A claridade bateu no rosto de Rachel em um ângulo diferente do que estava acostumada. Ela vinha de uma janela grande à direita da cama. O quarto em si tinha decoração simples e discreta: um papel de parede de tom pastel e móveis de madeira escura: um armário pequeno, uma cômoda e a cama de casal. Normalmente pegaria o roupão e iria ao banheiro. Mas aquela não era uma situação normal. Antes da higienização matinal, precisou vestir-se primeiro. Pegou a escova de dentes nova (a velha ficou esquecida na casa dos Puckerman) e rumou para o banheiro. Viu a porta entreaberta e a empurrou. Flagrou Jimi, irmão mais moço de Matt, nu. Deu meia volta gritando por desculpas. Não estava acostumada com aquilo. Passou anos com um banheiro só dela. Nunca teve de verificar se estava ocupado ou não.

"Rachel?" Matt saiu do quarto.

"Eu acabei de flagrar Jimi pelado no banheiro, mas foi sem querer, eu juro!"

O próprio saiu rápido, vestido em uma toalha em volta da cintura.

"Jimi, desculpa, eu estava sonolenta. Deveria ter prestado mais atenção."

"Rach, calma aí! Foi nada!" O mais jovem sorriu. "Eu não me importo se uma garota bonita me flagrar no banheiro de vez em quando. Se quisesse, poderia até ter ficado. Não ia achar ruim." Piscou e foi para o próprio quarto. Mas não antes de levar um cascudo do irmão mais velho.

"Inacreditável!" Matt balançou a cabeça. Jimi era um garoto hormonal de 15 anos que havia descoberto as mulheres há pouco tempo e, como todo moleque que acabara de viver a primeira experiência, se sentia o dono do mundo.

"Acho que eu..." Rachel ainda estava atordoada.

"Não foi mesmo nada. Você o viu pelado e ele ainda achou ótimo. Nada demais. Use o banheiro sem problemas, ok?"

Ela acenou. O banheiro em questão estava alagado por causa do banho recém tomado. Sem falar na bagunça de roupas sob o cesto quando deveria estar dentro dele. Havia uma calça pendurada com uma cueca bem à mostra. Aquilo era um pesadelo. Ela procurou pensar que tudo era apenas provisório, como um mantra que repetia dezenas de vezes em pensamento. Desceu as escadas ainda vermelha pelo incidente, piorou quando viu o enorme sorriso malandro estampado no rosto de Jimi.

A casa dos Rutherford era de dois pavimentos e ficava num bairro de classe-média baixa. A cafeteria do senhor Rutherford gerava um bom dinheiro à família pela popularidade e compromisso com a qualidade que eles sempre mantiveram, mesmo em tempos de recessão quando chegava a faltar alguns produtos nas prateleiras do supermercado. Apesar da simplicidade, tudo era muito acolhedor naquela casa, que estava especialmente enfeitada para o natal, com uma árvore colorida armada no canto. Rachel gostava muito dessa parte das festividades. Os pais de Matt não se opuseram em receber a velha amiga em apuros do filho. Seria crueldade desamparar alguém em pleno natal. Rachel sabia que as coisas só permaneceriam daquela forma se ela ficasse por pouco tempo, no máximo até o ano novo.

"Café?" Perguntou o senhor Rutherford, o melhor barista da cidade.

"Por favor!" Rachel forçou um sorriso enquanto era servida.

"Matt disse que você saiu brigada da casa dos Puckerman" A senhora Rutherford comentou casualmente e era óbvio que fariam perguntas.

"Como eu completei 18 anos, eles não recebem mais àquela bolsa do programa para abrigar órfãos. Eles não tinham mais razão para me manter por perto de qualquer forma." Disse amargurada. "Por outro lado, agora posso resgatar o dinheiro dos meus pais que foi retido pelo governo. Vou ter o suficiente para alugar um apartamento por um ano ou dois. Claro que vou arrumar um trabalho para me manter. Só que é muito complicado lidar com imobiliária ou com qualquer outra coisa nesta época de festas de fim de ano."

"Verdade!" Senhor Rutherford passou os olhos pelo jornal. "Meu irmão é corretor de imóveis e ele vai parar durante essa semana. Só começa a trabalhar na segunda semana de janeiro. Aliás, ele pode ver algo que possa ser interessante para você, Rachel. Algo que caiba no seu orçamento. Pensa em morar sozinha ou em dividir o aluguel?"

"Ainda não pensei nesses detalhes, senhor. Tenho uma amiga que mora sozinha e talvez ela possa querer dividir despesas. Mas ainda não a encontrei ainda para conversar a respeito."

"Falando nisso." Matt interrompeu. "O que você acha de reunirmos a turma hoje pra uma confraternização?" Falou num tom em que ela só poderia dizer sim. Os botões precisavam se reunir após os acontecimentos trágicos do dia anterior.

"Claro! Vai ser legal."

Reunir botões era tarefa se Santana, não deles sem uma ordem direta da líder. O problema é que Santana havia sumido do mapa. Rachel terminou o café, ofereceu-se para ajudar com as louças e só então voltou para o quarto e procurou pelo celular até se lembrar que o aparelho ficou perdido em algum lugar na casa de Sam. Lamentou-se porque começou a sentir muita falta do aparelho. Precisava ligar para Sam e perguntar como estava o amigo. Matt emprestou um celular para que Rachel pudesse se tranqüilizar.

"Matt?" Rachel sorriu ao ouvir a voz dele.

"Oi Sam, é Rachel."

"O que você está fazendo com o celular do Matt?"

"Longa história que não importa agora. Como você está?"

"Melhorando. Meus pais me levaram para o hospital e levei cinco pontos na cabeça. Mas está tudo bem. Estou medicado e já não sinto tanta dor."

"Eu sinto muito, Sam. Queria ter recebido o aviso antes. Mas quando o recado veio, era tarde demais."

"Foi assim para todo mundo, certo?"

"É... Como os seus pais reagiram? Como o seu pai reagiu? Eles estão bem?"

"Meu pai disse que entrou em pânico quando chegou em casa e encontrou tudo revirado com a minha mão desesperada abraçada aos meus irmãos. Quando eles correram até a delegacia, estranharam ao ver que já tinha um advogado cuidando do caso. Bom, eles ficaram tão aliviados que nem me fizeram muitas perguntas ainda. Mas eu sei que vão fazer, Rach! O que faço?"

"Diga parte da verdade: que o parlamentar Pierce atendeu a um pedido da filha dele para resgatar amigos."

"Só isso?"

"A chave de se fazer acreditar é dizer parte da verdade sob outra perspectiva e sem muitos detalhes. Brittany é nossa amiga e pronto. Ela deve ter sido informada dos amigos de algum modo e pediu para o pai ajudar. Fim de papo."

"Você pode ser muito pragmática as vezes."

"É necessário nesses casos. Olha Sam... eu só queria saber como estava e te avisar que eu estou aqui na casa do Matt provisoriamente. Ah, e que meu celular ficou na sua casa. Se puder guardá-lo para mim..."

"Claro! Por que está na casa do Matt?"

"Porque os Puckerman me expulsaram e Matt me abrigou."

"O quê?" Sam esbravejou surpreso ao telefone. "Puck teve a coragem de te colocar na rua depois de tudo?"

"Isso iria acontecer de qualquer forma, Sam."

"Isso não se faz, Rach. Aquele calhorda merece um soco!"

"Puck pode merecer um soco, mas não será você que vai dá-lo, ok? A última coisa que precisamos agora é mais confusão."

"Rach..."

"As coisas vão se acertar. Depois combinamos para você me entregar o celular."

Rachel desligou o telefone e suspirou. Tinha uma sensação de vazio, de quem tinha coisas a fazer, mas sem vontade de fazer absolutamente nada. Rachel tinha necessidade de deitar numa cama e chorar o dia inteiro, pela abordagem invasiva do agente que quase a estuprou no ato da prisão, pela violência da própria prisão, pela denúncia feita por colegas só pelo fato de terem ido a uma passeata que deu errado, pelo fato da família Puckerman ter a expulsado de casa depois de anos de convivência pacífica na maior parte do tempo. A situação dela era quase desesperadora. Não que fosse pior do que a casa revirada dos colegas, do ferimento de Sam, do trauma daqueles que não eram botões e não estavam preparados para tal. Mas era ela que sentia, e doía. O pior é que não podia desabar.

Rachel não teve sequer tempo em pensar em querer desabar, pois o celular de Matt logo tocou. Era Santana. Rachel ficou tentada a atender, mas preferiu respeitar e procurar o amigo para que ele atendesse, e sorte era que Matt estava na sala ao lado. Com um pequeno sorriso, ele agradeceu à amiga e atendeu ao aparelho. Então ele franziu a testa.

"O que ela queria?" Rachel ficou curiosa.

"Ela só me deu um endereço e disse para a gente se apressar."

" A gente quem?"

"Ela quer só eu e você."

Rachel se arrumou o mais rápido que pôde. Colocou as luvas, o casaco grosso e o gorro. Dez minutos de carro e entraram no bairro da elite de Lima. Rodaram um pouco mais até encontrarem a rua indicada por Santana. Estranharam quando perceberam que ali funcionava uma igreja católica. Aquilo não podia estar certo. Pararam no estacionamento e Rachel ligou no celular da líder.

"San, o endereço que você deu é uma igreja..."

"Há uma entrada na lateral que vai dar para o escritório do padre. Estou esperando vocês lá."

Rachel olhou para Matt achando aquela história muito estranha. Mas obedeceram. Havia uma porta lateral além daquelas que davam acesso ao salão da paróquia. Estava aberta. Matt e Rachel entraram e tal como foi dito, Santana estava por lá. Encontraram a líder de costas para eles, olhando uma imagem de Jesus Cristo. Santana era católica, embora não fosse a uma missa há muito tempo. Ela virou-se para os amigos e revelou olhos inchados, expressão cansada e lábios ligeiramente maiores.

"San..." Rachel percebeu que a amiga não teve uma noite fácil. Bom, nem ela ou qualquer um daqueles que teve uma visita forçada à delegacia. Independente disso, Rachel andou ao encontro da líder e a abraçou forte.

"Preciso mostrar algo a vocês dois..."

Santana respirou fundo e pediu para que os dois a seguissem até uma escada que dava para o subsolo. Entraram numa espécie de capela rústica. Atrás do altar havia uma portinhola camuflada, em que era preciso olhar muito bem para distingui-la da parede. Santana apontou para o mecanismo semelhante ao painel do elevador que dava acesso a sala comunal dos Botões e inseriu o próprio botão metálico e digitou uma senha que liberou um segundo painel para leitura biométrica da íris. Só então a porta camuflada se abriu.

Rachel e Matt ficaram impressionados com o salão amplo e rico. Um muito mais requintado do que a sala comunal com acesso no depósito atrás da pizzaria. Era um local com decoração barroca com uma grande mesa de centro. Nas laterais e nos fundos haviam prateleiras abarrotadas de livros. Tantos que parecia que tinham entrado numa biblioteca antiga de uma universidade do Século 18. Era incrível.

"Santana..." Matt estava sem palavras.

"Bem-vindos ao local onde os botões graúdos desta cidade e arredores se encontram."

"Mas você..." Rachel tentou perguntar, mas não sabia exatamente o quê.

"Olha, eu não tenho muito tempo para explicações. Vocês vão entrar ou não?"

O trio avançou e encontraram o parlamentar Pierce e Wes Gilmore discutiam encostados à mesa. E também reconheceram o juiz Gabriel Bangs, o padre George Goldino, titular daquela paróquia, e Stan Cain, um dos grandes industriais do país. Para a surpresa deles, Reynolds Fields, o técnico de futebol de Sam, recebeu o trio adolescente.

"Bem-vindos à segunda sede dos botões." Disse a Matt e a Rachel.

"Isso aqui é... incrível!" Rachel demorou a conseguir falar.

"Já falou com eles, San?" Reynolds disse austero.

"Não... bom, atrás das prateleiras tem um jogo de sofá confortável. A gente pode ir para lá."

Rachel estava assustada e excitada ao mesmo tempo. Assustada porque Santana estava mais séria que o normal e não era apenas por causa do rosto exausto. Excitada porque o lugar era incrível e sem mencionar que conhecer aquela sede que até então só tinha ouvido falar, significava que tinha crescido em importância entre os botões. Viram o jogo de sofá luxuoso e muito confortável. A decoração do espaço era linda. Matt e Rachel ocuparam o sofá de dois lugares enquanto Santana sentou na poltrona e inclinou o corpo para frente.

"Eu vou sair do país amanhã!" Santana disparou e os corações de Rachel e Matt quase saíram do peito.

"Como assim amanhã?" Rachel esbravejou. "Você não pode nos abandonar!"

"Existem planos para mim. Planos estes que eu não posso falar a respeito. Amanhã um grupo de figurões vai viajar pela manhã e eu vou junto no avião." Encarou Rachel. "Vou para o Leste. Provavelmente na mesma cidade que sua mãe biológica."

"Para o Leste?" Rachel forçou um sorriso, mas já estava em lágrimas. Era o tão sonhado Leste que ela desejava fervorosamente: era o significado de um mundo livre, de oportunidades, de onde alguém poderia desenvolver uma carreira nas artes e ser levado à sério. Era para o lado onde a fronteira era a mais fechada, para onde não havia voos comerciais direcionados, não era possível atravessar a fronteira de carro e que era preciso se arriscar nas montanhas também altamente vigiadas em ambos os lados para conseguir sair (e entrar).

"Talvez eu..." Santana limpou as lágrimas. "Enfim. Comigo fora deste esquema preciso passar o chapéu. Matt, você agora é o líder do círculo e Rach é a sua segunda no comando. Claro que isso não será por muito tempo. Em seis meses, a maioria vai terminar a escola e os botões serão redistribuídos em novos círculos. É provável que Seban herde a responsabilidade de continuar o nosso círculo já que ele é o mais jovem. Bom, Reynolds é o cara que organiza essa parte dos círculos menores e ele vai saber orientá-los quando chegar a hora..." Fez uma pausa para se controlar. Estava lutando para a emoção não tomar conta. "Rach, você deve receber em breve a convocação oficial para entrar em um segundo círculo. Os dois, na verdade. Então vão poder aprender mais sobre a organização dos botões, a complexidade que é... talvez assumam algumas novas funções. Claro que serão treinados para tal primeiro."

"Isso não está acontecendo..." Rachel desejava ser mais influente. Mas não daquela forma. O que ela queria que a própria Santana a introduzisse.

"Vocês vão ficar bem." Forçou um sorriso. "Bom, eu tenho que passar algumas coisas para vocês então é melhor fazer logo. Fiquem de olho em Quinn. O pai dela a machucou muito, por isso que está com comportamento mais rebelde... ela é importante, sabe? E é muito provável que seja a próxima a deixar o país para a própria segurança. Seban é o melhor hacker que conheço e ele ama ajudar. Façam-no se sentir necessário que vão ter um aliado motivado para o que der e vier. Não se preocupem muito com Kurt e Blaine. Até segunda ordem, eles atingiram o máximo deles dentro da organização. O mesmo com Brittany."

"E Sam?" Rachel ficou curiosa.

"Ele é fiel à causa e vai progredir no tempo dele. Precisa apenas paciência para aprender sobre nosso sistema." Rachel acenou. Santana tirou do casaco um pedaço de papel e o entregou a Rachel. "Ontem foi um dia muito estranho. Eu recebi esse chamado e quando voltei à casa dos meus pais, encontrei tudo revirado e os meus velhos muito assustados. Eu não pude me despedir direito deles. Só disse que as coisas iriam ficar bem. Eu abracei meus pais e saí de casa com algumas roupas." Santana parou de falar para controlar as próprias emoções. "Rachel, porque você é a mais próxima da minha família e porque eles te adoram, queria que você entregasse essa carta aos dois." Respirou fundo para segurar o choro mais uma vez. "O meu quarto tem algumas peculiaridades que os agentes não descobriram, e como eu sei que você vai se confundir, fiz um mapa." Entregou outro papel a Rachel. "Coloquei num papel amarelo porque é o sinal de atenção e vai ficar fácil de você relacionar."

"É isso?" Matt franziu a testa.

"Basicamente." Santana já não continha o choro. "Oh, eu queria que você continuasse o treino na academia, Rach. Fale com Marcus. Diga que foi uma última vontade minha. É importante você continuar a aprender autodefesa."

"Eu não acredito que isso está acontecendo, San." Rachel se ajoelhou diante da agora ex-líder e a abraçou com força.

"Vou tentar usar o correio assim que der, ok?" Acariciou os cabelos de Rachel.

"Santana!" Reynolds chamou atenção da jovem. Ela olhou para o mentor e acenou.

"Está na hora de eu ir..." Limpou a garganta. "Só conte aos demais quando eu tiver partido. Diga... sei lá... invente algo bonito. E diga a Brittany que eu a amo mais do que tudo."

Levantou-se e foi caminhando abraçada a Rachel e Matt até a saída do salão.

"Eu vou sentir muito a sua falta, Santana Lopez." Matt a beijou no rosto enquanto a abraçava. "Você foi uma líder formidável e eu vou fazer de tudo para não te decepcionar."

"Se não o fizer, eu puxo a sua orelha quando voltar... algum dia!" Riu e voltou-se para Rachel.

Rachel fez o mesmo que Matt, mas o abraço entra as duas foi mais longo e mais emocionado.

"Eu te amo, San." Rachel disse com a voz embaçada.

"Eu também te amo, Rach. Eu tenho certeza que nos veremos em breve!"

O novo líder e a nova segunda no comando olharam para trás uma última vez antes de subir as escadas escoltados por Reynolds. Santana estava pagando pelo preço de uma decisão que tomou proporções maiores. A passeata custou muito caro. Mas ela não se arrependia em ter deixado que os comandados fossem responsáveis pelas próprias atitudes. A lição ficaria também para todos eles.

Rachel e Matt saíram da igreja sem receber senha. Na linguagem dos botões queria dizer que eram apenas convidados ali. Não estavam se importando com isso. Era doloroso demais serem privados da companhia de uma grande amiga. Chegaram em casa e Rachel foi direto para o quarto de hóspedes. Não estava com vontade de falar com ninguém e assim permaneceu pelo resto do dia. Era a véspera de natal mais triste da vida dela.