O parlamentar Pierce era muito respeitado pela sobriedade em que levava a vida política. Era advogado de formação, casado com a pedagoga Susan Pierce e os dois tiveram duas adoráveis filhas. A sociedade admirou-se quando testemunhou a luta do casal Pierce em garantir o direito da filha mais velha à uma escola normal. Brittany Susan Pierce tem dislexia, mas conseguiu contornar dificuldades na escola com a ajuda dos pais e dos colegas. Como prêmio, Brittany vai conseguir se formar na escola aos 19 anos e pode optar em cursar tanto as faculdades de Moda quanto integrar o programa de artes para Dança Moderna. Uma vitória para a família. A história de Brittany é apenas uma das coisas que torna a vida do parlamentar Pierce ser tão admirada, mesmo ele sendo um homem da chamada oposição interna, uma vez que o país vivia sob regime totalitarista.

O parlamentar Pierce era um adversário respeitado dentro do partido do chá, que dominava o parlamento nacional sob forte pulso do premier Tom Brooks. O maior embate político ficava por conta de Russell Fabray, mas as atitudes do extremista eram contidas pelos próprios colegas em nome da diplomacia e de uma pseudodemocracia, uma vez que era permitido que os populares votassem para constituir os parlamentos municipais. Todos sabiam que Pierce e os representantes reformistas do partido eram uma minoria, sendo que metade desta minoria conversava com Botões.

Claro que essa era uma situação desejável nos círculos internos da sociedade secreta. Enquanto os botões mais rasos faziam o trabalho braçal necessário, enquanto os demais grupos independentes faziam o enfrentamento interessante e necessário (e que poupava que muitos dos botões sujassem as mãos), o chamado alto círculo dos Botões traçava estratégias de mudanças do sistema dentro do próprio sistema. Esse era o papel de pessoas como o parlamentar Pierce: era tipos como ele que conseguia desarticular politicamente extremistas sedentos por poder, como o parlamentar Russel Fabray.

Pelo papel de moderador, o parlamentar Pierce era um dos botões mais importantes. Era o parlamentar mais respeitado da cidade e também o único da região que integrava o círculo de líderes nacionais, formado por outros nove poderosos e influentes do país. Era este círculo nacional que decidia todos os movimentos dos botões no trabalho árduo em tentar romper o poder ditatorial do premier e restabelecer o processo democrático pleno e os direitos do cidadão. Não era uma tarefa fácil. Existiam limitações devido a forte influência da Aliança dos Países do Sul, que praticamente sustentavam economicamente o governo ditatorial. O povo estava proibido de se manifestar, e as lideranças populares tinham dificuldades em se articular por causa das inúmeras restrições nos canais de comunicação. E o governo do chanceler Brooks ainda fazia questão de deixar os militares muito satisfeitos.

Por todo cenário por hora desfavorável que a solução dos Botões era pensar em uma estratégia articulada a médio-longo prazo enquanto trabalhavam à surdina para manter a máquina operando e cuidar dos seus. Isso incluía o bem-estar dos botões rasos.

O que Rachel sabia dos círculos superiores veio dos arquivos de Santana. Ali estavam contidas as informações de que Pierce era o principal botão da região, mas nem mesmo Santana foi capaz de fazer um mosaico preciso de toda a estrutura operacional que as atendia. Santana sabia alguma coisa sobre o círculo maior, de alguns dos integrantes, das funções desempenhadas em cada grupo. Ela estimava que havia entre 300 a 350 botões na região, o que Rachel pensou ser um número muito pequeno, mas que, por outro lado, fazia sentido pelo o que ela própria conhecia. No fundo, aquelas informações em específico eram só um engordo para ela. O que lhe interessava era conseguir falar às sós com o parlamentar Pierce. Sabia que ele era uma pessoa que costumava viajar com muita freqüência, mas que estaria na cidade no aniversário de Brittany. Era a oportunidade de chegar a ele diretamente sem ter de implorar um encontro formal para Reynolds. Afinal, era justo que fosse permitido que Rachel tivesse a oportunidade de conversar com o pai biológico.

"Para quê tantas contas?" Quinn perguntou curiosa. Estava assistindo televisão e comia um pote de cereal no café da manhã enquanto Rachel não parava de fazer anotações e usas a calculadora.

"Preciso fazer uma projeção para os próximos meses do meu dinheiro de poupança. Quero mexer na herança dos meus pais só em último caso."

"Você conseguiu formar uma boa poupança, certo? Quer dizer, desde que começamos a morar juntas não te vejo falando em trampos. E lembro que você vivia procurando por um a ponto de aceitar trabalhar nas festas oferecidas pela minha mãe."

"Estou lotada de coisas a fazer... comecei a receber uma espécie de mesada para trabalhar no segundo círculo. Bom... é basicamente uma ajuda para a gasolina e para alimentação, mas que sempre sobra um pouco. Não substitui um emprego ou um trampo, mas vai servir enquanto eu reorganizo a minha agenda."

"Foi assim que Santana economizou todo aquele dinheiro?"

"Ainda pensando naquele dinheiro?"

"A gente começa a pensar em dinheiro quando ele acaba." Quinn levantou a sobrancelha.

"Bem-vinda ao mundo dos menos privilegiados, Quinn!" Rachel deixou a papelada de lado por um minuto e sentou-se ao lado da amiga. "De repente eu estou me sentindo como se tivesse 30 anos."

"Você é que adora um drama, Rach." Quinn segurou a mão da amiga. "Falando em juventude, você vai à festa da Britt, certo?"

"Vou sim. Pensei em irmos juntas, a não ser que tenha outros planos."

"O único plano que tenho é ficar com Kurt na festa e depois voltar para casa. Mas podemos sim ir juntas."

"É impressão minha ou você está gostando dessa história de ser beard?"

"Sabe que estou? Eu tenho um cara ao meu lado que cheira incrivelmente bem, tem lábios suaves, é divertido, me trata muito bem, e o melhor de tudo: não preciso ir para a cama com ele e nem inventar desculpas esfarrapadas para evitar fazer sexo!"

"Cuidado Fabray, você pode se apaixonar por quem não deve!"

"Kurt?" Quinn desdenhou. "Por favor, Berry!" Virou-se para a televisão como quem tentasse disfarçar a vermelhidão do rosto. "Se eu fosse escolher viver um amor impossível, não seria com ele."

"Com quem seria?" Rachel provocou. "Com aquela menina que você falou daquela vez?"

"Eu não sei. Não é que a minha lista de possibilidades esteja farta hoje em dia. Com quem você viveria um amor impossível? Santana?"

"Oh não!" Rachel balançou a cabeça. "Seria como me apaixonar pela minha irmã. Quer dizer, eu realmente amo Santana, mas não desse jeito."

"E Brittany, já que você a beijou e ficou atraída por ela?" Havia um pouco de ciúmes em Quinn, mas Rachel não percebeu assim.

"Não dá também. Nem ela, nem nenhum dos garotos do nosso círculo, e nem com o resto do pessoal do coral."

"Nem comigo?"

"Depende. O nosso amor seria impossível?" Foi a vez de Rachel provocar.

"Seria?"

"Eu perguntei primeiro!" Rachel foi petulante no tom de voz.

"Bom, minha experiência com mulher foi melhor do que minhas experiências com homens. Eu não teria porque não tentar um relacionamento de verdade com uma mulher. E quanto a você... até onde sei... tem uma mente aberta. Nós moramos juntas, nos damos bem, e você é bem charmosa, Rachel Berry. Da minha parte, não seria impossível... e sim uma possibilidade."

"Está flertando comigo, Quinn Fabray?" Rachel disse em tom de brincadeira e sorriu. Internamente ela se sentia muito envaidecida com a colocação da amiga.

"Estou dizendo que a vida me ensinou que o ser humano pode ser muito cruel, especialmente quando precisa manter o poder. Isso fez de mim uma pessoa descrente e, por vezes, raivosa. Mas ainda há uma parte de mim que diz que pessoas podem ser boas. É justo essa parte que me impede de trancar as portas aqui dentro." Apontou para o próprio coração.

"Sei que ser forçada a fazer as coisas que seu pai pediu deve ter sido horrível, mas fora isso, suas experiências anteriores foram tão ruins assim?" Rachel tinha curiosidade quanto a essa parte da vida de Quinn. Afinal, não era segredo que ela dormiu com Puck, mas Rachel ficava intrigada de como ela conseguiu namorar Finn por tanto tempo sem nunca deixá-lo tocá-la. Rachel simplesmente não entendia.

"Por favor!" Quinn revirou os olhos. "Você fala com essa estranheza porque ainda é uma virgem, Berry."

"Eu conheço o meu corpo, Quinn."

"Tá, então você se masturba! Parabéns para você, Berry. Mas saiba que ser tocada por outra pessoa é muito diferente. Nem sempre é bom."

"Por isso mesmo é que pergunto. Por não saber."

"A verdade, Rachel, é que eu não sou uma boa referência para falar sobre relacionamentos, porque nenhuma experiência que tive envolveu amor. Se você quiser mesmo saber a respeito, pergunte, sei lá, para Brittany ou para Kurt. O único conselho que posso verdadeiramente te dar é que vale a pena esperar pela pessoa certa. Ou que, pelo menos, você ache que seja a certa naquele momento."

"Acho que é justo. Obrigada."

"Apenas não tente demais, ok? Seja apenas você que tudo dará certo."

O assunto parecia que tinha morrido. Quinn levantou-se do sofá que ocupava uma boa porção da pequena sala. Foi até a cozinha anexada à sala e lavou o que sujou. Viu que os olhos de Rachel ainda estavam nela.

"O que foi, Berry?"

"Você disse que nós somos uma possibilidade! Isso é tão insano!"

"Você nunca esquece! Isso é irritante!"

Quinn balançou a cabeça e sorriu, como se nem ela mesmo acreditasse.

"A gente precisa se arrumar para a festa da Britt."

...

A festa dos 19 anos de Brittany era um evento como qualquer outro de adolescentes: começava no meio da tarde para não terminar pela madrugada por causa do toque de recolher que imperava na cidade. Havia um DJ animando a pista de dança armada na sala de festas enegrecida com lonas pretas para que as luzes coloridas e negras pudessem reproduzir o clima de nightclub. Todos os populares da escola e filhos de ilustres da sociedade estavam por lá. Inclusive os botões e o coral. Quem não quisesse ficar na pista de dança, aproveitava a paisagem do entardecer frio. Ao menos não estava nem chovendo e nem nevando.

Quinn não demorou a cair na dança junto com Kurt e os demais. Rachel sorriu ao ver os amigos em um momento de pura descontração e se permitiu contemplar o quadro antes de se reunir na pista de dança com eles. Na medida em que a festa progredia, Brittany abusava mais e mais do álcool. Rachel ordenou Blaine que ficasse de olho. Ficaria impressionada consigo mesma depois que parasse para pensar nas palavras que usou. Naquela hora, agiu como a líder natural que ela e tratou de prevenir possíveis estragos. Mike e Tina começaram a se desentender num canto do improvisado nightclub. Matt tentou se aproximar. Ele que foi o mais próximo de Mike na época em estudou em McKinley. Puck achou que aquilo era assunto dele. Matt optou pela diplomacia. Ao menos Mercedes e Quinn estavam ali próximas para ajudar a amiga. E uma vez que Rachel tinha certo interesse em integrar Tina, era boa coisa que Quinn começasse a sondar. Artie ficou frustrado porque o charmoso filho do promotor não desgrudava da menina que ele ainda gostava, mas Blaine era o tipo do figurão que os camisas vermelhas não se atreviam a incomodar.

Finn, depois de beber além do necessário, empurrou Kurt porque este estava dançando por trás de Quinn de maneira divertida, como se estivesse fazendo sexo anal e dando alguns tapas nas nádegas da "namorada".

"Isso aqui é uma festa de família. Que tal manter as coisas PG?"

Kurt não era uma pessoa que costumava reagir a agressões com mais violência, e ficou chocado com o "irmão" (uma vez que seus pais eram casados), mesmo que do lado oposto, parecia que queria arrancar-lhe o fígado. Finn continuou a testá-lo e a empurrá-lo apesar de Quinn ter gritado que aquilo não era da conta do ex-namorado – até sentiu vontade de revirar os olhos. Quinn imaginou como Finn reagiria se soubesse que ela ficou com outros homens nas costas dele? Se Finn estava violento com Kurt porque ele ficou com a "ex", isso lhe dizia muita coisa sobre o que ele era capaz de fazer. Mas Kurt era um botão: o que significava que, apesar de toda a sua postura pacifista, ele não tinha medo de lutar.

Depois de receber mais um empurrão de Finn, revidou o golpe na mesma proporção. Foi quando Finn, injustificadamente, deu-lhe um soco. Kurt, mais leve e ágil, recuperou-se rápido e chutou o irmão num golpe baixo. Aproveitou que Finn se curvou em dor, para dar-lhe um soco no queixo, que derrubou o grandalhão. Alguns camisas marrons que ali estavam reagiram em favor de Finn. Os botões não se furtaram em entrar na briga para ajudar Kurt, em especial Sam, Blaine e Matt. O DJ parou de tocar, as luzes brancas foram acesas e o senhor Pierce foi chamado.

"Se vocês continuarem a brigar, que seja longe da minha casa!" O parlamentar gritou acompanhado de dois seguranças pessoais.

Os ânimos abaixaram e neste meio tempo Rachel já retirava todos os botões dali de perto, ação que não passou despercebida por Pierce. Ela reuniu a turma, menos Brittany porque não havia sentido, no frio do jardim da mansão.

"Finn começou!" Kurt foi logo se defendendo.

"Ninguém está te culpando." Rachel disse baixinho. "Só trouxe vocês aqui para os ânimos esfriarem."

"E precisava ser tão literal?" Seban reclamou, abraçando o próprio corpo sentindo o incômodo do choque térmico.

"É só um tempo pessoal!" Matt piscou para a 'segunda no comando'. "Aqueles cretinos estavam dispostos a procurar briga desde o início."

"A questão é que o parlamentar Pierce não pode virar notícia por conta de briga de adolescentes na casa dele. Seria um prato cheio para os cretinos do partido do chá se uns camisas marrons fossem maltratados ou coisa parecida na casa dele." Todos olharam para Seban. "O quê? É estratégia clássica de guerra política: provocar má publicidade. Aposto que eles foram instruídos..."

"Até que poderia ser verdade se Finn não fosse um idiota. Ele agiu daquele jeito por ser um cara metido a herói, mas que no fundo não passa de um escroto." Quinn desdenhou.

Pierce saiu do salão de festas. Os seguranças ficaram e a música do DJ reiniciou, porém dava a impressão de que a festa seria encerrada mais cedo do que o previsto. Os botões voltaram ao salão por educação, menos Rachel, que aproveitou a oportunidade para ir atrás do parlamentar quando o avistou caminhando em direção à casa principal: ela sabia que aquela era uma oportunidade que não poderia deixar passar. Além disso, Matt daria conta do restante do grupo.

"Senhor Pierce!" Ela gritou e o parlamentar parou para atender a menina.

"O que foi Rachel?"

"Será que eu poderia ter cinco minutos de conversa com o senhor?"

"Olha, Rachel, é melhor você voltar para a festa e ajudar os nossos. É a sua obrigação agora."

"É obrigação de Matt." Ela corrigiu nervosa. "E eles vão ficar bem... sabem o que fazer. Eu só peço cinco minutos!" Olhou suplicante.

"Ok... Vamos até o meu escritório."

Rachel havia entrado na mansão dos Pierce inúmeras vezes, mas nunca havia passado perto do escritório. Era sempre a porta da frente, a escada para o porão luxuoso e, no máximo, visitava a cozinha para fazer lanches. Por mais que frequentasse aquela casa, falar com o parlamentar Pierce era um feito, por isso ficou nervosa ao segui-lo até a porta de madeira maciça escura. Ao entrar no escritório, Rachel viu que o ambiente era muito mais sóbrio do que imaginava: estantes abarrotadas de livros, dois quadros na parede, fotos da família na mesa, alguns discos e um aparelho de som em outro móvel no canto da sala, além de um minibar. Imaginou que um homem como ele tivesse um cofre em algum lugar, ou mantivesse um computador sem conexões, como Santana tinha. O parlamentar a convidou a sentar-se na cadeira diante da mesa de trabalho. Era como se fosse lidar com negócios com alguém qualquer, não com a amiga da própria filha.

"O que deseja, Rachel?" Ele fez um gesto com as mãos. Parecia exausto.

"Eu quero sair!" A resposta súbita e honesta provocou risadas no parlamentar, o que deixou Rachel constrangida. "É sério..." Ponderou o tom de voz. "Eu preciso de uma licença para deixar o país e o senhor poderia facilmente dar uma concessão no meu passaporte!"

"Para o Leste?" Ele disse incrédulo.

"Para onde mais?"

"Rachel, nem mesmo eu posso viajar para o Leste sem uma concessão diplomática. Nossas fronteiras estão fechadas para aquele lado e você sabe muito bem disso. Se você me pedisse para ir ao Texas, seria muito mais simples conseguir os vistos de saída e de entrada. O Leste, neste momento, é um assunto complicado."

"Mas Santana saiu!"

"Escute bem. Santana faz parte de um projeto fundamental para nossos planos a médio/longo prazo. Você faz parte de outro plano. O dela envolve treinamento no exterior. O seu é ajudar na luta interna."

"Não é justo, senhor Pierce! Os botões pregam tanto a luta pela liberdade e pelos direitos... mas na prática não é o que vivenciamos dentro da organização."

"Sacrifícios precisam ser feitos para que se possa atingir um bem maior, Rachel. Não podemos abrir mão de nossas estruturas se quisermos vencer essa guerra. Eu sei que não é fácil para você e para seus pares, mas também não é nada fácil para mim. Além disso, não preciso lembrar que você fez um juramento como todos os outros, e sabe muito bem que as consequências da traição podem ser muito duras."

O olhar firme de Pierce fez Rachel recuar. Não era por menos que aquele homem era um líder: conseguia intimidar apenas com o olhar. O jeito com que ele disse a última frase fez a espinha dela gelar e a mandíbula começou a tremer num reflexo de seu nervosismo. Rachel deu alguns segundos para si mesma, respirou fundo, e resistiu a vontade de sair correndo.

"Senhor, talvez eu tenha me expressado mal." Disse ainda trêmula, porém mais ciente de que precisava de cautela para falar com um homem poderoso como Pierce. "Gostaria de uma oportunidade para sair porque, com todo respeito, poderia ter melhor uso se conseguisse ser uma refugiada política no Leste. Eu poderia desenvolver minha verdadeira vocação para as artes e me transformar numa voz em favor a redemocratização e reabertura do nosso país."

"Com todo respeito, Rachel, mas ser a jovem porta-voz da redemocratização é um papel que vai ser destinado a outra pessoa. Do seu círculo, inclusive. Eu sei que você quer ser artista, respeito os seus desejos e admiro a sua perseverança. Ficaria feliz em te colocar na Escola de Artes da capital onde poderá desenvolver seu talento. Mas te tirar do país é algo que não posso fazer sem uma boa razão."

"Senhor..." Rachel tentou contra argumentar.

"Fico admirado por não estar feliz com todos os benefícios que são dispensados a você." Pierce a cortou. "O contato com a sua mãe, a sua saída do orfanato, o fato de você ter sido bem cuidada até agora, os benefícios diretos e indiretos que recebeu por ser uma de nós... por tudo isso não acha que deveria ser mais paciente e humilde?" De repente, ele levantou-se da cadeira, andou até o minibar e serviu-se de um pouco de conhaque, não se importando em oferecer uma dose para a garota. Tomou um gole cheio e respirou fundo.

"Desculpe por minha intransigência, senhor." Rachel decidiu recuar um passo, mas era um movimento estratégico. "Sou muito agradecida por tudo que os botões me deram. Fazer parte dessa organização é um privilégio e eu sou fiel a nossa causa até o fim. Santana... o senhor tem de entender que a saída repentina dela foi um baque... Santana era como uma irmã. Ela tomava conta de mim e resolvia as coisas. De repente ela foi embora, eu tive de sair de casa, passei a tomar conta de um círculo, e praticamente sou babá de Quinn Fabray, a menina que me perseguiu por boa parte da minha vida escolar. Não é tão simples e eu só sou uma adolescente..."

"Você é constitucionalmente adulta."

"Com todo respeito, o senhor me entendeu!"

Pierce encarou a jovem a sua frente e precisou reconhecer que havia pontos válidos nos argumentos dela.

"Queria poder fazer mais por você e por todos os outros. Queria mesmo. Mas nós precisamos cumprir nossas obrigações para vencer essa guerra, e a sua tarefa é ficar no país e aprender até que possa assumir funções mais importantes nos nossos círculos mais internos."

"Entendo... mas será que o senhor poderia me fazer um favor? Desses favores que não poderia pedir a mais ninguém?"

"Contanto que não seja uma passagem para o Leste, posso pensar no seu caso. O que é?"

"Como eu poderia entrar em contato com Lester Goldman?"

"O que sabe sobre ele?" Pierce estava visivelmente surpreso.

"Sei que ele é uma das poucas pessoas deste país com passe livre para o Leste, e que ele está ligado a transações comerciais de algum tipo." Agradeceu mentalmente aos arquivos de Santana. "O senhor Goldman é conhecido como um bon-vivant, que é uma das peças chaves na articulação com os botões na capital." A segunda parte da informação foi um tiro no escuro. A julgar pela expressão do parlamentar, ela acertou no alvo. E nem precisava ser tão precisa.

"De onde você tirou essas informações?"

"Digamos que também tenho algumas surpresas." Sorriu confiante agora que tinha um novo trunfo nas mangas.

"É tudo que sabe sobre Goldman?"

"Sim..."

"Rachel..." Pressionou.

"Ok... eu sei que ele pode ser meu pai biológico e penso que seja a razão por eu receber tantos privilégios indiretos e diretos dos botões. Não tenho ideia porque ele nunca me procurou nem mesmo quis me assumir quando os meus pais foram julgados e executados só porque eram gays. Não sei por que um homem com a posição dele me deixaria ser adotada por estranhos ou passar por tudo que passei. Seja como for, agora que o senhor sabe que eu sei, não acha que seria justo eu ter cinco minutos com o senhor Goldman?"

Pierce encarou Rachel. Não conseguia esconder tamanha surpresa e não imaginava que aquela garota pudesse virar as negociações daquela forma.

"Pois bem... eu vou te manter informada. Até lá, continue a fazer o seu trabalho."

"Obrigada." Rachel levantou-se.

Voltou para a festa. O DJ já havia chamado os presentes para os parabéns, doces estavam sendo distribuídos e a festa encaminhava para o fim. Viu Quinn conversando com Matt. Não resistiu e a abraçou forte.

"Ei garota, vá devagar com essa lady ou vão fazer mais teorias." Matt brincou. "Não vai querer provocar outra briga nesta festa."

Quinn a olhou com preocupação, desculpou-se com Matt e puxou Rachel para um canto reservado.

"Está tudo bem?"

"Eu acho que tenho uma chance."

"Chance se quê?"

"De sair Quinn. Assim como você, eu acho que tenho uma chance de sair."