando na conversa. Illusion (agora na forma de Flower), embora estivesse conversando com Glow, estava claramente prestando atenção neles.

- É que eu estava… absorvendo o poder dele e… embora tivesse em muitas partes uma magia parecida com a minha… havia algo… diferente dentro dele.

- Estranho em que sentido? - perguntou Tomoyo.

- Lá no âmago, enterrado bem no fundo do coração dele… uma coisa malígna, venenosa… que se entrelaçava dentro dele como um… um...

- Um parasita. - Illusion completou por ela. E não havia sido uma pergunta.

- Isso. Um parasita.

Houve um silêncio pesado dentro do abrigo. Agora todo mundo estava prestando atenção.

- Talvez essa seja a explicação mais plausível para os estranho comportamento dos nossos amigos Conselheiros, que agora são traidores. - Illusion falou, convicto. - Ele não foram convencidos a se juntar por livre e espontânea vontade a Phobos, embora eles mesmo acreditem nisso. Estão apenas sendo controlados por ele.

- Foi por isso que você desmaiou? - Perguntou Glow, de repente. - Por causa desse parasita?

- Sim. Quando tentei mexer naquilo, foi… muito doloroso.

- Então deve estar muito enraizado nos corações deles. - O Conselheiro das Ilusões começou andar de um lado para o outro, pensativo. - Eu me pergunto como ele fez isso. Como conseguiu se esgueirar sobre a vontade deles e impor a sua.

- Talvez com um feitiço? - Sugeriu Kero.

- Teria que ser um feitiço muitíssimo poderoso. - Argumentou Watery.

- Nunca achamos que eles pudessem ter sido controlados. - Complementou Glow, parecendo preocupada. - Isso significa que todos nós estamos vulneráveis!

- Por isso queria saber como ele conseguiu. - Reforçou Illusion.

- Será… será que foi através do nosso Contrato? - Indagou Watery, tensa, após mais alguns segundos de silêncio profundo.

A Hime, de alguma forma, percebeu que aquela era a probabilidade em que todos os Conselheiros estavam pensando, mas que era algo tão terrível de se imaginar que ninguém teve coragem de colocar em voz alta. Ficou se questionando o que poderia ser esse Contrato até que Kero fez a pergunta em voz alta. E Illusion respondeu:

- Quando o Ou-sama criou o Conselho, todo mundo assinou um Contrato, jurando lealdade ao Mestre - já que o consorte do Reino das Flores de cerejeira pode ser um Rei, uma Rainha, um Príncipe ou uma Princesa, um Imperador ou uma Imperatriz, e assim por diante - até que seja designado outro Mestre pelo primeiro. Foi o jeito que ele encontrou de garantir a integridade do Conselho. Então a única maneira de nos controlar…

- É através dos Contratos! - Glow guinchou, em pânico. -Então a qualquer momento podemos nos voltar contra a Hime… E MACHUCÁ-LA?!

- Calma, Glow! - Pediu Watery, embora também parecesse bastante preocupada. - Para pra pensar! Não são os Contratos!

- Como é que você pode saber?!

- Se fosse, todos nós já estaríamos sendo controlados!

A pequena Conselheira ficou olhando, piscando muito, para Watery.

- Ela tem razão. - Illusion falou, num tom calmo. - Os Contratos estão todos juntos. Se fosse assim, todos nós já estaríamos sendo controlados a essas alturas. Ele está usando algum método diferente.

- E outra: a única pessoa que sabe onde eles estão… é a Hime. - Argumentou Watery.

-...Que perdeu a memória, ou seja, esses Contratos estão virtualmente perdidos. - Kero raciocinou.

- Eu vou tentar descobrir como isso está acontecendo. É uma das minhas metas antes de chegar a Kazokuma, mas não apostaria minhas fichas nisso! - Illusion, de repente, se transformou em Kero, indo até Glow, que ainda parecia abalada. - Você está muito nervosa, Glow-chan. Vamos lá fora, acho que você precisa tomar um ar...

Todos acompanharam com o olhar enquanto os dois saíam do abrigo.

- Glow não percebeu que a Hime-sama continua correndo riscos. - Naoko comentou, que até então havia se mantido calada. - Com ou sem Contratos, eles não se importam se a Hime estiver viva ou morta.

- É… eles só precisam da chave. - A Hime completou, amarga. - Mas não vamos falar sobre isso perto da Glow. Ela pode ser minha conselheira, mas é só uma criança.

Watery comprimiu os lábios numa linha fina, mas ficou calada.

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- Muito bem! Agora vamos decidir o que faremos! - Exclamou Flower, fazendo as pequenas conversas murmuradas se extinguirem.

Era noite. Escuridão e silêncio reinavam no lado de fora. Glow fizera milhares de pequenas luzes verdes brilharem dentro, criando uma luz suave e, de certa forma, romântica. Todo mundo se sentou em um círculo, menos Illusion (agora na forma de Tomoyo), que estava em pé perto da porta, fazendo gestos com as mãos e balbuciando palavras estranhas. A Hime sentiu um arrepio estranho e viu claramente um brilho branco passar pelos buracos que as vinhas não cobria, circundando o abrigo do chão até o teto. Depois, lá fora voltou ficar escuro como breu.

- Isso deve nos dar uns 30 minutos. - O Conselheiro falou. Parecia cansado.

- Acho que seremos mais rápidos que isso, Illusion. - Watery falou, franzindo o cenho. - Acho que já estava decidido que iríamos contornar a Floresta do Silêncio, passando por Ichigo e seguindo a norte…

- Mas daríamos de cara com o deserto, se formos a nordeste. - Contestou Glow, com os olhos muito arregalados. - Que seria tão ruim quanto atravessar a Floresta do Silêncio.

- Mas, se formos a noroeste, estaremos ao pé da cordilheira dos Picos Escuros. - Watery falou, preocupada. Olhou então para Illusion. - Tem certeza que não seria melhor darmos a volta por Seitomura irmos para Tsukimine ao sul…? - Foi parando de falar ao ver tanto Kurōkami-senpai quanto Naoko balançarem as cabeças.

- Vocês não estão sabendo que Tsukimine foi tomada pelo exército de Phobos? - A garota de óculos perguntou.

- Quando foi isso? - Perguntou a Hime, tensa.

- Duas semanas atrás. - Respondeu o presidente do Conselho Estudantil. - Dizem até que eles pegaram a Tsukimiko. Sabem… a sacerdotisa do templo.

- Huuum… isso nos traz um problema… mas…

- Não acho prudente vocês irem por lá, Flower. - Cortou Illusion, pensativo. - Mesmo que a Hime tenha tirado os poderes de Shadow e ele tenha perdido o controle sobre as pessoas sem sombra, não sabemos como isso afetou aqueles soldados. Neste momento, é melhor prevenir que remediar.

- E voltar por Penguiki está fora de questão. - Kero comentou.

- Na verdade… tem algo que quero sugerir, mas já sei que vocês não vão gostar…

- E… e o que, Illusion? - Glow perguntou, após um breve silêncio tenso.

- Eu gostaria que vocês investigassem Nakano.

A Hime olhou confusa. Aquele era o sobrenome que ela usara em Seitomura. Mas foi a única fez isso. Glow, Flower e Tomoyo gemeram, ao passo que Watery balançou a cabeça, enfática.

- Não!

- Não pediria isso se não fosse importante.

- Eu disse não!

- O que está acontecendo? - Perguntou a Hime, para ninguém em particular.

- Nakano é a cidade que fica no meio do deserto. - Explicou Kurōkami-senpai em voz baixa. - É previsível porque Watery não queira ir.

- É quase tão ruim quanto passarmos pela Floresta do Silêncio para ela. - Completou Glow, no mesmo tom. - Mas também não deve ser nada fácil para nós. São dois dias de caminhada só para chegarmos em Nakano e mais dois para atravessarmos o resto do deserto.

- Isso em circunstâncias normais. - Watery voltou a falar, franzido o cenho. - Imagine agora, com os dias tão quentes e claros. Deve estar muito pior.

- A Hime estará com vocês, não vai ser tão ruim. - Argumentou o Conselheiro da Ilusão, seco. - E já disse: não pediria isso se não fosse importante.

- Não! Nem pensar!

- Espera, Watery. - A Hime interpôs. - Vamos ao menos ouvir o que Illusion tem a dizer.

- Obrigado, Hime. Antes de nos encontrarmos, vaguei bastante pelo Reino das Cerejeiras e ouvi muitas histórias. Mas uma me chamou bastante atenção: Um grupo vindo de Nakano falou que havia visto alguns um grupo de pessoas estranhas as voltas da Caverna da Lua Nova, há uns dois quilômetros da cidade. Na manhã seguinte, alguns moradores foram na tal caverna… mas ninguém conseguiu entrar.

- Como assim? - Foi a vez da Hime franzir o cenho.

- Pelo que apurei, a caverna era aberta, mas agora havia algo bloqueando a entrada. Uma espécie de rocha negra. Mas a pior parte não é essa. Esses curiosos tem certeza que ouviram alguém chamar por socorro lá dentro.

Tomoyo e Glow levaram a boca ao mesmo tempo.

- Que horror!

- Sim. E, não importa o que eles fizessem, eles não conseguiram abrir a caverna. Picaretas, martelos… até pólvora foi usado, mas nada sequer arranhou a rocha. Eventualmente, a voz lá dentro foi ficando mais fraca… e então se silenciou.

Houve um silêncio pesado de alguns segundos, até Flower dizer, gentilmente:

- Mas então… é provável que a pessoa tenha… sabe… morrido. Não adianta nada a nós irmos pra lá.

- Eu acho que vale a pena sim. - Rebatou Illusion, sombrio. - Porque acho que quem está preso lá é um de nós!

Desta vez houve muitas exclamações de surpresa.

- Um Conselheiro? - Questionou a Hime, alarmada. - Precisamos ir!

- Calma aí, Hime-sama! - Watery interpôs. Então, cruzando os braços, virou-se para Illusion: - Isso são só especulações de Illusion. Pode ter sido muito bem alguém que traiu Phobos e resolveram puní-lo dessa maneira tão inusitada.

- Também pensei nisso, mas cheguei a conclusão que era muito trabalho para uma coisa tão banal. Então eu viajei até Nakano. - Watery até arqueou as sobrancelhas. - Como você bem pontuou, Watery, é uma travessia difícil, mas valeu a pena. A tal caverna possui uma aura mágica bem sinistra. Não acho que quase nada conseguiria partir aquela rocha… mas acho que Sword consegue, juntamente com o poder mágico da Hime. Além disso… eu creio que senti uma presença familiar, bem fraquinha… o que reforçou minha teoria de que é um dos Conselheiros que está preso ali dentro.

- Mas porque prender ali dentro? E não levar para a Capital? - Questionou Kero.

- Pode ser uma armadilha. - Sugeriu Flower. - Quando foi que isso aconteceu?

- Há três semanas, mais ou menos. - Illusion parecia desconfortável. - Não sei se é uma armadilha, Flower. Não havia soldados por ali e os habitantes da cidade pensavam que era apenas uma pessoa comum presa…. que morreu um pouco depois. Eu investiguei porque por acaso ouvi os boatos. Acho que foi apenas uma maneira de se livrar de um de nós.

- Se for um de nós… faz sentido. - Flower se levantou, inquieta. - Sobrevivemos muito mais se pouparmos nossa energia, sem precisar de comida ou água. - Ela mordeu os lábios, apreensiva. - Não gosto disso, mas precisaremos ir até Nakano investigar.

Watery ia falar algo, mas se calou, parecendo bastante preocupada. A Hime gentilmente colocou a mão no ombro da garota.

-Fica tranquila, Watery. Estaremos com você.

A Conselheira apenas suspirou e sorriu um pouquinho, embora ainda parecesse preocupada.

- Então está decidido. - Flower falou, tensa. - Amanhã temos que acordar cedo, então vamos logo dormir. Ficarei com o primeiro turno de vigília e Kurōkami-senpai ficará com o segundo.

- Você não vai se cansar? - A Hime perguntou timidamente ao rapaz. Ele sorriu e colocou mão em seu rosto.

- Fique tranquila, Hime-sama. Eu só quero garantir que vocês tenham uma boa noite de sono.

- O que… Você vai fazer agora? Você… Vai… Com a gente? - A Hime sentiu seu rosto corar muito.

- Não. - A resposta seca do rapaz deve ter feito o semblante da Hime entristecer porque ele completou depressa: - Illusion pediu que eu fosse com eles. Disse que tem uma coisa que só eu posso fazer. E que ajudaria a Hime imensamente. Eu concordei… Até porque acho que seria doloroso para nós dois se eu continuasse a viajar com você. E acho que você entende isso, não?

Por mais que fizesse seu coração doer, a Hime entendia. Ela apenas concordou com a cabeça. Se estivessem juntos, eles sofreriam muito mais, pois ele ficaria preocupado com ela e a Hime ficaria mais vunerável. Ele era um grande ponto fraco e sabia que ele estaria seguro com Illusion e Naoko. Ele apertou o ombro da moça.

- Vá dormir, Hime-sama. Como eu disse, me certificarei para que você tenha uma boa noite de sono.

Sem dizer mais nada, ele foi para o canto oposto do abrigo onde se deitou. A Hime sentiu uma outra mão em seu ombro. Era Tomoyo que, como sempre, estava atenta e observara tudo. Não precisou falar nem falar nada. A morena a abraçou para que ninguém visse suas lágrimas.

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A Hime estava de volta a beira do Abismo do Fim. Ventava como nunca e seus cabelos voavam ao redor do seu rosto. Do outro lado, as duas figuras encobertas pela névoa branca estavam de pé, como sempre. Mas, estranhamente, elas pareciam mais nítidas. Uma era uma figura alta e esguia, com vestes compridas e pesadas. A outra, mais baixa, também era esbelta, mas ela conseguia ver os longos cachos de cabelo balançando ao vento...

"Encontre-nos… encontre-nos…"

As vozes agora estavam muito nítidas, ecoando pelo ar e pela sua mente. A névoa clareou mais e ela pode ver que a figura mais alta segurava um cetro que brilhava numa cor indefinida...

"Encontre-nos… no espelho… no lugar… onde as almas… descansam…"

Vozes que estavam mais claras do que nunca e cetro brilhava ainda mais enquanto as vozes falavam...

"Encontre-nos no espelho no lugar onde as almas descansam. Você precisa de respostas e nós lhe daremos algumas…"

- Respostas?! - A Hime gritou de volta. - Que respostas?!

"Você tem muitas perguntas. E nós temos as respostas. Todas elas!"

- Todas as… Respostas? - Ela volveu, intrigada. - Quem são vocês?!

"Encontre-nos e você saberá! No lugar… Onde as almas descansam…"

A nevoa ficou mais forte e o vento também. Ele lhe empurrava para longe do abismo e a Hime escorregava contra sua vontade.

- Onde as almas descansam?! Você quer dizer… Kehasai?!

Subitamente, uma luz brilhou forte, parecendo vir de trás da Hime e ela sentiu como se alguém a puxasse para longe dali. Ela lutou.

- Kehasai?! - Ela insistiu, enquanto tentava resistir ao vento, a luz e a força que a puxava.

"SIM! Kehasai! Encontre-nos, Hime!... Você precisa nos... encontrar…!"

A luz ficou mais forte e a força arrastava para longe enquanto as vozes, iam se tornando menos claras...

"Lembre-se… no espelho… onde as... almas… descan...sam…!

A Luz agora estava ofuscante e a força a puxava tanto que doia. E a Hime soltou grito...

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- AAAAAAAAAAAAAAAHHH!

- Hime-sama! - Várias vozes gritaram seu nome ao mesmo tempo, e ela sentiu duas mãos sacudirem seus ombros com força.

Abriu os olhos, respirando rápido como se tivesse acabado de correr para salvar a vida. As mãos que lhe sacudiam eram de Flower, que parecia estar bastante assustada.

- Graças aos céus, Hime-sama! - Ela lhe largou e desabou ao seu lado, após ajudar a Hime a se sentar. - Parecia que você nunca ia acordar!

- Ela provavelmente estava tendo um daqueles sonhos com vozes, sensações e abismos. - Concluiu Kero.

- Mas ela nunca demorou tanto pra acordar! - Watery falou, olhando preocupada para a Hime.

- E nunca gritou tão alto. - Completou Glow, seus grandes olhos arregalados.

- Eu finalmente entendi! - A Hime tateou o chão , meio atordoada pelo modo como fora acordada, procurando se levantar. Tomoyo a ajudou. - O que o sonho queria dizer! Todo esse tempo era tão óbvio!

Olhou ao redor, para seus amigos e aliados, que pareciam apreensivos. Principalmente Watery, Glow e Flower.

- Você gritou varias vezes "Kehasai". - A Conselheira do Brilho falou, muito baixo. - É lá?

- "O lugar onde as almas descansam." É Kehasai! E lá devo procurar um espelho... - Então ela se deu conta de duas coisas muito importantes que a fizeram estremecer: - Kehasai é a cidade dos Espíritos, dos… Fantasmas…bem no meio da Floresta do Silêncio…

- Sim, Hime-sama. - Watery cruzou os braços, parecendo disposta a discutir. - E já havíamos decidido sobre o que faremos agora. Sinto muito, mas já é ruim o suficiente termos que atravessar o deserto. Não passarei pela Floresta do Silêncio.

- Hime-sama. - Era a voz de Watery outra vez e viu Illusion se aproximar transformado nela. - Você gritou também "respostas". O que você lembra?

A Hime forçou seu cérebro. Agora, o sonho começava a se desbotar na sua mente, mas ela ainda lembrava de algumas coisas...

- As duas figuras… um homem e uma mulher do outro lado do Abismo do Fim… eles sempre repetiam "Encontre-nos no lugar onde as almas descansam" e falavam de um espelho… mas agora… - Ela forçou a memória. - Parecia mais real e nítido… falaram que eles tem as respostas para as minhas perguntas. Todas as minhas perguntas.

Illusion não mudou a expressão, mas a Hime podia sentir que alguma coisa despertou seu interesse.

- Como eram essas pessoas? Esse homem e essa mulher?

- Bom… tinha a névoa e tudo mais, mas o homem era alto… usava vestes largas… e segurava um cetro comprido… já a mul-

Interrompeu-se porque Glow, Watery, Flower e Illusion soltaram exclamações iguais de espanto.

- Ele segurava um cetro?! - Glow perguntou, subitamente tensa. - Tem certeza? Um cetro dourado e comprido com um círculo na ponta e raios pra fora?

- Ãh… não sei… - a Hime respondeu, confusa por aquela reação. - Vocês conhecem essa pessoa?

- Por acaso, foi essa pessoa quem você viu? - Perguntou Illusion, após um curto silêncio.

Ele se transformou devagar. Foi se tornando alto e esguio. Os cabelos continuaram escuros, só que mais finos, presos num rabo de cavalo solto na nuca. Alguns fios caiam preguiçosamente pelo rosto pontudo de pele muito pálida. Usava óculos redondos sobre os olhos cinzentos penetrantes. As vestes eram escuras e largas, com detalhes dourados. E, em sua mão direita, segurava um cetro dourado com dois círculos na ponta, um deles com raios saltando em todo seu diâmetro…

- SIM! Foi exatamente essa pessoa que eu vi! - A Hime respondeu animada, mas se compôs ao ver as expressões tensas dos Conselheiros. - Quem é esse?

- O Ou-sama… o Rei antes de você, Hime-sama. - Illusion falou numa voz profunda, calma e bonita. Ele voltou a se transformar em Watery.

- Mas… ele… não… morreu? - A Hime ficou tensa, tremendo-se toda.

- Exato.

- Então… estou falando com fantasmas esse tempo todo?!

- Ou… é uma armadilha. - Sugeriu a Watery verdadeira, sombriamente.

- Não acho, Watery. - Illusion falou, começando a andar de um lado para o outro. - Hime-sama, você disse que viu as figuras do outro lado do Abismo do Fim, não é?

- S-sim…

- Então pode ser que seja o Ou-sama mesmo. Do outro lado do Abismo do Fim é o "Eien no Basho", ou "Lugar Eterno". Quando uma pessoa está a beira da morte, para ela se constrói uma ponte até o Lugar Eterno. Ali elas descansam de suas vidas terrenas.

- Mas então… pra que existe Kehasai? - Kero perguntou, intrigado. - Achei que lá fosse o lugar para o descanso eterno.

- Algumas almas não conseguem ir para o Lugar Eterno. Então elas vão para Kehasai descansar ou tentar… - De repente Illusion arregalou os olhos e abriu a boca, como se tivesse tido uma súbita ideia aterradora. - … ou tentar ir para o Lugar Eterno!

- Mas aquilo são só lendas, não? - Tomoyo perguntou, parecendo descrente.

- Do que vocês estão falando? - A Hime perguntou, receosa.

Flower cruzou os braços e começou a andar de um lado para o outro. De vez em quando, ela e Illusion quase se esbarravam.

- Por causa de sua localização e fama de resguardar os espíritos, ninguém vivo nunca visitou Kehasai, mas… existe uma lenda de um lugar onde as Almas que não conseguiram atravessar a ponte para o Eien no Basho podem tentar ir para lá. Uma espécie de segunda chance.

- Dentro de Kehasai? - Kero perguntou

- Sim.

- Seria então… esse espelho que a Hime falou? - Naoko, calada até então, falou pela primeira vez.

- Pode ser…

- Eu ainda acho que é uma armadilha! - Watery falou. - Pra que iríamos a uma cidade de fantasma dentro do segundo lugar mais inóspito para seres mágicos do Reino?!

- O que Phobos ganharia com isso, Watery? - Glow perguntou, subitamente. - Os soldados dele são mágicos. Provavelmente desapareceriam na Floresta. Firey, Shadow ou qualquer outro Conselheiro traidor também teriam seus poderes diminuídos. Talvez… talvez a Hime esteja mais segura na Floresta ou em Kehasai do que em qualquer outro lugar.

- E, se é realmente o Ou-sama quem ela viu do outro lado do Abismo do Fim, faz todo sentido ele ter as respostas. - Illusion completou. - Ele sabe tudo sobre o Reino, os Conselheiros e talvez saiba porque a Hime perdeu a memória. Ele já morreu, mas deve ter achado um jeito de se comunicar com os vivos em Kehasai.

- Mas então… já que ele consegue alcançar a Hime nos sonhos, por que não falar por lá? - Perguntou Tomoyo, pensativa.

- Porque não é uma comunicação muito eficiente. - A própria Hime respondeu. - É muito breve, desconexo e também… eu tenho outros sonhos que ele interrompe para falar… é bem confuso. Talvez, em Kehasai, consigamos falar mais calma e claramente.

- Então… vamos para Kehasai? - Kero fez a pergunta que todos não queriam responder.

- Vamos! - Watery gemeu quando Hime respondeu, decidida. - Precisamos de respostas e, se o Ou-sama está lá e é capaz de nos dar algumas… vou engolir o medo e ir.

- Veja pelo lado bom, Watery. - Illusion falou, dando um sorrisinho desagradável. - Isso quer dizer que, para chegar em Nakano, você só passarão um dia no deserto.

- Cale a boca, Illusion. Primeiro, a Floresta do Silêncio, depois o Deserto… se sairmos vivos disso tudo, acho que não morremos para mais nada!

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- Então… vocês vão para a Floresta do Silêncio no fim das contas? - Kurōkami-senpai perguntou, quando Hime explicou a mudança de planos a ele. O rapaz estava de guarda quando a conversa sobre o sonho aconteceu.

- Sim.

O presidente do Conselho Estudantil olhou ao redor. Todos estavam recolhendo suas coisas, enquanto Flower desfazia o abrigo. A chuva de Watery finalmente parecia estar dando uma trégua, caindo em pingos espaçados. A própria Conselheira da Água e Glow haviam ido até Ichigo comprar provisões para a longa viagem.

- Não vai ser fácil. A Floresta do Silêncio anula a magia. Você e seus Conselheiros vão passar por maus bocados.

- Bom… ninguém disse que seria fácil. Mas… se vai me ajudar, eu farei.

Repentinamente o rapaz sorriu e pegou na mão da Hime, que corou.

- Se é você, Zettai daijoubu dayo.

A Hime se perdeu no olhar dele. Era tão sereno, profundo, mas… ainda tinha aquela estranha sensação de que havia algo errado. Ele se aproximou dela.

- Eu…

- Hime-sama.

Illusion, dessa vez disfarçado do próprio Kurōkami-senpai, interrompeu o rapaz.

- Eu preciso falar com você a sós. Pode ser agora?

O verdadeiro Kurōkami pareceu um pouco contrariado, mas assentiu e se afastou. Illusion ofereceu o braço para a Hime e caminhou para uma parte mais deserta da floresta. Pararam e a Hime esperou, olhando ligeiramente apreensiva, para o rosto de Illusion/Kurōkami-senpai.

- Sabe, é estranho… - Ele começou, olhando para a sua própria mão. - Quando eu me transformo em alguém, eu busco cada parte da pessoa. A minha magia permite que eu mimetize não apenas a aparência, mas também os gostos, os medos, as individualidades de cada um… a grande diferença entre eu e Mirror nesse aspecto é que ela pode ficar transformada numa mesma pessoa por um longo tempo e eu, por algumas horas. E também… - Ele pareceu hesitar. - Eu me transformo para confundir as pessoas. Posso me transformar no maior medo de Naoko-san, que são tesouras sem ponta. Não pergunte. Ou posso me transformar na pessoa que a Tomoyo-san mais gosta… ou na comida preferida do Kerberus, ou nas memórias mais bonitas de Glow. Tudo para confundir. Usar seus pontos fracos para minha vantagem ou dos meus aliados.

A Hime não entendia porque ele estava falando isso, mas continuou calada, esperando.

- Mas… quando eu olho para o seu Kurōkami-senpai… é diferente. - Ele hesitou outra vez. - Eu não consigo ver nada dele. Seus gostos, seus medos, sua… individualidade. É como se ele fosse… uma casca vazia.

- Não… não pode ser… como um… fantasma? - A Hime perguntou, num fiapo de voz, apertando as mãos até as unhas ferirem a carne.

- Não… ele é um ser vivo, como eu e você… e acho que até fantasmas eu consiga ler. Com ele… é diferente.

- Então… Phobos…?

- Não.

Aquela simples palavra fez um grande peso sair das costas da Hime, que ela nem percebeu que estava carregando.

- Não acho que seja. - Illusion continuou: - Já estive frente a frente com os soldados de Phobos. Até aqueles homens sem expressão tem algo dentro deles que me permitem mimetizar seu interior tão bem quanto a aparência.

- Então… talvez ele seja uma… criatura mágica?

- Talvez. Mas duvido que ele mesmo saiba que é diferente. - Ele fez silêncio um tempo e a Hime viu claramente que ele hesitava.

- O que é, Illusion-san? O que você quer dizer para mim?

- Eu acho… que tem tudo a ver com você, Hime-sama.

- Co..comigo? - Ela se espantou. - Mas você acabou de dizer que…

- Não acho que Phobos o tenha enfeitiçado ou… criado, mas… tem a ver com você.

- Por que você acha isso?

- Porque a única pessoa que não consigo ler, além dele… é você.

A Hime sentiu o seu coração perder uma batida.

- Como assim? O que… você está dizendo…?

- Eu não sei. Eu consigo me transformar na Hime sem problemas, mas não consigo lê-la. Imagino que seja algum mecanismo de proteção, já que você é a nossa princesa. Mas isso não explica porque eu não consigo lê-lo. - ele cruzou os braços, frustrado. - É tão confuso pra mim quanto é para você. Mas Sword também sentiu.

- Sword?

- Quando ficou de guarda, segurando Sword, no dia em que você acordou. Eu conversei com ele e ele disse que também não sentiu nada. Se algo tivesse acontecido, é provável que o garoto não conseguisse usar Sword apropriadamente. Porque não havia conexão.

- Mas não… será que seria porque Kurōkami-senpai não tem magia, como nós?

- Sua amiga Tomoyo-san consegue usar e conversar com Sword sem problemas. E não há uma gota de magia nela.

- Mas você disse que não consegue me ler, não é? Então… como Sword consegue se comunicar e ser usado por mim?

- É simples: Porque você tem poderes mágicos e autoridade absoluta sobre os Conselheiros.

A Hime começou a tremer.

- Então… o que…?

- É por isso que fiquei interessado quando você disse que as pessoas do sonho tem todas as respostas. - Illusion a cortou. - Eu quero que você pergunte para o Ou-sama quem… ou o que esse garoto é.

- Será que… ele vai poder responder?

- Eu acho que sim. O ou-sama sabia muitas coisas sobre o passado, presente e futuro. Era um vidente. Sim… eu tenho certeza.

- Então… - Um pensamento passou pela cabeça da Hime. - Espera… Isso tem algo a ver com o motivo pelo qual você pediu que ele fosse com vocês na viagem?

- Sim. Eu… quero confirmar uma teoria que eu tenho.

- Qual?

Illusion Olhou estranho para a Hime.

- Não… quero falar até ter certeza. Quando nos encontrarmos de novo saberei a resposta. Mas talvez… você também já saiba. Se perguntar ao Ou-sama.

- Está bem. Vou perguntar.

- Você gosta mesmo dele, não é?

A Hime corou.

- Sim…

- Desde que o viu?

- Er, não… no começo ele era chato, implicava comigo.

- Mas não se sentiu atraída por ele?

Ela se lembrou da primeira vez que o vira de fato, dando o aviso na sua sala. Sentiu seu rosto esquentar mais um pouco.

- S-sim… ele é bem bonito.

Ela olhou para Illusion, transvestido na imagem do rapaz. O rosto bem desenhado e os olhos profundos lhe eram tão agradáveis...

- Eu me sinto… muito bem e segura quando estou com ele.

- Entendo… - Ele falou de uma maneira que desagradou a Hime. Então subitamente, disse: - Bom… não esqueça de perguntar isso, Hime-sama. É importante.

- Está bem.

- Preciso acertar alguns detalhes com Naoko-san. Sairemos assim que Glow e Watery voltarem de Ichigo com os suprimentos.

E, dessa maneira tão abrupta, aquela estranha conversa chegou ao fim. Illusion simplesmente virou as costas e saiu, deixando a Hime sozinha e cheia de perguntas sem respostas…

'

- Estamos prontos, Hime-sama. - Watery falou, apertando as alças de sua pesada mochila.

A Hime confirmou com a cabeça e o grupo começou a andar. Seguiam por uma pequena estrada antiga de terra batida, que mal se via entre as árvores. O grupo seguia em silêncio, alguns preocupados com a jornada que fariam e outros apenas concentrados em não tropeçarem nas raízes das árvores. A Hime, no entanto, mal prestava atenção aonde pisava. Olhava para sua frente, onde via a nuca de Kurōkami-senpai bem a sua frente, as palavras de Illusion ainda ecoando em sua mente...

… "casca vazia"...

Não era uma pessoa nem um ser mágico. O que ele era então? Ou talvez… Illusion e Sword estivessem enganados. Agarrou-se nessa possibilidade, mas, bem no fundo, sabia que ela também havia percebido. Quantas vezes sentiu-se estranha, como se algo estivesse errado enquanto estava com ele? Contudo…

Ele se virou de repente para ela e sorriu, fazendo seu coração pular de excitação. Fosse ele o que fosse, ele não queria seu mal e lhe fazia feliz. E era isso o que importava.

Andaram por aproximadamente meia hora até chegarem numa encruzilhada. A Hime sentiu um peso no estômago porque sabia que ali teriam que se separar: Illusion, Naoko e Kurōkami-senpai seguiriam para o sul, enquanto ela e os outros iriam para o norte. Engolindo em seco, ela se virou para o resto do grupo, propositalmente evitando o olhar de Kurōkami-senpai. Naoko primeiro fez uma reverência para a Hime, mas depois pediu permissão para abraçá-la, que foi concedida de bom grado.

- Se cuida, Hime-sama. Se tudo der certo, a gente se encontra em Kazokuma.

- Cuide-se você também, Naoko-chan.

- Hime-sama.

Illusion se aproximou, transformado em Flower. Fez um grande mesura para ela.

- É uma grande honra serví-la. Estamos nos separando agora, mas quando chegar a hora de reclamarmos o trono, tenho certeza que estarei ao seu lado.

A Hime colocou a mão no ombro do Conselheiro e sorriu.

- Obrigada, Illusion. Com sua ajuda, e de todos os meus Conselheiros fiéis, irei conseguir. Tenho certeza.

Finalmente teve coragem de olhar para Kurōkami-senpai. O olhar dele mostrava dor, mas também orgulho e admiração. Ela engoliu em seco, subitamente sem palavras.

- Flower-san, você pode me dizer que tipo de flor é aquela ali? - Tomoyo falou de repente, muito alto.

- Claro, Tomoyo-chan! Mas vou precisar da ajuda de Watery! - Ela falou, entrando no jogo.

- Ué, por que? Você é a especialista em flores! - A Conselheira da água voltou, aturdida.

- Vamos lá, Watery. Eu também vou ajudar! - Glow empurrou Watery pra longe. Puxou Kero pelo rabo - Vem também, Kerberus!

- Ai, ai! Não precisa dessa violência!

- Acho que devemos ver essa flor maravilhosa também, não acha, Illusion-san? - Naoko perguntou, sorridente.

- Claro. - Mas ela viu que Illusion hesitava. Contudo, o Conselheiro deu com os ombros e seguiu a garota de óculos até o grupo.

Embora fosse por uma boa causa, aquela atitude de sua amiga e seus Conselheiros só serviu para deixar as bochechas da Hime mais vermelhas ainda. Até Kurōkami-senpai parecia um pouco encabulado. Quase num sussurro, ela disse:

- Me desculpe por isso.

- Imagine! - Ele olhou para os outros aparentemente muito concentrados escutando uma explicação de Flower sobre flores silvestres. - Eles são boas pessoas. Tenho certeza que você estará em boas mãos.

- Eu sei disso. - O sorriso dela era doce.

- Eu... tenho algo pra você.

Ela assistiu, curiosa, o rapaz colocar a mão dentro da sua mochila e tirar…

- "Poder Real"? - Ela pegou a cópia do livro, surpresa.

- Sim. Acho que você ainda não terminou de ler, né?

- Sim, mas… - Ela sorriu, marota. - Achei que esse livro era da Sessão Reservada da biblioteca. E que não podíamos pegá-lo sem a permissão da bibliotecária.

- Tecnicamente, você é a dona de tudo nesse Reino… então acho que você está acima dessas regras. - Ele volveu, num tom propositalmente pomposo que a fez rir um pouco.

- Obrigada. Vou ler e… vou lembrar de você… - Ela apertou o livro contra o peito, sentindo a voz faltar.

- Vou sentir saudades suas. - Ele estendeu a mão até pegar na dela.

- Também vou sentir saudades. - Ela respondeu quase sem voz, sentindo os olhos encherem de lágrimas e dando um passo na direção dele.

Eles se abraçaram. A Hime podia sentir o coração dele martelando no peito, o calor do corpo dele e o beijo que ele deu em seus cabelos. Como ele não podia ser normal? Como?! As lágrimas quentes escorriam pelo seu rosto quando ele se afastou o suficiente para olhar em seus olhos. E, em seguida, aproximou o rosto do seu e tocou seus lábios, num beijo muito suave de despedida…

- Ouwwww…!

Parecia que a Hime e o Presidente do Conselho estudantil levaram um choque de tão rápido que se separaram ao ouvir a exclamação de Glow.

- Ai, Glow! Como você é indiscreta! - Flower falou, mas estava dando um sorrisinho maroto.

- Acho melhor nós irmos logo, se quisermos contornar Seitomura antes do anoitecer. - Falou Illusion, um pouco sério demais. Era óbvio que ele não aprovava aquele romance.

- Também precisamos ir. - Watery falou. Estremeceu e completou. - Por mais que queria adiar o momento em que vamos entrar naquela maldita floresta!

A Hime sentiu o ar faltar ligeiramente. Illusion apenas virou as costas e começou a andar na direção de Seitomura, com Naoko em seus calcanhares. Kurōkami-senpai ainda segurava a mão da moça e parecia fazer um grande esforço para largá-la. E Hime assistiu, como se o tempo estivesse mais devagar, os dedos dele escorregarem pelos seus até se separarem. Depois viu, através dos olhos embaçados, ele andar sem olhar para trás, pelo mesmo caminho que Naoko e Illusion estavam indo…

'

- Anime-se, Hime-sama.

A Hime tentou sorrir para Glow, mas seus lábios pareciam pregados numa linha fina que demonstravam apenas tristeza.

- Deixa ela, Glow-san. - Pediu Tomoyo, muito gentilmente. - É natural ficar triste por se separar de alguém que a gente gosta.

- Mas será que ela vai ficar assim pelo resto da viagem?

- Não, claro que não. Mas não espere que apenas algumas horas serão suficientes para a dor passar. Leva um pouco mais de tempo que isso.

Glow assentiu, mas continuou olhando, preocupada, para a Hime. Estavam caminhando a muitas horas e já passava do meio da tarde. Os pés doíam, as mochilas pareciam pesar toneladas. Até Kero, empoleirado nos ombros de Tomoyo, parecia cansado.

Mas a Hime não sentia isso tudo. Estava quieta, andando sem hesitar na direção que Flower, líder do grupo, dizia que deveriam ir. A verdade é que o cansaço mental que sentia era muito maior que o desgaste físico. Não era só porque havia se separado do cara que gostava. Era tudo, que finalmente parecia desabar sobre seus ombros. Como se a despedida daquela manhã fosse só a gota que havia transbordado o copo.

Era a Princesa de um Reino quase morto, como constatava ao adentrar em mais uma das muitas florestas de galhos secos e folhas amareladas sob o céu claro e límpido que parecia fazer o ar pesar de calor. Ela não tinha lembrança de nada o que acontecera antes de acordar do Abismo do Fim, mas sabia que havia um usurpador no seu trono e um monte de gente querendo a sua cabeça. Viu o sofrimento de seus súditos, a crueldade de seus Conselheiros traidores e teve sangue de pessoas inocentes nas suas mãos. Era simplesmente… demais.

Se repente, ela parou de andar. Tomoyo foi a primeira a notar e parou, puxando Watery e Flower para que também olhassem.

- Hime...sama? - Chamou Kero, inseguro.

Os olhos da Hime se encheram de lágrimas e ela se deixou cair em meio as folhas secas do chão.

- Hime-sama? O que houve?! - Perguntou Watery, apreensiva, olhando para os lados nervosamente. - Está sentindo algo? Viu alguma coisa?

- Hime… sama… - Falou Flower, parecendo triste. Glow se limitou a olhar, com os olhos grandes se enchendo de água.

- Ela está bem… só está… abatida. - Tomoyo respondeu, olhando para os lados. - Acho que chega de andar por hoje.

- Mas falta menos de uma hora para chegarmos na Floresta do Silêncio. - protestou a Conselheira da Água.

- Vamos parar. - Flower disse, tirando a mochila. - Vou… vou fazer algo especial para o jantar e…

Parou de falar, olhando tristemente para a Hime. Sacudiu a cabeça e então, usando seus poderes, fez brotar vinhas e ramos ao redor da moça, criando um abrigo de flores entrelaçado entre as árvores secas. Tomoyo empurrou gentilmente Glow e Watery para fora do abrigo.

- Ela não deveria ficar sozinha… - Glow falou numa voz trêmula, preocupada.

- Ela não vai a lugar nenhum. - Flower falou assim que terminou. - E ela precisa de um tempinho.

- É muita coisa pra processar. - Tomoyo completou, tristemente.

- O que podemos fazer para ajudar? - Kero perguntou, abatido.

- No momento, podemos dar o espaço que ela precisa. - Tomoyo respondeu. - Depois, daremos nosso apoio e carinho.

(continua)

'


Olá, crianças.

Terminamos o arco de Seitomura, entre muitas revelações e tristes despedidas… tadinha da Hime.

Peço desculpas pela demora em postar o capítulo, como sempre. Espero ter recompensado a paciência de vocês. Também peço desculpas se tiverem muitos erros pois mais uma vez a Yoruki não pode revisar o capítulo devido a uma tela azul da morte em seu computador.

Bom, gente… eu vou dar a vocês uma escolha: o capítulo 14 já está escrito. Só falta revisar, mas como eu não sei quando a Yoruki vai poder fazer isso, estou determinada a postá-lo em breve. "Mas o quão breve é isso?" Vocês me perguntam… e é exatamente isso que vocês poderão escolher:

Eu posso postar o capítulo 14 daqui a duas semanas. Afinal, já está pronto e sem possibilidade de revisão tão cedo… MÃÃÃÃSS… o capítulo 15 nem começou a ser escrito ainda, não sei se consigo terminar em um mês e isso pode significar um hiato de, no mínimo, dois meses aí… Também vou logo avisando que o 14 acaba numa cena mega tensa que vai deixar muita gente roendo as unhas de apreensão e ansiedade…

OOOOOUUU… Eu posto o 14 somente daqui a um mês e tenho tempo para escrever o 15. Aí fica de mês em mês e a ansiedade não vai lá nas alturas.

Escrevam nos reviews o que vocês acham melhor. Se por um acaso ninguém se manifestar, eu postarei daqui a um mês, como sempre. Vou reunir tantos as escolhas daqui quanto do Nyah e do Spirit.

Aliás, quem puder acompanhar por esses dois sites citados acima, eu resolvi colocar imagens para cada capítulo. Antigamente, eu tinha a ideia de desenhar tudo, mas desisti e tô colocando fotos mesmo. É interessante porque muitas vezes eu uso lugares reais como inspiração para as cidades. Seitomura e Taiyohama foram inspiradas em dois lugares reais, cujas fotos eu ilustrei nos determinados capítulos. Espero que vocês gostem. :)

Por fim, gostaria de agradecer a todos os meus maravilhosos leitores, principalmente Ana pri-chan e Nina Delacourt Black pelos puxões de orelha nas Reviews. Espero ter recompensado a espera.

E é isso.

Até daqui a duas semanas ou um mês.

By Cherry_hi