Quinn acordou de um pesadelo. Ela não costumava gritar – ou pelo menos achava que não, uma vez que ninguém lhe acordava no meio da noite por causa disso. Mas podia dizer que se agitava consideravelmente pelo jeito em que as cobertas ficavam retorcidas e o suor molhava sua roupa. Demorou um pouco para se situar e perceber que não estava mais no próprio quarto ou em algum lugar que não era o seu com alguém indesejado. Quinn acordou num lugar que não era seu, mas que lhe passava a estranha sensação de segurança.

Procurou relaxar. Controlou a respiração, passou a mão pelos cabelos úmidos pelo suor. Virou-se para colocar os pés no carpete. Demorou-se um pouco mais para recobrar a tranquilidade e, só então, se levantar. Precisava de um banheiro. Onde era mesmo? No andar de baixo. Por ser no mezanino, o quarto de Carlos, irmão de Santana, tinha o teto mais baixo. Quinn achava estranho o fato de ser um pouco menor do que a altura da porta. Alguém do tamanho do senhor Lopez, por exemplo, teria de abaixar a cabeça e se curvar um pouco para transitar naquele quarto. Por outro lado, a julgar pela privacidade, Quinn podia entender muito bem porque um garoto escolheria aquele lugar.

Desceu a escada, que era praticamente vertical para o segundo andar. Os ruídos e vozes pela casa mostravam que os Lopez estavam de pé. Quinn encontrou o banheiro vazio, fez suas rotinas matinais, e depois decidiu passar no quarto de Santana, onde sabia que Rachel havia dormido. Encontrou a colega já de pé, arrumando a cama.

"Bom dia." Rachel sorriu. "Dormiu bem?"

"Como uma pedra." Quinn achava que ninguém precisava saber que ela tinha pesadelos com alguma frequência. "Você sempre capricha desse jeito quando arruma uma cama?" Ficou impressionada com a maneira que Rachel esticava os lençóis.

"Essa cama pertence a Santana Lopez! Precisa de mais alguma informação?"

"Onde você dorme quando ela está aqui?"

"Onde você dormiu." Rachel continuou a tarefa de arrumar o quarto da líder a perfeição. "Santana costuma dizer que o quarto do Carlos é perfeito para o meu tamanho."

"Oh... quer dizer que as ofensas não são apenas uma fachada?"

"Depende de como você as encara. Santana tem um apelido pejorativo para todos nós, exceto para uma pessoa. É quase certo que você ganhará um, e posso até imaginar qual seria."

"Mesmo?" Quinn cruzou os braços. "Do que ela me chama nas minhas costas?"

"Loira gelada é o mais comum."

"Quem são os outros?"

Rachel ficou séria e silenciou-se, fazendo Quinn rolar os olhos no processo.

"Vai continuar sem dizer nada?"

"Você já tem os seus botões?" Rachel retrucou.

"Por que vocês são tão rígidos assim?"

"Rígidos não. Disciplinados. E se você será uma de nós, precisa aprender certas coisas como fechar a boca quando for necessário, além de respeitar a hierarquia."

"E Santana é a líder que não responde a ninguém."

"Santana responde a alguém. Nós respondemos a ela. Se você quer pertencer ao grupo, Quinn, isso precisa ficar claro. A última coisa que precisamos é de uma mimada rebelde sem causa para nos trazer mais problemas do que já temos." Rachel endureceu o discurso e sua postura. Terminou de arrumar o quarto de Santana e andou em direção a Quinn com a mesma determinação como fazia na escola quando estava prestes a receber uma enxurrada de ofensas na escola. "Pelo que entendi, essa é uma oportunidade que você estava desesperada para ter. Não despedisse isso. Nós podemos fazer diferença em sua vida da mesma forma que você poderá fazer diferença positiva na vida de alguém."

"Essa parte ficou clara, Rachel. Só não consegui entender ainda todo esse rigor. Da forma como você muda de postura quando eu pergunto alguma coisa. Santana é a mesma coisa... até pior."

"Porque você só poderá ter acesso as respostas na medida em que merecer. Por hora, você precisa querer entrar no grupo e aceitar as condições. Se não puder fazer isso, apenas caia fora antes que as coisas se compliquem, ou que alguém te chute de uma maneira bem dolorosa. E por mais que eu goste de você, Quinn Fabray, eu não vou permitir que você machuque a minha família!"

"Você gosta de mim?"

Rachel levou um susto com a pergunta e recuou, como se tivesse sido atingida por um golpe, porque nunca parou para pensar seriamente nisso. Ela gostava de Quinn Fabray? Em que sentido? Rachel andou em círculo pelo quarto até finalmente se sentar na beira da cama de Santana, estragando em parte o próprio trabalho.

"Apesar de tudo, de todos nossos confrontos dentro e fora da escola, eu nunca pensei em você com raiva ou ódio." Rachel disse em tom de voz mais baixo, quase contemplativo. "Sem mencionar que você sempre lembrou de mim para trabalhar nas festas da sua casa, o que é bom porque o dinheiro ajudou."

"De nada!"

"Acho que eu te perdoava pelo jeito que me tratava porque sempre achei que você tinha problemas demais em casa. Por isso era meio perturbada."

"Não estava errada!" Quinn se permitiu soltar uma risadinha.

"Você não é uma pessoa ruim, Quinn. Pode ter todos os problemas do mundo e ter vivenciado coisas horríveis, mas só pelo fato de você estar aqui, nesta casa, sob essas condições, e com um botão azul, mostra que você merece uma chance."

"Você até que é uma garota legal, Rachel Berry. Quem diria!"

Foi a vez de Rachel se permitir um pequeno sorriso e sentir um leve rubor no rosto. A conversa das duas foi interrompida quando Maribel gritou pelas meninas, avisando que o café da manhã estava na mesa. As duas desceram as escadas e cumprimentaram o casal. O café da manhã na casa dos Lopez era simples. Quinn não podia compará-lo com a variedade do banquete diário na mansão dos Fabray. A família de Santana não tinha dinheiro sobrando, e isso refletia à mesa.

"Gosta de panquecas?" Maribel ofereceu a Quinn.

"Gosto sim."

"Não temos mel, mas a geleia de cereja está ótima. Eu mesma fiz."

"Quando a árvore fica carregada, Maribel costuma ligar para saber se eu estou disponível para ajudar a colher as cerejas. Óbvio que sempre estou. Ainda mais que o meu pagamento é um pote dessa geleia deliciosa!" Rachel disse com um sorriso estampado no rosto.

"Esse é um dos últimos potes daquela leva, Rach." Maribel disse. "Nesse ano, eu vou fazer geleias para vender. De cereja, de morango, de blueberry..."

"Vai precisar de ajuda?" Rachel disse enquanto se servia de um pouco de café para misturar com o leite.

"Eu não dispensaria a minha ajudante favorita."

Rachel sorriu e Quinn ficou ainda mais admirada ao observar a interação da família. Não tinha empregados em volta, a mesa não tinha opções que jamais seriam tocados. Juan era uma pessoa presente, e não um sujeito virtual, como Russell, que vivia mais no escritório e só interagia com a família quando tinha alguma ordem para dar. Maribel era leve, anos-luz longe da plasticamente arrumada e sempre tensa Judy. Todos conversavam na casa dos Lopez, e aquilo lhe parecia exoticamente perfeito, mesmo sabendo que perfeição era algo que não existia. A única interação saudável que Quinn tinha em casa era com a irmã Frannie. Mas essa havia partido para estudar no Texas e dificilmente votaria para casa a julgar pelo tom das últimas mensagens.

Depois do café da manhã e de ajudar Maribel a retirar a mesa, Rachel despediu-se de Quinn e dos Lopez, prometendo voltar no dia seguinte. Quinn sentiu-se perdida e só por um momento.

"Quinn?"

"Sim, senhora Lopez?"

"Por favor, me chame de Maribel."

"Ok... Maribel."

"Eu vou à feira livre que acontece todo sábado ali na praça. Gostaria de ir e me ajudar? Claro que se quiser, pode ficar aqui em casa. Juan deve sair daqui a pouco para o plantão no hospital, mas saiba que pode ficar à vontade..."

"Não... eu te ajudo. Será um prazer."

Quinn e Maribel foram andando até a praça, que realmente não era longe. Maribel falava trivialidades pelos cotovelos, o que Quinn achava adorável. Quem poderia dizer que a mãe de Santana fosse uma pessoa agradável e até engraçada? Outro detalhe que chamava a atenção de Quinn era a própria população que transitava por ali. Por questões políticas, filhos de parlamentares estudavam em escola pública. Era só naquele ambiente que Quinn tinha contato com alguma diversidade socioeconômica. No mais, a vida dela era a mansão dos Fabray, o bairro nobre e as atividades sociais entre os seus.

Ficou surpresa no quanto a cidade era viva e dinâmica, mesmo em seu lado mais modesto. As pessoas se cumprimentavam, havia ambulantes, artistas de rua maltrapilhos, porém talentosos, gente conversando distraidamente. Por outro lado, Quinn nunca tinha visto a pobreza tão de perto. Foi chocante ver tantos pedintes perto da feira: gente que morava nas ruas, sem acesso a uma cama e muito menos a higiene pessoal. Aquela gente morava literalmente em tonéis de lixo porque não podiam dar mole aos agentes, ou se aproximarem dos bairros mais nobres: a ordem era prendê-los ou mesmo se livrar daquelas pessoas. Tudo para preservar a aparência limpa da cidade. Mas havia certa segurança para os moradores de rua circularem nos bairros pobres.

Quinn prestou atenção em uma mulher com lenço na cabeça, magra, suja, sem os dentes da frente, e com um bebê no colo. Ela brigava com outra criança e depois se voltava aos que passavam em busca de uma moeda. Quinn, em choque, se aproximou da mulher e lhe deu uma nota de cinco.

"Deus lhe abençoe, minha filha." A moça disse, para em seguida se voltar para a criança. "Ei, já disse que é para ficar aqui!"

"São seus filhos?" Quinn perguntou.

"Por quê quer saber?" A pedinte disse com agressividade assustadora.

Quinn se afastou, sem entender que a agressividade daquela mulher era uma defesa de quem havia se habituado a ser chutado pelas ruas. Seguindo Maribel, Quinn acompanhou com espanto o tumulto de uma feira livre. Para alguém que mal ia a um supermercado, a feira livre era quase um zoológico. Os vendedores gritavam suas promoções, clientes se esbarravam em espaços estreitos, e todos carregavam suas próprias sacolas nos ombros, ou empurravam carrinhos de feira para lá e para cá.

Maribel tinha as bancas favoritas. Comprou frutas e legumes com habilidade ímpar. No processo, ensinava Quinn a escolher sempre o melhor produto. O tomate precisa estar vermelho e firme, as folhas não podiam estar murchas e escuras, as laranjas com as cascas mais lisas costumavam sem mais suculentas do que aquelas com cascas mais grosseiras. Quinn também reparou que Maribel fazia sempre dois pacotinhos: um maior, para casa, e outro menor com duas ou três unidades de casa fruta ou legume que comprava.

A resposta para tal procedimento não demorou. Maribel separou todos esses pacotes menores e passou em frente a uma casa muito pobre perto da praça. Uma velha atendeu, e Maribel não tardou em cumprimentá-la com um abraço amigável. Tratava-se de uma velha vizinha que tinha mais ninguém no mundo. O marido morreu, um filho era preso político e o outro havia cruzado a fronteira ainda na época da instalação do regime. Se não fosse por Maribel, a velha senhora já teria morrido de fome. Ainda assim, aquela senhora guardava em si sabedoria, orgulho e dignidade.

Quinn não sabia se Maribel tinha uma agenda ao leva-la para a feira. Seja como for, andar naquela parte da cidade foi importante. Quinn passou a questionar, inclusive, política: algo que nunca havia feito antes. Por que o pai dela, que era um parlamentar, fazia absolutamente nada para ajudar aquelas pessoas? Por que o jogo de poder era tão mais importante do que um projeto de transformação social? Por que mesmo alguém em situação privilegiada, como Quinn, jamais fazia tais questionamentos? Falta de curiosidade intelectual não era o problema dela: era uma ótima aluna. Mas a educação que recebia não estimulava o questionamento. Ela e todos os outros naquele país eram privados de obras e pensamentos que eram considerados perigosos não necessariamente por fazer oposição ao que era pregado pelo governo, mas porque eram capazes de promover a reflexão.

Para o governo, o único questionamento aceitável era de natureza prática e técnica. A filosofia era perigosa: não à toa era um curso ausente nas escolas e nas universidades. Aquele era um país que desprezava os pensadores sociais em favor de uma manada de senso-crítico limitado, doutrinada com estratégia eclesiástica: dessa forma, a ideologia do governo passava a ter sentido religioso. A violência era o remédio para quem ousava pensar diferente. E assim se construía uma nação sem opinião política, sem motivação para a ação, com expressão limitada, temerosa e conformada.

"Maribel, posso perguntar uma coisa?" Quinn disse timidamente enquanto observava a senhora a arrumar a cozinha e começar os preparativos para o almoço.

"Claro. O que é?"

"Juan é médico e você trabalha por conta própria. Como ainda moram neste bairro?"

Maribel encarou a garota e suspirou.

"Porque é onde temos condições de estar e onde gostamos de estar. Não temos muito, materialmente falando, mas vivemos muito bem: temos casa própria, pagamos nossas contas, colocamos comida na mesa e nossos filhos estão bem encaminhados. Nossa vida é boa, Quinn. Não temos dinheiro sobrando, mas somos felizes."

Quinn acenou e ficou ali, fazendo companhia para Maribel. Logo depois do almoço, depois de enxugar as louças – algo que ela nunca havia feito antes –, sentou-se na sala e foi assistir televisão apenas para fazer companhia a mãe de Santana. Sua mente estava tão cheia, que não conseguia realmente prestar atenção na novelinha melodramática. Olhou pela janela e viu uma patrulha passar em frente a casa. O coração dela ficou acelerado. Nunca teve medo de uma patrulha antes: a identidade dela de filha de parlamentar era como um passaporte para fazer qualquer coisa na cidade em qualquer ocasião, até mesmo nos períodos e nas zonas com toque de recolher.

Meia hora depois, viu outra patrulha passarem frente a casa. O coração de Quinn disparou. Achou que não poderia ser coincidência. Talvez os agentes a tivessem reconhecido, ou desconfiado do carro de luxo estacionado num bairro como aquele. Mesmo com a promessa de que esperaria Santana chegar no domingo para decidir o que fazer, achou que a permanência dela ali poderia trazer perigo a uma família adorável.

Tomou a decisão num impulso. Despediu-se de Maribel. Agradeceu pela inigualável hospitalidade e foi embora.

...

Uma passada em casa. Uma chuveirada rápida. Rachel correu para se arrumar. Tinha combinado ir ao cinema com os botões. Sam passaria logo para buscá-la e todo resto se encontraria no shopping. Eles queriam pegar a primeira sessão de cinema, para só então comer alguma coisa e aproveitar o resto da tarde. Pegou a única calça jeans que tinha e uma das blusas favoritas. Criou um bom contraste. Sapato? Poucas opções. Vestiu o converse preto muito usado nas apresentações do coral. Penteou o cabelo, arrumou a franja e respirou diante do espelho. Estava apresentável.

"Está bonita!" Rachel foi surpreendida ao ver Natalie que invadira o seu quarto no porão da casa. "Vai a um encontro?"

"Vou ao cinema com meus amigos." Sorriu para a garotinha.

"Seu namorado vai estar lá?"

"Sim, ele e mais outros amigos, como o Sam."

"Puck disse que Sam não é boa companhia." Natalie cruzou os braços e franziu a testa. "Não deveria sair com ele, Rach."

"Puck não gosta de Sam porque eles discordam sobre algumas coisas." Procurou explicar com cuidado. "Só porque o seu irmão não é mais amigo dele, não quer dizer que Sam seja má pessoa."

Fez um carinho na pequena e voltou-se novamente para o espelho. Passou batom, pegou a bolsa e conferiu o dinheiro. Boa coisa não ter depositado os ganhos da última aula particular. Sorriu quando ouviu a buzina da mobilete. Pegou Natalie pela mão, fechou o quarto e despediu-se de Anna. Avisou que voltaria no final da tarde.

Sam estava a esperando em frente a casa. Ele teria batido a porta e feito as apresentações formais à guardiã de Rachel se não houvesse todo o problema com Puck. Ele ainda tinha hematomas para lembrá-lo a natureza das pessoas que passou a combater com os botões. O roxo no olho ainda não havia desaparecido.

"Está linda!" Disse sincero. Rachel apenas sorriu antes de subir na garupa.

O caminho até o único Shopping Center da cidade era longo. Ficava próximo ao bairro nobre, mas é onde se tinha mais opções de entretenimento concentradas num local só. Esperaram pelos outros, mas ninguém mais apareceu. Blaine e Kurt mandaram mensagem dizendo que estavam juntos. Matt teve de ajudar o pai na cafeteria. Brittany deve ter se esquecido e não é que Seban tivesse realmente sido avisado. Eram, portanto, apenas Rachel e Sam no cinema.

Optaram por ver o último filme de alienígenas. Era a produção que estava em evidência em todo país por ter sido filmada no país. A equipe de produção foi atraída pelos incríveis benefícios fiscais oferecidos pelo governo para fazer uma trama que se passava no país sem fazer críticas ao próprio. Era uma das melhores formas de propaganda internacional que se poderia fazer em favor do malfadado país. As críticas quanto a trama do filme foram positivas. O que a imprensa nacional não mostrou, e que os botões conseguiram acessar, foram as duras palavras destinadas a produção por aceitar regalias de um país fechado controlado por um governo parlamentar fascista.

Independente de política, Rachel e Sam só queriam um pouco de diversão e os dois eram fãs do cineasta responsável pela produção executiva do longa-metragem. Rachel não era uma entusiasta do tema alienígena. Morria de medo de produções escuras com monstros violentos e costumava ter pesadelos sempre que assistia filmes de terror. Sam gostava de filmes deles. Se tivesse condições financeiras, teria uma coleção enorme de produções do gênero. Algo parecido com que Rachel gostaria de fazer com filmes musicais. Ela se lembrava que os pais tinham uma enorme, quase toda importada. Eles assistiam na sala comendo pipoca e tomando suco. Rachel cantaria todas as canções e até arriscaria a coreografia. Mas restou nada. O governo tirou tudo. Musicais, casa, tudo.

"O que achou?" Sam perguntou ao final do filme.

"Divertido." Rachel franziu a testa e começou a falar como se fosse a crítica de cinema de um programa de televisão. "É uma ambientação charmosa e nostálgica de um bairro suburbano. É óbvio que o diretor queria fazer algumas homenagens a outros filmes do gênero. Isso passa pelos clichês por vezes abobalhados. Mas não posso negar que a produção é muito boa e o ritmo faz com que o filme entretenha." Rachel disparou a rir quando viu o rosto impressionado de Sam.

"Você deveria fazer as críticas de cinema do jornal da escola! É sério! Os textos que Jewfro escreve são horríveis."

"Não acredito que você lê os textos de Jewfro!" Sam ficou vermelho.

"Eu leio o jornal..." Admitiu envergonhado. "O pessoal tem um jeito interessante de escrever. É tão sem noção que chega a ser hilário." Rachel gargalhou.

"Para dizer a verdade, eu leio é a coluna de fofocas. Por alguma razão estranha, o coral está sempre por lá e aposto que os nossos e de Kurt vão estampar as manchetes da próxima edição."

"E você se diverte com isso?"

"Ou eu começo a rir das bobagens ou eu promovo uma queima de jornais seguido de um protesto furioso no meio do pátio da escola. Bem ou mal, as fofocas são inofensivas na maioria das vezes e pelo menos eu sei que o nosso coral é falado. Sinal de que não somos tão invisíveis assim."

"Hum, parece aquela filosofia do falem mal, mas falem de mim..."

"Eu quero ser uma atriz. Aprecio o drama."

Sam balançou a cabeça. Na praça de alimentação, cada um escolheu um prato que atendesse melhor. Rachel comprou uma salada. Sam, um combo na hamburgueria.

"Ei vocês!" Foram surpreendidos por Mercedes meio raivosa. "Assumiram mesmo o caso?"

"Oi pra você também, Mercedes."

"Desculpe Rachel, mas..." Sentou-se ao lado de Sam na mesa fixa para quatro. "Kurt é um dos meus melhores amigos e eu só queria entender o que está acontecendo entre você e Sam. Kurt não quer falar, ao mesmo tempo em que ele não parece estar chateado. As pessoas estão falando mal de vocês dois..."

"Que pessoas? Puck?" Sam ficou sério.

"Puck, Finn, Artie... isso para começar."

"Bom..." Rachel respirou fundo. "Kurt e eu ainda estamos namorando e Sam e eu somos amigos. Juro, Mercedes, que isso é tudo que há para entender."

"Quer dizer que vocês dois não estão transando nas costas de Kurt?"

"Não." Os dois responderam ao mesmo tempo.

"Tem certeza?"

"Acha que eu não teria?" Rachel falou ofendida.

"Bom..." Levantou-se. "Vou deixar vocês dois a sós. Nos vemos na segunda."

"Essa situação não podia ser mais bizarra. Você nunca traiu ninguém..." Sam balançou a cabeça.

"Não é o que eles pensam. Ossos do ofício em ser um botão." Rachel sorriu.

Assuntos amenos nortearam o encontro de Sam e Rachel. Após almoçarem, quiseram passear em um dos parques, mas a chuva forçou uma mudança de planos. Sam apresentou a Rachel o fliperama e alguns dos jogos clássicos. Ela se divertiu jogando pinball, tentando acertar bolas à cesta, e em outros jogos interativos que ela só brincava para ganhar um monte de fichas e trocá-las por coisas bobas, como uma borracha rosa com cheiro de chiclete. Os dois perderam o horário com a boa conversa

Quando se deram conta, passava das seis e Rachel estava cansada. Decidiram enfrentar a garoa. Sam teve a delicadeza em dar a jaqueta para a amiga. Capacetes no lugar e partiram de volta para casa. Independente de Puck e da chuva que engrossava, Sam fez questão em deixar Rachel na porta.

"Nos vemos na escola?" Sam perguntou.

"Claro... precisamos fazer a maior propaganda para os outros que furaram se sentirem culpados."

Sam sorriu e deu um beijo no rosto de Rachel antes de ir embora. A porta abriu e os amigos levaram um susto. Puck estava com uma carranca no rosto.

"Ela já está entregue, irmão!"

Sem querer confusão, Sam acenou e se despediu. Rachel cumprimentou Anna e Natalie antes de ir direto para o quarto. Estava possessa pela intervenção do amigo. Ainda assim, Puck a seguiu.

"Você tem que terminar com esse sujeito." Determinou.

"Como posso terminar algo que nem começou, Noah?"

"Ainda assim, a amizade com ele não é boa. Sam é um liberal."

"Mas você pelo menos sabe o que isso significa?" Rachel foi dura. "Ou sabe dizer a razão por achar Sam um liberal?" Puck emudeceu.

Sam era um sujeito que não gostava de políticos e recusou receber uma revista de propaganda governista uma vez, como muitas pessoas também faziam. Fora isso nunca deu maiores razões para gerar desconfiança. Nunca admitiu abertamente os pontos em que odiava no governo, que não tinha preconceito contra homossexuais, que defendia uma sociedade mais tolerante e que John Lennon era o beatle favorito. E que sim, ele era mais um que gostaria de dar o fora daquele país. Rachel queria sair e ser uma atriz, ou uma cantora. Sam queria fazer música sem se preocupar com as palavras que pronunciaria, com as idéias que defenderia.

"Ou talvez você não goste dele, porque ele não quer agir como você e os outros." Rachel desafiou. Era estupidez, mas ela não se conteve. "Eu sei do grupo de fascistas que você está se envolvendo!"

"Se eu fosse você, tomava mais cuidado com a língua." O tom de Puck era perigoso. "Desta vez eu deixo passar, Rach. Só não conte sempre com a sorte." Virou as costas e saiu do quarto.

Rachel suspirou. Percebeu que chegaria um ponto que a convivência dela com os Puckemans se tornaria uma agonia e talvez fosse o momento de começar a pensar seriamente em sair de casa. Tinha 17 anos, o que significava que Anna não mais respondia pelos atos dela, mas tinha obrigação como guardiã de fornecer um teto até que Rachel completasse 18. Era a idade que Anna deixaria de receber a mesada que o governo fornecia àqueles que participavam do programa para abrigar jovens sob custódia do estado. Anna não ia perder o trocado, isso dava a certeza de que Rachel teria de suportar a descida ao lado negro de Puck até o aniversário. Precisava pensar com cuidado no que fazer.

...

No domingo pela manhã, depois de ajudar Anna com o café da manhã e com a faxina da casa, caminhou pouco mais de meia hora até a casa dos Lopez. Por sorte, era um dia nublado com um sol discreto. Queria ver como Quinn estava se virando com a família.

"Rachel!" Juan acenou. Estava em frente de casa, debruçado sobre o capô aberto do carro a fim de descobrir o problema mecânico da vez. A menina olhou adiante, para o quintal, e estranhou em ver a moto de Santana estacionada, mas não o carro de Quinn.

"San chegou?"

"Hoje de manhã... acho que o tempo não estava bom no acampamento com o tal namorado então eles decidiram vir embora mais cedo. Atolaram e tudo mais. Entre... ela está lá dentro."

Rachel entrou pela sala, falou com Maribel antes de subir as escadas em direção ao quarto de Santana. Bateu à porta e se identificou antes de receber autorização para entrar. Encontrou Santana deitada na cama limpa com as roupas sujas de terra e lama.

"Oi!" Rachel notou o ar tenso da líder. "Não esperava te ver aqui hoje."

"O tempo não ajudou." Santana parecia frustrada e Rachel presumiu que algo deu errado.

"Quinn?"

"Mandou um recado no meu celular. Disse que está num hotel."

"Será que ela..." Rachel logo pensou na possibilidade de Quinn trair a todos.

"Rach... não sei. Só que não posso ignorar nenhuma hipótese." Sentou na cama e colocou e levou as mãos à cabeça. Rachel nunca a viu tão preocupada e frustrada antes. Também não passou despercebida a expressão de dor no rosto de Santana. Isso a fez sentir um incômodo no estômago. "Eu posso ter cometido um erro ao convidá-la... Quinn é um alto-risco que eu paguei para ver." Dizia sussurrando. "Se fosse pensar friamente, ela tem certa importância. Pode ser usada como uma arma política contra Russell, sabe? Mas não foi bem o que pensei. Eu só quis ajudar, e essa dor de cabeça é o que acontece quando você não calcula direito os riscos."

"Tudo bem, agora vamos ao outro assunto? O que aconteceu contigo?"

Santana balançou a cabeça em negativo. Ela se levantou com muita dificuldade e foi até a mochila. Pegou um envelope endereçado a Rachel. Remetente: Shelby Corcoran.

Rachel ficou ansiosa com a carta, mas também ficou preocupada com a mancha de sangue no envelope pardo.

"Não é meu..." Santana disse baixinho. "Eu me machuquei quando caí da moto... nada grave, só um ralado e a pancada do impacto. Por sorte, estava em baixa velocidade. Eu não vi no que bati porque não podia acender o farol e caí na terra... não no asfalto."

"San..."

"Foi o que deu para salvar..." Ela mostrou a mochila cheia de cartas. Rachel pode sentir que a líder estava na beira de uma quebra emocional e isso era assustador vindo de alguém estoico que evitava demonstrar as emoções. "Consegui pegar quase tudo antes que..."

"San. O que você fez?" Rachel perguntou com cuidado, mantendo o tom de sussurro.

"Foi uma emboscada. Eu peguei as cartas e corri... era alta madrugada... eu nunca coloco a minha moto junto com os outros carros... eu sempre escondo minha moto no mato... os garotos me sacaneavam... me chamavam de paranoica... mas eles vieram... os agentes... houve tiros... foi horrível... eu consegui sair... e tudo explodiu..."

Santana sentou no chão e Rachel correu para apará-la. Permitiu que chorasse contra o corpo dela. Eventualmente, Santana silenciou-se. Ela limpou as lágrimas e se levantou com alguma dificuldade. Estava com a máscara estoica no lugar. Fechou a mochila.

"É provável que eu chegue tarde na escola. Então você vai fazer uma coisa por mim." Foi até o armário e pegou uma bolsa cheia de botões. Separou alguns e os colocou nas mãos da comandada. "Coloque nos armários dos outros. Agora dê o fora daqui."

Rachel abriu a mão. Eram botões vermelhos.