A cidade em que aconteceria as eliminatórias da competição de corais de escolas era uma das maiores do país e uma das mais importantes. Tinha um grande centro, com alguns edifícios altos e bonitos. Havia o principal parque industrial do país e uma boa vida cultural. Por ser uma das cidades mais estratégicas do país pela importância econômica, havia muitos conflitos entre a classe operária que atuava nas empresas estatais e nas multinacionais que tinham licença para atuar (muitas tinham interesse em levar fábricas para o país por causa dos incentivos fiscais e da mão de obra barata). A cidade também abrigava a melhor universidade do país, que era uma das poucas presentes no índice de melhores universidades do mundo (178º posição de 300 instituições, mas, ei, o governo sabia fazer propaganda a respeito). Os estudantes da instituição se autojulgavam os mais politizados do país (havia três círculos de botões lá dentro) e tinham fama de contestadores. Nem sempre o governo era tolerante com os movimentos de oposição na universidade e na cidade, por isso ali era palco frequente do noticiário. Diziam que era um território sensível aos alvos terroristas, por isso a força policial era forte e imposições de toques de recolher eram rotinas para desespero dos comerciantes e donos de bares.
Mesmo assim, estar numa cidade grande excitava alguns dos integrantes do coral. O embarque no ônibus foi animado e quem observava à distância, podia até pensar que aquele grupo de adolescentes era muito entrosado e coeso. Tina e Mike trocavam beijos e se autodeclararam o casal mais fofo do grupo, o que fazia certo sentido porque eles eram o único casal do coral que era conhecido por todos. O outro, Santana e Brittany, era um segredo só compartilhado com quem tinha botões. Santana contava piadas para Mercedes, que não se continha em soltar a gargalhada alta e peculiar. Brittany parecia contar uma história dessas inacreditáveis para Quinn e Kurt por causa dos gestos expansivos.
Falando em Quinn: ela e Kurt começavam a colocar em prática o novo plano beard: se falavam mais, ficavam juntos na hora do almoço. Quando anunciassem o falso namoro, não surpreenderia e nem soaria falso. Rachel e Sam conversavam amistosamente, já que viajavam lado a lado. Finn, Puck e Artie riam alto. Os dois jogadores brincavam com o fato de Artie ser um dos piores mascotes do time de futebol americano de todos os tempos.
As cenas não passavam de um momento, uma distração. Finn e Puck não mais suportavam Sam. Artie estava chateado com a enésima rejeição de Brittany. Mercedes e Rachel haviam discutido sobre quem deveria fazer os solos, mas quem por fim herdou o serviço foi Santana por decisão de Schuester porque o timbre de voz era mais adequado à canção. Isso deixou a diva chateada com a líder, que simplesmente a ignorou. Rachel só faria algumas linhas de solo na composição do repertório ensaiado. Fora a divisão natural que se instaurou. Os botões tendiam a ficar mais unidos e fechados. Puck mergulhava cada vez mais no universo dos camisas marrons, como se apelidava o grupo de jovens que trabalhavam em prol da ordem e da paz do "Estado". Artie começava a seguir o mesmo caminho e os dois aliciavam Finn. Mercedes, Tina e Mike formavam o ponto de neutralidade do grupo e nunca se sabia o que esperar dos três. Por conseqüência, eram justas as pessoas que Santana temia mais. A líder sabia quem eram os três principais adversários e tinha todo o procedimento para lidar com os rapazes. As coisas estavam sob controle.
Santana estava prestes a soltar o botão verde, que libertava os demais da condição de silêncio e cada um poderia voltar para qualquer projeto ou missão que estivessem envolvidos. No caso do círculo dela, não havia missões agendadas a curto prazo, mas ela planejava aproveitar o período de calmaria para dar instruções e atividades individualizadas para cada integrante. Decidiu fazer com que Sam ficasse responsável pela comunicação com círculos responsáveis na coordenação de movimentos populares: ele gostava desse tipo de atividade. Quinn, Brittany, Blaine e Kurt teriam de ficar mais integrados nos programas sociais desenvolvidos pelos botões. Enquanto isso, Matt e Seban continuariam a treinar para as missões especiais que a própria Santana comandava. A líder também começava a considerar mais e mais Rachel como parte da equipe de ação, uma vez que ela já ajudava os demais com pequenas, mas importantes, tarefas.
Essa reunião sobre as novas atividades, no entanto, ficaria para a volta. Santana preferiu aguardar a volta das regionais para passar o sinal. Planejava, no entanto, visitar a sede dos botões na metrópole. A sociedade secreta tinha atividades mais fortes nas cidades maiores e Santana estava curiosa em saber mais sobre aquela que abrigava os círculos de botões mais radicais de toda organização. Ela própria não era uma radical, o que não queria dizer que não pudesse dialogar. Passou a viajem ao lado de Quinn pensando mais nisso do que no solo.
Ao contrário de Santana, Rachel tinha pensamentos mais artísticos, por assim dizer. Pensou basicamente no solo que não ia fazer. Fez uma audição de arrepiar os cabelos tamanha intensidade enquanto pensava em tudo que havia acontecido nos últimos dias: os problemas com Puck e Finn, as fofocas na escola por causa de Sam, o botão vermelho, Quinn. Sim, quanto mais tempo Rachel passava com Quinn, mas impressionada ficava com a nova amiga. Quinn não era apenas bonita e boa aluna, como já era sabido: ela também tinha vontade de vencer os próprios demônios, além de um senso de humor muito próprio.
Então Rachel cantou com todo sentimento, e foi uma interpretação incrível. Pelo menos foi o que ela pensou ao finalizar a canção e encontrou os companheiros boquiabertos. Não foi de admiração, mas sim de perplexidade com o exagero e as lágrimas da cantora ao final. Santana soltou uma pérola ofensiva e Schuester decretou que Rachel não deveria fazer o solo na competição.
O coral chegou ao hotel no início da tarde para a competição. Era um lugar do tipo barato, porém decente, em que o Novas Direções foi dividido em quatro quartos: dois masculinos e dois femininos. Mais uma vez, a divisão natural do grupo prevaleceu.
"A competição é amanhã à tarde." Schuester instruiu. "Vamos ensaiar pela manhã, mas hoje vocês estão liberados para explorar a cidade. Eu quero todo mundo aqui às dez horas em ponto." Gritos de alegria invadiram os corredores do hotel.
"Aonde vai?" Quinn ficou curiosa ao ver Santana se arrumando rapidamente.
"Pregar alguns botões." Respondeu seca, fazendo Rachel revirar os olhos.
"Mas San, e o nosso passeio?" Brittany tinha feições de filhote abandonado que eram duros de resistir.
"Vai ficar para amanhã... prometo!" Aproveitou que só tinha botões no quarto para beijar a namorada antes de sair.
"Às vezes penso que San é comprometida demais em resolver problemas." Quinn cruzou os braços depois de ver a amiga partir.
"É o trabalho dela..." Rachel entendia essa parte. Ainda estava magoada com a líder, mas a compreendia, ou tentava, melhor do que ninguém. "Alguma ideia do que fazer?"
Quinn tinha algumas coisas em mente. Não teve a chance de dizer de imediato quando Tina e Mercedes entraram excitadas no quart das colegas.
"Viram o jornal local?" Tina abriu numa página de meio e apontou para uma pequena matéria no pé da página. "Vai haver uma passeata autorizada amanhã de manhã no centro da cidade. Eu nunca vi uma! Deve ser tão excitante!"
"E você vai?" Para Rachel aquilo era uma péssima ideia.
"É passeata autorizada em favor de mais recursos tecnológicos para as escolas públicas. É coisa de estudante ainda por cima. Que mal pode ter?" Tina argumentou. "Já te falei que é passeata autorizada? Esse tipo de manifestação é sempre mito bem organizado e tranquilo."
"Que tal o perigo de inocentes estudantes se transformarem em demônios comunistas?" Rachel quis bater em si mesma quando a frase escapuliu da boca.
"Acho que não... acho que não vai fazer mal algum só espiar." Quinn ergueu os ombros e Tina sorriu com a aprovação.
"Mike disse que vai me acompanhar. Perguntei a Sam, mas ele veio com uma história de que a mãe dele talvez não gostaria. Eu heim... logo ele que é comunista!"
"Ele não é comunista!" Rachel esbravejou impaciente. "Por que alguém que tem ideias diferentes do convencional tem de ser chamado de comunista?" Sam nem tinha ideias fora do convencional: elas só não batiam com os imaginários comuns daquela época, que diziam ser o jeito certo. Não existia jeito certo.
Rachel sabia quem era a mãe que Sam se referia. Santana ia surtar se os botões fossem a uma passeata sem a autorização dela. Rachel não tinha certeza se era um senso geral da organização, mas Santana era contra tal exposição a não ser que as ordens viessem de cima. Por outro lado, a ideia não era tão mal para alguém que estava procurando um motivo para irritar a líder. Entrou em conflito.
"Ah... Vamos!" Mercedes também estava animada. "O professor Schuester não precisa saber, se o medo for este."
O professor Schuester daria uma bronca e diria que estava envergonhado. Santana seria capaz de esgoelar alguém, literalmente. Essa era a diferença fundamental entre os dois. Rachel olhou para as botões presentes. Brittany estava de olhos arregalados, testa franzida, na expectativa de como aquele assunto acabaria. Quinn ergueu a infame sobrancelha.
"Talvez seja... interessante. Estou dentro!" Quinn forçou um sorriso. Tina e Mercedes deram gritinhos de aprovação ao ver que a colega estava dentro.
"Quinn?" Rachel quase engasgou e apertou um botão da blusa. Foi ignorada.
Quinn tinha muitas feridas abertas em relação ao pai e as coisas em que ele a forçou. Os botões ofereceram um "novo lar", mesmo que fosse um cheio de regras e cuidados. Ela entendia e respeitava. Mas também não podia ignorar a necessidade de se rebelar, de extravasar a agonia em que vivia nos últimos dois anos. Uma passeata autorizada? Reivindicar algo que lhe parecia bobo? Valia pelo exercício.
"Você quer morrer?" Rachel agarrou o braço de Quinn na primeira oportunidade a sós com a colega, que fez um gesto brusco imediato para se libertar. "Santana..."
"Desde quando Santana virou a minha dona? Desde quando ela precisa controlar todos os meus passos?"
"Ela... escute, a gente precisa ficar longe desse tipo de manifestação..."
"Eu estou indo por mim!" Quinn levou a mão ao peito. "Faço isso por mim. Jamais pedi para vir junto."
Rachel ficou tensa. Enquanto os outros garotos do coral decidiram explorar a cidade, ela mesma preferiu ficar nas proximidades do hotel com Sam e Artie. O cadeirante não estava se sentindo bem e optou pela companhia do casal.
"Eu estou com mais um plano para tentar ganhar Brittany." Artie disse animado. "Uma serenata hoje. Queria saber se poderia contar com a sua ajuda, Sam. Você e Puck poderiam tocar o violão enquanto eu faço o número." O suco de laranja de Rachel quase saiu pelo nariz.
"Eu e Puck?" Sam não acreditava na ingenuidade do colega.
"Tenho certeza que as diferenças entre os dois não são tão grandes a ponto de me furtar este pequeno favor."
"Desculpe, cara, estou fora."
"É só uma serenata. Eu faria o mesmo por você se decidisse fazer uma para Rachel."
Os amigos se encararam. Aquele dia seria longo. Acontece que Sam não seria louco em ajudar alguém a tentar conquistar Brittany sabendo que ela namorava Santana. Não mesmo.
"Eu sei que sim, mas eu não posso. Desculpe, amigo, mas você vai ter de se virar sem mim."
...
Santana foi a primeira a voltar para o hotel e nem eram oito na noite. Encontrou os botões do coral reunidos no quarto para assistir um filme. Sam e Rachel estavam lado a lado em uma das camas, Quinn estava deitada sozinha em outra ao passo que Kurt e Brittany estavam abraçadinhos. Entre eles, pacotes de pipocas de micro-ondas vazios, latinhas de refrigerante e papeis de bala.
"Espero que nenhuma dessas camas seja a minha."
"Tecnicamente, nenhuma delas é sua." Kurt respondeu com uma ponta de má-criação, mas Santana não levava isso à sério. Kurt não seria Kurt sem as pequenas observações cínicas proferidas com certo ar de superioridade.
"Ótimo! Isso quer dizer que a única cama que não está suja de pipoca ou refrigerante deste quarto é a que vou dormir!" Santana rebateu e sentou-se na mesma cama em que estava Quinn. "O que vocês estão vendo?" Finalmente deu uma boa olhada para a televisão. "Jurassic Park? De novo?"
"Nada melhor do que ver dinossauros comendo gente." Quinn respondeu e parecia não muito interessada no filme. Na verdade, ela olhava com frequência incrível para a cama ao lado onde estavam Rachel e Sam deitados lado a lado, com suas cabeças encostadas
"Porque isso é muito inspirador!" Santana revirou os olhos e pegou um pouco do resto de pipoca só por causa do salzinho. "Tem mais não?"
"Cada saquinho é vendido por três contos no mercadinho em frente. Fique à vontade." Kurt respondeu enquanto Santana continuava a checar os sacos de pipoca.
"Com fome, baby?" Brittany perguntou.
"Um pouco."
"Tem sanduíche na sacola de plástico." Informou.
Santana abriu um sorriso e conferiu toda a comida industrializada que seus amigos havia comprado. Pegou o sanduíche e o devorou enquanto assistia o resto do filme com os amigos.
"A cena da cozinha!" Sam comemorou. "A melhor do filme."
"Esses moleques são muito burros." Santana esbravejou. "Não tenho a menor paciência com eles."
"Cala a boca!" Brittany estava tensa. Depois de alguns minutos, vibrou. "Essa é a melhor cena do filme!" Brittany abriu um sorriso quando o t-rex abocanhou o velociraptor. Começou a aplaudir, como sempre fazia, não importa se visse o filme dez mil vezes. Ela sempre iria comemorar o fato do dinossauro grandalhão salvar o dia.
"Então..." Santana voltou-se para os amigos. "O que eu perdi enquanto estive ausente?"
"Rachel e Quinn querem ir a uma passeata autorizada." Kurt dedurou.
"O quê?" Santana esbravejou. "No que vocês estão pensando? São loucas por um acaso? Querem morrer? Pior, apanhar e serem presas?! Essa não é uma passeata organizada por nós."
"É uma passeata legal. Foi até anunciada num jornal. É sobre reivindicar alguns computadores para as escolas públicas. Tina, Mike e Mercedes também vão. Passeatas legais dificilmente dão confusão." Rachel se justificou.
"Qual é o ponto de eu pertencer aos botões se não posso me manifestar contra o governo nem em condições supostamente legais?" Quinn ergueu a sobrancelha.
Santana coçou a cabeça. Estava em conflito. Ela tinha uma posição muito complicada onde era difícil estabelecer um limite de até quando as ordens dela deveriam prevalecer sobre o livre arbítrio dos demais botões. E a liberdade deles? E o poder de decisão? A conversa com a facção mais radical dos botões a fez perceber que ela estava adquirindo uma postura controladora que esses mesmos radicais defendiam e que não era tão distante assim do que o estado de características fascistas fazia com garotos como Puck. Por outro lado, o seu líder do círculo mais interno sempre batia na tecla de que cada grupo tinha o líder que merecia: firmes ou moderados, tudo ia depender de como os demais se comportavam. Eram coisas que confundiam Santana. Ela era uma adolescente com peso desproporcional de responsabilidade nas costas. Decisões certas e equivocadas faziam parte do processo.
"É uma passeata legal, certo?" Rachel e Quinn asseguraram. Ao menos era o que o jornal dizia. "Bom... eu não concordo, mas não vou impedir." A diva a encarou como se um extraterrestre tivesse aparecido diante dos olhos. "O que foi?"
"Quem é você?"
A pergunta de Rachel incomodou. Não respondeu. Distraiu-se com uma cantoria que vinha do lado de fora. O grupo saiu do quarto para a sacada no segundo andar viram Artie contando para Brittany enquanto Puck tocava o violão e Finn ajudava nos vocais. Mercedes, Tina, Apareceram na sacada do quarto ao lado. O sangue de Santana ferveu. Sentiu vontade de empurrar o garoto ladeira abaixo. Ela então voltou ao quarto e sentou-se na cama, respirando pesado para controlar o ciúme.
"Confia nela, San." Rachel sentou ao lado da líder... não, da amiga. Era o papel dela naquele instante. "Brittany é louca por você. Ela te ama. Então confia nela. Não vai ser uma serenata que vai fazê-la mudar de ideia."
Santana passou a mão pelos cabelos. Era só um dia muito cheio e que logo passaria. A verdade é que ela estava cansada demais e não conseguia mais pensar direito.
"Faça um favor, Rach? Apenas diga para os meninos darem o fora? Eu preciso desesperadamente dormir."
"Claro."
Santana acenou para Rachel, pegou uma toalha e foi tomar um desejado banho.
...
O dia amanheceu cinzento, frio. O inverno batia à porta. Rachel levantou-se e viu Santana ainda morta para o mundo na cama ao lado. Quinn já estava de pé. Vestia-se com calça jeans, camiseta básica, casaco de frio. Rachel achou estranho. Só via Quinn em tais trajes em apresentações do coral. No mais, ou era o uniforme das cheerios ou os vestidos.
"Já está na hora de ir?" Perguntou sussurrando para não acordar Santana.
"Daqui a pouco. Não quer ir?"
"Eu não sei..." Rachel espiou mais uma vez Santana adormecida "Meus pais costumavam ir a passeatas. Até que eu gostaria de sentir o gostinho de como era naqueles tempos."
"Então vamos! O que tem a perder?"
Era uma atitude ousada. Talvez não fosse tão excitante quando pular de um prédio para outro fugindo de agentes, como fizera uma vez, ou estar numa missão que envolvia algum perigo, mas seria uma experiência que talvez precisasse. Poderia ser algo que a aproximaria dos pais executados, e se Santana deu livre arbítrio a Quinn, por que faria o mesmo com ela?
"Mas e o nosso ensaio?" Rachel questionou.
"Estamos mais que ensaiados." Quinn nunca gostava da parte dos ensaios do coral. "E a gente nunca esqueceu uma linha nesse tempo todo. O professor Schue não precisa repassar tudo de novo."
"Eu vou me arrumar rápido." Rachel correu para o banheiro enquanto Quinn a esperou em silêncio.
Rachel escolheu roupas semelhantes da colega. Não faria sentido ir a um protesto com um vestido ou saia. Por prudência, sempre tinha uma calça jeans dentro da mala: coisa que Anna a ensinou.
"Vamos?" Rachel colocou o nada discreto casaco rosa.
"Ao menos vou saber que não me perderei de você na multidão." Não foi um comentário muito amistoso. Quinn abriu a porta do quarto e esperou Rachel passar antes de fechar.
As duas bateram à porta do quarto em que estavam Tina, Mercedes e Brittany. Não demorou até serem atendidas por Brittany. Elas entraram e tiveram de esperar mais um pouco, pois Mercedes ainda estava no banheiro fazendo a higienização matinal.
"Tem certeza de que não quer ir?" Rachel perguntou a Brittany.
"Não..." Abriu um forçado e vago sorriso. "Alguém precisa fazer companhia a San."
"Qual deles?" Tina franziu a testa. Aquele apelido era muito confuso.
"Santana!" Quinn, Brittany e Rachel responderam ao mesmo tempo para espanto de Tina. Não podia ser culpada por não compreender metade do contexto.
"Samuel..." Rachel complementou a explicação. "Vai ficar aqui também."
"Bom dia, bitches!" Mercedes saiu arrumada do banheiro. Ela e Tina não mudaram o estilo de roupa por causa da atividade diferente. "Preparadas para um pouco de ação?"
Para Tina e Mercedes a ideia da passeata não passava de uma farra. Nada mais do que isso. Mike encontrou as quatro meninas dentro da saleta que servia as refeições do hotel barato. Ele já tinha devorado uma panqueca feita na prensa que enojava Rachel de certa maneira. Quer dizer: as pessoas colocavam a massa líquida disponível pelo serviço do hotel e o próprio hóspede que se virasse na preparação em uma máquina própria que não se tinha certeza da freqüência em que era lavada, apesar de ela só servir para aquele propósito. Não. Ela passou por algumas necessidades e perrengues na vida, mas achava saudável preservar algumas das "frescuras" para o próprio bem. Era melhor ficar com o suco de laranja e com as torradas industrializadas com geleia.
Uma vez de estômago mais ou menos forrado, os cinco pagaram um táxi e desceram até o ponto onde foi anunciado que a passeata se concentraria. A multidão percorreria uma das principais avenidas, num trajeto de quase três quilômetros, quando dobrariam a esquina e ficariam em frente à sede do parlamento local. Geralmente um representante do governo saía para discursar que as reivindicações seriam atendidas dentro do possível. E aproveitava para fazer a propaganda para sair bem com todos com as promessas de mudanças.
"Quanta gente!" Mercedes se admirou. Não que fosse tantas pessoas assim. Devia ter pouco mais de cinco mil pessoas, sendo que a maioria era gente jovem.
"E aqueles agentes ali?" Mike ficou preocupado com os oficiais à cavalo.
"Eles devem estar ali para garantir que nada fuja do controle." Quinn teorizou. "Vamos ficar bem."
A passeata teve início e a pequena multidão começou a andar em direção ao parlamento. Muitas faixas pró-educação foram confeccionadas e gritos de ordem foram ensaiados. Na medida em que o grupo ganhava as ruas, mais pessoas – geralmente jovens – chegavam e aumentavam a pequena multidão. No meio das pessoas, Quinn ainda foi paquerada e declinou três jovens bonitos. Assim foi a primeira meia hora de manifestação. Até que um estudante subiu numa muretinha com um jardim em uma das esquinas e começou a discursar sobre melhoria na educação em meio às palavras "liberdade", "direito", "opressão". Os gritos de ordem começaram a mudar. Na esquina seguinte, outro estudante pegou o megafone subiu num carro estacionado para um novo discurso com mais palavras-chaves que fugiam ao roteiro original. Alguns outros começaram a pichar paredes e vitrines. Rachel ficou tensa quando viu que os agentes começaram a mudar a formação de mera escolta para adquirir uma postura mais ofensiva.
"Precisamos dar o fora daqui." Rachel agitou-se e agarrou o braço de Quinn.
"A passeata já está terminando!"
Quinn estava certa, mas de uma maneira errada. Um esquadrão da polícia começou a se posicionar no fim da avenida, o que impediria a passeata chegar até o parlamento. O sinal dos agentes em uniforme preto inflamou os ânimos dos estudantes que começaram a gritar "abaixo a opressão". De repente, Rachel sentiu alguém a agarrando por trás, pela cintura e, ao mesmo tempo, viu uma mão forte e feminina no braço de Quinn.
"Acabou a diversão!" Santana gritou. Era a líder que ordenava. Rachel ficou surpresa pela aparição repentina. Por outro lado, ela bem que deveria saber que Santana as vigiaria sem ser percebida.
"Nem vem Santana!" Quinn esbravejou, tentando se libertar.
"Eu disse: acabou a diversão!" Santana reafirmou autoritária impressionando Tina e Mercedes. Neste meio tempo, Sam, que acompanhou Santana, abriu os braços e tentou forçar a saída dos outros três para a lateral, onde poderiam tentar alcançar uma ruela.
Quinn balançou a cabeça e cedeu. Enquanto tentavam furar a passeata, um estudante parou em frente à tropa de choque e atirou um tijolo. Foi respondido imediatamente. Começou o corre-corre e os planos de alcançar a ruela em paz tornaram-se improváveis. Santana continuava a tentar progredir para a lateral segurando Rachel e Quinn pelos braços. O corre-corre estava insuportável. Barulhos de tiros zoavam nos ouvidos de todos, assim como os de vitrines sendo espatifadas.
Rachel era uma pessoa de trilhas sonoras. Tinha uma música perfeita para cada momento. Planejava tocar Marvin Gaye quando fizesse amor pela primeira vez. Tinha uma canção favorita para os momentos de explosão em felicidade, outra para os momentos de frustração, gostava de música dance para fazer exercícios, e assim por diante. Mas naquele momento, numa cena que renderia belas imagens em slow-motion havia um belo catálogo de artistas proibidos, como Bob Dylan, Rachel não conseguiu imaginar trilha alguma. Só ouvia gritos, tiros, vidros se partindo. Era a trilha-sonora mais assustadora que já ouvira.
O grupo conseguiu alcançar um beco e assim como várias outras pessoas, correram para o final em direção a cerca com arame farpado no alto. Santana não sabia o que tinha do outro lado. Se estivesse em casa, ela saberia para onde ir. Conhecia cada pedaço, cada atalho, tinha detalhado em sua mente soluções para fuga em dezenas de situações. Mas aquela era a droga de uma metrópole. Ela não sabia para onde ir. Só que tinha de tirar os botões e os colegas dali. Tirou a jaqueta e a arremessou nos arames farpados. Foi a primeira a pular com impressionante agilidade adquiridos em anos de artes marciais e o sempre bom auxílio do trabalho das cheerios. Do outro lado era o estacionamento de algum lugar. Não se importava de quê. Só que os dela tinham de fazer o mesmo o quanto antes. Podia ver a aproximação de um agente montado distribuindo pancadas na entrada daquele beco. Com sorte, ele não avançaria.
"Anda mais depressa!" Santana ordenou enquanto Rachel fazia o mesmo com agilidade surpreendente. E depois foi a vez de Quinn e Sam. Os botões mais rasos eram estimulados a fazer alguma atividade física. Rachel estava no atletismo, Sam jogava futebol, Quinn era uma líder de torcida, Blaine treinava boxe, Matt fazia dança, até mesmo Kurt e Seban, embora odiassem esportes, compensavam na academia.
Mike conseguiu superar o muro imitando os colegas e foi aquele que esperou pelas duas que ficaram para trás. Tina foi puxada para cima por Mike e algum auxílio de Sam. Mercedes era pesada e estava em pânico. Todos pularam o muro correndo e jogando um pé contra o muro para impulsionar um pouco para cima, o suficiente para alcançar o topo e depois se equilibrar nos arames parcialmente cobertos pela jaqueta de Santana.
"Vamos!" Rachel estimulava Mercedes em agonia. "Você tem que conseguir."
Sam pulou de volta para ajudar Mercedes, enquanto Mike trabalhava em cima do muro para puxá-la para cima. Eles chamaram atenção de um agente que correu com o cassetete em mãos. Quando Mercedes estava passando já para o outro lado, Sam precisou se apressar. Ele empurrou o agente para ganhar algum tempo, mesmo recebendo um golpe forte nas costas. Santana e Rachel gritavam para ele correr o mais rápido possível. Apesar da dor, Sam pulou no muro, agarrou-se na cerca de arame farpado, furou a mão no processo, mas conseguiu atravessar. Por sorte, havia tanta gente para bater que o agente não se dispôs a também pular o muro.
Uma vez que viu o colega a salvo, por hora, Santana planejava o próximo passo que se resumia em: para onde o instinto dela dizia que seria melhor correr. Percebeu que estavam no canto de um estacionamento privado, todo cercado, exceto a entrada e saída para onde as outras pessoas que pulavam a cerca estavam correndo. Uma viatura parou por ali para pegar algumas pessoas que satisfariam o prazer sádico daquelas pessoas em bater e ver o outro sangrar.
"Tira esse casaco." Santana ordenou a Rachel. "Eu não quero que você seja um alvo tão visível." A menina atendeu prontamente. A jaqueta de Santana e o casaco de Rachel ficariam esquecidos por ali.
"Para a saída!" Mercedes começou a correr, mas Santana a puxou pela gola da camisa, a enforcando brevemente.
"Para o edifício." E apontou para a viatura que já recepcionava alguns jovens que tentaram escapar pela direção errada.
"Vamos esperar lá dentro?" Quinn tentou acompanhar a corrida da líder.
"Não mesmo!"
Santana sabia que eles tinham de sair daquele perímetro o mais breve possível. Para o mais longe possível do centro e da sede do parlamento. Era procedimento padrão sitiar uma determinada parte após eventos como aquele. O tamanho do raio variava de acordo com cidade e situação. Por isso a única certeza que Santana tinha era: quanto mais distante, melhor.
Entraram pelos fundos do edifício que parecia um conjunto comercial com clínicas. Na entrada, Santana pegou uma vassoura e quebrou o cabo. Ela sabia se virar muito bem com armas brancas. O grupo atravessou alguns corredores em direção à frente do edifício. Um dos seguranças gritou e ameaçou sacar a arma. Não teve tempo. A adolescente já estava o acertando com o cabo. Levou um chute que o fez se curvar no chão. Não era a intenção de Santana fazê-lo sangrar. Ela só queria abrir passagem para o grupo até a porta da frente. No caso, um Starbucks. Invadiram o espaço do café, que estava fechado com poucas pessoas e mais os funcionários observando a confusão.
"Pára!" Mercedes implorou. "Não agüento. Aqui estamos seguros!"
"Você não é meu problema, Cedes. Você pode ficar e vai ser bom parar de me atrasar." Santana esbravejou e olhou para os dela. "Vocês vêm comigo." Quinn, Sam e Rachel não pestanejaram em obedecer. Até mesmo Mike e Tina a seguiu, pois sentiram segurança nas decisões de Santana.
A diva negra gritou de horror quando um tijolo estraçalhou um dos vidros. Quatro jovens invadiram e foram direto saquear o caixa. Foi quando Mercedes mudou de ideia e começou a correr mais uma vez com os amigos, procurando acompanhá-los o melhor que podia. Santana ia à frente abrindo caminho. Rachel e Quinn corriam de mãos dadas enquanto Sam procurava ajudar Mercedes o melhor que podia. Tina era problema de Mike. As pessoas corriam por ali e havia alguns agentes montados brincando de tiro ao alvo quando não estavam espancando de cima dos cavalos. Santana viu um agente empurrando uma adolescente que estava prestes a ser estuprada ali mesmo no meio da rua. Resolveu fazer uma cortesia e quebrou o cabo da vassoura no joelho do agente. Foi uma parada de segundos. Continuou a conduzir o grupo através de uma ruela com saída. Mais um quarteirão vencido. A rua paralela já tinha menos movimentação. Santana ainda precisava ganhar pelo menos mais uma antes de desacelerar. Tiveram de descer um pouco a avenida antes de entrar em mais uma ruela ganhar a outra pista paralela. Essa bem mais calma do que o inferno do epicentro da manifestação.
"Onde estamos?" Tina disse quase sem fôlego. Curvou-se e levou as mãos aos joelhos. Sentia dores abdominais, a boca estava seca e tinha certeza que vomitaria se continuasse a correr.
"Não sei!" Santana disse irritada.
"Eu não agüento mais!" Mercedes chorava livremente. Nunca mais repetiria aquela experiência em sua vida.
"Chore menos e ande mais!" Santana respondeu com incrível insensibilidade. Não podia condescender. Ela queria era gritar com Mercedes e Tina por terem tido a genial ideia de ir a uma passeata. Queria gritar com Quinn e Rachel por ter participado de uma atividade do tipo mesmo sendo botões. Queria gritar consigo mesma pela crise do dia anterior. Deveria ter sido dura e proibitiva com aquelas que eram responsabilidade dela. Antes de mais nada, tinha de levar o grupo de volta para a segurança do hotel. Desceram caminhando rápido pela rua e cortaram para mais uma avenida paralela. E uma última até que conseguiram encontrar um taxista.
"Eu não vou sair do meu ponto!" O motorista olhou para os adolescentes com receio.
"Pago o dobro da corrida, ok?" Santana disse com voz branda. "Só tire as meninas daqui..." tirou dinheiro do bolso, praticamente tudo que tinha, e o entregou nas mãos de Rachel. "Quando eu chegar, nós vamos ter uma conversa."
Rachel acenou e olhou para o chão. Tinha certeza que ela e Quinn seriam esgoeladas. Santana, Mike e Sam continuaram a andar. Desceram mais algumas ruas até que encontrassem outro taxista parado. Desta vez foi Mike que retribuiu a gentileza e pagou a conta. Santana olhava através da janela do carro. Estava cansada e frustrada. Mas acima de tudo estava aliviada por ter tido a ideia de ligar para o círculo local para saber de informações sobre a tal passeata. A inteligência local disse que seria uma roubada porque tinham notícia de estudantes pertencentes a grupos amadores que iriam se infiltrar na passeata. Santana não levou mais que dois minutos para convocar Sam e ir atrás das meninas.
"Você não vai matar as meninas... ou vai?" Sam tentou aliviar um pouco o ar tenso dentro do táxi.
"Vou tentar não fazer tanto estrago. A gente tem uma competição..." Olhou para o relógio. "Em duas horas e meia. O professor Schuester deve estar surtado."
Quando o táxi parou em frente ao hotel com os três integrantes restantes, havia uma reunião que ao longe parecia pouco amistosa do Novas Direções. Professor Schuester perdeu a calma e gritava com os alunos por tamanha irresponsabilidade. A situação piorou quando os três se aproximaram. Puck e Finn correram em direção aos recém-chegados como touros.
"Eu sabia que você só faria mal a ela!" Finn empurrou Sam.
Puck foi menos sutil e deu um soco no rosto do botão. Mike imediatamente tentou conter o ex-moicano para ajudar o colega. Sabia que os amigos estavam cometendo grande injustiça. Professor Schuester, Rachel e Quinn correram para tentar apartar a briga. Santana não quis saber e usou o que conhecia para colocar Finn no chão. Ela se sentiu como Legolas, quando o príncipe dos elfos derruba o elefante. Foi a primeira vez que ela demonstrava saber lutar, e muito bem, na frente de integrantes do coral.
"Parem com isso!" Schuester esbravejou. "Essa briga acaba aqui e agora!"
"Esse cara é má notícia. Só pode ter sido ele que convenceu as meninas a ir numa passeata estúpida." Puck esbravejou ainda contido por Schuester. Finn começou a se levantar aos poucos.
"É mentira!" Rachel gritou. "Sam e Santana foram nos tirar de lá! Se você quer um vilão, me culpe!"
"Não... a culpa é minha!" Mercedes entrou no meio de todos. "Se quiser bater em alguém, Puck... Finn... então vão ter que começar por mim."
Puck empurrou o professor Schuester e caminhou furioso para fora do hotel. Finn levantou-se envergonhado por ter apanhado de uma mulher, mas ainda mantinha alguma pose.
"Ele pode não ser culpado por essa confusão." Finn disse entre os dentes para Rachel. "Mas só o fato de você ter se envolvido com essas coisas já é sinal da má influência dele."
"Por que você não cala a sua boca?" Santana esbravejou contra o colega. "Eu fico enjoada pela quantidade de porcarias que saem dela. Nada de bom pode se esperar de um idiota que não raciocina, ainda assim acha que é herói infalível. Mas quer saber, Finn Hudson, a sua hipocrisia me enoja." Finn avançou sobre Santana e foi contido por Schuester. Ela riu. "Não precisa me defender, professor. Eu consigo derrubar esse idiota em dez segundos."
"Eu quero vocês todos no quarto agora... a competição está arruinada mesmo..."
"Nem tanto professor Schue." Kurt correu com um celular em punho. "Acabaram de avisar que as competições foram transferidas para amanhã de manhã por causa do bloqueio no centro."
"Certo... que bom..." Schuester disse baixinho. "Minha posição se mantém. Quero todos dentro dos quartos agora! Regime de confinamento!"
Santana foi a primeira a sair do pátio do hotel, seguida por Rachel. Quinn, que estava mais distante, também as seguiu para dentro do quarto. Mercedes e Tina procuraram unir-se às colegas, mas Brittany bloqueou a entrada do quarto.
"Vocês não podem ajudar agora, ok?" A dançarina disse calma.
Mercedes quis protestar, mas Tina a puxou para o outro quarto das garotas: o que elas estavam hospedadas. Dentro do que parecia ser um centro feminino dos botões, Santana olhou para Rachel e Quinn com certo desânimo. As meninas apresentavam rostos sujos, suados, algumas escoriações, arranhados. Ela não devia estar diferente. Quinn procurou falar algo, mas Santana levantou o dedo, a silenciando.
"O que aconteceu hoje não foi culpa de ninguém." Santana disse em tom baixo, compenetrado. "Mas fica a lição. Vocês são botões e não estudantes rebeldes mequetrefes. Vocês não são massa de manobra. Vocês precisam ser mais espertas que isso. E mesmo que resolvam fazer protesto público, que pelo menos estejam preparadas para correr... e saber como correr. Como botões, vocês têm assistência jurídica, mas ninguém vai conseguir garantir a segurança de ninguém dentro de uma delegacia. Coisas horríveis acontecem ali e vocês sabem disso."
Quinn e Rachel sabiam que não havia como contestar a líder porque Santana tinha razão. Elas não souberam se antecipar à confusão e nem a fugir sem uma liderança. Quinn foi blindada para tal realidade, mas Rachel conhecia várias histórias da crueldade dos agentes em relação a manifestantes em delegacias: agressões, torturas e até mesmo estupros: tudo era permitido para 'conter os terroristas.'
"Desculpe, San." Quinn estava mesmo arrependida.
"Olha..." Santana suavizou a voz. "Vamos olhar para frente, ok. Eu sei que você é nova no grupo, Quinn, e eu sei que há muita frustração aí dentro. Mas você terá a sua chance, ok?"
O corpo da líder estava moído. Ela pegou uma toalha limpa e foi em direção ao banheiro. Brittany sorriu para as meninas e também entrou no cômodo do quarto. Rachel suspirou e ligou a televisão num volume um pouco mais alto que o necessário.
"Elas vão fazer o que eu penso que vão... aqui?" Quinn sentou-se ao lado de Rachel, que apenas acenou para depois encarar a colega.
"E nós vamos dar cobertura. E só deus sabe o quanto será benéfico se Britt conseguir fazer San relaxar. Não viu o jeito que ela nos olhou? Disse que não era culpa de ninguém da boca para fora. Conheço San bem suficiente para pegar essas nuances. Por dentro, ela quer nos matar. Mas quer saber? Eu não a culpo depois de hoje."
"Você se arrepende?" Quinn a encarou e depois enrugou a testa ao ouvir um gemido mais alto vindo do banheiro.
"Apesar de ter quase ter sido espancada naquela passeata, de ter corrido feito uma louca e ainda ter de deixar um dos meus casacos favoritos na rua... Não, não me arrependo." Sorriu de leve. "Precisava passar por algo assim. Meus pais eram militantes, sabe? Lembro de ajudar meu pai a fazer cartazes no chão da nossa sala. Eles iam a manifestações para a defesa dos direitos civis de todos, não só de natureza LGBT."
"E você? Onde ficava?"
"Eles pagavam uma vizinha, que era a minha babá habitual."
"Oh... eu nunca imaginei. Toda vez que via passeatas acontecerem anos atrás, meu pai costumava estar ao lado falando coisas terríveis a respeito das pessoas que participavam dela. Chamavam de bandidos, arruaceiros, vagabundos. Esses eram os adjetivos mais leves. Por muito tempo pensei que ele tivesse razão."
"E quando você começou a mudar de opinião?"
"Posso dizer que comecei a entender que o mundo do meu pai é que era podre quando minha irmã foi estuprada. A solução que o meu pai achou foi mandar Frannie para o Texas! E o cara que a estuprou, continuou a frequentar a nossa casa como se nada tivesse acontecido. Toda vez que eu questionava isso, sentia a mão pesada do meu pai... Ele dizia que eu não entendia nada da vida, que deveria me sentir grata pela vida de privilégios que tinha. Que privilégios? Eu não era uma privilegiada. Eu era uma encarcerada em prisão de ouro!"
"Seu pai é um escroto."
"Não posso discordar." Quinn e Rachel ouviram um gemido alto vindo do banheiro e aumentaram um pouco mais o som da televisão. "Elas são muito corajosas em fazer isso aqui."
"Sim, elas são..." Rachel suspirou. "Brittany é a verdadeira corajosa do casal, sabia? É ela quem insiste em andar com Santana pelos corredores da escola segurando os pinkies."
"Não sabia disso." Quinn abriu um pequeno sorriso. "Antes eu achava que Santana se aproveitava da amizade de Brittany porque ela era pobre e queria ter um gostinho do mundo dos ricos."
"Você não poderia estar mais errada."
"Sei disso hoje. Acho que ficou até pior."
"Pior? O quê? Por quê?" Rachel franziu a testa. Ficou curiosa.
"Porque era confortável pensar que Santana apenas explorava Brittany, que tinha nada de verdadeiro entre elas, nem amizade. Sei que isso é egoísta e mesquinho da minha parte." Quinn passou a mão pelos cabelos e suspirou. "Não ligue pra mim. É que minhas emoções foram testadas hoje e estou tão mentalmente cansada, que só consigo falar besteiras."
Santana e Brittany saíram do banheiro com sorrisos bobos nos rostos. Em silêncio, elas se vestiram e ignoraram a presença das outras duas garotas no quarto. Elas trocaram um pequeno beijo nos lábios antes de Brittany sair do quarto.
"Aonde ela vai?" Rachel perguntou curiosa.
"Disse que quer dar uma passada no quarto de Tina e Mercedes para ver como estão. Sabe como ela é..." Santana suspirou e pegou a bolsa. "Nós vamos jantar na lanchonete aqui em frente. Vocês vêm com a gente ou vão querer que a gente traga alguma coisa?"
"Mas estamos em confinamento!" Rachel lembrou da ordem do professor, mas achou melhor esquecer isso ao ver o olhar quase assassino da líder.
"Não vamos atrapalhar?" Quinn perguntou.
"Não!" Santana respondeu seca.
"San..." Quinn se aproximou da líder. "Sobre hoje..."
"Eu já disse tudo que tinha para dizer sobre hoje, Fabray. Odeio me repetir."
"Ok..."
"Mas o meu humor vai melhorar consideravelmente se você pagar o jantar."
"Será um prazer." Quinn disse firme.
"Ótimo. Vou pedir um hambúrguer duplo!" Santana vestiu um casaco. "Vamos garotas?"
Rachel e Quinn trocaram olhares e se prepararam para sair.
