N/a: Sim, Georgiana é descrita como uma garota tímida. Isso quer dizer que ela é tola? Tenho certeza que não. Adoro histórias que descrevem uma possível amizade dela com Elizabeth, estou certa de que as duas se entenderiam imensamente. Espero que gostem do capítulo!
IASBr, que pergunta legal. Ao que parece, após um desaparecimento a decisão de declarar alguém como morto poderia passar por um tribunal e, dependendo das condições da pessoa (se casada ou não, se tinha herdeiros, propriedades, se escreveu cartas com referência ao lugar ou situação que estava, etc.) a decisão do tribunal poderia ser de declarar a pessoa como morta, tornando o cônjuge apto a se casar novamente, por exemplo. Se, no entanto, o "morto" retornasse, qualquer coisa que aconteceu com a família seria declarada inválida - um novo casamento ou filhos de um novo casamento seriam ilegítimos.
Capítulo 14 - Confidências na biblioteca
No chacoalhar da carroça, Elizabeth observava a filha. Ela estava crescendo, o rosto se alongando, tendo perdido as bochechas de uma criança pequena. Uma coisa boa após Lucy ter descoberto o maior segredo de Elizabeth era que agora as duas falavam sobre tudo. Elizabeth se certificava, diariamente, de expressar quanto amava a menina e quão importante ela era em sua vida. Mas as duas também discutiam trivialidades do dia-a-dia. A menina tinha uma grande curiosidade quanto ao funcionamento das coisas, e Elizabeth se esforçava em buscar as respostas que não tinha, sejam elas o período de colheita de morangos ou o funcionamento de um relógio. As duas estavam mais abertas uma com a outra, como se o elefante branco no meio da sala houvesse finalmente sido removido, abrindo espaço para coisas muito mais interessantes.
A cerimônia de casamento de Charlotte Lucas e o Coronel Richard Fitzwilliam foi em Hertfordshire e Elizabeth suspirou, a nostalgia a inundando assim que entrou na igreja que frequentou desde menina. Não pôde deixar de lembrar de seu próprio casamento, a forma como James segurara firmemente sua mão, que tremia, seu pai secando discretamente os olhos lacrimejantes, Kitty e Lydia, então meninas, correndo no pátio em frente à igreja após a cerimônia.
Ela voltou à realidade com a expressão de desgosto de sua mãe que disse, em um tom de voz não tão baixo, que poderia ser ela se casando.
-Vovó, eu quero ouvir a cerimônia! - Sussurrou Lucy, realmente incomodada pelas interrupções. Ela observava Charlotte e o Coronel com atenção, esperando pelo sinal que mudaria a vida deles. Pois com certeza haveria algo, um clarão de luz, algum som, qualquer coisa para sinalizar que eles estavam casados.
-Como a gente sabe que eles estão realmente casados? - perguntaria ela mais tarde para a mãe, quando as duas se sentavam em cadeiras à janela, no café da manhã oferecido depois do casamento.
-O que você quer dizer? Você viu a cerimônia, eles estão casados agora.
-Mas a partir de que momento, exatamente?
Elizabeth pensou a respeito, querendo dar uma resposta satisfatória.
-Eu acredito, Lucy, que a partir do momento que os dois se beijaram. Este é um momento muito íntimo e especial para um casal. - ela disse, sorrindo minimamente.
As duas pararam de falar, pois o casal vinha na direção delas. Elizabeth abraçou a amiga com carinho, repetindo palavras de felicidade que ela já havia dito mais cedo e em cartas.
-Você teve um papel primordial, nisso tudo, Lizzy. - disse Charlotte. - Contaremos a nossos filhos que foi na sua sala de visitas que Richard me pediu em casamento.
Elizabeth sorriu, então cumprimentando o noivo. Ela viu o Coronel abrir a boca para falar algo, então se interromper. Ele olhou ao redor antes de se aproximar de Elizabeth, falando em um tom baixo:
-Agradeço por ter resolvido o mal-entendido entre Darcy e eu, Mrs. Sheffield. Ele me contou tudo.
Elizabeth respondeu de acordo e olhou nos olhos do Coronel. Ela não tinha ideia de quanto era "tudo" e não sabia como perguntar, de forma educada, quanto Mr. Darcy havia compartilhado com relação à situação toda, por isso sorriu.
Então ele disse algo que a fez segurar a respiração.
-Você deveria falar com ele.
Havia sido dito de forma tão suave que ela se perguntou se realmente ouvira. Mas, ao ver o Coronel se afastar, viu o sorriso e piscar de um olho que o Coronel deu a ela, e teve certeza que não ouviu errado.
Durante toda a cerimônia, ela havia evitado de encarar Mr. Darcy, o que havia sido difícil, uma vez que, como padrinho, ele estava ao lado do primo. Mortificada demais para sequer olhar na direção dele, ela havia fixado seu olhar em Charlotte, absorvendo cada mínimo movimento da amiga. Mas agora seria ainda mais difícil evitá-lo principalmente por causa de…
-Georgie! - exclamou Lucy, feliz.
Elizabeth a pediu para se lembrar de ser polida, mas Georgiana, à frente delas, sorria de orelha a orelha.
-Querida Lucy! E Elizabeth! Não se preocupe, eu dei a ela permissão para que me chamasse assim. Somos amigas, não é verdade? - ela disse, sorrindo para a menina.
-É tão bom vê-la, Georgiana! - Elizabeth disse com sinceridade. - Espero que a viagem não tenha sido muito cansativa.
-Pernoitamos em Netherfield para podermos descansar. Não podíamos deixar de estar aqui para nosso primo. - ela disse, aparecendo se lembrar de algo, então olhando em volta. - Meu irmão estava comigo há pouco, imagino onde pode ter ido.
-Vocês vão ficar mais dias aqui? Eu queria tanto fazer outro piquenique!
-Lucy!
Georgiana riu, e Elizabeth se deliciou com o som límpido.
-Na próxima temporada poderemos fazer muitos piqueniques, Miss Lucy.
-Georgiana, nossos tios pedem a sua presença. - As três se viraram para ver Darcy, que havia se aproximado sem fazer barulho. Ele olhava para a irmã, e unicamente para ela.
Georgiana fez um leve movimento de cabeça para o irmão, o sentido óbvio, mas ele levou ainda alguns segundos para se virar, fazendo uma mesura para Elizabeth e então para Lucy. Georgiana observou-o com atenção, assim como a forma como ele e Elizabeth repentinamente se interessaram pela pintura pendurada à parede. Ela disse algumas palavras gentis para a amiga e sua filha, e se afastou com o irmão.
-O que está acontecendo, William? - Ela perguntou, o olhando nos olhos. Ela era nova quando a esposa de seu irmão desaparecera, mas lembrava da expressão em seu rosto, do cansaço em seus olhos, e ele estava com uma expressão muito parecida agora.
-Não imagino ao que se refere. - disse ele, continuando a andar e evitando também o olhar da irmã.
~X~
Como Elizabeth previra, Lucy ficara radiante com a previsão de ficar com a tia e os primos em Longbourn. Agora que as duas haviam falado abertamente sobre os medos de Lucy de ser deixada de lado, a menina se sentia mais segura. E essa segurança lhe permitiria aproveitar o tempo longe da mãe.
Elizabeth estava mais apreensiva do que Lucy. A viagem a empolgava, mas a perspectiva de passar por Pemberley a assombrava. Ela tinha esperança de que, sabendo de sua chegada, Darcy planejasse não estar na propriedade. Mas na última carta que trocara com Georgiana, a menina garantia que ambos a esperavam ansiosamente.
Apenas na companhia dos tios, Elizabeth se permitiu relaxar. As caminhadas que faziam eram revigorantes e os variados assuntos que discutiam sempre levavam a conversas agradáveis. Os lagos pelos quais a região era famosa estavam por toda a parte, e era sempre uma surpresa agradável ver um deles pouco a pouco se mostrar por dentre a paisagem. As histórias de sua tia sobre a infância entretiam e divertiam Elizabeth, e foi com o coração mais leve que ela se aprontou para dormir na véspera de sua visita à Pemberley.
Assim que a carruagem se aproximou do edifício imponente, Elizabeth segurou um riso nervoso. Seu tio a olhou, incerto se o som que havia ouvido viera da sempre sensata sobrinha. Mas sua tia segurou sua mão, a olhando com compaixão. Ela sabia quão difícil isso seria para Elizabeth. Mas também sabia que enfrentar a situação de frente seria melhor do que fugir dela para sempre. E se havia uma coisa da qual ela tinha certeza a respeito de sua sobrinha era de sua capacidade de enfrentar as situações de frente.
Eles desceram da carruagem, vendo que os empregados estavam enfileirados à frente da casa. Elizabeth respirou profundamente antes de erguer os olhos… e se deparar com Georgiana, ladeada por uma senhora de cabelos brancos e aparência determinada, e uma dama de companhia.
-Fico tão feliz que tenham conseguido vir, afinal! Elizabeth! E Mr. e Mrs. Gardiner, que prazer! Infelizmente meu irmão teve que se ausentar, há questões que necessitam de sua atenção, mas ele pediu desculpas e deixou seus cumprimentos. - ela disse, contrariada, como se tivesse se oposto à ideia do irmão de não estar presente, fato que Elizabeth não duvidava.
A senhora ao lado de Georgiana era Mrs. Reynolds, a governanta, que conduziu-os por um tour completo da propriedade, recheada de histórias da infância de Mr. e Miss Darcy. Elizabeth imaginava que tal visita completa não era dada a todos os visitantes, tampouco que Georgiana os acompanhasse. Sabendo que Mr. Darcy não estaria por perto, Elizabeth conseguiu relaxar, e aproveitar os momentos junto aos tios e à amiga. Ela não conseguiu deixar de pensar, no entanto, quão diferente teria sido sua apresentação à casa se tivesse aceitado o pedido de casamento de Darcy.
Quartos na ala de hóspedes foram oferecidos aos três e Elizabeth se sentou à janela, observando o lago escuro. Ela adorava estar em companhia de Georgiana, com sua energia prática. Mas se perguntava como era Mr. Darcy em casa. Ela imaginava que as máscaras que usava para proteger-se em sociedade eram deixadas de lado em um lugar como esse, com tantas memórias de família e infância. Ela nunca saberia, não?
~X~
Na manhã seguinte Elizabeth passou grande parte da manhã na biblioteca com Georgiana. As duas trocaram impressões sobre livros e examinaram vários exemplares da vasta coleção. A certa altura, Elizabeth ergueu os olhos do livro que tinha em mãos, sentindo que a amiga a encarava.
Georgiana se apressou em voltar os olhos para o livro mas, depois de alguns segundos, voltou a olhar para Elizabeth.
-Georgiana… tenho quatro irmãs e sei muito bem quando uma delas está morrendo de curiosidade para me perguntar algo.
As bochechas e orelhas da menina ficaram coradas mas, depois de mais algumas provocações leves por parte de Elizabeth, ela se rendeu, perguntando.
-Você tem medo de se casar novamente?
Elizabeth realmente não esperava por essa pergunta e olhou para a menina boquiaberta.
-Minha intenção não é chateá-la, muito menos discutir assuntos que não tenho o direito de discutir, Elizabeth. - ela se apressou a dizer - É só que…
A menina respirou fundo, como se tomando uma decisão.
-Você já foi casada antes, então você tem uma perspectiva muito melhor do que pode acontecer. - ela disse, e Elizabeth percebeu que os olhos da amiga se abaixaram, tristes. - E sei que não é da minha conta, e você pode simplesmente se negar a responder à minha pergunta, mas tenho motivos para acreditar que você recebeu uma proposta de casamento recentemente, proposta esta que respondeu com um não.
A menina ergueu os olhos brevemente, esperançosa. Elizabeth havia se recuperado do choque e decidiu perguntar.
-Seu irmão lhe disse algo?
-Oh, é verdade então? - ela disse, conseguindo baixar a voz depois de quase gritar. - Não, ele não falou nada a respeito diretamente. Mas com seu modo nervoso ultimamente, sempre escrevendo cartas e as queimando, seu repentino interesse na minha correspondência com você, assim como perguntas a seu respeito que, do dia para a noite se tornaram respostas evasivas e movimentos nervosos à simples menção do seu nome…
Elizabeth mirou a menina, tendo um vislumbre da mente maravilhosa por trás do rosto angelical e modos reservados.
-Eu também ouvi uma conversa dele com Mrs. Reynolds sobre um anel que havia sido de mamãe… - ela disse, torcendo as mãos, nervosa. Então, disse, depois de uma pausa. - Ele a pediu em casamento, não foi, Elizabeth? E você o negou?
-Não há como fugir de sua perspicácia, Georgiana. Sim, isso aconteceu. E o pedido me pegou de surpresa, assim como esse seu incrível trabalho de investigação.
-Não irá conseguir me distrair com elogios! Vamos, como foi o pedido? E por que o negou?
Elizabeth sabia que não estava diante de Jane e sim de Georgiana, ninguém menos que a irmã de Darcy. Mas ela sentia uma confiança e amor fraternais para com a menina. Não iria compartilhar de seus segredos mais profundos, mas gostaria de ver a reação da menina ao pedido do irmão.
-Ele não fez isso! - disse Georgiana, cobrindo a boca com as mãos, mortificada.
-Em seu favor, eu posso afirmar que ele acreditava me fazer elogios.
-Dizendo que se casaria com você apesar da sua família, sua filha e sua situação como viúva de um comerciante? Um pedido sem tato algum!
Elizabeth riu, e logo Georgiana riu também. As duas riram até que as barrigas doessem, e, depois de recuperada, Elizabeth se sentiu mais leve.
-Foi por isso que você negou o pedido?
-Não só por isso, haviam certos fatos… certas ocasiões que me fizeram acreditar que ele era uma pessoa totalmente diferente. Eu não tinha o direito de pedir uma justificativa para tais fatos, mas ainda assim ele os deu. Seu irmão é uma pessoa admirável, Georgiana.
-Isso quer dizer que ainda há esperança? Você o aceitaria? Seria incrível tê-la como minha irmã, Elizabeth!
-Eu não acredito que ele fará o pedido mais uma vez, eu feri seu orgulho com minha recusa. E, se o fizesse, não sei bem como eu responderia. Não me sinto merecedora das atenções dele, não depois de todos os insultos que lhe dirigi.
Um empregado bateu à porta, interrompendo a conversa das duas.
-Miss Georgiana? Avistamos seu irmão, se aproximando da propriedade à cavalo.
