Capítulo 9 – Um novo começo, uma antiga pessoa.
Harry podia dizer que tivera a melhor noite de sono desde quando terminou o quinto ano de Hogwarts, apesar de ainda um pouco dolorido, o conforto que sentia era quente e inexplicável. Respirou fundo abraçando o cobertor e desejou permanecer mais um pouco na cama, apesar de achar estranha a sensação de não ter que se levantar cedinho para começar a fazer suas tarefas. O quarto estava completamente tranquilo e gostoso, até mesmo esboçou um sorriso após um longo bocejo, mas assustou-se ao abrir os olhos e encontrar Snape sentado em uma cadeira ao lado de sua cama, perigosamente perto inclinado em sua direção e com um olhar curioso.
- O que...? – Balbuciou o menino.
- Você tem um sono pesado quando está cansado. – Comentou o homem endireitando-se na cadeira. – E costuma falar bastante.
- Por que está aqui? – Perguntou Harry sentando-se e tentando não pensar no que poderia ter falado enquanto dormia.
- Não consegui dormir e resolvi ler.
Harry não comentou que o professor não respondeu sua pergunta. Ele dissera que não conseguira dormir e que resolvera ler, mas tinha vários lugares da casa para isso, inclusive seu quarto particular e, no entanto, estava sentado em uma cadeira desconfortável ao lado de sua cama durante todo o seu sono.
- Que horas são? – Questionou vendo o céu claro através do vidro da janela.
- Já é de tarde, quase duas horas.
- Duas horas? – Exclamou o menino levantando-se em um rompante e começando a pegar mudas de roupas para ir tomar banho.
- Vai a algum lugar? – Perguntou Snape sem se mexer, mas olhando atentamente o menino parar com a roupa na mão e uma expressão confusa no rosto. – Tem algo tão importante para fazer que precisa estar com tanta pressa?
- Eu... – Começou Harry sem saber ao certo o que responder. Estava confuso e seu olhar não negava.
Snape se levantou e pegou as roupas da mão do menino vendo-o abaixar a cabeça e mexer compulsivamente suas mãos. Colocou as roupas em cima da cômoda próxima e com cuidado puxou o menino pelo braço até fazê-lo se sentar na cama novamente. Sentou-se na cadeira de novo ficando frente a frente com Harry, respirou fundo e iniciou uma conversa completamente desajeitada.
- O deixei dormir até tarde porque estava cansado demais, seu corpo precisava dessas horas para se recuperar do peso que era a sua escravidão.
- Eu não era um escravo. – Retrucou Harry ficando bravo com a comparação.
- Era sim, sempre foi. Até um elfo doméstico era melhor tratado do que você, pois eles gostam do que fazem. No entanto você...
- Não fale de mim como se me conhecesse. – Reclamou Harry olhando-o com raiva.
- Que seja. Pode querer proteger seus tios, mas isso não tira o fato de que eles te maltratavam. – Disse Snape contraindo os lábios em uma linha fina. – Eu disse que era para você fazer lições hoje, mas mudei de ideia. Vamos sair.
- Sair? – Perguntou Harry com um brilho crescente em seus olhos. Snape gostou de ver a luz se acender em um sorriso no menino.
- Sim, você precisa tomar um ar, sair dessa casa por algumas horas.
- Mas não podemos ser vistos juntos. Dumbledore disse que é perigoso.
- Acha mesmo que serei tão idiota a ponto de por sua segurança em risco?
- Não, senhor, me desculpe. – Pediu Harry se retesando.
- Não precisa se desculpar. Nós poderemos sair, pois tomarei a poção polissuco.
- Não é mais fácil eu tomar?
- Não. Se houverem comensais da morte vendo você não vão estranhar que esteja acompanhado por um adulto, podem pensar que é um auror. Mas se me virem acompanhado por um adolescente, irão estranhar e vão querer investigar, acabarei tendo muito o que explicar.
- Acho que Voldemort não iria gostar de vê-lo com um adolescente enquanto deveria estar matando e torturando inocentes.
- Não, ele não gostaria. – Disse Snape estreitando os olhos, mas não negando a afirmação do menino. – Não repita esse nome.
- Dumbledore fala sempre.
- Você não é Dumbledore. Tenho motivos para ordenar isso.
- Então é uma ordem?
- Sim e você não poderá desobedecer.
- O que você fará comigo se eu desobedecer alguma ordem sua? – Perguntou Harry temeroso.
Snape aproximou mais a cadeira fazendo Harry ficar entre suas pernas e se inclinou deixando o menino assustado com a proximidade.
- Não vou bater em você, nunca mais encostarei minha mão em você com esse intuito. Mas existem castigos que posso impor.
- Por que está fazendo isso? Por que está agindo assim comigo.
- Quer que eu seja rude como seu tio.
- Não! – Respondeu rápido demais esticando as mãos e quase pegando os braços do professor com desespero, mas recuando de imediato. – Não quero que aja assim, mas está me assustando, você não é bom ou cuidadoso. Nunca foi. Eu não posso confiar em alguém que muda assim de repente, não dá.
- Potter, eu tenho meus motivos para começar a agir dessa forma com você. Não é algo que eu vá lhe explicar. Já falei demais, coisa que não acontece. Tome um banho sem pressa e se arrume, estarei esperando na sala.
Snape levantou-se e seguiu até a sala onde pegou um copo de bebida e se sentou no sofá levando o copo gelado até sua testa franzida. Estava completamente confuso, aquele menino lhe trazia a tona sentimentos que não sabia ter. Sua preocupação para com ele era algo inédito e estranho, era como se fosse errado ao mesmo tempo que era certo. Sem querer pensar mais sobre isso desceu até seu laboratório e pegou o recipiente com a poção polissuco, acrescentou um fio de cabelo de um trouxa que andava pelo centro da cidade e quando o líquido parou de borbulhar e virou apenas um conteúdo azul levemente transparente entornou o vidro tomando longos goles até que metade do conteúdo fora devidamente engolido. Em poucos segundos sentiu a dolorosa transformação. Ainda bem que pegara o cabelo de um homem com uma estrutura parecida com a sua, a mudança óssea era a que mais incomodava.
Após o formigamento embaixo da pele passar, olhou-se no espelho e se viu olhando dentro de um par de olhos castanho claro, pareciam gentis e jovens assim como o rosto sem rugas completamente diferente do seu com cabelos curtos e claros. Respirou fundo pensando se era realmente a melhor idéia fazer isso. Levar o menino para fora de sua casa era apresentá-lo ao perigo constante de comensais furiosos pelo seu sangue. Mas ele precisava se distrair um pouco, sair daquele lugar talvez fosse bom, talvez fosse bom para si também. Se alguma dúvida ainda surgia em sua mente quanto ao que fazia foi embora imediatamente ao ouvir a voz do menino no alto da escada.
- Pai?
Fechou os olhos por um instante saboreando o prazer de ter aquela voz formando aquela palavra que jurou jamais ouvir. Pai. Apenas três letras que o fazia se sentir tão completamente estranho e completo que lhe deixava triste. Triste, pois era a primeira vez que sentia aquilo e era tudo culpa de uma obrigação imposta ao menino, assim como um dia fora imposta para si também.
- Não, é diferente. – Sussurrou para si antes de tampar o vidro de poção e guardá-la no bolso do casaco.
Harry deu dois passos para trás e ergueu as sobrancelhas ao ver Snape saindo do laboratório. Estava completamente diferente do que estava acostumado, parecia até mesmo um homem simples, sem preocupações alguma com o mundo, poderia ser seu irmão mais velho.
- Por que sua varinha não está erguida? – Perguntou o homem demonstrando raiva em seus olhos castanhos.
- O que? – Perguntou Harry não entendo o que ele queria dizer.
- Uma pessoa completamente desconhecida se apresenta na sua frente e você nem ao menos tira a varinha do cós dos jeans, poderia estar morto nesse momento.
- Eu não iria erguer a varinha para você.
- Poderia não ser eu, poderia ser um comensal, poderia ser alguém que o machucasse. – Disse Snape se aproximando e estendendo a mão para o cós do jeans de Harry de onde tirou a varinha e a levantou na altura dos olhos do menino. – De agora em diante, quando alguém desconhecido se aproximar você vai ficar completamente alerta. Entendeu?
- Sim. – Respondeu Harry pegando a varinha.
- Sim o que?
- Sim senhor, pai.
- Que bom, vamos.
Harry ainda estava temeroso e Snape achava cada vez mais que aquela história estava mais e mais absurda, ele deveria estar enlouquecendo. Quase deu meia volta e levou o menino para dentro,mas o tamanho do sorriso de Harry o desarmou impedindo que se arrependesse de algo. Era um sorriso carente e inocente de um menino que estava sendo levado para as ruas para passear embaixo de um sol fraco ao invés de ficar em casa limpando-a ou trancado no quarto. Era um sorriso puro que jamais tivera a chance de colocar em seu rosto e que lhe trazia até mesmo um pouco de inveja. Queria poder sorrir assim.
- O que foi? – Perguntou Harry tirando Snape de seus devaneios.
- Nada. – Respondeu o professor virando o rosto. – Vamos aparatar ali na frente.
- E onde vamos? – Perguntou Harry ao pararem longe dos olhares curiosos dos vizinhos.
- Vou fazê-lo conhecer a antiga Londres. – Disse Snape com um sorriso torto bem típico de si. – A minha Londres.
Sim, Harry tinha que confessar que estava se divertindo. Por mais incrível que parecesse, estava gostando de passear juntamente com Snape, principalmente com a poção polissuco ainda fazendo efeito. Poderia dizer que era outra pessoa ao seu lado nas ruas enquanto caminhavam em direção ao próximo museu. Harry jamais gostara de museus, mas não tinha coragem de contar isso ao homem quando ele lhe disse que iriam visitar alguns, mas naquele dia estava adorando ficar andando entre coisas antigas e curiosas tendo Snape ao seu lado narrando todos os acontecimentos como um verdadeiro professor. Principalmente pelo fato de que Snape também lhe levara a lugares que jamais imaginara conhecer, como bares que já fecharam onde já se sentaram pessoas muito importantes para beber uma cerveja antes de tomarem uma decisão que talvez mudasse o rumo da história inglesa, ou em alguma rua que contava fatos surpreendentes tanto sobre trouxas como bruxos.
Snape também não podia negar que estava muito mais fácil deixar-se livre enquanto estava no corpo de outra pessoa. Ele até mesmo sorriu em um momento em que Harry entrara em um túnel escuro que contava a história das guerras trouxas, principalmente as da segunda guerra mundial, os olhos verdes do menino estavam tão arregalados e impressionados que chegavam a ser bonitos de se ver. A sede de informação atingia Snape fortemente e o fazia se lembrar quando estivera ali, naquele mesmo lugar olhando para o mesmo arsenal de guerra que ele, sempre sedento de informação, sempre atento em cada detalhe da história, porém sem ninguém para lhe dizer que não deveria debruçar-se muito para dentro do tanque, pois poderia cair assim como acabara de fazer com Potter impedindo que o menino acabasse se machucando. Harry machucado não foi um pensamento que lhe agradou muito. Na verdade o deixou desconfortável.
Harry arregalou os olhos, mas não falou nada quando uma senhora se aproximou e disse que os dois eram perfeitos para fazer parte da lista de mais bonitos pais e filhos daquela semana.
- Não, obrigado. – Disse Snape sem pensar.
Ao virar-se para Harry após dispensar a mulher que continuara a tentar fazê-lo se inscrever no programa, o viu com olhos arregalados e com tremor a lhe passar no fundo de suas íris. Harry olhava para um quadro que estava do outro lado daquela sala do museu.
- Potter?
Harry não respondeu, apenas apontou para o quadro e Snape seguiu sua mão aproximando-se mais do quadro e lendo os nomes dos inscritos no programa a qual a mulher tentara convencê-lo a se inscrever. Leu de baixo para cima, do menos votado até o mais votado e soltou um xingamento baixo quando leu o primeiro lugar.
Valter Dursley e Dudley Dursley.
- Ora ora se não é o desgarrado do Potter.
Os pelos da nuca de Harry se eriçaram quando ouviu aquela voz tão perto de si. Snape virou-se rapidamente e olhou para trás de si com tanta raiva que era possível sentir no ar a sua tensão. Devagar virou o corpo e se deparou com um sorriso conhecido e temeroso. Um sorriso que antecipa o riso grotesco de seu algoz. Os olhos azuis o olhavam com determinação e repletos de algo mais forte, mais intenso.
- Então nos encontramos novamente.
Harry tremeu. Tio Valter estava parado na sua frente com os braços cruzados e raiva brilhando em sua aura. Naquele momento Harry só conseguiu pensar em uma única coisa para fazer, uma única pessoa para chamar.
- Pai!
N/A:
Olá meninas, não demorei muito para vir postar o outro capítulo, espero que gostem mesmo... bjusss
Daniela Snape: Minha fiel leitora, fico sempre muito feliz de ver que não me abandonou... up up up
Dels76: Pois é, o morcegão ficou cheio de remorso por ter machucado Harry e foi ajudá-lo. Pois é, esse relacionamento vai se estender com altos e baixos intensos... os dois vão aprender um com o outro, não que será uma coisa fácil, vai ser trabalhoso, mas os dois vão aprender um com o outro ainda.
Cheyenne: Pois é, exatamente por não ter tido um exemplo que preste Snape tenta ser o melhor para o menino. A vizinha não irá ficar com Harry, respeitando o pedido da menina que dita o que deve tyer ou não, o romance de Harry será uma surpresa também.
