Olá gente, desculpem a demora em postar, mas cá estou com mais um capítulo para que possam desfrutar...
Quero agradecer Daniela Snape e Marcya pelos reviews... meninas valeu mesmo pelos comentários, isso me anima a não parar de postar...
Bjusssssssss
Capítulo 21 – Eu vou embora
Harry sentiu que estava viajando em grande velocidade, pois seus olhos viam somente borrões, coisas difusas e confusas, imagens que não queria ver nem ter conhecimento, mas que agora estavam gravadas em sua mente. O vermelho resplandecente dos cabelos de sua mãe voando solto pelo vento no parquinho diante de sua casa quando criança ou no campo de quadribol vendo a Grifinória voar em suas vassouras, viu o sorriso puro que nasceu em seus lábios em momentos diversos e intensos em que sua inocência reverberava pelas paredes do castelo. Queria se lembrar do verde de seus olhos estendendo-se pelo jardim de sua bela casa onde brincava quando criança.
Queria tanto.
Mas só conseguia se ver diante do negro que eram os olhos de Snape sempre o olhando de longe, escondido. O negror de sua alma que por um momento chegou a ser atingido pela alvidez da alma de sua mãe, mas que não se deixou ser invadido por sua bondade. O negror que o levou a contar ao Lord o que ouvira sair da boca da mulher que fazia a entrevista com Alvo Dumbledore no imundo Cabeça de Javali.
Harry respirou fundo sentindo-se doente com as imagens que ainda jorravam em seus olhos. Verdades e mentiras, mortes e proteções. Viu-se em vários flashs intensos que passaram rapidamente, assistiu os negros olhos atentos sobre si, preocupados, atenciosos quanto a cumprir uma promessa de culpa.
Era demais.
Quando voltou para o escritório do professor de poções, viu que não havia ninguém ali na sala junto com ele. Snape ainda estava isolado em algum lugar onde Harry provavelmente não saberia onde era. E na verdade não queria saber, não tinha a menor ideia do que acabaria fazendo ao vê-lo entrar pela porta naquele instante. Era melhor ficar quieto, por isso deu dois passos para longe da mesa e se sentou no chão encostando as costas em uma prateleira de livros, seus olhos atentos a bacia de pedra que lhe contara o que queria saber, mas que não deveria saber.
Snape só voltou para o escritório uns trinta minutos mais tarde quando achara que Harry já fora embora. No dia do jogo, quando viu o que o menino havia feito a Malfoy, ficara bravo, mais por ele ter o desobedecido do que pelo ato em si. Harry deveria ter obedecido suas ordens, pois isso é o que fazem os que se importam. Mas Harry Potter sempre fugiu a regra, nenhuma lei era suficientemente forte para impedi-lo de fazer o que queria fazer, o que achava certo e correto. Naquele dia a decepção caiu sobre seus olhos, estava decepcionado e até mesmo triste, mas nada que o fizesse castigá-lo cruelmente. Iria dar-lhe uma detenção de uma semana e um pouco de gelo para fazê-lo entender o que fizera. Mas então o menino tinha que abrir a boca e lhe falar o que estava guardado no fundo. Aquelas palavras que só falamos quando estamos fora de nosso controle.
"Você não sabe amar".
Como ele se atrevia a dizer aquilo na sua cara, depois de tudo que fizera para Lilian? Depois de toda a proteção que dera ao menino, após sua louca preocupação com o bem estar dele, com a sua felicidade e logo após descobrir que no fundo sentia...
Seus pensamentos foram interrompidos quando entrou no escritório. O brilho da penseira pintava o teto do recinto brincando de tremeluzir sua imagem deixando-a grotescamente bonita. Seus olhos negros vagaram pela luz parando sobre a própria penseira onde estavam suas lembranças que retirou para sua mente ficar mais leve. Ela deveria estar dentro do armário, mas estava em cima de sua mesa e isso só poderia significar uma coisa.
- Potter? – Chamou fechando a porta atrás de si. Ninguém respondeu.
Snape deu dois passos para frente e aguardou, estava tudo silencioso e calmo como se não houvesse ninguém mais além dele próprio, porém Snape sabia que ele estava ali, podia senti-lo.
- Harry? – Chamou novamente e aguardou o silêncio de novo.
Desta vez o silêncio foi quebrado por um soluço escondido atrás de sua mesa. Devagar a contornou e se deparou com Harry sentado no chão, seus braços estavam abraçando as pernas e seu rosto estava abaixado, escondido.
- Harry? – Chamou Snape novamente dessa vez com apenas um sussurro.
Devagar o homem se abaixou ajoelhando-se perante Harry e aguardou que o menino lhe respondesse. Quando não houve resposta o professor apenas ergueu o rosto dele e se assustou com o quão destruído ele estava. Sua pele alva estava vermelha e coberta com as lágrimas que desciam sem pudor até seu pescoço. Os olhos verdes sempre tão vivos estavam agora apagados, vazios como um teatro após o término de uma peça.
- Filho, o que houve? – Perguntou Snape sentindo o peito comprimir com a preocupação.
- Não me chame de filho. – Disse Harry entre os dentes se levantando.
Por um momento Snape permaneceu ajoelhado no chão com a mão que segurava o rosto do menino levantada no ar como se Harry ainda estivesse ali, mas não estava. Harry estava em pé ao seu lado, quebrado e vulnerável, entregue a fúria dos enganados. As lágrimas ainda caiam em sua roupa enquanto chorava copiosamente olhando-o com firmeza.
- Eu vi. – Disse Harry afastando-se quando o homem se levantou. – Eu vi tudo, eu sei tudo.
- Harry, se acalme.
- Não vou me acalmar. Você mentiu para mim.
- Não menti.
- Mentiu sim.
- Não, eu não menti. – Disse Snape baixinho andando pé ante pé em direção ao menino. – Eu jamais lhe falei sobre seus pais, nem sobre o Lord ou a profecia. Não posso mentir sobre uma coisa que nunca falei.
- Mas não desmentiu! – Gritou Harry empurrando uma cadeira que caiu com estrondo no chão. – Foi você, foi tudo culpa sua. Ela estaria viva se não tivesse dito nada. Ela estaria viva.
- Eu sei disso, Harry, não sabe como me arrependo disso a cada dia da minha vida. – Sussurrou Snape levantando a mão e chegando mais perto dele.
- Você mentiu. Como todo mundo, você mentiu. Me usou, me traiu. Eu não sou nada para você, por que se eu fosse você teria me contado.
- Tente me ouvir. – Pediu Snape, uma ponta de suplica escapando pela sua língua. – Eu era jovem, apaixonado e sozinho. Só queria ter um lugar em que me encaixasse. Eu não sabia o que ele faria, não sabia quem escolheria, se soubesse eu jamais... Jamais...Harry, por favor.
- Não encosta em mim. – Disse Harry se afastando da mão erguida e se postando do outro lado da sala.
- Eu estava enganado sobre você. – Disse o menino olhando-o com raiva. – Você sabe amar sim.
Snape virou o rosto apenas alguns centímetros e ficou olhando pelo canto do olho o menino respirar fundo algumas vezes como se tentasse dizer alguma coisa que não queria sair.
- E é isso que te torna pior. Nem mesmo o amor te impede de matar. Eu não quero mais ver você.
- Harry, não, por favor, me escute. – Pediu Snape se aproximando rapidamente e pegando-o pelos braços. Tente me ouvir.
- NÃO! Não quero te ouvir, quero ir embora daqui, quero ficar longe de você e nunca mais olhar para sua cara.
- Você não vai. – Rosnou Snape.
- E o que vai fazer? Me prender, me bater até sair a pele e ficar em carne viva? Pode fazer, eu já estou acostumado com isso.
Snape soltou o menino imediatamente como se temesse seu contato e olhou com olhos indecifráveis, aprecia um misto de angústia e medo.
- Eu disse que nunca mais iria machucá-lo. Não vou fazer isso. Não quero que vá embora, mas não vou impedir se quiser mesmo ir.
- Pois é o que eu farei. Vou embora e não vou voltar. – Disse Harry agora tão raivoso que seu rosto se transformava em algo muito parecido com Voldemort, algo ruim e cruel. O menino ergueu a varinha e apontou para o homem que não se mexeu.
- Não venha atrás de mim, me esqueça ou juro que te amaldiçôo para o resto de sua vida medíocre, Severus Snape.
Harry passou por Snape esbarrando em seu ombro e saiu porta afora quase correndo. Queria distância daquele homem, o falso que o iludiu. Tudo mentira, provavelmente um plano para segurá-lo até completar seus dezessete anos e depois, tomado pela confiança, levá-lo até o Lord pela sua própria vontade.
- Harry, o que aconteceu? – Perguntou Hermione preocupada vendo o menino entrar na sala comunal como um furacão e ir direto para seu quarto.
Rony e Hermione trocaram um olhar assustado e correram escada acima encontrando Harry no pé de sua cama remexendo em seu malão, derrubando todas as roupas no chão e espalhando livros.
- Harry, o que está fazendo? – Perguntou a menina já com tom desesperado. Harry estava lhe causando medo.
- Acabou, a farsa acabou. Ele mentiu para mim esse tempo todo. – Gritou Harry retirando do meio das roupas uma bela veste vermelha de quadribol com seu nome gravado nas costas. Era a capa que todos os alunos cobiçaram. Era única e bonita e naquele momento estava nas mãos de um Harry raivoso.
- O que vai fazer? Para com isso, cara. – Disse Rony colocando Hermione atrás de si ao ver o amigo com a varinha nas mãos. – Você está descontrolado.
- Eu, descontrolado? – Riu-se Harry sarcasticamente. – Não, é claro que não. Eu só descobri que Snape era mais importante para mim do que imaginei e que ele me protegeu e cuidou de mim desde que minha mãe morreu e que ela era o amor da vida dele. Sim, eu descobri uma coisa. Descobri que o homem que eu comecei a amar e confiar como um pai é o verdadeiro motivo de eu não ter pais. Foi ele, ele causou a morte de meus pais.
- Harry, pare um pouco. Você deve estar cansado e confuso. – Disse Hermione já quase chorando. – Vamos sentar e conversar.
- Não, Hermione, eu preciso fazer isso. Eu tenho que queimar isso e tudo que me faz lembrar aquele babaca.
- Não! – Gritou Hermione se jogando em cima de Harry e retirando a capa de suas mãos.
- Me devolve isso, Hermione. – Pediu Harry entre dentes.
- Não, só vou devolver depois que você se acalmar e começar a pensar direito.
- Eu preciso.
- Não precisa não. Quando você parar para pensar, sei que vai entender que ele o ama, Harry, e vai se arrepender de tentar afastá-lo de sua vida.
- Hermione, eu não acho...
- Cale a boca, Rony. – Disse Hermione fazendo Rony ficar quieto antes de virar as costas para ele e dar atenção a Harry.
- Eu sei que está com raiva, se fossem meus pais eu também estaria nervosa e querendo matar o culpado, mas você precisa parar, está completamente fora de si. Harry, por favor, pare.
- Não. Me devolve essa capa, agora. – Sibilou Harry segurando a varinha fortemente na mão.
- Rony, me ajuda. – Pediu Hermione.
- Olha Harry, eu não queria fazer isso. Mas você está pedindo.
- E o que é que você vai fazer?
A última coisa que Harry viu foram os nós dos dedos de Rony e depois mais nada.
