Daniela Snape: Valeu Valeu Valeu

Capítulo 4 –Segurança.

Snape aparatou em uma rua próxima à sua casa. Um vento morno passeava entre as residências batendo em seu rosto e se afastando rapidamente da raiva exposta em seus olhos frios. O sangue ainda corria por suas veias carregando o ódio e a fúria que deixou crescer em seu interior. Respirando fundo tentou se acalmar, precisava ficar calmo, caso contrário poderia se deixar levar pelo momento e fazer algo que definitivamente não deveria fazer.

Não, ele precisava se controlar.

Mas é que jamais imaginou ver aquele tipo de cena acontecer com Harry Potter. O menino de ouro não demonstrava que algo assim acontecia. Snape sabia como uma pessoa ficava quando era maltratada pelos familiares, ele já sentiu em sua própria pele. Era estranho, Potter não era tão reservado quanto deveria ser, nem anti-social. Claro que ele tendia um pouco para o drama e gostava de quebrar regras, mas ele era um menino em plena puberdade, era correto ser daquela forma.

Snape realmente não entendia. A única coisa que ele sabia era que Potter havia se agarrado a si antes de desmaiar e agora estava amparado por seus braços. O menino tinha feições leves como se estivesse só dormindo sem se lembrar que estava todo machucado e negligenciado.

Por um momento Snape apenas olhou para seu rosto marcado sem pensar em algo, apenas o fitou como se o visse pela primeira vez na vida. Após alguns segundos, sem nada dizer ou pensar, ergueu Potter em seus braços o aconchegando em seu peito e o levou pela rua deserta. O menino era leve demais, nem mesmo parecia que estava carregando um menino de dezesseis anos. Parecia apenas um saco leve de carne, morto.

Mas Harry não estava morto e demonstrou isso ao abraçar seu pescoço escondendo seu rosto em seu ombro. O aperto não era forte, mas foi o suficiente para que Snape soubesse que precisava se apressar.

Após alguns passos, chegou a uma casa simples no final de uma rua estreita. Parando à porta, puxou a varinha e recitou um feitiço abrindo-a e entrando em uma sala ampla e escura. Velas se acenderam no momento em que a porta fechou. Seus olhos percorreram rapidamente a sala espaçosa e cheia de livros, mas não pararam para admirar a calma que as folhas escritas lhe passavam. Com pressa adentrou a um corredor lateral e abriu outra porta entrando agora em um quarto simples com uma cama grande.

Com cuidado, ajoelhou-se na cama e depositou o menino semi-inconsciente. As mãos de Harry estavam presas em seu colarinho, ele não queria se desgrudar de si. Para Harry tudo era confuso naquele momento, nada fazia sentido, ele só sabia que se sentia seguro e acolhido onde estava e agora estavam tentando afastá-lo de sua fonte de segurança. Ele não queria partir, queria ficar ali para sempre e não mais acordar.

Dormir era mais fácil, era só deixar seu corpo o levar para qualquer outro lugar. Não era preciso pensar ou se preocupar, era só desistir.

Isso, se desistisse não haveria mais Tio Valter e sem Tio Valter não teria mais sofrimento. Seria muito bom.

Mas nunca o deixavam fazer o que queria, porque imaginar que deixariam agora?

Não. Alguém o impedia de dormir.

Harry estava com a consciência presa por um fio e por esse fio percebeu que alguém soltava sua mão de sua fonte de segurança e o empurrava deitando-o em algo quente e confortável.

Humm, talvez ali não fosse tão ruim.

Ele se virou agarrando o cobertor. Não havia percebido que estava com tanto frio, mas agora que tocou aquela superfície quente percebeu que na verdade estava morrendo de frio. Era melhor se cobrir. Iria se cobrir e ficar quietinho, mas novamente alguém o impedia. Porque a pessoa não o deixava fazer o que queria?

- Droga. – Ouviu alguém exclamar enquanto uma mão extremamente gelada se postava em sua testa. – Está com febre.

"Não estou com febre, só estou cansado e com sono." Pensou Harry se revirando na cama.

Snape balançava a cabeça em negação enquanto tirava a roupa do menino e via seus ferimentos. A raiva começava a aflorar dentro de si. Por mais que não gostasse do menino, não podia simplesmente ver o estrago que aquele verme gordo havia feito com a criança e ficar impassível. Ainda podia sentir em si mesmo as dores físicas e emocionais de ser espancado.

- Potter. – Chamou vendo o menino piscar os olhos rapidamente e depois fechá-los. – Pode me ouvir, Potter?

Não, Harry não podia ouvi-lo, pois nesse momento estava longe de tudo, ele queria apenas ir embora e ser deixado em paz.

As mãos quentes deixaram seu corpo por um momento. Ele ouviu ao longe o barulho de água e logo depois sentiu-se ser puxado novamente para perto de sua fonte de segurança. Mais uma vez os braços fortes o seguraram e ele pôde se agarrar ao pescoço dele e esfregar o rosto com leveza no tecido áspero antes de descansar. Agora estava em segurança. Ali, nos braços dele, estava tudo bem.

Porém, mais uma vez foi empurrado daquele lugar de conforto.

Dessa vez seu corpo não foi depositado com delicadeza em uma cama quente. Snape o abaixou dentro da banheira cheia com água fria. Harry tremeu um pouco, mas não transmitiu resistência, ele não tinha forças para isso.

Snape soltou as mãos do menino de seu pescoço e o mergulhou quase completamente dentro da banheira. A água fria faria sua temperatura baixar, era só esperar um pouco.

Os olhos de Snape eram calculados e escondiam atrás de suas íris a preocupação que passava por sua cabeça enquanto mantinha a mão em cima do peito do menino sentindo a respiração fraca e olhava mais uma vez para os ferimentos, alguns recentes, outros antigos.

Após alguns minutos, retirou o menino da banheira e o secou com um feitiço antes de colocá-lo de volta na cama. Harry tremia um pouco, mas pelo menos a febre havia passado. Após ficar olhando o corpo magro repousando, Snape se dirigiu a uma estante no laboratório ao lado e pegou um pequeno vidrinho com essência de ditamno. Sentindo-se cansado, voltou ao quarto e sentou-se ao lado de Harry. Destampou o vidro e pingou duas gotas em cima do olho inchado. Quase imediatamente a pele começou a desinchar e clarear. Alguns segundos depois era possível ver o olho que estava escondido. Ainda estava machucado e com alguns cortes que só sairiam com o tempo, mas estava bem melhor.

Já era quase manhã quando Snape cobriu Harry, agora com o corpo já curado da maioria de seus ferimentos e sem febre, e foi para a sala deitar no sofá e descansar um pouco.

Antes de se deitar, pegou um copo de Whisky no bar e o levou até o sofá largando o corpo no estofado e tomando um gole do liquido marrom que queimava sua garganta enquanto corria pelo seu esôfago.

Tentava ao máximo não pensar em algo. Mas não adiantava, a todo o momento vinha uma imagem em sua mente. Harry Potter encolhido no chão de seu quarto prestes a ser espancado por seu tio, uma figura paterna que deveria por obrigação acolher e proteger e não causar medo e sofrimento.

Isso tudo estava errado.

Quando os olhos verdes se abriram, só conseguiram ver uma massa preta embaçada e disforme. Ele queria saber o que era e onde estava, mas sua mente teimava em querer se desligar de novo, voltar ao escuro e o nada. Era fácil viver no nada, não havia dor, sofrimento e nem angustia. Havia apenas o torpor e o alivio. Ele queria o nada novamente.

- Potter.

"Não, por favor, não me chamem, me deixem descansar." Pediu Harry internamente sem conseguir proferir essas palavras.

- Potter, está me ouvindo?

A voz que o chamava era baixa e gentil com uma leve tremida de preocupação e impaciência. Era conhecida, mas ao mesmo tempo era inédita. Ele se lembrava de escutar essa mesma voz em outros momentos de sua vida. Algo distante em uma masmorra. Sim, era isso. Essa voz era a voz que vivia nas masmorras do castelo aterrorizando os alunos. Aquela que lhe dava raiva e medo.

- Snape. – Disse Harry sentindo que o nome mal havia saído pela ronquidão em sua garganta.

Snape não lhe respondeu, mas era possível ver a silhueta negra ao seu lado.

- Onde estou? – Tentou dizer.

Provavelmente sua voz não deveria ter saído, pois mais uma vez não ouviu resposta. Onde estavam os seus óculos? Odiava ficar sem enxergar. Onde estava? Aquele lugar não era parecido com nada que já tivesse visto, mesmo que com os olhos embaçados. Tentou se atentar ao som do lado de fora daquele lugar, talvez soubesse onde estava. Mas tudo era só silencio pesado.

De repente um medo se apossou de sua mente.

E se aquele homem parado não fosse Snape? E se estivesse preso em algum lugar estranho por alguém estranho e perigoso? E se fosse seu Tio Valter?

Harry sentiu seu coração disparar ao pensar na possibilidade de estar trancado com seu tio em um lugar estranho e distante de tudo. Sozinho e indefeso.

Sentindo o medo arrepiar seus pelos e com os olhos arrepiados, tentou se levantar. Mas foi impedido por um mão pesada que o empurrava de volta para a cama.

- Não, me larga! – Sua voz era só um grunhido indistinto.

- Pare, Potter. Não deve se mexer.

Não adiantava. Harry estava completamente fora de si, desesperado e com medo. Só pensava em ir embora, em sair daquele lugar e se afastar daquela pessoa, se afastar de seu tio.

- Não Tio Valter. Não.

Snape que segurava o menino deitado, parou por alguns segundos ouvindo aquele nome sair entre a rouquidão do jovem. Potter pensava que estava sendo preso por aquele verme gordo merecedor de algo pior que a morte.

- Pare de se mexer. – Disse Snape prendendo os pulsos de Harry com uma mão enquanto tentava pegar sua varinha no criado mudo ao lado. Harry continuava se debatendo, tentando escapar de algo que achava perigoso. – PetrificusTotalus.

Imediatamente Harry parou de se mexer e só conseguia movimentar os olhos. Ainda assim sentia seu coração disparado, o medo subia pelo seu corpo atacando-o com força. O que seu tio faria agora? Não estava machucado demais já?

- Eu não sou seu tio. – Disse o homem aproximando-se novamente e colocando seus óculos. Imediatamente a figura de um Snape com cabelos bagunçados e expressão cansada apareceu a sua frente. – E não irei te machucar.

Harry sentiu o medo recuar aos poucos, mas não foi embora por completo, ficou ali no canto espreitando, esperando o momento certo para atacar novamente como se fosse um felino esperando o momento certo para avançar em sua presa. Os olhos de Snape se fecharam por um momento e suas mãos finas passaram no cabelo colocando-o para trás da orelha alinhando-o. O professor pousou a varinha em seu peito e levantou uma das sobrancelhas.

- Vou te liberar do feitiço, mas se tentar se levantar ou fugir, vou prendê-lo novamente.

Harry não tinha como responder, mas Snape deve ter confiado que ele faria exatamente o que foi mandado, e não estava errado. O grifinório estava com medo demais para desobedecê-lo. Sabia as conseqüências de desobedecer uma ordem direta como aquela. Por isso não se moveu quando sentiu o feitiço ser retirado.

Devagar moveu as mãos e ameaçou se sentar, mas Snape mais uma vez fez pressão em seus ombros.

- Já disse que não deve se levantar.

- Onde estou? – Perguntou Harry sem desgrudar os olhos de Snape.

- Na minha casa. Tive que tirá-lo com pressa de seus tios antes que o matassem.

- Meus tios não me matariam, sou a segurança deles.

- Modo interessante de cuidar da fonte de segurança deles.

- E por que se importa? – Perguntou Harry sentindo a raiva subir-lhe pelas veias. – Quem é você para dizer algo sobre como me tratam?

Snape franziu a testa ao ver tanto ódio reverberando nas palavras atiradas pelo menino. Harry sentia fortes dores em seu abdômen, mas naquele momento não ligava para elas, só sentia seu corpo tremer de fúria.

Nunca confiou em Snape. Por mais que digam que não, ainda sentia que a morte de Sirius era culpa dele.

- Por que está tão interessado em minha saúde? Nunca se interessou em como eu estava nos outros anos. Por que agora?

- Não estou interessado em nada que venha de você, moleque insolente. Tirei você daquela casa por ordem de Dumbledore.

Harry apresentava um ponto de interrogação enorme em seus olhos. Por um momento não conseguia pensar direito. Era tudo muito confuso para se entender.

- Por que me tiraram de lá?

- Deseja voltar para as mãos de seu querido tio?

- Não! – Harry quase gritou ao ouvir a possibilidade de voltar aos seus tios. A imagem do ódio de Tio Valter ainda estava nítida em sua mente. – Quer dizer, eu só... eu...

- Tome a poção que está na mesa ao lado e volte a dormir. Dumbledore virá para poderem conversar.

Snape virou sobre os calcanhares e partiu porta a fora deixando Harry sozinho sentindo-se angustiado por não conseguir entender o que se passava. Sentiu que seus olhos estavam molhados pelas lágrimas confusas. Ao mesmo tempo em que sentia alivio por não ter a mão pesada do tio em seu corpo, sentia medo do que poderia vir pela frente. Era mais seguro quando já sabia o enredo da história. O desconhecido lhe dava arrepios.

Após alguns minutos tentando se controlar, pegou o frasco com a poção ao lado e a tomou de um gole só.

Quase imediatamente sentiu o liquido fazer efeito e relaxar seus músculos tensos. Seu corpo deitou de forma confortável naquela cama quente e logo seus olhos começaram a pesar. Parecia que tudo estava sumindo.

Era bom, deveria sentir aquela sensação de desaparecer mais vezes.

Quando sua visão não passava de um fio entre as pálpebras por onde mal passava a luz, viu uma sombra se mexer, mas não tinha forças para descobrir o que era. Apenas deixou que seus olhos se fechassem e sua mente começasse a escurecer.

Ele abraçou a escuridão e acolheu o inconsciente.

Porém ainda lhe restava uma centelha de consciência que lhe permitiu sentir mãos frias lhe cobrir antes de se afastar um pouco e tocar de leve em seu braço.

Era sua fonte de segurança, ela voltou e ficaria por ali, com ele, até o fim.