Era o 18º aniversário de Rachel. E também o último dia na escola antes do break para as festas de fim de ano. A última vez que ela fez uma grande celebração, Hiram e Leroy ainda estavam vivos. Os Puckerman nunca fizeram nada para marcar a data. No máximo, Anna lhe dava um cupcake e colocava uma vela em cima. Recebia parabéns de alguns colegas e vida normal. Às vezes Rachel sonhava com uma festa. Quando era menor, os pais promoveram algumas: eles chamavam crianças da vizinhança e da escola para comerem um lanche com Rachel. Eram poucas crianças, porque nem todos os pais permitiam que seus filhos fossem a uma festinha da filha de um casal gay. Mas as que compareciam, aproveitavam comida farta e diversos jogos.
A última vez que Rachel teve uma festa foi para celebrar o 10º aniversário. Depois disso, as coisas ficaram nebulosas para a família Berry. Mas enquanto estiveram vivos, Hiram e Leroy jamais esqueceram de celebrar com a filha. Rachel não sentia mais vontade de celebrar o aniversário depois que os pais foram mortos pelo estado. Quando ela fez 16 anos, Juan, Maribel e Santana organizaram um almoço farto com os pratos favoritos de Rachel. Todos os botões do círculo foram convidados, mas apenas Kurt e Matt compareceram à casa dos Lopez. Rachel se lembra do evento com carinho especial: foi nessa época que os laços de amizade entre ela e Santana se estreitaram em definitivo.
Olhando para trás, Rachel entendeu quem sempre foram seus verdadeiros amigos. Botões ou não, Santana, Sam e Kurt sempre tiveram um lugar especial no coração dela. Santana era como uma irmã, Sam um amigo em que sempre pôde confiar, e Kurt era um doce em que Rachel podia sempre encontrar um ombro amigo e uma palavra amena. Não podia ser mais grata por eles estarem na vida dela. Mas o ano corrente fez com que percebesse que pessoas que ela considerava amigáveis, na realidade podiam ser traiçoeiras. E que outras pessoas eram bem melhores do que julgava antes. Foi o caso específico de Quinn Fabray, que havia revelado ser uma amiga atenciosa, apesar dos óbvios problemas emocionais e de confiança.
Rachel olhou para o calendário pendurado na porta do banheiro. Ela completava 18 anos naquele dia. A idade em que constitucionalmente se tornava uma adulta e passava a ser dona do próprio nariz. Também significava que Anna deixaria de receber a ajuda financeira que tornava interessante a presença de Rachel ali. Por outro lado, a botão finalmente teria acesso às economias deixadas pelos pais e o dinheiro do seguro. O Estado comeria quase a metade por causa de impostos, mas ainda assim era um bom dinheiro que a possibilitaria sair da casa dos Puckerman com algum respaldo. Desde as competições e do incidente da passeata que Puck sequer a olhava no rosto e a convivência entre os dois passou do difícil ao insuportável. Rachel sabia que era uma questão de dias para os Puckerman a expulsarem de casa.
"Bom dia, Rach!" Brittany a abraçou com força no meio do vestiário antes do treino de atletismo. "Feliz aniversário!"
"Obrigada!" Sorriu com a lembrança da quase sempre carinhosa Brittany.
"Não se iluda com essa história de ser maior, anã!" Santana veio logo atrás da namorada secreta. "Não quer dizer que vá crescer alguma coisa mais para cima."
"Essa esperança eu já perdi há algum tempo." Abraçou a líder. "Que curioso. Eu agora tenho 18, sou dona do meu nariz, ao passo que certas pessoas..."
"Vai sonhando!" Se havia algo que Rachel poderia brincar com Santana, era por ser dois meses mais velha que a líder.
"Meus parabéns, Rachel." Foi a vez de Quinn abraçá-la, mesmo que ainda de forma acanhada. "O que pensa em fazer agora que é dona do próprio nariz?"
"Tomar o meu primeiro porre, sair da casa dos pais, arrumar um amante e sumir estrada afora." Rachel brincou com as piadas clichês sobre ser maior de idade.
"Que criatividade!" Santana ironizou. "Mas se você quiser, posso pensar em algo bem empolgante para você fazer."
"Como me ensinar a andar de moto?" Rachel perguntou esperançosa.
"Como fazer faxina lá em casa."
"Que gentil!" Quinn revirou os olhos.
"O que deu em você para defender Rachel em cada oportunidade que surge?" Santana provocou deixando Quinn vermelha.
"Porque ela gosta da Rach mais do que você." Brittany deu um beijo no rosto da namorada, e aquilo era o máximo que as duas se permitiam fazer em domínio público, especialmente na escola, onde havia muitos olhos e ouvidos alheios.
"Quem disse?" Santana reagiu genuinamente ofendida. "Rachel é quase como uma irmã irritante... apesar de tudo, ela é família."
"Exatamente por isso, baby." Brittany apertou a mão da namorada com expressão de orgulho.
Quinn ficou ainda mais vermelha ao observar a interação do casal, que àquela altura estava completamente alheio que as duas pessoas sobre o qual elas discutiam estavam ali a menos de dois metros. Rachel, por outro lado, estava com o coração aquecido. Era a primeira vez que Santana se referia a ela como família na frente de outras pessoas. Sentiu vontade de dar um abraço apertado na líder, mas justamente porque conhecia Santana que se conteve.
As quatro deixaram o vestiário e seguiu-se a rotina do dia. O treino foi realizado no ginásio junto com as cheerios por causa da primeira nevasca do ano. Não havia muito que fazer. As duas equipes se juntaram para fazer uma atividade de recreação. Brincaram de queimada e fizeram pequenas competições: atletismo versus cheerios. Rachel estava muito melhor fisicamente e ganhou uma corrida contra Quinn e Brittany. No entanto, não conseguiu superar Santana, o que era frustrante. Rachel desejaria vencer a líder em pelo menos uma coisa que não fosse alcançar uma nota musical aguda e em conhecimentos musicais. Nos estudos, elas se equiparavam. Pelo menos no que dizia às disciplinas convencionais da escola.
Mal saiu dos vestiários após os treinamentos e foi surpreendida pelos outros botões que estudavam naquela escola: em resumo, Sam e Kurt.
"Tenho algo para você." Sam abriu a mochila e tirou um pequeno pacote.
Rachel abriu o embrulho de presente o mais depressa que pôde. O sorriso e os olhos se alargaram quando viu um caderno de notas todo trabalhado artesanalmente. Era um presente de pouco valor material, mas Rachel pôde ver o carinho do amigo para fazer a produção de colagens, que incluía uma estrela dourada.
"Você vive falando que gosta de estrelas e que um dia gostaria de ser uma a brilhar nos palcos. Então eu fiz esse caderno para você poder anotar coisas que inspirem sua própria arte."
"É lindo Sam." Limpou uma lágrima nos olhos. "Amei."
"O seu presente não está aqui..." Kurt interrompeu o momento.
"Não faz mal, Kurt. Vem cá." Os dois se abraçaram.
O momento foi interrompido por outros não-botões, mas que nem por isso deixavam de ser amigos. Mercedes, Tina e Mike fizeram questão de cumprimentar Rachel no aniversário dela, tal como dois dos garotos da banda que acompanhava o coral. A calorosa recepção deixou Rachel muito feliz. Aquilo era sim uma novidade: ela nunca se sentiu tão amada. Será que tinha de demorar tanto tempo assim para acontecer? Diziam que para tudo há uma razão. Sejam quais fossem os motivos cósmicos, ao menos estava grata pelo instante de aceitação e de carinho. Foi até o armário guardar os livros e viu um botão branco de Santana. A líder ia falar em reservado, o que para Rachel era um momento perfeito. Tinha coisas a discutir. Assunto número um: a mudança da casa dos Puckerman.
O último dia de aula antes do break também foi a oportunidade que o professor Schuester usou para fazer uma pequena celebração no coral. Julgou que seria bom para melhorar o pesado clima e reaproximar um pouco mais os integrantes. Seriam entregues também os prêmios dos melhores nas regionais. Melhor performance masculina foi para Artie. Verdade seja dita: ele era o mais dedicado entre os homens ao coral. Melhor performance feminina foi para Santana pela interpretação colossal nas regionais. Era uma escolha óbvia, uma vez que ela foi a solista. Mas o prêmio de MVP foi surpreendentemente para Brittany. Ela fez todas as coreografias, sugeriu o solo de Santana e ainda foi a pessoa que mais ajudou na organização do grupo. Sem mencionar que ela e Kurt foram os únicos que não se envolveram diretamente na briga.
Rachel, em sua cadeira (estava sentada entre Sam e Tina) achou irônica a foto que Schuester tirou dos vencedores. O casal que não podia ser visto em público com o terceiro elemento. Artie não escondia para ninguém que queria Brittany de volta e fazia todos os movimentos que podia para tentar consegui-la. Santana estava ficando louca da vida com as tentativas e contava até 50 para não matar o colega de coral. Ainda assim, estampou o rosto com falsidade e sorriu para a foto ao lado do cadeirante. Em seguida vieram as fotos com o grupo todo.
O encontro com Santana seria às cinco da tarde na casa da Brittany. Rachel estranhou a líder não marcar o encontro na base dos Botões, onde poderiam ter toda a liberdade. Não estavam mais sob ordem de silêncio. De qualquer maneira, o tempo foi apropriado para que ela pudesse resolver alguns problemas particulares. Tinha de ir ao escritório de Wes Gilmore, o advogado que fazia parte dos botões e que tinha uma cota de casos que resolvia em pro bono. Rachel era um desses clientes que não pagavam. Era preciso dar entrada nas papeladas para receber o dinheiro deixado pelos pais e nada melhor do que um profissional para resolver burocracias de banco e seguradoras.
Depois de passar no centro da cidade, onde funcionava o escritório, pegou um ônibus em direção ao bairro nobre. Andou cinco quarteirões debaixo de uma fina neve. Tocou à campainha.
"Oi Rach!" Brittany ainda estava no mesmo modo feliz. "Venha! Preciso te mostrar uma coisa." E a puxou pelo braço até a casa da piscina.
Era uma festa surpresa. Rachel levou a mão à boca. Não era uma festa surpresa dos botões, mas de todos os amigos. Estavam presentes todos do coral, inclusive Finn e Puck, alguns garotos da banda, alguns colegas do time de atletismo, Anna e Natalie, professor Schuester e senhorita Pillsbury. Rachel nem sabia por quem estava sendo abraçada. Só que estava feliz. O lugar estava enfeitado com balões coloridos e tinha até um bolo em cima da mesa com o desenho de uma nota musical.
Os meninos da banda não levaram instrumentos, em compensação o baterista levou o computador e fez algumas programações de karaokê. Cada integrante do coral teve a chance de escolher uma música e fazer o seu show, inclusive Quinn, que era uma integrante do time a maior parte do tempo e poucas vezes foi a voz principal. Todos cantaram em homenagem a Rachel. Finn chegou a causar algum impacto ao cantar "Baby I Love Your Way".
Foi quando Quinn decidiu se arriscar. Ela ainda estava indecisa sobre cantar, mas depois do desconforto que Rachel demonstrou pela declaração inesperada de Finn, decidiu que se subisse ao palco, talvez minimizaria tal sensação. Cochichou algo no ouvido de Sam, que acenou, pegou o violão e os dois se posicionaram em cima do pequenino palco.
"Essa é uma das músicas que mais gosto, é uma das coisas mais bonitas que já ouvi na vida. Sei que é uma canção meio açucarada, mas é uma das coisas que mais gosto de cantar quando me sinto bem. Por isso gostaria de dedicá-la a Rachel. Saiba o que há na letra dessa música é o que desejo para ti de todo meu coração."
Logo nos primeiros dedilhados, os gritos de aprovação. Três notas e entrou a voz de Quinn.
"Grew up in a small town/ ans when the rain would fall down/ i'd just stare out my window/Dreaming of what could be/ and if i'd end up happy/ i would pray/ trying hard to reach out/ but when i tried to speak out/ felt like no one could hear me/ wanted to belong here/ but felt so wrong here/ so i'd pray/ I could breakaway/ i'll spread my wings and i'll learn how to fly/ i'll do what it takes, till i touch the sky/ make a wish, take a chance/ make a chance and breakaway..."
O final da música foi seguido por aplausos acalorados seguidos por um beijo que Rachel deu no rosto de Sam e um abraço apertado em Quinn. Um abraço que seguiu de um beijo que Rachel intencionava dar o rosto de Quinn, mas que terminou por roçar levemente, brevemente, nos lábios. Foi só um movimento desajeitado. Qualquer um que assistia podia perceber isso. Então por que o coração de ambas acelerou? Por que sentiram uma onda elétrica? Rachel rompeu o abraço e percebeu que o rosto de Quinn estava vermelho. Ela própria se sentia um pouco quente.
A festa continuou por mais algum tempo. O bolo foi cortado. O primeiro pedaço foi oferecido a Anna como reconhecimento por tudo que a matriarca Puckerman fez por Rachel. A convivência pode ter sido fria na maior parte do tempo, mas Anna não deixou de cuidar e de olhar pela pequena diva sonhadora.
Aos poucos, os convidados foram deixando a residência dos Pierce. Por volta das oito horas, só alguns dos botões estavam por ali ajudando na limpeza. Rachel caminhou em volta da piscina de formato irregular (lembrava um grande grão de feijão) e viu Santana sentada em uma das espreguiçadeiras. Parecia que enviava mensagens de textos pelo celular. Rachel decidiu sentar-se ao lado.
"Você vai congelar aqui fora!" Alertou. "E pode ficar doente!"
"Olha quem fala..." Santana não desgrudou os olhos do celular.
"Problemas?"
"Talvez. Mas eu não quero falar disso aqui e agora." Colocou o celular no bolso do casaco. Vasculhou o outro bolso e tirou um envelope. "Está endereçado a você."
"Como?" Era uma carta de Shelby. "As correspondências só foram re-autorizadas nesta semana... e até onde eu sei, você não viajou..."
"Eu tenho os meus meios, anã. Ainda não aprendeu?" Santana apontou para a nada discreta observação de só entregar a carta no dia 18 de dezembro.
"Até onde eu conheço as regras, você não pode ficar de posse de uma correspondência." E Santana acenou. "Você não acha que anda quebrando protocolos demais?"
"Bitch, eu sou o top dog de um círculo. Se algumas regras precisam ser quebradas, então este serviço deve ser meu e de mais ninguém!"
"Ok..." Rachel olhou mais uma vez para o envelope que tinha um objeto dentro. Ela abriu com cuidado e encontrou uma carta e um pen drive.
"Querida Rachel,
estava louca para te dar um presente de aniversário, mas ainda sei tão pouco de suas preferências. Acredito, no entanto, que a gente deva aproveitar toda a oportunidade para nos conhecer o melhor que pudermos antes do nosso encontro. Por isso pensei em algo diferente, uma mensagem que gravei neste pen drive.
Te amo,
Shelby"
"Sua mãe é econômica." Santana não teve o menor pudor em ler a mensagem. "Você pode abrir o arquivo no computador do senhor Pierce, se quiser. É só pedir para ele."
"Você quer ver comigo?"
"Não nesta primeira audição. Se valer à pena, se for divertido ao menos, daí você mostra antes de apagar a informação. Mas acredito que você deva ver primeiro sozinha."
"Devo apagar o arquivo?"
"A prudência manda..."
Rachel acenou. O senhor Pierce aceitou de bom grado ceder um dos computadores da casa para que Rachel pudesse assistir a tal mensagem. A botão fechou-se na biblioteca, onde tinha um computador que era muito usado pela irmã menor de Brittany, clicou no arquivo de vídeo e o programa abriu. Shelby apareceu em frente a uma câmera. Estava sorrindo. Rachel não acreditava no quanto a mãe dela era bonita.
"Oi Rachel!" A moça morena de longos cabelos castanhos escuros falou na tela e Rachel imediatamente se apaixonou pela voz dela: era doce e, ao mesmo tempo, determinada. "Eu não sei fazer discursos. Câmeras me deixam nervosa... por isso que prefiro o teatro. Ainda assim, decidi que o melhor presente que poderia te dar era uma música..."
Shelby subiu em um palco onde estava um homem calvo ao piano. Então começou a cantar "Hello Dolly!", o clássico de Louis Armstrong na versão cantada por Barbra Streisand no filme homônimo. De repente, o que parecia ser uma apresentação solo, virou um show com direito a coral feito pelo que parecia ser colegas de elenco de Shelby. Tinha até coreografia. Rachel gargalhava ao mesmo tempo em que chorava. Entre todos os bons presentes que recebeu no 18° aniversário da vida dela, aquele foi o melhor.
...
"Eu juro, Berry, que vou te matar!"
Santana estava gritando em desespero. Rachel usou o botão laranja para fazer uma solicitação oficial: convocou o círculo para montar um vídeo em que ela pudesse mandar para Shelby. Era uma forma de agradecer e, ao mesmo tempo, mostrar o quando Rachel também era talentosa. A causa era botão porque os outros integrantes do coral não podiam saber das razões para a produção do pequeno musical. Entre inventar desculpas esfarrapadas para um grupo que pouco se gostava ou fazer o filme com um pequeno, mas bom material humano que não precisava de maiores explicações, a segunda opção era mais lógica. Todos tinham dias livres por causa do break, então não seria de todo mal separar um dia para ajudar a colega. O problema era o perfeccionismo de Rachel.
"Mas San, você entrou na hora errada. A coreografia é clara: você tem que dar o seu salto de cheerio depois que entra a orquestra, não antes. Senão fica parecendo que o coelho da propaganda de pilha invadiu o meu clipe!"
"Coelhinho é..." Santana foi contida em avançar para cima de Rachel e teve a boca tapada por Matt, que estava se segurando para não rolar de rir.
Os demais também estavam no mesmo espírito de descontração. Seban se divertia como câmera e ele era auxiliado por Sam, que já não achava segurar uma vara com um microfone pendurado tão divertido. Os demais: Santana, Quinn, Matt, Kurt, Blaine e Brittany faziam coreografias e o coral enquanto Rachel interpretava com toda genialidade, palavras dela, "It's Oh So Quiet". Eram quase três horas trabalhando em cima das filmagens no porão da casa de Brittany.
"Muito bem, todos de volta às posições iniciais." Rachel gritou como se fosse um verdadeiro diretor de cinema.
"Banheiro primeiro!" Brittany correu até o toalete.
"Tomara que não seja o número dois!" Kurt revirou os olhos.
"Bitch, a minha garota não faria uma coisa dessas aqui e agora." O barulho que veio da toalete contradisse a líder que logo se ruborizou.
"Ela comeu castanhas demais." Quinn consolou ao mesmo tempo em que tentava controlar a risada.
"Pelo menos eu posso me sentar um pouco..." Sam se jogou no sofá.
"Você ainda está com essa câmera ligada?" Rachel reparou que Seban passava por cada um com a câmera digital apontada.
"É para o making off!"
"Ninguém vai fazer making off sobre a ida da Britt ao banheiro." Santana esbravejou e provocou mais risadas.
Brittany saiu da toalete com um sorriso de alivio no rosto. Kurt pegou um spray de bom ar sem a menor cerimônia. O problema é que era de uma marca que tinha o perfume um pouco mais ativo e Blaine começou a espirrar. Foi mais dez minutos de confusão e xingamentos até que, depois de uma necessária pausa para a água, ficaram novamente em posição para gravar. Rachel gritou "ação" e Kurt ligou o playback instrumental. A câmera começava com um close up em Rachel enquanto ela ia se afastando lentamente.
"It's oh so quiet/ it's oh so still/ You're all alone/ And so peaceful until..."
E valeu! O arquivo ficou com Seban, que iria editar o material. Em meio a comemoração, Santana recebeu um telefonema. Rachel viu muito bem quando Santana atendeu com o aparelho que tinha linha segura, o que significava uma emergência oficial. Franziu a testa. Não era a primeira vez que Santana saia correndo por alguma razão Botão superior, mas isso não queria dizer que não se preocupasse toda vez que acontecia.
Santana mal despediu do círculo e já estava ligando a moto. Os novatos Sam e Quinn ficaram com cara de interrogação com a saída súbita. Rachel e Matt olharam um para o outro e sentiram a necessidade de explicar, afinal, na ausência de Santana, eles eram os líderes.
"Isso acontece às vezes." Matt forçou um sorriso. "Santana também é integrante de círculos mais internos. As vezes ela é chamada para participar de coisas dos quais a gente não tem muito conhecimento."
"Como atividades terroristas?" Quinn arregalou os olhos e Rachel colocou a mão no ombro dela.
"Depende da sua definição de terrorismo. Se for aquele clássico extremista que sai matando por causa de uma crença revestida de intolerância, bom, pode ficar tranquila que não é o caso. Os Botões não são assassinos extremistas, Quinn. Há alguns grupos radicais que atuam no país, mas esses não somos nós. Agora se você toma por terrorismo qualquer ação que vise oposição a esse estado fascista, bom, então todos nós somos."
"Na verdade, ninguém é mais terrorista do que o nosso próprio governo." Sam vociferou. "Eu não sei o que Santana realmente faz, mas seja lá o que for, posso apostar que não é pior do que esses caras fazem conosco. Quisera eu estar no lugar da Santana e ter um pouco de ação real."
"E nós não temos?" Kurt retrucou. "Olha, eu nem sei porque Santana me convocou, mas desde que me tornei um botão que só o que tenho é ação real. Só o meu namoro com Blaine é prova disso. Só o esforço que vocês fazem em nos proteger é prova disso."
"É que você acabou de chegar Sam." Seban disse e todos prestaram atenção porque era muito raro ele se manifestar numa discussão. "Há trabalho para todo mundo. Você é o cara das ações populares, fato, mas se nada aconteceu até agora, é porque você não está pronto. E essa sua bravura é um sinal disso. Tem que ser mais frio, irmão. Ter a cabeça no lugar, estudar."
"Na verdade..." Matt tomou a palavra. "Santana estava discutindo comigo sobre as atividades sociais que cada um de nós faremos como botões. Vamos distribuir essas tarefas em breve. Santana quer que vocês façam o trabalho voluntário pelo menos uma vez por semana, que sintam outra realidade e façam algo a respeito. Especialmente você, Quinn."
"Mas e eu?" Sam questionou.
"Há coisas que você precisa aprender, Sam. Estar envolvido com os movimentos populares é tarefa das mais complicadas. É como ir ao front de uma guerra. Tem que se preparar fisicamente e mentalmente. Há gente nos botões que se dedicam só a esse tipo de treinamento."
"Mas quando?" Sam ficou ansioso.
"Sua impaciência só prova o nosso ponto de que você precisa aprender, inclusive a esperar."
"E quanto a mim?" Rachel perguntou.
"Eu não sei ao certo, Rach. Santana apenas disse que era hora de você começar a saltar mais alguns prédios, seja lá o que isso signifique."
Sem Santana, o grupo se dispersou. Rachel pegou carona com Sam, que disse que iria passar primeiro na casa dele para pegar um presente de natal que havia prometido a amiga. Colocaram os casacos grossos, luvas, e Sam procurou dirigir a mobilete com o máximo de cuidado por causa do asfalto escorregadio. Ele trocou os pneus para os de neve, ainda assim, todo cuidado era pouco. Chegaram na casa de Sam e encontraram a senhora Evans arrumando as compras para a ceia de natal. Era dia 23. Stevie e Stacy, os irmãos mais jovens, estavam excitados com as bengalas que colocariam enfeitando a árvore de natal só para serem devoradas no dia 25.
"Que bom que vocês chegaram." Senhora Evans olhou para o par que entrava na cozinha. "Assim vocês me ajudam a manter um olho nessa dupla endiabrada."
"Claro!" Sam pegou o irmão e o jogou por cima dos ombros, como se o pequeno fosse um saco de batatas. Stacy não queria perder a farra e se agarrou nas pernas do irmão mais velho.
Rachel sorriu com a interação dos irmãos. Balançou a cabeça e andou em direção a senhora Evans.
"Posso te ajudar?"
"Oh, querida. Se você puder guardar essas compras naquela parte do armário." Apontou as portas desejadas. "As compras de geladeira eu mesma organizo."
"Ok!" Colocou as sacolas em cima do balcão. Pegou uma escadinha doméstica, abriu as portas do armário e viu que tudo era bem organizado. Seria fácil colocar as coisas nos lugares corretos.
"Você vem passar o natal conosco?"
"Eu ainda não sei..." Rachel sorriu com a ideia e se sentiu lisonjeada com o convite nas entrelinhas. "Faz alguns anos que passo o natal na casa de Santana Lopez. Mas não é que isso seja uma regra..."
"Santana Lopez? Não é uma Santana Lopez que faz parte do coral?"
"A mesma! Nós somos amigas próximas... Ela é temperamental, mas é uma ótima pessoa."
"Imagino que sim. Sammy só diz boas coisas desta turminha de vocês. Fico feliz por ele ter um bom grupo de amigos." Ouviu gargalhadas vindas da sala. "Só espero que aqueles três não se machuquem..."
Sam continuava a brincar com os dois irmãos, que estavam em cima dele fazendo cosquinhas. Era a vitória por ter derrubado o irmão mais velho. Era uma imagem divertida, lúdica e até inspiradora. Foi quando o celular de Rachel tocou, por coincidência no mesmo momento em que também tocou o de Sam. Rachel olhou a mensagem em código e arregalou os olhos. Olhou para a família e tentou não entrar em pânico diante da emergência, mas como alertá-los? Rachel passou aqueles segundos inquieta até que disparou.
"A gente precisa sair daqui!" Ela gritou chamando a atenção de Sam e da senhora Evans, além das crianças.
"O quê?" A senhora Evans estava confusa. "Você precisa ir embora?"
Mas era tarde. O alarme foi disparado tarde demais para eles. A campainha tocou. Sam tirou os irmãos de cima dele e levantou-se para atender apesar dos protestos de Rachel. Quando a abriu teve a desagradável surpresa de encontrar dois agentes com um papel em mãos.
"Aqui é a residência de Samuel Evans?"
"Sou eu." Sam foi à frente, tentando ser uma barreira para proteger os irmãos.
"O senhor está preso por atividades ilegais contra o governo." O agente foi logo o empurrando contra a parede e o algemando.
A mulher e as crianças da casa começaram a gritar em desespero. Mas não Rachel, que tentava permanecer calma. Um agente mostrou um documento de busca e apreensão, que na prática era uma autorização para arrebentar tudo e, se por um acaso encontrasse algo interessante, como uma arma, que fosse apreendido como prova. Mas aqueles agentes não sabiam diferenciar um autor legal de um filósofo contestador. Desde que eles cumprissem a ordem de prisão, estava tudo bem para os dois.
O agente mandou Sam ficar de joelhos e com a cabeça baixa. E depois foi até Rachel.
"Qual o seu nome, senhorita?"
"Rachel Berry."
Ele sorriu de forma desagradável e pegou outra algema.
"Ora, ora! Se não é o meu dia de sorte? Pegar dois coelhos com uma cajadada só?"
Agarrou a jovem e também a virou contra a parede. Rachel não reagiu. Precisou de toda calma do mundo para não se desesperar. O agente quando a pressionou contra a parede deu voz de prisão, a algemou e começou a apalpá-la. Sam viu estrelas, e mesmo algemado, foi para cima do agente, que foi tomado de surpresa. Mas o contra-ataque foi imediato: em meio aos gritos, o agente puxou o cassetete e o bateu com força na cabeça do rapaz. O sangue escorreu e Sam desmaiou na queda. A senhora Evans gritou com as duas crianças menores em seus braços. O agente olhou para uma trêmula Rachel e sem cerimônia levou a mão ao sexo dela por debaixo da saia. Rachel olhou para o lado, estava enojada. Não era possível que seria estuprada ali mesmo, na frente daquela senhora e crianças. Tentou lutar contra as lágrimas, mas elas teimavam em cair. Em especial quando sentiu o agente afastando sua calcinha para o lado acariciando grosseiramente seu sexo, e Rachel procurou se travar lá embaixo numa tentativa para que um dedo indesejado não a invadisse com facilidade. Isso não aconteceu, no entanto. O agente tirou a mão e sorriu.
"Aparentemente você não está escondendo nada, mas nós vamos examinar melhor na delegacia. Deus sabe as coisas absurdas que vadias costumam esconder dentro da buceta e no cu."
"Não há nada aqui. A casa está limpa." O outro agente voltou a sala depois de revirar toda a casa só pela destruição em si.
"Mas esses dois vão presos. Estão na lista."
Um agente empurrou Rachel para dentro do carro e depois voltou para ajudar o companheiro a arrastar um ainda desmaiado e ferido Sam. Rachel ficou apavorada com a escuridão dentro do camburão. Havia uma janela estreita em que os agentes podiam vê-los e vice-versa, mas todo resto era escuro e abafado. Ela estava só com a roupa do corpo, sem bolsa, sem celular, e ficou temerosa em não conseguir chamar por ajuda. O medo de ser estuprada tão logo chegasse a delegacia também era grande. Maior ainda seria ver o amigo ser morto. Em todos esses anos como Botão, jamais foi presa. Ela enfrentou muitas situações de risco, mas nunca teve o seu nome decretado num ato de prisão. Sam começou a gemer em seu colo e Rachel não sabia se isso era um alívio ou um problema. A verdade era que Sam precisava de um hospital e ela sabia que os agentes não teriam tal sensibilidade.
O percurso durou uma eternidade até que o carro parou. Rachel tentou olhar pela janela estreita e pensou corretamente que eles haviam chegado a delegacia. A essa altura, Sam mexia os olhos e gemia. Os agentes abriram a porta do camburão e o arrastaram para fora primeiro. Depois um terceiro agente agarrou Rachel pelo braço e a puxou para dentro do edifício. Não que ela fosse oferecer qualquer resistência. Ao entrar na delegacia, eles foram fichados e jogados numa cela que, para surpresa deles também estavam presentes Mercedes, Tina, Mike e Quinn. Nenhum sinal de Santana. Foi quando Rachel ligou os pontos: eram as pessoas que participaram da passeata. O que significava também que alguém do coral fez a denúncia.
Sem as algemas, Rachel pôde dar uma olhada em Sam, que já despertava.
"O que..." Ele disse fraco.
"Fique quieto, ok?" E examinou o ferimento. Não parecia ter quebrado nada, mas a pele foi rasgada e Sam iria precisar levar alguns pontos.
"Ele está bem?" Mike procurou ajudar Rachel. Era o mais tranqüilo diante das outras garotas, que estavam chorosas.
"Eu não sei. Acho que sim. Mas ele precisa de um médico."
"Você acha que..."Mercedes tentou perguntar.
"Que a gente está aqui por causa daquela maldita passeata?" Rachel esbravejou. "É uma possibilidade."
"Rachel... me perdoe." Quinn disse entre soluços. "Fui quem colocou você nessa situação."
"Você não me forçou a nada, Quinn. Agora, escute aqui: você sabe o que é, então pare de choramingar!" A voz de Rachel era de puro comando, o que surpreendeu os demais. Especialmente porque Quinn não esboçou nenhuma reação.
"Eles não pegaram Santana ainda." Tina observou.
"Duvido que eles consigam." Rachel disse baixinho, apenas para ela mesma.
Um agente entrou na área das celas acompanhado de um senhor alto e forte e de outro de cabeços claros. Rachel conhecia o mais forte do episódio em que ela precisou pular entre prédios. Tratava-se de Wes Gilmore. O segundo de cabeços claros era ninguém menos que o parlamentar Pierce, pai de Brittany. A presença de Rachel ali significava que o assunto estava encerrado. E estava mesmo. O agente destrancou as celas e libertou todos os jovens. Tina, Mike e Mercedes estavam agitados com tudo aquilo, o que era natural, mas Rachel fez sinal para que Quinn ficasse em silêncio e foi obedecida.
Na sala de recepção os jovens encontraram os pais de Tina, Mike, Mercedes e Sam. Ninguém esperava por Rachel e Quinn. Após alguns esclarecimentos, Wes Gilmore disse que todos eles estavam livres depois do pagamento de fiança, mas que a ficha deles estaria terminantemente suja. Significava que qualquer outra passagem pela polícia, mesmo que pelo menor delito, eles teriam de responder ao processo e até permanecerem presos. Havia outro significado para aqueles jovens: ficha suja era um indicativo que qualquer chance para entrar na faculdade foi ainda mais reduzida. Era alo desesperador para alguém como Tina, Mercedes e Mike. Nem tanto para Rachel, que sonhava mesmo era em dar o fora daquele país.
Os pais de Sam deram suporte ao jovem que ainda precisava de apoio para andar e certamente o levaria para o hospital. Rachel não quis acompanhá-los porque sabia que ele estava nas melhores mãos. Olhou para Quinn, que estava sozinha. O quase isso. O parlamentar Pierce passou o braço nos ombros dela e a abrigaria. Restava Rachel, que estava acompanhada de Gilmore. Ele mandou que a jovem fosse até ao carro com ele. Só então, na segurança do veículo, que ela teve coragem de perguntar.
"Notícias de Santana?"
"Lopez está foragida."
"O que ela fez?"
Gilmore apertou os lábios e ligou a ignição do carro de luxo.
"Vou te deixar na casa dos seus tutores. Eu vou esperar você descer, pegar alguns pertences e depois vou te deixar na casa de alguém do seu círculo que não seja Santana, Samuel ou Quinn."
"O senhor conhece o meu círculo?"
"Todos desta cidade conhecem o círculo de Santana Lopez." Ele deu um meio-sorriso.
Ao entrarem na rua de operários, Gilmore estacionou em frente a casa dos Puckerman sem que Rachel precisasse lhe dar direções. Ele a acompanhou até a porta e Rachel a abriu. Entraram e viram Anna consolando Natalie por alguma razão enquanto Puck estava sentado no sofá vestido com a agora usual camiseta vermelha. De resto, tudo parecia estar no lugar.
"Os agentes vieram aqui?" Rachel ficou ainda mais nervosa.
"Você disse que jamais traria confusão para dentro desta casa." Anna disse entre os dentes. "Mas você trouxe. E se não fosse por Noah, coisa muito pior teria acontecido."
"Os agentes revistaram a casa?" Rachel imediatamente se arrependeu de ter feito a pergunta.
"Então você sabe!" Puck levantou-se e foi em direção a amiga com jeito de quem estava enojado. "Quem é esse cara?
"Wes Gilmore." O advogado estendeu a mão a Puck. "Sou advogado da senhorita Berry e o senhor é?"
"Eu fui presa na casa de Sam..." Rachel disse entre os dentes para Puck. "Você deve estar feliz agora."
"Você não é tão inocente, não é mesmo... Rach?" O tom de voz era carregado de ironia.
"Pegue suas coisas e, por favor, vá embora desta casa!" Anna disse amargurada.
Rachel olhou para a família Puckerman que algum dia chegou a amá-los. Mal acreditava que dois dias atrás a própria Anna tinha lhe feito um bolo de aniversário. Agora ela estava a expulsando de casa. Sabia que sairia de qualquer forma e em breve, mas jamais imaginou que seria daquela forma. Rachel acenou e começou a chorar porque era uma despedida dolorosa. Ela passou pouco mais de quatro anos morando com aquela gente e desejava sair de cabeça erguida, não daquela forma humilhante. Desceu para o porão e quando viu o quarto não ficou surpresa por tudo estar revirado e quebrado.
Pegou uma mala e juntou algumas das roupas espalhadas pelo chão. Procurou o livro em que guardava as fotos de Shelby. Ao menos as lembranças ainda estavam ali. Pegou documentos, o saquinho de botões e coisas da escola, além de algumas fotografias. Deixou o resto para trás. Subiu as escadas. Apesar de tudo, fez um discurso de agradecimento pela família tê-la abrigado por tantos anos. Chorando, saiu pela porta da frente junto com Gilmore.
Começou a nevar.
"Meu celular ficou na casa de Sam. Eu não sei quem pode me abrigar."
"Neste caso, sugiro a pessoa com maior hierarquia."
"Matt... ele é que tem maior hierarquia ao meu lado e depois de Santana."
Gilmore acenou e emprestou o celular a Rachel. Rachel entrou em contato com o amigo botão e não precisou explicar muito sobre o que aconteceu. Agradeceu Gilmore novamente e olhou melancólica para a casa dos Puckerman. Não precisava terminar daquela forma.
