"Querida Rachel,
Não imagina o quanto fiquei feliz ao receber a sua carta e a sua foto. Não tem o menor problema se você a tirou com o celular e a imprimiu como pôde. Foi uma felicidade finalmente ver o seu rosto, constatar o quanto você é uma garota crescida e linda. Mal acreditei quando vi o quanto nós somos parecidas.
Não fiquei magoada com a sua resposta. Pelo contrário. Mostra que você é uma jovem mulher de personalidade forte e decisão. Eu tenho total ciência de que para você, infelizmente, sou uma estranha. Sou a mulher que te deixou nos braços de homens que não tinham a menor obrigação em cuidar de você. Ainda assim, Hiram e Leroy ficaram ao seu lado até quando eles foram tirados a força. Entendo isso.
Mostrei a sua foto a Beth e ela ficou excitada por ter uma irmã mais velha. Anseio que um dia você possa estar aqui do meu lado e que eu possa te apresentar outra parte da sua família. Será que esse dia ainda vai chegar? Só posso rezar que sim.
Perguntei para Gabriel qual a possibilidade de nos falarmos por telefone numa linha segura. Ele explicou que há algumas, mas que você não tem acesso a elas e seria preciso que você tivesse mais botões, seja lá o que isso signifique. É lamentável que o governo registre qualquer ligação entre os dois países. Mesmo que eles não estejam ouvindo, não sei se seria prudente você se arriscar. De qualquer forma, caso um dia precise, meu telefone é 87-759-7648.
Gostaria que nossas cartas fossem também mais eficientes no sentido de nos conhecermos. Pensei em fazer algumas formas de isso acontecer e acredito que talvez um jogo possa funcionar. Eu sugiro um tema e comendo a respeito e você depois faz o mesmo. O que acha?
Descreva um dia comum do seu cotidiano: Minha rotina não tem nada especial. Levanto, preparo o café da manhã com ajuda do meu marido e preparo Beth para ir à escola. Depois de deixar a minha pequena, corro para o trabalho. Sou professora de canto e a escola em que trabalho tem um bom programa musical do qual posso treinar os garotos com liberdade. Muitas vezes converso com alguns profissionais do teatro e "roubo" coreografias, arranjos vocais. Aplico muitas técnicas em minhas turmas. Os alunos parecem gostar sempre que eu levo novos desafios à sala de aula. Depois da escola, continuo mergulhada no trabalho. Reservo uma parte do tempo para pesquisar sobre a música pop nova e antiga. A outra parte do tempo é para cuidar da casa e de Beth. Meu marido chega do trabalho no início da noite, nós jantamos e conversamos e esse é o meu dia num dia de semana comum. Não há glamour, mas gosto da minha rotina aqui.
Um bom dia: Cinco anos estreou a peça escolar chamada "Foi assim?" É uma despretensiosa comédia musical sobre uma vendedora que contava as mais absurdas histórias para justificar aos patrões porque o desempenho dela não foi o esperado. Ganhamos uma crítica elogiosa jornal local e nosso pequeno teatro ficou cheio em nossas três sessões e haverá outras três extras neste próximo fim de semana.
Um mau dia: Quando minha casa foi arrombada há três anos foi um péssimo dia. Ninguém da minha família estava em casa no momento, o que agradeço. Levaram coisas materiais como televisão, aparelho de som e um home theater que havia economizado um tempão para comprar. Ficou a sensação de insegurança e impotência. Esse é um lado ruim daqui: não é uma cidade segura e fácil de lidar.
A foto que mando desta vez sou eu no palco com meus alunos. Foi um momento muito especial que quero dividir contigo.
Aguardo ansiosa por mais notícias suas.
Te amo,
Shelby.
Rachel terminou de ler a carta pela quinta vez. Estava em lágrimas quando guardou a foto e decidiu cumprir o ritual de destruir informação. Santana já havia quebrado muitos protocolos ao entregar a carta em mãos. Em respeito a tudo que a líder passou, Rachel não achou certo trapacear e ficar com a carta, apesar de ter anotado o número do telefone. Não poderia fazer uma fogueira na casa dos Puckerman e eles não tinham um triturador de papel. Optou por picar tudo tão bem até que fosse improvável juntar os pedacinhos. Foi até o latão de lixo que ficava do lado de fora da cozinha e despejou o conteúdo que parecia mais confete. Uma lástima que não poderia responder tão logo. A nova foto ela deixou guardada dentro do mesmo livro em que estava a primeira. Olhou fixamente para a foto da mulher que se parecia com ela junto com adolescentes em figurinos. Desejou ter uma vida como aquela.
Acordou um pouco atrasada para os treinos de atletismo, mas ainda conseguiu pegar o ônibus, o primeiro que passava no dia que ia em direção a escola. Antes de ir ao vestiário, foi até os armários e cumpriu a determinação de Santana: depositou um botão vermelho nos armários de Brittany, Sam e Kurt e mandou o recado para os demais que não estudavam na mesma escola. O botão vermelho significava que havia alerta de grande perigo e todas as atividades relacionadas aos botões estavam suspensas até segunda ordem. Sempre que havia sinal de botão vermelho, era porque algo grave havia acontecido. No caso, a invasão e explosão de umas das instalações dos botões poderia trazer uma série de consequências desastrosas para toda organização.
Rachel correu para o vestiário e empurrou a mochila no armário. As cheerios estavam no ginásio fazendo musculação, por isso Rachel não teve certeza de quem havia chegado à escola. Procurou concentrar-se nos treinos. Correr era bom para se desligar momentaneamente de certos pensamentos ou problemas. Encontrou Brittany nos vestiários após os treinos. Presumiu que a amiga ainda não havia visto o botão vermelho pela forma alegre que reagiu.
"Oi Rach!" Brittany disse como usual bom humor.
"Oi Britt. Como foi o seu treino?"
"Mais do mesmo. A treinadora berrando nos nossos ouvidos... San não veio. Bom, ela me ligou ontem a noite e disse que chegaria atrasada na escola."
"Certo." Rachel trocou de roupa.
"Como foi o cinema?"
"Divertido. Por que você não foi?"
"Estava ensaiando uma nova coreografia e perdi a hora." Então olhou para os lados para assegurar que não havia ninguém ouvindo a conversa. "Posso te contar um segredo?"
"Claro." Rachel sabia que os segredos de Brittany eram sempre relativos a alguma fofoca. "Todo mundo furou o cinema porque Kurt disse que você e Sam ficariam muito bem juntos."
"Foi uma armação?" Rachel ficou indignada. "Britt, eu adoro o Sam como amigo. Eu não estou querendo ficar com ele."
"Ir ao cinema com ele foi ruim?" Brittany franziu a testa.
"Não, nosso dia juntos foi muito agradável. Mas eu prefiro sair com Sam às sós se for uma decisão minha e dele, do que por uma armação sem-graça."
"É que Kurt disse que vocês dois ficam bem juntos. Eu também acho."
"Eu nunca descarto nada, mas Kurt está enganado."
"Mesmo? Puxa, Rach, você nunca fica com ninguém. Isso é estranho."
"Eu perdi muito tempo nutrindo um amor platônico por alguém que não seria bom para mim. Esse foi o meu problema, Britt."
"Ah, sim... Finn. Sabe de uma coisa, Rach? Se o seu lance com caras nunca dá certo, talvez você deveria tentar as garotas."
"O quê?" Rachel foi pega de surpresa.
Brittany apenas sorriu e terminou de se arrumar para as aulas. Rachel fez o mesmo e decidiu que depois teria uma conversa franca com Kurt. Andou pelos corredores ignorando os olhares que lhe eram dispensados. Depois de certo tempo com fama de vagabunda, o efeito da reprovação de uns e do desprezo de outros perdia a força. Viu Kurt conversando com Mercedes e Artie no final do corredor, e quando decidiu confrontar o falso namorado, seu olhar foi desviado para outra cena. Santana e Quinn estavam andando juntas com expressões mais sérias que o comum. A botão ficou tentada em abordar as garotas, mas como Santana não lhe deu sinal algum de que ela seria benvinda, decidiu recuar. Rachel voltou a focar no grupo de amigos. Sim, precisava ter uma palavra ou duas com Kurt. Mas foi a vez de Finn cruzar o seu caminho.
"Olá Rachel."
"Oi Finn..." Disse surpresa. O garoto dificilmente a cumprimentava pelos corredores, limitando o grosso de suas interações ao coral.
"Como está hoje?"
"Bem?" franziu a testa. "Você quer alguma coisa?"
"É verdade que você e o Kurt terminaram?"
"O quê?"
"Opa... acho que falei demais..."
"Acho que você falou... se me dá licença!"
Rachel driblou o grandalhão e foi em direção ao grupo. Quando chegou a eles, o sinal para entrar nas salas tocou, mas Rachel não deu bola e segurou o amigo antes que ele escapasse.
"Hey!" Kurt fingiu alguma irritação.
"Eu preciso falar contigo. Agora!"
"Temos aulas."
"Kurt..." Aproximou-se ainda mais e sussurrou no ouvido dele. "Não me faça fazer uma cena aqui nesse corredor."
Kurt encarou Mercedes e Artie, que tinham olhares quase piedosos. Então trocaram acenos e entraram em sala, ao passo que o falso casal tomou um caminho diferente, em direção a sala do coral, onde, teoricamente, não seriam perturbados. Assim que fechou a porta da sala com isolamento acústico, Rachel cruzou os braços.
"O que você andou aprontando?" Disse entre os dentes.
"Eu posso explicar, Rach. E posso lhe adiantar que tudo é um favor que faço a você." Ao ver que Rachel estava em compasso de espera, Kurt sentou-se em uma das cadeiras e fez sinal para que a amiga sentasse ao lado dele. Rachel revirou os olhos e permaneceu de pé, o que fez Kurt suspirar. "Ok... o que você ouviu?"
"Britt disse que você fez todo mundo furar o cinema para que eu e Sam ficássemos juntos. E agora pela manhã, Finn insinuou que eu e você terminamos. Que diabos, Kurt?"
"Eu acho que você e Sam tem muito em comum. Por isso decidi deixar o campo livre para os dois explorarem essa... amizade. Assim, ninguém vai julgar os dois ou te acusar de ser uma vagabunda traidora."
"Quem te deu o direito de tomar essa decisão de forma unilateral? Se você não quisesse continuar com o nosso teatro por estar cansado ou incomodado com alguma coisa, entenderia perfeitamente. Tudo bem para mim, embora eu sentiria falta dos jantares na sua casa. Agora você dizer isso por causa do lance com o Sam? Você é um idiota, sabia?"
"Rachel, seja razoável."
"Eu adoro o Sam, mas ele é meu amigo. Passei o sábado praticamente todo com ele, e se tivesse de rolar algo entre nós, teria acontecido ali. Porque, sinceramente, tivemos todas as oportunidades. A questão é que eu não consigo me ver namorando com ele."
"Tem certeza?"
"Claro que tenho, Kurt!" Rachel esbravejou.
"Oh!"
"Pois é! Agora você vai dar uma de magoado pelos corredores da escola, enquanto isso vai ter uma fila de caras se insinuando para mim agora que estou com fama de vagabunda... a começar pelo seu irmão!"
"Finn? Não pode culpa-lo Rachel. Você vivia atrás dele. Agora que ele terminou tudo com a Quinn e nós terminamos..." Fez aspas no ar com os dedos. "Esse caminho também está livre. Se tiver interessada..."
"Se isso acontecesse algumas semanas antes..." Rachel suspirou e decidiu-se sentar-se a lado do amigo.
"Mesmo? Se não foi o Sam, o que fez terminar o seu encanto por Finn?"
"Lembra da festa na casa do Mike, quando houve... aquela missão? Para encontrar a lista?" Kurt acenou. "Acho que foi mais o jeito que ele conversou comigo. Fiquei mais incomodada com minha breve conversa com ele do que todos os confrontos que tive com Quinn. Depois, teve a história com o Sam, e de como Finn e Puck têm agido como dois babacas."
"Em defesa de Finn, e me permita fazer isso porque moramos sob o mesmo teto, ele não é um camisa marrom. Pelo menos, não ainda, porque, sinceramente, eu não sei mais até que ponto vai a influência de Puck sobre ele."
"Finn costumava ser um cara legal. O que será que aconteceu?"
"Ele ficou realmente magoado quando descobriu sobre Quinn. Isso o mudou um pouco..." Kurt fez um breve silêncio. "Convenhamos, Quinn é uma pessoa horrível."
"Está enganado." Rachel disse sem olhar para o amigo, que a encarou com uma interrogação no rosto. "Quinn é uma garota com problemas demais. Coisas que a fizeram criar esse comportamento agressivo e cínico, mas acredite: são apenas mecanismos de defesa, e eu não a culpo por tê-los."
"O que você sabe sobre Quinn que eu não sei?" Kurt perguntou pausadamente.
"Nada de mais."
"Rachel..." Kurt tentou pressionar.
A questão é que Quinn ter o botão azul de Santana era um fato que Rachel não tinha certeza se podia ser espalhado entre os outros botões, até porque a cerimônia envolve uma apresentação oficial do novo componente a todos os outros do círculo. Rachel também se lembrou da conversa que teve com a líder no dia anterior, sobre o risco que foi fazer o convite. Por tudo isso, resolveu manter as informações para si.
"Isso não é algo para se fofocar."
"Então a história do amante mais velho com a mão pesada é verdade?"
"Kurt! Por favor!"
"Eu sabia..."
"É sério! Isso não é algo para se fofocar. Sem mencionar que Santana ficaria uma fera contigo. E você não iria gostar de vê-la brava, iria?"
Kurt engoliu seco e depois revirou os olhos.
"Ok... sem comentários maldosos sobre a vida sexual de Quinn Fabray... por enquanto." Foi quando olhou para a porta só para checar que ninguém estava ali por perto, espiando os dois. "Falando em Santana... eu vi o botão vermelho no meu armário. O que houve?" Disse quase sussurrando.
"Alguma coisa deu muito errado em uma de nossas instalações. Kurt, se você tivesse visto o jeito que Santana voltou para casa ontem... foi algo muito sério. Por isso, acho que deveríamos respeitar de verdade a ordem do botão vermelho."
Kurt acenou. Mesmo com todo o gosto que tinha para uma boa fofoca, mesmo entre botões, havia assuntos que deveriam ganhar toda seriedade. Antes de sair da sala, Kurt segurou na mão da amiga.
"Uma última coisa, só para confirmar... nós terminamos de verdade?" Kurt disse sério.
"Acho que sim. Talvez seja melhor já que as coisas chegaram a esse patamar."
"Ok, eu vou fingir alguma mágoa, mas se alguém tentar te assediar, juro que não vou hesitar em te defender."
"Eu sei que sim." Rachel deu um beijo no rosto de Kurt e foi a primeira a sair da sala de ensaios.
Na hora do intervalo, Rachel se sentou na mesa do refeitório em companhia de Sam apesar de todos os olhares: agora a fofoca que circulava foi que ela terminou com Kurt para ficar de uma vez com outro. Os dois viram Puck, Finn e mais dois atletas da escola se aproximarem da mesa, muito provavelmente para fazer uma provocação contra Sam, que atingiria Rachel como consequência. Mas antes que o grupo fizesse a aproximação final, Santana entrou na frente de Finn com jeito de poucos amigos.
"Vá circular em outro galinheiro, Mamute."
"Fica na sua, Santana." Puck advertiu.
"Experimenta." Disse de forma ameaçadora e depois virou as costas, indo em direção a mesa de Rachel e Sam.
A líder sentou-se com os dois e, com um característico gesto com as mãos, logo estavam ali Kurt e Brittany. Para o espanto de todos os demais, Quinn Fabray aproximou-se timidamente da mesa e sentou ao lado de Brittany para o espanto dos demais, menos de Santana e Rachel. Quando Kurt ameaçou fazer um comentário, Santana o olhou em advertência. Tomou um pouco do suco com toda calma, para encarar os demais.
"Sem querer ofender, Quinn." Sam disse tentando manter a polidez. "Mas por que você está aqui, sentando com a gente?"
"Porque o nosso círculo vai andar junto agora em diante. Chega dessas falsas briguinhas." Santana disse em tom baixo e calmo, porém com autoridade quase assustadora. Era o momento que falava como uma líder.
"Isso inclui... Quinn?" Kurt finalmente indagou ainda hesitante.
"Isso inclui Quinn." Santana confirmou. "E vocês têm a tarefa de ajudá-la a se tornar uma de nós. O meu botão azul está na mão dela."
O queixo de Kurt e Sam caíram. Brittany, ao contrário, ficou animada. Os olhos de Rachel cruzaram com os de Quinn. As duas trocaram acenos confidentes, fruto da confiança em uma amizade que começou a ser construída no fim de semana.
