Olá Pessoal, desculpem a demora em postar, mas o tempo é curto demais... ainda assim aqui está mais um capítulo...
Quero agradecer a inthedungeons, Countess of Slytherin, dels76, Daniela Snape pelos maravilhosos reviews... vocês são demais... bjussssssssss
Capítulo 14 – Filho
As xícaras jaziam esquecidas na mesinha em frente enquanto o homem de cabelos negros ouvia atentamente o menino lhe contar sobre sua infância na casa dos tios. Na verdade não havia muito a ser dito, não tinham muitas histórias para ser contada, apenas a mesma coisa de sempre, o armário sob a escada, Duda o fazendo de saco de pancadas e a solidão na escola primária. Harry já havia contado na noite anterior sobre seus tios e os carinhosos cuidados que recebia, então agradeceu Snape por não lhe fazer perguntas sobre isso, era difícil recordar os momentos em que era espancado pelo homem que deveria protegê-lo.
Snape sempre fora um bom ouvinte, lembrava-se de ficar sentado ao lado de Lilian ouvindo-a falar sobre as aulas que não dividia com ele. Muitas vezes a menina nem o deixava respirar e emendava algum outro fato que achava ser interessante. Snape sempre ouvia mesmo que muitas vezes não tivesse o que dizer assim como quando Harry lhe contara sobre a cobra no zoológico, os Weasleys invadindo a casa de seus tios e deixando-os loucos. Por dentro o professor sentia uma tremenda vontade de rir, mas era uma vontade tão estranha que preferiu ignorá-la.
- Já é hora do almoço. Você precisa se alimentar. – Disse Snape após ouvir a barriga do menino roncando.
- Não percebi o tempo passar tão rápido. Vou preparar o almoço.
Harry se levantou e foi para a cozinha, rapidamente colocou uma panela no fogo com água para ferver e passeou pelos armários procurando temperos na geladeira, encontrou carne e frango que serviriam para fazer a mistura.
- Sabe que não precisa fazer isso. – Disse Snape se aproximando.
- Eu sei. – Respondeu Harry começando a lavar o frango. – Mas eu quero, me sinto meio inútil sem fazer nada.
- Estou confuso, Potter. Disse-me que não gostava de fazer as coisas na casa de seus tios.
- É diferente. – Disse Harry lavando a mão e se virando para encarar o homem de braços cruzados. – Lá eu era obrigado a fazer, fazia tudo abaixo de ameaças, se não fizesse apanhava e ficava sem comida. Agora não, estou fazendo porque eu quero fazer. É gostosa a sensação.
Snape não respondeu, apenas balançou a cabeça e indicou que estaria no laboratório. Harry assentiu e voltou sua atenção para o frango. Quando tudo estava pronto Harry ficou indeciso se chamava Snape ou não, sabia que era proibido entrar no laboratório sem permissão, mas estava gostando tanto de ter alguém para conversar que desejava que o professor não tivesse saído da cozinha. Com receio bateu três vezes na porta do laboratório e esperou. Depois de alguns segundos ouviu a voz arrastada indicando que poderia entrar.
O laboratório de Snape ficava no subsolo da casa, era preciso descer uma escada de madeira para chegar até lá. Harry andou devagar, o local era escuro se comparado com o restante do lugar. Havia bancadas com no mínimo cinco caldeirões ferventes, as paredes eram abarrotadas de vidros com coisas estranhas e ingredientes raros. O ar estava esfumaçado e quase não se conseguia ver muita coisa, não havia janela, mas o local era encantado para ser frio e ventilado.
- Sna...pai? – Chamou Harry.
- Estou aqui. – Disse a voz guiando Harry até o final do laboratório onde Snape estava.
O homem estava debruçado sobre um livro lendo alguma coisa que o fazia se concentrar muito e mexia o caldeirão ao lado com a mão livre. Harry não queria atrapalhar, sabia que qualquer descuido seria suficiente para estragar algo que as vezes demorava mais de um mês para ficar perfeito mesmo desconfiando que Snape era capaz de preparar a melhor e mais difícil poção que existisse ainda que estivesse conversando com três pessoas ao mesmo tempo. Tentando não fazer muito barulho se sentou em um banco e apenas aguardou. Snape mexeu o caldeirão mais algumas vezes, acrescentou algum pó de alguma coisa e uma espinha de outro troço que Harry nem se daria ao trabalho de perguntar.
- Fale. – Disse Snape quando finalmente desviou o olhar do livro e da poção e o olhou.
- Nada demais, só queria avisar que o almoço está pronto. – Disse o menino sem jeito, ainda não sabia como agir ao lado de Snape. Tentava agir da maneira mais leve e normal possível.
- Tudo bem, vou daqui a pouco.
- Certo. – Respondeu Harry sem se levantar.
Os olhos de Harry vagaram pela poção que Snape estava fazendo, era verde clara e naquele momento borbulhava a fogo baixo. Estava louco para perguntar o que era aquilo, mas não queria ultrapassar uma possível linha invisível de limite.
- Potter, se quer perguntar alguma coisa pergunte, mas não fique me rondando.
- Não é nada. – Respondeu Harry. – Vou subir.
Harry escorregou do banco e saiu do laboratório deixando Snape terminar o que tinha que fazer. Quando o homem apareceu na cozinha Harry estava sentado brincando com a comida que havia colocado no prato.
- É falta de educação brincar com a comida, Potter. - Harry deu um resmungo e colocou a comida na boca.
Snape percebeu que o menino estava nitidamente incomodado com alguma coisa, mas preferiu não perguntar, apenas se sentou e pegou um pouco da comida levando o garfo até a boca. Realmente o frango estava muito bom, não podia negar. Harry ainda mexia em sua comida quando terminou seu almoço. Resolveu não se incomodar com isso, tinha as encomendas de poções para terminar.
- Vou voltar para o laboratório. Faça seus deveres. Pode me chamar, mas só se for algo importante. Entendeu, Potter?
Harry resmungou novamente e viu o homem se trancar novamente no laboratório. Após ele sumir de vista Harry se levantou e começou a lavar a louça do almoço tentando imaginar o que o deixava tão incomodado. Foi somente dois dias depois que descobriu o que o deixava tão irritado e triste.
- Potter!
Os olhos verdes do menino piscaram e olharam para o homem que estava parado em pé ao lado do sofá. Seu nome ainda reverberava em sua cabeça. Potter, Potter, Potter. Antes era tão interessante ser chamado assim, na verdade ainda era, porém esse nome na língua de Snape era como um veneno que era destilado a cada frase. Era um nome da qual o homem tinha nojo e ódio. Entendeu que o que o incomodava esse tempo todo era ele ter se acostumado a chamar Snape de Severus ou de pai e ainda ser chamado pelo sobrenome de sua família paterna.
Olhou para Snape e o imaginou proferindo as palavras Harry e filho. Ficaram legais em sua imaginação, cabiam perfeitamente no vocabulário do homem e lhe traziam uma sensação tão gostosa de reciprocidade. Jamais fora chamado de filho, nem mesmo Sirius o chamava assim, era só Harry, simplesmente Harry.
- Eu nunca disse a ninguém. – Começou Harry quando Snape abriu a boca mais uma vez. – Mas eu tenho tanta inveja do Rony.
- Seu amigo Weasley? É difícil de acreditar. – Respondeu Snape.
- Não é não. – Harry largou a pena que usava para fazer os deveres e se recostou no sofá. As conversas fluíam muito mais fáceis agora. – Rony é pobre, eu sei, ele usa as roupas velhas dos irmãos e só conseguiu uma vassoura antiga porque se tornou monitor e ainda com muito esforço do senhor e da senhora Weasley. – Snape se sentou na poltrona ao lado do sofá em que o menino estava. – Mas ele sempre teve um pai que o chamava pelo nome, mesmo que fosse para brigar, ou então que o chamava de filho.
Harry parou de falar e sentiu um nó na garganta. Após começar essa doida amizade com o temido professor de poções seus sentimentos ficavam sempre a flor da pele. Eram tantas primeiras vezes que o deixavam confuso e os sentimentos controversos gritavam dentro de si indicando claramente que não sabia como agir. Como na noite anterior quando Snape fora ao seu quarto e retirara de sua mão o livro que estava lendo e o mandara dormir, a princípio sentiu-se com raiva e reclamou até que Snape deu um basta em suas reclamações o deixando com o rosto vermelho, queria muito continuar lendo sobre os times de Quadribol dos outros países do mundo. Porém no dia seguinte ao acordar sentiu-se completamente descansado e, com a cabeça fria, percebeu que aquela fora a atitude certa a ser tomada, realmente não deveria ler até tão tarde, precisava dormir bem para no dia seguinte não sentir o corpo pesar de sono. Foi ali que realmente percebeu a diferença entre o cuidar e o obrigar. Snape não estava querendo que ele fosse dormir simplesmente porque queria, ou porque a luz acesa o incomodava, era somente porque era o certo. Era o que seu pai faria se estivesse vivo.
- Potter, fiquei comovido com a história de seu amiguinho, mas agradeceria se dissesse aonde quer chegar com essa história.
- Quero que me chame de filho! – Disse Harry escondendo o olhar e sentindo as bochechas ficarem vermelhas.
- Por que não disse antes? – Perguntou Snape calmamente.
- Não sei.
Snape suspirou.
- Po...Harry. – O menino virou-se rapidamente ao ouvir seu nome. – Tudo isso é novo para os dois, eu realmente quero tentar, mas será muito difícil com você escondendo as coisas e se enfurecendo sempre que estiver confuso.
Harry assentiu e respirou fundo. Acabava sempre melhor depois que Snape o fazia desabafar o que o incomodava, talvez se acostumasse com isso e conseguisse falar as coisas com mais facilidade.
- Você vai me chamar de filho?
- Posso trabalhar nisso. Mas agora você tem que se preocupar em quando irá ao Beco Diagonal. Suas férias acabam em alguns dias.
Harry pegou o envelope que Snape lhe passou e viu os livros daquele ano. Seu sorriso aumentou conforme via um pergaminho grosso que vinha atrás.
- Eu...eu serei...
- O capitão do time de Quadribol da Grifinória.
- Você sabia?
- Claro, sou professor daquela escola. Participo das decisões, mesmo que minha opinião referente a você ser um péssimo aluno não conte quando Minerva está com uma ideia fixa na cabeça.
- Não acredito.
- Isso veio junto. – Retirou um broche do bolso da calça. – Parabéns, filho. – Completou sem jeito.
Snape nunca vira os olhos do menino brilharem tanto e nem um sorriso tão aberto naquele rosto jovem. Por um momento pensou que ele fosse se atirar em seus braços, internamente queria que aquilo acontecesse, mas o medo do desconhecido era grande demais. Harry ainda ria abobado olhando o broche em suas mãos.
- Preciso escrever cartas para Hermione e Rony.
- Não será necessário. Você os encontrará amanhã quando for ao Beco Diagonal comprar seus materiais com os Weasley.
- Você não vai junto? – Perguntou Harry desmanchando o sorriso.
- Seria muito difícil explicar porque eu estava junto de você.
- Não seria não. Você é da Ordem da Fênix. Pode dizer para Voldemort...
- Não diga o nome dele. – Pediu Snape fechando os olhos momentaneamente.
- Desculpe, mas você poderia dizer a ele que estava me acompanhando a mando de Dumbledore. Ninguém vai desconfiar se você estiver comigo.
- É tão importante assim que eu vá junto com você?
- É mais uma primeira vez.
Snape franziu a testa, mas não teve tempo de pensar em uma pergunta. A campainha de sua casa fora tocada. Alguém estava a porta e Snape não esperava visitas.
