A senhora Fabray ria frouxo com a taça de Martini em mãos. Ela conversava com uma esposa de um parlamentar e uma dama da sociedade reconhecida por administrar inúmeros projetos sociais. Um deles de reabilitação de jovens infratores. Mas não criminosos em situação de vulnerabilidade social. Esses "vagabundos" estavam destinados a fazer todo o tipo de serviço que a sociedade desprezava. Quem era reabilitado pelos caros programas eram os jovens de classe média ou filhos da sociedade que tinham atos de "rebeldia". A estrutura social vigente não via com bons olhos a mobilidade de classes. Falir não era difícil, mas ascender socialmente era uma tarefa complicada em uma sociedade em que a educação era para poucos e a forma mais fácil de enriquecer era se tornando um político ou um jogador de futebol.

Rachel raramente via um rosto diferente nas festas em que trabalhava na casa dos Fabray ou em algumas outras. Talvez na dos Pierce, mas ali era outra história: a família que falava com botões. O casal James e Sara Pierce era um dos financiadores da rede de botões e sempre dava os melhores trocados toda vez que chamavam os amigos da peculiar Brittany a darem um apoio nas recepções que organizavam. Certa vez, o casal pagou Rachel para cantar quando a vocalista da banda de baile contratada teve um contratempo. Foi uma noite gloriosa quando a jovem se sentiu como uma artista de verdade. Sempre soube que havia nascido para brilhar e aquele foi o primeiro gostinho bom do ofício.

Mas não na festa dos Fabray. As mesmas pessoas que a aplaudiram com entusiasmo naquela noite, nem olhavam no rosto dela. Rachel circulava pelo gramado do jardim da mansão com a bandeja cheia de petiscos e oferecia às damas sentadas à mesa ou em pequenas rodas de conversa da tal festa informal. As risadas delas irritavam Rachel. Então ela fechava os olhos e atuava para suportar as pequenas humilhações, as olhadas de desprezo, as piadinhas por causa da aparência. Rachel era uma jovem de estatura mediana e magricela em meio de tantas senhoras corpulentas. Ela tinha uma cicatriz acima da sobrancelha direita fruto de um acidente quando ainda era criança e recebia apelidos pouco honrosos por conta disso.

"Greenberg pediu mais pasta de abóbora." Rachel se dirigiu a Matt assim que chegou à cozinha. "E se você puder batizar ela, melhor ainda..."

"Não vai querer levar para casa depois?" Matt gargalhou.

"Eu vou me lembrar em excluir a pasta de abóbora, por melhor que ela esteja. Aproveita e faz um prato com os favoritos da Britt Britt."

Sam entrou na cozinha com a bandeja cheia de copos vazios. Não parecia muito feliz com a noite de trabalho. Boa parte dos amigos de Rachel eram duros. Certamente todos que trabalhavam em bicos como servir em festas informais não tinham muito dinheiro sobrando. Sam era integrante daquele grupo informal com situação mais instável, uma vez que o pai estava desempregado e vivia fazendo bicos, ao passo que a mãe era a única da casa com emprego fixo de recepcionista: era o parco dinheiro dela que garantia o pagamento das contas: pouco sobrava para comprar comida para alimentar as cinco bocas da casa. O dinheiro modesto dos bicos era essencial naquela família. Podia representar um dia a menos sem pão na mesa. Sam era um jovem bonito de cabelos loiros longos, mas que vivia pouco os prazeres da idade.

Matt às vezes era chamado de Mocha. Ele vinha de uma família com melhores condições e trabalhava para suprir os próprios gastos. O pai era barista e proprietário de uma cafeteria. O apelido era uma referência direta ao nome do estabelecimento comercial da família: Café Mocha. Matt detestava café, mas gostava de trabalhar de assistente de cozinha. Considerava a experiência importante para um dia ser chefe.

"Luc está com muito trabalho." Sam sorriu se referindo ao homem contratado para fazer drinks especiais. "As velhas estão sedentas em cima do coitado hoje."

"Quero só ver quem vai levá-lo para casa hoje." Matt terminou de abastecer a bandeja de Rachel. "Na última vez ele ganhou uns trocados coma velha Gimenez."

"Vocês são nojentos." Rachel revirou os olhos. "E vocês não deveriam comentar sobre o que o Luc faz por aqui." Prostituição não era crime. Não exatamente. Havia uma série de regras não-declaradas e a discrição era a principal delas. Luc fazia drinks bonitos e servia mulheres e alguns homens da alta sociedade. Rachel não era amiga dele, mas os dois sempre se cruzavam nessas festinhas e se respeitavam. Havia boatos de que Puck às vezes também ganhava algum dinheiro proporcionando prazer às senhoras da alta sociedade, mas ele nunca confirmou tal informação, em parte por feria a reputação que construiu. Não foram poucas as vezes que Sam recebeu propostas. Ele confidenciou a Rachel que se prostituiu uma vez para nunca mais. A própria Rachel já recebeu sinais de que poderia ganhar dinheiro, mas ignorou a todos: dizia ser orgulhosa demais para vender o próprio corpo.

A governanta da casa entrou na cozinha de supetão. Rachel, no susto, pegou a bandeja e foi para mais uma rodada carregando uma bandeja com petiscos quentes. Não queria ficar para escutar a provável bronca daquela mulher que mandava mais na casa e no chefe da casa do que a própria senhora Fabray. Distribuiu canapés com um sorriso congelado no rosto, observava tudo enquanto isso. Falar mal daquela gente era diversão entre os amigos. Voltou à cozinha, abasteceu novamente a bandeja. O ofereceu à senhora Greenberg a desejada porção de pasta de abóbora devidamente batizada. Sorriu com toda a educação apesar do comentário rude da senhora e continuou a trabalhar. Era uma das últimas rodadas que faria antes do jantar principal ser servido. Olhou com curiosidade para Quinn e Brittany, que estavam sentadas junto com outras duas garotas que Rachel raramente via. Foi até a mesa e se deparou com uma séria Quinn e uma Brittany que mal disfarçava o tédio.

"Trouxe o seu favorito, Britt." Colocou diante dela um prato com azeitonas recheadas, mini sanduíches com patê de ricota e presunto.

"Meu deus, quanta liberdade. Espero que não seja uma namoradinha, Britt. Você seria condenada a cadeira elétrica pelo mau gosto." Uma das meninas gargalhou e Brittany pensou em reagir, mas Rachel colocou uma mão nos ombros dela. "O que recomendaria para mim?" A menina encarou Rachel com petulância.

"A pasta de abóbora está divina." E abaixou a bandeja para que a menina passasse um pouco no pão. Não se furtou a sorrir quando viu a menina colocar a comida batizada na boca. "Não vai querer nada senhorita Fabray?" Rachel estava bem instruída em dirigir-se a Quinn daquela forma em eventos sociais.

"Só dê o fora daqui, anã."

Rachel acenou e obedeceu. O jantar foi servido e tudo permanecia na rotina. Exceto por Quinn Fabray. Rachel a conhecia o suficiente para saber que alguma coisa estava errada com a quase arqui-inimiga. Ela sempre fazia o jogo de cena e era grosseira com todo o resto, em especial com Rachel. Às vezes tentava entreter Brittany, que não escondia o tédio naquele tipo de reunião por se privar da companhia de quem realmente gostava, como Santana e os botões. Rachel começou a considerar que havia algo sério com Quinn quando a viu olhando o céu estrelado na alta madrugada quando a festa já estava encerrada. Ela e os outros ajudantes passariam a noite por ali na dependência dos empregados uma vez que o toque de recolher no bairro em que moravam impossibilitava o retorno para casa naquele horário. Como não era algo incomum, as famílias ricas permitiam o pernoite.

Estranhou por Puck não estar próximo a Quinn ou qualquer outro garoto bonito que não fosse Finn Hudson. Era como se Rachel testemunhasse um raro momento de fragilidade. Aproximou-se com cautela, arrumando o casaco de frio no corpo. Sabia que não deveria fazer isso, mas estava curiosa. Ela sempre foi curiosa em relação à Quinn. Apesar de ser uma garota mesquinha que a desdenhava na escola, era como se Rachel pudesse enxergar uma melancolia antiga através dos lindos olhos.

"Você entende de constelações?" Rachel surpreendeu-se por Quinn ter percebido sua aproximação.

"As únicas que sei identificar são Orion e Cassiopeia." Apontou para as estrelas conhecidas como as Três Marias. "Reconheço Orion por causa daquelas três estrelas brilhantes ali. Dizem que uma das estrelas dessa constelação está prestes a explodir, mas o brilho só vai ser enxergado daqui a uns 500 mil anos quando a luz chegar até nós."

"Isso é sério?"

"É o que dizem. Cassiopeia é aquele w."

"Você não é tão leiga quanto pensei."

"Você entende de constelações?"

"Minha irmã mais velha pertencia ao clube amador de astronomia. Ela me ensinava algumas coisas." Então virou-se para Rachel. "Você deve estar com uma insônia muito ruim para estar aqui ao lado de alguém que detesta numa madrugada fria após trabalhar em pé quase a noite inteira."

"Eu não detesto você, Quinn. Eu entendo que pertencemos a mundos diferentes, e não penso que isso seja razão suficiente para te odiar, por mais que você sinta necessidade de me maltratar em público." Rachel continuou a olhar o céu ao lado da colega, que não esboçou reação alguma a respeito do comentário. "Além disso, amanhã é domingo. Posso dormir o dia inteiro no conforto da minha cama. A cadeira daqui nunca foi das melhores para se tirar uma soneca."

"Verdade. Minha mãe nunca fez questão em dar conforto a funcionários temporários."

"Ok... E você? O que faz aqui e meio ao sereno? Observando as constelações?"

"Coisas demais na minha cabeça. Assuntos que não dizem respeito a você."

"Dizem que desabafar com um estranho ou um quase inimigo é melhor do que confessar coisas a um amigo. Se quiser tentar..."

"Não vá contando com isso. Aliás, quanto menos souberem da minha vida, melhor. Essa história de que há pessoas que dizem ser um livro aberto ou é mentira ou apenas demonstram a estupidez delas."

"As pessoas não precisam ser livros abertos para desabafar."

"Perca as esperanças, anã. Você não é minha amiga e eu daria absolutamente nada que pudesse usar como arma contra mim. Por menor que a informação fosse."

"É uma pena que pense dessa forma. Deve ser uma posição muito solitária, Quinn."

"Não é da sua conta, empregadinha!"

Quinn estava constantemente mexendo com algum pequeno objeto em mãos. Rachel arregalou os olhos e o coração parou quando finalmente reparou um pequeno botão azul. A cor do convite.

"Onde arrumou esse botão?"

"Isso?" Quinn apontou como se fosse nada demais. "Caiu da minha blusa de frio." Só então Rachel percebeu que era mesmo um botão da roupa. Respirou aliviada. Quinn sendo convidada a juntar-se aos botões? Só se todos tivessem perdido o juízo.

"Se me arrumar agulha e linha, posso costurar de volta."

"É muita gentileza sua, mas sou perfeitamente capaz de pregar um botão e fazer um trabalho muito melhor." Agora era o orgulho de volta que Rachel até que se sentia confortável. Era familiar. "Você deveria sair desse sereno, Berry, ou o frio pode arruinar sua bela voz."

"Desde quando você se importa com a minha saúde."

"Eu não sou um completo monstro."

Quinn se afastou com os braços cruzados deixando Rachel com a estranha sensação de frustração. Aguentar os insultos de Quinn pela madrugada era melhor do que se sentir só naquela mansão que lhe davar arrepios. Rachel não era uma pessoa que acreditava em misticismo, mas ela podia sentir que a energia que rondava aquele lugar não era das melhores. O rápido diálogo teve a mesma temperatura daquele início úmido de madrugada. As luzes da mansão estavam todas apagadas, exceto uma no térreo. O caseiro alertou de que as luzes do jardim seriam apagadas e que os cachorros passariam a circular para a vigília noturna. Era melhor voltar à casinha de dependência de empregados, onde encontrou seus amigos e o quase-irmão encostados pelos cantos à espera do raiar do dia, quando poderiam voltar a circular pela cidade sem a preocupação de serem abordados pelos agentes de segurança nos bairros com toque de recolher.

Rachel pensou que seria muito bom se todos tivessem o mesmo direito de ir e vir. Por essas e outras que tinha orgulho de ser um botão: se sentia como uma rebelde justiceira, mesmo que ainda fosse uma peça pequena dentro de um esquema complexo.

"O que há?" Sam disse baixinho, convidando a amiga a sentar-se ao seu lado.

"É difícil dormir aqui." Sussurrou enquanto sentou-se ao lado o colega e permitiu-se ser envolvida por seus braços.

"Fato."

"Isso é quase desumano."

"Mas é o nosso dinheiro suado."

"Você não tem raiva dessas coisas? Não de trabalhar nesses bicos, mas ser tratado dessa forma? Nem mesmo as pessoas que dormem aqui nos ajudam."

"Eu morro de raiva, mas não há muito que eu possa fazer. Então eu me encosto nesse canto, conto de novo o dinheiro da noite. Não é muito, mas me relaxa."

Rachel resmungou e aninhou-se um pouco mais contra o corpo do amigo. Fechou os olhos e procurou esquecer.

...

Havia duas coisas que Rachel amava na casa dos Lopez: o bom humor de Juan e o almoço preparado por Maribel. Juan era médico e a esposa era costureira que vendia almofadinhas coloridas na feira de artesanato semanal, além das encomendas habituais de clientes. Havia dois quartos desocupados naquela casa e Rachel adoraria ocupar um deles para desfrutar a companhia do simpático casal. Dois dos filhos mais velhos já tinham saído de casa, restando a caçula. O problema é que a caçula em questão se chamava Santana e ela jamais permitiria que Rachel morasse ali. Enquanto degustava o tempero gostoso, ouvia casos engraçados do hospital narrados com grande vivacidade por Juan. As risadas eram fartas. Até que ouviram o barulho da motocicleta em frente à casa.

Santana entrou na cozinha carregando o capacete preto e se deparou com uma cena doméstica relativamente corriqueira: seus pais e Rachel organizando o lugar após a refeição como uma família qualquer. A jovem estava séria, cumprimentou os presentes, colocou o capacete em cima da mesa e impediu que a mãe guardasse o que sobrou do almoço na geladeira. Ela estava faminta.

"Como foi esse seu tal trabalho?" Juan perguntou com expressão séria.

"Foi tudo bem." Santana arrumou o prato e se calou o estômago reclamão.

Ele jamais engoliu a desculpa da filha pelas ausências alternadas nos finais de semana, mas Santana assegurava de pés juntos que era um trabalho legal, e ela sempre voltava com algum dinheiro. Não que os Lopez precisassem da ajuda da filha para manter a casa. Neste ponto, eles tinham uma situação econômica mais favorável em relação a tantas outras famílias que moravam naquele mesmo bairro. Juan sempre estimulou que os filhos trabalhassem em pequenos serviços e não abriu mão do estudo de nenhum dos três, mas daí a fazer trabalho de entrega em cidades vizinhas não era exatamente o que pensou para nenhum deles. Desde que Santana não se metesse em encrencas e não descuidasse dos estudos, ele faria vistas grossas.

"Então você serviu na festinha dos Fabray ontem?" Santana perguntou a Rachel sem sequer olhar para a subordinada. Rachel conseguia distinguir quando Santana falava com ela como líder, mesmo diante de outras pessoas, e aquele era um momento.

"É. Não aconteceu nada além do normal." E voltou-se para Juan e Maribel. "São os mesmos grã-finos contando as mesmas vantagens e pagando as mesmas misérias."

"Por isso que são ricos!" Maribel ironizou.

Santana comeu rapidamente e perguntou se Rachel não queria escutar algum disco no quarto. Era o código de que deveriam conversar sobre os botões. Rachel seguiu a líder até ao quarto no segundo andar. Ela fechou a porta enquanto Santana colocava um disco de vinil para tocar que ela retirou de dentro do baú. Verdade seja dita: Santana tinha uma coleção incrível de música e esse era o assunto mais recorrente entre as duas quando estavam às sós não falavam de assuntos dos botões, mas a garota de cabelos negros e pele cor de bronze jamais deixou Rachel explorar a fundo aquela biblioteca maravilhosa de sons.

"Relatório." Santana disse enquanto tirava as botas. A voz estava um pouco abafada pela música, mas o suficiente para que ninguém do lado de fora pudesse compreender.

"Não vi interação de Sam com ninguém do lado de lá. Ele reafirmou algumas ideias que defendemos, sem falar que é um cara íntegro. Eu o conheço há bastante tempo. Acha mesmo que ele é um bom candidato para integrar o nosso círculo?"

"Precisamos de gente, mas não podemos nos dar ao luxo de chamar pessoas erradas." Rachel acenou e silenciou-se por um momento para apreciar a doce melodia que tomava conta do ambiente.

"Quinn estava diferente..." Comentou sem pensar na importância exata disso.

"Diferente como?" Santana franziu a testa e desejou que a informação fosse realmente boa. Quinn e ela eram relativamente próximas, apesar do abismo social entre as duas. Havia interesse por parte de Santana em se aproximar para obter informações para os botões, mas não era fácil quando se tratava de alguém tão fechada. Por outro lado, a convivência a fez simpatizar pela filha de parlamentar.

"Não sei. Diferente." Rachel pegou a capa do disco e leu silenciosamente algumas informações sobre a produção. "Estava contemplando as estrelas, falou da irmã dela... foi daquele jeito seco e foi comigo, o que é ainda mais bizarro. Quinn jamais trocou mais de meia dúzia de palavras comigo, e quando ela fala é para me rebaixar ou para dizer que tem trabalho de serviçal disponível na casa dela. Mas ontem ela estava, sei lá, fragilizada."

"É... eu sei." Santana disse pensativa e deitou-se na cama de solteiro. "Estou morta!"

"Como foi o dia de entregas?"

"Trabalhoso, como sempre."

Santana então sorriu para Rachel e levantou-se. Foi até a mochila e retirou o saquinho de botões que ambas conheciam tão bem. Olhou lá dentro, remexeu um pouco e tirou de lá um botão. O coração de Rachel disparou quando Santana lhe entregou um botão rosa. Esse tipo de sinal, botão rosa, geralmente era "entregue" eletronicamente, mas como uma das destinatárias estava ali, o jeito tradicional lhe pareceu pertinente. Estava certa ao conferir o brilho nos olhos da subordinada.

"Não vá amanhã." Santana procurou racionalizar diante de uma surpreendida Rachel. "Nenhum restaurante da rua boêmia funciona na segunda-feira e os agentes circulam muito por lá nesse dia."

Rachel mal ouviu o conselho. Toda sua atenção estava voltada para aquele botão rosa.