Olá pessoal, tão vendo, nem demorou tanto para postar esse aqui hein... desculpem os erros

Countess of Slytherin: que bom que está gostando da fic, Tb adoro as suas... bjus

Marcya: dessa vez não demorou tanto, tem alguns momentos muito lindos entre os personagens mesmo...

Asuen: que bom que gostou... bjus

Capítulo 29 - Almofadinhas

Harry teve que piscar duas vezes antes de finalmente acreditar no que estava vendo. Tudo bem que já se acostumara a ver muitas coisas que jamais imaginou relacionado com Snape como coisas comuns do dia a dia, carinhos despercebidos, preocupações e até mesmo amor. Já o viu chorar e pedir, sonhar e sorrir, deveria ter gravado o dia em que começou a cantar. Mas quem diria que o veria em tal estado de fascínio perante uma mulher. De longe podia ver a proximidade dos dois, os corpos colados, as bocas quase se encostando e até mesmo a respiração audível.

- O que você está vendo? – Perguntou Riley aparecendo ao seu lado.

- Shh. – Fez Harry com o dedo nos lábios. – Nós vamos atrapalhá-los. – Indicou seus pais com o dedo.

- Você acha que eles vão se beijar? – Perguntou Riley em um sussurro. Harry realmente esperava que não. Seria nojento. – Seria lindo, não é Harry? – Harry revirou os olhos e sentiu a pequena pegar sua mão e puxá-lo para o outro lado do local. – Vem, quero te mostrar uma coisa.

Snape nem mesmo percebeu que as crianças estavam ali ou que havia cachorros latindo, o tempo também poderia ter parado, pois não ouvia mais o tique taque irritante. Naquele momento só conseguia ouvir o bater de seu próprio coração acelerado como há muito não ficava, seus olhos só enxergavam os marejados, grandes e brilhantes olhos dela ou perceber suas próprias mãos estrategicamente postadas uma na curva de seu pescoço, perigosamente perto de sua nuca claramente arrepiada e a outra em sua cintura apertando-a de leve.

- Severus. – Ela sussurrou quando a mão dele pressionou lentamente sua cabeça para frente enterrando-se em seus cabelos.

Vany tinha o coração batendo aos pulos dentro do peito, conseguia até mesmo senti-lo bater em sua caixa torácica, nem conseguia se lembrar a última vez que conseguiu se arrepiar daquela forma ao se ver cada vez mais próxima dos lábios de um homem. Os olhos de Snape se fecharam ao mesmo tempo que os seus e agora só havia sensações e expectativas. Suas mãos espalmaram-se no peito dele sentindo os músculos sob a roupa quando sentiu o lábio roçar de leve ao seu, mas rapidamente se afastar junto com as mãos no exato momento em que um grito de euforia foi ouvido.

- Mamãe!

Riley apareceu correndo pelo corredor com um sorriso no rosto. Vany respirou fundo e colocou os cabelos para trás antes de olhar para Snape que já se afastara com os braços cruzados e os ombros tensos. Fechou os olhos novamente amaldiçoando a interrupção e se arrependendo imediatamente ao olhar para o rostinho infantil e ver a expectativa no olhar da menina que não tinha culpa de não entender as complicações dos adultos, nem ela mesma conseguia entender.

- Oi meu amor.

- Achei um cachorro lindo, vem ver.

Vany segurou na mão da menina e se deixou levar parando apenas para falar rapidamente com Snape que tinha os braços ainda fortemente cruzados. Assim que o chamou e ele a olhou viu que seu olhar era duro deixando-o ausente de qualquer aspecto que estivera ali há poucos segundos. Ela avisou que iria ver um cachorro com Riley e recebeu de volta apenas um rápido e seco.

- Claro.

Mesmo sabendo que não precisava de outra resposta além dessa Vany franziu os lábios e olhou novamente no fundo dos olhos dele procurando e não o achando. Então simplesmente virou-lhe as costas e se deixou levar pela menina que parecia prestes a morrer de felicidade. Assim que Vany desapareceu por uma sala paralela, Snape soltou a respiração e passou a mão nos cabelos colocando-os para trás ao mesmo tempo que tentava entender o que se passava consigo. Desde quando se deixava envolver assim por uma mulher? Nunca tivera olhos para ninguém mais além de Lily, mesmo após sua morte, jamais sujou sua memória pensando em outra pessoa. Era por isso que as veelas não o incomodavam, não havia modo delas o hipnotizarem, pois seu coração e sua mente estavam presos na lembrança imaculada da mulher de cabelos de fogo. No entanto Vany conseguira penetrar sua barreira de proteção e se infiltrara onde somente Lily conseguira ir até o momento. Snape sentiu-se confuso, não conseguia chegar a uma compreensão lógica e por mais que odiasse sequer pensar nisso, sabia que a melhor maneira de entender o que estava acontecendo era perguntar ao bisbilhoteiro, irritante, manipulador, mas sábio Dumbledore.

Tentando afastar de sua mente a visão do rosto do velho se abrindo em um sorriso mais do que irritante enquanto lhe oferece um de seus drops antes de começar a lhe dizer suas teorias, Snape caminhou em sentido contrário ao da mulher procurando por Harry no meio de todos aqueles corredores repletos de cachorros latindo e o olhando com seus olhos grandes e famintos de carinho.

- Harry? - Chamou esperando que o menino lhe respondesse, mas não houve resposta. - Harry?

Após o chamar pela terceira vez e não receber uma resposta do menino, Snape sacou sua varinha do bolso da calça e andou cauteloso e atento procurando algum indício dele. Pelo que sabia não havia comensais ou quaisquer outro bruxo naquele recinto, ele mesmo lançara um feitiço procurando a presença de qualquer pessoa que pudesse comprometer seu disfarce ou colocar Harry, Vany, Riley e ele mesmo em perigo e não houve resposta pelo feitiço, apenas trouxas ficavam naquele recinto mal cheiroso. Porém, e teve que rosnar de raiva por admitir isso, já fora enganado antes, por Vany que mostrou claramente que seus feitiços não eram infalíveis.

- Harry? - Chamou novamente e novamente teve somente o silêncio como resposta.

Já estava praguejando ter deixado o menino sozinho já que ele não tinha a capacidade de ficar por sua própria conta por alguns minutos sem que algo acontecesse quando virou uma esquina o viu no fim de um corredor sem saída. O menino estava quieto, ajoelhado diante de uma jaula, seus dedos seguravam-se firmemente na grade. Snape olhou para todos os lados em busca de qualquer intruso que pudesse estar por perto e somente quando estava convencido de que estavam sozinhos que guardou a varinha no bolso novamente e se aproximou devagar da criança. Foi ao chegar bem próximo dele pelas costas que conseguiu ver por cima de sua cabeça o motivo de seu silêncio. Harry permanecia estático enquanto seus olhos contemplavam a imagem de uma cachorra negra e peluda deitada no canto da jaula, pelo que parecia a cadela dera cria há pouco tempo, pois suas mamas estavam inchadas de leite.

- Mas...

O sussurro de Snape se perdeu quando franzindo a testa também se abaixou ao lado de Harry e olhou atentamente para a cadela. Os olhos dela estavam abertos e eram azuis, um azul tão forte que irritava de tão belo, seus pelos negros eram grandes e brilhavam a luz da lâmpada no teto. Mas não foram esses fatores que chamaram sua atenção, foi a cachorra em si, a forma do focinho, a magreza das patas e principalmente as almofadas das patas dianteiras que ficavam a mostra. Olhando-a bem era possível ver através dela o fantasma de Sirius. Imediatamente olhou para Harry e o viu com os olhos verdes brilhando enquanto olhava para a criatura dentro da jaula. Pelo reflexo dava para ver as imagens de Almofadinhas correndo feliz em volta de suas pernas no meio da neve ou caçando um rato qualquer em uma gruta velha. As lembranças fortes vinham para Harry de uma forma tão intensa que o deixava entorpecido.

- Harry. - Chamou Snape esquecendo a cachorra na jaula e se concentrando no menino ao lado. - Harry, não é ele.

- Mas... - Sussurrou Harry piscando sem deixar de olhar para ela.

- Sirius se foi, Harry. Se foi.

- Eu sei que foi, não sou idiota Severus. - Disse o menino olhando-o com a testa franzida de raiva. - Eu só me lembrei dele só isso.

Snape viu o quanto o menino forçava o rosto a continuar concentrado em não demonstrar a fraqueza que sempre deixava a mostra quando estava triste ou se sentia angustiado. Para Snape não havia problemas ele libertar de si aquela vontade arrematadora de chorar, mesmo que fosse pelo desprezível Sirius Black, ele só desejava que o menino não prendesse em si aquele choro que viraria pedra em sua alma e o deixaria pesado. Abriu a boca para falar algo quando viu pelo canto do olho Vany aparecer com Riley segurando sua mão. Imediatamente Harry virou o rosto escondendo-o da mulher e da menina. Snape fez um sinal claro para que Vany lhes desse espaço e antes que a menina falasse alguma coisa Vany já havia lhe carregado para outro lugar deixando-os novamente sozinho.

- Quer falar sobre isso? - Perguntou Snape olhando para Harry que agora limpava o rosto com a manga da blusa.

- Não.

- Tem certeza? Sei que foi recente.

- Não tem o que falar. Eu amava Sirius e ele se foi, ponto final. - Disse Harry respirando fundo e se levantando tentando afastar o olhar da cachorra.

- Tudo bem. - Disse Snape levantando-se também. O homem ia dizer mais alguma coisa, mas foi interrompido por um atendente irritante que se aproximou com um sorriso grande demais no rosto.

- Olá, sou Marque Cury, atendente da loja. - Cumprimentou olhando de um para o outro. - Desculpe a demora em lhes atender, mas eu estava com uma senhora e uma menininha que queria ver um cachorro na outra sala. - O rapaz falava rápido enquanto abria a jaula da cachorra e com as mãos enluvadas pegava a cadela nos braços retirando-a de seu canto. - A menina queria um cachorro enorme, nem me lembro o nome da raça, é difícil demais lembrar todos os nomes daqui.

O jovem parou ao seu lado com a cachorra nos braços e continuou a falar, falar e falar, mas nem Snape e nem Harry prestavam atenção a ele, pois seus olhos voltaram-se para a cadela que não se mexia, a cabeça pendia para o lado e seus olhos continuavam abertos. Não demorou muito para entender o que havia de errado com ela. A cadela estava morta.

- O que aconteceu com ela? - Perguntou Snape ao mesmo tempo em que Harry fechava os olhos com força e escondia seu rosto nas costas de Snape que se pôs a sua frente para evitar que o homem visse seu rosto manchado pela dor de rever a morte de seu padrinho em sua mente.

- Com ela? - Perguntou o homem indicando a cachorra. Snape apenas meneou a cabeça. - Sofreu muito no parto, oito cachorrinhos, todos morreram e somente um sobrou. - Indicou com a cabeça a jaula onde Snape visualizou um montinho pequenino e preto no cantinho respirando fracamente. - Ela sobreviveu o máximo que pôde para cuidar dele, mas acho que não aguentou mais uma noite. Se precisarem de alguma coisa podem me chamar, vou levá-la para o doutor dar uma olhada. Com licença.

Snape fez um aceno com a cabeça e se virou para ir embora, porém percebeu que Harry não o acompanhava e no momento em que se virou o viu olhando para o montinho preto que era o filhote esquecido da cadela falecida.

- Harry, vamos embora.

- Será que...

Harry não precisou terminar para frase, sabia que a pergunta já estava respondida antes mesmo que sequer ser formulada em sua mente. Snape jamais aceitaria acolher o cachorrinho, não adiantaria pedir ou tentar, a resposta era tão clara que ofuscava sua razão. Com um pesar no coração se afastou aos poucos da jaula e se aproximou do homem que colocou sua mão fortemente em seu ombro e o guiou para longe levando-o para onde Vany e Riley conversavam com uma vendedora. Pelo jeito Riley não conseguira achar um cachorro que fosse ideal para ela, pois o único que gostou a mãe a proibiu de comprar.

- Ela queria um pit bul. - Exclamou Vany ao sair do canil com uma Riley emburrada ao seu lado. - Tudo bem que dizem que se criado com carinho e amor eles serão dóceis e Riley tem muito carinho e amor para dar, mas ainda assim não me sinto segura.

Snape apenas balançou a cabeça, na verdade sua mente estava voltada apenas para Harry que continuava com o olhar perdido, mesmo que ficasse o tempo todo ao lado de Riley e sorrisse quando a menina contasse alguma coisa ou falasse brava sobre sua mãe negar seu cachorro.

- Você pode dirigir? - Perguntou a mulher após as crianças estarem devidamente sentadas no banco traseiro do carro.

Sem a imagem de Harry a sua frente tomando-lhe os pensamentos Snape estava completamente livre para encarar o rosto belo e iluminado de Vany. O sol estava prestes a se por no horizonte as costas da mulher e aos seus olhos aquela imagem merecia um quadro. Novamente se deixou perder nos encantos do sorriso dela quando a mulher ergueu a chave a sua frente. Tentando se controlar piscou e ergueu a mão deixando-a colocar a chave na sua palma. Quando sentiu o leve triscar de pele Snape fechou a mão pegando-a de surpresa. A mulher o olhou agora sem sorriso, mas com surpresa quando os dedos dele acariciaram sua pele e um sorriso torto apareceu em seu rosto.

- Pode deixar. - Disse Snape soltando a mão da mulher e passando perigosamente perto dela sentindo o roçar de seus ombros.

Vany respirou fundo antes de entrar no carro ao lado dele e prender o cinto. Snape dirigia muito bem para um bruxo, era como se já tivesse feito isso mais do que uma vez. Em sua mente formou-se a pergunta de como nunca tinha reparado no homem ao seu lado, seu vizinho há tanto tempo. Mas no fim percebeu que estivera tão compenetrada em saber quem era a pessoa destinada a lhe proteger que só o avistou de verdade quando ele a avistou também.

O caminho não foi demorado, Vany nem mesmo percebeu que chegara em casa, só constatou isso quando Snape estacionou o carro diante de seu portão e o desligou saindo do mesmo e o contornando até a porta da mulher a qual ele abriu para deixá-la sair.

- Obrigada. – Disse saindo e parando a sua frente.

- Não por isso. – Respondeu Snape fechando a porta e a encarando enquanto Harry e Riley também desciam do carro.

- Vamos logo mamãe. – Disse Riley ainda emburrada por não ter o cachorrinho.

- Isso são modos filha? – Disse Vany postando as mãos na cintura de uma forma que deixou Snape intrigado. – Não vai se despedir de nossos amigos? – Snape olhou para ela com uma expressão que não era possível decifrar, era como se tivesse se ofendido por ser chamado de amigo.

- Desculpe. – Disse a menina voltando até onde estavam. – Tchau Harry. – Disse dando um abraço no menino e um beijo em seu rosto. Harry retribuiu com uma felicidade fraca que a menina não percebeu e logo em seguida ela se virou para Snape. – Mais uma vez obrigada pelo presente, senhor Snape, até logo.

Sem esperar a menina rapidamente lhe abraçou a cintura e o soltou indo para o portão de casa onde ficou esperando a mãe. Vany sorriu de canto vendo a surpresa do homem com a espontaneidade de sua menina. Snape realmente estava muito surpreso com tudo isso, não imaginava como era o abraço de uma criança e agora que teve não sabia como deveria ter retribuído.

- Só para você saber, você deu de Natal um lindo estojo de pintura que ela já começou a usar na parede do quarto. – Disse Vany antes de virar-se para Harry e lhe dar um abraço forte e beijar-lhe duas vezes a bochecha. Ela se virou para Snape e quase se adiantou para abraçá-lo também, não que não tivesse tido vontade, mas o bom senso a fez apenas esticar o braço em um claro e rápido aperto de mão. – Até mais, senhor Snape.

Vany e Riley entraram na casa e Snape caminhou ao lado de Harry até chegar a sua própria residência. O caminho foi tão silencioso que Snape conseguiria ouvir o pio de uma coruja ao longe. O menino estava com a cabeça baixa e apenas caminhava sem nada dizer. Snape sentia-se mais do que confuso com tanta coisa. Primeiro a história de Vany, Daniel e Riley. Uma profecia que de uma forma muito estranha o ligava a mulher da casa bonita da rua e agora não conseguia parar de pensar que aquele dia fora o mais estranho que tivera em vida e que gostara dele. Gostara de ter ficado com expectativa de ir a algum lugar com ela e a menina, gostara de sentir-se como um trouxa na companhia de pessoas agradáveis, vivendo rotinas e passeios que sozinho jamais pensaria. Gostara de ser normal.

Precisa urgentemente falar com Dumbledore.

Ao entrar na casa não houve trocas de palavras. Harry subiu para seu quarto onde se trancou e ficou por horas perdido em lamurias pelas lembranças recordadas de Sirius. Queria muito falar com ele, odiava vê-lo assim tão vulnerável, tão suscetível a sofrimento por algo que não valia a pena. Mas como se aproximar dele naquele momento tão sensível para falar sobre uma pessoa que odiava? Por ele Black estava muito bem morto. Mas para Harry era cruel, pois por mais ineficaz que fosse, por mais que deixassem de se falar por semanas, Sirius ainda era o padrinho dele e o único que de certa forma se preocupava com ele de vez em quando que se resumia a semanas sem nem mesmo dar a cara. Então o melhor era apenas deixar o menino em seu quarto.

Balançando a cabeça dando a si a melhor escolha e se convencendo de que era realmente a melhor Snape adentrou ao laboratório e foi mexer em suas poções mesmo sabendo que nem mesmo a fumaça que saia de seus sempre amigos caldeirões o faria esquecer do olhar do menino e do aperto em seu peito indicando claramente que pela primeira vez na vida Severus Snape estava com pena de alguém. Foi somente após terminar duas poções e as guardar devidamente arrolhadas em frascos diferentes que Snape conseguiu organizar seus pensamentos e sentir que estava voltando ao controle de seus atos e pensamentos. Olhou no relógio e percebeu que já era quase meia noite. O tempo voava quando se concentrava em seu trabalho.

Porém, mesmo mais controlado, quando os ponteiros indicaram uma hora da manhã ele vestiu sua capa de viagem e foi fazer o que já deveria ter feito.

Harry revirou-se na cama durante horas até que finalmente conseguiu dormir, demorou muito para que a imagem de Sirius saísse de sua cabeça. A falta que o padrinho lhe causava era gigante como se um dinossauro tivesse abocanhado seu coração e deixado ali um buraco da qual não fosse possível tapar. Por meses deixou aquele buraco esquecido, fez o possível para se prender a Snape, mesmo quando estavam brigados, e deixar que Sirius virasse apenas uma lembrança, mas percebeu que não conseguiria fazer isso para sempre, pois sentiu-se desmoronar somente de ver aquela cadela morta nas mãos do homem da loja. Ela era tão parecida com ele, seus olhos azuis intensos como se ainda estivessem vivos e prontos para brincar, os pelos negros brilhando e espetados para todos os lados tal qual seu próprio cabelo, o formato das patas. Tudo era igual Sirius. Almofadinhas apareceu novamente aquele dia, mas se foi quase no mesmo instante.

Sentia-se um tolo fraco por não conseguir segurar suas emoções e permanecer tão cabisbaixo, mas não podia deixar de sentir aquilo e sabia que naquela casa, junto de Snape, podia liberar suas angustias, pois o homem não o condenaria por isso, mas na escola onde andava com Rony e Hermione, onde muitos alunos ainda o consideravam "O Eleito"não haveria como simplesmente extravasar suas energias e frustrações tão facilmente. E ainda teria o agravante de que Snape e ele teriam que permanecer como duas pessoas que simplesmente se odiavam. Então era ali que ele se sentia confortável para chorar, lamentar, gritar, sorrir, brincar. Percebeu que aos poucos tornara a casa de Snape seu lar e que gostava disso.

Seu sono não foi tranqüilo, sentiu-se recheado de pesadelos e lembranças e só acordou quando sentiu um toque macio em seu rosto, pensou que era Snape que por vezes aparecia no meio da noite apenas para verificar se estava tudo bem e o cobrir por sempre jogar o cobertor no chão, jurava até mesmo já ter sentido um leve beijo em sua testa antes do homem ir embora para seu próprio quarto. Mas aquele toque em seu nariz não parecia em nada com o toque dos dedos longos do homem, nem mesmo o cheiro que sentia. Era estranho, não ruim, até mesmo um cheiro gostoso de se sentir. Intrigado Harry abriu lentamente os olhos e pegou seus óculos na cabeceira, mas mesmo com a visão perfeita nada o preparou para o que viu em sua cama.

Deitado ao seu lado, com os olhinhos fechados e o corpinho esticado estava uma bolhinha de pelo negro que facilmente foi identificado como o cachorro que ficara abandonado na jaula do canil. Seus olhos arregalaram-se ao mesmo tempo em que um sorriso apareceu em seu rosto. Com cuidado esticou a mão e tocou o pelo macio dele, o cachorro se mexeu um pouco, mas apenas para se ajeitar melhor naquele montinho de coberta escondendo o focinho no meio das patinhas. Aproximou-se um pouco e sentiu o cheiro característico de um filhote, aquele cheiro de leite e pele infantil. Era bom. Ficou por diversos minutos apenas deitado olhando o respirar do filhote até que viu pelo vão da porta uma sombra passar fazendo-o imaginar Snape carregando o filhotinho na mão até o colocar ao seu lado durante a noite. Rapidamente se levantou e procurou uma caixa em seu quarto. Finalmente encontrou uma no guarda roupa que encheu de roupas velhas e a levou até a cama. Com cuidado pegou o cachorrinho nas mãos e o depositou dentro da caixinha. O cachorro se esticou e bocejou abrindo os olhos por um momento somente para voltar a fechar e se enrolar em uma bolinha antes de voltar a dormir.

- Vou precisar contar isso para Ron e Hermione, aposto que Ron vai me pedir uma foto de Snape segurando você caso contrário ele não irá acreditar. – Disse Harry fazendo carinho no cachorro antes de colocar a caixinha no chão perto do que parecia ser uma tigela de água e outra de ração.

Snape fizera tudo aquilo mesmo? Aquele homem era mais surpreendente do que imaginava. Com um sorriso no rosto saiu do quarto e foi em direção aos aposentos dele, mas esses estavam vazios. Desceu as escadas, na sala havia apenas a árvore de Natal com suas luzes piscando. Foi na cozinha que encontrou o homem sentado lendo jornal enquanto tomava chá. Rapidamente se aproximou dele e o viu baixar o jornal e o olhar intrigado.

- O que foi? – Perguntou Snape.

- Obrigado. – Disse Harry.

- Pelo que? – Questionou Snape até que suas sobrancelhas se ergueram claramente se lembrando do que estava falando. – Ah, o cachorro. Ainda estou tentando entender porque fiz aquilo, eu odeio cachorro.

- Ainda assim obrigado.

Snape sorriu de leve ao ver a cara de Harry de felicidade antes de subir para o quarto novamente e ficar por horas apenas brincando com o cachorrinho, vendo-o andar por seu quarto e acarinhar os pelos macios. Mas teve que rosnar quando o menino veio correndo pedindo um pano para limpar a sujeira que o cachorro fez.

- Ensine-o a usar o jardim. Não quero minha casa fedendo a fezes e urina de cachorro.

- Ele tem só dois meses.

- É idade suficiente para que isso seja ensinado. Você o quis, é sua responsabilidade.

E então foi assim que Harry ficou os outros dias do feriado, correndo com o cachorro para fora de casa na hora que percebesse que ele iria fazer suas necessidades e tentando demonstrar que o lugar certo era ali fora no cantinho longe das ervas do mestre de poções. Snape demonstrava claramente que não gostava do bichinho, mas não pode deixar de achar gracioso quando entrou no quarto de Harry para falar com ele e viu o cachorrinho abocanhar a ponta de seu sapato tentando claramente mordê-lo e não conseguindo. Suas sobrancelhas se ergueram enquanto o olhava e só abaixaram quando Harry rindo o pegou e o levou para uma caixinha forrada com jornal.

- Desculpe, ele está com mania de morder tudo.

- Controle esse animal. – Disse Snape retirando dois envelopes do bolso e entregando para o menino. – Chegaram essas cartas para você, Hedwiges trouxe há pouco tempo.

- Obrigado, ela está brava comigo por causa do cachorro. Legal, são de Ron e Hermione. – Disse o menino abrindo a primeira carta e vendo a letra torta do amigo. – HAHA, Ron pergunta se eu vou conseguir tirar uma foto sua segurando o cachorrinho para provar que foi você quem me deu. Eu sabia que ele iria falar isso.

- O senhor Weasley sempre foi uma pessoa desprovida de bom senso.

- Não fale assim, ele só está impressionado com o tato que você teve me dando o Almofadinhas.

- Por que será que não me impressiono com sua falta de criatividade quanto aos nomes? – Perguntou sarcástico saindo logo em seguida para atender a porta que estava tocando.

Ao abrir a porta se deparou com Vany vestida belamente com uma calça jeans justa, botas preta de cano longo por cima da calça e uma jaqueta jeans claramente quente. Riley estava a sua frente sorrindo e mostrando que perdera um de seus dentes de leite. Ele deveria falar alguma coisa sobre isso? Se sim, não falou, apenas deu espaço para que elas pudessem entrar. Riley cumprimentou Snape e rapidamente correu para o quarto de Harry dando um grito de felicidade logo em seguida.

- Não se preocupe, é por causa do cachorro que Harry ganhou. – Falou indicando o sofá para que ela se sentasse, ele mesmo se sentou na poltrona tentando ficar o mais longe que sua educação permitisse.

- Você deu um cachorro para ele? Você não parece muito adepto a animais de estimação.

- E não sou, ainda me pergunto o que passou pela minha cabeça ao fazer isso. Mas aquele cão tem um motivo especial para ele. Então eu simplesmente dei. – Explicou fazendo duas xícaras de chá voarem da cozinha até suas mãos.

- Você o ama. – Disse Vany bebericando seu chá.

- Desculpe?

- Você o ama, é por isso que deu o cachorrinho para ele, você se importa com os sentimentos dele e isso é muito legal.

- Se você diz. – Disse Snape colocando a xícara no pires e olhando para a mulher com as bochechas vermelhas. – Qual é o motivo de sua visita?

- Eu queria conversar com você sobre a volta as aulas. – Disse a mulher cruzando as pernas e apoiando as mãos nos joelhos. – Você disse que iria me ajudar, naquele dia no canil quando nós...

- Minha memória está funcionando perfeitamente bem, senhora Smean, me lembro daquele dia e que disse que iria te ajudar, não voltarei atrás com minha palavra.

- E sou muito grata por isso. Mas você estará longe daqui.

- A distância não será nenhum empecilho. Eu já resolvi tudo caso você precise de ajuda. Me acompanhe, por favor.

Snape levantou e seguiu para a porta dos fundos que leva para o jardim da casa. Ali no meio ele parou e pediu que ela se aproximasse mais. Vany deu alguns passos a frente e aguardou encarando os olhos do homem. Snape sacou sua varinha do bolso da calça e apontou diretamente para seu peito. A princípio ficou temerosa com o que ele poderia fazer, recuou um passo, mas a sobrancelha que ele levantou a fez permanecer quieta. Se ele quisesse machucá-la já teria feito, além de poderoso Snape já tivera enormes chances inclusive quando estavam sozinhos na cama dele compartilhando alguns momentos embaraçosos em meio a sonhos e realidade. A lembrança daquele momento a fez suspirar e fechar os olhos por um instante, quando o abriu percebeu que Snape estava mais próximo do que se lembrava, ele a olhava intensamente com seus olhos negros e indecifráveis.

- Com calor? – Perguntou quando a viu abrir os lábios e ofegar.

- Não deveria fazer isso.

- Não sei do que está falando.

- Ah, você sabe muito bem do que eu estou falando, Severus. – Disse a mulher dando um passo a frente.

- Acho melhor voltarmos ao que é importante. – Disse Snape recuando um passo e voltando a apontar a varinha para o peito da mulher. Com um sorriso torto recitou um encantamento que a fez sentir um calor subir pelo seu peito diretamente para sua nuca e depois descer até seus pés. – Pronto, agora os encantamentos da minha casa vão reconhecer você quando eu não estiver aqui, se sentir que está em perigo pode ficar aqui até conseguir me mandar um recado por patrono. Se não der para vir até aqui você pode aparatar diretamente para esse local. – Entregou um papel para a mulher que leu o endereço com a testa franzida. – Sei que é longe, mas fica mais próximo da escola e será mais fácil de conseguir chegar até você. Sei que consegue aparatar grandes distâncias, mesmo junto com Riley.

- Nossa, estou impressionada. Pensei que sua ajuda seria somente para aparecer caso eu precisasse. Jamais imaginei que poderia entrar na sua casa quando eu quisesse. – Disse com um sorriso brincalhão que se alargou quando o viu com uma expressão confusa. – Estou brincando, Severus. Jamais invadiria sua casa assim. Prometo usá-la somente se for preciso e espero que não seja.

Os dois foram interrompidos quando a porta da cozinha se abriu e Harry passou correndo com o cachorrinho na mão e Riley atrás até colocarem ele em um cantinho do quintal onde Almofadinhas pode fazer suas necessidades antes de sair correndo pelo gramado fazendo Riley rir alto e correr atrás dele.

- Você está formando uma boa família aqui. – Comentou Vany rindo.

- Espero que não. – Disse Snape sério fazendo-a o olhar com a expressão confusa questionando-o por que. – Eu não mereço uma.

Sem mais o homem saiu do jardim indo para a cozinha, Vany o seguiu deixando as crianças no jardim com o cachorro, quando entrou o encontrou pegando uma garrafa no bar da sala e tomando um gole de Whisky.

- Por que acha isso?

- Porque acho o que?

- Por que acha que não merece uma família?

- Porque sim. Harry é o suficiente.

- Mentira. Eu vejo em seus olhos, vejo que você quer mais, muito mais do que somente um menino como um filho que vai crescer e ir embora.

- Você não sabe nada. – Ele sussurrou terminando de tomar o Whisky e colocando o copo no bar. – Eu fiz o que pude fazer para protegê-la. Pode ir embora agora.

- Até quando você vai ficar se privando do que está diante de você? – Perguntou a mulher se aproximando e o virando para olhar em seus olhos.

- O que eu tenho diante de mim, senhora Smean? – Perguntou sentindo-a segurando seus braços.

- Só você não consegue enxergar. – Sussurrou se afastando dele. – Riley, está na hora de ir embora. – Gritou em direção a cozinha. – Quando vocês vão voltar para a escola?

- Amanhã. – Respondeu Snape simplesmente.

- Tenha uma boa volta as aulas então. – Disse quando Riley segurou sua mão. – Tchau Harry.

- Até mais senhora Vany.

Riley saiu porta afora e Vany ficou apenas um segundo a mais que foi gasto olhando para Snape e falando a frase que ficaria em sua mente pro restante do ano letivo.

- Espero que mude de idéia, você é merecedor e eu também.

A mulher foi embora e a porta foi fechada. Dentro daquela sala só se foi ouvido a pergunta de Harry sobre o que estava acontecendo, o latido fino do filhote em seus braços e o copo de Whisky que se quebrou na parede.