Rachel escapuliu do porão quando passava das 22h. O toque de recolher naquela região havia sido suspenso, mas não queria dizer que as ruas estavam menos perigosas. Anna chegou a confrontá-la, mas Rachel sorriu e disse que dormiria na casa de Kurt. "Contanto que você não fique grávida", a tutora respondeu com certo desdém. Rachel não teria essa chance de irritar Anna, pelo menos não se depender de Kurt. Pegou a bicicleta saiu em direção à rua boêmia. Naquela hora, a cidade começava a se esvaziar, em especial no início da semana, quando não havia muito que fazer numa cidade que não era uma metrópole e tinha opções limitadas de lazer.

Passou pedalando pelas ruas e observava as famílias se recolhendo. Os últimos carros chegando à garagem. Algumas luzes coloridas da patrulha que circulava por ali com agentes loucos para abordar qualquer um. Essa vigília forçou hábitos peculiares do submundo: alcoólatras se perdiam dentro de casa, ou se dirigiam aos chamados porões: locais espalhados entre zonas boêmias e bairros pobres onde pessoas se perdiam coletivamente e evitavam as ruas para não serem presas. Rachel nunca esteve num chamado "porão", mas sabia de histórias e elas não eram bonitas. Um porão não era como um bar, não era como ruas boêmias: era pior.

Não levava mais do que 15 minutos de bicicleta entre a casa dela e a sede dos botões atrás da pizzaria de Sócrates. Ao chegar à rua boêmia quase que completamente deserta, foi surpreendida com a presença de duas patrulhas. Ficou nervosa ao ver que uma delas estava exatamente no beco da pizzaria que dava acesso à porta do falso depósito. Não havia toque de recolher em vigência naquele dia, mas Rachel sabia muito bem que os agentes eram imprevisíveis. Se um quisesse, poderia prendê-la ali mesmo sem motivo algum, ou fazer coisas piores. Os relatos de barbaridades e abusos físicos e sexuais eram vastos. Rachel desviou o caminho e entrou no beco seguinte, três edifícios à frente. Estava nervosa, ofegante. Amaldiçoou a si própria por ter escolhido logo um sem saída. Tentou voltar, mas percebeu que um agente se aproximava. Correu e se escondeu atrás de um tonel de lixo com a bicicleta à frente como se fosse um escudo. Viu o feixe de luz da lanterna iluminando alguns pontos à distância. Parou de respirar e só soltou o ar quando o feixe desapareceu.

Com as mãos trêmulas, pegou o celular. Digitou S.O.S. e depois o número 4.

Sua memória fotográfica e a facilidade para decorar lhe ajudavam a se lembrar dos inúmeros códigos dos botões. Tudo nos botões era em código porque não se podia ter certeza qual o celular estava sendo vigiado e apenas os líderes dos círculos menores tinham acesso a linhas seguras. De qualquer forma, seguiu o protocolo e rezou para Santana lhe atender o mais rápido possível.

"Onde está?"A voz a líder era de urgência.

"Num beco, dois edifícios depois da pizzaria. Beco sem saída." Ela não precisava detalhar tanto. Os códigos já davam uma boa noção do problema e Santana tinha obrigação de conhecer aquela região de olhos fechados.

"Rachel, tem uma escada colada na parede do edifício marrom. Suba essa escada assim que tiver oportunidade, volte a falar no celular, eu vou estar contigo o tempo inteiro."

Escada? Rachel achou que Santana poderia estar de brincadeira. Espiou com cuidado para ver se havia algum agente li por perto. Presumiu que tudo estava limpo. Deitou a bicicleta no chão e com alguma dificuldade – tudo para não fazer qualquer barulho –, usou um caixote de madeira para subir no tonel de lixo. Esticou o braço para alcançar o terceiro degrau da escada em questão e usou as pequenas frestas dos tijolos da parede para escalar. Era preciso mais força física do que ela imaginava. Foi um alívio quando conseguiu apoiar o pé no último degrau da escada. Devagar, como um gatuno, foi vencendo andar por andar até alcançar o último dos quatro do prédio. Evitou olhar para baixo. O coração já estava na boca e ela não queria cuspi-lo de vez. Ralou os joelhos na parede enquanto tentava ganhar mais degraus. Não conseguiu ser tão discreta quanto queria e precisava. Felizmente conseguiu chegar até a borda do telhado. Jogou uma perna para dentro e deixou o corpo rolar para a segurança do piso. Ficou deitada por um minuto. Estava ofegante e suava como louca apesar da noite fria. As mãos ardiam por causa da última escalada e da ferrugem do ferro. Rachel agradeceu à campanha de vacinação anti-tétano. Ainda deitada, pegou o celular.

"Consegui."

"Ótimo... ótimo!" Santana parecia aliviada do outro lado da linha. "Agora, com cuidado, você precisa me dizer como está o movimento das ruas."

"Dois tempos." Correu com o corpo inclinado e abaixado até a frente e com cuidado se aproximou da borda. "Há dois carros de agentes estacionados na rua." Disse sussurrando. "Um dos homens está circulando este prédio." Rachel estava a um passo do pânico.

"Rachel... escuta com atenção. Quero que vá até o outro lado deste prédio." A menina obedeceu. "Você verá que o prédio que fica atrás desse é mais baixinho e a porta de entrada do telhado é voltada para a rua em que ele está de frente."

"E daí?"

"Quero que você pule até ele..."

"Você ficou louca? Tem um espaço de uns cinco metros entre um prédio e outro."

"Na verdade é um pouco menos de dois metros."

"Você não pode estar falando sério!"

"Eu já fiz isso. Não é grande coisa. Você não precisa ser nenhuma atleta extraordinária para conseguir. O desnível dos prédios ainda ajuda na tarefa. É só correr e pular. Não hesite ou olhe para baixo senão vai cair." A voz da líder era serena e ao mesmo tempo firme, de comando.

"Eu não vou pular!"

"Nós não temos negócios aí onde está. Mas posso enviar ajuda rápida se você pular. Os agentes estão circulando. Sinal de que desconfiam de algo. Então você precisa fazer o que for preciso."

"Eu não vou pular!" Sussurrou gritando.

"Você não quer parar de receber negativas? Você não quer fazer parte do alto-esquema para sair deste buraco? Então pule!"

"É porque não é contigo!" Rachel estava revoltada com a ideia. Em quase total pânico.

"Rach..."

"Não me venha com Rach. Vai pro inferno!"

"Ok... ok... se acalma... olha como está o movimento outra vez." Rachel foi até a borda novamente. O agente já não estava mais em frente ao edifício. Teve a intuição de olhar para a lateral e viu que o homem agora observava a bicicleta abandonada no beco. Jogou a lanterna para o telhado e Rachel se abaixou num reflexo.

"Eles acharam a minha bicicleta... San... o que faço?"

"Rachel, você não tem opções. Pule!" A voz era puro comando.

"Tá..."

Passou a mão na testa para limpar o suor. Olhou mais uma vez para baixo e viu que o agente estava subindo em cima do tonel de lixo. Ela caminhou até o meio do telhado e sem pensar muito, correu. Colocou o pé no parapeito do telhado e tomou o impulso necessário para o pulo quase suicida. Mas conseguiu. Com uma queda dolorosa, mas conseguiu. Correu até a porta de acesso e encostou-se a ela ofegante. Estava chorando.

"San..." Voltou ao telefone. "Eu pulei..."

"Ok. Seja como for, se o agente for ao telhado, ele não vai pular até aí. Se eles estão vigiando com esse rigor é porque estão pressionados para pegar alguém. Mas isso não vale esse pulo de dois metros e meio que você acabou de fazer."

"Dois e meio?! Você disse que eram menos de dois... e acho que torci meu tornozelo na queda."

"Viu! E depois você diz que a minha psicologia não funciona."

"Eu te odeio! Eu legitimamente te odeio!"

"Tudo bem. Agora preste atenção. Não saia daí onde está. A ajuda está a caminho. Eu volto a te ligar daqui a pouco, ok?"

Rachel desligou o telefone. E procurou se acalmar um pouco, mas em vez disso, chorou de nervosa. As mãos latejavam e o tornozelo doía. Nem se incomodou em saber se o agente havia ou não subido ao telhado. Ela só queria dar o fora dali. Fechou os olhos e procurou controlar o choro. Foi quando o celular vibrou mais uma vez.

"Rachel. Está tudo bem?"

"Sim..."

"Você se lembra do diálogo da lagarta?"

"Acho... acho que sim..."

"Ok, entre dez a 15 minutos deve chegar alguém aí para te resgatar. Saberá como saber se ele for amigo."

"Obrigada."

"Sabe o que fazer quando tudo terminar."

Rachel não sabe precisar quantos minutos se passaram. Ela só procurava se concentrar em algo que não fosse as mãos e os tornozelos. Procurou fechar os olhos e pensar em coisas boas. Como nas últimas boas lembranças que tinha com os pais, antes de serem presos e executados. Hiram Berry paparicava a filha sempre que podia e adorava ouvi-la cantar. Era muito amoroso e fazia de tudo para compensar a ausência da mãe na vida da garotinha. Rachel lembrava-se que um dos momentos mais felizes era quando Hiram e Leroy a levavam ao parque de diversões e lhe pagavam um sorvete na volta para casa. Era um momento sagrado dos três em que nem mesmo as discussões clandestinas podiam ser mais importantes. Às vezes Rachel sentia raiva do pai, por não pensar nela e em Leroy quando se envolveu com o grupo radical político. Mas na maior parte o tempo, ela era grata pelas boas lembranças que eles deixaram.

Se soubesse que ficaria tão pouco tempo em companhia deles, teria aproveitado mais, teria sido uma filha melhor. Um clique na porta que dava acesso ao telhado (e ao interior do prédio no sentido contrário) a fez ficar em alerta. Surgiu um homem de cabelos negros que usava bigode. Rachel arregalou os olhos assustada. Estava cansada físico e psicologicamente para reagir.

"Quem é você?" O homem perguntou. Tinha voz grossa.

"Eu... eu mal sei sir, neste exato momento." Respondeu hesitante.

"Que quer dizer com isso?"

"Receio não poder explicar."

O homem sorriu e ofereceu a mão para que Rachel se levantasse.

"Washington Gilmore... e você deve ser Rachel Berry."

"Sim." Rachel aceitou a mão e levantou-se apesar do corpo em dor.

"Vem, não temos muito tempo."

Desceram as escadas do edifício e logo chegaram à portaria da rua oposta ao espaço boêmio. Pelo menos Rachel pôde atestar que não quebrou nada, ou seria incapaz de realizar tal esforço sozinha. Entraram no prédio que ficava nas costas da pizzaria. Era um escritório de contabilidade que funcionava ali. Sem maiores explicações, o homem conduziu Rachel até ao porão que tinha acesso pelo escritório. Havia prateleiras e mais prateleiras e processos. Num canto, entre as prateleiras, havia uma tapeçaria enfeitando o lugar. Gilmore abriu a tapeçaria como se fosse uma porta, e foi revelado a porta de um elevador muito mais confortável do que aquele em que Rachel estava acostumada. Gilmore introduziu o botão metálico no painel e sorriu para a menina. O elevador desceu.

"Entrada alternativa? Não acredito."

"Seria estupidez fazer uma única entrada e saída de um lugar tão importante." Sorriu.

"Santana... é por isso que ela me fez pular do prédio? Para que a gente pudesse entrar pelos fundos? Literalmente pelos fundos?"

"Teoricamente, você entra pelos fundos. Essa é a entrada principal."

"O senhor é do alto-círculo?"

"Digamos que faço parte de certas células mais estratégicas. Você teve sorte por eu estar no trabalho até mais tarde e por Santana ser a sua líder. Caso contrário, teria de sair lá de cima por conta própria ou com ajuda dos integrantes do seu círculo."

"Eles viram a minha bicicleta largada no beco. O que devo fazer?"

"Esquecê-la. Compre outra. Aliás, vou ter uma palavra com sua líder sobre visitas à sede hoje. Todo mundo sabe que segunda-feira é um mal dia."

"Na verdade..." Rachel olhou para os próprios pés. "Ela me advertiu, mas eu desobedeci."

"Neste caso, tenho certeza que ela vai saber aplicar uma punição disciplinar adequada."

O elevador abriu e eles saíram numa sala que Rachel desconhecia: era um espaço com decoração sofisticada: aquele porão era muito maior do que imaginava. Entraram para uma porta e entraram na sala de controle. Gilmore cumprimentou o jovem que trabalhava ali em regime de plantão e então ele deixou Rachel no lugar que lhe era familiar.

"Está em casa... cuide-se menina!" Gilmore a cumprimentou outra vez e voltou pelo mesmo caminho.

"Obrigada."

Rachel atirou-se no conhecido sofá e fechou os olhos aliviada por estar a salvo. Então se lembrou da razão por ter se submetido a toda aquela aventura: correspondência. Foi até o balcão e procurou a carta. Encontrou o seu nome num envelope comum, branco.

Abriu a carta. Era uma correspondência normal, não-criptografada, como ela tinha visto uma vez Santana usar o computador para decifrar a mensagem. Nada disso, nada de problemas. Apenas o velho e bom papel branco, caneta e uma letra legível. Acompanhada da carta havia duas fotos que fizeram os olhos de Rachel encherem de água. Uma era de uma moça bonita de cabelos castanhos e olhos verdes que tinha aparência de ter chegado muito bem aos 40 anos. A outra foto era a versão mais jovem da mesma moça com uma criança no colo. A criança era a própria Rachel.

Querida Rachel,

Imagino que deve ser muito difícil para você viver sozinha neste lugar. Você pode duvidar o quanto quiser, mas penso e rezo por ti todos os dias e espero que esteja bem.

Há anos que desejo entrar em contato contigo de alguma forma, qualquer forma. Especialmente quando soube tardiamente da morte dos seus pais. Levou quase dois anos para que um amigo em comum me encontrasse e falasse das notícias, especialmente de Hiram, Leroy e suas. Sei que é tarde, mas aproveito aqui para prestar minha homenagem e todos os meus sentimentos.

Não sei se seus pais contaram essa história, mas nós nos conhecemos muito jovens, ainda na faculdade, justo na época em que o golpe foi decretado e as fronteiras foram fechadas. Hiram era um líder do diretório estudantil e nós éramos próximos. Nessa época ele já namorava Leroy e tinha toda essa pasta sobre direitos LGBT. Um dia eu cheguei chorando e Hiram me amparou. Eu estava grávida e por Deus, nem queira saber sobre o seu pai biológico porque não é um sujeito que vale à pena. Seu pai biológico me largou, minha família disse: "se vira". Hiram foi quem me deu o suporte que necessitava e eu fui morar com eles.

Quando você nasceu, Hiram lhe deu o nome dele e te assumiu como dele. Leroy oncordou e deu todo o suporte. Mas as coisas ainda estavam confusas, e pouco depois um conhecido meu falou sobre a possibilidade de fugir antes que tudo piorasse. Eu o escutei, mas Hiram disse que seria muito arriscado cruzar a fronteira com o bebê de colo. Houve uma oportunidade de sair e nós discutimos muito naquele dia e chegamos ao acordo de que eu tentaria atravessar, mas sem você. E se tudo desse certo, talvez eles fossem em seguida contigo. Hiram e Leroy te amavam tanto que ficaram com medo de arriscarem. Eu nunca os perdoei por isso, mas hoje sei que a decisão deles foi acertada.

Foi um período negro na minha vida. Sofria com saudades e tudo que tinha para me consolar eram duas fotos. Sendo que uma delas era justamente essa que mandei fazer uma cópia para ti. Essa foto fica junto comigo onde quer que eu vá. Mas eu sobrevivi nesta terra. Não sou rica, não tenho fama, mas tenho uma boa vida, um emprego, um companheiro e uma filha chamada Beth que tem quatro anos.

Mesmo com uma nova família em uma terra que me abrigou, você continua a povoar meus pensamentos. Mas eu não sabia como entrar em contato, ter notícias suas.

Meses atrás eu fui procurada por um homem estranho chamado Pedro. Ele não me deu detalhes, mas disse que te conhecia e que tinha uma maneira de entrarmos em contato sem riscos a você. Seja lá o que for, Rachel, rezo para que não tenha se metido em encrencas ou se aliado a um grupo extremista, como Hiram. Se for isso, não vale à pena.

Enfim, Pedro me deu provas suficientes para me fazer acreditar de que ele dizia a verdade e, por fim, pediu para que eu escrevesse uma carta. Deposito aqui todas as minhas esperanças de que esse homem seja mesmo sério e que faça minhas palavras chegarem até as suas mãos.

E o que mais desejo saber é se você está bem? Se você é feliz? Se as pessoas que te rodeiam se importam?

Pedro disse que você poderia responder. Não só disse, me garantiu. Sendo assim, eu lhe imploro, por favor, dei-me notícias suas. Eu preciso saber.

Com todo amor de sua mãe,

Shelby Corcoran

Rachel olhou a foto e passou os dedos pelo contorno do rosto. Aquela era a mãe dela. Finalmente em quase 17 anos ela conhecia a figura que antes só imaginava. Secou as lágrimas nos olhos e respirou fundo. Procurou controlar todos os sentimentos que palpitavam em seu peito naquele instante. Sentou-se diante do computador e começou a escrever a resposta.

Querida Shelby.

Desculpe se ainda não consigo chamá-la de mãe. Ainda estou sob o efeito da emoção pela carta. Sim, eu a recebi sua mensagem e as duas fotos. Não posso dizer que conheço Pedro, mas posso imaginar a razão de ele ter te procurado. Realmente pertenço a um grupo que procura ajudar dentro do caos em que vivemos. Esse mesmo grupo tem caminhos pouco ortodoxos de lidar com a atual situação. Mas são bons caminhos e não aqueles impensados e desesperados em que papai infelizmente se envolveu.

Por favor, não me leve à mal, mas não me sinto à vontade para discutir os meus sentimentos em relação ao meu pai contigo. Você é a minha mãe, mas eu não te conheço e nem a senhora a mim.

Mesmo assim, eu fico feliz em saber que a senhora está estabelecida e com outra família. Confesso que não é fácil, mas entendo que precisou seguir adiante. Gostaria de conhecer o rosto de Beth. Será que poderia enviar uma foto dela quando recebe a minha resposta e tiver uma nova oportunidade de me enviar uma mensagem?

O que posso dizer ao meu respeito é que não tive uma vida fácil. Depois que meus pais foram condenados e assassinados pelo governo, fui encaminhada a um centro de acolhimento à criança e adolescente: um nome pomposo para orfanato. Passei quase um ano naquele lugar até ser acolhida por uma família. É com essas pessoas que convivo nos últimos cinco anos, quase seis. Tenho uma tutora que tem dois outros filhos. Um que tem a mesma idade que eu e uma garotinha de oito anos. Não formamos uma família perfeita, mas é um teto e comida na mesa.

Aqui eu estudo e faço bicos para ajudar na casa. E tenho essas pessoas especiais com quem convivo. Nós somos unidos por um ideal comum de resistir, mas com racionalidade, e tenho mais informação do que possa imaginar.

Talvez a minha carta-reposta tenha um tom amargo. Ou descrente. Ainda preciso avaliar o que é ter notícias suas. Não é fácil conciliar sua preocupação com o sentimento que cultivei ao seu respeito por uma vida inteira: de que você me abandonou.

Ainda assim, sinto essa emoção em saber de que está viva, de que está bem, e de que seguiu adiante. É o que pretendo fazer da minha vida: seguir adiante e encontrar a minha felicidade seja onde for.

Aguardo o seu retorno ansiosamente.

Rachel Berry.

Rachel foi até a máquina e triturou a carta que acabara de receber. Selecionou uma foto que tinha no telefone a imprimiu. Colocou a carta-resposta e a foto num envelope. Colocou o nome de Shelby Corcoran e a cidade no destinatário e o próprio como remetente. Endereço? País do Leste sublinhado três vezes. Uma coisa importante sobre o trabalho de correio dos botões é que o grupo que trabalhava apenas com isso sabia como fazer as coisas chegarem ao destino correto e de como esse tipo de trabalho era importante. Seja quem fosse Pedro, Rachel já o considerava um anjo da guarda que falava com botões. E talvez aquilo tivesse o dedo de Santana, mas não iria questionar a líder tão logo.

Pegou as fotos, colocou-as dentro do livro que trazia na mochila. Como não havia razão para ir embora da sede, fez o usual: aconchegou-se no largo sofá e demorou a conseguir dormir.