No dia seguinte ao Natal – em que passou na casa de Matt –, Rachel ficou cinco minutos parada em frente à casa dos Lopez. Olhou para o relógio mais uma vez. Eram três horas da tarde. Àquela altura, Santana devia estar pisando em terras estrangeiras. Rachel podia ver certo movimento dentro da casa, mas aonde estava a coragem para encarar a família e entregar o bilhete. Ela respeitou a líder, ou melhor ex-líder, ou melhor ainda, uma das grandes amigas que teve, e não leu o que estava escrito. Também não levou o bilhete amarelo. Quem seria ela para vasculhar o quarto de Santana?
"Rach..." Matt chamou atenção dela. "É melhor fazer isso de uma vez."
Os dois andaram até à porta. Não precisaram bater. Julieta, a irmã mais velha de Santana, apareceu com jeito de poucos amigos.
"O que vocês querem?" Falou com alguma raiva. Julieta era mais alta que Santana. Mais gordinha também. Fora isso e os olhos mais redondos e claros (os herdou de Maribel), era a cara de Santana.
"Preciso falar com seus pais."
"Não é hora, pirralha."
"É sobre Santana!"
Julieta franziu a testa e deu passagem aos dois amigos da irmã.
"Quem é Juli?" Juan desceu as escadas. Ele estava com os lábios cortados. "Oh, Rach. E... Matt, certo?" O garoto acenou. "O que vieram fazer aqui?"
"Disseram que é sobre Santana." Julieta disparou. "Tomara que exista uma boa desculpa para aquela idiota ter fugido de casa! Aliás, existe: ela é uma bandida como eu sempre disse ao senhor, papai."
"O senhor pode chamar Maribel?" Rachel perguntou com calma, ignorando o insulto de Julieta. "Isso diz respeito aos dois..."
"Maribel está no quarto e está indisposta a descer. Seja lá o que for, fale comigo."
"Santana me pediu para entregar isso a vocês." Rachel estendeu a carta e Juan a pegou com pouca delicadeza.
"Quando esteve com ela?"
"Há dois dias, senhor. Antes de ela sair do país."
"Por que ela fugiu? Ela apareceu aqui em casa depois dos agentes terem surgido com uma ordem de busca e apreensão só para revirar minha casa. Então ela aparece só para pegar algumas roupas e diz que precisava ir embora. Nenhuma explicação. Nada. Se você sabe de alguma coisa, diga!" Juan estava nervoso.
"Senhor, eu não li a carta, mas acredito que ela explique as coisas aqui."
"Mas você sabe!" O homem estava a ponto de agarrar os ombros de Rachel e acudi-la.
"Não sabemos o que aconteceu com Santana, senhor." Rachel começou falando baixinho. "O que sei é que todos os nossos colegas que participaram de uma passeada foram dedurados. Daí a ordem de busca e de prisão. Eu também fui presa, senhor, e os Puckerman me expulsaram de casa depois disso. Estou morando provisoriamente com Matt."
"Você está me dizendo que tudo isso foi causado porque você e Santana participaram de uma passeata e seus colegas deduraram?"
"Eu participei de uma passeata. Santana apareceu para me tirar de lá." Rachel fechou os olhos por alguns segundos antes de voltar a encarar Juan. "Foi o preço que ela pagou para me proteger. Mas o advogado dos Pierce resolveu tudo. Sobre a razão que ela precisou fugir, eu não sei como explicar, mas tenho certeza que ela elucida alguma coisa nessa carta."
"Eu sabia que nada de bom viria daquela menina." Julieta esbravejou, mas era muito mais de desespero e confusão do que propriamente de raiva. Ela amava a irmã e estava ainda muito impressionada com as cenas que testemunhou dias atrás.
"É só isso, Rachel?" Juan tentava se controlar.
"Sim senhor."
"Ok..." Foi em direção à porta da frente e a abriu. "Obrigado pela consideração."
Os dois amigos seguiram de volta ao carro. Rachel respirou fundo. Foi menos pior do que ela esperava.
"Vamos reunir o pessoal?"
"Agora não. Mas temos de passar na casa do Sam para eu buscar meu celular."
"Ok..." Matt ligou a ignição do carro.
"Matt."
"Hum?"
"Você acha que a gente vai dar conta de substituir Santana?"
"A gente só vai saber quando começarmos a colocar a mão na massa. Amanhã vamos reunir todos, contar o que aconteceu e dali para frente será outra história."
...
Por mais que estivesse agradecida pela acolhida da família Rutherford, os poucos dias que passava ali foram suficientes para começar a deixa-la extremamente desconfortável. Ela era uma hospede, ou seja, um incômodo. Era algo que ela podia sentir na pele naquela data em específico: era aniversário do senhor Rutherford, e ali estava ela como um elemento estranho em meio a uma festa da família. Em meio a sua corrida matinal (estava habituada a treinar, agora que era da equipe de atletismo), decidiu que precisava dar o fora daquela casa o mais rápido possível.
Rachel correu de volta ao bairro de classe média bem a tempo da família começar o tal almoço especial. Sentou-se à mesa junto aos demais. Senhor Rutherford fez a oração de graças e todos apreciaram uma mesa farta. Beberam vinho, Jimi e Matt contaram histórias engraçadas sobre a escola em que estudavam. A senhora Rutherford dedurava os filhos a Rachel com histórias embaraçosas sobre quando os dois eram crianças. Como a vez em que Matt com cinco anos sentiu vontade de ir ao banheiro, mas não queria sair do parquinho. Até que não se agüentou e fez o número dois nas calças e voltou para casa, que ficava quase ao lado, andando igual um chimpanzé.
Então o celular de Rachel tocou. O número era desconhecido.
"Alô?"
"Oi Rach, eu tenho pouco tempo para falar." Era a voz de Santana, o que fez o coração de Rachel palpitar forte. "Só para avisar que estou no Leste e estou bem."
"Ok, entendi... obrigada, San." Ela fazia um esforço tremendo para parecer casual diante da família que a observava. "Ah, ontem eu entreguei a carta aos seus pais."
"Você não me deixaria na mão. Obrigada. Tenho que desligar. Quando puder, entro em contato novamente."
"San..." Quando Rachel ia tentar falar mais alguma coisa, o telefone desligou. Foi tão rápido que ela até duvidou se realmente falou com Santana.
Rachel ficou feliz e com uma ponta de inveja: Santana conseguiu sair daquele país miserável. Não que Santana tivesse esse desejo tão forte quanto Rachel, mas ela conseguiu sair. Por outro lado, por que ela ligaria só para dizer que está bem? Todos sabiam o quanto telefonemas internacionais eram arriscados, em especial todos que partiam para o País do Leste, ou que vinham de lá. O governo monitorava esse tráfego e era muito difícil driblar tal controle. Rachel tinha certeza que Santana jamais faria isso se não tivesse descoberto um meio 100% seguro. Mas, pelo visto, não era uma forma que permitisse muito tempo de conversa ou ela teria dito algo melhor do que avisar que está bem e que voltaria a se comunicar.
Olhou para a família que ainda celebrava o aniversário do patriarca e suspirou.
O encontro com os demais botões estava marcado para a tarde, após o almoço. Matt estava ansioso por se apresentar pela primeira vez como líder. Esperava reações fortes. Por isso contava com o apoio incondicional de Rachel. A menina não ia furtar-se de estar ao lado do novo líder e assumir oficialmente a posição de segunda no comando. Mas quando estava se arrumando, recebeu o telefonema de outro número desconhecido.
"San?" O coração disparou.
"Rachel? Não!" Era uma voz masculina do outro lado. "Aqui é Juan. Acredito que precisamos conversar."
"Claro..." Rachel estranhou o telefonema do pai de Santana. "Quando?"
"Hoje à tarde aqui em casa, pode ser?" Haveria conflito de agenda. A razão podia para que ela cumprisse o compromisso com os botões acima de qualquer coisa, mas aquele era Juan Lopez e houve o telefonema de Santana. Talvez não fosse coincidência afinal. Que diabos!
"Por volta das três?"
"Perfeito. Estarei te esperando."
Agora foi a vez de Rachel ficar ansiosa. Ela conversou com Matt que não aceitou muito bem a ausência. Sabia, no entanto, que a comandada não obedeceria. Fez a gentileza de deixá-la em frente aos Lopez antes de seguir para o local de encontro com os demais botões. Rachel encarava a casa de outra maneira. Ela sabia que a amiga estava bem. Ótimo. Agora era o momento de acertar o que foi deixado solto. Pegou um ônibus e foi em direção ao lado mais humilde da cidade.
Andou até a casa em que estava mais que familiarizada. Bateu a campainha e foi atendida um minuto depois pelo próprio Juan. O médico abriu passagem para a menina.
"Será que podemos conversar na garagem, se não se importa? Maribel e Julieta estão lá em cima e eu não quero ser incomodado."
"Tudo bem, senhor!"
Juan ficou encostado no velho Ford enquanto Rachel se acomodou num tamborete de madeira. Não nevava, mas estava fazendo frio. Os dois permaneceram em silêncio. Parecia que Juan estava analisando a amiga da filha. Então resolveu começar.
"Eu li a carta. Ela não me disse nada além de que nos ama e que precisou fugir porque ela encontrou uma oportunidade rara fora do país. Mas eu conheço minha filha bem demais para saber que ela está mentindo. Não consigo identificar em quê, mas eu sou pai. Eu sei das coisas."
"Isso parece teoria da conspiração." Rachel sorriu nervosa.
"Que ela não teria muitas oportunidades se ficasse, estava mais que ciente. Santana é uma boa aluna, é muito inteligente, mas nunca mostrou interesse em lutar por uma vaga na universidade. Ela nunca foi Julieta, que era obcecada. Isso me preocupava. Quando os agentes invadiram a minha casa, acho que entendi porquê. Aqueles homens entraram na minha casa, bateram em mim, intimidaram a minha Julieta e a minha mulher porque aparentemente Santana foi denunciada por participar de uma passeata. Santana não estava aqui, mas tinham uma ordem de busca e apreensão para tentar descobrir possíveis materiais subversivos. Quando Santana apareceu, era como se ela já estivesse ciente de tudo. Eu senti que ela estava preocupada conosco, mas não estava surpresa com o cenário... isso me assustou. Ela disse que eu não me preocupasse porque o advogado já tinha resolvido tudo. Mas que advogado? Até onde sei, os bicos que Santana fazia pagavam mal. Nem todos os trabalhos que ela dizia fazer poderiam gerar tanta renda a ponto de pagar um advogado caro assim. A não ser que ela tivesse envolvida em algo ilegal, como tráfico de drogas... ou, por deus do céu... prostituição."
"Senhor Lopez, Santana é como uma irmã para mim. Nós somos próximas e eu sei que ela jamais venderia o corpo ou faria algo sujo como se envolver com tráfico."
"Será que a conhece mesmo? Eu não sei, Rachel, eu não sei... Eu já vi muita coisa acontecer nessa cidade. Eu já vi muita gente com duas caras, ou até mais. O que me deixa angustiado é que há muitas lacunas na história da minha filha, há coisas que não se encaixam. Aliás, muitas das coisas que aconteceram no passado não se encaixam. E algo me diz que você sabe preenchê-las. O fato de pensar que fosse ela ao telefone aumentou a minha suspeita. Quem é Santana?"
"Sua filha."
"Deixe de brincadeira!"
"Não estou brincando, senhor. Santana não contava tudo para mim, mas se existe algo que não tenho dúvidas a respeito dela é que San ama demais todos vocês. Eu realmente não li a carta, mas seja lá o que for, acredite porque as razões dela são muito fortes."
"Isso é frustrante." Juan deu um murro no capô do carro. "Deixe de mentir. Eu sei que você sabe de algo... de qualquer coisa que seja."
"Tudo que sei é que a parte dos agentes revirarem a sua casa foi minha culpa." Rachel baixou a cabeça e procurou ganhar um pouco mais de tempo. "As meninas viram o anúncio da passeata num jornal. Era legalizada e tudo mais. Santana nos aconselhou para não irmos, mas não demos atenção. Fomos ingênuas em pensar que seria divertido participar de algum ato de subversão. Então começou a confusão. Eu fiquei desorientada, mas San e outro amigo, Samuel, nos pegaram e nos arrastaram para longe. Eles foram à passeata só para ficar de olho na gente. Foi San quem nos tirou de lá em segurança, mas há algumas pessoas no coral que não gostam nem dela e nem do Samuel. Eles logo acusaram os dois. Eu não tenho ideia de quem denunciou, mas não foi só a casa do senhor que foi revirada. A casa de todo mundo que estava conosco também. Eu estava na casa do Samuel nessa hora, e os agentes já tinham passado na casa dos Puckerman para revistar tudo. Samuel reagiu e foi agredido e um dos agentes..." Rachel respirou fundo. Era uma cena que ela tentava desesperadamente tirar da cabeça. "Um deles me tocou... me tocou onde não deveria tocar bem em frente a mãe e aos irmãos menores do meu amigo. Isso antes de arrastar a nós dois para a delegacia. Eu tinha certeza que o agente terminaria o que prometeu fazer comigo assim que chegasse lá. Provavelmente eles me colocariam numa cela separada e me estuprariam. Para a minha surpresa, todos os nossos colegas que foram nessa passeata, a exceção de Santana, estavam presos. E havia um advogado que cuidou de tudo. Esse advogado é amigo pessoal do parlamentar Pierce. Como sabe, Brittany, a filha dele, é nossa amiga e..."
"E o quê, Rachel? Pelo amor de deus, agora que você contou tudo isso, não me esconda mais nada."
"Santana e Brittany... senhor Juan, a sua filha é gay e Brittany era a namorada dela."
"Gay? Mas ela tem um namorado... um que tem cabelo engomadinho..."
"Blaine é nosso amigo e ele só estava fazendo o papel de namorado para ajudar Santana. Para manter as aparências."
"Isso é mentira... Rachel... minha filha não pode ser gay!"
"Por que não, senhor?" Rachel olhou ofendida para Juan. "Não há nada de errado em ser gay. Não é que isso fosse uma doença ou algo assim."
"Você pode ser morto por ser gay!"
Então Juan ficou em silêncio e encostou-se no carro. Estava muito abalado. Rachel não moveu um músculo. Estava com certo medo de que o menor gesto dela que fosse pudesse fazer o homem explodir.
"Ela deveria ter me contado!" Juan estava cada vez mais frustrado com as revelações. "Eu a protegeria!"
"Com todo respeito, mas o senhor não conseguiria. Não disso. Falo por experiência própria..."
"Você é..."
"Meus pais, senhor Lopez... eles foram condenados a morte entre outras coisas, por serem gays. Não se lembra?"
Juan encarou Rachel e tudo que pode ver nos grandes olhos castanhos foi sinceridade e também uma grande dor. Ele balançou a cabeça e voltou a se encostar no carro.
"Por que Santana não me contou?" Juan continuou a questionar, procurando por qualquer brecha que poderia trazer alguma luz para ajudar a elucidar melhor as dúvidas que gritavam em sua cabeça. "Por que ela não confiou em mim... mas confiou em você?"
"Porque há coisas que os amigos compreendem muito melhor do que os pais. Especialmente se o amigo tiver a minha história."
Juan silenciou-se e pediu licença a garota por um minuto. Entrou em casa, tomou um copo d'água. Maribel já havia se fechado no quarto novamente enquanto Julieta arrumava a cozinha.
"Com quem está conversando, pai?" A filha mais velha interrogou.
"Rachel." Juan não via razão em mentir.
"Não deveria permitir que essa garota pise os pés aqui, pai. Ela é encrenca."
Juan olhou a filha mais velha e então sentiu o próprio cansaço nos ombros. Fechou os olhos por dois segundos e respirou fundo. Ignorou Julieta e voltou para a garagem, onde Rachel ainda o esperava.
"Bom... Não dá para dizer que você não trouxe algumas respostas. Eu ainda não sei dizer se Santana era muito corajosa ou uma idiota."
"Santana pagou por me proteger, e eu vou dever isso ao senhor pelo resto da minha vida. Se pudesse voltar atrás..."
"Você não é culpada. Essa merda de regime que é... Eu sei muito bem que se a minha San não tivesse fugido... ela estaria presa. Talvez até morta como os seus pais se o regime descobrisse. É o que eles fazem. Bandidos têm mais direitos do que opositores nessa droga de país."
"Senhor Lopez..." Rachel procurou ser cautelosa. "Eu posso subir até o quarto de Santana? Ela pegou uma coisa minha e eu gostaria de tê-la de volta... se puder. Jamais pediria algo do tipo se não fosse realmente importante para mim."
"Vá!"
Rachel não planejava fazer tal varredura tão logo. Iria esperar a poeira baixar, mas já que ela estava ali, com Juan Lopez ganho, iria aproveitar a chance. Não tinha, porém, a menor ideia do que Santana queria que ela pegasse no quarto. Ela tinha lido o papel amarelo e a única coisa que existia nele era uma referência a uma tábua solta. Subiu as escadas. Acenou para Julieta que cruzou os braços em desaprovação à presença da botão, então fechou a porta. O quarto de Santana estava um caos e foi de cortar o coração ver o baú revirado e os discos espalhados, e alguns até quebrados. Mas Rachel se concentrou na tábua que segundo o mapa rabiscado (e Santana era uma péssima desenhista). Era a quarta que supostamente deveria ficar debaixo da cama. Apalpou a madeira e descobriu aquela que se mexia. Não conseguia levantá-la com as unhas. Procurou pelo quarto algo que pudesse ajudá-la. Encontrou a lixa de unha metálica. Fincou o objeto na fresta e fez um esforço para o pedaço da madeira levantar um pouco que fosse. Com algum custo, conseguiu remover o pedaço de madeira. No buraco havia uma pistola (Rachel não entendia de armas e não sabia dizer de que tipo era), um cartucho de balas, e um HD portátil. De fato, o computador de Santana não estava no quarto, provavelmente levado pelos agentes. Rachel não quis saber da arma. Pegou o HD e o colocou no largo bolso do agasalho. Recolocou a tábua. Arrastou a cama de volta ao lugar e saiu.
"Encontrou o que buscava?" Perguntou um ainda frustrado Juan Lopez sentado no sofá. Tinha uma postura de quem envelheceu dez anos no último dia.
"Sim senhor... e senhor Lopez, pode parecer estranho o que vou dizer, mas tenho certeza que ela está em segurança."
"Eu rezo para que sim."
Rachel pegou um ônibus e foi direto para a casa dos Rutherford. Felizmente não era uma viagem longa. O novo líder ainda não havia chegado em casa e a curiosidade de Rachel para ver o que existia naquele HD era enorme.
"Vai sair, Jimi?" Perguntou ao garoto que estava se perfumando no quarto.
"Vou ver a minha garota."
"Legal... posso pegar o seu laptop emprestado?"
"Claro" Indicou o computador que estava em cima da escrivaninha. "Só não acesse o meu histórico."
"Muita pornografia?" Rachel sorriu.
"Eu chamaria de material didático."
"Claaaro!" Rachel abriu um falso sorriso.
Voltou para o quarto e hóspedes. Conectou o HD e começou a remexer nos arquivos. Havia música, alguns trabalhos de escola, fotos. Então Rachel reparou numa pasta chamada "círculos". Rachel tentou acessá-la, mas foi pedido uma senha. Ficou tentada a descobrir qual era. Pegou o papel amarelo e o analisou com cuidado. No pé da página havia uma espécie de código aleatório: 08but305. Experimentou e para a surpresa de Rachel, as pastas ficaram acessíveis. Santana sabia que Rachel não encostaria a mão na pistola, mas ela queria que encontrasse e lesse aquele HD. Ali tinha mapas da cidade, anotações, rotas de fuga. A localização dos centros de correios dos Botões, fotos da região, anotações detalhadas. E também tinha informações sobre membros dos botões. Acessou os arquivos do círculo deles. Havia documentos para cada um dos integrantes.
Clicou no de Matt.
Apareceu endereço, fotos, informações pessoais e observações.
"... Matt é um bom soldado e um grande amigo. A lealdade é sua maior virtude. Faz tudo que lhe é determinado, mas não é um líder. A verdade é que ele é medíocre e a imaginação dele se limita aos pratos culinários que inventa. Mas preciso fazer com que ele se sinta prestigiado. Matt precisa se sentir útil e importante..."
Rachel balançou a cabeça. O estilo e as observações cruéis eram definitivamente de Santana. O texto era longo. Foi passeando pelo restante do grupo.
"... Sam é uma versão melhorada de Matt (em todos os aspectos). É fácil de levar e sabe manter aquela enorme boca fechada quando realmente precisa. O problema é que ainda é imaturo. É preciso lembrá-lo constantemente da necessidade de ser discreto, em especial diante das provocações daqueles panacas dos camisas marrons. Ele precisa aprender a se controlar para ser melhor usado..."
"... Kurt adora a sociedade, luxo, glamour. É prestativo, mas não posso delegar tarefas mais complexas e arriscadas. Não é a índole dele. Por isso nunca vai deixar de ser um botão raso..."
"... Blaine tem futuro político traçado, por isso não posso fazê-lo parecer tão essencial diante dos outros. É para o próprio bem dele. Às vezes me preocupa por ele gostar de se arriscar demais. Precisa ter um pouco mais de cuidado..."
"... Seban me surpreende. É difícil uma pessoa conseguir tal proeza, mas parece que isso não é problema para ele. Debaixo daquela timidez há um grande caráter e um potencial líder. Posso sentir isso tão bem quanto a droga do calo na sola do meu pé..."
"... Eu não me canso de olhar para Brittany. As coisas que ela me faz na cama..."
Rachel fechou esse arquivo rápido. Definitivamente as anotações de Santana a respeito de Brittany tinham nada a ver com os botões.
"... Quinn é a minha cruz. A confirmação de que eu aprontei todas nas vidas passadas. Compreendo a rebeldia dela e talvez também iria querer me matar caso o meu pai me prostituísse. Mas não posso me deixar levar pela raiva e rebeldia dela. Alguém precisa ser racional e infelizmente sou eu quem tem essa responsabilidade..."
Rachel arregalou os olhos e depois quase chorou ao saber de toda verdade sobre a colega. Quinn tinha 14 anos e era virgem, quando Russell Fabray mandou que ela se envolvesse com Bill Mason, filho de um empresário influente, que tinha 21 anos à época. Era só um "agrado" a mais entre todo o negócio que envolvia o financiamento do gabinete de Russell. Quinn odiava o jovem homem. Quando Bill tentou ter sexo com a adolescente, ela conseguiu escapar de suas investidas, mas só para ser repreendida do Russell, porque ela estava ajudando a família. Quinn perdeu a virgindade para Bill e, no mês seguinte, o jovem homem a dispensou.
Não havia informações sobre o envolvimento que Quinn teve com Puck ou se teve sexo casual com outras pessoas. Santana, no entanto, fez algumas observações sobre a natureza do comportamento de Quinn e do potencial que ela tinha: que ela era muito mais do que um rosto perfeito e uma vagina apertada. Mas para o próprio pai dela, era tudo que Quinn precisava ser.
Russell a forçou a ter um caso com Ed. Bloom, um parlamentar mais jovem cujo prestígio político estava em crescimento. Ainda assim é um sujeito de 37 anos. Russell sabia que o parlamentar tinha apelo entre os jovens, o que aumentava a influência dele entre os demais colegas. Russell mandou a própria filha seduzir e ir para a cama com Bloom a fim de que ele pudesse aproveitar a subida política do outro. Pouco se importou quando soube que o homem gostava de praticar sexo bruto. Chamava Quinn das piores coisas, batia, estrangulava, a forçava a transar em posições desconfortáveis, e ainda caçoava com o fato de o próprio pai a empurrar para a cama dele pensando que poderia ter algum lucro.
Quinn passou três meses suportando tal martírio até que estourou em cima de Rachel no vestiário do colégio. Ela agrediu Rachel não por ter raiva da colega, mas porque a agressividade e a violência foram as válvulas de escape que encontrou para conseguir suportar a própria pele. Esse foi o momento que Santana a confrontou e estendeu a mão com a autoridade que tinha como botão. As duas trabalharam uma forma de sair dessa armadilha. Quinn deu um basta ao caso com Bloom, mostrou a Russell cópias de documentos que o incriminavam em movimentações ilícitas e negociou a própria saída de casa.
Santana observou mais adiante no texto que não podia prever quanto essa trégua duraria, por isso era importante articular a saída de Quinn o quanto antes, mas que temia não concretizar o feito.
Rachel soube por aqueles arquivos que Santana foi desligada de todas as atividades dos círculos internos após o caso do incidente que envolveu a quebra do serviço de inteligência, mas que a saída dela já estava programada a acontecer. Aparentemente ela era uma das jovens selecionadas para participar de um programa de formação de elite dos Botões para serviço de inteligência e espionagem, mas não havia ali detalhes do que seria exatamente isso.
Hesitou um pouco e clicou no próprio nome. Assim como Matt, apareceu informações pessoais, fotos, alguns documentos e reportagens sobre a execução dos pais. Acessou as observações.
"... Rachel ainda não tem ideia do potencial que possui. Com o devido treinamento, ela seria uma líder formidável, apesar de ser afoita e intransigente. Só há pouco começou a levar a sério a necessidade de se aprimorar fisicamente. Acredito que seja a melhor pessoa ficar no meu lugar na liderança dos círculos de base. Reynolds também pensa o mesmo. O problema é que Rachel quer ir embora. É frustrante saber que a melhor opção de continuidade não vai ficar feliz se for convocada a me substituir. Mais frustrante ainda é saber que vai ser difícil colocá-la num avião para o Leste usando só o argumento dos pais dela. Isso custaria um dinheiro que eu sei que ela não tem. Nem eu mesma tenho. A única forma de sair 'de graça' é provar ser um botão útil e ativo no exterior. É a filosofia não pronunciada: 'se você não patrocina, você trabalha'. Vejo as artes como uma boa alternativa para Rachel. Se for atriz bem-sucedida, pode ainda fazer propaganda pró-democracia para o país no exterior. Ela tem talento e tem história familiar que favorece neste caso, mas isso não é o suficiente para fazer acontecer e, até onde sei, os botões não tem envolvimento em teatro ou algo do tipo.
Mas acredito que se ela procurar o pai biológico dela, talvez possa ter alguma chance. Rachel não sabe, mas pode ser filha de Lester Goldman. Também essa não é uma informação que foi me dada de mãos beijada. Precisei ralar um pouco para ligar os pontos e o fato de Shelby Corcoran ter o contato no Leste para fazer as cartas chegarem foi um bom caminho para a minha descoberta. Mas eu não sei se devo contar a Rachel, até porque essa informação por hora não faria muito sentido. Ela mesma nunca demonstrou curiosidade em sabe sobre o possível pai biológico. Tudo que ela sabe é que ele era um cretino que deu um pé na bunda de Corcoran quando ela engravidou. O que foi verdade.
Nunca o encontrei em pessoa, mas todos dizem que Lester Goldman é um escroto de marca maior. É um homem poderoso e rico. E é um botão. Um dos mais poderosos e influentes. Sei que ele faz cena na capital, mas entrar em contato com ele é complicado. É preciso ser por meio de alguém tão figurão quanto ele. O senhor Pierce talvez? Esse é o meu dilema. Minha obrigação é prepará-la para me substituir, o que significa que ela não vai sair. Mas eu quero que ela vá embora porque é o que a faria feliz..."
Rachel respirou tudo. Era por isso que Santana queria que ela encontrasse o HD. Dentro das frustrações e do desabafo, ela indicou o caminho para a saída. Rachel tinha noção de que deveria se tornar ativa e importante. Santana confirmou a teoria, alertou sobre as barreiras que deveria enfrentar dentro dos próprios botões e ainda indicou um atalho: o Novas Direções, apesar de todos os problemas, precisava ganhar as Nacionais. Mais do que isso: Rachel precisaria arrumar uma forma de fazer o pai biológico dela, o tal Lester vê-la brilhando na capital. Quando viu Matt chegar em casa, desconectou o HD e o escondeu no meio da mala. Acessou a internet e entrou num site de notícias.
"Como foi lá?" Perguntou nem tão interessada quanto deveria.
"Um inferno. Eles entraram em pânico. Brittany começou a chorar feito uma desesperada e Quinn surtou." Matt estava frustrado.
"Eu preciso falar com a Quinn!"
"Por favor, faça isso!" Matt sentou-se na beira da cama, mas mantinha a postura respeitosa. "Como foi lá com os pais da San?"
"Juan me fez perguntas. Desconfia que San seja algo mais... mas dei conta do recado."
"Ótimo... acho que fazemos uma boa dupla, certo?" Matt sorriu esperançoso.
"Sim..." Rachel forçou um sorriso. "Acho que formamos."
