Santana estava com cara amarrada e braços cruzados quando Rachel passou por ela no corredor da escola. Pela reação da líder, logo a cantora percebeu que o problema não era com ela. Ao contrário, Santana acenou como se quisesse passar confiança e força. Depois virou o rosto quando Sam apareceu com o olho roxo e andar robótico de quem estava sentindo dor.

"O que foi, Evans? Foi atropelado por um caminhão?" Finn, que estava ali próximo, perguntou.

"Isso não te interessa." Sam respondeu atravessado.

"O que aconteceu, cara?" Finn insistiu. "Nós temos jogo neste fim de semana e você aparece assim arrebentado? E por que Rachel chegou dirigindo a sua moto?"

A expressão de Finn era menos de preocupação com o companheiro de time e coral e mais de ciúmes. Ele havia se acostumado em receber todas as atenções e olhares afetuosos de Rachel, mesmo quando ela estava ao lado de Kurt. Agora era como se ele tivesse sido deixado de lado e a sensação era mais incômoda do que ele gostaria.

"Eu sofri um acidente, ok? Rachel me ajudou. É só isso."

"Que acidente?" Continuou inquisitivo.

"Eu caí da moto."

Um bom questionador iria identificar os buracos na história e certa falta de lógica, mas Puck e Finn não eram exatamente do tipo que investigava e flagravam mentiras nas entrelinhas. O que eles viam era uma garota comprometida ajudando outro cara que não era o namorado. Isso tinha cheiro de fofoca, o que era uma especialidade de Tina. Até a hora do intervalo para o almoço, todo mundo estava convencido de que existia um triangulo amoroso em andamento dentro do coral da escola. Isso fez com que Finn mandasse Kurt abrir o olho e este, para não se fazer de corno manso em frente aos machos alfa do colégio, fez uma cena em que pegou Rachel pelo braço e a puxou até uma sala vazia.

"Você pode me dizer o que está acontecendo?" Kurt disse alto.

"O quê?"

"Você e Sam."

"Não há nada entre eu e Sam."

"Tem certeza?"

"É claro que tenho!"

Então Kurt olhou para a porta e podia ver algumas penumbras passando ali por perto. Ele fez sinal para que uma Rachel ainda confusa pudesse entender as intenções dele. Então ela acenou e entrou no jogo.

"E o que você estava fazendo com aquela mobilete repugnante dele?"

"A verdade é que ele foi atropelado!" Rachel disse alto suficiente para que os ouvidos extras atrás da porta pudessem escutar. "E foi atropelado por um fardado, que correu sem prestar socorro. Um homem nos ajudou. Ele levou Sam para casa e eu fiquei com a mobilete dele."

"Oh!"

"É, Kurt, oh!" Rachel olhou para as penumbras na porta mais uma vez. "E tudo isso porque você me dispensou depois que eu deixei você gozar na minha boca. Eu fiquei puta de raiva e encontrei com Sam no Mocha. A gente conversou e foi isso. Quando ele estava saindo, foi quase atropelado por um carro e caiu! O moço ajudou a leva-lo pro hospital e eu fiquei com a mobilete."

"Oh, Rachel, me desculpe..." Kurt estava com vontade de rir com a encenação perfeita. "Desculpe, amor... mas você sabe que eu não estava num dia muito bom. Você me ajudou muito, ninguém chupa melhor do que você, mas eu precisava ficar só. Me perdoa?"

"Eu não sei, Kurt..."

Do lado de fora da porta estavam Tina, Mercedes e, surpreendentemente Finn. Ele podia se justificar dizendo que estava cuidando do irmão de consideração. Não era verdade: ele estava com ciúmes. Pensava que o irmão tinha uma vida sexual mito mais expressiva do que a dele (o que de fato tinha, mas não com Rachel), e isso o irritava. Quem era Kurt? E Rachel? Ele sequer gostava dela, mas se achava no direito de monopolizar os olhares e sorrisos da menina quando ninguém estava olhando. Pelo menos era o que ele pensava. Finn dizia a si mesmo que só não teve relações sexuais com a co-capitã do coral em respeito ao irmão. Porque estava convencido que bastaria estalar os dedos. Mas diante do novo cenário, com Sam cada vez mais próximo, ele não tinha mais tanta certeza, e isso o irritava profundamente.

"Acho que eles fizeram as pazes..." Tina sussurrou e foi surpreendida quando a porta abriu de repente revelando Rachel de mãos dadas com Kurt e expressões pouco amistosas.

Se Kurt queria ser ator, o palco psicológico montado naquela escola era um experimento e tanto. O diálogo encenado de improviso parece ter amenizado um pouco as fofocas, o que fez o ambiente nos ensaios do coral ficar menos hostil.

Depois do coral, alguns dos botões receberam uma mensagem eletrônica enviada pela líder. O que Rachel estranhou foi o local combinado: a pizzaria. Ela chegou ao depósito em companhia de Sam e Kurt, que não estava entendendo porque Santana chamaria para uma conversa num depósito empoeirado e com jeito de abandonado. Rachel tinha uma vaga ideia das intenções da líder.

"O que mais gosto sobre vocês é a pontualidade." O trio foi surpreendido pela líder, que entrou de supetão.

"O que estamos fazendo aqui?" Kurt questionou.

"Quero apresentar a vocês um lugar que é preciso ter méritos para conhecer. Hummel, você vem comigo e Sam vai com Rachel."

"O quê?" Os dois ficaram sem entender.

Foi quando Santana puxou Kurt e o forçou entrar por uma falsa porta dentro do depósito atrás da pizzaria. Pegou o botão metálico e o inseriu no painel, digitando a senha em seguida.

"Santana, o que..." Kurt emudeceu quando entendeu que aquilo era um elevador.

"Eu sempre digo que nos botões é preciso ter méritos. Acho que você e Sam tem o suficiente para conhecer aquilo que chamo de bat-caverna."

Quando o elevador disfarçado chegou ao destino, Kurt ficou maravilhado com o salão que estava diante dos seus olhos.

"Bem-vindo a sala comunal dos Botões." Santana disse ainda séria.

Dois minutos depois, era Rachel e Sam quem chegavam ao local e a reação do rapaz loiro e machucado foi semelhante a de Kurt. Rachel apenas observava.

"É aqui que são guardados livros que vocês não terão acesso em nenhuma biblioteca pública do país. Há uma coleção de discos, livros, filmes... produções que renderiam prisões se vocês tiverem de posse de um exemplar." Santana explicava enquanto os garotos olhavam fascinados para o acervo. "Apenas eu, Rachel e Matt temos acesso livre a esse lugar. É uma questão de hierarquia e segurança. Seban e Blaine já visitaram a sede. E agora vocês dois."

"Agora eu entendo aquela filosofia de livre pensamento dos botões." Sam pegou um exemplar de A Tale of Two Cities, de Charles Dickens, um livro de que só ouviu falar e que foi banido em uma das últimas listagens publicadas pelo governo. "Nós podemos levar esses livros para casa?"

"A versão digitalizada... sim." Santana explicou. "É só pegar um pendrive e levar para os técnicos. Eles vão verificar se está tudo limpo e copiar o arquivo do livro ou a música, até mesmo o filme. Você pode ler os livros físicos, pode folhear, você pode sentar naquela mesa e estudar um monte deles como se fosse fazer uma tese, mas esses não saem daqui."

"Isso é incrível, Santana!" Os olhos de Kurt brilhavam.

Aquela biblioteca tinha livros de filosofia, sociologia, ensaios políticos, obras literárias diversas, biografias, e também muitos livros de arte. Um deles, inclusive, era um catálogo com obras eróticas homossexuais de um artista do início do século que há muito foi banido.

"É como ver uma revista masculina para gays!" Kurt sorriu ao mostrar uma pintura para Rachel.

"Abaixa o mastro, Kurt!" Santana advertiu. "Vocês não têm livre acesso a isso aqui. Há muito chão para vocês conseguirem um botão metálico. Mas podem visitar de vez em quando. Agora que todos conhecem a sede, menos Brittany, eu posso até marcar reuniões aqui."

"Eu ia gostar!" Sam pegou o songbook de um grande guitarrista e depois colocou o disco para tocar. Abriu um sorriso imenso quando o som apurado e suave invadiu seus ouvidos.

"Sobre o incidente de hoje na escola..." Santana chamou o grupo para conversar no conjunto de sofás. "Eu gostei muito da solução que vocês mesmo deram. O teatro foi ótimo. Mas, pessoal, vamos ter cautela. Eu não quero que Puck e a turma dele encarne na gente por um motivo idiota. Os Botões garantem suporte jurídico a qualquer integrante, mesmo um botão raso, mas briga de gangue é outra história. Eu conversei com Puck hoje: é basicamente isso que ele quer: encontrar alguém para brigar. E Sam é um alvo." Voltou-se para o comandado. "Você sabe que terá o nosso suporte, mas tenha cuidado, amigo."

"Eu não vou abaixar a cabeça para esses caras, Santana. Eles eram meus amigos, mas eu não posso simplesmente colocar o rabo entre as pernas e aceitar só porque eles querem briga do nada. Senão, qual o sentido disso tudo?"

"Não se trata dos Botões, Sam. Trata-se de você! Nós protegemos uns aos outros, mas também precisamos ser um pouco mais racionais. Se eles baterem, bom, não somos Jesus Cristo para dar a outra face. Mas até chegar a esse ponto, vamos evitar a briga porque temos coisas mais importantes a fazer. Está entendido?"

"Mas San..."

"Está entendido?" Santana repetiu com mais autoridade na voz. Era tão intimidadora quando fazia isso que o jovem não pode fazer nada além de concordar.

Santana ainda tinha negócios a fazer. Enquanto Sam, Kurt e Rachel aproveitavam aquelas facilidades, ela foi até a sala de operações resolver pendências.

"Confesso que isso aqui é muito maior do que imaginei." Sam se aproximou de Rachel, que pegava um disco para ouvir. Ela encarou o amigo sabendo exatamente o que ele queria dizer. Todo botão passava por aquilo.

...

No dia seguinte, na escola, a fofoca era outra. Em vez de traição, alguns alunos especulavam que o caso do triangulo amoroso envolvia uma relação consensual a três, que Rachel mantinha dois relacionamentos. Como essas teorias surgiam era um mistério, mas era uma mostra clara do quanto a imaginação dos adolescentes poderia ser fértil. Santana e todos os botões daquele círculo achavam graça das fofocas, menos Rachel, que estava sendo chamada de nomes que pouco apreciava.

Para ficar longe da agitação optou por passar o primeiro horário livre na biblioteca. Era melhor ficar lá quieta do que ser pega pelo monitor por andar sem rumo aparente pelos corredores. No pequeno intervalo entre uma aula e outra, foi até o próprio armário selecionar o material para as próximas aulas. Os olhares estavam em cima dela e eram pesados. De repente ela virou a galinha da escola que fazia sexo oral no namorado em qualquer lugar com todos os requintes de vulgaridade possíveis. Como se muitas das meninas mais velhas não fizessem o mesmo ou pior. E a grande ironia disso tudo era que Rachel ainda era virgem aos 17 anos.

Procurou pensar em outras coisas, nas classes por exemplo, para melhor lidar com os falsos julgamentos. O armário de Mercedes ficava ao lado do dela, mas a colega não a cumprimentou. Já esperava por isso, afinal, Mercedes era uma puritana religiosa. Percebeu que a maioria dos integrantes do coral também começaram a olhar para ela diferente. Era como se ela tivesse voltado no ano de calouro do high school quando era desprezada por quase todo mundo. Toda história tinha mocinhos e vilões. Aos olhos dos amigos, ela era a vilã do momento. Antagonistas eram seres solitários. E líderes, e anti-heróis. Pelo menos não era dia de coral. Odiaria prolongar o incômodo de enfrentar as acusações silenciosas.

Na hora do almoço, se surpreendeu quando Santana sentou-se na mesma mesa em que ela e começou a comer a refeição em silêncio. Brittany sentou ao lado dela logo depois.

"O que estão fazendo?" Rachel sussurrou.

"Almoçando, Berry." Santana respondeu seca.

"Aqui?"

"Você tem algum problema com isso?"

Rachel silenciou-se e viu que muitos dos alunos estavam comentando. Santana e Brittany continuavam ali, comendo e ocasionalmente falando algo como se nada tivesse acontecido. Logo depois, Kurt e Sam sentaram ao lado da amiga e assim todos os botões daquela escola ficaram juntos em público pela primeira vez.

"Pessoal, eu agradeço, mas as pessoas vão falar ainda mais."

"Deixem que fale." Santana parecia ignorar os olhares. Continuou a comer o grelhado no palito em silêncio.

"Eu não comeria isso se fosse você." Brittany fez cara de nojo porque a namorada secreta degustava a carne com satisfação.

"Por quê?"

"Ouvi dizer que isso é carne de gato."

"O quê? Só por que a cozinheira é oriental? Isso é racismo, Britt."

"Alguns deles tem hábitos canibais!" Brittany protestou e Rachel segurou o riso. "Que eles comam grilos... eu mesma já comi alguns. Mas gatos e cachorros? Canibais sádicos!" Rachel ergueu uma sobrancelha. Brittany sabia o que significava sadismo?

"Você? Com ela?" O grupo foi surpreendido por Quinn Fabray. "Vocês dever ter ficado muito amiguinhas desde que a defendeu naquele dia no banheiro."

"Fabray!" Santana fingiu que a caixinha de suco era mais interessante e tomou mais um gole do néctar de uva. "A mesa é para seis e há um lugar vago."

Quinn ergueu a cabeça e foi sentar-se com outras cheerios que odiava. Não foi apenas Quinn que olhou em direção à mesa como se o fato mais bizarro do mundo tivesse acontecendo naquele momento no refeitório de McKinley High. Santana Lopez e Rachel Berry sentando juntas sem discussões e insultos?

"Perdi alguma coisa?" Sam perguntou.

"Que cena do banheiro?" Kurt complementou.

"Quinn estava surtada dias atrás e Rachel teve o azar de aparecer. Foi só isso."

"Aquilo foi nada. Pior é esse experimento de espanto coletivo." Rachel disse com um pouco de acidez. Não estava acostumada com aquele tipo de atenção. Os olhares de admiração do palco, sim. Os de estranhamento: nem um pouco.

"Quem diria que éramos populares?" Sam começou a se divertir com a atenção.

"Popular eu sempre fui!" Santana continuou com o ar blasé.

"É verdade então?" Tina sentou-se excitada junto com o grupo. "Que vocês estão juntos numa relação a três?"

"Minha vida sexual não é da sua conta." Rachel esbravejou.

"Rachel e eu somos só amigos." Sam completou um pouco mais quieto.

"Impressionante! Nem mesmo saiu da escola e já concorre ao prêmio imprensa fofoqueira do ano. O futuro deste país está mesmo em boas mãos." Santana ironizou.

"Não estou aqui por causa do jornal. Eles são meus amigos." Tina indignou-se.

"Se você realmente for amiga deles, então demonstre um pouco de respeito. Senta aí, fique quieta e não julgue." Brittany esbravejou para surpresa de todos. Santana começou a aplaudir e Sam estendeu a mão para um high five com a colega botão.

"Eu não estou julgando." Tina se defendeu. "Foi Quinn quem inventou essa história e todo mundo foi na onda."

"Ah... por que isso não me surpreende!" Rachel ironizou de um jeito dramático, provocando algumas risadas dos demais.

"A garota em mesmo um problema contigo." Sam fez a observação.

"Não... Quinn tem um problema com ela mesma." Santana disse. Ela sabia muito mais sobre Quinn e sobre o que estava acontecendo na vida da colega, mas não queria e nem poderia comentar com os demais botões. Pelo menos, não naquele momento. "Mas deixa para lá."

O dia passou sem mais eventos significativos, o que não era ruim no caderno de Rachel e nem mesmo no dos outros botões. Santana e Rachel fizeram o treinamento semanal e a segunda passou a ajudar a líder na recreação dos garotos na academia. Era uma parte divertida do dia. Kurt e Blaine se encontraram no lugar de costume deles para namorar, Brittany passou a tarde dançado no largo porão com fones de ouvido, cantando feliz. Havia os outros que estudavam em outra escola, como Matt e Seban, que ficaram sabendo do que aconteceu com os amigos e se sentiram orgulhosos. E havia Sam.

O corpo dele ainda estava dolorido, roxo por causa da surra que levara dos agentes de segurança. Mas diferente da humilhação que normalmente sentiria, ele estava com a cabeça erguida, com a certeza de que estava jogando na equipe dos mocinhos. Por menor que fosse a participação dele, ainda assim era uma tarefa importante no processo do grande quadro. Também havia algo diferente dentro do peito dele: um sentimento que não tinha percebido dentro de si até então. Esperou a madrugada para sair de casa com algumas latas de tinta spray. Andou até o centro comercial mais próximo da escola e decidiu fazer a arte.

...

Quando o dia amanheceu, o público e os alunos que ali passavam podiam apreciar a "arte" feita no muro que ficava entre o comércio e a escola. Só quem era cego ou não sabia ler não poderia apreciar a mensagem escrita entre desenhos simples, feitos por quem tinha pressa.

"A LIBERDADE É MAIS IMPORTANTE DO QUE O PÃO. À LUTA!"

Enquanto os agentes eram acionados para apagar tal vandalismo, enquanto as pessoas passavam com medo do muro, como se, de repente, a construção tivesse ganhado dentes, uma garota olhava a mensagem com particular interesse.

Quinn Fabray ficou ali parada diante do muro por alguns minutos. Apertava em sua mão direita um pequeno objeto: um botão azul.

Uma patrulha dos agentes chegou. Junto com eles, um carro da companhia de limpeza urbana que carregava tintas e rolos no porta-malas. Antes do primeiro horário, a mensagem já não estaria mais ali, mas o assunto era discutido entre sussurros por toda escola.

"Aposto que foi alguém daqueles grupos mais radicais." Kurt teorizou com Rachel, Santana, Brittany e Sam.

"Aposto que foi coisa de botão." Sam sorriu.

Santana apertou os olhos e fez uma leitura sobre o ocorrido que foi muito próxima da realidade. Não à toa ela era a líder. Então cruzou os braços e disse séria.

"Contanto que esse botão controle melhor seus impulsos para não colocar os demais em risco..."

"Seja lá quem foi o autor, eu achei corajoso." Rachel disse.

Sam pouco se importa que a censura havia agido depressa, ou se Santana não aprovava. Ele estava feliz consigo mesmo, e o ar da escola, de repente, ficou mais leve.