"Rachel?" Quinn atendeu a colega, que não havia avisado que a visitaria. Foi uma surpresa ver a nova vice-líder do círculo de botões na porta da quitinete, com um caso de pão em uma das mãos e uma garrafa de suco na outra.
"Oi Quinn, hora inapropriada?"
"Não é que... eu só estava lendo um livro. Entre, Rach."
Rachel acenou com um pouco de nervosismo e entrou.
"Trouxe pão doce da padaria que tem perto da casa do Matt. É uma delícia. E o suco de laranja é engarrafado na hora."
"Deve ser muito bom, então."
Quinn pegou os presentes e foi logo arrumando a comida em cima do minúsculo balcão da quitinete. Não queria dizer, mas aquela seria a primeira refeição que faria no dia. Ela estava com pouco dinheiro e não tinha muito talento (nem disposição) para fazer a própria comida. Passou o natal com a família de Kurt, apesar dos olhares atravessados de Finn, que chegou a acusa-la de subversiva manipuladora no final da ceia. Foi horrível, mas ela ganhou uma boa marmita que durou até o dia anterior. Naquele dia, só tinha colocado no estômago água e um alguns biscoitos. O pão doce e o suco de laranja chegaram em boa hora para Quinn. Ela serviu Rachel, que, ao contrário, estava satisfeita, mas que, por educação, beliscou um pouco do pão e tomou um pouco de suco só para acompanhar a dona do lugar.
"Não tive a chance de conversar com vocês desde a prisão. Desculpe." Rachel falou com uma certa tristeza na voz. "Esses últimos dias têm sido uma loucura."
"Para todo mundo." Quinn ainda devorava o pão doce. "Aqueles filhos da puta me levaram em cana mesmo eu provando ser filha de um parlamentar. Eles reviravam aqui de ponta cabeça, mexeram nas minhas coisas, jogaram o pouco que tenho no chão, mas não acharam nada!" Disse com certo orgulho. "Os agentes não levaram os livros proibidos com as capas trocadas, e os documentos contra o meu pai não ficam aqui... eles estão com Gilmore. Foi Santana que me disse à época." E silenciou-se por um tempo. "Vou sentir saudades dela."
"Somos duas. Santana é como uma irmã."
"Ela me salvou."
Rachel acenou e abriu um fraco sorriso.
"Quinn, você gosta de morar aqui?"
"Claro. Não é um lugar muito confortável, mas sou mais feliz aqui e estou mais segura do que na época em que morava com meus pais numa mansão."
"Não Quinn... falo sério. Não precisa responder com esse discurso decorado. Você gosta mesmo daqui?"
Quinn olhou surpresa para Rachel e depois disparou num desabafo.
"Eu odeio esse apartamento! Passo a maior parte do tempo sozinha e me pego tendo ataques de ansiedade, esperando que o meu celular toque com algum sinal botão, porque sei que terei companhia ou alguma coisa para fazer."
"Puxa..."
"Por favor, não conte para o resto do pessoal. Isso me faz soar como uma desesperada patética. Aliás, eu ando conversando com o ventilador! Eu olho para ele, converso e ainda me calo esperando por uma resposta! Estou ficando maluca!"
"Eu não vou falar nada, Quinn, não se preocupe. Na verdade, a maior razão por eu estar aqui é porque quero te fazer uma proposta."
"Que proposta?"
"Como você já deve estar sabendo, eu fui expulsa da casa dos Puckerman e agora estou hospedada temporariamente na casa do Matt. Felizmente, agora que completei 18 anos, o senhor Gilmore está cuidando do processo para liberar a herança que meus pais deixaram para mim. Então eu terei um bom dinheiro liberado na minha conta bancária e vou usar uma parte dele para alugar um apartamento pequeno, mas que tenha pelo menos uns dois quartos e uma cozinha de verdade."
"Isso é legal..." Quinn franziu a testa, sem entender direito porque Rachel estava dizendo aquilo para ela.
"Só que eu não quero ficar só. Então pensei em te perguntar se gostaria de dividir um apartamento comigo pelo menos até o fim do ano?"
"Você quer dividir um apartamento comigo, Quinn Fabray, a garota que te atormentou durante, sei lá, uns três anos?"
"Não é essa Quinn Fabray que estou convidando para dividir um apartamento. Estou convidando a Quinn Fabray que está na minha frente agora: a boa amiga inteligente e sensível, que dedicou uma linda canção para mim no dia do meu aniversário."
"Uau!" Quinn piscou algumas vezes e abriu um sorriso enorme. "Isso seria ótimo, Rach! Claro que eu topo!"
"Jura?" Rachel arregalou os olhos e o seu rosto ficou iluminado em felicidade pela resposta positiva.
"Claro que sim! Quando está pensando em ver o apartamento? Eu posso te ajudar, a gente pode encontrar um bom lugar juntas. Vai ser divertido."
"Acho que sim."
Quinn fez um gesto em celebração e abraçou Rachel, que foi pega de surpresa com o gesto, mas não achou ruim de forma alguma. Pelo contrário, achou reconfortante estar nos braços da colega. Além disso, Rachel adorava a forma como o corpo de Quinn se encaixava perfeitamente contra o dela. Era confortável e lhe trazia uma sensação boa, como um arrepio bom. Quinn rompeu o abraço com um suspiro feliz, aliviado.
"Quem diria que terminaríamos assim." Quinn encarou a colega.
"Assim como?"
"Amigas... morando juntas."
"A sensação não é ruim, certo?"
"Muito pelo contrário, Rach. Estava me sentindo um trapo antes de você chegar. E agora você fez o meu dia. Obrigada mesmo pelo voto de confiança."
...
Depois de uma longa semana em que Rachel, Quinn e o tio do Matt passaram procurando um apartamento perfeito, encontraram o eleito próximo a pizzaria que servia como referência do ponto de entrada da sede dos Botões. Apesar da proximidade com a zona boêmia da cidade, o prédio ficava numa rua residencial. Era um apartamento de 80m² com dois quartos, sem mobília. Quinn gostou particularmente da vista do quarto que escolheu para si: de lá era possível ver o letreiro da pizzaria que Rachel havia dito estar uma das sedes dos botões. Era isso que os botões significavam para Quinn: liberdade. Então ela olhava para o letreiro e via simplesmente isso: liberdade.
Como o dinheiro de Rachel ainda não havia sido liberado e Quinn estava sem a mesada, os botões trataram de pagar os três primeiros meses de aluguel para as duas. Rachel planejava acumular bicos pela cidade, como serviços de babá e para ser tutora de algum aluno encrencado. Quinn também tinha planos em ganhar algum dinheiro com um trabalho honesto, além de ter sido designada a trabalhar uma vez por semana em um projeto de inclusão digital para idosos: o projeto foi escolha da própria.
O apartamento também significava uma nova base que as duas garotas tinham para se preparar para a vida pós-escola que se aproximava. Quinn se formaria e seria retirada do país pelos botões. Rachel tinha um caminho muito maior a percorrer se quisesse ter o mesmo destino. Ela precisava contatar o tal pai biológico, Lester Goldman, não porque Rachel queria uma figura paterna ao seu lado, mas porque, de acordo com os arquivos de Santana, ele era um Botão dos círculos mais internos e altamente influente por ser uma espécie de tesoureiro ou algo assim (os arquivos não eram claros quanto a função de Lester). Se tinha alguém que poderia tirá-la daquele país seria ele.
"Isso aqui está muito vazio..." Quinn reclamou da ausência de móveis do apartamento. Rachel não se importava com detalhes. Ela tinha uma cama no quarto dela e energia elétrica. Era o que bastava.
"Ao menos vocês têm televisão." Sam brincou apontando o eletrodoméstico que estava em cima de um banco. Ele estava com as costas doloridas após ajudar as meninas na mudança. Kurt e Matt também estavam oferecendo seus músculos para ajudar as garotas.
"Uma televisão a tubo de 20 polegadas, mas uma televisão." Quinn revirou os olhos. "Não que passe alguma coisa interessante na programação..." Havia três canais funcionando no país: o estatal e dois de empresas privadas, mas que eram submetidos a censura do governo.
"A mãe do Seban vai reformar a sala íntima e disse que vai doar um sofá para a gente, talvez o raque. O que vai ser ótimo." O tom de Rachel era irônico. "Do jeito que essa sala é enorme, ainda vai sobrar espaço para preencher."
O sofá em questão era o menor da sala dela, para dois lugares, mas já era suficiente para ocupar um espaço considerável da sala daquele apartamento. Quinn nunca entrara na casa de Seban, mas Rachel tratou de estreitar os laços com o outro botão, pegando a dica dos relatórios de Santana sobre ele ter potencial para ser um bom líder. A lógica era de que se ela, natural substituta de Santana, apesar de Matt ser o "líder", conseguir formar o próprio suplente, então poderia sair mais rapidamente. Senhor Lopez disse que doaria uma cômoda e o senhor Rutherford daria às meninas um pequeno guarda-roupa. Estava ótimo. O pouco que havia naquele apartamento já era doação ou que os botões conseguiram em pequenas feiras de caridade organizadas pelas igrejas. Os meninos ajudaram as duas com a mudança e daí o estado físico dolorido de todos: passaram o dia colocando tudo que conseguissem em cima da caminhonete de Burt Hummel, pai de Kurt, para depois subir as escadas do prédio e deixar tudo no lugar.
"Pizza?" Quinn perguntou.
"Por favor!" Empolgou-se Sam. "Meu estômago está nas costas."
"Acho que eu vou nessa." Matt desculpou-se. "Tenho algumas coisas a planejar..."
Rachel forçou um sorriso, mas queria era revirar os olhos. Não havia nada a ser planejado, mas desde que foi declarado "líder" do círculo, Matt começou a se comportar como se tivesse mais coisas a fazer, como Santana fazia, exceto que Santana realmente estava sempre ocupada. De qualquer forma, Matt achava que isso ajudaria na imagem.
Quinn ligou para a pizzaria e fez o pedido. Duas pizzas tamanho grande: o suficiente para cinco pessoas. Quinn e Rachel não comiam muito. Sam, Blaine e Kurt, por outro lado, tinham estômago de estivadores.
"Nem em um milhão de anos eu imaginaria que vocês iam terminar morando juntas." Kurt se acomodou em cima de uma das almofadas no chão para ficar ao lado de Blaine. Quinn arrumava as coisas na cozinha para receber as pizzas: a primeira refeição na casa nova. Sam sentou-se no chão ao lado de Rachel.
"Os botões fazem milagres!" Rachel brincou e depois voltou a atenção para o programa de clipes que passava na televisão. "Eu detesto esse cara." Percebeu que falou alto quando viu a cara de espanto de Kurt. "O quê? O professor Schue que tem uma fixação nesse artista e por isso faz tantos ensaios com as músicas dele. Dizem que eles estudaram juntos. Mas é irritante. Esse cara não passa de um pastiche da música pop do País do Leste."
"Rachel Berry começou a se revelar!" Quinn gargalhou acompanhada de Sam. Ele odiava a música pop vigente e achou ótima a declaração da amiga.
"E no ano passado quando a gente fez aquele número com as camisetas?" Rachel lembrou. "Quando Finn quebrou o meu nariz... foi a maior falsidade."
"Eu jamais poderia vestir uma camiseta dizendo que gosto de garotos!" Kurt se defendeu. "Por isso optei por narcisista."
"O Sam vestiu 'boca de peixe' por comodismo. Só porque Santana o chamava assim." Rachel acusou.
"E por um acaso qual deveria ser?" Cutucou a melhor amiga.
"Mania de organização!"
"O quê?" Kurt começou a rir e Quinn ficou surpresa.
"Na primeira vez que eu fui ao quarto dele, tirei uma caneta do case em cima da escrivaninha para escrever um recado e deixei lá por cima mesmo. Não demorou dois segundos para que ele colocasse a caneta no lugar. Aí eu estranhei e decidi revirar o tapete ao lado da cama dele antes de me sentar. Ele sentou ao meu lado e arrumou o tapete com os pés. Depois descobri que ele organiza os CDs por ano de lançamento, gravadora e depois nome do artista em ordem alfabética."
"Mentira!" Sam estava vermelho de vergonha.
"E para finalizar..." Rachel teve a boca tampada pelo amigo. Ela lambeu a palma da mão para tentar se libertar. Não adiantou.
"Você acha que eu tenho nojo da sua lambida?" Começou a rir e foi a vez de Rachel ficar vermelha.
"Crianças!" Quinn revirou os olhos.
Sam tirou a mão da boca de Rachel e os dois selaram uma aparente paz quando Rachel o beijou rapidamente no rosto. As pizzas chegaram. Chegou uma embalagem extra: uma sobremesa em nome de Rachel. Ela abriu a pequena caixa e viu cookies. Pregado no teto interno da embalagem havia um botão azul. O coração dela disparou. Finalmente chegou a hora. Ela pegou o botão preso numa fita colante e o colocou no bolso da calça.
"O que era isso?" Quinn ficou curiosa.
"Fui promovida." Rachel limitou-se a dizer.
Foi até o quarto, pegou o celular e mandou uma mensagem de texto codificada para Reynolds. Esperou cinco minutos para receber a resposta com um local e hora. Deveria ir até a pizzaria pela manhã. Voltou à companhia dos amigos e, sem fazer comentários, abocanhou uma fatia da pizza vegetariana.
"Algo que possa falar?" Sam não se agüentava em curiosidade. Rachel apenas acenou negativamente e olhou a televisão. O programa de clipes havia acabado estava no ar um programa de esquetes de comédia. Ninguém estava prestando atenção.
"É quase dez." Sam chamou atenção. "Hoje tem toque de recolher."
"Não quer dormir aqui hoje?" Rachel perguntou.
"De forma alguma!" Quinn protestou. "Não enquanto estabelecermos as regras, Berry."
"Regras?" Sam olhou preocupado.
"Sam não vai nos causar problemas." Rachel falou séria. "Está tarde e hoje há agentes esfomeados na rua! Ainda estamos jantando e os meninos vão sair daqui numa pressa desnecessária. Além do mais, se Kurt dormir aqui contigo que é a nova beard dele, vai ser algo bem-visto para o senhor Hummel."
"Isso é verdade..." Kurt pegou mais um pedaço de pizza. "Ele sempre ficava feliz quando Rachel dormia lá em casa... ou mais aliviado."
"Como assim?" Quinn ergueu a infame sobrancelha.
"Meu pai morre de medo de eu ser gay por causa das conseqüências. Nós conversamos sobre isso um tempo atrás e ele insinuou que ficava feliz em ver o quanto me esforçava para vencer certas tendências... um dia até comentou que parecia ser muito energético com Rachel." Ela não se agüentou e gargalhou.
"Não entendi..." Sam franziu a testa.
"Às vezes Kurt ficava pulando na cama enquanto eu fingia ser bem vocal." Rachel lembrou. "No outro dia, no café da manhã, o senhor Hummel me perguntava se estava tudo bem comigo com um olhar de preocupação. Eu colocava o meu sorriso de Broadway no rosto e dizia que nunca estivera melhor."
"Meu deus... isto é... perturbador!" Quinn franziu a testa.
"Concordo!" Blaine olhou estranho para Rachel.
"Mas era engraçado..." Rachel abocanhou mais um pedaço de pizza. Estava feliz pelo grupo ter se distraído do assunto botão. "E o café da manhã da casa do Kurt é o melhor! Ninguém diz que um mecânico como o senhor Hummel tenha uma mão tão boa para fazer pães e geleias."
"Sério?" Quinn ficou curiosa.
"O meu avô era confeiteiro e meu pai o ajudava quando garoto. Digamos que meu pai ficou muito rigoroso quando se trata de pães, bolos e geleias." Kurt explicou.
"E quando vou poder experimentar isso?" Quinn foi espontânea. A verdade é que ela não comia com tanta qualidade desde que saiu de casa. Era chato preparar uma boa refeição para uma pessoa só.
"Sei lá... Quando quiser, não me importo." Olhou no relógio. "Dez e quinze. Se for para irmos, essa é a hora."
"Posso levar um pedaço de pizza?" Sam levantou-se, pegou uma fatia enquanto colocava sua carteira no bolso para ir embora.
"Vocês não precisam ir correndo." Rachel protestou.
"Precisam sim... eu falei sério sobre discutir regras, Rachel Berry. Isso aqui não é república de botões onde você é a madre superior. Isso aqui é uma relação de igualdade entre duas colegas de apartamento. Hospedes e potenciais namorados só depois de conversarmos."
"Ok..." Sam se despediu dando um beijo no rosto de Rachel e depois no de Quinn. Kurt e Blaine fizeram o mesmo.
Cinco minutos depois, os garotos estavam saindo pela porta do pequeno apartamento com mais alguns pedaços de pizza em mãos. Rachel tinha uma sensação estranha no pé da barriga ao se ver sozinha pela primeira vez com Quinn sob o mesmo teto. Ela pegou os copos e os pratos sujos, colocou-os na pia. Percebeu que os produtos de limpeza ainda estavam dentro da caixa em algum lugar. Nada de mais: apenas o resto do que estava na quitinete de Quinn que se resumia à metade de um frasco de detergente, uma bucha nova, e o resto de produtos de limpeza para chão e banheiro.
"Está disposta a lavar pratos agora? Depois de um dia de mudança?" Quinn comeu um dos cookies. "Eu estou toda dolorida, preciso de um banho, de dormir pelo menos umas 10 horas."
"Podemos deixar de molho na pia e lavar amanhã..." Começou a providenciar a lavagem parcial no melhor modo americano. "Vai querer discutir regras agora?"
"Berry, a única coisa que quero é tomar um banho e dormir! Eu estou com o corpo moído."
"Vai primeiro então."
Rachel foi até o quarto e abriu a mala que sequer desmanchou nas duas semanas e meia em que ficou hospedada na casa de Matt. Pegou escova de dentes, de cabelo, roupas que tinha recém lavado e a roupa de cama usada, porém limpa e cheirosa, que a senhora Rutherford doou. Forrou a velha-nova cama, arrumou o travesseiro e estendeu o único cobertor que levou. Graças ao bom deus o sistema de aquecimento do prédio funcionava bem. Olhou pela janela e observou a vizinhança. Aquela rua era cheia de pequenos edifícios de três a quatro andares. Apenas o térreo dos prédios de esquinas tinha comércio. Percebeu que havia um vizinho de frente olhando na direção dela. Boa coisa que o apartamento tinha uma veneziana velha. Ainda dava para o gasto. Desceu a veneziana e esperou Quinn sair do banho. Só então pôde refrescar-se. Foi revigorante. Onde ela estava com a cabeça quando cogitou fazer os meninos passarem a noite? Deitou a cabeça no travesseiro, mas o corpo estava cansado demais e ela teve dificuldade para dormir. Poderia tomar um chá se tivesse algum. Bateu no quarto da colega. Quinn abriu com jeito aborrecido.
"Você tem um tylenol ou alguma coisa semelhante para dor muscular?"
"Tenho uma pomada que alivia alguns músculos travados, mas também tenho um comprimido, se preferir. Ou pode ter os dois."
"Os dois?" Rachel ficou incerta.
"Onde dói, Berry?" Quinn abriu um pequeno sorriso. "Ombros cansados? Pescoço dolorido?"
"Basicamente..."
"Vem cá." Quinn pegou a mão de Rachel e a puxou para dentro do quarto. "Senta aí na minha cama que eu vou te dar uma massagem com a pomada. Daí você toma o remédio."
Rachel ensaiou um protesto que não passou de um pequeno resmungo. Sentou-se na cama e observou Quinn ir até um estojo retirar uma bisnaga de pomada que já estava na metade do seu conteúdo. Sorriu brevemente antes de se posicionar atrás da colega. Rachel afastou o cabelo e ficou um pouco tensa quando sentiu as mãos de Quinn afastando levemente as alças a camiseta sem manga que usava para dormir. Sentiu um arrepio quando o conteúdo frio da pomada entrou em contato com sua pele e mais ainda quando as mãos suaves de Quinn começaram a massageá-la nos ombros e na parte de trás do pescoço.
Aquelas mãos eram mágicas. Quinn pressionavam pontos que causavam dor por causa dos músculos machucados, mas o resultado do tratamento era fabuloso. Rachel fechou os olhos, fazia uma careta de dor de vez em quando, mas no geral, o que mais sentia era o prazer do contato. As mãos de Quinn passeavam firmes pelos ombros, pescoço e parte das costas, onde os músculos estavam também muito maltratados. E como eram eficientes. Quinn também gostava da sensação de cuidar de Rachel: era reconfortante estar com alguém pela própria vontade, especialmente se esse alguém fosse a garota que tinha personalidade forte, mas também grande candura. Era quase um privilégio para Quinn poder estar naquela posição.
"Pronto!" Quinn arrumou a alça da camiseta da colega.
Rachel abriu os olhos e por pouco não gemeu reclamando por causa da ausência do toque. Percebeu o próprio rosto quente só em pensar a respeito. Aquela não foi a primeira massagem que recebeu na vida. Santana já fez o favor em algumas ocasiões, mas para Rachel, as mãos da líder, apesar de prestativas, não lhe causavam tal prazer. Aliás, Rachel pensava que Santana fazia massagens como se sovasse um pão. Com Quinn foi diferente: só conseguiu sentir prazer.
"Obrigada." Rachel disse quase num suspiro.
"Disponha." As duas trocaram olhares, como se estivessem entrado em um transe em que até a densidade do ar do quarto mudou. Quinn foi quem rompeu o momento. "Agora tome o comprimido e deite. Vai acordar melhor."
"E quanto a você?"
"Eu o quê?"
"Quer que eu retribua o favor?"
"Noutro dia, Berry." Quinn ficou um pouco corada. "Boa noite."
"Boa noite." Rachel pegou o comprimido e saiu do quarto. Mas antes de sair voltou-se ligeiramente para a colega. "Quinn..."
"O quê?"
"Estou feliz por estamos juntas... digo, dividindo o apartamento. Você é uma boa amiga."
"Eu também estou feliz, Rach."
Rachel colocou um sorriso no rosto e foi se preparar para dormir.
...
Todo o tratamento que Quinn havia feito funcionou bem demais. Rachel dormiu como uma pedra, por isso mesmo levou um susto quando o alarme do celular disparou. Sonolenta e confusa, verificou as horas no visor do aparelho e deu um pinote na cama. Abriu a mala e colocou a primeira coisa que viu na frente que não fosse pijama. Correu para o banheiro e procurou ser o mais ligeiro que pôde.
"Onde vai?" Quinn, ainda de camisola, a observava com um pacote de biscoito em mãos.
"Tenho um encontro em dez minutos."
"Posso saber do que se trata?"
"Assunto botão."
Rachel enfiou um corro na cabeça e desceu as escadas correndo e assim continuou por dois quarteirões até a pizzaria. A corrida não foi problema, pois estava em grande forma. Ruim foi fazer o esforço quando já tinha passado o dia anterior em grande atividade física: leia-se, carregando móveis e colocando tudo no lugar. Chegou até o beco vizinho da pizzaria e foi em direção ao depósito. Cruzou com a faxineira da pizzaria, que ficou confusa em ver a garota.
"Menina Rachel. Há quanto tempo não a vejo." A moça gostava do jeito educado e simples da menina que conhecia há algum tempo.
"Bom dia Sonja... sabe se Reynolds passou por aqui?"
"Não sei dizer. Você está meio pálida. Acho melhor você se sentar."
"Não posso. Estou atrasada."
Rachel tomou o caminho do depósito sem se preocupar com explicações. Sonja sabia o suficiente para não fazer perguntas sobre as pessoas que circulavam por ali naquele beco. Ela sorriu para a botão e a deixou em paz. Rachel abriu a porta do depósito e acendeu a lâmpada. Olhou para a porta com receio de que, daquela vez, Sonja pudesse estar curiosa. Decidiu trancar a porta, uma vez que todos os botões com acesso à sala comunal tinham a chave. Entrou no elevador, inseriu o dispositivo eletrônico em forma de botão, digitou a senha e o elevador desceu. Estava nervosa porque aquela seria a primeira vez que ia à sala comunal para ser aceita num diferente círculo. Encontrou Reynolds e mais nove pessoas por ali. Só tinha visto a metade delas. Matt não estava lá. Imediatamente se arrependeu por não ter lido a parte que falava de outros círculos no HD de Santana. Mas o acesso ao computador que tivera nos últimos dias foi pouco e Rachel não queria revelar a existência do objeto.
"Que bom que resolveu aparecer, pequena." Reynolds olhou para o relógio.
"Desculpe." Estava naturalmente vermelha por causa da corrida, o que foi vantajoso ou os outros notariam o rubor.
"Pessoal, esta é Rachel Berry, a nova integrante deste círculo."
"De fato, coloque nova nisso!" Um homem que aparentava estar na casa dos 30 anos a cumprimentou primeiro. Os outros fizeram o mesmo em seguida.
O círculo era mais heterogêneo do que esperava. Além de Reynolds que o liderava, também estavam por três alunos da community college sendo um deles era Susan Jameson que era veterana na escola quando Rachel tinha acabado de ingressar. Achou interessante como elas nunca se falaram. Havia o cara que trabalha na agência dos correios local: era o gerente da unidade. O homem de 30 anos que se identificou como Roger Ayala. Ele era dono da gibiteca e Rachel presumiu que provavelmente Sam o conhecia. Os outros ela nunca tinha visto. De qualquer forma, Reynolds era líder de círculos operacionais e ela deveria imaginar que não entraria em algum com pessoas importantes.
"Bem-vinda, Rachel Berry." Reynolds disse com um sorriso quase forçado.
"Olá." A jovem disse sem-jeito para um grupo em que ela era a mais nova. Estava tão acostumada a lidar com pessoas da mesma faixa-etária de seu círculo original que ver gente mais velha ali dava outra dimensão do que era os Botões.
"Pessoal." Reynolds disse como se lesse uma lista de protocolos. "Essa é Rachel, Rachel, esse é o seu segundo círculo."
"Era o mesmo de Santana?" Ela perguntou e provocou uma risada de Reynolds, desta vez genuína, e algumas pequenas reações de outras pessoas do círculo.
"Até onde você conhecia das atividades de Santana?" Reynolds devolveu a pergunta.
"Que ela trabalhava muito em atividades do círculo interno. Ela já fez, inclusive, trabalho de correio. Mas Santana nunca contou detalhes, no entanto. Eu sei que ela viajava de 15 em 15 dias para fazer algum serviço." Rachel sabia mais do que isso. Ela tinha passado o olho por cima de alguns deles nas informações contidas no HD e sabia muito mais do que estava disposta a revelar.
"Correto..." Reynolds acenou satisfeito. "Santana é uma menina talentosa, e não foi à toa que foi designada para um projeto especial. Ela nunca pertenceu formalmente a esse círculo, mas você verá, Rachel, que uma vez que se estabelece em círculos internos, você passa a conviver com mais botões. Você conhece uma dimensão muito mais ampla da nossa sociedade. Essa é a unidade dos correios, talvez se colocarmos assim fica mais fácil de explicar. Nossa responsabilidade é atender Lima e região próxima, por isso somos muitos."
Começou a explicar o processo de entrega. Os correios chegavam escondidos de diversas formas. Eles eram concentrados em algumas bases espalhadas pelas regiões que antes tinham status de estados. Os botões daquele círculo iam até uma dessas bases, no caso ali, na principal cidade do condado, e separavam as correspondências referentes ao bloco de cidades. Por fim, traziam para as sedes e começavam a organizar os botões rosas para entregas. No caso das correspondências da cidade, elas podiam ser concentradas na sede. Nas outras cidades menores e rurais que estavam dentro do raio de atuação, certos botões tinham de ser atendidos um a um. O recolhimento das encomendas era algo mais simples: as pessoas da cidade Lima e das proximidades tinham de deixar tudo na sede e havia o dia certo para recolhimento em outras localidades. Era um trabalho nobre? Claro! Rachel sabia o quanto todo esse esquema era importante para que pessoas, assim como ela, pudessem receber notícias de queridos que sem receio de dizer o que sentiam, afinal, não eram só encomendas internacionais que circulavam.
"Você encontrou o item que Santana disse para procurar?" Reynolds perguntou.
"Sim, mas eu não o peguei..." Rachel procurou dosar as informações mais uma vez para estudar as reações do líder do círculo mais interno.
"Ficou com receio?" Rachel acenou rapidamente. "Mas você precisa aprender a atirar ou não estará apta a enfrentar certos tropeços deste trabalho. Ayala deveria ser o seu instrutor antes de começar a atuar. Faça o seguinte: volte à casa dos Lopez, pegue a pistola, tente herdar a moto porque você vai precisar dela. E quando concluir volte a falar comigo."
"Entendido." Acenou a cabeça humildemente e ficou intrigada: Reynolds não sabia do HD. Ou se sabia, não dava a menor importância. A julgar por todas as fotos e informações que ela viu por alto, Rachel achava improvável. "Mas todos vocês... sabem atirar?"
"Vá a casa dos Lopez, faça o que tiver de fazer." Reynolds disse firme, autoritário.
Rachel não estava gostando daquilo. Precisou voltar para casa e pegar um dinheiro para chegar até os Lopez. Encontrou Quinn lavando o banheiro. A cozinha estava arrumada e algumas caixas vazias já se acumulavam no canto da sala. Não achou justo que a colega estivesse com todo o trabalho. Deveriam estar fazendo tudo juntas.
"Má reunião?" Quinn chamou a atenção dela do banheiro.
"Eu preciso do seu computador! Mas antes, eu preciso de uma carona."
Quinn franziu a testa e estranhou a atitude, mas concordou. As duas foram até os Lopez e encontraram ninguém por lá. Quinn assistiu Rachel pular a cerca mais uma e pegar a chave extra no mesmo lugar de sempre. No minuto seguinte, as duas estavam entrando pela porta da cozinha. Rachel não se importou que a colega a acompanhasse.
"Quando Santana se despediu de mim e de Matt, pediu para que entregasse uma carta ao pai dela e me deu uma espécie de mapa com um lugar secreto do quarto." Rachel explicou enquanto subia as escadas e chegava até o quarto de Santana já arrumado. "Ela colocou uma arma nesse lugar e também um pendrive com algumas informações." Rachel preferiu dizer meia-verdade à Quinn. Um HD externo era bem diferente de um pendrive e ela não estava disposta a dizer a verdadeira natureza do conteúdo. "Santana tinha mapeado algumas operações, fotos, relatórios." Empurrou a cama e apontou para a tábua solta. "Reynolds pediu para que eu pegasse a pistola. E só a pistola, entende? Ele não insinuou em nenhum momento que existia um segundo objeto." Quinn a ajudou a erguer a tábua.
"Você está querendo insinuar que Santana queria que você soubesse coisas que teoricamente não deveria?"
"Tenho quase certeza." Rachel pegou a pistola e o cartucho de balas. Quinn olhou ao redor e pegou uma mochila de Santana. Colocaram a arma lá dentro, com cuidado.
"E esse pendrive tinha algo mais?"
"Eu não sei dizer se tem algo além do que disse, mas acho que é seguro dizer que Santana não deveria estar armazenando tais informações." Rachel abaixou-se mais uma vez e enfiou a mão no interior do vão.
"O que está fazendo?!"
"Eu senti alguma coisa." Rachel estava com o braço quase todo enterrado no vão. "Tem alguma coisa aqui... o seu braço é mais comprido que o meu."
Quinn enfiou o braço no buraco e sentiu um saco plástico entre os dedos e começou a puxá-lo. Era um pouco pesado. Com um pouco de dificuldade, trouxe o pacote até a luz da fresta. Quinn olhou para o pacote e o trouxe para a superfície. Depois para Rachel, que estava pensativa.
"Parece ser as economias de Santana. Deve ter quanto aqui? Uns 50 mil? Isso aqui é um bom dinheiro, Berry! Como ela conseguiu juntar tudo isso?"
Rachel ficou seriamente tentada a pegar o dinheiro. Ela queria desesperadamente sair de Ohio. Que se não fosse pelo mérito, ou pela articulação, poderia ser pelo dinheiro. Mas aquilo não era dela e muito menos lhe fora diretamente oferecido. Seria roubo.
"O que vamos fazer?" Quinn ergueu a infame sobrancelha.
"Esperar pelo jantar, entregar o dinheiro aos pais de Santana e pedir a moto emprestada."
