Olá pessoal, quero agradecer pelos reviews... dels76 e Daniela Snape, valeu mesmo... espero que gostem do cap...

bjusssss

Capítulo 23 – Perdido em pesadelos

Os dias passaram com uma lentidão gritante, pareciam se arrastar enquanto o relógio parava. Os alunos já começavam a se desesperar com a quantidade de deveres e trabalhos passados. Os jogadores de Quadribol faziam seus treinos quase diariamente querendo cada casa ser a vencedora do campeonato naquele ano. Era possível sentir de longe a hostilidade entre as casas onde muitos pensavam na forma em que poderiam derrotar o outro.

Era segunda de manhã e o outono já havia tomado o castelo empurrando o calor para o fundo da mente dos jovens que agora só se lembravam dele, pois o frio era cada vez maior e o vento cortava mais e mais seus rostos demonstrando como o inverno seria cruel antes mesmo que o Natal chegasse. Porém até mesmo naquele período de temperatura baixa havia um frio bem maior do que o inverno próximo, podia ser sentido por quem estivesse próximo de Harry principalmente nas aulas de poções.

Rony terminava de se arrumar e pegava sua mochila enquanto ainda olhava atentamente para o amigo que calçava o tênis. Harry não falou mais nada referente a ele e Snape desde o dia em que dera um soco em seu rosto, mas era claramente possível ver a guerra que ele travava cada vez que chegava perto do homem. No começo era possível ver Harry explodir com qualquer pessoa que perguntasse o que ele tinha ou quase presenciá-lo lançando uma maldição em Snape quando esse lhe dizia alguma coisa sobre seu dever na aula. Mas agora era diferente, apesar de algumas vezes ser desmentido por seus olhos, Harry não fazia nada mais do que desprezar Snape, inclusive em sala de aula.

Tal atitude assustou os amigos, muito mais Neville que se viu como principal meio de Snape provocar a ira do amigo. O grifinório tremia cada vez que Snape chegava perto e lhe fazia perguntas que sabia, mas que não conseguia responder só para depois o humilhar e o insultar no meio da sala inteira. Neville sempre olhava para Harry sentado ao seu lado esperando que o menino o defendesse como sempre fizera, mas agora Harry só apoiava a cabeça nas mãos e olhava para algum ponto atrás da mesa do professor literalmente ignorando-os.

Algumas vezes Snape se voltou para ele usando-o como objeto de injurias, muitas vezes o menino o respondeu com um atrevimento tamanho que não parecia ser dele. Snape sentia o ódio puro destilado na língua dele escapando por seus lábios e o acertando como um tapa violento que se dá em alguém quando quer acordá-lo. Talvez Potter quisesse acordá-lo para o fato de que jamais iria perdoá-lo, mas ele não fazia a menor idéia de que o maldito veneno daquele sentimento já corria em suas veias há muito tempo e a cada dia que passava ficava mais e mais forte fazendo-o sentir em seu âmago que mais e mais gostava ao menino e o queria protegido sob seus braços.

- Detenção, senhor Potter. – Disse após o claro atrevimento em não responder três de suas perguntas. – E dez pontos a menos para a Grifinória. O resto da classe está dispensada, o senhor fica.

Hermione olhou de relance para Rony, depois Harry e por último Snape que permanecia parado de braços cruzados olhando para o menino que permanecia sentado com uma expressão de tédio.

- Te esperamos aqui fora, Harry.

- Está bem. – Disse o menino dando um sorriso de canto.

Quando todos os alunos saíram e o último fechou a porta Snape se virou para o menino que rodava um lápis com o dedo displicentemente dando lhe tanta raiva que caminhou até ele e retirou o lápis de sua mão tacando-o longe.

- O que pensa que está fazendo? – Perguntou apoiando as mãos na carteira do menino.

- No momento estou respondendo a uma pergunta. – Respondeu o menino vendo os olhos do professor arderem de raiva pelo atrevimento. Mas Snape respirou fundo e se controlou.

- Já se passariam meses, já está na hora de parar com isso, Harry. Já basta dessa raiva e implicância besta.

- Talvez para você ou para qualquer outra pessoa, mas certamente não para mim. E já disse para não me chamar de Harry, não temos nada mais do que o contato aluno e professor então chame-me de Potter, é o nome do meu pai.

Snape ouviu aquela última frase sair com tanta segurança que era como uma pedra que atingia seu diafragma tirando-lhe o ar e arranhando a pele. Era dura e forte. Uma fortaleza que o mantinha afastado. Ele não era mais o pai do menino de olhos verdes. Poderia fazer o que quisesse, ser cruel ou gentil, nada adiantaria, estaria sempre no chão, sempre desprezado. Mais uma vez abandonado por alguém importante.

- Temos um vínculo. – Sussurrou sentindo a pressão da pedra esmagar-lhe o corpo.

- Não seja por isso. – Disse Harry levantando-se e colocando a mochila nas costas. – Vou pedir para Dumbledore que passe o vínculo para outra pessoa, direi que não confio em você, o que não é mentira, aqui o mentiroso é você. – Disse caminhando até a porta e a abrindo, do outro lado do corredor Hermione via o rosto do professor. – Marque a detenção, professor.

Harry bateu a porta com força deixando os amigos boquiabertos esperando que o professor saísse da sala soltando fogo pelas narinas e agarrasse Harry no meio do corredor e o jogasse na parede antes de lhe lançar maldiçoes cruéis que fariam com que Harry se arrependesse totalmente do que fizera, mas o tempo passou e ninguém saiu por aquela porta.

- Anda, vamos. – Disse Hermione correndo para alcançar Harry que já estava perto do grande salão. Antes que ele conseguisse entrar no local Hermione agarrou seu braço arrastando-o pelas escadas até finalmente encontrar uma sala vazia.

- Ei!

- Cala a boca. – Disse Hermione quando Rony fechou a porta. – Qual é o seu problema?

- Qual é o seu problema, Mione? Por que tudo isso?

- Porque você é um idiota, Harry Potter. Sempre reclamou que outros tinham pais e você não e agora você tem alguém que quer ser seu pai, quer cuidar de você e você o trata como se fosse um lixo. Será que não percebeu que você ainda não foi castigado por que ele se importa com você? Você é tão obtuso assim ou está se fazendo?

- Eu não preciso escutar isso. – Disse Harry indo até a porta.

- Na verdade, acho que precisa sim, cara. – Disse Rony se pondo na frente da porta.

- O que vai fazer, me bater de novo? Eu contei para vocês sobre meus tios, sabe que eu estou acostumado e que isso não é nada comparado com o que eu já passei.

- Exatamente por isso que você precisa ouvir a gente.

- Não me importo com o que vocês acham.

- Tá vendo, Harry. – Disse Hermione se aproximando. – Consegue ver em quem você está se tornando por causa desse rancor todo? Você não é assim. O Harry que eu conheço não falaria assim com os amigos e muito menos com alguém que se importa tanto com você.

- Ele só se importa com uma promessa idiota. – Disse se sentando em uma cadeira e largando a mochila ao lado.

- Harry, quero que você feche os olhos. – Disse Hermione se ajoelhando na frente do amigo e pegando suas mãos. – Por favor. – Pediu e foi atendida depois de alguns segundos e um olhar desconfiado. – Você nos contou tudo sobre seus tios, em como ele era obrigado a lhe abrigar e cuidar. Nos falou sobre o que ele fazia a você e como sua tia e primo o desprezaram a ponto de não fazer nada a respeito. Você se lembra, Harry, como eles eram cruéis com você.

- Claro que lembro, não dá para esquecer.

- Então, agora que se lembrou como eram os cuidados de seus tios que tinham essa obrigação quero que se lembre do dia em que ele te resgatou de lá, quando você se agarrou a ele sentindo segurança, lembre-se de como ele cuidou de você até que melhorasse e como, depois de acabarem as desavenças, ele se preocupou com você. Você se lembra como se sentiu aqueles dias?

- Sim, eu me lembro. – Disse Harry ainda de olhos fechados apertando a mão da amiga. – Era como se todas as minhas feridas estivessem se fechando e nunca mais fossem abrir.

- Ta vendo, Harry? – Hermione tocou o rosto do amigo e o viu abrir os olhos agora mais leves e tristes. – Ninguém conseguiria passar esse sentimento por obrigação. Pense nisso, algumas vezes as pessoas recebem uma segunda chance, quem sabe você não é a dele?

Harry baixou os olhos para as mãos que a menina soltava, estavam tão frias e vazias, assim como ele. Hermione e Rony haviam saído da sala deixando-o sozinho. Lentamente se levantou e foi até a janela olhar a paisagem do lado de fora, estava fria como ele e aquilo o fez lembrar do dia em que se sentou no jardim embaixo da capa negra do professor. Era tão acolhedor, seguro como se nada pudesse atingi-lo estando ali, nada além do próprio homem. Fechou os olhos quando imagens de seus pais dançaram em seus olhos trazendo de volta a raiva e o rancor. Balançando a cabeça saiu da sala. Ainda não estava pronto para se decidir, tinha confusão demais dentro de si.

A semana dessa vez passou rápido não dando tempo de Harry sequer pensar, pois o jogo de Quadribol se aproximava e ele precisava treinar mais, por isso sempre chegava exausto no dormitório e dormia sem conseguir nem sonhar. Por sorte o sábado chegou rápido, pois era sábado de visita a Hogsmead o que daria aos alunos tempo suficiente para descansar a mente e enchê-las com besteiras, no caso de Harry era bom por duas coisas, a primeira era que adorava Hogsmead e segundo porque suas detenções que foram marcadas para serem cumpridas com Filch haviam acabado livrando Harry das poeiras e reclamações do zelador.

Todos os alunos conversavam alegremente enquanto caminhavam pela estradinha que levava para a vila bruxa, até mesmo Harry estava sorrindo um pouco mais naquele dia enquanto caminhava junto com Rony e Hermione. Até parecia que todos os problemas estavam completamente esquecidos. Não havia provas, time de quadribol ou Snape que fosse atrapalhá-los em suas listas de lugares para ir ou coisas para comprar. Como sempre visitaram a livraria para Hermione comprar seus livros e depois não reclamar quando ficassem um século na Dedos de Mel.

- Vamos ao três vassouras? – Perguntou Hermione. – Quero uma cerveja amanteigada.

- Vamos. – Disse Rony animado.

- Vão indo na frente, acho que esqueci meu saquinho de moeda no balcão da Dedos de Mel.

- Será que você vai achar alguma coisa? – Perguntou Rony.

- Não sei, mas vale a pena ver.

- Quer que vamos com você?

- Não, peguem uma cerveja amanteigada para mim e guardem meu lugar.

- Está bem.

Harry fechou um pouco mais o casaco e deu meia volta quando os amigos entraram no bar. Como pudera esquecer uma coisa assim na loja de doces? Onde estava com a cabeça? Harry praguejava enquanto caminhava de volta a loja. Já era quase hora de voltar então as ruas estavam vazias, os alunos estavam no três vassouras, ponto de encontro antes de voltarem para a escola. Um vento forte e gelado bateu no rosto de Harry fazendo-o tremer. Parecia que ia chover, talvez tivessem que voltar antes da hora, esperava que Hermione levasse uma garrafa de cerveja amanteigada para ele.

- Deus, que frio. – Exclamou Harry fechando completamente sua blusa e tremendo consideravelmente.

Foi somente quando o segundo vento bateu em seu rosto desta vez mais forte que percebeu que aquele frio não era normal, a temperatura baixava rápido demais. Com receio olhou para todos os lados tentando encontrar o motivo para aquilo e somente um vinha a sua mente. Dementadores. Mas o que eles estariam fazendo ali em Hogsmead com tantos aurores das entradas da vila?Harry não sabia responder suas próprias perguntas, mas conhecia bem demais aquela sensação de congelamento, o sufocamento em sua garganta e a infelicidade que o tomava. Ergueu a varinha nas mãos e torceu que ninguém saísse de onde estavam ao mesmo tempo que queria alguém ali com ele para ajudá-lo. Se concentrou em encontrar uma imagem feliz e viu o rosto borrado de Snape ao chegar na toca logo após o atentado no Beco Diagonal.

- Expeliarmus.

O feitiço atingiu Harry de surpresa fazendo com que sua varinha voasse de sua mão diretamente para os pés de um comensal da morte que saia de um beco vazio antes do que patrono se formasse. O rosto dele era fino e sua pele lisa. Seus olhos castanhos eram cruéis, os cabelos claros caiam liso em sua testa. Ele seria bonito se não fosse o olhar homicida que se apresentava enquanto caminhava lentamente ao seu encontro.

- Enfim conseguimos pegar você. – Disse a voz calma do homem fazendo Harry estremecer, estava sem varinha e aquilo o deixava completamente vulnerável. – Tragam os dementadores. – Disse o homem por sobre o ombro antes de se afastar um pouco.

Harry achou que aquele era o momento certo para correr e se levantou achando que conseguiria ir embora se corresse por dentro da floresta. Mas assim que essa idéia se formou sombras saíram do interior da floresta, pareciam capas voando pelos campos verdes cada vez mais se aproximando de Harry e trazendo consigo um frio que o atingiu feito navalha afiada cortando um pedaço de pão, deslizando como manteiga. Harry queria correr deles, mas eram muitos e o cercavam por todos os lados sugando a luz, calor e vida que havia ali. Quando caiu de joelhos desejou que Rony e Hermione continuassem dentro do bar rindo e se divertindo sem nem ao menos pensar no amigo que estava morrendo do lado de fora.

De repente sentiu que toda a sua vida se esvaia como um banho onde a água escorre por seu corpo. Ele ficara terrivelmente frio e vazio, tudo estava saindo por meio da bolinha que os dementadores sugavam. Era uma bolinha linda, branca com detalhes dourados e que emitia uma luz cintilante. Era sua alma. Com o restante da força que lhe restava ele olhou para o lado e viu o rosto sorridente do comensal antes de desaparecer deixando-o ali com aqueles seres horripilantes e cruéis. Deixando-o ali para morrer.

Foi no momento em que tudo escurecia que viu a brilhante luz branca vindo em sua direção, ela era quente e reconfortante. Por trás dela havia uma sombra negra que tomava completamente sua visão como se o chamasse. Harry queria alcança-la, mas estava tão fraco, tão cansado. Tentou erguer a mão para chamá-lo, chegou a abrir a boca, mas no momento seguinte sua mão bateu duramente no chão e não mais se mexeu.

Ssss

Estava tão frio, doía tanto, seu corpo tremia e suava, podia senti-lo estremecer no chão. Queria fugir dali, correr para longe daquela sensação sufocante, mas não conseguia se mexer. Um par de mãos agarrou seus braços com força, eram geladas e lhe arrepiaram, alguém o balançava com força chamando-o com desespero. As mãos tocaram seu rosto, dessa vez com delicadeza como se tivesse medo. Harry queria responder alguma coisa, mas não conseguia falar, suas palavras estavam presas na garganta.

Queria dormir, estava cansado. Uma sensação engraçada em seu rosto o surpreendeu, algo o pinicava. Alguém se debruçava sobre seu rosto deixando o cabelo cair no seu nariz causando-lhe cocegas a qual não conseguia rir por não ter forças e por sentir-se frio como se os dementadores ainda estivessem ali, lhe levandopara um lugar repleto de sofrimento em que a risada de Tio Valter se fazia presente no ar. Tentou se esquecer dele e se prender na pessoa que ainda tentava sentir sua respiração. Sim, ele respirava, com muita dificuldade enquanto seus pulmões ardiam, mas respirava. A pessoa pareceu entender isso também, pois se afastou levando os cabelos que lhe faziam cocegas e por sua vez o levantando do chão e o carregando para algum lugar, provavelmente o castelo. Harry queria abrir os olhos para ver a paisagem, mas nem tentou, provavelmente não teria forças para isso. Apenas se deixou sentir os fortes braços o segurarem com força contra o peito. Antes de finalmente ser tragado para o inconsciente ele ouviu bem longe palavras sussurradas ao vento.

- Está tudo bem, Harry. Eu vou cuidar de você.

Harry queria muito acreditar nisso, pois o inconsciente o levava para os pesadelos que os dementadores fizeram renascer em sua mente e lá estava Tio Valter sorrindo diabolicamente e o aguardando enquanto massageava os nós dos dedos.

SSSS

Era tão ruim sentir aquele medo novamente, aquele temor das mãos gordas e Harry agora sentia de novo. Eram lembranças, sabia disso, mas lembranças tão crueis de um passado que ele queria esquecer. Via o sangue sair da boca do menino e se lembrou que naquela época ele tinha apenas oito anos, a dor foi a mesma. Seus olhos viam tudo com espanto, era mais cruel ainda ver daquela forma, de fora sem poder fazer qualquer coisa para parar o sofrimento da criança. Ele estava impotente perante aquela lembrança.

Harry encostou-se na parede e quis sumir. Quando se concentrou nesse desejo viu aquela sala borrar-se e em sua mente ouvia as vozes faladas ao seu lado em um mundo atual onde ele não conseguia se mexer.

- Um ataque maciço de dementadores? Meu Deus. Vamos rezar para ele não entrar em coma.

Aquela voz era de alguém conhecido, sabia que já a ouvira muitas vezes em ocasiões que se seguia após alguma dor, mas não conseguia associá-la a ninguém em especifico. Tentou dizer alguma coisa, mas novamente não conseguia. Começava a ficar com raiva disso, era cansativo. Voltou para a casa de seus tios encontrando-se ao lado de si mesmo com menos idade, machucado e sozinho. Sentiu em seu estomago a dor da fome. Fechou os olhos.

- Severus, preciso que saia, preciso examiná-lo.

Severus, o nome lhe trazia lembranças tão difusas e distantes. Quem era Severus? Doía demais.

- Não vou sair Papoula.

Papoula, era a enfermeira da escola. Então estava na ala hospitalar de Hogwarts, novamente acidentado, novamente machucado e dando trabalho para os outros como seu tio tanto falava que ele fazia. As coisas começavam a clarear em sua mente, começava a conseguir associar nomes com pessoas e teve plena consciência da voz do professor Snape perto de sua cabeça.

- Não sairei daqui, eu vou ficar aqui até ele acordar.

- Alvo, faça alguma coisa. – Ouviu a voz da mulher pedir.

- Ele tem direito de ficar aqui, Papoula, posso te explicar depois, agora acho que já perdemos tempo demais, Harry está ficando cada vez mais fraco.

- Tudo bem então, Severus, fique, mas não me atrapalhe.

Sentiu a mão grande e fina encostar em seu ombro e o apertar levemente. De repente sentiu-se leve e incrivelmente bem, mesmo que ainda estivesse completamente parado e sem forças para responder a qualquer coisa. A mão de Snape lhe passava a segurança que precisava. Tio Valter não apareceu mais e finalmente conseguiu dormir sem o medo que pairava em sua mente e alma. Ele estava seguro.

SSSSS

Pensou que quando voltasse a sentir o mundo ao seu redor iria acordar, mas seus olhos estavam pregados e não se separavam nem com o máximo de força que podia, mas não era muita, eles continuaram fechados. Tentou então mexer a mão e conseguiu mover seu dedo indicador um único centímetro sentindo-oencostar na pele gelada que lhe apertou levemente a mão toda e a levantou levando-a até o rosto que lhe beijou com lábios trêmulos.

- Harry? – Chamou a voz baixa. – Harry, você está acordado?

- Pode ter sido apenas um reflexo, Severus. O cérebro faz isso as vezes.

- Eu sei que foi ele, Papoula. Eu sei que ele está acordando.

- Pode ser, mas não tenha tanta esperança que ele simplesmente acorde e abra os olhos. Harry quase entrou em estado vegetativo devido aquele ataque, só agora que está se recuperando. De mais tempo a ele.

- Quanto tempo?

- Não sei, isso vai depender somente de Potter.

Harry sentiu uma respiração ser solta com força ao seu lado antes de dedos gelados tocarem em sua testa com carinho. Eram os dedos de Severus, mas porque ele estava fazendo aquilo, por que estava ao seu lado segurando sua mão?

- Severus, tem que descansar um pouco. Faz dois dias que você não dorme mais do que os cochilos que tirou aqui do lado dele. Vai ficar doente também.

- Se preocupe com o menino, eu me preocupo comigo mesmo.

- Está bem, mas pelo menos tome um banho aqui na enfermaria mesmo e coma alguma coisa, está precisando.

- Acho que isso seria bom mesmo. – Harry sentiu os dedos dele abandonarem sua testa e serem trocados por lábios que o tocaram rapidamente em cima da cicatriz antes de sussurrarem. – Já volto, Harry. Não vou sair daqui.

- Tudo isso é por causa do vinculo de sangue, Severus?

- Não é da sua conta Papoula.

A voz de Snape foi embora e Harry sentiu um vazio enorme no peito. Ele estava sendo abandonado, sua mão estava fria e vazia sem o calor dele ali. Novamente sentiu o negror o levar e de repente se viu diante dos olhos raivosos de Tio Valter.

SSSS

Três dias se passaram, não sabia como sabia, mas tinha pleno conhecimento de que três dias se passaram e que esses três dias ele ficou nas mãos de Tio Valter. Seu grito estava tão preso em sua garganta, precisava fugir dele, ir embora das garras dele. Harry correu, caiu, se levantou e correu de novo. Seu coração estava na garganta e pulsava raivosamente, precisava sair dali, precisava ir repente uma luz apareceu ao longe e ele precisava ir até lá, encontra-la e adentrar a ela, somente assim poderia fugir dele. Correu com toda a força que tinha sentindo suas pernas queimarem. Ele estava atrás de si, sua mão quase encostava em sua blusa.

- Não. Por favor, não!

Estava quase, faltava muito pouco. Só mais um pouco, só mais um pouco. Ele entrou na luz e as mãos se fecharam em seu pescoço.

- Não! Me solta!

- Harry, calma, se acalme. Está tudo bem.

- Não tio, por favor, não faz isso. Por favor.

Harry se debatia na cama com violência jogando o cobertor no chão e balançando a maca. Snape segurava seus braços com força impedindo-o de se debater e acabar se machucando, o menino gritava a plenos pulmões e chorava com os olhos apertados.

- Calma, Harry, está tudo bem. – Disse baixinho segurando-o mais perto e sentindo-o se acalmar. – Eu estou aqui, está tudo bem, filho, eu estou aqui. Calma.

Harry parou de se mexer e respirou rápido sentindo as mãos firmes o puxarem deixando-o deitar a cabeça no peito forte que respirava lentamente. O tecido áspero fazia cocegas em seu rosto enquanto tentava controlar sua própria respiração. Mãos passaram em seu cabelo tirando-o de seu rosto e um sussurro calmo e tranquilizante vinha direto em seu ouvido dizendo que estava tudo bem e que ele estava ali. Ele estava ali lhe abraçando e acariciando sua cabeça e costas, dando-lhe a segurança que precisava garantindo que Tio Valter não estava ali e que jamais iria machucá-lo.

- O que aconteceu? – Perguntou uma voz assustada no meio do corredor.

Harry abriu os olhos cansados e viu Madame Pomfrey de camisola no meio do corredor olhando para ele com olhos arregalados.

- Ele acordou, melhor chamar o diretor.

- Claro, claro.

A enfermeira saiu rapidamente da ala hospitalar deixando Harry ali nos braços dele. Ele quem? Ainda não conseguia associá-lo a ninguém especifico, mas era bom estar ali, estava mais calmo. Alguns minutos se passaram até que a porta a enfermaria se abriu e a enfermeira entrou novamente com Dumbledore as suas costas. O diretor olhou impressionado com a cena que via. O homem velho se aproximou e olhou atentamente para Harry dando um sorriso fraco.

- Que bom que acordou Harry, deu-nos um susto e tanto. - Harry nada disse, apenas piscou fracamente uma vez. – Acho que agora vai poder descansar, Severus.

Severus? Como assim Severus? Então aquele que o segurava e o embalava era o mentiroso, o falso e assassino de seus pais? Harry levantou o rosto devagar e olhou atentamente para o homem que segurava seu rosto. Snape estava com os cabelos bagunçados e olheiras fundas abaixo dos olhos, parecia muito mais cansado do que normalmente, mas trazia em seus olhos um alivio gritante como se o fato de Harry acordar fosse tudo para ele. Harry se sentiu confuso, seus sentimentos pendiam entre o ódio e o amor. Como podia Snape o fazer sentir tudo aquilo?

- Não me toque. – Disse afastando-se da mão do professor que continuou erguida como se não acreditasse no que o menino estava dizendo. – Sai de perto de mim. – Disse se encolhendo na cama sentindo a raiva explodir dentro de si, raiva não do homem, mas de si próprio por não conseguir se entender. – Sai daqui, assassino.

- Harry, não faça isso.

Snape tentou se aproximar de Harry, mas o menino simplesmente gritou e se jogou em Snape batendo-o com toda sua misera força que estava mais do que baixa pelo tempo que ficara enclausurado naquela maca. Dumbledore rapidamente prendeu os pulsos de Harry com uma força que não convinha a alguém de sua idade e o afastou do professor.

- Severus, acho melhor sair daqui.

- Não irei sair, Alvo, não até que finalmente tenhamos nos entendido.

- Harry está perturbado. É melhor ir embora, eu converso com ele.

- Não.

- Severus, não me desobedeça. Vá para seus aposentos, tome um banho, eu vou conversar com você depois.

Snape cerrou os lábios como se fosse responder, mas o olhar duro de Dumbledore indicou que ele não aceitaria uma resposta. Snape rosnou com raiva e girou nos calcanhares saindo da ala hospitalar.

- Papoula, por favor nos de licença. Preciso ter uma conversa muito séria com o senhor Harry Potter.