"Eu não sabia que a gente fazia esse tipo de coisa." Sam franziu a testa, em especial quando os outros botões do círculo começaram a sorrir.
"Você acha mesmo que entrou para a sociedade para fazer nada?" Matt desdenhou. Estava em pé ao lado de Santana numa postura clara de que havia se tornado o segundo no comando.
"Não, mas... isso não seria serviço de entregadores ou algo do tipo?" Sam olhou mais uma vez para os cinco convites que tinha em mãos.
"Sam..." Rachel deu um tapa de leve na cabeça do amigo. "Nós somos os entregadores! Os botões mais rasos do sistema."
"Então por que Brittany não está conosco?"
"Ela confunde os endereços e é capaz de se perder na cidade." Santana disse simples e séria. "Como sempre, os endereços foram distribuídos de acordo com a proximidade da casa de cada um, assim não fica pesado. O esquema é o mesmo: nada de caixas de correios. A encomenda é entregue em mãos, de preferência diretamente ao dono do convite. Alguma dúvida?" Olhou para os comandados. Todos pareciam tranqüilos, visto que não era a primeira vez. Sam ainda parecia ter dúvidas, o que era a natural sendo a primeira vez do rapaz. Santana era experiente o bastante para perceber essas nuances nos olhos do rapaz, mas não iria dar qualquer atenção especial, por isso deixou as coisas fluírem. "No mais, assim que completarem, mensagem!" Balançou o celular.
O grupo foi se dispersando aos poucos. Blaine e Kurt se beijaram rapidamente antes de saírem para executar a tarefa. Sam foi conversar com Santana e voltou com o capacete extra em mãos, então o entregou pra Rachel.
"Você é a única que está à pé."
"Não precisa, Sam..."
"Deixa de bobagem. A gente vai mais rápido assim."
"Nesse caso, sou eu quem irá mais rápido. Você terá é trabalho extra." Ela lutou para não sorrir diante da gentileza.
"Isso é comigo." Ele sorriu e depois franziu a testa. "Sempre teremos de fazer entregas como esses convites ou coisas mais sérias?"
"Entregas de convites é coisa corriqueira. Isso aqui deve ser só mais uma dessas recepções em que os botões graúdos celebram ao mesmo tempo em que conspiram com um copo de whisky em mãos. Agora quando temos uma missão mais séria, aí tudo é diferente."
"Como o quê, por exemplo?"
"Naquela festa na casa do Mike? Lembra daquele breve apagão?"
"Não lembro direito... acho que não prestei tanta atenção ou dei importância. O que foi?"
"Sabe aquela lista que Santana te deu sobre os dedos-duros?" Sam acenou. Ele ficou chocado quando soube que Puck era um deles. "Ela conseguiu essa lista quando invadiu o escritório do pai do Mike, que é um aliciador. Seban cortou a energia e hackeou as câmeras de segurança. Santana invadiu o escritório com o apoio de Blaine e o resto de nós ficou atento a movimentação na festa."
"Sério?" Rachel acenou com convicção.
"E teve aquela vez que precisamos resgatar um dos nossos e invadimos um cativeiro com balas até nos dentes." Desta vez, Sam arregalou os olhos e Rachel disparou a rir com a expressão perplexa.
"Você está mentindo!"
"Mas a missão de resgate existiu." Rachel sorriu. "Kurt e Blaine saíram num fim de semana para namorar em paz na cabana de verão do sr. Anderson. Só que o pai dele apareceu por lá e Blaine disse que estaria com a namorada. Kurt precisou ficar escondido enquanto Santana e Matt correram para lá. Blaine fez todo o possível para enrolar o pai dele até Santana aparecer toda sorridente, posando de namorada, enquanto Matt tirava Kurt de lá. Deve ter sido hilário porque Matt se rola de rir toda vez que lembra dessa história. Desde então, Santana precisa ir na casa dos Anderson de vez em quando para ser a beard de Blaine."
"Essa foi boa, mas eu não imagino você convivendo com esse tipo de perigo."
"Nem é tanto assim. Acredite em mim. Se esses convites tivessem algo comprometedor, seriam entregues de outra forma. Ninguém trabalha em algo que não conseguiria fazer."
Rachel vestiu o capacete e deu um tapa de leve no ombro do colega. Ela carregaria a mochila com os convites e ele dirigiria. Quando pararam na primeira casa, Rachel fez questão para que Sam fosse até a porta entregar o convite. Quem atendeu foi uma mulher não muito simpática. Identificou-se como irmã do nome pronunciado e recolheu a carta. Isso deixou Sam ansioso, com medo da moça não cumprir com a palavra. Rachel tratou de tranqüilizá-lo. Não era uma regra, mas em geral as famílias eram ignorantes das atividades subversivas dos integrantes dos Botões. Muitos deles moravam sozinhos, inclusive. A família Pierce, em que três dos quatro integrantes pertenciam à sociedade, era uma raridade. Por isso Rachel aconselhou o amigo a relaxar. Era um convite de um mero evento social e para uma pessoa de idade não entregar a carta ao dono, só mesmo estando muito amargurada. E faria, no máximo, o dono do convite perder uma festa.
Sam e Rachel decidiram por alternar as entregas na hora de ir até a porta. Estavam achando divertido fazer a atividade na companhia um do outro. Sam começou a formular pequenos comentários engraçados sobre as pessoas ou algum detalhe diferente que ele via dentro da casa. Rachel, competitiva como era, passou a fazer verdadeiras teorias.
"Eu juro que aquele moço freqüenta o brechó em que Kurt vende as roupas mais velhas. Aquele casaco xadrez marrom com gola de tecido liso era uma peça exclusiva que pertencia ao guarda-roupa de Kurt, disso eu tenho certeza." Rachel gesticulava como se tivesse dizendo algo extraordinário.
"E você por um acaso conhece o guarda-roupa de Kurt?"
"Está brincando? Quando a gente começou essa nossa encenação, ele me chamou para ir a casa dele e passou duas horas tentando me convencer a trocar o meu vestuário. Só que em vez de mostrar como outras roupas ficariam em mim, ele preferiu dizer como as minhas não combinavam com as dele."
"Não combinam mesmo. Até eu que não ligo para isso, percebo." Sam gargalhou antes de empurrar o capacete cabeça abaixo. Rachel não gostou da insinuação. Resmungou e colocou o capacete. Depois, balançou a cabeça, levando tudo na esportiva.
Faltavam três convites e os dois já avançavam na área residencial dos Puckerman quando uma patrulha fechou a mobilete e os forçou a frear. Os corações dos dois adolescentes dispararam, mas Rachel procurou manter um pouco mais de calma. Ela já tinha vivenciado coisas piores, afinal.
"O que vocês estão entregando? O agente um cuspiu a pergunta.
"São apenas convites, senhor!" Rachel disse em tom baixo, cauteloso e procurou tirar a mochila das costas em movimentos lentos.
"Convites de quê?" O agente dois arrancou a mochila das costas da menina. Abriu o zíper com brutalidade e jogou o conteúdo no chão.
"Isso é realmente necessário?" Sam levou um tapa de advertência no rosto do agente dois, que naquela altura parecia ser o mais afetado.
"Fica caladinho aí, meu irmão. Os dois saiam da moto e se afastem." Cuspiu de novo o agente um.
Rachel e Sam deixaram os cacetes no chão e se afastaram três passos enquanto observavam perplexos os agentes vasculharem o conteúdo. O agente dois abriu um dos convites, leu, achou nada de interessante. Dizia ali que só se tratava de um jantar beneficente para celebrar um aniversário.
"Esse senhor Morris não podia entregar convites pelo correio como pessoas normais fazem?" O agente dois desdenhou ao ver que havia nada de comprometedor ou subversivo na mochila. Só coisas normais de garotos adolescentes. No caso, as coisas de Sam.
"Fica mais elegante entregar em mãos e estamos ganhando alguns trocados com o serviço." Rachel tentou explicar sem tremer a voz.
"É só a putinha que tem língua?" O agente dois latiu.
"Olha como fala dela!" Sam reagiu no segundo seguinte e cometeu o erro de avançar dois passos. O agente dois não hesitou em sacar o porrete e bater com a ponta no objeto na boca do estômago do garoto, que se curvou na hora.
Levantou o braço para bater nas costas de Sam já batido e o impacto foi doloroso. Uma, duas, três vezes. Rachel ficou paralisada com a violência gratuita. Tinha lágrimas nos olhos e se sentia mal por não reagir ao ver o amigo ser espancado. Quando o agente dois foi bater uma quarta vez, o agente um, que tinha jeito de ser mais ponderado, apesar de cuspir palavras, o impediu.
"Os garotos estão limpos e só estão ganhando uma grana... e o moleque aí já entendeu o recado." Disse com calma.
O agente dois acenou e recuou.
"Você devia cortar o cabelo e ser homem. E você até que é bonita, putinha." O agente dois apontou para Rachel. "Devia me dar um dia desses."
Pisou nos papéis espalhados pelo chão e chutou a mochila antes de entrar no carro como se nada tivesse acontecido. Só então Rachel correu para acudir Sam. Ele vomitou e tentou esticar as costas devagar. Tentou suprimir os gritos de dor. A pele e a carne ardiam.
"Estou bem..." Disse sem fôlego. "Só me dá três segundos, ok?"
Rachel o ajudou a sentar na grama. Neste meio tempo, um homem negro, um dos donos do convite, se aproximou dos garotos.
"Esses caras estão cada vez mais folgados. Senhores de si." Começou a recolher as coisas espalhadas. "Isso tem de acabar!" O tom era raivoso e ressentido. "Bateram muito em você?"
"Eu vou sobreviver." Sam ainda estava ofegante. O homem entregou os papeis a Rachel e se ajoelhou para analisar as pancadas. "Tenta mexer os ombros." Sam obedeceu, ainda que tivesse doído um bocado. "Ótimo..." Articulou o braço do agora paciente.
"O senhor é médico?" Rachel o encarou e depois abaixou o rosto quando o moço fez o mesmo.
"A gente tem que aprender de tudo um pouco nessa vida. Infelizmente eu sei o que é levar uma pancada dessas nas costas." Continuou a articular o braço e o ombro de Sam. "Não creio que esteja quebrado, garoto... Vocês venham até a minha casa que eu passo um spray analgésico para ajudar."
Rachel acenou. Ela colocou os papéis na mochila e a colocou nas costas. Depois colocou um capacete pendurado em cada lado do guidão enquanto o homem ajudou Sam a se levantar e a caminhar. A casa ficava no começo da rua. Foi Sam quem foi a porta de George Peterson entregar o convite pessoalmente. Era uma residência bem arrumada, típica de alguém de classe média, com jardim florido, bem cuidado, paredes pintadas. A impressão acolhedora por fora se repetia no interior. George ajudou Sam a sentar-se no sofá e Rachel ficou ao lado do amigo o tempo inteiro.
"O troglodita até que tinha um ponto." Rachel forçou um sorriso.
"No quê?"
"Você precisa de um corte de cabelo."
"Gosto dele grande!"
"Ainda assim pode ter cabelo grande com um corte bonito." Sam passou a mão com delicadeza pelo rosto de Rachel e ela corou. Foi o tempo de George entrar na sala com o spray em mãos.
"Receio que isso seja culpa minha, garotos." Ele balançou a cabeça. "Tenho enfrentado pequenos incidentes desde que discuti com um promotor de justiça e levei a melhor." Sentou-se na mesinha de chá de madeira, ficando em frente a Sam. "Levante a camisa, garoto." Ordenou e Rachel ajudou o amigo. O remédio foi aplicado e o gelado trouxe uma sensação breve de alívio a Sam. "Pode levar o spray se quiser. Aplique de novo depois do banho. Então, direto para embaixo das cobertas."
Os dois adolescentes acenaram em entendimento.
"Obrigada senhor..." Rachel fez um esforço para se lembrar. Ela tinha visto o homem uma vez na casa dos Pierce, na noite em que ela cantou.
"George Peterson. E você é Rachel Berry, certo? A garota com o gogó de ouro!"
"Este é Samuel Evans."
"Prazer." Sam estendeu a mão direita, mas desistiu no meio do caminho. Estava muito dolorido.
"O prazer é todo meu, garoto. Seja bem-vindo aos Botões."
"Como sabe que sou novo?"
"Porque é a primeira vez que te vejo e eu sou um excelente fisionomista... você foi recrutado por Lopez, certo?" Os dois acenaram. "Ela é uma jovem garota sem muito tato, mas com um bom julgamento de caráter, apesar de ser tão jovem. Se ela te escolheu, é porque você merece estar conosco."
"Obrigado." Sam forçou um sorriso.
"Vocês aceitam um chá? Água? Não creio que Samuel vá querer comer algo sólido por agora..."
"O senhor já fez muito por nós." Rachel sorriu fraco. Estava mesmo agradecida.
"Estamos no mesmo time! Precisamos nos ajudar nessas e em várias outras horas ou perderemos essa guerra."
"Esse regime está passando dos limites." Rachel disse com raiva.
"Queria colocar lenha nessa fogueira, Rachel, mas o regime não é o único responsável pela violência de seus agentes. Ajuda, com certeza, porque o Estado não pune. Neste caso, é individual a decisão de bancar um idiota brutamonte que conquista respeito pela pancada. E isso existe em qualquer lugar. Em democracias e em ditaduras. Basta ter um pouco de poder nas mãos. Eles poderiam ter abordado os dois, feito algumas perguntas e liberado. Simples. Agora se você quiser falar sobre leis de amordaças, violações de direitos humanos e decisões que só prejudicam a população e o país, como nós estamos sofrendo de fato, bom, aí é outra história. Aí posso acabar com esse governo com um discurso inflamado."
"Uma pena que discursos inflamados não derrubam governos." Sam lamentou.
"Não derrubam diretamente. Existem aqueles que pensam que as coisas só podem acontecer pela força, pela revolução. Eu não! Acredito que palavras e ações inteligentes articuladas é uma boa receita de mudança. Pode não ser tão rápida, mas é menos traumática."
"Há alas entre os Botões que defendem a força?" Rachel ficou interessada.
"Sempre haverá muitas alas dentro de um mesmo grupo, Rachel. E cada uma ganha mais ou menos força conforme a situação progride. Neste momento, posso dizer que existe um equilíbrio interessante e benéfico para os próprios Botões." George sorriu e olhou para o relógio. Eram quase oito horas da noite. "De quem é a mobilete?"
"Minha." Sam respondeu.
"Vocês moram perto um do outro?"
"Não muito... cinco quarteirões." Foi a vez de Rachel responder.
"Ok. Vamos fazer o seguinte: Rachel vai para casa com a lambreta... você sabe dirigir uma, certo?"
"Eu dirigi uma... uma vez..."
"Vai servir. É como andar de bicicleta. Então você leva a lambreta para casa. Diga à sua tutora que Sam emprestou porque não queria que você voltasse para casa à pé. A história de miolo você mesmo inventa. Tenho certeza que fará uma simples e convincente. Eu levo Sam para casa de carro e a história é contigo. Amanhã, na hora da escola, você o pega em casa, certo? Então? O que acham do plano?"
"Pode ser feito." Sam concordou prontamente.
"De acordo."
George pegou as chaves do carro e ajudou Rachel a erguer Sam. Pediu para ensaiar alguns passos "normais" para não preocupar os pais e deu mais alguns conselhos. George parecia mesmo ter larga experiência com situações parecidas e não escondia nada aos garotos. Antes de sair com a mobilete, Rachel franziu a testa e disse com a voz empostada para os homens ouvirem.
"Como o senhor sabe que eu estou com uma tutora e não com os meus pais?"
"Porque eu conheci Hiram e Leroy, e conheço a sua história." George respondeu com simplicidade.
Rachel acenou e deu a partida. O trajeto era curto, apenas três quarteirões, mesmo assim, a garota dirigiu tensa pela falta de experiência com o veículo e por tudo que se passou na última hora. Sabia que o incidente foi uma fatalidade, que foi ocasionado por um fato isolado, mas não era suficiente para deixar de sentir raiva do governo, da necessidade de haver botões, de toda situação da vida dela. Era nesses momentos que Rachel sentia vontade de ficar e chutar alguns traseiros. Anseio que só aumentava quando via a carranca no rosto de Puck ao perceber que ela havia chegado em casa com o veículo do companheiro de futebol americano e coral.
"Por um acaso você terminou com aquele seu namorado?" Rachel odiou o tom carregado de ironia.
"Desde quando você se importa?"
"Eu me importo contigo. Kurt pode ser um fresco, mas ele não é ruim e é irmão do Hudson. Mas eu tenho dúvidas quanto a Sam. Ele tem ideias muito liberais, Rach."
"Sam é um grande amigo meu e seu. É uma boa pessoa e essas coisas deveriam estar acima. E desde quando você se importa se alguém tem ou não ideias liberais? Nunca deu o menor valor a política antes."
"As pessoas crescem e começam a ver que existem coisas acima delas."
"Ainda assim, ter ideias diferentes não deveria ser razão para desgostar de um amigo. Se me dá licença..."
Passou por Puck e desceu as escadas rumo ao confortável porão. Ligou para Santana e digitou "falha". A resposta veio no minuto seguinte com uma voz muito preocupada do outro lado. Rachel não quis dar detalhes. Resumiu a história por alto e tratou de tranqüilizar a líder. Disse que contaria tudo no dia seguinte. Só então se sentiu livre para tomar um banho um pouco mais demorado que o normal. Vestiu o pijama e deitou-se. A barriga roncava de fome. Não se importou com o incômodo. Fechou os olhos e procurou dormir.
