*Sasuke POV*

Tudo que aconteceu depois de eu confessar a verdade à Naruto foi tão rápido... Parece que foi apenas um piscar de olhos até estarmos no momento presente: com ele dormindo sobre meu peito dentro desta cabana.

Ainda pude ver seu sorriso e o brilho dos seus olhos ao ouvir minhas palavras por alguns segundos, mas antes que qualquer um de nós pudesse dizer mais alguma coisa Sakura chegou pra nos socorrer. Hm, de fato essa garota é irritante. Mas dessa vez fiquei até feliz em vê-la, pois se não fosse ela, não sei se conseguiríamos estar aqui agora. Cheguei mesmo a pedir desculpas por tudo que fiz contra ela nesses anos todos.

Em seguida, tínhamos que desfazer o maldito Mugen Tsukuyomi. Esse foi mais um momento intenso, quando eu e Naruto constatamos novamente o quanto precisamos um do outro ao fazermos juntos, cada um com seu braço restante, o selo necessário pra liberar o jutsu.

Não podia suportar mais e sabia que assim que todos recobrassem a consciência não teria mais como conversar com Naruto. Tanto porque todos estariam ao redor dele, pelo verdadeiro herói que ele é, quanto porque eu certamente serei preso no momento em que as autoridades de Konoha me virem, afinal, não tenho como apagar todas as merdas que fiz no passado.

Assim, com poucas palavras trocadas com Sakura e Kakashi, que para meu alívio pareceram compreender tudo imediatamente sem que eu tivesse que explicar, arrastei Naruto até esta cabana que já usei de refúgio algumas vezes, nos arredores da vila.

Foi até engraçado ver como ele parecia confuso e exasperado quando se viu aqui sozinho comigo. Mas o intenso cansaço das batalhas e as medidas de cura que Sakura insistiu – ainda bem – em nos fazer aceitar nos deixaram tão exaustos que desabamos na cama simples e fria do lugar sem que conseguíssemos falar ou fazer qualquer outra coisa.

Não sei quanto tempo passou desde que chegamos aqui, mas com certeza não foi apenas uma noite, pois posso notar que algumas de nossas feridas mais superficiais já estão cicatrizando. Passamos todo esse tempo dormindo nessa posição? Não sei dizer... Mas sinto como se algo muito importante tivesse acontecido nesse tempo, algo que, mais uma vez, só eu e Naruto seremos capaz de entender profundamente. Mas o que, afinal, pode ter acontecido conosco se estávamos inconscientes?

Acho que ele está acordando, finalmente.

— Oe, Naruto, acordou?

Perguntei sem soltá-lo e pude sentir que ele sorria. Ao olhar pro seu rosto pude ver que estava corado e com os olhos ainda fechados, talvez com vergonha da posição em que acordamos. Tsk, não to nem aí, já perdemos tempo demais longe um do outro. Era o que estava pensando quando comecei a falar:

— Deixe de besteira e abra logo esses olhos, Dobe preguiçoso...

— Teme... Que sensação estranha...

Ele disse enquanto abria os olhos lentamente e eu já estava pronto pra retrucar de maneira maliciosa, até receber o impacto que veio junto com o olhar azul.

Sasuke - Tsk, de novo esse olhar... Por que eu fico sonhando com os olhos dele me observando? Ele deve estar é bem longe...

Naruto - Kuso, que nervoso desses olhos! Parecem os do Sasuke, mas tem algo de diferente neles. Não entendo porque tantas vezes acordo com eles na minha cabeça.

Parecia que ambos estavam acordando de mais um sonho em que eram observados por tais olhos, mas quando de fato abriram os seus, não eram Naruto e Sasuke. Eram os primeiros donos de suas almas, há tanto tempo atrás que sequer sabiam mensurar. Eram Indra e Ashura.

No momento em que estavam ainda eram os irmãos que se amavam, respeitavam e partilhavam a vida juntos. Olharam um para o outro sorrindo e em seguida pra alguém, abrindo ainda mais os sorrisos que carregavam. Ah! Ali estavam os olhos observadores, semicerrados pelo sorriso do melhor amigo.

Como num flash tudo mudou e agora os irmãos duelavam e aquele olhos conhecidos mostravam um desespero sem igual, tentando conter os avanços dos dois rivais, sem sucesso. Ambos viram que os olhos derramavam lágrimas antes de perderem o brilho da vida.

De novo a mudança. Já não eram mais Indra e Ashura mas sim Madara e Hashirama. Conversavam a beira de um rio quando os olhos apareceram na mata. Estavam em outro rosto, num alguém que respondia por outro nome, mas eram os mesmos. Madara se inflou de amor e orgulho ao fitá-los e se despediu de Hashirama, que mesmo sem saber exatamente porque, sentia uma paz vinda daquele que nem conhecia e sorriu ao ver seu amigo acompanhar o dono do olhar.

Logo estavam em luta novamente e os olhos estavam novamente desesperados ali perto. Compenetrados um no outro não puderam perceber de imediato quando a face que carregava aqueles olhos foi ao chão. Apenas Madara viu, mas Hashirama também sentiu quando, um tempo depois, novamente aquele olhar apaziguador se escureceu com a sombra da morte.

Finalmente eram eles mesmos novamente, mas tudo passava tão rápido que Naruto e Sasuke mal podiam distinguir. Era como uma retrospectiva das várias vezes que ambos acordaram com a sensação de ter aqueles olhos os observando, velando seu sono ou invadindo seus sonhos ao longo de suas vidas.

Então, enfim, a imagem desacelerou e eles puderam ver o rosto conhecido por detrás daquele olhar.

? – Que bom que agora vou poder explicar tudo...

Sasuke e Naruto – Você?

Itachi – Otouto, Naruto... Enfim se acertaram hm?

Sasuke – Itachi, o que você tem a ver com isso tudo? Agora eu percebo que temos alguma ligação que vai além dessa vida.

Naruto – hã? Ele também tem a ver com as coisas que o Rikudou Sennin mostrou?

Itachi – Na primeira vida de vocês eu fui o melhor amigo dos dois. Tinha uma relação mais, digamos, especial com Indra, mas respeitava e admirava Ashura como a um irmão. Assisti mais de perto do que gostaria os conflitos começarem, o rancor se instaurar. Me esforcei pra contornar as coisas e morri tentando parar vocês. Não fazia ideia do que tudo aquilo acarretara, mas quando as forças superiores decidiram que vocês iriam reencarnar até resolverem seus sentimentos, implorei pra vir junto em seu auxílio. Até porque, minha alma estava conectada demais com a de Indra.

Na vida de Madara e Hashirama como não poderia ser diferente, estive próximo ao espírito mais difícil de domar, o espírito de Indra, mas sem recordar nada de nossas vidas anteriores e da minha missão. Eu fui Izuna Uchiha. Dessa vez as duas almas que estava destinado a perseguir não eram irmãos, e sim amigos. Quando vi Hashirama pela primeira vez ao lado de Madara, sem saber quem ele era, senti um alívio. Cheguei mesmo a dizer que, mesmo de longe, tinha gostado daquele menino. Não sabia que já era elo entre vocês, por partilharem suas experiências sobre o amor que sentiam por seus respectivos irmãos. Mas quando descobri que ele era um Senju tudo começou a desandar. Veja bem, por mais que eu ainda tivesse a sensação de que não deveríamos brigar com Hashirama, ele era do clã que aprendemos a odiar. E eu odiava na mesma intensidade em que amava. Apesar disso nunca cheguei a atacar Hashirama nas vezes em que lutamos, sempre tinha a sensação de que seria terrível se o fizesse. Mas minha morte pelas mãos de Tobirama mudou tudo. Mesmo na hora da morte e sentindo com mais clareza que era um erro enorme a rivalidade entre vocês, não conseguia deixar de lado o ressentimento com aquele clã. Minhas últimas palavras foram dúbias como eram os sentimentos. "Resolva as coisas com aquele maldito". A alma falava em resolver pro bem, a pessoa que era Izuna levava a coisa pro lado mal. Foi esse o lado que Madara entendeu. E mesmo quando firmou paz e retomou a amizade com Hashirama, construindo a vila, ele não pôde esquecer dessas palavras, acreditava piamente que Izuna tinha pedido por vingança por odiar os Senju. Isso acabou criando um abismo entre vocês. E Madara se sentia traindo o irmão. Pra se redimir queria que o clã Uchiha fosse muito prestigiado e acabou buscando entender tudo sobre ele. Foi aí que começou a estudar os documentos antigos e chegou às inscrições em pedra – que àquela altura ninguém sabia mas já tinham sido modificadas pelo rebento maldito de Kaguya. Foi tudo isso e a desconfiança da vila com seu clã, seu sentimento de falha para com seu irmão, a presença constante de quem o matou que levaram Madara além do limite e o empurraram de volta à luta contra Hashirama. E as coisas que aconteceram depois da luta no Vale do Fim, apesar de Madara não ter morrido ali, destruíram toda a conexão de almas. Era como se a alma de Indra tivesse se desprendido daquele corpo.

As coisas caminhavam pra algo cada vez mais definitivo e suas almas reencarnariam uma última vez. Dessa vez eu implorei pra que me lembrasse de algo pra conseguir cumprir minha missão. Vim como o irmão mais velho, para ter mais responsabilidade sobre o espírito de Indra e não o contrário, já que uma das causas de Madara resolver romper esses laços foi seu sentimento de falha em proteger seu irmão.Suas almas já tinham vindo como irmãs e como amigas, dessa vez seria diferente.

No momento em que te vi pela primeira vez Sasuke eu fiquei consciente de que tinha uma responsabilidade a mais sobre você. Senti que era meu dever te ajudar a encontrar um certo caminho – o caminho até Ashura, embora ainda não soubesse. Eu já havia falhado quando era próximo de ambos e também quando fui muito ligado à alma de Indra então o que senti foi uma necessidade de me manter distante. Era por isso que eu te afastava Otouto. Eu não sabia explicar, mas parecia o certo. Creio que tenha decidido isso antes de reencarnar e me senti impelido a seguir. Mas foi terrivelmente difícil. Eu sempre te amei além do normal entre irmãos Sasuke. Não compreendia e me horrorizava com esse amor tão profundo e então me convenci cada vez mais de que não poderia estar muito perto de você.

Os conflitos entre nosso clã e o alto escalão de Konoha vieram a calhar e, embora seja verdade que eu aprendi a amar a vila e faria tudo para protege-la, foi a lembrança inconsciente do que ser do clã Uchiha poderia fazer com você Sasuke que me fez tomar aquela decisão. Naquela época eu já tinha visto o Naruto algumas vezes e sentia algo de diferente emanando dele. Desejei, sem saber porque, que vocês se tornassem amigos de alguma maneira – afinal, ele era sozinho como você viria a ser. Então coloquei na minha mente a ideia de que me mantendo longe você buscaria apoio em Naruto, e isso parecia certo. Hoje percebo que inconscientemente busquei criar a oportunidade para que se entendessem e dessem fim ao ciclo destrutivo.

Apesar da distância eu só sentia meu amor por você aumentar Sasuke e não resistia a observar seu sono muitas noites. Algo sempre me impelia a observar Naruto também e eu desejava que se entendessem, que fossem amigos, ou mais. Acho que era a alma de quem fui em nossas primeiras vidas transmitindo todo esse desejo. Isso se intensificou quando conheci Naruto com o pretexto de captura-lo pra Akatsuki. Se confirmou quando tempos depois eu vi o sentimento que ele nutria por você mesmo com o caminho torto que você veio a seguir. Tinha certeza de que ele poderia te alcançar, mas mesmo assim usei um jutsu para que ele tivesse uma vantagem contra você se fosse preciso. Dessa maneira liguei um pouco mais de minha alma e da missão de ajudar a consertar tudo entre vocês à alma de Naruto. Não foi consciente, mas foi crucial.

Você também tinha aqueles sentimentos, mas o ódio que eu alimentei em você estava os nublando. Então quando nós lutamos e eu parti Sasuke é que tudo ficou claro, era o certo. Novamente eu morria ao seu lado, sentindo todo aquele amor por você. Mas dessa vez eu tive mais fé. Fé de que de alguma maneira realmente vocês tinham se aproximado. Agora eu estava realmente longe, embora ainda ligado a ambos de maneira profunda.

Não esperava voltar com o Edo Tensei, mas isso fortaleceu tudo ainda mais. Por isso que no fim, consegui inspirar Naruto a não desistir de você – não que fosse preciso, mas foi mais uma confirmação na vontade dele - e a repetir minhas últimas palavras para poder abrir essa brecha e explicar tudo a vocês.

Naruto – Ah, então , você foi a voz que sussurrou aquelas coisas pra mim na hora em que... er... Naquele momento.

Itachi – Sim Naruto. Eu tinha usado essas palavras com toda minha verdade ao me despedir de Sasuke ao liberar o jutsu de Kabuto, sabia que elas teriam um grande efeito sobre ele. Mas foram vocês, em especial você Naruto, com sua determinação que chegaram ao entendimento. E com isso libertaram não só a si mesmos, mas a mim também. Arigatou.

Sasuke - nii-san...

Itachi – Te amo Sasuke. A você também Naruto. Sei que serão felizes.

*Naruto POV*

As lembranças daquele sonho vieram como uma cachoeira no momento em que cruzei meu olhar com o de Sasuke. Quando saí do transe e o vi com os olhos marejados e surpresos, assim como os meus deviam estar, percebi que ele também acabara de ter a mesma recordação.

— Não foi um sonho né...?

— Acho que não. Foi muito real. Foi quase como se ele estivesse aqui...

— Na verdade tenho até a sensação de que ainda está, Sasuke.

Agora compreendia que era uma revelação. Que o irmão mais velho de Sasuke estava ligado não só a ele, mas a mim também.

— Nas vezes em que pensei em desistir de te procurar, em que estava magoado demais ou com o orgulho muito ferido tinha algo que me impedia. Agora percebo que quando esses sentimentos vinham eu costumava sonhar com os teus olhos. Não, não os seus, mas eram parecidos. Agora sei que era a vontade que Itachi instaurou em mim.

— Se você tivesse desistido tudo teria acabado pra sempre. Eu estava muito enterrado em ódio pra conseguir sair sem sua ajuda Naruto.

— Parece que seu irmão foi uma ponte entre nós, mesmo de tão longe.

No silêncio que se instaurou a imagem de Itachi veio à minha mente, se transformando logo no rosto do amigo de Indra e Ashura, fazendo-me lembrar do seu nome.

— Acho que devemos agradecer Sasuke. Afinal, ele honrou o nome.

Ele sorria e percebi que tinha sentido o mesmo

— Juntos?

— Juntos. Arigatou, Tenshi*.

A brisa leve que entrou e nos acariciou no rosto deu a confirmação de que ele ainda ouvia e agora sim estava pronto pra partir.

*Tenshi - Anjo.