Assim como em A Lenda, estou mega atrasada para o trampo, então não poderei responder cada review, mas agradeço 22, Countess of Slytherin, dels76 e Daniela Snape... pelos maravilhosos reviews de cada uma... valeu mesmo e espero que gostem desse capítulo
Desculpem os erros... bjussss
Capítulo 13 – Um pouco de meu passado
O barulho da porta batendo reverberou por alguns segundos na casa silenciosa, Harry escondeu o rosto nos joelhos abraçando suas pernas com mais força e esperou. A espera era cruel, pois trazia consigo o medo de que acabasse ficando ali naquela sala sozinho, medo de que ele não descesse, que não quisesse...
"Quisesse o quê?" Se perguntou Harry. Aprofundar o relacionamento estranho que tinham? Desabafar sobre seu passado com o menino que sempre fora um martírio para si? Que patético!
- Como você é idiota, Harry Potter. – Disse Harry começando a se balançar enquanto tentava conter a dor estranha que se iniciava em seu peito.
A verdade era que por mais louco e esquisito que fosse aquilo, queria se dar bem com Snape. Com certeza Rony e Hermione o chamariam de maluco, mas não podia negar a si mesmo que desde aquela noite em que o professor o levara da casa de seus tios sentira com ele algo que jamais sentira com outras pessoas, nem mesmo com Sirius ou Lupin. Era um sentimento de segurança, como se o homem fosse um porto seguro. E talvez fosse mesmo, afinal, ele o levou da casa de seus tios quando estava quase morto, o cuidou, o sarou e o abraçou quando a dor era demais. Tudo isso sem ter a obrigação de cuidar do filho de seu amigo. Ele cuidou e protegeu o filho de seu inimigo.
Como não sentir algo por alguém assim? É quase impossível. E depois tiveram os dias em que sentiu raiva dele, não por ter que ficar naquela casa fria, preso até que as aulas começassem, mas por que ele não aparecia, não lhe fazia companhia, o abandonara como todos os outros. Foi então que inexplicavelmente ele surgiu e mandou chamá-lo de pai. Harry lembrou-se nitidamente da raiva que sentiu, não por isso ferir a memória de James, mas por ter sentido, quando estava de cama se recuperando dos cuidados de seu tio, que finalmente achara alguém em quem poderia se apoiar, que toda a dor fora embora e então passar dias sem vê-lo ou falar com ele. Os machucados em suas costas e braços não eram nada se comparados com o medo de seu possível engano.
Mas tudo, enfim, mudou.
Snape mais uma vez o surpreendeu cuidando dele, mostrou aos poucos que estaria ali. Ainda tinha medo, claro, ele poderia ir embora a qualquer momento. Não queria chamá-lo de pai pelo medo de se apegar demais e formar em sua mente a figura de um homem que estaria ali para sempre com ele somente para depois ir embora. A perda de seu pai, que nem ao menos fizera parte de seu crescimento, já era cruel. A perda de alguém que cavou em sua alma um canto para se instalar e o fez ter fé em um laço fraternal intenso era devastador.
O tempo continuou a passar, os minutos voaram enquanto Harry continuava se balançando no sofá agarrado a suas pernas e com o rosto escondido. Ele não viria. Uma dor atravessou seu peito quando entendeu que aquele sentimento que crescera em si não era recíproco. Snape não procurava um filho como ele procurava um pai.
Que idiota. Pensara Harry novamente antes de desistir e levantar o rosto. Quando seus olhos se abriram o menino sentiu a sensibilidade da luz clara que iluminava a pequena sala, piscou um pouco e demorou para perceber a figura a sua frente. Quando sua visão focalizou completamente percebeu que Snape estava sentado na poltrona a sua frente, suas pernas estavam cruzadas e seus dedos entrelaçados em cima de seu colo, os olhos negros o observavam com atenção, mas não transpareciam nenhum sentimento negativo, apenas uma pequena paciência e curiosidade.
- Há quanto tempo você está ai?
- Tempo o suficiente para me perguntar se tinha me chamado para assisti-lo se derreter em auto piedade.
- Não estava me derretendo em alta piedade. – Respondeu Harry com um tom agressivo em sua voz.
- Então o que estava fazendo? – Perguntou Snape levantando a sobrancelha.
- Pensei que você não viria. – Respondeu Harry baixinho abraçando novamente as pernas e apoiando o queixo nos joelhos. – Fiquei com medo.
- Por que isso é tão importante para você? – Perguntou Snape sem se mexer e ainda o observando atentamente.
- Não sei, mas é. Eu quero conhecer você e sei que você precisa dizer algumas coisas, provavelmente tem muitas coisas que nunca disse a ninguém. Eu sou um bom ouvinte, sempre escutava Rony e Hermione sobre suas brigas.
- Por que acha que vou te contar minha vida? O que te faz ter tanta certeza?
- Porque você precisa. Eu sei disso, eu também precisava. Eu também tinha segredos e eles pesavam.
- Está querendo dizer sobre seus tios?
- Sim. – Respondeu Harry engolindo a saliva acumulada. – Ninguém sabia, eu jamais contei a alguém o que me acontecia e meu tio tinha o cuidado de não me bater quando estávamos perto de eu voltar para a escola, assim em não ficava com marcas.
- Por isso nunca percebemos nada de errado. – Disse Snape falando mais para si do que para o menino.
- Eu também era cuidadoso, não queria que as pessoas tivessem pena de mim, não queria parecer fraco.
- Você era uma criança, ainda o é, não tem que se sentir fraco com nada, nem receoso. Aquilo jamais deveria acontecer...com ninguém.
- Sinto muito.
- Pelo quê?
- Pelo que você passou. Também não deveria acontecer com você, não merecia. Tenho certeza que não deve ter sido fácil, eu ainda me lembro das imagens que vi na sua -me por ter visto.
- Imagino que deve ter se divertido com seus amigos contando sobre isso. – Disse Snape com uma voz ácida.
- Eu nunca contei a ninguém. – Respondeu Harry arregalando os olhos de surpresa. – Jamais contaria.
Snape não respondeu, apenas o olhou por um momento pensando nas reações surpresas e indignação na voz do menino ao cogitar que ele havia contado o que vira. Sempre pensara que o menino tinha voltado para seu dormitório e contado o acontecido aos seus amigos, naquela época até passou a noite em claro imaginando-os sentados na frente da lareira da sala comunal rindo sobre sua humilhação.
- Era o seu pai, naquela lembrança? – Perguntou Harry tentando voltar a conversa.
- Sim, era o sempre gentil e amável papai.
Sem falar nada Harry se levantou e foi para a cozinha, Snape franziu a testa em claro desentendimento sobre o que ele faria, mas logo compreendeu quando Harry apareceu com uma bandeja e duas xícaras fumegantes. O menino apoiou a bandeja na mesa, pegou uma xícara e entregou para o homem, depois pegou outra para si e sentou-se no sofá novamente.
- O que é isso? – Perguntou Snape olhando para a bebida.
- É chocolate quente. Nunca tomou?
- Nunca tive interesse por bebidas doces, prefiro algo mais forte.
- Chocolate quente é bom para uma conversa, pelo menos Sirius sempre me disse isso.
Harry baixou a cabeça olhando para sua xícara, sem querer demonstrar o quanto falar de Sirius mexia consigo, levou a bebida até a boca e tomou um pequeno gole. Snape apenas o observava enquanto segurava em sua mão algo singelo e que ao mesmo tempo causava em si uma sensação estranha de acolhimento. Ninguém nunca fez chocolate quente para ele, muito menos só para que ele se sentisse bem. Aceitando seus instintos e desejos, levantou-se da poltrona e se sentou ao lado do menino.
- Eu não me lembro muito da minha infância. – Começou Snape fazendo Harry erguer os olhos surpreso. – Acho que bloqueei muita coisa que aconteceu.
Harry sentiu como se tudo tivesse parado, Snape estava ao seu lado contando sobre sua vida e tomando chocolate quente. Ávido por saber mais o menino se arrumou no sofá ficando sentado com as pernas dobradas e virado para o homem olhando-o atentamente.
- Mas me lembro da voz grossa dele, seu cheiro de cigarro e álcool impregnado na pele suada. Ele era trouxa, minha mãe era jogadora de Quadribol de um time famoso, mas largou tudo para se casar com Thobias Snape. Eu nasci em uma vila trouxa e vivi como um trouxa durante anos. Acredito que no inicio Thobias amasse minha mãe, mas depois que nasci ele perdeu o interesse, porém estava preso a ela pelo laço matrimonial. – Harry havia levado a xícara até sua boca, mas não conseguia beber nada, estava muito interessado na história contada pelo homem que aparentava estar perdido em pensamentos. – Thobias sempre achou que minha mãe conseguiria fazer com que fosse rico devido ela ser bruxa. Quando se casaram ele saiu do emprego que tinha e entrou em dívidas enormes. Ao descobrir que não poderia ser rico, pois não podemos conjurar dinheiro, ele descontou em minha mãe. Sua raiva só aumentou com os anos devido o desemprego, o filho que nascera e a depressão de minha mãe. Não me lembro, mas sei que meu primeiro registro médico após o nascimento foi quando tinha um ano e dois meses. Meu braço foi quebrado.
Harry não conseguiu mentir mais, largou a xícara na mesa de centro e olhou horrorizado para Snape. Um ano e dois meses, apenas um bebê inocente que nem ao menos sabia o que estava acontecendo. Sem perceber chegou mais perto do homem que não se mexeu, apenas continuou em seus devaneios.
- Minha infância não foi muito melhor do que isso, mas não me lembro de muita coisa. Alguns gritos, dores, lágrimas, minha mãe com medo e Thobias rosnando. Minha mãe morreu de desgosto logo depois que eu terminei Hogwarts e consegui me virar sozinho. Ela achou que eu estaria bem sozinho, mas eu já tinha me envolvido com as pessoas erradas. Depois que sai de casa nunca mais voltei.
- Mas você o viu novamente. – Disse Harry baixinho inclinando-se na direção do homem. – Não foi?
- Vi. – Respondeu Snape virando o rosto e encarando o menino. – Ele constituiu outra família com uma mulher trouxa que lembrava muito minha mãe. Dessa união saíram dois filhos, um morreu quando ainda era um bebê com traumatismo craniano devido uma queda. Foi relatado pela mãe que fora acidental, mas Thobias fora o verdadeiro culpado. – Harry viu uma sombra profunda atravessar os olhos do homem, como se as lembranças daquele fato o afetasse intimamente. Pensando bem deveria mesmo, aquela criança era seu meio irmão. – Quando o encontrei eu já era um comensal, havia acabado de entrar para o ciclo do Lord das Trevas, minha marca era recente. Eu estava com ódio e cheio de ilusão sobre poder. Ele foi a primeira pessoa que eu matei.
Harry se remexeu no sofá, de uma forma estranha ouvir que Snape matara seu pai não era surpreendente e nem que já havia matado mais pessoas. Apesar de o bom senso indicar que o certo seria afastar-se de alguém marcado como ele, Harry só sentia mais e mais necessidade de se aproximar. O menino estava tão interessado nas palavras de Snape que nem ao menos percebeu que o tempo ensolarado mudara para um tempo chuvoso com ventos fortes, só se deu conta disso quando o vento entrou pela janela e acertou seu corpo causando-lhe arrepios que o fizeram se encolher. Snape virou o rosto rapidamente e o olhou com cuidado.
- Não vou machucar você. – Disse calmamente. – Não serei como meu pai. Não se preocupe.
- Não estou preocupado. – Respondeu Harry que demorara a entender que Snape havia tomado seu encolhimento como uma reação ao fato de ser um assassino. – Eu confio em você, só estou com frio.
- Você confia em mim? – Perguntou o homem surpreso.
Harry esquecera-se do frio e dos arrepios ao ver uma fragilidade tangível nos olhos negros. Snape parecia uma criança que procurava desesperadamente um alguém para se agarrar, alguém que o protegesse de sua própria escuridão. Era como se jamais tivesse a chance de perguntar isso para alguém e visse em Harry a única oportunidade existente.
- Confio.
Parecia surreal, mas quando o homem voltou seu rosto para frente novamente Harry jurara ter visto um reles sorriso torto e sincero nascer em seus lábios finos.
- E seu irmão?
- Meio irmão.
- Tudo bem, meio irmão. O que aconteceu com ele?
- Não sei. Não o vi desde o dia em que matei Thobias. Daquele dia em diante eu segui meu caminho nas fileiras do Lord até perceber que aquele não era o caminho certo e pedir ajuda para Dumbledore.
Um silêncio se instalou na sala quando Snape terminou de relatar sua vida. Depois de alguns minutos Harry estendeu a mão e com receio a postou em cima da de Snape fazendo-o erguer as sobrancelhas e o olhar. Não houve palavras, não era necessário, eles sabiam que naquele exato momento nascia um laço fraternal entre os dois, um que futuramente se provaria mais forte que qualquer vínculo de sangue.
