Quando o círculo de botões se reuniu três dias depois na casa de Brittany, Santana já arrumava o local para a conversa séria que teria com o grupo. Como se tivesse planejado fazer uma palestra: imprimiu algumas folhas para distribuir e preparou o computador. Como de costume, esperou todos os integrantes chegarem antes de falar o assunto mais importante. Numa rara ocasião, Rachel chegou atrasada porque ficou presa na classe de ensino técnico destinada principalmente aos alunos que provavelmente não entrariam numa faculdade. O sistema de seleção para o ensino superior era muito claro. Os alunos do quadro de honra, como era o caso de Quinn Fabray, tinham ingresso garantido. Os demais precisavam fazer o vestibular com as vagas que restavam, e esse processo era muito difícil porque eram poucas as universidades no país. Se o aluno não pertencesse ao quadro de honra ou não tivesse um pai rico o bastante, era melhor se garantir escolhendo na grade curricular matérias do ensino técnico. Obviamente, nenhuma matéria técnica envolvia música e artes em geral. Rachel sentou-se ao lado de Seban e procurou esconder as frustrações do dia.

"Obrigada pessoal." Santana começou. "Mais uma vez fomos muito bem-sucedidos. Conseguimos encontrar os arquivos que procurávamos e isso nos dará grande vantagem."

Santana não disse que encontrou mais informações do que o círculo poderia imaginar, mas essas eram compartimentalizadas e destinadas a círculos superiores dos Botões. Não que a omissão fosse grave: é que aqueles assuntos não diziam respeito ao círculo que gravitava numa órbita tão externa em relação ao centro da organização secreta.

"Nesta lista estão os nomes dos alunos de nossa escola que fazem parte do grupo dos marrons e dedos-duros. Os que estão sublinhados são aqueles que possivelmente vão entrar para academia para formação de agentes."

"San..." Rachel interrompeu. "Por que você colocou o nome do Puck aqui?" A resposta era óbvia, mas ela não queria acreditar.

"Sinto muito." A líder disse. "Sinto muito que Puck seja um camisa-marrom disfarçado. Mas você deve encarar as coisas de frente. O fato é que Puck faz parte desse sistema que combatemos. Não se pode confiar nele nem por um segundo."

"E o que faremos?" Kurt perguntou.

"Nosso trabalho, neste caso, já foi feito. O que temos de fazer agora é continuar agindo normalmente. A diferença é que agora sabemos quem não podemos confiar de forma alguma. Pessoal, as conseqüências podem ser muito graves caso a gente deixe transparecer frustrações na frente dessas pessoas. É como uma roleta-russa."

"Só não entendo como gente como Quinn e Finn não estão na lista." Matt observou. Quinn era um nome que poderia ser óbvio uma vez que ela era filha de um parlamentar da ala mais conservadora e fascista do partido. O pai de Finn foi morto em combate em prol do golpe e era também natural que ele simpatizasse com o regime em que o pai defendeu. Pelo menos era o que todos, menos Rachel, poderiam pensar.

"Da mesma forma que o pai da Brittany é um parlamentar membro do partido central, mas também é um Botão." Santana respondeu. "As coisas são mais complexas que posições hereditárias, por assim dizer. Finn nada tem a ver com as atividades do pai, mas não quer dizer que devemos confiar nele, até por ser um idiota. Quinn... ela é complicada."

"Finn não é um idiota!" Rachel protestou.

"Desculpe Rachel. Todo mundo sabe sobre a sua paixonite gritante por aquele gigante imbecil, mas não é porque ele é aparentemente inofensivo que devamos confiar. Finn pode até ser um bom garoto, mas ele não tem um perfil adequado, não tem motivações. Além disso, é um completo idiota inseguro com o desejo de liderança que ele não tem, iludido com o talento que ele não possui, sem falar que é um baita mimado e tende ao destempero. As cadeiras que o digam."

"É do meu irmão que você está falando, Santana." Kurt bronqueou.

"É mesmo?" Santana mantinha a calma, mas não aliviava o tom seco. "Então você confiaria a Finn o segredo de que namora Blaine?"

"Eu... eu..." Kurt ainda tentou ensaiar. Conhecendo bem o irmão de consideração, uma vez que o seu pai era casado com a mãe de Finn, e sabia do fundo do coração do bom caráter dele. Mas Santana tinha um ponto, por mais duro que suas palavras fossem: Finn era realmente minado, infantil e tendia a estourar as próprias frustrações em momentos inoportunos.

"Pessoal." Santana voltou-se novamente para o grupo. "Estudem esses nomes, mas muito cuidado com a lista. Ela é para nos proteger, mas vocês precisam rasgá-la o quanto antes para não correrem riscos. Acho que não preciso lembrar isso a vocês."

Ao voltar para casa, Rachel tentou convencer a si mesma de que conseguiria continuar a agir normalmente diante do irmão de consideração. Ela cumprimentou as mulheres da casa e reparou numa revista em cima da mesa. Era uma publicação oficial semanal que basicamente falava de todas as "maravilhas" da administração e nos esforços do governo em manter o país "limpo". De quê, não se sabe. Talvez aquela revista já tenha circulado pela casa há dias sem que Rachel tivesse reparado, afinal, era uma publicação que circulava livremente. Ela folheou algumas páginas: nada mais do que um retrato da ilha da fantasia. Era só propaganda, mas Rachel entendeu que naquela casa havia gente que acreditava naquilo, o que era muito triste. O governo tinha a comunicação nas mãos, tal como a imprensa. Ninguém publicaria verdades só para ser preso no outro dia. O medo imperava e a propaganda fascista circulava sem oposições.

Puck chegou. Sorriu para as mulheres da casa e foi direto para o quarto. Quando retornou, sentou-se no sofá e assistiu um pouco de televisão. Era o mesmo Puck de sempre, que falava besteiras sexistas. Rachel um dia chegou a pensar que poderia confiar nele. Sentiu vontade de chorar ao se ver diante da realidade.

...

Sam olhou pela centésima vez para o pacote fechado. Uma garotinha entregou há uma semana e quando abriu o primeiro embrulho, encontrou um segundo pacote além de uma carta com instruções específicas. Não poderia abrir aquele pacote, não poderia abri-lo, não poderia mostrá-lo ou comentar a respeito dele com absolutamente ninguém. Tratava-se de um objeto perigoso que, caso alguém encontrasse, poderia levá-lo à cadeia. Mas nessa carta também havia algumas opções. Uma era de que Sam poderia entregar o pacote aos agentes e ajudar o governo a desmascarar uma rede de opositores. A alternativa era entregar tal pacote em uma data, hora e lugar específicos. Alguém tentaria comprá-lo de alguma forma.

Sam guardou o pacote. Tinha perfeita consciência de que o material que guardava era perigoso, que poderia levá-lo a cadeia. Mesmo assim resolveu correr riscos porque ele queria que todo aquele cenário político explodisse.

Estava sentado na cama do pequeno quarto que dividia com os outros dois irmãos. Não havia muita privacidade por ali, mas Sam não se importava. Passou a mão pelos cabelos longos: precisava de um corte urgente, mas tinha preguiça de cuidar melhor da aparência. Deixaria estética para depois. Pegou o pacote no fundo da gaveta que ocupava e o colocou na mochila. Rezou para que tudo desse certo. Despediu-se do irmão menor, deu um beijo no rosto da mãe e saiu na velha lambreta que custou uma jovem vida em economias.

Não precisava ler o bilhete mais uma vez para saber onde deveria ir. O centro administrativo da pequena cidade era um lugar vigiado. Havia dezenas de policiais e agentes circulando por ali e Sam não imaginava porque alguém o mandaria para aquele lugar para fazer um ato de subversão. Por outro lado, estava excitado, queria pagar para ver. Não que fosse um rebelde – bom, na verdade ele era um pouco –, mas era mais um que estava cansado e que tinha apertado o botão do foda-se. Tinha medo, claro, mas se fosse para ser preso ali por uma promessa de alguém sobre uma vida com algum sentido, então que fosse.

A praça era o único lugar com alguma atração para turismo cívico. Não que alguém pagasse uma viagem para conhecer aquela pequena cidade quando se tinha uma metrópole para se conhecer, que era a capital do país. De qualquer maneira, as pessoas gostavam de circular por ali por ser um ambiente supostamente seguro e aberto, além disso, era onde estava a única agência bancária da cidade. Conforme o combinado, Sam sentou-se num banco da praça e esperou com o material supostamente subversivo dentro da mochila. Não podia evitar, mas a sensação de estar cometendo um ato ilícito e perigoso bem em frente ao palácio do parlamento era muito atraente. Sentou e esperou.

Algumas pessoas sentaram ali rapidamente, mas nenhuma dirigiu-lhe a palavra. Isso o deixava mais e mais ansioso. Seja quem fosse abordá-lo, estava atrasado quase 20 minutos, mas ele permaneceu sentado. Até que um rosto conhecido sentou ao seu lado. Todo mundo da escola conhecia Santana: além de uma das capangas de Quinn, era famosa pela língua afiada e por ser uma atleta da escola. Mas Sam nunca teve nenhum laço de amizade com a garota, convivia com ela só por causa do coral, e a achava arrogante. De qualquer forma, estranhou que alguém da escola com que ele mal conversava estivesse sentado justo ali, naquele banco público, no dia em que ele estava louco para conhecer a pessoa que ele confiaria o pacote perigoso.

"Não sabia que perdedores como você gostavam de apreciar pombos numa praça pública." Santana disse com o usual veneno na voz.

"Não sabia que vencedores como você gostavam de perder tempo com perdedores num banco de praça pública. Deve ser algum fetiche."

Santana sorriu com a resposta. Gostava de pessoas com brio.

"Às vezes eu gosto de perder tempo."

"Que bom."

Santana permaneceu ao lado do rapaz, testando a paciência dele, sem descuidar do ambiente ao redor.

"Você deseja alguma coisa?" Sam perguntou incomodado com a presença prolongada da garota.

"Talvez."

"O quê, por exemplo?"

"Às vezes gosto de sentar aqui, conversar com pessoas e até trocar objetos." Levou a mão até o bolso da jaqueta e tirou de lá um botão azul. Sam arregalou os olhos e ficou incrédulo de que o contato dele fosse justo Santana. "Você gostaria de trocar alguma coisa por este botão?"

O jovem pegou a mochila e, trêmulo, com medo de errar, retirou o pacote embrulhado. Então ofereceu à outra.

"A-acho que isso pertence a você." Disse inseguro. Santana olhou para o pacote e sorriu.

"Não, isso pertence a você. Abra!"

"Aqui? Mas..."

"Se você quer realmente conhecer outro mundo e pessoas que se importam: abra."

Sam encarou a jovem e franziu a testa. De qualquer forma, abriu o pacote como lhe foi sugerido, mas secretamente sentia o temor de ali ter algo que o levasse preso. O coração estava disparado, a boca seca, mas ele continuou mesmo assim porque queria saber. Ao ver o conteúdo, franziu mais uma vez a testa. Não era possível.

"Isso aqui é o livro sagrado do regime." Começou a folhear, imaginando que a capa fosse falsa para disfarçar o conteúdo subversivo. Santana sorriu ao ver a perplexidade do jovem.

"Você já leu?"

"Partes... não me interesso por isso."

"Pois é: esse é o seu erro. Claro que ele não é apenas seu, mas da maior parte da população. Muitas vezes as pessoas se deixam levar por resumos, por palavras de ordens e mensagens utópicas. Esse livro tem muito disso, sabe? Palavras de ordem, paisagens utópicas, ideologia, inimigos declarados e até alguma poesia. As pessoas escolhem por acreditar nisso, sem necessariamente questionarem as contradições que existem no próprio texto. Nem mesmo questionam a forma como essas ideologias são aplicadas no mundo real. É mais fácil e simples seguir uma palavra de ordem, um discurso empolgante sem ao menos pensar o que há por de trás daquelas palavras: e elas são reveladoras. Mas a realidade do mundo não é maniqueísta. Não é tão simples. A partir do momento que você lê o livro que tenta te doutrinar, identifica nele contradições e passa a fazer perguntas cujas respostas não estão aqui dentro, bom, você tem um belo começo."

"Eles me prometeram a liberdade, Santana. O que é isso?"

"A instrução é o início da conquista dessa liberdade. É o que eles não querem porque é mais fácil manobrar uma população doutrinada e que não questiona, por isso proíbem certos livros e fazem listas negras de gente perigosa ao regime. Mas um botão não é um peão de manobra, entende? Um botão conhece e pensa por si. E quando você pensa por si, você é livre."

"Um botão?"

"Esse botão azul é um convite a uma alternativa: uma que precisa ser mantida em segredo: algo em que você é bom em fazer. Aceitar esse botão também vai te permitir conhecer pessoas que não são conformadas e você verá que não está sozinho."

"Aceitar um botão... de graça?"

"Não é de graça. Aceitar o botão azul significa que você vai precisar doar seu suor a uma causa quando for solicitado. Mas você vai defender uma causa sabendo exatamente porque é preciso lutar por ela. Não minto que é um caminho extremamente perigoso. A questão é: você topa mudar a sua vida para sempre?"

"Tudo que eu tenho que fazer é aceitar o botão azul?"

"Basicamente."

Sam pegou o botão e o colocou no bolso da calça. Santana acenou e o convidou para conhecer algumas pessoas: o círculo em que seria incluso.