Capítulo 2

Despedida


Dentro de um carro preto do governo, Shadow estava em total silêncio enquanto os overlanders o levavam para ver seu irmão pela última vez. Durante o caminho, Shadow fez o que jurou jamais fazer na vida, olhou para o passado, se lembrando do último dia em que viu seu irmão.


15 anos atrás

Shadow e Mephiles estavam terminando de fazer as malas em seu quarto compartilhado, com apenas 17 anos, Mephiles foi aceito na universidade mais prestigiada do país, enquanto Shadow conseguiu entrar para a academia militar. Ambos estavam realizando seus sonhos mais cedo, graças a ajuda de seu pai que tinha fortes ligações com o governo. Enquanto arrumavam as malas, os irmãos mantinham silêncio e seus olhares distantes um do outro por conta de uma briga que tiveram noite passada sobre se separarem e quebrarem a promessa de viverem sempre juntos, eles não aceitaram bem o fato de que estariam indo cada um para um lado, não só em profissões, como em locais também. Enquanto Mephiles ia para o campos da universidade, na Florida, Shadow iria no sentido completamente oposto, estudar e treinar nos campos militares de Nevada.

Shadow, ainda com uma carranca, leva suas malas até a porta para sair, até que Mephiles o impede receoso.

- Espera, Shad. Podemos conversar? - O ouviu suspirar.

- Fala... - O olhou ainda carrancudo e observou seu irmão se aproximar.

- Sobre ontem... Irmão, me desculpe pelo que disse. - Mephiles prendeu as orelhas na cabeça enquanto seu irmão desviava o olhar, mas suavizando a carranca. – Eu sei que você sonha em servir, não quero que desista disso... Mas também não quero perder meu único irmão.

- Se isso fosse mesmo verdade, teria me contado sobre a faculdade antes de me deixar fazer planos feito um idiota.

- Pare com isso Shadow... Eu ia te contar no momento certo e...

- Momento certo? E quando seria esse momento? Depois que eu passasse por aquela porta dizendo que consegui algo para nós dois juntos? Grande plano esse. - Shadow balançou a cabeça negativa e cruzou os braços.

- Mas... por favor irmão, eu jamais iria querer atrapalhar seu sonho. Porém, o meu sonho não é o mesmo que o seu. - Mephiles prendeu as orelhas na cabeça. - Eu devia ter contado há algum tempo sobre meus próprios planos, mas eu estava com medo de como você iria reagir.

- Se tivesse contado antes, talvez eu não reagisse assim. - Shadow soltou um suspiro e se encostou na parede.

- Me perdoe Shadow...

- Mephiles, eu tenho que pegar o trem. Olha, eu confesso que eu também não quero que você desista dos seus sonhos, mas não espere que eu deixe de ir em alguma missão pra ir atrás de você.

- Você acha que eu vou precisar de você o tempo todo? Eu não sou mais uma criança! Eu sei cuidar de mim... Por favor, não quero começar outra discussão...

- Nem se precisasse de mim, não iria ajudar alguém em quem não posso confiar. - Shadow pegou suas malas da cama. - Eu tenho que ir, mas eu realmente te desejo boa sorte. - Shadow sai batendo a porta sem olhar para seu irmão.


Aquele dia ficou um bom tempo em seus pensamentos, no começo, era agradável a ideia de não se verem mais, porém, a raiva não dura para sempre e logo a dor de ficarem separados sem nem manterem nenhum tipo de contato o pegou de surpresa em um de seus dias de treinamento de isolamento. Por muitas noites se perguntava se foi certo a forma como se despediu de seu irmão, se é que pode chamar aquilo de despedida, os dois estavam com raiva e simplesmente ignoraram os sentimentos um do outro. Por noites se pegou perguntando a si mesmo como estaria Mephiles. Será que ele estava bem? Será que conseguiu ir bem nos estudos? E o que mais importante, será que estava seguro ou estaria sofrendo bullying? Perguntas essas que negava a si mesmo que se importava e sempre usava os treinos mais pesados apenas para esquecer da culpa que ele sabia que um dia sentiria, ele só não esperava que fosse dessa forma, ter que ver seu irmão pela última vez e não ter nem a chance de se despedir ou de se desculpar.

Shadow POV

Após uma hora de viagem, que pareceu voar comparado com os meses sem respostas, finalmente chegamos ao centro de cremação, e mesmo fingindo que não, sinto meu coração pesar, pois sabia que meu irmão tinha medo de ser enterrado e que queria ser cremado, mas estar ali agora, tão cedo, era mais doloroso do que imaginava quando ouvia Meph comentando sobre como queria seu suposto "funeral". Um agente funerário já nos aguardava ali e nos levou até a sala dos fornos, ao entrarmos, um dos overlanders já anuncia quem procurávamos.

- Nós estamos procurando M. Dark. - Diz o moreno enquanto iam até um dos funcionários dali, um mobiam lobo de pelos escuros como carvão.

- Ele está ali. - Responde o lobo os levando até a caixa com o corpo.

Ele liga a plataforma descendo a caixa até minha altura, eu ainda não queria acreditar nisso tudo e estava tentando ser forte, mas quando o lobo abriu a caixa e o saco plástico, entendi então que era tudo real, ver Mephiles ali deitado sem cor e sem vida, me fez falhar a voz ao sussurrar seu nome em lamentação para mim mesmo.

- Meu Deus Meph.

E o motivo de sua morte foi o que me fez ter ainda mais culpa por ter deixado meu irmão todo esse tempo longe de mim por besteira, e raiva por viver num mundo como esse. Um cara com uma faca o atingiu nas costas, pelo dinheiro que ele tinha na carteira e que ainda conseguiu fugir. Eu estava um misto de emoções naquele momento que tudo o que pude fazer era assistir aquela cena enquanto os overlanders me contam sobre o projeto dele.

- Sentimos muito pelo seu irmão. - Começou o moreno sendo direto. – Mas estamos aqui também, e principalmente, para propor a você uma chance única na vida. - Eu mostrei que estava atento enquanto entregava os papéis assinados para a cremação.

- Seu irmão representou um investimento considerável. - Continuaram, vendo que claramente eu sabia do que eles estavam falando. - Gostaríamos que você assumisse o contrato dele.

- Já que seu genoma é idêntico ao dele, poderia seguir seus passos também. - Os dois se olham, claro que não podiam deixar a chance de fazer esse tipo comentário. - Por assim dizer. - Completou.

- Seria um novo começo. Num novo mundo. - Ele diz observando junto comigo a caixa sendo posta dentro do forno. Eu estava vulnerável, e eles continuavam tentando fazer minha cabeça. - Você poderia fazer alguma coisa importante. Poderia fazer a diferença.

Meph era o cientista, não eu. Ele é quem deveria ser lançado a anos-luz daqui para encontrar as respostas. Eu era só mais um soldado indo para um lugar que eu Sabia que ia me arrepender. Nos últimos segundos, eu jurei em silêncio ao meu irmão que seguiria com o sonho que ele sempre falou desde nossa infância. Não sei o porquê, mas sentia que talvez ele conseguisse ainda sentir minha promessa através de nossa "conexão de gêmeos". Pela primeira e última vez na minha vida, eu acreditei nessa bobagem, e enfim, as chamas o levaram de mim.

- O salário é bom. - Disse o moreno no intuito de ainda me convencer a aceitar. Olhei para os dois seriamente, sabia o que estavam tentando fazer, e o outro continuou, achando que foi a menção do dinheiro que me chamou a atenção.

- Muito bom. - Disse com um leve sorriso de vitória.

Após uma última olhada para as chamas, me despeço em minha mente de Mephiles, e vou com os overlanders de volta para o carro, onde me contaram um pouco mais sobre o projeto de meu irmão, que era intitulado de Projeto Avatar. É, acho que ele realmente realizou seu sonho. Passei alguns dias sendo preparado em um centro aeroespacial, onde fizeram várias baterias de exames em mim, parecia uma nostalgia, me fez lembrar dos exames que tive que fazer no exército antes de entrar para os campos de treinamento, não vou mentir que de certa forma gostei de sentir isso de novo, e após alguns dias, finalmente me disseram para onde eu seria mandado e o que eu faria nessa "missão", senti um misto gigantesco de emoções quando me informaram que iria para Pandora e que partiria em menos de um mês. No começo fiquei feliz por finalmente sair desse mundo condenado, mas durou poucos segundos até me lembrar de que ainda haviam boas pessoas que não tem e nunca terão tanta sorte como eu de sair daqui. Tirei esse tempo que me restava na Terra para ver meus amigos, comemorar com eles, me desculpar com outros e me despedir de todos, não vou cometer o mesmo erro novamente.

Foi um tumulto quando reapareci no bar de Ben depois de quase uma semana sumido, haviam até preparado cartazes de procurado depois que não conseguiram me encontrar nem mesmo em casa. Uau, não imaginava que tanta gente se importava assim comigo, meu coração pesou ainda mais saber disso, pois era ainda mais pessoas que eu estava deixando para trás agora. Ben e outros clientes que sempre estavam no bar me receberam, e claro que logo me encheram de perguntas, e tenho que admitir, ver aquela cena foi realmente engraçado e reconfortante, eu lhes contei tudo o que aconteceu, desde a briga com meu irmão até o contrato que assinei, minhas breves histórias fizeram todo o bar parar, com todos focados apenas em minhas palavras. Muitos dos mais próximos, incluindo Ben, me parabenizaram e claro que iniciaram uma enorme festa para mim, já outros não aceitaram bem o fato de nunca mais me verem, já que eu estava indo como um Soldado, não como um pesquisador, e soldados correm o maior risco de todos em missões, e em um planeta tão longe assim, então apenas aproveitamos ao máximo aquela noite. Alguns dias depois, outros amigos mais distantes que também souberam da notícia enfim chegaram para se despedirem de mim, incluindo aquela morcega com sua filha, que por algum motivo me adorava, ela dizia que eu era o maior herói dela, acho que pelo dia em que as ajudei no mercado, e me partiu o coração vê-la chorar e me implorando para não ir embora. Eu passei o dia com elas e outros conhecidos fazendo um churrasco em minha casa, provavelmente o último da minha vida também, já havia aceitado isso, os dias passaram tão rápido, que quando percebi, já faltavam 2 dias. Me despedi de todos pela última vez, e enfim, parti. Ao chegar no centro espacial, sem enrolação já me levaram a bordo de uma das naves que estavam se preparando para decolarem em breve, olhei para trás, dizendo adeus para a Terra, e entrei. Me levaram até um pequeno quarto e fui posto deitado, observei enquanto ligavam agulhas e eletrodos em meu corpo, me preparando para a criogenia, e então, apaguei.