Coisas que Rachel aprendeu com o novo círculo de botões sobre ter um revolver: mantê-lo escondido é bom; não falar sobre ele para outras pessoas é bom; ter de mostrá-lo é mau; ter de apontá-lo para alguém é encrenca; ter de desperdiçar uma bala significa que você está muito encrencado. Felizmente, ela só vivenciou a parte menos ruim, na opinião dela. Ayala era um bom instrutor. Os dois passaram a semana numa região de campo nos arredores de Lima, onde ela aprendeu a manusear a pistola e a atirar. Não tinha uma mira muito precisa, mas Ayala atribuiu à pura falta de paciência aliada ao bloqueio que a aprendiz tinha em relação às armas de fogo.

"Preste atenção e respire antes de atirar!" Ayala corrigia a postura de Rachel pela enésima vez.

"Mas numa situação de perigo, não vai dar tempo de eu endireitar o corpo, respirar e atirar. Especialmente se alguém estiver atirando de volta! E como também não vou disputar campeonato algum de tiro ao alvo, qual é o ponto?" Rachel esbravejou.

Ayala pegou a arma das mãos de Rachel, apontou para a madeira com o alvo pintado sem tirar os olhos da aluna e disparou. Não foi certeiro, mas Rachel teve de engolir que o tiro foi mais próximo do ponto central do que todas as demais tentativas dela.

"Escute aqui, garota. Preste muita atenção." Ayala travou a arma e a ergueu de modo que a arma ficasse diante dos olhos de Rachel. "A questão não é a sua mira ruim por causa de sua falta de paciência e preparo. Você sabe do que estou falando?" Rachel simplesmente balançou a cabeça em sinal negativo, deixando o instrutor terminar a lição. "Se você deixar de ter equilíbrio e de pensar mesmo na situação mais crítica, se você apenas reagir, vai se ferrar e vai comprometer todo o resto. Eu não quero que você acerte o alvo bem no centro! Eu quero que você aprenda a pensar com a pressão de ter uma arma em mãos."

Ayala tinha um ponto: de fato era muito difícil pensar com coerência com uma arma de fogo em mãos. Os sentimentos de poder e de medo eram assustadores. Ayala enfatizava que os sentimentos de poder e de medo eram necessários, mas que deveriam estar em equilíbrio com o raciocínio. Vida e morte poderiam ser decididos em um segundo e, por tudo isso não se poderia se abdicar da responsabilidade de tomar uma decisão consciente.

Rachel voltou pensativa para casa. Ayala não falava apenas de pensar com a posse de uma arma de fogo: aquela era uma metáfora que servia para qualquer outra coisa que fizesse: em especial sobre o plano em dar o fora dali. De forma alguma que Rachel tinha cogitado em dar um tempo em seus planos, mas as lições de seu instrutor a fizeram lembrar que tudo precisava ser feito sem afobações.

"Você tirou as fotos do local do seu treinamento desta vez?" Quinn estava entretida no computador quando a colega entrou no apartamento. Rachel não revelou onde estava o HD nem sequer o mostrou para Quinn, mas a ideia foi o suficiente para acender um brilho nos olhos diferente na botão raso.

Quinn pensava que se Santana montou todo um conjunto de informações detalhado sobre o que fazia e via nos botões, Rachel deveria dar continuidade. Ela própria começou a montar um esqueleto de informações próprias. Sabia que Santana tinha boas razões em ter todo o trabalho que, no fim, acabou salvando a vida dela em pelo menos uma ocasião: se ela não fosse a "senhora cautela paranoica" e não tivesse exímio conhecimento de terreno e geografia, teria sucumbido no dia em que o serviço especial do governo estourou um dos centros de correio. Mas Rachel não estava preocupada em aprofundar-se neste mundo interno. Ela queria sair. Queria ir a capital e conversar com as pessoas que realmente a colocariam para fora. Caso ficasse, terminaria sendo um eterno botão raso a espera de um milagre para ir embora.

Quinn tinha outra visão por causa da experiência de vida. Ela não era um botão por ideologia e sim por necessidade. As alternativas eram muito piores do que ser vinculada a uma poderosa organização clandestina. Quinn tinha raciocínio pragmático. Por mais que Rachel tivesse plena confiança na boa-fé da organização, e ela não havia vivenciado nada que a fizesse pensar o contrário, Quinn entendia que não existiam santos. Estava convencida de que os botões poderiam até ser uma alternativa melhor do que o regime fascista que comandava o país. Mas isso não queria dizer que não existia corrupção, tráfico de influência e esquemas que seriam condenados em qualquer sociedade democrática.

"Sem fotos, Quinn. Eu não sou espiã ou coisa assim para ter de documentar tudo."

"Santana documentava, certo?"

"Santana tinha outras funções e propósitos." Rachel atirou-se no velho sofá doado pela mãe de Seban. "Isso não é pra mim. Seria bobagem me preocupar."

"Não é bobagem. Isso chama documentação."

"Quinn! Você devia se preocupar muito mais com a escola e com seu trabalho voluntário. Não é porque eu divido algumas coisas contigo que faz você ser parte delas. Além disso, sua obsessão em saber o que Santana realmente faz é muito suspeita, sabia?"

"Está insinuando que eu seja uma espiã do meu pai ou algo assim?" Quinn ficou claramente ofendida e com toda razão: os maus bocados que passou nas mãos do próprio pai não foram poucos. Perto do terror de ter de se prostituir para atender aos anseios do pai, sem mencionar as surras, a rígida hierarquização e os mistérios dos botões eram como uma brisa refrescante no mundo dela. Rachel balançou a cabeça e passou a mão no rosto. Estava mesmo cansada.

"Desculpe... ser um botão te deixa paranoico em certo sentido."

"Às vezes você fala como ela." Quinn resmungou. "Vocês duas tem a mesma mania de nunca completar a informação. E o mesmo jeito de entonar a voz quando estão frustradas."

"Vou encarar isso como um elogio." Rachel levantou-se do sofá e entrou no quarto.

Estava louca por um banho. Ela já tinha uma cômoda no quarto. Quinn ficou com o guarda-roupa doado. Mas ainda havia caixas espalhadas. Não teve tempo durante a semana de arrumar tudo, a se dedicar melhor ao círculo dos botões. Nunca ficou tão feliz por Matt ser o novo líder oficial e, principalmente, por ele a deixar em paz. Jogou-se na cama e fechou os olhos.

"Berry, estou de saída." Quinn bateu à porta da colega. Rachel levou um susto por ser acordada do cochilo. Pensava que tinha fechado os olhos apenas por um minuto, mas o relógio indicava que ela estava a pouco mais de meia hora ausente.

"Ok!" Rachel levantou-se num esforço e abriu a porta do quarto. Encontrou Quinn arrumada e maquiada.

"Vou trabalhar no abrigo e depois vou jantar na casa de Kurt. Ele quer me apresentar oficialmente a Burt."

"Se puder trazer uma marmita..."

"Você é tão deselegante!" Rachel sorriu ao ver a cara de desgosto de Quinn. Não podia culpá-la: a comida na casa dos Hummel era muito boa.

"Você ainda vai aprender a ser pobre, Fabray."

"Não imagina no quanto estou no caminho..." Quinn sorriu e saiu de casa.

Rachel fechou a porta quarto e voltou a cochilar.

Acordou com um barulho vindo da avenida. Levantou-se e preguiçosamente olhou pelas frestas da veneziana. Era uma batida de carros. Torceu para que o problema fosse resolvido logo, num acordo de cavalheiros. Estava com dor de cabeça e odiaria ouvir barulho de sirenes. Pegou o pijama que usou na noite anterior, roupas íntimas limpas, a toalha e tomou o desejado banho. Água no corpo era uma das coisas mais relaxantes que existia e os músculos ardiam. O telefone tocou, mas Rachel não sairia debaixo do chuveiro tão cedo. Deixou para lá. Lentamente vestiu a roupa e organizou as roupas sujas no cesto. Já estava mais que na hora de ir até a lavanderia. Isso seria tarefa dela. Quinn se esforçava nas tarefas domésticas, algo que nunca fizera até ir morar sozinha. Rachel não podia reclamar, mas havia certas coisas que Quinn odiava e só fazia depois de muita insistência e reclamação. Uma era lavar louça. Quinn também não era uma excelência na culinária, o repertório era limitadíssimo, mas pelo menos não queimava o ovo frito. Rachel, sempre que podia, tomava conta da comida também.

Verificou a chamada perdida. Era Matt. Como Rachel não atendeu, deixou uma mensagem de texto.

"Precisamos despachar sobre o desempenho dos integrantes do grupo." - MR

Rachel revirou os olhos com a mensagem. Lembrou das observações de Santana no HD, sobre o que a líder havia dito a respeito de Matt ser um burocrata. É claro que Rachel sabia que Santana tinha de reportar a respeito do círculo a alguém, mas daí a fazer avaliações formais? Não havia nada no comportamento dela que indicasse isso, e as observações no HD sobre os integrantes do círculo eram, sobretudo, pessoais. De qualquer forma, Rachel ligou para Matt para ouvir o que o novo líder tinha a dizer.

"Ei Matt!"

"Rachel, eu estava há o maior tempão tentando falar contigo."

"Desculpe, mas estava em um assunto botão."

"Tudo bem, eu sei que nós dois ficamos mais ocupados agora. Mas é que precisamos fazer uma reunião para organizar o nosso círculo. Desde que Santana partiu que não tivemos a chance de realmente estabelecer as novas funções."

"Todas as tarefas não foram distribuídas conforme Santana queria? Quinn foi até trabalhar hoje."

"Sim, mas é que Santana não está mais aqui." Matt não estava errado, mas a declaração dele gerou grande desconforto em Rachel. "Nosso círculo vai desempenhar novas funções e todos precisam fazer a máquina andar."

"Tudo bem. Quando você gostaria de discutir a respeito?"

"Hoje!"

"Não pode mesmo ser amanhã? Não entenda mal, Matt, mas hoje estou morta."

"Ok, Rachel, amanhã vamos nos reunir."

Com o assunto resolvido, resolveu verificar a geladeira. Não era muito animadora, mas tinha leite, alface, meia dúzia de ovos, azeitonas e queijo. E pão de forma. E cereal. Não tinha frutas. Fazer supermercado era algo muito caro. Quinn chegou em casa bem no soar do gongo. Deixou no balcão da cozinha literalmente uma marmita de isopor.

"Achei que você fosse dormir na casa do Kurt." Rachel ergueu uma sobrancelha.

"Quem você acha que sou?"

"Bom... eu dormia com ele pelo menos uma vez por semana. O colchão é ótimo e Kurt não ronca."

"Você é você... eu sou outra história, Rachel."

"Você é quem sabe. Só digo que fazer esse teatro com Kurt não é ruim: ele não se esparrama na cama, não ronca, como disse, o colchão é muito confortável e a comida é ótima. É o melhor namoro sem relações que se pode desejar! Além do mais, Burt é tão desesperado em ver o filho dele como um heterossexual que ele não faria mal juízo nem mesmo se Kurt aparecesse de mãos dadas com Grace!"

Quinn gargalhou. Grace era uma líder de torcida com fama de fácil e que, naturalmente, cultivava para si uma imagem vulgar no vestir, no maquiar e no linguajar. Mas Quinn gargalhou também porque, pela segunda vez no dia, Rachel falou como Santana. Por um momento era como se a antiga amiga e líder estivesse ali fazendo suas habituais considerações ácidas.

"Bom... Você tinha razão sobre uma coisa." Quinn debruçou sob o balcão enquanto Rachel abria a marmita e sorria com a salada colorida, a porção de arroz e um pedaço de filé de salmão. "A comida da casa dos Hummel é maravilhosa e eu preciso fazer desse lance de pedir marmita um hábito."

"É a coisa que mais tenho saudades em ser beard do Kurt!" Colocou a comida num prato e a esquentou rapidamente no micro-ondas. O suficiente para amornar.

"Burt fez muitas perguntas sobre nós morarmos juntas. Foi difícil dobrá-lo de que não havia nada de errado em eu dividir o apartamento com a ex-namorada do filho dele." Rachel estava concentrada na comida. "Disse que você estava feliz com Sam."

"Sam?"

"É... todo mundo da escola pensa que você e Sam estão namorando. Não vi nada demais nisso."

"Ok..." Rachel estava incerta. Claro que sabia das fofocas. Até mesmo todos os integrantes do coral estavam convencidos de que ela e Sam eram um casal. Mas ser alvo de especulações era diferente de encenar um namoro com Kurt: Sam era bonito e tinha de se sentir livre para estar com quem quisesse. "Que molho de salada é esse?" Perguntou ao acaso.

"De ervas."

"Muito suave." Achou delicioso.

"Quer pimenta?" Rachel a olhou descrente. Não havia molho de pimenta na casa e Quinn sabia disso. "Vai comprar!"

"Há há, que engraçado!" O lado cínico de Quinn não era o preferido de Rachel.

"O que vai fazer amanhã?"

"Vou ter um encontro com Matt..."

"Romântico?" Quinn provocou.

"Até parece!"

"Por que não?"

"Eu nunca me interessei pelo Matt."

"Você já foi interessada em alguém que não fosse Finn?"

Rachel olhou para Quinn e ficou incomodada com a pergunta. Evitou responder, mas o assunto havia despertado muitas curiosidades na amiga.

"Você já beijou alguém que não fosse Kurt?" Rachel encarou Quinn buscando algum sinal de deboche que não existia na pergunta.

"Uma vez... Brittany..."

"A única pessoa que você beijou além de Kurt foi Brittany?" Agora a incredulidade tomou conta de Quinn. "Santana sabe disso?"

"Se ela sabe, nunca comentou nada. A gente estava na casa da Britt tomando vinho pela primeira vez na vida. Brittany e eu começamos a conversar sobre sexo... então ela me beijou."

Foi numa das poucas ocasiões em que esteve na casa de Brittany sem Santana por perto. Ocasião ainda mais rara porque a razão por ali estar não era assunto botão: ela e Brittany se reuniram para estudar para uma prova. Depois de Rachel ensinar a amiga a fazer algumas equações simples de física, as duas fizeram uma pausa para o lanche. Brittany mostrou mensagens eróticas que Santana mandava, ordens para que a namorada tocasse os próprios seios, tirasse a roupa e se masturbasse entre outras mensagens obscenas. Para Brittany, aquilo era diversão pura, mas para Rachel, nada poderia ser mais constrangedor. Foi quando a filha de parlamentar descobriu que a colega era verde, inexperiente. Rachel mal podia pronunciar a palavra "sexo". Brittany perguntou se ela já tinha beijado alguém de verdade. Rachel disse que não, e a colega, então, resolveu tal problema. Depois começou a fazer perguntas e sugeriu que a amiga deveria se masturbar, que era fácil e divertido, além de ser saudável. Então levantou a saia e mostrou para Rachel onde era deveria se tocar quando chegasse em casa, e como fazer. Rachel praticamente correu para casa constrangida e com a forte imagem de Brittany circulando a ponta de dois dedos no próprio clitóris, mesmo que por cima da calcinha. Ela viu, inclusive, a mancha de umidade que apareceu no tecido. A imagem a deixava constrangida na mesma proporção em que tinha deixado curiosa. Como seria? Então, naquela noite, ela se tocou com propósitos sexuais pela primeira vez: e gostou.

"Isso é triste." Quinn observou com seriedade.

"Triste?" Rachel ficou confusa e até um pouco ofendida.

"Triste porque você merece estar com alguém, Rach. Digo, viver algo de verdade com alguém que goste igualmente de você. Kurt é seu amigo, Brittany é sua amiga, e Finn é um tremendo idiota que agora se transformou num camisa marrom. Isso não basta... a gente precisa ter um pouco de amor, sabe?"

"Você já amou alguém, por um acaso?"

"Uma vez eu achei que sim, mas essa pessoa era proibida dentro da minha cabeça, e depois eu descobri que ela já tinha alguém."

"Proibida por que?"

"Por ser uma mulher." Quinn disse baixinho.

"Essa mulher era Santana?" Rachel arregalou os olhos e Quinn soltou uma gargalhada.

"Nem todo se resolve em nosso círculo de Botões, Rach. Essa pessoa não era Santana. Apesar de que eu não nego que a achava muito atraente e sexy."

"Então quem?"

"Kyra Mason. Ela é a irmã mais nova de Bill Mason, com quem meu pai me mandou eu namorar uma vez. Kyra era interessante, alegre, cheia de energia. Eu odiava o irmão dela, mas ir a casa dos Mason valia a pena por causa da Kyra. Um dia ela me beijou... e foi o melhor beijo que alguém já me deu. Foi o melhor segredo que guardei por muito tempo. Mas daí aconteceram algumas coisas: Bill terminou comigo e Kyra apareceu um dia acompanhada do namorado. Eu fiquei feliz quando me livrei do Bill, mas arrasada por vê-la com um cara."

"Quinn? Você é gay?" Rachel perguntou admirada.

"Eu não sei direito. Eu já tive relações sexuais com mulheres porque aquele meu amante mais velho gostava de me ver transando com outra garota. O nome dela era Clara. Bom... ele assistia e depois... participava. De qualquer forma, eu preferia mil vezes ser tocada por ela do que por ele. Pelo menos ela era gentil comigo."

"Oh... bom... confesso que eu também não sei direito o que sou."

"Elabore!" Quinn ergueu a sobrancelha.

"Quando Brittany me beijou, ela me fez sentir coisas... eu pensei em Brittany por muito tempo de uma forma nada fraterna, mas tinha medo de dar bandeira porque ela estava com Santana, e Santana é como uma irmã para mim."

"Você sente alguma coisa pela Brittany?"

"Não mais. Só foi uma atração momentânea. Mas a sensação de ser beijada por uma garota foi nada ruim. Não sei se é porque a minha mente sempre esteve muito focada com a encenação que deveria fazer com Kurt. Só sei que Brittany fez o meu corpo despertar. E a gente só se beijou uma vez! E também teve Sam..."

"Sam? Eu sabia que tinha alguma coisa acontecendo entre vocês dois!"

"Não falo dele do jeito que você está pensando. Tenho certeza que se eu quisesse algo mais, é possível que a gente pudesse namorar. Só que, pensando bem agora, eu tenho esse bom amigo e nós passamos muito tempo juntos... e nunca houve nada que me fizesse olhar para ele de um jeito diferente."

"Mas você olhou para Finn."

"Finn é bonito, é popular, é a principal voz masculina do coral, e o senhor Schue nos coloca para fazer uma penca de duetos. Não me culpe por ter pensando que Finn e eu poderíamos ser uma possibilidade."

"Para quem o namorou, eu continuo sem entender, mas enfim, sua vida, seus sentimentos."

"Pelo menos agora eu entendi porque você levou adiante um namoro unilateral de fachada com Finn." Rachel pontuou.

"Você acha que eu sou mesmo gay?"

"Eu me refiro a sensação de normalidade. Finn... bom, vocês eram o casal clichê: líder de torcida namorando o jogador de futebol. Todo mundo na escola tinha inveja de vocês dois. Não me julgue, mas penso que viver esse relacionamento de aparência era melhor do que acontecia contigo por causa do seu pai."

"Não está errada..." Quinn suspirou. "Mas isso não resolve essa dúvida quanto a minha identidade."

"Sabe, eu tenho inveja dos nossos amigos nesse ponto. Porque uma vez que você tem certeza do que é, tudo melhora, pelo menos dentro a nossa cabeça."

"Vivendo onde vivemos, nada disso se torna mais simples, muito pelo contrário. Mas concordo contigo. Ter certeza do que é descomplica muitas coisas. Talvez eu seja mesmo gay. Talvez não..."

"O que falta para você descobrir?"

"Aquele alguém." Quinn encarou Rachel por alguns segundos e foi um momento capaz de fazer as duas prenderem a respiração. "Boa noite, Rachel."

"Boa noite, Quinn."

Rachel terminou o jantar e organizou a cozinha antes de se deitar. Ficou pensando na conversa com Quinn, nos próprios sentimentos, nos desejos do próprio corpo. Estava tensa e precisava de um alívio. Mesmo ainda virgem, Rachel tinha conhecimento do próprio corpo e dos prazeres do auto estímulo. Debaixo da coberta (era condição da masturbação, uma vez que morria de medo de ser flagrada, temor que levou da casa dos Puckerman), nua da cintura para baixo, com as pernas abertas, respirando fundo e engolindo qualquer gemido, tocava-se gentilmente. Primeiro ela estimulava o clitóris e movimentos circulares gentis. Com a outra mão passava a mão nos próprios seios e beliscava o mamilo de leve. Seu corpo começou a entrar em ebulição e essa foi a sua deixa para penetrar dois dedos.

Movimentava dois dedos dentro de si em movimentos rápidos. Estava tomada pela sensação de prazer, ao mesmo tempo em que questionava o próprio pudor. Então pensou que se ela não tinha problemas com o próprio corpo, por que ainda se deixava levar por tantos tabus? Será que deveria continuar a ser tão exigente assim na escolha de quem se relacionar? Já tinha 18 anos e nunca havia namorado ninguém de verdade. Achava aquilo patético. Psicólogos diziam que não havia idade certa para se perder a virgindade. Tudo era uma questão de escolha, certo? De se estar preparada mental e fisicamente. Ela própria ficou famosa por um discurso emblemático em plena McKinley High de que garotas também desejam ter sexo tanto quanto os garotos (coincidentemente dias depois de se tocar pela primeira vez). Pensou que talvez fosse o momento de abrir um pouco mais seu coração e considerar novas possibilidades. E quando decidiu tentar se permitir, mordeu o cobertor e deixou o orgasmo fluir.

Enquanto recuperava o próprio fôlego, não imaginava que no quarto ao lado, Quinn, completamente nua em cima da cama, também se masturbava.

...

A segunda-feira chegou. Com ela, o reinício dos treinos de atletismo, das aulas, de tudo. Rachel notou um clima diferente entre as cheerios logo nos vestiários e percebeu que o assunto Santana ainda tinha o que render.

"Eu sabia que ela era uma subversiva." Comentou Kate.

"Dizem que ela fugiu para o Leste." falou outra.

"Parece que a missão dela era disseminar o comunismo entre os alunos." Outra disse como se estivesse horrorizada com o perigo que morava ao lado.

Rachel revirou os olhos e vestiu o uniforme do treino que seria de condicionamento físico no ginásio junto com as cheerios. Enquanto não houvesse condições de voltar ao campo, os próximos aconteceriam na academia que ficava na quadra ao lado do campus da escola. Nada de mais.

A primeira coisa que notou quando colocou as roupas regulares e foi assistir as aulas foi que o grupo fascista de Puck havia crescido. Além dos jogadores de futebol, meninas se uniram à turma.

"Rachel!" Puck a assustou com um tapa no armário ao lado e falou com certa satisfação. "Viu o que aconteceu com a sua amiguinha? Dizem que ela saiu correndo feito um rato. Cuidado ou o seu destino será o mesmo se você continuar a andar com um bando de subversivos."

"Santana não era uma subversiva." Rachel esbravejou. "Não foi encontrado nada que a incriminasse na casa dela... ou na casa de Sam, ou no meu quarto, ou no apartamento de Quinn, ou nas casas de Mercedes, Mike e Tina!"

"Esse cara resolveu torrar a paciência logo cedo?!" Sam chegou peitando Puck e agiu como se estivesse entediado. Rachel o puxou pela camisa e o beijou nos lábios, deixando Puck sem-graça. O camisa marrom saiu de perto. Então Sam arregalou os olhos para a amiga. "Uou! O que aconteceu aqui?"

"Ele pensa que a gente está transando... Não custa nada reforçar a impressão." Rachel disse quase indiferente.

"Ok, mas..."

"Não foi grande coisa, ok? É melhor espantá-lo assim do que brigar. A gente ainda precisa conviver com ele no coral."

"Não me lembre!"

Quinn e Kurt começaram para valer a encenação do namoro e já andavam de mãos dadas e trocavam pequenos beijos pelos corredores. Testemunhar tal interação deixou Rachel incomodada. Finn, de camisa marrom mas sem esquecer a jaqueta de pescador, parecia constantemente irritado. Artie tentou novas investidas em Brittany, mas era atrapalhado por um dos botões, juntos ou de forma alternada. A novidade era Mercedes, Mike e Tina, cuja assistência foi negligenciada durante o break de inverno. A ação dos agentes deixou Mike temeroso e ele passou a vestir a camisa marrom símbolo do governo fascista, muito também por causa da péssima experiência na passeata. Tina revoltou-se e não aceitava que o namorado tivesse "se rendido". Rachel tratou de observar a candidata a jornalista mais de perto por causa de tal atitude. Mercedes ainda permanecia neutra. Preferiu concentrar as atenções nas atividades artísticas e não falar a respeito.

"Temos três missões a cumprir neste semestre." Schuester começou a discursar assim que o coral voltou a se reunir depois das classes. "Uma é encontrar novos membros. Precisamos de pelo menos mais um, mas não reclamaria se conseguíssemos atrair mais pessoas. Talvez a nossa classificação para a final na capital chame a atenção. Isso nos leva a missão dois, que é organizar uma apresentação que seja muito atrativa e possa efetivamente chamar a atenção para novos membros. A terceira e mais importante é preparar os quatro números para as finais."

Então Rachel levantou a mão, o que já era esperado.

"Professor Schue, sobre as nacionais, eu tenho ótimas ideias para nossas apresentações."

"Não um dueto com Finn. A gente sempre perde!" Kurt desdenhou e Finn o olhou com raiva.

"Também nada de músicas inéditas... a gente perdeu no ano passado com essa história." Artie resmungou. "Sem falar que dá mais trabalho."

"Na verdade, estava pensando em fazer medleys da Motown. Fazer uma grande celebração à época de ouro de quando música de qualidade não era proibida em nosso país!"

"Não acredito que essa é a primeira grande ideia que ouvi sair da sua boca, colega!" Mercedes levantou-se e quase deu um soco no ar.

"O que é Motown?" Finn perguntou.

"Significa música com alma." Sam respondeu com um sorriso no canto dos olhos. "Uma alma negra nascida numa época em que nosso país ainda respirava!"

"Boa parte das canções desta época ainda são permitidas e são grandes canções, sem dúvida." Schuester ponderou. "Mas eu não sei... não quero dar uma impressão de enfrentamento, sobretudo depois que alguns de vocês passaram."

"Não queremos enfrentamentos, mr. Schue." Mercedes argumentou. "Mas precisamos de uma alma agora!"

O grupo aceitou a ideia e Rachel vibrou. Ela também tinha as próprias metas a serem alcançadas até a capital. A primeira foi cumprida com sucesso. Agora ela precisava planejar para ser a grande estrela do show. Passo dois: falar com o senhor Pierce sobre Lester Goldman, o suposto pai biológico dela.