Capítulo 8 – O inicio de algo.

Harry piscou os olhos algumas vezes antes de realmente abri-los. Por um momento não compreendeu onde estava, sua visão estava embaçada pela falta dos óculos e uma claridade incomodava-o. Franzindo o cenho imaginou se estaria em seu dormitório em Hogwarts com sua cama de dossel revestida com cortinas vermelhas em companhia de seus amigos grifinórios, mas assim que as lentes foram postas em seu rosto deixando sua visão nítida, o sentimento de euforia fora substituído pela decepção. O quarto era cru e sombrio iluminado apenas pela luz solar que entrava pela janela aberta. Ainda assim era frio.

Fechou os olhos desejando poder permanecer na cama sem se mexer, sem fazer nada, nem mesmo respirar. Mas sabia que não podia, tinha obrigações a fazer e se não as cumprisse as consequências poderiam ser devastadoras. Pensando assim, sentou-se sentindo o ardor nos braços e costas, parecia que tinha ficado o dia inteiro pegando peso, seus braços estavam doloridos e pesados, era difícil até mesmo retirar a calça do pijama. Já suas costas aparentavam terem sido pisoteadas por uma manada de elefantes, não se atrevia nem mesmo a respirar fundo, a dor era gritante. Ainda assim achou que a dor seria muito pior do que a que sentia.

Que seja, não havia tempo para pensar em nada disso. Ignorando as dores e dificuldades, levantou-se e foi ao banheiro, fez sua higiene e se trocou levando um grande susto ao ver que já eram quase dez horas da manhã. Rapidamente voltou e arrumou seu quarto deixando-o sem vestígios de que alguém acabara de levantar. Depois desceu correndo as escadas e foi diretamente para a cozinha. Snape não estava ali e Harry não sabia se isso era um bom sinal ou não. Acabaria tendo que descobrir depois. Concentrou-se em mexer nas tigelas e frigideiras, o café da manhã tinha que ficar pronto o quanto antes. Em quinze minutos tudo estava arrumado na mesa esperando que Snape aparecesse, mas o professor não apareceu, nem mesmo depois dos vinte minutos que Harry gastara para lavar a louça.

Snape não apareceu.

A falta de Snape naquela casa deveria acalmar Harry, deixa-lo tranquilo por não ver sua pessoa e não sentir a apreensão quanto aos seus atos, mas ao contrário, só o fez ficar mais e mais nervoso. Sem Snape ali não era possível prever seu humor e nem se preparar para o que quer que acontecesse. Tentando não pensar em nada mais do que seus deveres, passou pela casa arrumando e limpando até que tudo estivesse em seu devido local. O quintal demorou um pouco mais, ainda assim estava limpo e arrumado. Quando o relógio indicava uma hora da tarde, Harry sentou-se em sua cama e esperou, o tempo passou e o café da manhã ainda estava na mesa sem ser tocado, sua barriga roncava cada vez que se lembrava dos ovos, bacon e suco que fizera, mas sabia que não deveria comer antes do dono da casa. Aprendera isso a duras penas.

- Potter! – Chamou a voz de Snape alguns minutos depois.

Harry fechou os olhos odiando aquela voz, mas obedecendo ao chamado desceu as escadas e parou no último degrau. O homem estava parado no batente da cozinha com os braços cruzados e olhando-o com atenção.

- Me chamou...pai. – Perguntou Harry sentindo arder a garganta ao obedecer a ordem que aprendera na noite anterior.

- Sim, precisamos conversar. – Disse Snape descruzando os braços e indo para a cozinha onde indicou uma cadeira para Harry sentar.

O menino caminhou lentamente sempre observando a reação do homem, sabia muito bem que jamais deveria dar as costas a quem fosse mais forte, as consequências eram cruéis e dolorosas. Sentou-se com calma e tentou não encostar as costas no encosto, ainda ardiam. A comida que fizera de manhã ainda estava na mesa magicamente aquecida e protegida. A barriga de Harry roncou alto, mas o menino não deu atenção, apenas permaneceu quieto esperando que o começo do que deveria ser algum sermão irritante, se tivesse sorte seria somente sermão. Porém Snape não deixou aquilo passar em branco.

- Você se alimentou? – Perguntou calmamente.

Harry não respondeu, apenas permaneceu sentado olhando para frente, diretamente para a parede. Não é que não quisesse responder, mas não sabia o que responder. Se fosse tio Valter diria que não comeu, e o tio estaria agradecido por isso, mas o que responder quando não se sabe a reação da pessoa a qual se obedece? Snape respirou fundo e sentou-se na cadeira em frente ficando exatamente na linha de visão de Harry.

- Responda. – Pediu Snape curvando-se para frente aumentando um pouco o tom de voz.

- Não. – Respondeu Harry vendo os olhos negros brilharem de raiva.

Snape respirou fundo e retrocedeu olhando atentamente o menino, sua pele estava pálida e em alguns pontos era possível ver os ossos sob a pele. Deveria ter emagrecido pelo menos cinco quilos desde que chegara ali. Aquilo estava errado.

- Coma. – Indicou a comida na mesa.

Harry olhou para a comida e arregalou os olhos quando a vontade lhe assaltou enchendo sua boca de água. Em sua mente criou-se a dúvida se comia ou não. Olhou assustado para Snape e novamente para a comida. Por fim entrelaçou os dedos e permaneceu onde estava.

- Não vou me repetir, Potter. Faça o que estou mandando.

Apertando os lábios Harry se sentou na outra cadeira e pegou o garfo com cautela antes de espetar um pedaço de bacon e levar até sua boca sentindo o gosto estourar em sua língua. Era delicioso e fazia seu estomago se revirar de prazer, rapidamente desceu o garfo para o prato e pegou um pouco de ovo, logo todo o prato estava limpo e o suco havia acabado. Assim que descansou os talheres, Snape recolheu a louça e colocou na pia puxando sua cadeira para mais perto e se sentando ao lado do menino. Harry recuou de imediato e olhou atentamente para o homem. Todo o prazer da alimentação fora substituída pela cautela.

- Precisamos deixar algumas coisas claras entre nós dois, Potter. – Começou devagar. – Novamente, não sou seu Tio Valter. Aceitei sua presença e seu vinculo com o intuito de lhe proteger e não de lhe maltratar, por isso, quero que esteja ciente que o ocorrido de ontem não vai mais acontecer. Porém, e quero que preste atenção, não vou aturar desaforos e má educação.

- Sim, senhor. – Respondeu Harry tentando ainda entender onde Snape queria chegar com isso.

- Você não é um elfo doméstico, não tem obrigação de fazer comida e nem faxinar a casa. Você tem sim que arrumar seu quarto e lavar alguma louça de vez em quando, mas não quero mais que faça somente isso, você tem lições a fazer.

- Sim, senhor.

- Acho que podemos ter uma boa convivência se obedecer a regras simples. Vai fazer suas lições, vai se alimentar direito, vai arrumar seu quarto e continuar me chamando de pai.

- Sim, pai.

- Alguma objeção? – Harry se mexeu desconfortavelmente, mas não disse nada. – Pode dizer, não vou te repreender.

- Não quero te chamar de pai.

- Eu sei, mas isso não está em negociação.

- Por que quer que eu o chame assim? – Perguntou tomando folego. – Podemos tentar um bom convívio sem isso, posso lhe chamar pelo nome.

- Não! – Harry retrocedeu novamente, mas não extinguiu a raiva de seus olhos. – Você vai me chamar de pai, sem discussão.

- Tudo bem.

Snape tamborilou os dedos na mesa e olhou para o menino. Os olhos repletos de raiva eram intensos e Snape os adorava, estavam vivos finalmente, mostravam que o Potter de outrora ainda estava ali dentro, dormindo e aguardando o momento certo para despertar. E ele despertará ao seu lado, com suas doutrinas e seus ensinamentos. Será moldado ao seu modo, do modo certo. Seria da forma como deveria ter sido com ele, fará com Potter o que faria com seu próprio filho se tivesse a chance de ter um.

Balançou a cabeça tentando afastar esses pensamentos estranhos que lhe assaltavam de vez em quando trazendo idéias estranhas e que jamais deveriam existir em sua mente. Harry o olhava com curiosidade, jamais vira Snape tão distraído.

- Vou para meu laboratório. Seria bom que usasse seu tempo para fazer as lições que estão atrasadas.

- Sim, senhor.

Snape balançou a cabeça uma vez e saiu da cozinha se trancando no laboratório. Assim que a porta emitiu o barulho da tranca, soltou a respiração e fechou os olhos. Era horrível estar daquela forma, confuso. A vida inteira lutou contra qualquer coisa que lhe causasse confusão e dúvida. Prezava pelo controle de sua vida, sempre sabia onde pisava e seu caminho seguinte. No entanto, tudo fora abalado em apenas alguns dias. Todos os muros que erguera e paredes negras que construíra em volta de sua alma estavam abaladas por um menino de dezesseis anos.

Devagar caminhou por entre as duas bancadas de madeira rústica e negra pelo fogo dos caldeirões antigos que utilizava para suas poções. Alguns estavam vazios e não lhe interessavam em nada, mas dois deles continham líquidos em pleno preparo, havia uma poção transparente que estava em fogo baixo e demoraria mais uma semana para estar pronta. O outro caldeirão continha um liquido azul claro que borbulhava em plena fervura espiralando fumaça pelo ambiente. Snape parou diante do caldeirão e admirou a beleza da poção em cozimento. Fechou os olhos e sentiu o aroma das ervas colhidas em pleno crepúsculo e adicionadas com extremo cuidado no momento certo para dar o ponto exato que precisava. Ao fundo se ouvia o barulho do liquido fervendo e estourando suas bolhas na superfície. Como era relaxante aquele ato. Ali ele sabia que estava em pleno controle de tudo. Não havia o que outra pessoa pensar, era somente ele e sua habilidade de agir conforme as ordens prescritas. Sim, controle. Era isso que precisava, controle sobre seus pensamentos.

Do lado de fora da janela o dia se esvaia rapidamente enquanto permanecia olhando para as bolhas estourando na poção. Sua mente começava a se organizar e suas dúvidas aos poucos eram sanadas pelas respostas que estavam claras e límpidas bem na sua frente, mas que não via, ou não tinha coragem de aceitar. Porém, mesmo sabendo a verdade que lhe era gritada, não podia se precipitar em nada, precisava confirmar tudo o que pensava e sentia. Potter era um enigma que fora jogado em suas mãos, uma peça que não se encaixava em seu quebra cabeça. Principalmente agindo daquela forma. Da mesma forma como ele agira.

- Não! – Exclamou levando as mãos até a cabeça.

Tentou inutilmente afastar aquelas imagens, mas elas jorravam com força bem diante de seus olhos lembrando-o de dias passados e que deveriam continuar enterrados. Seus olhos fecharam com força ao verem o menino franzino de cabelos negros escorridos, ele estava na sala olhando alguns quadros feios e sem graça que estava na parede de sua casa. Odiava aqueles quadros, eram velhos, sujos e lhe davam medo. Mas seu pai adorava e tudo que papai adorava fica exposto na sala, Severus sempre ficava trancado em seu quarto. Sua mão pequena estendeu-se e tocou na tela fria sentindo a tinta seca, fez uma careta antes de segurar o grito quando o quadro caiu bem aos seus pés quebrando a moldura e quase rasgando a tela.

Os olhos negros de Snape piscaram com força vendo o laboratório girar e ficar embaçado enquanto lutava contra as lembranças fortes que teimavam em vir a tona.

Agora ele estava novamente na frente do quadro espatifado no chão e sua visão misturava-se com a de Potter no dia que foi lhe buscar, os olhos assustados que viam o quadro dos tios quebrado no chão eram idênticos aos seus vendo aquela pintura horrível estragada aos seus pés. Mais ainda, seu coração deveria estar batendo em igual desespero do dele quando seus tios apareceram em casa. Lembrava-se nitidamente de estar tremendo ao ver o pai invadir a sala com ira e o olhar odiosamente gritando o quão verme e desprezível ele era. Sua pele ardeu ao lembrar-se do sangue que o velho tirou de seu corpo.

- Chega, por favor, chega!

Snape escorregou para o chão e postou sua testa no chão frio. Seus olhos estavam apertados com força e era possível ver estrelas explodirem diante deles. Após alguns minutos balbuciando e pedindo que tudo aquilo acabasse, sua respiração regulou deixando-o mais calmo. As lembranças voltaram para seu devido lugar. Devagar se levantou e arrumou o cabelo sentando em um banco. Odiava lembrar-se dessa época, da dor e da solidão, do medo e da completa vontade de morrer.

Sem perceber seus olhos ergueram-se para o teto do laboratório e ficaram olhando exatamente para o ponto onde deveria ficar o quarto do menino. Um menino, uma criança que, como ele, fora jogada nas mãos de pessoas deploráveis. Mas ao contrário de si, que estava preso eternamente aos pais nojentos que tinha, Potter podia ter tido um futuro diferente, ao lado de Lilian. Sim, aqueles olhos verdes jamais deixariam que algo assim acontecesse com ele, provavelmente seria mimado, mas até isso seria bom, pois Lilian faria com que seu filho fosse o espelho de si, uma pessoa decente e boa. Até mesmo James, o idiota que roubara sua amada, até mesmo ele era melhor do que aquele porco imundo de bigode.

Tudo podia ser diferente, se ele não tivesse causado o grande e trágico destino dos Potters. Uma dor profunda ardeu em sua alma quando a culpa o assolou. Precisava aliviá-la imediatamente, era insuportável. Só aliviá-la, pois jamais conseguiria retirá-la completamente de seu peito, a culpa era eterna assim como a morte de Lilian.

Parecendo um menino assustado, sentindo-se um menino assustado, aproximou-se do quarto de Potter e bateu na porta três vezes antes de entrar e vê-lo na janela. Os olhos jovens admiravam alguma coisa no céu. Ao seu aproximar um pouco mais viu que a lua estava cheia e laranja, seu brilho era intenso e refletia nas esmeraldas de Potter.

- Ela sempre fica mais bonita nessa época.

Harry olhou para ele surpreso. O esplendor da lua no alto céu de verão não era um assunto que imaginaria ter com seu professor...agora tutor. Snape permaneceu parado olhando-o como se esperasse algo, como se não soubesse o que fazer e não sabia. Nunca soube o que fazer desde que o menino fora posto em suas mãos.

- Tomou banho?

- Sim, senhor.

- Ótimo, tenho que passar a pomada em seus machucados. Tire a camiseta.

Harry hesitou por um segundo, mas a lembrança de quando não obedecia as pessoas era nítida, imediatamente a camiseta fora colocada com cuidado na cadeira ao lado, seu peito branco era banhado pela lua e assustava Snape pela quantidade de cicatrizes, algumas que já conhecia e outras que só conseguira ver agora. Seus olhos encheram-se de raiva e ira, suas pupilas estreitaram e Harry recuou um passo encolhendo-se.

- Não vou fazer nada com você. – Sussurrou Snape aproximando-se e o pegando pelo braço virando-o devagar. O hematoma das costas ainda estava ali, assim como os dos braços. Passou o dedo devagar por cima do roxo e viu o menino tremer. – Já disse, isso não vai acontecer de novo. – Disse passando a pomada no machucado.

- Como posso confiar em você? – Perguntou Harry baixinho depois de alguns segundos de silêncio.

- Vai ter que confiar.- Disse virando-o e segurando a camiseta aberta para que ele vestisse, Harry sentiu-se uma criancinha enquanto Snape vestia sua camiseta, mas no fundo aquilo era extremamente agradável. – Não vou deixá-lo ter o mesmo destino.

- Mesmo destino de quem?

- Hora de ir dormir. Amanhã você tem mais lições.

Harry franziu a testa, mas sabia que não poderia mais contestar, deveria obedecer e assim foi até a cama e se deitou embaixo do lençol que o homem segurava aberto. Seus olhos se arregalaram quando Snape colocou o cobertor em seu ombro em uma tentativa muito estranha e sem jeito de lhe cobrir. O menino olhou para o homem e depois fechou os olhos esperando o sono chegar. Abriu os olhos e viu que Snape estava agora sentado na cadeira onde sua camiseta estava há minutos atrás. Finalmente, após alguns segundos olhando o homem, sentiu a preguiça se instalar primeiro e depois o cansaço, por último chegou o sono que o levou embora.

Snape suspirou e se levantou indo para a porta. Potter já dormira e agora só acordaria no dia seguinte, mas quando desligou a luz e ia saindo, escutou a pergunta baixinha e tímida.

- Por que você não é sempre assim, Snape?

N/A:

Daniela Snape: que bom que está gostando, fico muitíssimo feliz mesmo... aqui está a continuação, viu que os dois começaram a se aturar mais e mais... bjusss

Dels76: Snape é o típico homem que não pode ter os sentimentos confrontados que fica descontrolado e sem ação. Quanto a idéia de chamar de pai, é que essa fic é um pedido de uma amiga, ela queria que Snape sentisse essa necessidade por dentro e que Harry odiasse, tentei fazer da melhor forma que deu. Então ficou como se ele sentisse dentro de si essa necessidade cada vez que ficava mais e mais perto do menino. Logo logo o relacionamento vai aprofundar mais e mais.

Inthedungeons: Pois é, Snape esta sentindo essa necessidade cada vez mais forte em seu âmago, uma necessidade de ser preenchida. Pois é, os dois estão cada vez mais necessitado de carinho e se confrontando com mais e mais sentimentos estranhos que jamais sentiram antes.