Rachel olhou para o pequeno quarto e pensou na loucura que estava prestes a fazer. Tudo por conta de um sonho que achava que não conseguiria realizar, mas que a maldita esperança a fazia seguir adiante. Arrumou a mochila, nada mais do que duas mudas de roupa, escova de dente, pente, pistola (odiava como passou a carregar a arma de fogo com freqüência). Na carteira a carteira de motorista que servia para tudo e algum dinheiro que não queria dispor.

"Não acredito que vai levar essa loucura adiante." Quinn viu a colega arrumando as coisas da porta do quarto. "Rachel, pensa bem: como é que você vai descambar daqui para a capital só para tentar encontrar uma pessoa que nem tem certeza que vai te receber?"

"É por isso que isso se chama 'arriscar', Quinn!"

"Mas quem é esse cara e por que ele é tão importante?"

"Olha, você vai ter que confiar em mim, ok? Se tudo der certo, estarei de volta ainda na sexta-feira e de importante só vou perder um treinamento do atletismo e um ensaio do coral."

"E provas! Você vai perder os testes."

"Como se fazer testes nesta altura do campeonato fosse a garantia de alguma coisa! Meu destino já está traçado."

"Você vai sair desse buraco..." Quinn repetiu revirando os olhos e gesticulou as mãos. Estava preocupada com a amiga. "Rachel, você deveria esperar uma oportunidade melhor. Mais segura."

"Quinn, não importa o que aconteça você tem dia e hora para sair daqui. A única coisa que precisa fazer é não se meter em confusão ou enfurecer as pessoas erradas. Eu estou tentando fazer a minha obrigação para te manter longe de encrencas, ok? Você se comporta e nós estamos bem. Simples. Mas a realidade é que eu não vou sair! Pelo menos não se depender os chefões daqui..." Rachel sentou frustrada na própria cama. "Pierce disse isso para mim. Posso até desenvolver uma carreira de atriz ou de cantora, e é o que gostaria de fazer, mas não aqui. Se eu tiver uma saída, ela está na capital."

"Lidando com que tipo de gente, Rachel?!"

"Botões!" Ela falou alto, frustrada. Então respirou fundo e procurou abaixar o tom da conversa. "Eu não sei te explicar com detalhes, porque eles me faltam. Dentro dos botões existem algumas pessoas que tem passe livre. São como contrabandistas e mercenários que ganham muito dinheiro e são os principais responsáveis para financiar a nossa organização."

"É com essas pessoas que você vai negociar? Contrabandistas?"

"Mesmo os que atuam na bandidagem seguem o plano estabelecido pelo círculo maior dos botões. Se não fosse assim, seriam dissidentes usando outro nome. Mas não. São botões como nós." Passou a mão pelos cabelos. "Pelo que ouvi, um desses principais... empresários... é muito envolvido com as artes. Se eu puder convencê-lo a me ajudar porque posso ter mais utilidade sendo atriz lá fora do que trabalhando aqui dentro, terei uma chance. Ele, por si só, pode me colocar para fora."

"Está certo que esse sujeito vai te receber?"

"Não! Ainda assim, preciso arriscar. Não é que eu vá correr risco de vida ou algo assim. Longe disso."

"Eu não vou deixar você ir sozinha." Quinn começou a se movimentar. Foi ao próprio grato e esvaziou a mochila. Então olhou para o guarda-roupa a procura de uma muda de roupa que achasse mais adequada.

"Você não vai comigo!" Rachel foi ao quarto dela protestar. "É uma ordem."

"Para o diabo com sua ordem, Rachel Berry. Eu não acompanhei todo o seu drama para ficar aqui todo esse tempo roendo as unhas por você. Claro que vou junto!"

"Mas e a escola? Tem provas a fazer!" Rachel tentou persuadi-la com os mesmos argumentos que Quinn tentou usar antes.

"Foda-se as provas. Eu vou embora daqui passando ou não nos testes! Rachel, isso é importante e eu quero participar. Não tire essa oportunidade de mim, por favor."

Rachel balançou a cabeça e tentou conter um sorrisinho. O que aquela maluca estava fazendo com os sentimentos dela?

"Nós vamos partir depois da escola. Se tudo der certo, voltamos a tempo de passar o aniversário de Santana com os pais dela."

"Você vai comemorar o aniversário dela?"

"Como todo ano eu faço."

"Tá falando sério?"

"Maribel sempre faz torta de morango com chocolate, a preferida de Santana. A gente almoça, conversa bobagens, canta parabéns e come a sobremesa. Depois Santana saía para comemorar como bem entendesse com quem bem entendesse. Mas essa parte familiar era sagrada e eu tive o privilégio de participar. Por isso que, quando voltarmos, vou a casa dos Lopez para celebrar o aniversário da minha amiga."

Quinn acenou. Ainda era difícil acreditar que Santana e Rachel tivessem uma relação tão próxima fora da escola. Mas, de novo, só quando tornou-se uma botão que entendeu todo o teatro por trás de muitas das posturas e relações entre os colegas.

Quinn não tinha treinamento com as cheerios na quarta-feira pela manhã. Era o dia de folga. Em compensação, Rachel precisou correr para o treino de atletismo. A botão estava com boa técnica de salto com vara e até achava divertido correr pela pista paralela, saltar ainda em alturas baixas e cair no colchão macio de costas. Perguntou certa vez porque a professora insistia em treiná-la em salto com vara se, mesmo com todo entusiasmo, não seria capaz de competir ainda. Como resposta, disse que era uma aposta de que a universidade lapidaria o jovem talento. Isso fez Rachel sentir-se culpada porque esse não era o destino dela.

No final dos treinos e depois da chuveirada, Rachel deixou a mochila de viagem dentro do armário nos vestiários. Procurou passar o dia normalmente, o que significava assistir às classes, fazer testes, conversar com os amigos do coral – que se limitavam a Tina e Mercedes, além dos botões –, e a ensaiar. Rachel julgava que o número proposto para homenagear a clássica Motown era de pura genialidade. Até mesmo Puck e Artie colaboravam. Finn se sentia inseguro e desprestigiado porque o tipo de voz dele não se encaixava nas músicas propostas para o vocal masculino. Nem mesmo o timbre de Sam, mas ele não se importava em liderar. Estava mais preocupado em segurar os ânimos entre Rachel e Mercedes na hora dos ensaios. Por ser Motown, a diva negra se achava no direito de liderar. Rachel argumentava que as divas da Motown eram mais suavidade e interpretação do que expansão. E a botão tinha mais técnica e sensibilidade para perceber essas nuances do que a rival temporária, por isso o spot de luz ficava sempre sobre ela.

Os ensaios chegaram ao fim, Rachel pegou a mochila nos vestiários e Quinn fez o mesmo. As duas foram embora de moto e Tina comentou casualmente com Mercedes e Artie, que não conseguia entender o quadrilátero amoroso entre Sam, Quinn, Kurt e Rachel. Depois, Tina olhou entristecida para Mike. Aparentemente machismo também estava contido no pacote dos camisas marrons. Artie balançou os ombros. Não se importava com as frustrações da colega de coral.

Enquanto isso, Rachel e Quinn chegaram à casa de George, que já os aguardava para pegar a estrada. O velho botão ficou surpreso com a presença da filha do parlamentar, mas a recebeu bem e parecia animado com a pequena viagem de carro com as duas adolescentes. A moto que um dia pertenceu a Santana ficou na garagem. O trio enfrentaria três horas e meia de estrada a capital no conforto de um carro de luxo.

"Vocês pensam que a organização é coisa nova?" George sorriu ao volante a caminho da metrópole. "Eu não sei por que não contam mais a história para os jovens quando são aceitos. Na minha época havia provas de aceitação mais rígidas e tínhamos manuais. O meu está no cofre da minha casa, inclusive. Quando o recebi, tinha o meu nome gravado na capa."

"Manual do tipo como fazer uma saudação especial e o que vestir nos encontros?" Quinn ficou intrigada. "Eu não sei você, mas o teste aplicado a mim foi muito eficiente. Santana basicamente me mandou estudar. Querendo ou não, isso abriu a minha mente."

"Falo de tempos mais civilizados, minha cara. Fiquei triste quando descartaram certas tradições na grande reforma interna. O manual foi um deles, apesar de cada líder de círculo ter o seu e há alguns nas bibliotecas de cada sede."

"Santana nunca falou de manual algum." Quinn reclamou do banco traseiro. "Ou talvez não soubesse... Ela falou algo a respeito contigo, Rach?"

"Eu sei do manual." Rachel confessou para a surpresa da amiga. "Já o folheei algumas vezes, mas devo confessar que nunca prestei muita atenção. Eu não sei onde está o manual de Santana, talvez ela o tenha levado com ela, mas é verdade que existe alguns da biblioteca da sede debaixo da pizzaria."

"Mas por que ela nunca falou disso para nós os novatos?"

"Porque ela achava que era liturgia demais e não se incomodava. Santana pensava que era melhor passar as regras ao poucos, com o tempo, do que despejar em nossos colos uma constituição paralela como se tivéssemos a obrigação de decorar ou algo assim."

"Eu discordo. Adoraria dar uma olhada." Quinn ponderou.

"É disso que estou falando!" George falou com mais bronca. "Tradições são importantes sim, e se elas não são enfiadas goelas abaixo de jovens como vocês duas, começam a serem desprezadas e esquecidas. Os botões foram fundados há cem anos por dissidentes dos Granatos."

"Granatos?" Quinn arregalou os olhos. "Achei que fossem uma lenda."

"São mais reais do que pensa, garoto, e eles tiveram grande parte no racha que resultou no mundo de hoje. Quanto a nós, os botões, tivemos parte da responsabilidade pela articulação da independência de nosso país, que no início era uma república democrática de orientação sócio-liberal. Por isso nos concentramos e nos dedicamos mais na construção deste novo país do que procurar articular internamente nos demais. Mas ficamos arrogantes e não percebemos a aproximação da crise social que estava por vir por causa do turbilhão econômico. Éramos velhos na maioria e a renovação que fazíamos era insuficiente, lenta, baseada na hereditariedade. Essa foi a brecha que o partido do chá encontrou para bancar a pose de salvadores e assumir o poder. Então veio o golpe que jogou todas as outras representatividades da ilegalidade, e teve início série de barbáries sob o argumento de promover a moralização do país. Brooks mandou assassinar alguns de nossos líderes botões que os agentes da inteligência dele tinham notícia. Ele também destruiu ou tomou para si alguns de nossos estabelecimentos. Mas cometeu o erro em pensar que éramos uma força local que apenas atuava nas sombras da política, e isso deu a chance dos Botões remanescentes se reorganizarem e prepararem o terreno para o contra-ataque. Daí a grande reforma que ainda está em processo de consolidação. Vê? É importante saber dessas coisas para que os novos não repitam os erros. Tudo tem que estar muito bem fixado na mente de cada integrante."

"Sinto que os botões trabalham para ser mais intervencionistas." Rachel observou.

"Nós Rachel. Quando você entra para os botões, herda toda a história e passa a fazer parte de uma espécie de corpo vivo coletivo. Então a palavra é nós!" George bronqueou.

"Desculpe..." Ruborizou e agradeceu por estar no banco do passageiro. Seria muito mais fácil para George captar o constrangimento pelo retrovisor.

"Em quantos somos mais ou menos?" Quinn estava mais curiosa com a história do que a amiga naquele momento.

"Nossa sociedade possui cerca de 40 mil integrantes. A porção mais significativa está aqui dentro, confinada assim como qualquer outro cidadão por causa das fronteiras fechadas. O restante está espalhado pelo mundo."

"Somos poucos se formos colocados em dimensões mundiais!" Admirou-se Quinn. "Somos quase nada se comparado aos maçons!"

"Somos o suficiente dentro da estrutura que dispomos e para os propósitos que buscamos. Há margem para chegarmos confortavelmente a até 60 mil, mas não neste país. Em Lima, estamos quase no limite máximo de integrantes possíveis. Para sermos mais, precisamos de mais dinheiro, mais planejamento, mais estruturas físicas, mais tudo. Nosso campo de influência tornou-se regionalizado, mas a reestruturação aos poucos corrige alguns erros." George teorizou. "Não precisamos fazer um país de botões, entende? Nossas diretrizes são democracia, liberdade e direitos humanos. Internamente, entra a fraternidade. Por isso o lema de que um botão ajuda e protege o outro. Fomos formados para atuar pela melhoria da sociedade. Hoje o foco é libertar este país, mas mesmo com um objetivo único existe uma multiplicidade de pensamentos que pode ser o nosso calcanhar de Aquiles. Essa multiplicidade de pensamentos e a nossa crise interna fez surgir os subgrupos. E desses subgrupos surgiram líderes como Lester Goldman, que embora sejam botões fiéis e trabalhadores ativos da causa, usam da posição e do poder para agir com independência."

"Por isso ele é um dos poucos que pode me tirar do país?"

"Sim... Goldman pode te tirar daqui porque é um contrabandista que detém logística própria devido ao cargo que ocupa e ao dinheiro que tem. Se ele julgar que você deva sair, é provável que ajude. E como você é um botão, jamais será desamparada por causa deste ato de insubordinação. Pode ser punida, mas nunca abandonada. Os botões só não perdoam atos de traição."

"Você não parece gostar tanto assim de Goldman." Quinn achou que algo estava mal contada naquela história. "Então por que resolveu ajudar Rachel a falar com um sujeito que não aprova?"

"Porque fiquei surpreso por Pierce dar uma oportunidade para Rachel se mover sozinha. Sinal de que ela tem algo a mais, como Santana sempre insistiu. Eu sou o cara que lida com perfis do círculo da região de Lima e direciono certas pessoas para os projetos especiais."

"Foi você quem mandou Santana para fora, não é mesmo?" Quinn continuou a indagar.

"Minha opinião teve certo peso. A verdade é que Lopez é uma jovem diferenciada com perfil que se encaixa em um dos nossos projetos especiais."

"Então ela ia embora de qualquer forma?" George acenou positivo. "E se Santana não fosse especial? Se ela fosse só um botão regular?"

"Trabalharia como um botão, arrumaria um emprego, estudaria, e seguiria a vida como todos os botões regulares. É isso!"

Rachel desviou o olhar para fora do carro. Estava com um peso no estômago. O que George revelou sobre ser o responsável pelos perfis especiais de Lima era do conhecimento dela desde o dia em que bateu a porta dele para pedir ajuda. Ficou a pensar na complexidade da situação em que se encontrava. Era como se estivesse num fogo cruzado, mas sem munição envolvida, por mais estranho que pudesse parecer. Na medida em que a gigante capital ganhava a paisagem, mais Rachel ficava ansiosa. George dirigiu com segurança pela rodovia 75 até pegar um dos desvios que os levou até a região de Allen Park. Logo no início da avenida Southfield Road havia um hotel pequeno e discreto que ficava em frente a um centro comercial e a um pequeno parque. Neste ponto, Rachel ficou agradecida pela companhia de George, que aparentemente conhecia aquela cidade muito bem.

"Fiz reserva para dois quartos com camas de casal." George falou na recepção. "Um para mim e outro que vai ser ocupado pela minha filha e pela minha sobrinha." A recepcionista franziu a testa ao ver as duas adolescentes que nada se pareciam para serem primas, o que fez George pensar rápido. "Minha filha conseguiu uma bolsa e nós vamos visitar o programa!" Boas notícias sempre desviavam a atenção.

"Mas que coisa maravilhosa. O senhor deve estar orgulhoso." A moça comentou.

"Não faz ideia. Minha sobrinha veio conosco porque você sabe como são esses jovens: não gostam de perder a oportunidade de uma pequena viagem para poder sair e se divertir na cidade. Elas não sabem que eu sei que estão aqui porque querem paquerar os garotos da capital."

"Entendo o que diz." A moça aprovou a mentira ao passo que Rachel ficou perplexa, mas resolveu entrar no teatro.

"Pai! Por favor!"

"A verdade dói..."

"Primeira vez na cidade?" A recepcionista perguntou já muito mais simpática do que no contato inicial.

"Oh sim." George sorriu e Rachel balançou a cabeça confirmando a história.

"Há coisas ótimas para se fazer aqui caso tenham tempo para passear. Recomendo o Music Hall se gostar de ver boas performances. A Ford Field também é muito interessante. Aliás, o centro da cidade como um todo é um ótimo lugar para visitar. Oh, também recomendo vocês comprarem o jornal para saber sobre o toque de recolher."

"Obrigado pelo aviso!" George sorriu.

Rachel pegou a chave do quarto dela. Aquele hotel não tinha nada de diferente dos outros em que já esteve por conta das viagens com o coral. Talvez a maior novidade fosse a cama de casal. Jogou a mochila sob a cama – que Quinn logo a colocou dentro do armário com chave. Era noite e estavam exaustos pelo dia na escola e o extra da estrada. Por isso tudo que fizeram foi comer um lanche no centro comercial em frente, tomaram uma ducha e tiraram um cochilo.

...

Rachel acordou sentindo-se anormalmente confortável no quarto do hotel. Estava aconchegada a um corpo quente, que se encaixava perfeitamente contra o dela. Corpo este que logo percebeu ser de Quinn Fabray. Como a garota em questão ainda ressonava, Rachel tirou proveito do momento para pensar em algo que não fosse a caça a suposto pai biológico. Arrumou o corpo de forma que pudesse observar os traços delicados do rosto da amiga. Que Quinn Fabray era uma lindíssima, até uma cega na Esbórnia sabia. Mas ali, de perto, em uma posição de fragilidade aliada a aproximação das duas nos últimos meses, Rachel podia enxergar além. Quinn havia adquirido novas cores e texturas que eram muito mais atraentes do que a simples beleza plástica. Rachel pensou bem a respeito e precisou admitir a si mesma que se sentia muito atraída por aquela nova Quinn Fabray. Ali, já próxima a ponto de sentir a respiração quente da outra, Rachel decidiu fazer um pequeno e ousado movimento ao tirar alguns cachos do cabelo loiro que caía no rosto de Quinn. Isso lhe deu uma visão mais clara dos lábios rosados, do queixo quadrado, forte, levemente partido. O coração de Rachel bateu mais rápido na medida em que ela se sentia mais e mais tentada em sentir aqueles lábios.

"Você pode me beijar, se quiser." Quinn disse ainda de olhos fechados, o que deixou Rachel mortificada. A atual vice-líder botão tentou afastar-se, mas não conseguiu bom resultado devido ao braço forte de Quinn em sua cintura que a segurava. "Você não precisa correr." Quinn abriu os olhos. "Eu também estou curiosa."

As duas se encararam. Rachel se sentia intimidada com a atitude da amiga, ao passo que Quinn, mais experiente, achou bonitinho a insegurança da outra. Por isso que Quinn decidiu tomar a iniciativa e avançou sobre Rachel, colocando o corpo dela sutilmente numa posição de dominância e encostou os lábios nos de Rachel. A sensação foi de um agradável choque elétrico para ambas. Os lábios de Quinn começou a mover-se contra os de Rachel, que aprendia aos poucos aquele ritmo. Era uma carícia lenta, calma, mas também exploratória.

Quando percebeu que Rachel estava apreciando a carícia, Quinn decidiu ser um pouco mais ousada e passou a ponta da língua levemente nos lábios de Rachel, na esperança que a garota entendesse a mensagem: ela queria entrar. Rachel relutou por um momento, mas perdida nas sensações prazerosas, terminou por partir os lábios um pouco mais, permitindo que a língua de Quinn invadisse sua boca. Quinn pressionou-se um pouco mais contra Rachel na medida em que explorava a garota e procurava entender os próprios sentimentos em relação a outra. Definitivamente ela estrava atraída por Rachel e disposta a explorar algo diferente na própria história: um relacionamento construído devagar, sem interesses de jogos de poder. Essa ideia era como uma brisa fresca no inferno que julgava ser a própria vida. Foi Rachel quem rompeu o beijo. Ela abriu os olhos e encarou o outro par esverdeado.

"Uau!" Rachel estava meio tonta, perdida ainda em sensações.

"Uau!" Quinn repetiu acrescentando um sorriso genuíno. "Então?"

"Isso foi... bom..."

"Só bom?" Quinn franziu a testa. Ficou ofendida porque, para ela, aquele foi um grande beijo.

"Seria melhor se a gente tivesse já escovado os dentes!"

"Oh!" Quinn virou-se na cama, afastando-se de Rachel, e gesticulou de uma forma exagerada como se estivesse empurrando um punhal contra o próprio coração. "Essa foi para matar!"

Rachel sorriu com o falso drama de Quinn e deu um leve tapa no ombro da outra.

"A gente pode tentar de novo outra hora."

"Outra hora?"

Quinn, de surpresa, agarrou Rachel pela cintura e a puxou de forma que a garota menor girasse por cima do corpo dela e terminasse de costas do outro lado do colchão. Quinn, sem cerimônia, ficou por cima de Rachel, tirou delicadamente os cachos do cabelo castanho do rosto dela antes de tocar novamente os lábios contra os da outra. O beijo, desta vez, foi mais direto e um pouco mais agressivo, mas que Rachel aceitou muito bem. Nunca na vida dela alguém a havia pegado daquele jeito, e ela não podia deixar de achar tudo aquilo excitante e novo. Com bafo e tudo mais, a língua de Quinn em sua boca provocava calafrios que a deixava tonta de prazer.

"Então?" Foi Quinn quem rompeu o beijo desta vez.

"Prefiro guardar a opinião para mim."

"Você é frustrante Rachel Berry!" Quinn rolou para o lado, mas se sentia leve e com uma estranha sensação de felicidade.

"A gente poderia explorar isso por mais algum tempo mas a verdade é que..." Apontou para o relógio na parede. "George deve estar nos esperando para o café da manhã."

Rachel vestiu-se para enfrentar um dia que prometia ser estressante. O novo casal se encontrou com George na mesma lanchonete de jantaram no dia anterior. Desta vez era para o café da manhã. O trio seguiu para Livonia, bairro que ficava na região central da capital. Próximo de um supermercado existia um edifício largo de dois pavimentos. Era bonito sem destoar do padrão arquitetônico da região. Se aquela era uma das sedes de capital – Rachel imaginava corretamente que a cidade tinha mais algumas outras –, parecia ser quatro vezes maior do que a de Lima.

Entraram naturalmente pela recepção, e foram atendidos por uma moça bem vestida com tailleur, cabelo em coque bem feito.

"Posso ajudá-lo?" Disse com educação.

"Claro" George sorriu. "Preciso falar com Richard Brian."

"Tem hora marcada senhor?" A voz da mulher ficou tensa.

"Tenho." Tirou do bolso da calça um botão prateado e o mostrou. A moça acenou.

"Está acompanhado, senhor?"

"Essas jovens estão comigo" Rachel sentiu dois pares de olhos em expectativa sobre ela e franziu a testa.

"Eu não sei se o meu funciona aqui!" Reclamou baixinho, constrangida, enquanto mostrava o botão que usava para dar acesso à sede secreta.

"Eu não tenho um desses!" Quinn sussurrou e encarou Rachel. "Por que eu não tenho um desses?"

George e a recepcionista deram uma gargalhada discreta.

"Se puderem me acompanhar..."

Andaram pelos escritórios do primeiro andar numa firma que parecia completamente normal e subiram as escadas.

"É a primeira vez das duas aqui?" A recepcionista perguntou quando chegaram ao segundo andar onde havia uma segunda recepção.

"Sim. A baixinha é categoria 2." Que naquele meio queria dizer que Rachel era uma trabalhadora ativa dos botões e que estava no seu segundo círculo de relacionamento, portanto, tinha autorização para entrar e conhecer uma das sedes primárias dos botões em qualquer cidade. "Mas Quinn é um botão raso ainda."

Quinn, como todo botão raso, não tinha o próprio acesso a sede primaria de Lima, mas isso não queria dizer que não poderia entrar acompanhada do líder do círculo ou autorizada por ele. No caso, ali havia três botões de hierarquia superior que poderiam coloca-la para dentro. Ainda que o botão eletrônico de Rachel tivesse sido feito com uma fina tecnologia, o dela não continha as informações e acessos do aparelho de George, daí a necessidade de atualizar os dados, o que consumiria alguns minutos.

"São de onde?"

"Lima!"

"A cidade de Pierce!" A recepcionista sorriu. "Sou uma fã dele!" Direcionou-se para outra mulher e sussurrou algo. A segunda recepcionista acenou e ligou. Enquanto isso a primeira explicou. "Senhor Brian não está aqui e já que o senhor quer falar com ele, achamos por bem entrar em contato."

"Qual o seu nome, mocinha?" A segunda perguntou.

"Berry, Rachel Berry." E a moça voltou a falar até que ela estendeu o fone sem fio para a menina, que ficou surpresa. "Senhor Brian?" Ela foi andando para um canto mais privado da recepção.

"Rachel Berry, recebi um bilhete de Pierce para atender um pedido seu, mas não posso ir aí onde está. Estou lotado de coisas a fazer e o que tiver de me dizer vai ser por telefone." Falou uma voz nasalada do outro lado da linha.

"Preciso falar com Lester Goldman e soube que o senhor pode me colocar em contato com ele." Houve um silêncio do outro lado da linha. "Senhor Brian? Ainda está aí?"

"Não sei te avisaram, garota, mas Goldman tem uma agenda imprevisível."

"Só peço cinco minutos. Pierce não intercederia por mim se fosse uma bobagem qualquer." E ouviu mais silêncio. "Eu só preciso de uma chance para me aproximar, é só o que peço. Um botão ajuda o outro..."

"Goldman gosta de freqüentar um nightclub chamado The Town Pump Tavern, que fica atrás do teatro Fox. Ele gosta de ir para lá depois de assistir a algum show para beber e se divertir. Tem uma mesa privativa, inclusive. Boa sorte!" Desligou o telefone.

Rachel entregou o telefone a recepcionista e percebeu olhos em cima dela. Sorriu de leve. Se ela viajou três horas e meia para conseguir um sopro de chance, então foi bem-sucedida.

"Quer conhecer o subsolo?" A primeira recepcionista perguntou e Rachel acenou ainda meio sem-graça. E a mulher continuou a explicar pelo caminho. "Isso aqui é uma firma normal de advocacia. A diferença é que todos os funcionários são botões. O segundo andar funciona escritórios de alguns dos nossos botões mais altos e aqui em baixo..." Foram descendo as escadas do subsolo. "Fica o centro de recreação e trabalho."

Entraram num suposto depósito de arquivos de casos e entraram por uma porta codificada. Rachel e Quinn arregalaram os olhos ao ver a grandeza do espaço. George já havia estado ali e, sinceramente, já viu locais de encontros dos botões mais impressionantes. A sede da capital tinha um bar que ficava em frente a uma mini pista de dança, além de prateleiras de livros – tinha três pessoas entre as prateleiras –, vários sofás espalhados, um espaço no fundo que parecia um mini que devia ter umas 45 poltronas com estrutura multimídia instalada. Algumas pessoas estavam por lá, um grupo de nove que parecia ser um círculo.

"Este é o círculo de Rob Thomaz." A secretária apontou para o garoto que parecia um universitário. "Fiquem à vontade." E subiu de volta para o posto.

George bateu nos ombros da agora protegida e foi em direção ao bar tomar uma dose. Rachel e Quinn acenaram para o grupo que não parecia ser muito mais velho do que o círculo original delas. Todos tinham cara de universitários.

"Olá..."

"Rachel Berry." Ela o cumprimentou e acenou para todos os outros. "E essa é Quinn."

"Rachel Berry e Quinn... visitando?" Ela acenou positivo. "De onde?"

"Somos de Lima."

"Oh, a cidade do Pierce."

Aos poucos, Rachel foi se soltando e começou a contar um detalhe ou outro da estrutura de Lima e do que ela fazia por lá. Logo chegou a conclusão porque os botões da capital eram chamados de conservadores. Mesmo num círculo estudado e esclarecido como o de Thomaz, ideias como ações discretas, direção de comando firmes, controle e forte estrutura hierárquica eram aspectos defendidos. Rachel percebeu o quanto a linha de comando de Santana era informal, familiar e, ao mesmo tempo, eficiente perto daquilo. Até mesmo ela própria já apresentava estilo de liderança semelhante a de sua antecessora e amiga. Mas eram só formas diferentes de se agir. Em essência, tanto ela quanto o círculo defendiam os mesmos princípios de democracia, da garantia dos direitos do cidadão, dos direitos humanos. Percebeu que essa era a verdadeira unidade dos botões. Trocaram contatos e despediu-se dos novos colegas.

No fim do dia, as garotas e George decidiram almoçar no centro da cidade antes de voltarem para o pequeno hotel para descansarem. Rachel ligou para Kurt para saber se tudo estava em ordem na escola. Ficou aliviada em saber que tirando a enxurrada de perguntas em relação a ausência dela e de Quinn, nada de extraordinário havia acontecido. Com tudo bem em casa, Rachel ligou a televisão e deitou-se na cama. Sua intenção era tirar um cochilo e preparar o espírito para a caça a Lester Goldman. Mas Quinn deitou ao lado dela e a encarou.

"Nós duas estamos com os dentes escovados e com o hálito perfeito."

Rachel ficou perplexa mas, de certa forma, lisonjeada. Com um leve sorriso no rosto, voltou-se para Quinn e as duas voltaram a se beijar.