(Um ano e três meses depois)

Rachel passou a mão pelos cabelos e sentou-se na sala de espera da secretaria. Já estava com as roupas de partida e uma pequena sacola que cabia todos os seus pertences. Nada além da carteira com documentos, algumas cédulas, dois retratos (um de Shelby com Beth e outro dela com Quinn), o colar com um pingente de estrela. Com um aceno da secretária, ela se levantou e foi até a mesa.

"Assine aqui, Berry." Indicou o espaço com um "x".

Rachel pegou a caneta presa a uma pequena corrente e fez o que a secretária havia ordenado. Com isso, toda burocracia estava formalizada. Ela acenou para a secretária que fez um gesto de desdém com as mãos a mandando ir embora.

"Deixe esse papel na portaria e está tudo terminado. Boa sorte e procure não voltar."

"Obrigada." Rachel acenou e saiu da sala.

Pensou que se emocionaria em percorrer aqueles corredores. Pelo menos, era o que sonhava desde o primeiro dia em que pisou os pés naquele lugar, mas que, estranhamente, no final de sua pena, percebeu que estava terrivelmente confortável com o confinamento. Cumprimentou um dos guardas (o que se comportava da forma mais humana), andou até a portaria interna onde deveria deixar o papel. Burocracia feita, e o pesado portão foi aberto. Rachel deu três passos adiante e pronto: a prisão havia ficado para trás.

Atrás do portão estava Gilmore, que sorria satisfeito com o bom trabalho que havia feito na redução de pena da cliente e, também, aliada botão. Foi uma cartada de mestre que tinha dado no tribunal ao conseguir uma pena de dois anos e meio em uma prisão de segurança mínima com possibilidade de ter liberdade condicional com a metade da pena cumprida. Rachel morou naquele presídio em específico por onze meses. A pena contou também os dois meses que ela ficou numa prisão de segurança máxima enquanto aguardava o desenrolar do processo e o julgamento. Mas não contou o mês em que ela ficou sob tutela do estado. Sobre este período inicial em cárcere, Rachel preferia esquecer.

"Seus amigos vieram celebrar a sua liberdade." Gilmore disse enquanto caminhavam em direção ao portão externo.

Um misto de ansiedade e decepção tomou conta do peito de Rachel. Também não esperava ter sentimento tão dividido. Gilmore acenou para o guarda do portão externo, que destravou a estrutura de aço e ferro. O motor trabalhou para abrir o portão e Rachel pôde ver pela primeira vez a rua que dava acesso ao presídio. Mais do que isso, lá estavam a sua espera Sam, Seban e Matt.

Sam foi o primeiro a correr para abraçá-la. Havia um sentimento de cumplicidade entre os dois. Mesmo Rachel assumindo toda culpa, Sam foi condenado a serviços comunitários forçados por seis meses por ter ajudado Rachel a fugir do teatro. Os promotores públicos ainda condenaram todo o resto do coral a um mês de serviço comunitário ou pagamento de fiança por terem permitido que a apresentação prosseguisse. Todos pagaram com dinheiro, exceto Puck, que não tinha condição financeira. Ele cumpriu um mês de serviço comunitário antes de se alistar na academia de formação de agentes

"Você parece estar muito bem, Rach." Matt disse na vez dele de abraçar a amiga.

"Obrigada." Respondeu baixinho.

"Kurt, Blaine e Brittany mandaram mensagens." Seban informou. "Eu te mostro assim que a gente sair de perto desse lugar." O adolescente fingiu se arrepiar.

"Santana e Quinn?" Rachel perguntou para ninguém em particular.

"Quinn não dá notícias faz um bom tempo, mas ela está estudando em uma universidade em Nova Jersey." Matt informou. "Não sabemos do paradeiro de Santana."

Rachel acenou e se resignou.

"Venha!" Sam segurou a sacola com os pertences da amiga e ofereceu seu braço. "O senhor e a senhora Lopez estão te esperando."

Rachel não tinha realmente onde ficar depois da saída da prisão e estava apreensiva quanto a isso. Foi uma surpresa positiva para ela saber que seria alojada na casa dos Lopez's. O casal representava o mais próximo que ela tinha de uma família, mas eles pouco a visitaram. Foram apenas em três ocasiões durante toda pena. Sam e Matt também visitaram Rachel na prisão sempre que era possível, além de Gilmore. Foi Rachel que, de certa forma, estimulou os dois para dividirem um apartamento, já que ambos se mudaram para outra cidade.

Matt foi aceito na faculdade de administração e fazia cursos de gastronomia. Sam era líder de um novo círculo de botões designados a produzir e distribuir panfletos de toda natureza: com músicas banidas, com textos que desmentiam notícias oficiais, com trechos de textos de autores. Era um trabalho árduo que consumia todo tempo de Sam, mas ele estava amando o trabalho e até recebia por isso.

Seban ainda morava com os pais. Situação provisória porque ele próprio estava designado a sair para fora do país e integrar o mesmo programa de treinamento de Santana. Brittany havia se mudado para o Texas para se aprimorar na dança, Kurt saiu do armário para a família e foi estudar moda, Blaine estava na faculdade estudando Direito.

Como o esperado, Quinn saiu do país e foi exilada no Leste antes que pudesse enfrentar julgamento. O início foi conturbado, mas logo ela conseguiu se acertar ao ritmo puxado de estudos, à nova cultura, à companheira de dormitório e a ausência de rostos conhecidos. A única visita que recebeu foi de Santana, em uma rara oportunidade. Quinn aproveitou também para conhecer Shelby como parte de uma promessa pessoal que havia feito à Rachel. Ela jamais diria isso à namorada, mas pelo que viu, não saberia dizer como Rachel poderia se encaixar naquela família. Shelby tinha uma filha pequena, um marido bem-sucedido e conservador. Como eles iriam abraçar uma jovem mulher exilada com passagem pela prisão?

Quanto a Santana? Bom, ela se tornava mais e mais uma agente da inteligência em formação.

Voltando o foco a Rachel, bom, ela sentia-se mesmo perdida na saída da prisão. Era como se o mundo havia passado, que coisas aconteceram e ela ficou para trás. Era impressionante como as correntes podiam ser confortáveis quando se acostuma com elas, e a liberdade passa a ser assustadora.

Gilmore apontou para o carro e Rachel despediu-se dos amigos ali mesmo. Estava agradecida pela consideração, mas a presença deles poderia ser sufocante quando tudo que ela gostaria era ficar quieta num canto até decidir o que fazer da própria vida. Ou mesmo deixar que os botões decidissem. Entrou no carro e o percurso até os Lopez não levava mais o que 15 minutos.

Rachel olhou para a familiar casa azul de dois andares e um mezanino. Muitas das boas lembranças que tinha estavam ali. Mas ao voltar para aquele lar, ficou com medo de não mais se sentir confortável como antigamente. Ela própria mal conseguia se sentir confortável na própria pele.

"Quer que eu te acompanhe até a porta?" Gilmore perguntou.

"Não será necessário."

Gilmore pegou um pequeno pacote de dentro do paletó e o entregou para Rachel: eram os botões originais dela, com as bordas pintadas em dourado.

"Tente voltar a rotina, arrume um emprego quando tiver condições. É tudo que precisa fazer por hora."

"Nada de missões então?"

"Nada de missões até que você possa retomar a própria vida."

Rachel pegou a sacola, agradeceu ao advogado, e caminhou devagar até a casa modesta situada na periferia da cidade. Hesitou tocar a campainha, mas quando o fez, uma mulher pequena e de olhos expressivos atendeu. Maribel a recebeu de braços abertos e a abraçou.

Rachel chorou pela primeira vez desde que foi sentenciada.

...

Rachel olhava o movimento da rua da cadeira da varanda da casa. Não havia nada de especial naquele lugar: era só uma rua pouco movimentada em que garotos passavam, carros passavam, havia algum lixo acumulado na porta das casas em decorrência ao mau serviço de limpeza urbana, muitas das casas eram malconservadas, e havia um sujeito que vivia com carros luxuosos na frente de casa que Rachel tinha certeza que se tratava de um traficante. Havia uma semana que saiu da prisão e ela ainda não sabia o que fazer da vida. Seu trabalho, naquele momento, se limitava a limpar a casa e ajudar Maribel no que ela pedisse.

Juan abriu a porta da frente com uma lata de cerveja em mãos e sentou-se na cadeira ao lado. Os dois ficaram em silêncio relativamente confortável, até que Juan o rompeu.

"Presumo que você leu a carta da sua mãe."

"O senhor presumiu certo." Rachel suspirou.

"Pensei que você ficaria tão feliz que a responderia de imediato."

"Ela é minha mãe... mas eu não a conheço, senhor Lopez. Não me lembro dela... de nada, não tenho nada dela a não ser as cartas. Com todo respeito, mas eu sinto que Maribel é mais minha mãe do que Shelby."

"Você se parece muito com ela, até onde me lembro." Juan forçou um sorriso. "Não sei como ela está agora, mas tenho certeza que vocês duas são quase idênticas com idades aproximadas."

"O senhor se lembra muito dela para quem diz que a conheceu superficialmente." Rachel disparou. Não havia malícia em sua voz: nada além de melancolia e uma boa dose de ironia. "Eu nunca falei isso para o senhor, mas eu conheci Lester Goldman, o namorado que estava com Shelby quando ela engravidou de mim. Fui a capital para procurá-lo e para confrontá-lo."

"Quando foi isso?"

"Meses antes de eu ser presa."

"Oh!" Juan ergueu a sobrancelha, interessado em ouvir a história do homem que supostamente rejeitou namorada e filha não-nascida. "E que respostas conseguiu dele?"

"Que ele não pode ter filhos e que já sabia disso naquela época." Rachel disse sem emoção. "Ele me disse que terminou tudo com Shelby porque soube naquele instante que ela havia dormido com outra pessoa, provavelmente com o meu pai biológico. Por isso terminou tudo com ela e foi embora sem olhar para trás. Meu pai, Hiram, ele era o melhor amigo da minha mãe e por isso assumiu a minha paternidade."

"Eu sinto muito, Rachel."

"O senhor se lembra quando de quando eu perguntei se o senhor conheceu a minha mãe?"

"Sim."

"Goldman me deu uma pista. Ele deu a entender que sabia com que a minha mãe tinha dormido. Um médico barato que provavelmente não saberia da minha existência."

"Oh..."

"Senhor Lopez, por um acaso você sabe se a minha mãe se envolveu com algum dos seus colegas?"

Juan ajeitou-se na cadeira, ficou em silêncio por um momento, refletindo sobre quais deveriam ser suas próximas palavras.

"Rachel, você sabe muito bem que Maribel e eu te consideramos como se fosse nossa própria filha. Não só por causa da sua profunda amizade com Santana... é por quem você é."

"Mas não existe nenhuma possibilidade disso acontecer, não é mesmo?" Rachel limpou uma lágrima que ela mal sentiu que estava por cair.

"Maribel e eu tivemos altos e baixos em nosso casamento..." Juan abaixou o tom de voz. "Eu não posso dizer que fui um cara fiel o tempo inteiro. Nunca tive... amantes..." O homem respirou fundo, claramente constrangido com tais revelações. "O que não quer dizer que nunca tive... escorregadas."

"O que?"

"Numa noite, eu me encontrei com Shelby num bar. Nós dois estávamos frustrados, cada um com seus motivos. Minha vida não estava fácil com um emprego que pagava mal e ainda com dois filhos pequenos para criar. Shelby era jovem, estava na faculdade, bonita, atraente... ela tinha esse namorado que não a tratava bem e estava triste por causa disso. Foi esse namorado que a agrediu e que machucou o pulso dela. Nós conversamos, talvez trocamos alguns elogios, e bebemos alguns drinks..."

"Você e minha mãe..."

"Foi uma vez. Um momento de fraqueza da minha parte, Rachel. Não quer dizer que eu... não quer dizer que Shelby não tenha ficado com outras pessoas. Isso aconteceu no banheiro do bar ao lado de uma privada, por deus do céu! Provavelmente não usamos proteção, mas eu nunca imaginei..." Juan passou a mão pelo rosto.

"Mas uma vez é o que basta, é o que dizem."

"Certo." O médico terminou a cerveja e a jogou propositalmente no meio do próprio gramado em frente à casa. "Eu posso providenciar um exame de DNA, com a condição de que Maribel jamais poderá saber."

"Entendo..."

"Eu não sou esse cara, Rachel. Eu posso ter ficado com outras, mas eu não sou esse cara que sai de casa pensando em trair a minha mulher. Eu amo Maribel e meus filhos."

"Senhor, eu não estou dizendo isso para estragar a sua relação com Maribel e nem quero nada seu. Eu só queria saber essa parte da minha história."

"Quando Santana trouxe você aqui em casa pela primeira vez, sinceramente estranhei. Não porque você tinha uma história triste que apareceu nos jornais, mas porque você não tinha exatamente o mesmo perfil das crianças que a minha filha fazia amizade pelo bairro. Depois, fiquei grato por isso. Maribel e eu aprendemos a te amar, independente de Santana."

"Eu também amo vocês." Rachel limpou as lágrimas. "Eu não quero fazer nada para machucar essa família... eu só queria ter certeza."

"Limpe as lágrimas, Rachel. Aprenda que um Lopez não chora por qualquer coisa."

...

"É legal não estar mais sob a política do 'não pode tocar', não é mesmo?" Sam andava ao lado de Rachel pelo Shopping da cidade.

A garota olhou para o amigo e acenou.

No tempo em que Rachel passou na prisão de segurança mínima, Sam e Matt, além dos Lopez e do advogado Gilmore, eram as pessoas que mais a visitavam. Na área de visitas, embora ela se parecesse bastante com o refeitório da prisão, mas em tamanho reduzido, as policiais sempre ficavam de olho: não podia tocar. Uma regra que fazia Rachel revirar os olhos porque dentro da prisão, as relações homossexuais recebiam vistas grossas dentro dos muros. Beijar alguém que se amava de verdade não podia, mas ser estuprado na prisão podia? Quer dizer, não podia, era crime, mas quem tinha coragem de delatar sob o risco de ser retalhado de formas muito piores? Não que lá dentro reinasse a absoluta selvageria. Rachel mesma por muito pouco não foi estuprada por uma companheira de cela. Aliás, ela mesma precisou usar os punhos uma vez para se impor e deu graças a deus por todas as aulas de defesa pessoal que havia recebido de Santana.

"Que filme gostaria de ver?"

Rachel olhou para os cartazes de todos os filmes nacionais e os internacionais aprovados previamente para exibição: não tinha interesse por nenhum.

"Qualquer um. Não tenho preferência."

"Rachel..." Sam a encarou com ar de preocupado.

"É sério!"

"Se você não estiver a fim de ver um filme e só quiser conversar... a gente pode sentar ali mesmo, pedir um sorvete, eu vou manter a minha grande boca fechada e você pode falar o que quiser. O que acha deste novo plano? Faz um mês que você deixou a prisão e diz que não tem muito a dizer, Rach. Entendo que o seu ano foi uma merda, mas você precisa superar! É isso que eu e todos os outros estão tentando fazer: te ajudar a superar."

"Mas é o que gostaria que todos parassem de fazer!" Rachel esbravejou, chamando atenção de quem estava próximo a eles.

Sam, desconcertado, olhou para os lados, sorriu sem-jeito e puxou Rachel para longe dali. O cinema havia perdido o sentido. Caminharam em silêncio para fora do shopping onde havia uma avenida movimentada e um bairro que os separavam do parque. Caminharam naquela direção e quando havia quietude suficiente para conversarem de novo, Sam criou coragem e fez a pergunta capital.

"Se você não quer que façamos mais perguntas, por que simplesmente não se abre e diga o que sente? Assim não te chatearemos mais com nossas perguntas idiotas, e você pode tirar um ranço das suas costas."

Rachel encarou Sam, o melhor amigo, e desviou o olhar.

"Eu não estou preparada."

"Então é isso? Você simplesmente vai se fechar?"

"Não é simples. Nunca foi!"

"Sei que você está meio deprimida desde quando saiu, mas é justamente por isso que não pode afastar as pessoas que te ama. E eu te amo, droga!"

"É justamente porque você é meu melhor amigo que quero ver você longe por enquanto. Eu não sou uma boa companhia neste momento e preciso de espaço para respirar, para chorar, para ficar sozinha pela primeira vez desde que colocaram algemas no meu pulso. Tudo que eu quero neste momento é chegar em casa, deitar na cama, ouvir música até pegar no sono. É isso."

"E depois Rachel? O que você vai fazer quando chorar enquanto ouve música não adiantar mais?"

"Quando eu sentir que isso não vai mais adiantar, então eu te procuro."

"Promete?"

Rachel acenou. Beijou Sam no rosto e foi embora, prometendo fazer exatamente o que havia descrito. Ela entrou em casa e acenou para Maribel, que estava trabalhando em uma nova peça artesanal que confeccionava.

"Rachel!" A mulher gritou de dentro da pequena oficina.

"Sim?" Rachel logo a atendeu.

"Chegou um envelope do hospital para você. Está tudo bem contigo?"

"Está sim, Maribel. É só aquela bateria de exames que o senhor Lopez mandou eu fazer. Devem ser os laudos."

Era verdade. Juan Lopez ordenou que Rachel fizesse uma bateria de exames para checar as condições de saúde da garota após a prisão. Rachel fez todos exames laborais de rotina, além de uma completa checagem ginecológica. O que Maribel nunca saberia era que havia o resultado de outro exame entre os clínicos regulares.

Rachel agradeceu pelo recado e subiu as escadas em direção ao quarto que um dia pertenceu a Santana Lopez. Ela encontrou o envelope lacrado em cima da penteadeira, verificou se Maribel estava por perto e fechou a porta. Abriu o envelope e procurou o resultado que mais lhe interessava naquele momento.

Leu o resultado três, quatro vezes para ter certeza. Depois, como um botão que era, picotou o papel. Ao menos foi uma terapia picotar as duas folhas de exame. Enquanto picotava nos menores pedaços possíveis, cantava baixinho.

"Rising up/back on the street/ did my time, took my chances/ went the distance, now I'm back on my feet/ just a man and his will to survive…"

Juan Lopez chegou do hospital no início da noite após 24 horas de plantão. Ele abraçou e beijou a esposa antes de dar um beijo na testa de Rachel. Foi ao banheiro, lavou as mãos e o rosto antes de voltar a mesa para jantar. Serviu-se da sopa de legumes que a esposa havia preparado.

"Vocês vão cuidar da limpeza da cozinha." Maribel advertiu antes de subir as escadas para o merecido descanso.

Rachel permaneceu à mesa com Juan.

"Seus exames chegaram?" Juan perguntou tentando soar casual.

"Sim, senhor."

"Tem alguma alteração?"

"O laudo diz que está tudo normal, mas o meu exame ginecológico apontou a presença de uma bactéria."

"Não deve ser nada sério. Não sou um especialista nessa área, mas há bactérias que causam corrimento e que são comuns. Não se esqueça de levar todos os resultados para a sua consulta com o meu colega."

"Eu sei..."

"Você viu o outro resultado?"

"Sim senhor."

"O que fez com ele?"

"Eu o destruí. Ela nunca vai saber. Nunca por mim. Não se preocupe."

Juan acenou e continuou a tomar a sopa. Ele queria passar normalidade, mas por dentro o coração dele batia forte. Apesar de Rachel ser o resultado de uma literal trepada embriagada de cinco minutos num banheiro fedido de bar, ele respeitava aquela jovem mulher. Rachel era valorosa e tinha bom caráter. Ele não podia estar mais orgulhoso. Rachel, por sua vez, não podia demonstrar, mas ela estava aliviada em finalmente saber a verdade.

...

"Rachel?" Maribel bateu à porta do quarto que um dia pertenceu à Santana. A menina atendeu prontamente.

"Sim?"

"Você recebeu uma daquelas cartas que não se pode falar a respeito." Mostrou o envelope lacrado com o nome de Rachel Berry escrito e nenhuma identificação de destinatário.

Rachel pegou o envelope e sentiu uma pequena protuberância através do papel: um botão.

"Obrigada, Maribel."

"De nada... oh..." Disse antes de se virar e sair. "Se aí tiver alguma coisa sobre Santana..."

"Eu direi." Rachel abriu um sorriso discreto. "Fique tranquila."

Fechou a porta e abriu o envelope. Dentro não havia nada além de um botão convocatório e um bilhete. Rachel pegou a mochila, vestiu uma roupa para sair de casa (estava de pijama), desceu as escadas.

"Maribel!" Ela gritou. "Volto logo."

Colocou o capacete preto, a jaqueta, subiu na velha moto de Santana e partiu em direção não ao centro da cidade, mas à igreja que um dia ela e Matt puderam visitar Santana pela última vez antes da antiga líder ir embora. Se o bilhete marcava um encontro logo ali, era porque havia alguém grande querendo falar com ela, e esse alguém não era o parlamentar Pierce. Apesar da ansiedade, dirigiu com todo cuidado porque a última coisa que gostaria era ser pega por alguma patrulha. Chegou a igreja, estacionou a moto, e entrou no edifício. Como não tinha acesso ao local, sentou-se em um dos bancos à frente, olhou para o altar cristão, e esperou.

Levou meia hora para o padre ir até ela e sentar-se ao seu lado. Rachel, que nunca foi cristã, sorriu e respeitou a presença do celibatário.

"Muitos vêm pedir bênçãos aqui nesta paróquia quando estão prestes a fazer uma longa jornada. É o seu caso, minha filha?"

"Minha jornada já se faz longa, padre."

"Mesmo? Com tão pouca idade? Quantos anos tem?"

"Tenho 20 anos."

"Não parece idade de quem já fez uma grande jornada."

"Bom, padre, Ele fez a maior das jornadas e só viveu 33 anos. Nem sempre uma longa jornada quer dizer distância percorrida ou idade."

O padre sorriu e bateu nos ombros da jovem.

"Talvez você precise refletir um pouco mais sobre jornadas na sacristia. É um lugar mais quieto onde você poderá se preparar melhor para a sua jornada."

Rachel acenou e sorriu. Sabia exatamente o que a sacristia representava. Quando chegou ao local, encontrou-se com Gilmore, que apenas acenou para que ela entrasse na passagem secreta. Ele colocou o botão eletrônico no dispositivo, digitou a senha e validou com as digitais. Então a porta se abriu. No lugar luxuoso onde os botões graúdos se reuniam, estava ninguém menos do que Lester Goldman esperando por ela.

"Olá Rachel." O homem disse sereno.

"Senhor Goldman... o que faz aqui?"

"Entregar o seu prêmio."

"Prêmio?"

"Rachel... você assumiu responsabilidades como poucos. Assumiu os seus atos e se entregou à polícia. Você foi torturada e estuprada na carceragem antes do julgamento, e não disse uma só palavra sobre nós. Você cumpriu a sua pena com comportamento exemplar. Sempre foi uma botão dedicada e atendeu a todos os chamados dos seus círculos. Acho que você merece receber aquilo que sempre sonhou."

"O senhor está dizendo que..."

"Você vai sair Rachel. Você vai para o Leste. Você tem uma semana para se despedir, porque você só vai voltar a pisar os pés neste país de merda se quiser."