Os estacionamentos próximos ao Teatro Fox não conseguiam comportar a quantidade de carros que eram conduzidos àquela região boêmia da capital. Se tinha algo que o governo totalitário não se importava era com o consumo quase que excessivo da população de bebidas alcoólicas e tabaco para sustentar a política de pão e circo. Havia períodos em que certos produtos faltavam às prateleiras do mercado: dependendo da safra e dos negócios, podia faltar carne vermelha, alguns produtos industrializados a base de soja e trigo. Por vezes faltavam produtos de limpeza, mas cerveja e cigarro estavam sempre à disposição e preços acessíveis: mesmo que tais produtos recebessem as hipócritas restrições de venda e propaganda. Mas jamais faltavam peixe (a indústria pesqueira era forte no país) e produtos derivados do milho (o país era exportador). Bebida também nunca faltava nas prateleiras para o consumo. A zona boêmia da cidade funcionava como um refresco, quase como downtown em Lima, com sua rua repleta de restaurantes e pequenos botecos.
Rachel e Quinn conheciam a boemia de Lima, mas as duas nunca haviam se deparado com aquelas dimensões de espaço e de gente. Não havia toque de recolher naquela semana: as pessoas estavam autorizadas a viver um pouco, mas a polícia – sempre ela – ficava de plantão para pegar os transgressores: ok, fique bêbado, mas comporte-se.
"Não há como estacionar aqui." George ajudava Rachel, mas como observador. Ele estava secretamente avaliando a postura da garota e sua capacidade de tomar decisões. "O que vamos fazer?"
"O senhor poderia estacionar o carro em algum lugar?" Rachel pensou rapidamente. "Nós descemos aqui e entramos no bar. O senhor poderia nos encontrar lá dentro... pode ser?" Olhou esperançosa para o botão de hierarquia superior.
"Claro!"
As meninas saltaram do carro e foram para frente da boate enquanto George deu sorte e conseguiu uma vaga no minuto seguinte, próximo da boate. Logo estava reunido novamente com as garotas, que mal tinham chegado à porta da boate indicada.
"Lembre-se que só estou aqui para apontar Goldman, Rachel." George advertiu. "Você é que deve fazer todo trabalho."
"Se eu passar no sabe-se lá teste secreto que você está fazendo comigo, você vai me colocar num projeto em que as pessoas ao treinadas fora do país?" Foi irônica.
"Eu nunca disse que você não era especial. Só que você não tem o mesmo perfil da sua líder original. Suas características são adequadas para outras funções. Você vai falhar se tentar ser como Lopez. Mas pode ser muito bem-sucedida valorizando o seu próprio jeito de ser."
"É exatamente isso que você quer, não é? Que eu falhe e receba uma lição?"
"Rachel... eu sei que você vai falhar!" George bateu nos ombros da garota e sorriu paternal. "Mas estou curioso para saber até onde você consegue ir."
"Como pode ser tão cruel?" Quinn franziu a testa.
"Sei que a senhorita gostaria de ajudar a sua amiga, mas não é o que vai acontecer. Você vai ficar atrás de mim e só observar, não vai interferir em nada. Isso é uma ordem."
George seguiu na frente. The Town Pump Tavern era um bar elegante que ficava no subsolo de um hotel. Mas a entrada era independente, para a rua. Havia um seletor na entrada: uma pessoa que não permitia a entrada de indigentes, bêbados vindos de outros lugares ou gente que julgasse não serem adequadas para o ambiente. George, bem vestido em um alinhado terno cinza, passou sem problemas.
"Acho que este não é o seu lugar, mocinha." O homem magro barrou a menina. George, seguido de Quinn, a certa distância, não demonstrou que ia ajudá-la.
"Eu sou maior de idade, senhor. Tenho 18." Vasculhou o documento no bolso da calça e o mostrou para o seletor. Neste meio tempo, um casal bem vestido passou direto.
"Você poderia ter 30 anos, menina. Este não é o seu lugar."
"Mas qual a razão? Eu vou consumir com qualquer outra pessoa e não vou arrumar confusão alguma."
"Já se olhou ao redor, mocinha?"
Rachel parou para dar uma boa olhada nas pessoas. Não que as pessoas estivessem trajadas para uma festa, mas as mulheres estavam em vestidos charmosos, os homens em camisas e calças sociais, no mínimo. Olhou para Quinn, que estava de vestido. Era um lugar de pessoas mais velhas e a única adolescente presente no raio do alcance de visão era ela mesma, Rachel Berry, além de Quinn. A interiorana de Lima que foi a capital numa missão que, segundo George, estava predestinada a falhar em algum ponto. Pior, Rachel nem mesmo cogitou levar roupas mais apresentáveis além do surrado jeans, das blusas, do casaquinho colorido. Até mesmo a única saia que levou estava dentro da mochila porque ficou com receio de passar frio uma vez que não levou uma meia grossa. Não que ela estivesse tão maltratada assim. Tinha roupas de adolescente comum. Só isso.
Acontece que ela ainda era Rachel Berry. Engoliu o constrangimento e falou mais reservadamente para o funcionário da casa.
"Eu sei que o senhor está fazendo o se trabalho, mas é que realmente preciso entrar."
"Não insista garota. E não me faça dar uma de ignorante contigo."
"Mas senhor Lester Goldman me espera nesta noite." Rachel ganhou confiança quando viu o homem magricelo perder a pose. "Ele vai ficar muito desapontado comigo quando souber que eu dei um bolo nele. Só que para salvar a minha pele, vou dizer a verdade, claro: que o porteiro dessa joça me barrou na portaria porque eu não tinha a roupa correta."
"Você não se parece com uma das garotas do senhor Goldman!"
Não era o tipo de história que o seletor costumava ouvir, mas todos daquele estabelecimento conheciam Lester Goldman e sabiam como tratar o cliente mais importante da casa: preparavam a comida favorita, serviam a bebida favorita que serviam apenas com a pergunta: "o de sempre, senhor?" Sim, eles conheciam Lester Goldman, e isso se aplicava também ao tipo de companhia, inclusive das garotas: os funcionários sabiam a diferença de quando uma garota era legítima e quando era uma "funcionária" exercendo o ofício de fazer companhia ao patrão. Goldman gostava de mulheres bonitas, limpas, com curvas, pernas volumosas, bem-vestidas, com idade entre 20 e 25 anos (a não ser que a mulher fosse uma companhia legítima). Tinha preferência por ruivas, inclusive. Rachel? O seletor olhou para aquela adolescente miúda, malvestida, que não era feia e nem bonita: apenas uma garota normal.
"Eu não sou uma garota dele..." Rachel pensou em elaborar um pouco mais. Mas fechou a boca. Não queria falar uma besteira que podia tudo a perder. "Só preciso entregar uma mensagem a ele do parlamentar Pierce. Pode me revistar, se quiser. Não estou armada, não carrego nada perigoso na minha bolsa. Só tenho um pouco de dinheiro e minha identidade."
O seletor a encarou e viu nada além de esperança e ansiedade nos olhos da menina.
"Ok... vou te dar um voto de confiança. Não me complique. Você pode passar neste corredor onde tem o detector de metal e pode ir ao seu encontro."
"Obrigada por entender." Rachel abriu um grande sorriso e passou pela porta.
O ambiente correspondia ao público que o freqüentava. A música era o jazz e uma banda se preparava para entrar. Havia alguns casais dançando sob uma iluminação discreta. Havia alguns garçons em paletós brancos servindo algumas das mesas. O bar era sinuoso, em madeira. Cheirava carvalho. Rachel sentiu-se fora do lugar e tolhida, a procura de algum canto para se escorar, ao passo que George a observava com um drinque em mãos. Uísque? A julgar pelo copo e pela quantidade de gelo, era.
"Estou impressionado!" Ele sorriu para a menina que se sentou no banco ao lado.
"Mandou bem, Rach!" Quinn disse com certo orgulho na voz e se aproximou para falar no ouvido dela. "Se pudesse, te beijaria aqui mesmo."
Rachel sentiu um arrepio só em pensar. Mas ela não podia se deixar levar pelo que Quinn a fazia sentir: tinha uma missão a executar: uma tão importante que a saída dela para o Leste dependeria disso.
"Você já esteve aqui!" Rachel franziu a testa ao falar com George. "Por que não me disse nada a respeito?"
"Sim, estive. Algumas vezes para dizer a verdade. Mas é assim que certas casas antigas sobrevivem: preservando suas tradições." Levantou o dedo para o barman que o atendeu. "Cerveja para as jovens." E voltou-se novamente para a companheira. "Você conseguiu entrar, mas já falhou em um ponto. Desperdiçou a tarde livre fazendo não sei o quê com sua amiga em vez de pesquisar sobre este local. Não é difícil achar informações sobre bares tradicionais como este. Uma rápida pesquisa e existe um comércio em frente ao nosso hotel. Tenho certeza que você poderia achar trajes mais adequados, e eu não importaria em pagar. Está vendo porque você não é como Lopez? Sua líder original faria uma pesquisa total sobre o lugar, inclusive pesquisa sobre a estrutura física do lugar para conhecer áreas de escape caso seja necessário." Tomou um gole. Enquanto isso o barman servia a cerveja as jovens. "De qualquer forma, você conseguiu entrar. Meus parabéns."
Rachel provou a cerveja e gostou. Não era a primeira vez que consumia bebidas alcoólicas, mas cerveja não era a preferida. Talvez fosse o ambiente, a música, os poucos casais que dançavam no salão que a fizesse apreciar o gosto. Ou talvez porque o bar só servia bebidas de boa qualidade e importadas, diferente das porcarias colocadas a disposição para consumo nos mercados. Aquilo era atrativo. Os músicos da banda começaram a tomar lugar. Tratava-se de um quinteto com piano, bateria, baixo, trompete e sax. O bar silenciou quando os músicos tocaram duas músicas instrumentais. Neste meio tempo, George apontou para uma mesa no canto o bar. Era a mais discreta delas. Ela estava ocupada por dois homens e uma garota. Um dos homens era charmoso, com cabelos grisalhos e o rosto bem barbeado. Parecia ter 50 anos bem vividos. Mesmo sentado, Rachel podia ver que se tratava de um homem em forma. O segundo homem era mais moço e não parecia ter mais de 40 anos. Tinha cabelos negros lisos, corte curto e discreto. A barba era cheira e bem cortada. A moça era jovem e bonita que talvez estivesse entre seus 25 anos. Estava em um elegante vestido preto cujo corte gritava alta costura. Um garçom foi atendê-los imediatamente. Rachel percebeu que o homem mais velho trancou os olhos em George, que acenou levemente e ergueu o copo de uísque.
"Aquele é Goldman?" Rachel sussurrou para o companheiro. O homem experiente apenas acenou. "Como é que eu chego num homem daquele?". George a encarou e não precisou dizer 'isso é contigo'.
A banda de jazz encerrou o terceiro número e o trompetista convidou um dos garçons para ir até o microfone. Aplausos. O garçom se apresentou para o público que enchia o local, mas não lotava, o que era agradável. Enquanto o homem fazia uma interpretação quase perfeita de "As Time Goes By". Rachel teve uma ideia. A banda tocou mais dois números instrumentais antes de anunciar um intervalo de dez minutos para o segundo set. Rachel os seguiu em direção à cozinha do bar (e o estômago dela roncou com o cheiro bom da comida).
"Vocês aceitariam uma cantora improvisada?" Ela os surpreendeu.
"O que está dizendo, guria?" O trompetista franziu a testa.
"Eu preciso cantar naquele palco com vocês. Faço qualquer número e posso garantir que sou muito boa." Ouviu rosadas da banda.
"E por que eu permitiria ceder o meu spot de luz a uma qualquer que apareceu de algum buraco?" Apontou para as roupas dela. "Acha que eu me colocaria, e os meus rapazes, numa situação no mínimo ridícula?"
"Respondo com outra pergunta: por que não surpreender?" Rachel disse séria. "Vocês são músicos fixos desta casa. Ganham uma mixaria por temporada, correto?" Ela havia lido muitos livros sobre jazz para entender como funcionava o esquema de trabalho. "O pior, vocês estão num país que não dá passagem de saída para turnês em grandes centros tradicionais, como o Leste, onde o menor dos bares lhes daria mais publicidade do que aqui na capital, em ser uma atração regular de meio de semana de um bar, mesmo que tradicional. Os grandes músicos já foram embora. Conseguiram se exilar há mais de dez anos ou para o Leste, ou para o Canadá ou para a outra costa, onde podem fazer dinheiro em Chicago ou em Nova York e ainda excursionar pelo resto do mundo. O resto ficou sem muitas opções, até mesmo porque o governo prefere financiar o cinema do que ajudar a promover a música. Então vem uma garota que saiu de um buraco, no meu caso chamado Lima, que se oferece para cantar um único número. Qualquer um serve. Ela parece estar bem certa de si, do talento que tem. É pequena, tem nariz grande e postura petulante. Mas e daí? Ao menos ela pode quebrar a rotina entediante de dois sets de música onde em cada uma é chamado um garçom da casa que, assim como a banda, dificilmente ganhará palcos maiores. Não há nada a perder. Vocês não têm nada a perder, nem mesmo eu. Então por que não?"
"Eu tenho uma ideia." Disse o pianista não muito impressionado com o discurso, mas até que se simpatizou com a jovem. "Há um número que sempre quis fazer, mas aqui dificilmente vem uma cantora disposta a arriscar o improviso. Ou às vezes nem conhece a música... de qualquer forma, tenho certeza que essa música fala por todos nós..."
"Você não está falando de..." Comentou o baixista.
"A gente sempre ensaiou essa e nunca se arriscou porque Dex..." se referiu ao trompetista e líder do quinteto. "... sempre opta pelo tradicional na última hora porque Homer..." era o dono da casa. "... é conservador. Então eu digo, vamos voltar para aquele palco e fazer uma bagunça a nossa maneira. Nosso salário da semana está atrasado mesmo... até seria um protesto inteligente."
"Eu topo!" Disse o baterista.
"Eu também." Foi a vez do saxofonista. "Vamos dizer que é um novo quadro: desafio aos clientes da casa... se ela falhar, a gente a chuta dali mesmo. Aliás, vai ser uma sensação ver a gente chutando a garota logo de primeira. Eu vou me divertir!"
"Pooode ser..." Dex coçou o queixo. "Mas só desta vez!"
"Ótimo!" Rachel bateu palmas. "Mas qual é a música?"
O quinteto subiu ao palco e Dex foi ao microfone anunciar a nova brincadeira interativa. Rachel observava tudo ali logo ao lado. Estava nervosíssima. Ela que se apresentara inúmeras vezes com o coral, que já cantou em diversas festas em Lima – foi paga em uma delas, inclusive. Ali, as mãos suavam. Ela olhou de lado e viu George ainda no bar. Parecia Curioso. Mais ao fundo da casa, Goldman estava na mesa sozinho com a mulher elegante que o masturbava discretamente por debaixo da mesa.
"... então chamo a desafiante do dia..."
"Rachel Berry." Ela surssurrou.
"Rachel Lerry!" Alguns aplausos pela casa e Rachel entrou meio bronqueada por Dex ter errado o nome.
O arranjo começava com um breve solo de piano com o baixo e a bateria entrando logo em cima. Dex sinalizou a entrada e Rachel começou hesitante, mas com a suavidade que a música exigia.
"When you were here before/ Couldn't look you in the eye/ You're Just like an Angel/ your skin makes me cry/ you float like a feather/ in a beautiful world/ i wish i was special/ so fucking special"
A casa estava em silêncio. Rachel trocou olhares com Dex que sorriu em aprovação. Parecia surpreso num sentido positivo.
"But i'm a creep/ i'm a weirdo/ what the hell am i doing here?/ i don't belong here"
Rachel fechou os olhos e deixou-se levar pelo arranjo suave jazzístico para um sucesso pop.
"I don't care if it huts/ i wanna have control/ a wanna a perfect body/ i wanna a perfect soul/ i want you to notice/ when i'm nota round/ you're so fucking special/ i wish i was special/ but i'm a creep/ i'm a weirdo/ what the hell am i doing here?/ i don't belong here"
Dex e o saxofonista improvisaram um solo que Rachel classificou de sensacional e se permitiu apreciar os músicos brincarem um pouco. Ela estava sentindo a onda da música, sentindo as palavras e vocalizou no tempo perfeito, mantendo a suavidade.
"She's running out again/ she's running out/ she run, run, run..."
Então o tom baixou. Os instrumentos de sopro se retiraram e Rachel estava só apenas com o piano, a bateria e o baixo acústico.
"Whatever makes you happy/ whatever you want/ so very special/ but i'm a creep/ i'm a weirdo/ what the hell am i doing here/ i don't belong here/ i don't belong me"
Rachel estava tão concentrada, quase em transe, que demorou a perceber que ela e a banda estavam sendo ovacionados. Ela ficou tão fez que por um instante esqueceu George, Goldman e até Quinn. Dex a abraçou de lado. A banda inteira estava impressionada e feliz com o risco bem-sucedido. Convidaram para cantar mais uma. Arranjo mais tradicional. Rachel "Lerry" aceitou para alegria dos presentes e ela conseguiu mais uma boa performance, desta vez com o clássico "I Can't Give You Anything But Love".
Quando desceu do palco, recebeu cumprimentos das pessoas até chegar a George e Quinn. George, em particular, estava impressionado, apesar de ter visto Rachel cantar na festa de aniversário de Susan Pierce e estar ciente que a garota era mesmo diferenciada na música.
"Não tenho palavras!" O botão mais velho sorriu. "Você foi perfeita naquele palco..."
"Porque foi de improviso. Se fosse ensaiado, duvido que ficasse tão bom."
"Senhorita?" Um garçom interrompeu. "O senhor na mesa ali no canto lhe manda seus cumprimentos." E ofereceu o copo de um dos coquetéis populares da casa.
Rachel olhou em direção e o coração dela quase saiu pela boca quando viu que era exatamente Goldman que mandara a bebida.
"O jogo é o seguinte..." George explicou. "Cumprimente e permaneça no lugar significa que você apreciou o convite, mas vai recusar a companhia. Mesmo assim, aceite a bebida porque é cortês. Caso esteja interessada, pegue a bebida e vá até a pessoa para agradecer pessoalmente."
"Ok!" Rachel começou a suar frio. Chegou a hora. Mas retornou quase que de imediato para o seu acompanhante. "Qual deles é Goldman?"
"O mais jovem."
Pegou o coquetel e andou até a mesa mais reservada com os dois homens e a moça. Estava nervosa, suas mãos suavam. Travou o olhar no homem mais jovem entre os dois na mesa: o que tinha aparência de estar em seus 40 anos e pensou que aquela fosse mesmo a idade que Goldman teria já que ele e Shelby namoraram na época da faculdade. Não era um cara bonito, diga-se de passagem. Charmoso sim, muito bem vestido, cheirava a dinheiro de longe, mas não era um cara bonito como um artista de cinema. O outro, mais velho, era bonito.
"Suponho que deva agradecer pela bebida!" Sorriu nervosa ao se aproximar da mesa.
"Você tem uma voz fabulosa, senhorita... Lerry!" Goldman sorriu educadamente.
"Obrigada."
"Presumo que esta seja uma carreira que você pretende perseguir."
"É verdade..." Rachel bebericou no desespero para relaxar um pouco. "Minha mãe foi uma grande cantora, me disseram. Acho que herdei isso dela, mas como ter certeza?"
"Você não conheceu a sua mãe?" A moça perguntou.
"Eu era uma criança de colo quando ela cruzou a fronteira. Fui criada por dois pais gays já que o meu pai biológico rejeitou a minha mãe quando soube que ela estava grávida."
"Que canalha!" A moça se solidarizou na indignação.
"Não me fez falta. Mas, quem sabe, um dia ele apareça para uma compensação?" Encarou Goldman com uma coragem que nem ela mesma sabia que tinha.
O homem sorriu, comentou algo baixinho com o companheiro e depois sussurrou no ouvido da mulher para em seguida beijar-lhe o rosto. Os dois se levantaram e saíram, deixando Rachel às sós com Goldman.
"Deseja se sentar um pouco, Rachel Lerry?" A jovem acenou e sentou-se de frente para Goldman. Queria manter o contato visual firme mais tempo que poderia, mas havia algo muito intimidador naquele homem que a deixava desconfortável. "Então você é a garota que andou gritando por mim..." Goldman, ao contrário, tinha todo controle da situação.
"Gritei?"
"Oras, Pierce, Richard, Lincon... você está acompanhada por um dos grandes da cidade de Pierce... o mínimo que posso fazer é perguntar diretamente a senhorita a razão para tanto barulho?"
"Eu quero sair e soube que você é a pessoa que pode me ajudar." Rachel foi direta. Não sabia se era a melhor estratégia. Só queria acabar logo com aquela ansiedade. "Eu sou uma cantora e atriz. Sonho em fazer carreira fora deste país, mas se ficar aqui serei qualquer outra coisa e, paralelamente a isso, estarei atuando em dois ou três círculos em algum trabalho de articulação qualquer. É um desperdício de talento. Mesmo por uma causa maior, eu morreria de frustração. Soube que você tem independência, tem recursos e pode me tirar daqui se quiser."
"E se eu fizer, Rachel Lerry, o que fará para compensar o trabalho honesto e necessário que é o de articulação dentro de um país do qual todos nós estamos nos esforçando para que volte a ser uma república democrática plena?"
"Eu poderia lutar por nossa libertação nos círculos externos. Sei que uma cidade como Nova York tem um na ativa. Minha mãe recebe ajuda de um dos botões. Além disso, se conseguir atingir a Broadway, posso ser uma porta-voz da nossa causa."
"Como se a gente não já tivesse muitos porta-vozes... botões ou não." Goldman balançou a cabeça. "Você tem uma grande voz, não duvido do seu talento. Mas não é a única que quer viver o sonho do estrelato, aliás, como se eu tivesse alguma influência sobre os shows... não é a única que quer sair do país e não é a única que odeia o trabalho de faz dentro da nossa organização."
"Mas quantas dessas pessoas já chegaram até o senhor e foram tão diretos quanto eu?" Goldman sorriu no canto da boca e piscou.
"Não muitos... mas certamente você não foi a primeira, Rachel Lerry... nem será a última. A questão é que eu só ajudo quem acho que merece ou por quem eu tenho algum interesse. Mas a senhorita, me desculpe a sinceridade, é só mais um botãozinho que conhece alguns dos cachorros grandes e acha que tem algum poder de barganha por conta disso. A verdade, Lerry, é que você é uma mal-agradecida. Nada além disso. Então, eu sugiro que você coloque o seu rabo entre as pernas, volte para o seu círculo e trabalhe."
"Eu sei quem você é!" Rachel disse mais alto, desesperada pela rejeição. "Eu sei que você foi o bastardo que engravidou a minha mãe e a abandonou há 19 anos." Viu o homem fechando o cenho e talvez aquela conversa ficasse mais perigosa e tensa do que já estava, mesmo assim a adrenalina e o pouco do álcool que corriam em seu corpo a fez seguir adiante. "Shelby Corcoran, não se lembra? Talvez você me deva esse favor."
O homem encostou-se na cadeira, como se quisesse relaxar um pouco e recobrar o domínio da situação. Tomou calmamente um gole de sua bebida e voltou a encará-la. Jogou o corpo para frente, e tornou-se mais uma vez a personificação da confiança.
"Shelby Corcoran... sim, uma bela potranca com quem tive um relacionamento quando era jovem. Vou te contar uma história sobre Shelby Corcoran, Rachel Berry." Enfatizou o Berry para mostrar que ele era de fato o senhor da situação desde o início. "Shelby era uma garota linda, talentosa, com grandes sonhos. Era divertido estar com ela, não posso negar. Um belo dia, ela chega até mim e diz que está grávida. Bom, eu poderia aceitar isso, afinal, estávamos em um relacionamento há vários meses. Como namorado dela, o filho só poderia ser meu, certo? O pequeno detalhe que Shelby não sabia a meu respeito, é que eu não posso ter filhos. Eu tive uma infecção ainda adolescente que me deixou estéril, por isso sabia que quando Shelby veio para mim dizendo que estava grávida, tive certeza que ela andou galopando outros caras. Então eu virei as costas e a deixei. Não te parece justo?"
Rachel ficou em choque. Ela leu o relatório de Santana muitas vezes, ela conhecia o depoimento de Shelby, ela sabia desde sempre que Hiram e Leroy não eram seus pais biológicos, ela sabia de sua posição relativamente privilegiada entre os botões, ela viu a reação de Pierce e aquilo não podia ser em decorrência de uma mentira.
"Então... como?" Ficou desnorteada. Goldman segurou a mão dela em cima da mesa, como se a quisesse confortá-la um pouco.
"Você só recebeu certa atenção especial dos botões mais graduados porque Hiram Berry era amigo de Pierce e tinha a simpatia de outros botões. Só isso, garota. Quanto ao seu pai biológico, aconselho você ter uma conversa franca com Shelby na primeira oportunidade. Talvez ela confesse que dormiu algumas vezes com um cara mais velho e casado... um medicozinho de araque, um filho de migrantes com quem ela trepou algumas vezes de forma mais vulgar possível no beco atrás de um bar." Rachel estava atônita. "Sim, minha querida, eu também faço as minhas pesquisas. É por isso que estou onde estou."
"O senhor sabe quem é ele... meu pai biológico. Quem é?"
"Minha querida, isso é tudo que eu sei. Pode ser esse médico casado, como pode ser outra pessoa. Sinceramente, não dou a mínima, e é muito provável que esse sujeito não tenha a menor ideia de sua existência. O que posso te garantir, Berry, é que minha filha você não é. Se isso fosse possível, a sua vida teria sido muito diferente e, com toda certeza, você não teria sido criada neste país."
"Agradeço a sua atenção..." Ela se levantou. Não escondia a decepção.
"Não recusei totalmente o seu pedido ainda..." Disse mais alto e Rachel parou para ouvir. "É a primeira vez que nos encontramos e eu não seria... precipitado. Digo que você está sob meu radar agora. Aviso se tomar uma decisão."
Rachel acenou, mas antes de sair, lembrou-se de fazer o convite.
"Ah, no final de abril eu volto a capital junto com o coral da minha escola. Nós vamos tentar o primeiro título nacional para Lima após 12 anos. São apenas garotos de escola cantando e dançando, mas é um evento agradável. Familiar..." Balançou a cabeça. "Se o senhor estiver no país e quiser aparecer, será muito bem-vindo. Boa parte do meu círculo atua no coral. Estamos em cinco. Éramos seis, mas a nossa antiga líder, Santana Lopez, deixou o país... bom, o que quero dizer é que se trata de um coral no mínimo interessante. Botões atuando ao lado de camisas vermelhas. Os ensaios são sempre tensos, mas no final, tudo dá certo."
"Acredito que sim!" Goldman sorriu. "É quase uma metáfora deste país."
"É... parece que sim."
Rachel voltou para o bar e passou a mão nas costas de George para chamar a atenção do homem para a saída. Ele deixou o dinheiro no balcão e acompanhou as duas jovens que andavam à frente de mãos dadas.
"Onde falhou?" George estava seguro de si.
"Eu não falhei." Rachel falou sério, compenetrada. "Não recebi a resposta que sonhava, mas de certa maneira, fui extremamente bem-sucedida." Encarou o botão superior. "Como isso me coloca na sua avaliação de perfis especiais? Eu sou especial?"
George não respondeu.
Na chegada ao hotel, Quinn e Rachel foram direto para o quarto. Nesse instante, Rachel permitiu-se desabar e chorou compulsivamente amparada por Quinn. Chorou por tudo que havia sofrido nos últimos meses, porque, no fundo, sentiu-se abandonada por Santana. Chorou pelo abandono literal dos Puckerman, que considerava uma família. Chorou porque viu que o seu sonho havia lhe escapado pela ponta dos dedos. Ela se agarrava contra o corpo de Quinn e ali desmoronou.
