Foi difícil para Rachel começar os treinamentos junto a equipe de atletismo sentindo muitas dores pelo corpo após uma noite aventureira e tensa. Os tornozelos ardiam e ela precisou ir mais devagar do que sabia que poderia render. Por certo, não impressionou a treinadora. Competir não era o objetivo. Ganhar força física e adquirir disciplina para o exercício físico sim. E também convencer Santana a deixá-la participar mais das atividades dos botões. Ela sabia que a líder trabalhava no serviço dos círculos mais internos e ajudava nas tarefas de correio, que era considerado um dos mais importantes. Rachel não sabia dos detalhes, mas havia uma empresa internacional que fazia o trabalho e esta mesma era de propriedade de um botão. Assim, as correspondências chegavam junto com outros produtos de importação e eram despachados em todo país. Era simples em conceito, mas complexo em execução. Pelo menos era o que Santana dizia.

Rachel sabia do resultado. Receber uma correspondência de alguém com quem não podia estabelecer uma comunicação normal sem ser monitorado pelo governo era simplesmente inacreditável. Se alguém recebesse uma correspondência de uma pessoa marcada na lista de fugitivos e desertores do governo, poderia causar enormes problemas ao destinatário. Shelby era taxada como uma desertora, assim como milhares de outras pessoas. Se alguém nessas condições voltasse ao país pelas vias normais de migração, seria preso na hora. Por mais mágoa que tivesse de Shelby, a emoção por saber de notícias dela, por saber que tinha uma meia-irmã, foi muito importante. Assim como ela, centenas de famílias foram separadas quando as fronteiras com o Leste foram fechadas, e o direito de ir e vir relativizado.

"Assim você vai longe, Berry!" Rachel ouviu a voz de Santana pelas costas e mais risadas de outras garotas.

"Bela aquisição da equipe de atletismo. Agora é que a nossa escola nunca vai conseguir respeito." Quinn completou e Rachel virou-se para encarar o grupo. Brittany estava com ela e outras duas sem importância. "Tem algo a dizer, anã?"

"Só quero agradecer por essa incrível audiência. Se soubesse que o meu primeiro dia de treinamento atrairia fãs, teria entrado para o time há mais tempo. É uma honra ser assediada por filhas de parlamentares."

"Vigie essa sua boca." Quinn deu um passo a diante e ficou a frente do grupo. Rachel olhou para Santana, que estava atenta, mas sabia que a líder não faria nada para defendê-la. Pelo menos não em público.

"Não sou eu a insegura aqui, Quinn Fabray. Não sou eu que tenho a necessidade de se impor a quem é invisível nesta escola só para não se sentir tão miserável." Rachel não abaixava a cabeça. Nunca para Quinn, pelo menos.

Brittany levou a mão à boca. Quinn avançou em direção a Rachel, mas Santana segurou a amiga pelo braço.

"Você vai se comprometer na escola por causa de um lixo qualquer? Acho que não vale o esforço."

Rachel sabia que Santana só estava fazendo o papel dela de não ser relacionada a nenhum outro botão em público, como ela mesma havia determinado. Mesmo assim, doía saber que a pessoa que a orientava e se preocupava com ela, que era a líder dela dentro de um círculo entre dezenas de uma sociedade secreta, a destratava de forma tão cruel em público. O grupo virou as costas e saiu do gramado. Brittany permaneceu.

"Fiquei preocupada quando não te vi na escola ontem. Santana disse que você estava cansada demais porque precisou pregar um botão." Era uma gíria para qualquer atividade realizada dentro da sociedade. "Ela me garantiu que não era nada demais, mas eu posso sentir quando está mentindo."

"Não é Santana que tem um terceiro olho mexicano que capta essas coisas no ar?" Rachel sorriu levemente.

"Terceiro olho? Não... Consigo perceber na minha vagina quando algo não está certo."

"Ok..." Rachel permitiu-se rir um pouco. "Não foi nada demais mesmo, Britt. Eu recebi uma carta e passei a noite toda trabalhando na resposta. Então não consegui acordar a tempo e resolvi matar o resto das classes. Só isso."

"Por que você está mancando?"

"Porque eu fui limpar o meu quarto e deixei aquele livro gigante cair no meu pé."

"Oh!" Brittany não parecia tão convencida assim. "Santana colocou um botão branco nos nossos armários. O encontro será lá em casa depois do coral."

"Sabe do que se trata?"

"Não faço ideia. Mas vou preparar lanches. Espero que goste de sanduíches de atum."

Brittany sorriu e virou as costas. Rachel balançou a cabeça com um pequeno sorriso no rosto. Mesmo antes dos botões, mesmo quando Brittany já participava do círculo das populares por ser filha de político e dava algumas diretas pouco polidas a quem fosse, Rachel nunca conseguiu ficar brava com os insultos da amiga. Brittany era adorável e era humana demais para se detestar.

O dia passou lentamente. Culpa da rotina tediosa que havia se tornado aquela escola: o teatro do namoro com Kurt, as aulas monótonas, os testes, e o tal quadro de classificação em que Rachel se aproximava, mas nunca conseguia ficar entre aqueles que teriam passagem direta a uma universidade. Por vezes se distraía olhando a interação entre Finn e Quinn. Finn era um garoto bonito, um dos mais desejados na escola, por quem Rachel nutria uma paixonite. Porém, o máximo que ela conseguia chamar atenção dele era durante os ensaios do coral. Tudo porque, e ela não era modesta quanto a isso, Rachel era uma tremenda cantora.

Rachel pegou carona com Kurt até a casa de Brittany após a escola, mais ou menos na hora combinada. Como era de costume, precisaram esperar a dona da casa chegar em companhia de Santana: as duas tinham se aventurado em cima da moto naquele dia. Quando o círculo se reunia, tudo era diferente. Pessoas que não tinham a menor relação dentro da escola, de repente, se encontravam e formavam um grupo coeso e bem-humorado.

Brittany conduziu os amigos até uma espécie de sala de jogos, que ficava dentro da mansão. Era onde a turma gostava de ficar e conversar aproveitando o aconchego do espaço: sofá, uma mesa de bilhar, uma televisão grande para aproveitar filmes e o cobiçado videogame importado do Leste e que tinha venda proibida no país. A mãe de Brittany oferecia lanche e o grupo aproveitava cada segundo daquela mordomia, mas não antes de ouvir a razão principal da reunião.

Santana esperou a chegada de Matt, Blaine e Seban para completar o círculo. Blaine era um mecânico talentoso e raro era o aparelho eletrônico que não conseguia consertar. A especialidade de Seban era a computação e sistemas. Juntava-se com um ator nato (Kurt), uma pessoa leal (Matt), alguém capaz de proporcionar apoio logístico (Brittany), e uma sonhadora com um objetivo e ótima memória fotográfica (Rachel). Aos olhos de Santana, aquele era um dos melhores círculos que se podia contar.

"Ok, agradeço pelo comparecimento de todos os ilustres integrantes do nosso círculo." Santana foi à frente. "Tenho três coisas importantes a passar. A primeira diz respeito ao senhor Samuel Evans..."

"O que tem ele?" Rachel interrompeu ao ver o nome do bom amigo ser mencionado. "Nosso levantamento do perfil dele não foi bom? Ele fez alguma coisa que te fez pensar melhor?"

"Foi ótimo. Aliás, Seban fez um trabalho incrível ao levantar o dossiê dele, mesmo que isso tenha apenas duas folhas." Soltou uma gargalhada que foi apenas compartilhada com o hacker do grupo. O resto não entendeu a piada. "Enfim, precisamos aumentar o nosso grupo e Sam é um sujeito que se encaixa aqui: é atraente, sabe brigar, odeia o governo, e entende o que lê, diferente dos paquidermes semianalfabetos que estão sendo recrutados pelos marrons. Se passar no último teste, Sam estará conosco até a próxima semana."

A notícia era ótima para Matt e Rachel, os mais próximos de Sam no cotidiano comum.

"A segunda razão é que temos um trabalho em equipe para ser feito." Inseriu um pendrive no computador de Brittany e mostrou algumas fotos. "Existe uma célula de marrons mirins atuando em nossa escola, vocês sabem, esses futuros agentes que, por enquanto, são um bando de dedos duros. Precisamos ter cuidado com essas pessoas. Não sabemos quem faz parte do grupo marrom, mas sabemos que o pai de Mike é um recrutador. Vai haver uma festa na casa dele neste fim de semana e nós estaremos lá. Durante a festa, nós vamos ter que ter acesso ao computador e roubar esses dados." Mostrou uma planta de casa em 3D. "Essa é a casa do Mike. Ela tem algumas câmeras de segurança na área externa, mas não há relatos de câmeras dentro de casa. Durante a festa, Seban vai hackear as câmeras e desativá-las para que eu e Blaine possamos achar esses dados. Quando isso acontecer, preciso que Rachel, Brittany e Kurt fiquem atentos. Precisamos ser alertados se alguém entrar na casa, especialmente Mike."

"E quanto a mim?" Matt perguntou.

"Você dá cobertura a Seban e dirige o carro. Nós vamos dar o fora da festa assim que terminarmos. Vocês conhecem os sinais. Caso alguma coisa dê errado..."

"A gente não se mete e aguardamos o chamado de Sócrates." Repetiu Kurt. "Sabemos essa parte de cor, Li. Graças a Deus, nunca precisamos dele."

"Qual é a terceira coisa?" Matt perguntou.

"Aproveitar o game e se divertir pelo resto da tarde. Faz muito tempo que não fazemos uma festinha só nossa. Só para relaxar um pouco."

Gritinhos e urros de aprovação e excitação tomaram conta da sala. Era bom quando Santana reunia o círculo para passar um tempo juntos antes de enfrentarem tempos mais complicados. Seban e Matt eram os mais entusiasmados com o desafio de videogame. As meninas e Kurt referiam ouvir música e conversar. Kurt era um ator nato, e com tal habilidade ele podia encarar uma persona diferente na escola: um adolescente heterossexual que namorava uma garota comum: e fazia o teatro muito bem ao lado de Rachel. Mas ali, com os botões, ele podia ser ele mesmo: o garoto gay que gostava de fofocar, de olhar revistas de moda, de amar Blaine e nutria o desejo de, um dia, poder sair com o namorado tranquilamente pelas ruas sem o risco de ser delatado e preso durante um a três anos por "atentado ao pudor". Os botões não se importavam com isso.

"Rachel..." Santana falou em particular quando Brittany e Kurt estavam ocupados dançando pela sala. "Você fez um bom trabalho. Foi estupidez sua ir à sede na segunda-feira, mas você se saiu muito bem. Não é todo mundo que tem a coragem de dar aquele pulo. Eu mesma quase me borrei na minha primeira vez."

"Quando você precisou fazer isso?"

"Eu treino de maneira diferente, você sabe disso."

"Bom... adrenalina e o medo ajudaram bastante. Obrigada por estar lá comigo... de certa forma."

"Rachel..." Santana a encarou nos olhos com uma certeza e no segundo seguinte mudou de ideia e decidiu manter para si. Disse outra coisa para não deixar a menina da expectativa. "Continue no atletismo! Vai ser bom para você ganhar agilidade e resistência. Um dia você pode precisar."

"Ok!"

Brittany puxou Rachel para a dança e depois fez o mesmo com Santana. Não demorou muito para Blaine e Matt também se divertirem, deixando o sempre compenetrado Seban concentrado no jogo. Quando mesmo se esperou, Santana fez um movimento ousado e beijou Brittany. Todos sabiam que as duas eram mais que amigas, mas demonstrações de afeição em "público" não era algo usual e por isso os demais botões aplaudiram e cumprimentaram o casal secreto. Rachel assistia tudo num misto de felicidade e melancolia. Gostaria de um amor para si, mas não sabia se isso poderia ser possível. Não quando tinha planos para sair.

...

Era a primeira vez que Rachel pisava na casa de Mike para uma festa. Apesar de os dois serem parceiros ocasionais no trabalho nas festas dos ricos da cidade, um nunca frequentou a casa do outro. Rachel também não foi exatamente convidada para estar ali (Kurt foi). Bom, a metade das pessoas ali não foi. Estava ali basicamente o pessoal do último ano escolar, seus respectivos namorados e namoradas, e alguns outros garotos mais jovens. Seria nada de especial se a vida secreta de certas pessoas não fosse tão diferente da maioria que gozava uma vida ordinária. Rachel chegou de mãos dadas com Kurt entre sorrisos e cumprimentos.

"Assustador, não?" Kurt apertou a mão dela enquanto os dois procuravam pelos outros botões.

"Vamos nos concentrar em nossa missão e ficaremos bem." Repetiu mais para si mesma do que para o falso namorado.

"Quer reconsiderar alguma coisa do combinado?"

Os dois tinham estabelecido que iriam se beijar com um pouco mais de entusiasmo e que Kurt desceria um pouco mais as mãos como jogo de cena. Eles estavam numa festa, não na escola, e aquilo requeria algumas adaptações na encenação para que ficasse mais convincente. Afinal, havia boatos nunca confirmados e nem negados, espalhados por Puck, de que os dois faziam sexo. Tudo isso beneficiava o disfarce. Kurt, de fato, era sexualmente ativo. Só nunca tinha chegado perto de uma mulher. Rachel, por outro lado, era virgem. Mas ela não se incomodava das outras pessoas imaginarem o contrário.

"A Santana está logo ali junto com a turma da Quinn, e com Blaine a tiracolo."

Sinal de que a equipe a circular pela festa estava completa. A tarefa de Rachel, Kurt e Brittany era de observar e, se possível, manter personagens chaves longe da casa. Não era um poder de fogo que Rachel possuía, mas Kurt e Brittany eram muito hábeis. O falso casal de namorados se beijou e se separou. Rachel foi falar com Sam e o cumprimentou com um beijo no rosto. Gostava muito do amigo e achava estranho saber o que o futuro reservava, mas não poderia conversar a respeito.

"Não esperava encontrar você por aqui." Rachel comentou. "Achei que não gostasse muito de festas."

"Não gosto de servir em festas." Sam sorriu. "Mas não tenho nada contra em ir a festas como convidado."

"Bom, faz todo sentido."

"Onde o seu digníssimo está?"

"Falando com alguns amigos."

"Ele não deveria te deixar sozinha."

"Não estou sozinha." Sorriu para o amigo.

"Não está mais. Por falar nisso, acho que avistei alguns dos nossos logo ali."

Apontou em direção a alguns colegas mais próximos, incluindo Tina, Artie e Mercedes: todos não-botões, mas que Rachel adorava jogar conversa fora sempre que tinha oportunidade.

"Gente!" Tina acenou. "Não acredito que ela veio! Mas Rach, querida, sua companhia não deveria ser outra? Apesar de achar que Samchel forma um casal muito melhor do que Kurtchel."

Rachel revirou os olhos. Detestava esses apelidos de casal que juntavam um nome com o outro. Infelizmente era moda epidêmica e ela podia fazer nada a respeito.

"Acho que isso não é da sua conta, Tina." Sam respondeu com um leve corar. Às vezes era difícil para a repórter do jornal de fofocas da escola conter a língua.

"Achei que Puck vinha contigo." Artie olhou ao redor sem encontrar o melhor amigo que tinha na escola.

"Ele vem daqui a pouco. Disse que ia passar na casa de uma tal de Rebeca antes."

"Quem é Rebeca?" Mercedes ficou curiosa: ela tinha uma queda pelo adolescente mulherengo.

"Aparentemente a mãe de alguém." Rachel revirou os olhos.

"Onde estão os outros?" Sam olhou ao redor na esperança de ver mais amigos.

"Dos nossos, mais ninguém veio até agora. Mas há fofocas interessantes. Eu vi Quinn discutindo com Finn mais cedo na festa. Santana está circulando com aquele garoto... esqueci o nome dele... aquele do cabelo cheio de gel que dizem ser o namorado dela. Não sabia que ela gostava de nerds. Ei, olha só o Puck!"

O grupo olhou para trás e viu o quase-irmão acompanhado de uma negra muito bonita. Rachel lamentou pela menina, assim como fazia com todas as outras, sabendo que ela não passaria de uma transa nas mãos dele.

Depois de se divertir um pouco conversando com os amigos, Santana passou por Rachel e fez um aceno discreto. A ação iria começar. As luzes do quintal da casa piscaram e houve um momentâneo blecaute. Nada além de alguns segundos. Era o suficiente para causar distração e, ao mesmo tempo, não fazer com que o problema fosse levado a sério. Mas essa foi a oportunidade em que Santana e Blaine usaram para entrar na casa sem serem notados. Rachel passou a ficar com os olhos atentos em todos os presentes que continuaram a se divertir entre bebidas, dança e o habitual jogo de sedução entre jovens.

Enquanto Santana e Blaine vasculhavam a casa, Rachel encontrou Finn andando em direção à porta de acesso. Precisou agir rápido e o abordou num ato de coragem que não teria normalmente. Sorriu para o jovem alto.

"Olá Finn. Legal te ver na festa do Mike."

"Oi Rachel. É... Mike é um cara legal."

"Legal ver que o glee club prestigiou em peso. Parece que Mike vai promover uma sessão de karaokê, pela movimentação do sujeito do som. Se realmente tiver, que tal um dueto?"

"Seria legal, Rachel. Mas acho que já fazemos bons duetos nos ensaios. Como capitães, nós deveríamos dar esses espaços aos outros."

Rachel franziu a testa sem conseguir entender a lógica. Não é que o coral se exibisse na escola ou que eles fossem astros locais, ou mesmo que a equipe fosse popular. Finn era um astro local, mas só porque ele era o capitão do time de futebol, não porque ele cantava. De qualquer forma, Rachel decidiu aceitar a justificativa.

"Onde está Kurt?" Finn perguntou.

"Por aí. Dançando com as meninas, talvez. Onde está Quinn?"

"Não sei... acho que deve estar conversando com Santana e as outras meninas."

"Parece que fomos abandonados pelos nossos respectivos."

"Não é tão mal."

Enquanto isso, dentro da casa, Santana e Blaine encontraram um lugar vazio e puderam circular em paz, apesar do alerta. Com lanternas e luvas em mãos, Bruno entrou no quarto de Mike e vasculhou tudo com o máximo de cuidado para não levantar suspeitas. Santana foi em outra direção, não ao quarto, mas ao que era um cômodo trancado. Ela não teria problemas em abrir aquela porta porque sabia que Seban, lá fora, tinha conseguido hackear e cortar o sistema de câmera e alarme da casa temporariamente. Tudo que Santana precisava era de algumas ferramentas que trazia na bolsa. Levou menos de cinco minutos para conseguir destravar a porta e deparou-se com um escritório. Sorriu ao encontrar a mina de ouro.

Diferente do censo comum, Santana procurava ter calma no reconhecimento do terreno. Antes de abrir qualquer gaveta, vasculhava primeiro por qualquer dispositivo de segurança que pudesse existir, como uma câmera extra ou um sensor. Depois inspecionava as paredes, atrás dos quadros, para ver a existência de cofres ou armários falsos. De fato, existia um cofre atrás do quadro, o que fez Santana revirar os olhos pelo clichê. Mas não preocuparia com ele ainda. Continuou sua inspeção na estante e, finalmente, na escrivaninha. Não encontrou um computador, mas achou alguns documentos interessantes e um pendrive.

"Águia 1 para ninho." Disse enquanto fotografava documentos e copiava arquivos.

"Ninho na escuta."

"Há um cofre aqui. Ele está conectado ao sistema?"

"Dois minutos." Santana continuou o trabalho silencioso. Blaine entrou no escritório, mas ela sinalizou para que ele ficasse em alerta do lado de fora. "Ninho para águia 1, o cofre estava conectado ao sistema de alarmes da casa. Já foi cortado. Pode trabalhar na senha."

Santana pegou um aparelho, colocou no cofre. Rapidamente a tela indicou seis números, que logo foram digitados. No cofre havia dinheiro, algumas joias, documentos e mais um pendrive. Santana não queria saber do dinheiro e nem das joias. Fotografou documentos e copiou o pendrive. Satisfeita, fechou o cofre, arrumou suas coisas e saiu do escritório, o trancando de volta. Missão cumprida. Procuraram sair da casa da mesma forma em que entraram: sem serem notados.

De volta à festa, Santana e Blaine se reuniram ao grupo usual de amigos. Estavam de mãos dadas, sorrindo, como um casal que acabasse de ter tido relações. Dali, acenaram, como quem tivesse planos de repetir a dose em algum lugar privado. Um comportamento que deixou Quinn apta a destilar comentários venenosos, mas Santana pouco se importava. Brittany foi pegar uma bebida e passou por Rachel, dando-lhe um sinal. A rigor, Santana e Blaine sairiam da festa naquele instante, mas não queria dizer que os outros tivessem a obrigação de segui-los de imediato. Mas os sinais eram fundamentais para avisar que a missão havia acabado. Rachel tinha mais nada a fazer na festa. Ela não estava se divertindo, de qualquer forma, apesar da conversa com Finn.

"Não vai querer um refrigerante?" Finn perguntou

"Não gosto."

"Não posso sair por 30 segundos e você já vem dar em cima do meu homem." Quinn surpreendeu os dois e logo segurou o braço do namorado.

"Só estávamos conversando." Rachel falou com estranha humildade.

"Que vá conversar com teu homem. Se é que tem algo legítimo nessa história."

"O que quer dizer?" Rachel ruborizou.

"Não vai me dizer que não acha seu namoradinho é meio afeminado?"

"Kurt é sofisticado. Tem grande conhecimento de etiqueta, gosta de coisas refinadas. Não é um lenhador rude." Finn arregalou os olhos e reparou nas próprias roupas. Flanela era igual a lenhador. A simbologia era clara. Sentiu-se atingido. Rachel não reparou no desconforto do amigo. Estava ocupada demais encarando Quinn de frente. "E para o seu governo, Kurt é muito homem." Aproximou-se como se quisesse falar em particular, porém nem tanto. "Eu posso garantir que ele é a mais pura verdade!"

Finn sentiu-se enojado com a conversa. Libertou-se de Quinn e saiu de perto das duas inimigas. Rachel viu que tinha exagerado na defesa. Ao menos deixou Quinn vermelha e com raiva.

"Você pensa que é esperta, não é mesmo anã? Que é superior porque suporta as provocações na escola, ou porque tem um namorado... como você diz... sofisticado."

"Talvez eu seja mesmo. Talvez eu seja superior não pelas coisas que você enumerou, embora eu tenha muito orgulho delas. Talvez me sinta assim por ter um futuro aberto na minha frente. Posso ser o que quiser. Ao passo que você ficará eternamente presa a essa vidinha traçada pelo seu pai."

"Ao menos eu tenho um." Quinn lutava para não chorar em frente à inimiga.

"Eu teria um também... se o seu pai não tivesse assinado a sentença de morte do meu só porque ele tinha opiniões próprias."

"Seu pai era um depravado."

"E o seu mandou matar várias pessoas inocentes porque tinham opiniões diferentes. Qual é o pior? Eu prefiro mil vezes conviver sob o mesmo teto com um homem considerado depravado porque ama outro homem, até porque eu sei que não há nada de errado nisso, do que conviver com um burocrata assassino."

Quinn aproximou-se da menina menor de forma perigosa, deixando seus rostos a centímetros de distância. Rachel podia sentir a respiração e o calor da menina rica, a ponto de sentir um leve arrepio em sua coluna. Mas ela não ligou para as reações do próprio corpo: tudo que fazia era continuar encarando de frente a adversária, sem abaixar os olhos nem por um segundo que fosse. Se Quinn cotidianamente já tentava rebaixá-la a todo custo mesmo com Rachel sempre se defendendo, imagine o que não seria capaz de fazer caso a botão tivesse uma postura de submissão?

"Tenha cuidado com suas palavras, Berry. Ouça esse conselho que lhe dou de graça: cuidado com suas opiniões e suas acusações infundadas. Suas palavras podem se voltar contra você."

"Eu não tenho medo de você, Fabray. Quer me denunciar? Quer me ver presa? Faça isso!"

Quinn afastou-se e sorriu irônica.

"E perder o meu saco de pancadas? Não, Berry! Ainda temos o resto do ano para eu ter o prazer de pisar em você antes de te ver na cadeia."

"É o que você pensa que vai acontecer?"

"Eu tenho certeza." E se aproximou mais uma vez. "Você sabe o que os agentes fazem com garotinhas como você na cadeia?"

"É isso que você quer que aconteça, Fabray? Que eu seja estuprada sistematicamente na cadeia?"

O questionamento surpreendeu Quinn, que se afastou mais uma vez. Suas feições também mudaram, como se tivesse ojeriza de uma ideia que nunca havia de fato passado por sua mente. Disse aquilo como mais uma ameaça vazia, mas percebeu que aquilo poderia se tornar uma realidade: que abusos na prisão eram rotina para muitas das presas, em especial para as políticas. Ela desejava isso a colega? Quinn tinha muita raiva dentro de si, e tentava lidar com isso, por vezes, de formas pouco nobres ou saudáveis. Mas essa era uma raiva que não sentia em relação a Rachel, e a violação do corpo era uma experiência que não desejaria a ninguém.

Assim que Rachel viu o recuo da colega, virou as costas para ela. Caminhou em direção à saída da casa e ligou para Kurt. O falso namorado se encontroou com ela e os dois botões saíram juntos da festa.