Pessoal, desculpem a demora em postar a fic, aqui está mais um cap, obrigada pelos reviews mandados... bjussssss
Capítulo 28 - Sentimentos estranhos em meio ao canil
Uma coisa que qualquer um aprende ao conviver com Snape é que o homem sempre acorda antes do sol se erguer, porém naquela manhã os raios solares já invadiam seu quarto iluminando-o graciosamente e ele continuava a dormir. Sua mente lhe dizia que devia acordar, mas era Natal, havia um resquício de sol no meio do inverno, seu corpo estava dolorido e, esse era o ponto principal, estava confortável como não ficava há anos. Respirou fundo expirando um aroma reconfortante e suave. Aos poucos a consciência começava a ganhar espaço, mas Snape não queria acordar, queria dormir profundamente e continuar a sonhar com a mulher loira que estava colada ao seu corpo.
Respirou fundo sentindo o calor nas pontas dos dedos. Onde estavam? Na praia, montanha, em um hotel ou deserto? Na verdade não interessava, o que importava era que ela estava ali em suas mãos. Seus dedos mexeram-se tocando a barriga lisa por baixo da blusa branca sentindo os pelos ralos arrepiarem-se ao mínimo toque. Sua mão subiu pelo abdômen chegando próximo aos montes macios de seus seios. Sua boca abriu em um arfar mudo quando ela se moveu indo de encontro ao seu corpo colando suas costas em seu peito e encaixando o quadril ao seu provocando-o a ponto de deixar suas calças apertadas. Sua mão fechou-se delicadamente sobre o monte macio causando um gemido.
Foi esse som, mais do que qualquer outra coisa que lhe despertou e o trouxe para a realidade. Seus olhos abriram-se e se depararam com cabelos loiros dotados de uma fragrância feminina que o deixava tonto. O que ela estava fazendo ali? Ainda estava sonhando? Não, sabia que não estava, seja lá o que estivera acontecendo era real. Sem se mexer fechou os olhos novamente e tentou entender o que estava ocorrendo, foi então que se lembrou. Viu-se passeando ao lado dela no mercado, depois no hospital onde ela segurava sua mão com força, depois ele estava em casa com ela, mas teve que sair. Voldemort, fora ele o motivo de sua saída. E houve o pedido para não revelar um segredo e depois dor. Muita dor e cansaço. O que houve depois da dor? Houve Vany e seu passado, houve o feitiço que esgotou sua força e depois o sonho.
Tomado de assalto pela realidade Snape abriu os olhos e observou a mulher ao seu lado. Só era possível ver o perfil dela, mas não podia negar que era linda, intensamente linda com cílios grandes e claros resplandecendo a luz do sol. Sua boca estava entreaberta por onde saia uma respiração pesada. Percebeu que sua própria respiração saia em peso e identificou o motivo quando ela se mexeu colocando a mão sobre a sua e a apertando. Imediatamente um gemido quis escapar de seus lábios, mas no último segundo o prendeu atrás dos dentes. Tinha plena consciência de que sentia em seus dedos a maciez do seio dela e que a própria mulher apertava sua mão enquanto seu quadril mexia-se atrevidamente sobre sua masculinidade.
Precisava sair dali antes que desse espaço para o desejo e fizesse com que o sonho que ela estava tendo virasse realidade. Não que ele não quisesse. Ah, ele queria! Queria muito. Mas não podia. Ela não era uma das prostitutas que contratava ou as mulheres que o Lord lhe oferecia. Devagar mexeu a mão sentindo-a apertá-la como se temesse o abandono. Não podia acordá-la, teria que fazê-la acreditar que era apenas um sonho, mas Vany não queria afastar-se, queria mais e mais contato. Ela se mexeu retirando sua mão dos seios e a descendo pelo abdômen. Snape respirou fundo e tentou se libertar, mas Vany levou sua mão mais para baixo, diretamente para sua feminilidade.
- Deus! - Sussurrou Snape sentindo a umidade em seus dedos. Precisava sair dali. Naquele momento.
Sem se importar se ela acordaria ou não puxou sua mão e se afastou levantando-se e a observando se esticar na cama ronronando. A mulher deitou de costas deixando sua mão percorrer o lado onde estivera deitado até aquele momento, ao perceber-se sozinha soltou um lamento, mas continuou a dormir. O raio fraco do sol entrou pelo vidro da janela deixando Snape contempla-la desde a perna torneada até a curva dos seios. Um arrepio no baixo ventre o fez ir rapidamente ao banheiro e se trancar usando um feitiço para abafar o som. Tinha plena consciência da ereção dentro de suas calças e não precisou olhar para baixo quando deixou as peças de roupas jogadas ao lado.
Quando enfim saciou o desejo que lhe endurecia entrou embaixo do chuveiro frio e lavou o corpo deixando a mente vazia. Conjurou uma muda de roupas que vestiu ainda com o corpo úmido. Não era nada mais do que uma calça preta e uma camisa vinho. Deixou os cabelos molhados e saiu do banheiro descalço. Vany agora estava de bruços e resmungava baixinho agarrada ao travesseiro. Snape ficou por algum tempo somente a contemplando e enchendo seus olhos com a beleza natural da mulher que mesmo com os cabelos emaranhados era linda.
- Pai?
Snape olhou para a porta e viu Harry entrando com tudo por ela procurando por si até estacarquando percebeu que não era Snape quem ocupava a cama, seus olhos detiveram-se por um momento na mulher e depois passaram para o homem que mantinha a camisa aberta mostrando o peito branco com alguns ralos pelos negros.
- O que aconteceu? - Perguntou alto.
Snape fez sinal de silêncio para Harry e o levou para fora do quarto segurando-o pelos ombros. Assim que fechou a porta silenciosamente para que a mulher não acordasse, olhou para o menino e fechou a camisa antes de lhe falar.
- Educação sempre é bem vinda. Ou não sabe que deve bater na porta antes de entrar?
- Me desculpe, eu não sabia que ela estava ai dentro. Deveria ter trancado a porta nesse caso.
- Nós não fizemos nada, isso foi algo...
- Não precisa explicar. - Disse Harry erguendo as mãos para interrompê-lo. - Eu sei o que é.
- Vocês adolescentes cabeças ocas são extremamente irritantes. Não transei com Vany, caso esteja pensando isso. Devido os acontecimentos de ontem acabamos adormecendo. - Explicou cruzando os braços diante do peito. - Mas não devo explicações para você. O que era tão urgente que o fez invadir meu quarto sem permissão.
- Já pedi desculpas, está bem. - Disse Harry raivoso. - Não sabia que estava em casa, afinal você sumiu ontem a noite. Só queria saber se estava bem, agora já vi. Com licença.
Harry deu as costas para Snape e desceu as escadas deixando-o perplexo no corredor. O professor fechou os olhos e passou a mão no cabelo. Adolescentes complicados só lhe davam dor de cabeça. Respirando fundo desceu os degraus devagar e procurou o menino na sala, mas não havia nada mais do que cobertores no chão e pacotes de presentes rasgados e largados. Franzindo os lábios de desgosto foi até a cozinha e avistou uma louça suja evidenciando o café tomado, Harry também não estava ali. Querendo acreditar que ele não estava em seu laboratório seguiu para o quintal e o que viu foi capaz de lhe fazer sorrir mesmo em meio ao frio.
O jardim estava iluminado pelo sol e devido a proteção que instalou para suas plantas e ervas não havia neve, mas também não havia grama, o que fazia com que a bola que Harry chutava deslizasse até parar diante dos pés de Riley que riu e a chutou com força fazendo-a ir alto, mas não tão alto que Harry não fosse capaz de pegar com sua agilidade de apanhador e devolver em seguida para a menina do outro lado. Fazendo uma careta de dor pelo corpo ainda não recuperado sentou-se no degrau apoiando os cotovelos nos joelhos e ficou observando o jogo. Riley corria balançando os cabelos loiros, pegava a bola e chutava torto para Harry que fingia que a menina conseguia fazer o gol. Não era possível negar que Harry já estava nas mãos da menina, a doçura e encanto dela atingia Harry agressivamente deixando-o preso a ela como um irmão preso ao outro.
Irmão. Snape riu debochado pelo fato de que para tornar os dois irmãos teria que ter alguma coisa com Vany que naquele momento estava deitada em sua cama, a cama que jamais compartilhou com outra pessoa além de Harry no dia que o menino tivera um pesadelo e foi até lá com o travesseiro embaixo do braço se instalar ao seu lado até dormir. Afastando a imagem do menino babando ao seu lado imaginou o corpo escultural da mulher sendo banhado pelo sol, seus cabelos estariam espalhados pelo lençol contrastando com o negro da seda. Seus braços estariam agarrados ao travesseiro onde seu rosto repousava. Será que estaria sentindo seu cheiro? Será que continuaria sonhando com suas mãos no corpo dela?
Não, não, não, não. Não podia ter esses pensamentos. Não era um adolescente em plena puberdade, era um homem formado e controlado, um Comensal da Morte. Não podia se dar ao luxo de achar que uma mulher, uma veela como Vany um dia iria pensar em si daquela forma. O que aconteceu no quarto só ocorreu por estarem dormindo e serem, obviamente, homem e mulher. O desejo é algo natural do corpo humano, muitas vezes basta um toque para que o outro correspondesse e Snape estava muito ciente que estava mais do que dando um toque na mulher, sabia que se não tivesse parado no momento em que tocou sua intimidade, mesmo que por cima da calça, ainda estaria dentro dela naquele momento correndo o risco de ser rechaçado quando o prazer acabasse e ela enfim visse com quem estivera deitada.
Esfregou o rosto com as mãos e as passou pelo cabelo olhando em direção as crianças, mas sem realmente os ver. Sua mente vagava por coisas banais que jamais deixaria o invadir se estivesse em pleno controle de seu consciente, mas naquele dia onde seu corpo estava dolorido e Harry agora corria atrás de Riley, não havia motivos para não ser deixar pensar um pouco em como seria se tivesse a possibilidade de ter uma família completa.
Pensava que era idiotice um homem de sua idade pensar em algo assim. Jamais haveria possibilidade para isso. Além de ser um Comensal da Morte, fadado a viver ao lado do maior bruxo das trevas que o mundo já viu, tinha ciência de que não era o homem dos sonhos das mulheres. A não ser que pagasse ou que lhe fosse oferecido nenhuma mulher se entregaria a alguém feio e ranzinza como ele de bom grado. Não, sua vida seria solitária, apenas ele e Harry para todo sempre que se resumia em até o dia que o menino encontraria alguém para amar e fosse embora. Os pensamentos persistiram em sua mente enquanto continuava sentado vendo Harry com Riley até que um pequeno toque em sua cabeça o fez olhar para cima e encontrar Vany com um sorriso leve em seu rosto.
- Se pensar mais um pouco vai sair fumaça. - Disse a mulher se sentando ao seu lado com uma xícara quente na mão.
- Há quanto tempo está aqui?
- O suficiente.
Snape não disse nada mais, ficou apenas olhando para frente, porém seus olhos estavam devidamente atentos a mulher ao seu lado. Percebeu que seus cabelos estavam molhados evidenciando o banho recém tomado e que estava vestida com uma calça preta dobrada diversas vezes na perna e uma camisa branca que antes estava devidamente guardada em seu guarda roupas. Os olhos da mulher brilhavam enquanto assistia Riley rir correndo atrás de Harry no quintal.
- Faz tanto tempo que não vejo Riley rindo dessa forma. - Comentou antes de tomar um gole do que parecia ser chá.
O silêncio se instalou entre os dois até que Snape se levantou e entrou na casa. Sua mente estava tão embaralhada que precisava de silêncio e solidão para colocar os pensamentos no lugar. Talvez tivesse que se trancar no laboratório por algumas horas, assim poderia deixar esses pensamentos infantis e ridículos que o assaltavam. Sim, precisava ficar sozinho. Bateu os dedos na pia três vezes, respirou fundo e se virou querendo sumir dali, mas assim que se virou trombou com Vany que carregava a caneca para a pia. A mulher soltou uma exclamação de surpresa e cambaleou para trás, acabaria caindo se não fosse por Snape que segurou seu braço com força e a trouxe para perto mantendo-a em pé.
- Obrigada. - Disse a mulher engolindo em seco. - Me assustei.
- Desculpe-me.
- Não precisa se desculpar, eu que não vi onde estava indo. Pelo menos você me segurou.
- Sim, eu te segurei.
E não mais soltou, continuou segurando-a perto de seu corpo olhando dentro de seus olhos e sentindo a retribuição do olhar. Sentia em seus dedos a pele macia dos braços dela. Os pelos estavam arrepiados evidenciando a tensão do corpo feminino. Devagar a trouxe um pouco mais perto fazendo-a encostar-se em si. Sua respiração estava alterada, rápida e ainda não conseguia falar. Snape sentia em seu corpo aquele desejo que tivera em sonhos, o desejo que o consumia por dentro quando chegava muito perto dela. Vany, uma mulher que mal conhecia e que já mexia com sua mente deixando-a desconsertada. Será que uma veela tinha tanto poder de sedução assim?
- Espero que tenha dormido bem. - Sussurrou a mulher mordendo o lábio inferior.
- Foi bom, mas poderia ter sido bem melhor. - Retrucou Snape vendo os olhos de Vany se dilatarem e a sentindo se aproximar lentamente com os olhos se fechando aos poucos.
Os lábios quase se tocavam quando a porta foi aberta por Riley que estacou na mesma hora em que os dois se separavam. A menina trazia nas mãos uma bola de futebol suja igual seu rosto e roupa, atrás de si entrava Harry que imediatamente entendeu os olhares furtivos e as bochechas coradas dos adultos.
- Riley, querida, que tal irmos para casa? - Falou Vany colocando o cacho loiro atrás da orelha e evitando olhar para Snape que se mantinha calado e com o rosto impassível. - Vai arrumar suas coisas, vai.
- Mas, mamãe, o Harry disse que eu poderia jogar vídeo game com ele. Deixa eu ficar aqui mais um pouquinho. - Pediu a menina fazendo o biquinho que sempre convencia sua mãe. Porém dessa vez Vany não iria ceder aos pedidos da menina.
- Não, filha, vai pegar suas coisas. Vamos para casa.
- Por mim não terá problemas, senhora Vany. - Disse Harry. - Eu realmente disse que jogaria vídeo game com ela hoje.
- Você é um fofo Harry, mas temos realmente que ir.
- Então Harry pode ir conosco no canil depois do almoço? Você disse que iria comprar um cachorrinho para mim hoje. - Disse Riley erguendo a cabeça para pedir com pulinhos na frente da mãe. - Por favor, mãe.
- Riley...
- Acho mais do que apropriado.
Vany olhou em direção da voz e encontrou Snape observando-a com cuidado. Seus cabelos negros e escorridos moldavam seu rosto. Seus braços cruzados puxavam um pouco a camisa vinho para baixo deixando um pequeno pedaço do tórax de fora. Vany respirou fundo e tentou dar uma desculpa, mas Snape foi irredutível.
- Ainda temos assuntos pendentes desde ontem e quero muito esclarecê-los, passarei em sua casa às duas horas.
- Eba. - Gritou a menina. - Viu Harry, vamos ver cachorrinhos.
Harry ergueu as sobrancelhas e sorriu para a menina que foi correndo buscar suas coisas deixando os três em um momento constrangedor na cozinha. Vany mexia-se sobre os próprios pés sem sair do lugar, suas mãos estavam agitadas e ela piscava os olhos irritantemente. Snape por sua vez estava calmo e continuava apenas encarando a mulher. Harry estava prestes a sair do cômodo quando a menina voltou correndo com um pacote grande onde antes estivera embrulhado um presente e outro menor ainda fechado.
- Muito obrigada, senhor Snape. - Disse a menina fazendo Snape franzir a testa. - Vou abrir o presente do senhor quando chegar em casa. Até daqui a pouco. Tchau Harry, nos vemos já já.
A menina acenou e foi em direção a porta da frente onde ficou esperando a mãe que deu um beijo em Harry, deixando-o vermelho, e estendeu a mão para Snape. O homem olhou para a mão estendida e demorou alguns segundos para retribuir o aperto, quando o fez sentiu um formigamento quente em sua palma. Seus olhos estavam fixos na mulher que também o encarava.
- Espero que não se importe. Comprei um presente e dei em seu nome. Ela é esperta, mas ainda é uma criança, ficaria chateada se não ganhasse algo do dono da casa onde passou a noite de Natal jogando mimica. - Disse soltando a mão e a colocando dentro do bolso. - Então, espero vocês mais tarde. Ah, depois lhe devolvo sua roupa. - Comentou indicando a roupa que estava usando.
Vany deu as costas e foi embora, Snape ouviu quando a porta se fechou e então o silêncio se instalou na casa. Harry mexeu-se um pouco sobre os pés e então foi em direção a sala sem trocar palavras com Snape que o seguiu silenciosamente vendo o menino começar a recolher a bagunça que deixaram no chão.
- Pelo jeito vocês fizeram uma ótima festa aqui.
- Vany fez o possível para nos deixar acordados enquanto você não chegava, tivemos que inventar jogos e contar histórias, mas no fim você não apareceu então ceamos e acabamos dormindo.
- Desde quando você tem vídeo game?
- Pensei que não soubesse o que era isso.
- Sei de muito mais coisas do mundo trouxa, eu vivo aqui quando não estou em Hogwarts.
- Ou quando não está com Voldemort. - Disse Harry para si mesmo enquanto dobrava a coberta que Riley usara e pegava a capa que Snape usou para lhe cobrir. - Vany comprou em seu nome e me deu tentando amenizar o fato de você não estar aqui na hora que abrimos os pacotes.
Harry pegou a coberta e a capa e subiu os degraus pisando firme até chegar ao seu quarto onde guardou a coberta e começou a guardar o vídeo game que estivera jogado no chão. Snape caminhou lentamente e parou no batente da porta escorando-se e o observando até que o menino finalizou a limpeza no lugar e se adiantou para a porta de onde Snape não se movera um único milímetro.
- Com licença. - Pediu sem olhar nos olhos do homem.
Snape continuou apenas parado olhando para o menino que cerrava os lábios e continuava olhando para qualquer lugar menos para ele. Era visível seus ombros tensos e sua mandíbula dura de nervoso. Snape sentiu-se cansado como se toda a dor em seu corpo dobrasse o fazendo desejar uma poção relaxante e a calma de seu laboratório. Mas havia prometido para Harry que jamais iria ignorá-lo, que seriam completamente sinceros um com o outro, então precisava começar a sua parte. Apesar de ser o salvador do mundo bruxo, Harry era apenas um menino de dezesseis anos que sofrera nas mãos dos familiares que deveriam lhe acolher. A carência familiar era gritante nele em qualquer aspecto. Dera-lhe esperanças de que poderia ouvir os fogos de artifícios ao seu lado, abrir presentes a meia noite e cear sem miséria enquanto conversavam animadamente. Prometeu-lhe o Natal que ele nunca tivera e acabara quebrando a promessa, adiando por mais um ano a mágica daquela data. E nem mesmo sabia se haveria essa data nesse prazo.
- Não vou pedir que me conteo que está te aborrecendo. - Começou Snape entrando e fechando a porta do quarto onde se apoiou. - Eu sei que ficou magoado por eu não estar aqui ontem a noite. Acredite, eu queria ficar aqui com você.
- Mas não ficou. - Retrucou Harry agora olhando diretamente para o homem. - Preferiu o seu mestre ao seu filho.
- Pelo contrário. - Disse Snape com calma. - Eu fui ao encontro dele por escolher você. Não posso simplesmente negar um chamado, ignorá-lo. Tenho obrigações com meu papel de espião.
- E obrigações com seu papel de pai. - Disse o menino jogando a capa que segurava na cama. - Eu não queria presentes, ou árvores de Natal, nem mesmo uma comida gostosa. Eu passei anos da minha vida comendo pão e água, por vezes algo diferente apenas para que não morresse anêmico. Eu não preciso de nada disso, só te pedi uma coisa. Uma só. Mas você não ficou, foi de encontro a Voldemort e me deixou aqui. Me deixou. Como será depois? Páscoa, meu aniversário e outras datas em que promete estar presente e não estará?
- Harry, estou tendo o máximo de paciência que posso quanto a você, mas não vou ficar aturando sua impertinência quanto minhas obrigações. Estou fazendo o possível para protegê-lo, para cumprir a promessa que fiz à sua mãe e a você. Se não estou presente não é porque não quero, é porque não posso. Aprenda a aceitar esse fato.
Harry engoliu as palavras que viriam a seguir, palavras não, gritos. Queria gritar com Snape, socá-lo, empurrar para fora de seu quarto e fechar a porta. Temia tanto isso, tanto. Encher-se de esperança apenas para depois se decepcionar. Realmente precisava começar a aceitar alguns fatos como o de que nunca teria nada completo.
- Ok. - Disse indo para a janela e abrindo completamente a cortina deixando a luz entrar. - Vou aprender. - Disse sentindo aquele monstro remoer dentro de seu estômago como se quisesse despertar e rugir para Snape, mas assim que se virou e o olhou, o monstro voltou a dormir. - Você está péssimo.
E realmente estava. Por mais que parecesse bem e se fizesse parecer bem, a luz que entrava no quarto evidenciava suas olheiras fundas. Fazia quantos dias que o homem não dormia bem? Os cabelos estavam oleosos como sempre, mas não havia penteado, era mais como se tivesse acabado de acordar. Mas o que mais lhe chamou atenção foi a mão que tremia levemente, mesmo que Snape tentasse esconder de todas as formas.
- A noite foi longa, só isso. - Respondeu Snape.
- O que você tem que fazer quando se encontra com ele? - Perguntou Harry cauteloso. - O que acontece?
- Não vou falar disso com você, nunca.
- Mas você disse que iria me contar tudo.
- Não quanto a isso. - Respondeu Snape firmemente. - Não vou manchar sua mente com a minha realidade.
- Não entendo, se é algo tão ruim que não pode me contar, então porque continua fazendo?
- Porque é preciso e ponto final. Ponto final, Harry. - Disse enfaticamente quando o menino abriu a boca ameaçando voltar a falar. - Não vou discutir isso com você, entendeu?
- Entendi. É só que não consigo esquecer o dia em que você estava todo machucado e agora você tá tremendo. Não consigo aceitar, Severus. Você se apresenta a ele e leva cruciatus e outros feitiços por mim, para mentir por mim. É só que... me preocupo com você.
- Por que é um grifinório idiota como Dumbledore.
- Não me compare ao diretor, eu jamais permitiria que você fizesse isso se tivesse poder para tal. Eu mesmo faria se pudesse.
- Sempre com sua mania irritante de herói. - Disse Snape esfregando os olhos. - Não vou entrar em detalhes, saiba que o que faço não é unicamente por você, apesar de ser o fator decisivo, há muito mais por trás de tudo desculpe por não estar aqui a noite e por não ter comprado o seu presente.
- Sabe que não ligo para isso. - Resmungou Harry se sentando na cama com os cotovelos apoiados nos joelhos e os olhos presos em suas mãos. - Só quero você bem.
- Eu sempre fico bem. - Respondeu Snape com um riso baixo caminhando até o menino e acariciando seus cabelos de leve. - Farei o possível para não faltar para você, agora termine de arrumar esse quarto, temos um almoço para preparar.
Snape saiu do quarto de Harry deixando a porta aberta e foi para seu próprio quarto. Harry foi até o batente e observou o homem abrir a porta de seus aposentos e depois fechá-la. Seus olhos piscaram um pouco antes de os fechar por alguns segundos e os abrir respirando fundo e fazendo adormeceu o monstro que tentava sair de seu amago. Sua mente fervilhava de pensamentos, eram tantas coisas pequenas que se sobrepunha as outras que chegava a doer a nuca. A preocupação com Severus era a que mais o irritava. Sabia que o homem não queria que pensasse nisso, mas não podia ignorar o fato de que ele só fazia se machucar quando se encontrava com o maldito e que muitas vezes deve tê-lo deixado a beira da morte mantendo-o vivo apenas porque ainda servia para espionar por ele.
- Mas até quando? - Perguntou-se.
Realmente não dava para saber, Voldemort era muito instável, em certos aspectos, imprevisível. Usava Snape ao seu bel prazer, mas um dia, qualquer dia, não precisará mais dos serviços dele e então o descartará como se fosse um nada que não merecesse nem mesmo o mínimo de respeito. Como poderia aguentar isso, ficar calado como um bom filho enquanto ele se arriscava sem nem mesmo saber se voltaria a lhe ver. Ele disse que estava tudo certo e que não deveria se preocupar, mas Harry jamais conseguiria dormir em paz enquanto não confirmasse que ele estaria em segurança. Passara anos de sua vida rezando para que seu pai o resgatasse das garras de Tio Válter, nem que fosse para o levar para o céu. E agora não daria chances de Snape lhe escapar. Acharia um jeito de tirá-lo das garras de Voldemort.
Com essa promessa em mente voltou ao trabalho de arrumar a casa, enquanto isso Snape, que usara magia para que seu quarto estivesse devidamente arrumado, permanecia parado em seu banheiro segurando em suas mãos a blusa branca da mulher que usara aquele banheiro para lavar seu corpo esbelto. Por dentro se condenava por lembrar-se dos sorrisos dela, mas por fora não conseguia se desgrudar das lembranças dos dois abraçados na cama aproveitando um sonho prazeroso. Não podia negar que Vany era uma mulher encantadora e que despertava um desejo quente em seu corpo, mas não podia deixar que algo mais ocorresse. Além de não ser merecedor de tê-la em suas mãos da forma que queria, havia o segredo que ela carregava e principalmente havia Lily,
Claro que Lilian estava morta, sabia muito bem disso e não criava ilusões em sua cabeç ém, mesmo que jamais tivesse sido sua, Lily ocupava uma parte de sua vida tão enormemente profunda que pensar em outra mulher de alguma forma passional e não simplesmente sexual era como manchar a sua lembrança e desonrá-la. Tinha ciência que era besteira pensar assim, Lilian morrera há quinze anos e deixou de falar consigo há mais de vinte. O esqueceu a partir do dia em que o xingamento maldito saiu de sua boca, seguiu sua vida com Potter, casou, teve um filho e então morreu sem que o tivesse em algum desses momentos.
Snape não passava de passado para ela conforme Dumbledore tanto lhe lembrava em suas reuniões regadas a chá e drops. Às vezes ficava com raiva do velho por lhe dizer aquilo, mas no fundo sabia que era verdade. O amor não era reciproco, talvez tivesse sido quando ainda eram crianças, antes mesmo de irem para Hogwarts, mas depois se desfez como gelo no verão. Será que deveria então seguir os conselhos daquele velho manipulador e procurar, se não amor, um sentimento acalentador e reciproco nos braços de outra mulher? Olhou para a blusa branca em suas mãos, tão delicada e perfumada quanto uma rosa que desabrochou na primavera. Seria Vany a mulher que o salvaria de sua solidão?
Novamente não. Ela era apenas uma mulher que conhecera e que por algum motivo estranho estava ligada a si através de um feitiço executado por uma velha caduca. Sim, possivelmente era só mais uma coisa a ser feita, alguém a mais para salvar, nada mais que isso. Jogou a blusa da mulher no cesto de roupas sujas e saiu do quarto descendo para a cozinha, precisava se distrair com alguma coisa e no momento o que tinha em mãos era o almoço que deveria preparar. Não jantara com Harry na noite anterior, mas estaria presente durante todo o almoço.
Harry tinha que admitir que Snape, quando queria, sabia cozinhar perfeitamente e que aquele almoço fora o melhor que já comera naquela casa. O homem preparara uma refeição completa com carnes brancas, grãos, verduras, legumes e até mesmo uma sobremesa que jamais imaginou que ele gostasse. Sorvete de passas ao rum. As desavenças foram esquecidas, os medos deixados de lado e até mesmo a lembrança de que havia mundo alémdeles fora trancada em um quarto distante. Enquanto estavam sentados naquela mesa, comendo, bebendo e rindo, só havia eles e unicamente eles.
- Pare de rir, não foi engraçado. - Disse Harry, ele mesmo não aguentando ficar sério enquanto comentava como fora quando Rony vomitara lesmas no segundo ano. - Foi nojento e tudo por culpa de Malfoy.
- Pelo que me disse a culpa foi da varinha quebrada do senhor Weasley. - Disse Snape tomando um gole de suco de abobora.
- Sim, foi, mas isso não diminui a culpa de Malfoy e sua também.
- Onde me encaixo nessa história?
- Foi você quem liberou o campo para a Sonserina treinar.
- Precisávamos treinar Draco para ser apanhador.
- Só te perdoo porque ele perdeu de qualquer forma.
- Tenho que admitir que Draco nunca foi muito bom jogador, voa bem, mas não tão bem assim. Mas o nome e o dinheiro levam a melhor muitas vezes.
- Eles têm tanto dinheiro assim?
- Lucius é herdeiro de uma antiga família com muitos contatos e investimentos. Ele sabe onde aplicar seu ouro.
- E você? - Perguntou Harry afastando o prato vazio e se recostando na cadeira.
- Tenho minhas economias, não chego aos pés de Malfoy, mas garanto nosso conforto.
- Você sabe que tenho o cofre dos meus pais caso for necessário.
- Jamais tocarei em seu cofre. - Disse Snape categórico.
- Por que? Eu estou gastando seu dinheiro, me sinto mal por isso.
- Aquele ouro é seu, seus pais e seu padrinho o deixaram para você. Não preciso dele e não me insulte indicando que não posso arcar com os gastos de um moleque magricela como você.
- Também não precisa ofender assim.
- Não ofendi, apenas constatei a verdade.
- Engraçadinho.
- Vai se arrumar, temos que nos encontrar com Vany e Riley em meia hora. - Disse Snape recolhendo a louça e a colocando na pia.
- Falando nisso, você e Vany...
- É melhor não terminar a frase se ainda quiser ter língua. - Disse Snape ferozmente sem olhar para o menino.
- Ok, vou me arrumar.
Trinta minutos depois Harry se instalou no banco de trás do carro junto com Riley que começou a tagarelar sobre o cachorrinho que queria comprar. Por incrível que parecesse Snape não se importava com a falação da menina, até mesmo achava graciosa a forma como ela contava os passeios que faria com o novo cachorrinho. Vany dirigia com cuidado, estava com uma blusa azul escuro por baixo do casaco branco, seus cabelos estavam presos em uma grande trança que descia até o cóccix, havia uma pequena quantidade de maquiagem em seu rosto que a deixava simplesmente magnifica.
O caminho foi silencioso se não contassem o falatório de Riley e as risadas baixas de Harry. Quando chegaram ao canil Vany pegou Riley pela mão e a levou até a entrada onde receberam crachás de visitantes e foram levados para a recepção onde teriam que aguardar para o tratador os levar até onde os cachorros ficavam. Snape permaneceu atrás de Harry, seus ombros estavam tensos como sempre ficava quando precisava sair com o menino e agora com Vany e sua filha. Toda a cautela era pouca e mesmo que o Lord houvesse proibido terminantemente que chegasse perto deles, sabia que havia alguém dentro do circulo dos comensais que desobedecia essas ordens descaradamente sem medo das consequências de seus atos.
Quando o tratador levou-os para os fundos onde havia diversas gaiolas com cachorros dentro Riley puxou Harry pela mão e o levou adiante para ver um cachorrinho preto que ficou pulando com a proximidade. Vany deu um passo para frente, mas logo sentiu a mão de Snape apertar seu braço forçando-a a permanecer ao seu lado. A mulher olhou para ele e ergueu as sobrancelhas vendo Snape a olhar profundamente.
- Caminhe comigo, Vany. Temos muito o que conversar ainda.
- Riley quer comprar um cachorro, Snape. Tenho que ajudá-la. - Disse a mulher baixinho sentindo que os dedos do homem não lhe machucavam, mas deixavam sua pele quente.
- Aqui há cachorros o suficiente para mantê-la entretida pelo próximo ano todo e Harry está cuidando dela. Não fuja de mim, Vany. - Disse Snape em um sussurro.
- Não estou fugindo, Severus. - Snape respirou fundo com o som de seu nome na voz dela. - Preciso de você caso não se lembre.
- Eu me lembro e é exatamente sobre isso que quero conversar com você. - Snape começou a caminhar devagar deixando um espaço grande entre eles e Harry que fazia carinho na cabeça de um dos cachorros. - O feitiço que usei ontem é um feitiço antigo que me permite não simplesmente ver as lembranças que você se recorda, mas até mesmo aquelas esquecidas ou bloqueadas. Acredite quando digo que sua mãe tinha um gosto horrível para suas roupas quando era um bebê.
- Não sabia que era possível ir tão longe assim nas memórias.
- Quando se sabe o que fazer é possível, mas é desgastante. Você pediu minha ajuda e pode tê-la se me responder algumas coisas.
- Qualquer coisa. - Disse Vany parando de andar e encarando Snape de frente. - Por favor, qualquer coisa para evitar que achem Riley.
- Me explique sua descendência. Você é uma bruxa poderosa, conseguiu me enganar quando li sua mente, me fez pensar que era uma descendente de veela, mas que era trouxa. Você também conseguiu passar pelos feitiços de proteção que coloquei em minha residência. Ninguém havia conseguido antes.
- Desculpe, mas não podia simplesmente deixar que soubesse tudo de mim, eu precisava tomar cuidado, ter certeza que você não era um dos comensais que me levaria para Voldemort. Eu tive que inventar uma história, não poderia correr risco. - Vany baixou a cabeça e respirou fundo como se o que fosse falar fosse um peso enorme que era obrigada a carregar. - Eu não sei por que tenho tanto poder, não sou descendente de alguma bruxa poderosa ou importante, minha mãe era uma bruxa normal como qualquer outra, nem mesmo passou nosN.I.E.M.s. Meu pai era trouxa, não conhecia nosso mundo até que se casou com minha mãe, então não sei o motivo, mas sempre foi assim. Eu simplesmente consigo desativar todos os feitiços que colocam na minha frente, quer dizer, não todos, mas a maioria e tenho controle sobre minha mente.
- Interessante.
- Não é interessante. - Disse a mulher começando a andar novamente indo em direção a Riley que parou a alguns metros de distância. - Eu matei minha mãe em um acesso de magia quando tinha cinco anos.
- Sinto muito. - Disse Snape.
- Não precisa sentir, isso foi há muito tempo.
- E seu pai?
- Os comensais o mataram quando estavam atrás de Daniel.
- E quanto a Riley, ela herdou esse nível de magia?
- Não, Riley é uma bruxa normal. O máximo que faz é quebrar um vidro quando fica muito feliz ou com raiva como hoje de manhã quando eu disse que ela não poderia ir para Hogwarts com Harry. - A mulher parou novamente e dessa vez quando olhou para Snape o homem sentiu uma grande vontade de acariciar seu rosto triste. - Se não quiser me ajudar, vou entender. Mas, por favor, não retire Harry da vida dela. Não sei o que os dois tem, que ligação estranha é essa que rapidamente os deixou tão próximos, mas Riley nunca teve amigos e pela primeira vez ela está feliz. Eu te imploro Snape. - Disse nervosamente enquanto mexia no botão do terno de Snape como se não conseguisse manter sua mão quieta. - Eu te imploro.
- Não sou adepto a ajudar as pessoas sem que isso me traga algum beneficio. Altruísmo não é minha maior qualidade. - Disse Snape seriamente com a voz baixa e os olhos presos aos da mulher.
- Eu não tenho nada para te oferecer. - Disse Vany com a voz embargada e os olhos marejados. - Preciso proteger minha filha. Ela é tudo que me restou. Não tenho muito dinheiro, algumas economias guardadas, mas eu faço qualquer coisa que me pedir.
- Eu quero uma coisa sim. - Disse Snape vendo as lágrimas descerem cristalinas pelo rosto dela. - Vou te ajudar e em troca você fará uma coisa por mim.
- O que quiser, eu faço. - Disse a mulher com os olhos arregalados em desespero agora agarrando-se fortemente ao terno do homem. - Eu juro.
Snape segurou a mão da mulher com força sem afastá-la de si e ergueu a outra mão tocando delicadamente o rosto dela onde as lágrimas faziam seu caminho direto para seus lábios. Com cuidado secou a lágrima e acariciou o rosto esmeramenteantes de colocar uma mecha traiçoeira atrás de sua orelha deixando a mão pousada na curva de seu pescoço. Seus olhos queimaram e sua mente embaralhou-se tentando entender o que estava acontecendo consigo, desistindo da compreensão apenas sussurrou perto do rosto da mulher fazendo-a apertar sua mão.
- Nunca mais chore.
