Capítulo 40 – Segredos revelados.
- Coloque-a na maca, Severus. - Pediu Madame Pomfrey andando esbaforida até o mestre de poções que carregava Vany em seus braços enquanto Harry amparava Riley ainda desnorteada.
Snape colocou Vany com delicadeza em uma maca próxima e se afastou um pouco para dar espaço a enfermeira que rapidamente começava os exames na mulher. Harry deixou Ridley na maca ao lado de sua mãe.
- Mamãe? - Chamou Ridley tentando se levantar, sendo impedida por Snape que foi para seu lado e a fez deitar novamente. - O que aconteceu com a mamãe? Ela vai ficar bem? Papai, ela vai morrer?
Snape olhou assustado para a menina que segurou sua mão. Aquela forma carinhosa de o chamar mexia com ele, mas o que o assustou de verdade foi a pergunta que ela fizera.
Vany iria morrer?
Ele não respondeu a menina, apenas apertou sua mãozinha e voltou o olhar para a mulher desfalecida na outra maca com cabelos loiros iguais a filha que chorava baixinho. Snape não podia aceitar que algo assim acontecesse, não podia. Simplesmente não dava.
- Como ela está Papoula?
- Ela não tem nenhum ferimento, mas seu nível de magia está baixo e sua energia vital esta em estado crítico. Terei que deixá-la de observação até amanhã, caso ela não acorde em vinte e quatro horas terei que removê-la para o ST'Mungus.
Snape cerrou os dentes com força e odiou-se por não poder fazer nada a respeito. Sentia uma raiva tão grande por não poder fazer algo a respeito, era como se fosse um inútil. Odiava se sentir um inútil. Seus devaneios foram interrompidos por um sussurro baixo vindo de Riley que mantinha a cabeça baixa olhando para suas próprias mãos.
- O que disse? - Perguntou se aproximando e levantando o rosto dela delicadamente.
Ridley era deveras parecida com a mãe. Seus cabelos eram loiros da mesma tonalidade, porém mais lisos e um pouco mais curtos. Seus olhos claros eram grandes e brilhantes e naquele momento deixavam escapar lágrimas quentes de medo. Seus traços eram finos e delicados ao mesmo tempo que traziam a dureza inédita de uma garota da natureza. Suas mãos mexiam nervosamente no colo. Ela ainda estava com as mesmas roupas de quando se afogou. Ridley hesitou em responder, olhou para a mãe ao lado e depois novamente para Snape. Seus olhos negros lhe davam medo ao mesmo tempo que lhe davam a sensação de segurança. Ela não era tola, sabia que ele não era seu pai. Conheceu o pai, mesmo quando apenas criancinha a ponto de agora ter apenas algumas reles lembranças na mente. Mas desde a primeira vez que viu Snape naquele dia em que pegaram carona com sua mãe que sentiu algo estranho por ele. Ele podia ser estranho, misterioso e sombrio, mas para ela ele era aquele cara que a carregava para a cama, que a abraçava após um pesadelo e que cuidava silenciosamente de sua segurança e bem estar. Ela gostava dele, não, ela amava ele.
Então poderia confiar nele, certo?
- Eu disse que eu disse para a mamãe que ela não devia mais fazer essas coisas.
- Que coisas?
- A cura. Eu disse para ela não curar mais ninguém nem mesmo eu, mas ela faz e depois ela fica doente.
- Não se preocupe, minha querida, ela ficará bem. - Disse Madame Pomfrey passando a varinha pela menina examinando-a. - Agora fique quieta, preciso te examinar.
- Pai. - Chamou Harry sem se importar com a presença de Madame Pomfrey, já estava tão acostumado em chamar Severus de pai que nem mesmo percebia. - Eu vou lá na sala comunal, vou deixar o Almofadinhas com a Mione, depois eu volto.
- Só amanhã, senhor Potter. - Disse Papoula. - Elas precisam de repouso. E você também Severus. Está todo molhado, vá para seus aposentos, troque de roupa e descanse. Nem pense em contestar Severus. Sabe que não vou deixá-lo ficar aqui.
- Ora essa, sua mulherzinha. Eu tenho todo o direito de ficar ao lado delas.
- Severus Snape, não me importo com o grau de relacionamento seu com minhas pacientes, somente com o fato de que elas necessitam de descanso e para isso preciso que as deixe sozinhas.
Snape iria protestar, mas sabia que não iria adiantar, tal qual ele Madame Promfrey era cabeça dura e teimosa. Ela cuidava de seus pacientes com unhas e dentes e nada faria com que deixasse Severus ficar ali. Sabendo que aquela guerra estava vencida como sempre Snape apenas se dirigiu até a porta e foi para seus aposentos.
- Que coisa horrível Harry. – Disse Hermione sentando-se no sofá da sala comunal com Bichento em seu colo e Almofadinhas com a cabeça em seu joelho. – Será que elas ficarão bem?
- Riley deve sair em breve, só está de observação por essa noite, mas não sei quanto a Vany, ela realmente parece ruim.
- Mas não entendi uma coisa. – Disse Rony. – Ela curou a menina só com as mãos?
- E recitou um cântico. – Acrescentou Harry.
- Como é possível? É preciso uma varinha para fazer alguma coisa.
- Acho que não necessariamente, Dumbledore faz muitas coisas sem a varinha e até Severus já fez algumas coisas.
- Sim Harry, isso realmente acontece. – Disse Hermione. – Mas só com bruxos experientes e poderosos. Se nós tentássemos alguma coisa agora não aconteceria nada. Porém acredito que mesmo sendo poderoso, nem Dumbledore conseguiria fazer algo assim. Eu já vi em algum lugar alguma coisa relacionada a essa especialidade de cura, mas não me recordo corretamente. Vou ter que procurar na biblioteca depois ai te falo o que eu achei. Mas mudando de assunto, faz tempo que você não para aqui para conversar decentemente conosco. Queremos debater algumas coisas sobre o Malfoy.
Nesse momento Harry ficou tenso, ele sabia o que iriam dizer, sabia porque era o que mais falavam e sinceramente até gostava desses debates visto que Draco não lhe contava nunca qual era o seu maior segredo, a missão que Lord o mandou cumprir. Só dizia que era algo que iria mudar tudo. Harry tinha medo disso, agora que estavam bem não queria mudar nada.
Depois de muitos minutos debatendo sobre o que Malfoy deveria fazer Harry saiu do salão comunal e se dirigiu até a Sala Precisa, sabia que Draco estava lá, na sala de sempre e mesmo que não tenha sido chamado precisava estar com ele ao menos alguns minutos. Passou pela tapeçaria três vezes e entrou pela porta que apareceu. Assim como havia pensado, ele estava li. Draco estava devidamente deitado em um colchão confortável no chão e rodeado de almofadas. Seus olhos estavam fechados, mas um sorriso mínimo se abriu sabendo que ali estava Harry.
- O que houve? – Perguntou Draco após Harry deitar e logo atacar seus lábios ávido de carinho.
Harry explicou o que aconteceu no lago para Draco que, apesar de não se interessar pelo bem estar das mulheres Smean, lhe deu toda a atenção que queria. O grifinório terminou sua narrativa dos fatos e ficou olhando para Draco, queria lhe dizer que o que lhe incomodava também era o fato de que ele sabia que Draco faria alguma coisa muito difícil e penosa e que queria ter conhecimento para poder ajuda-lo. Mas o loiro não lhe diria o que era, não lhe contaria nada como sempre fazia, apenas diria que no momento certo ele saberia. Harry suspirou derrotado e se aconchegou nos braços de Draco que lhe abraçou protetoramente e enterrou o nariz nos cabelos perfumados do menino.
"Eu queria poder te contar, Harry" pensou Draco acariciando seu braço sobre a blusa que ele usava. Ele queria mesmo, mas sabia que não podia. Seu disfarce estava completamente salvo já que sua oclumência estava muito boa a ponto de Voldemort só ver o que ele queria que visse. Caso descobrisse do caso com Harry poderia mentir dizer que o menino se aproximou dele e como um bom servo que era estava apenas verificando se a aproximação era algo de que poderia tirar proveito antes de contar ao mestre. Porém não poderia arriscar que Harry tivesse em sua mente as informações sobre suas missões, também não poderia parecer que gostava do moreno tanto quanto gostava. Ele precisava ser controlado e pensar sempre em cada conversa que teriam, cada momento que compartilhariam. Se Voldemort entrasse na mente de Harry poderia descobrir muita coisa e os meses em que lutou para garantir um lugar ao lado do Lord iria por agua abaixo. Não poderia fazer isso, mesmo que isso significasse mentir para Harry.
- Draco?
- Sim, Harry.
O moreno se ergueu sobre os cotovelos no colchão e olhou profundamente nos olhos cinza de Draco, percebeu ali uma sombra muito parecida com a que sempre via nos olhos de Severus. Era a sombra que antecedia algum sacrifício, aquele que espreita a pessoa esperando o momento certo para atacar e que quando ataca tira da pessoa toda e qualquer esperança de que algo possa melhorar. Draco estava com essa sombra. Ele iria fazer alguma coisa que seria talvez seu fim.
- O que você vai fazer Draco?
- Já lhe disse que meus assuntos são meus. Mas você não precisa se preocupar Harry, tudo sempre da certo. - Disse o loiro aproximando-se e tomando os lábios do grifinório nos seus.
O beijo era igual a todos os outros, lento no começo, apenas um reconhecer de lábios para então a língua vir avida por contato explorando cada canto, sentindo cada gosto. Harry ronronava baixinho em suas mãos enquanto se deitava sobre ele e acariciava seu corpo em busca de sua pele, sempre mais pele e menos roupa. Tudo seria belo, Harry sabia disso. Apesar de ser quem era, Draco sempre cuidou dele, todos aqueles dias juntos foram simplesmente magico. O loiro tinha carinho e preocupação com seu bem estar. Mas naquele momento em que Harry gemia em seus lábios pelo contato de sua mão com suas partes intimas não havia em Draco nada mais do que as dúvidas crueis de um amor recém descoberto em meio a espinhos antigos.
"E se tudo desse errado?"
Se tudo desse errado ele perderia Harry, pois não haveria como explicar, não haveria perdão, nem ele mesmo conseguiria se perdoar. Se tudo desse errado ele estaria perdido. Se tudo desse errado... nada poderia dar errado, Dumbledore lhe garantiu, disse-lhe que tinha uma carta nas mangas e que isso era a sua salvação. Enquanto sentia o calor interno do corpo de Harry o loiro pensava que tudo tinha mesmo que dar certo, caso contrário sua missão terá sido muito bem vinda.
Snape entrou em seus aposentos e retirou a roupa molhada jogando-a de qualquer jeito no chão. Tinha que descobrir mais coisas sobre Vany, tinha que saber o que ela tanto lhe escondia tão bem. Correu até seu quarto e abriu as portas do guarda roupas de qualquer forma tirando todos os pertences da veela que dividia sua cama. Ele tinha que descobrir. Revirou roupas e abriu bolsas, não havia, no entanto, nada que pudesse indicar que Vany era algo mais do que uma veela que gostava de se vestir bem. Mas teria que ter. Uma pessoa como ela não pode fazer algo extraordinário assim e simplesmente não ter algo escondido, seus maiores segredos, aquilo que não queria que ninguém jamais soubesse. Ele mesmo tinha, era sua alma negra, seu coração gelado, uma parte sua que precisava manter longe, mas perto o suficiente para saber que estava ali.
- O caderno! - Exclamou Snape lembrando-se de uma vez em que entrara no quarto de Riley para colocar a menina na cama e encontrara Vany sentada na cama da menina lendo o que parecia ser um simples livrinho que rapidamente foi guardado.
Sem pensar em mais nada jogou as roupas que ainda segurava em suas mãos e correu para o quarto ao lado. Era pequeno, então conseguiria achá-lo com facilidade, pelo menos assim pensava. Demorou mais do que havia imaginado. Revirou todos os livros da menina, todas as bonecas e brinquedos. Somente após socar a parede com raiva e bater o pé com força no chão que percebeu que encontrara o que precisava. A parte em que pisara com força tinha uma espessura diferente, um ar mais carregado. Percebeu que havia magia ali, magia usada para se ocultar alguma coisa. Rapidamente desfez os feitiços e então viu que ali no meio do concreto havia uma pequena portinhola que escondia um mínimo buraco no chão, nada mais do que um lugar pequeno onde só cabia um único caderninho pequeno, um livro que antes estivera nas mãos de Vany. Aquele era o canto dos segredos daquela que agora chamava de mulher. Daquela que confessava amar e daquela a quem se entregava com força.
Por um único segundo Snape hesitou. Aquilo era pessoal de Vany, era algo que ela não teve coragem de lhe contar, de compartilhar o segredo consigo. Não tinha ele mesmo seus próprios segredos que não queria que ninguém soubesse? Era ele o homem com um passado negro que o escondia de todos? Tinha então o direito de invadir a privacidade daquela mulher assim?
A duvida durou apenas um segundo. Quando passou Snape olhou para o pequeno livro e passou o dedo pela sua capa dura e velha feita de couro de dragão para melhor conservação de seu conteúdo. Era algo claramente importante. Abriu na primeira página, era amarelada e grossa, não havia nada escrito, nem na próxima pagina e nem na outra. Intrigado folheou as páginas até visualizar as palavras escritas em uma letra hora caprichada e hora garranchada como se o esforço de escrever fosse algo terminantemente cruel. Seus olhos negros captaram as palavras escritas e os números indicados não acreditando no que estava lendo. Queria acreditar que era tudo mentira. Vany ditara exatamente cada momento de sua vida referente ao seu poder, desde o dia em que o descobriu até o dia em que o curou. Inclusive as consequências de seus atos e os motivos por que o fizera.
"Sei que estou errada em fazer isso, sei que não devo mais me gastar assim como não devo me aprofundar nesse relacionamento estranho que tenho com ele. Eu sei, meu amigo, eu sei. Mas não há como evitar sentir o amor que sinto por Snape. Não há como não querer ficar perto dele quando o simples fato de olhá-lo se torna o mais absoluto prazer do meu dia.
O destino de Riley está nas mãos dele e o meu também. A visão está perto e meus dias estão menores.
Não sei em que estou me metendo, mas sei que vale a pena cada segundo perdido, cada dia a menos. Eu não tenho muito tempo."
Quando Harry abriu a porta dos aposentos pensou que tudo estava normal como em todos os outros dias. Tudo estava em seu devido lugar, os livros permaneciam parados na estante pegando pó, a lareira estava acesa aquecendo a masmorra, as poltronas vazias. Foi até seu quarto e trocou de camiseta antes de sair e procurar por Snape. Foi até o quarto do mestre de poções e o encontrou em pé olhando para a janela, o recinto estava impecável como sempre, não havia nada fora do lugar a não ser um pequeno livro em cima da cama. Harry podia perceber que Snape não estava bem, suas costas estavam tensas, seus dedos apertavam os braços cruzados e seu reflexo no vidro da janela demonstrava a expressão fechada e raivosa do homem.
- Pai? - Chamou Harry parado a alguns passos de distância.
Snape não respondeu, apenas descruzou os braços e ergueu a manga de suas vestes deixando seu braço esquerdo a vista. Harry viu a pele pálida iluminada pela luz, não havia nada ali, nem mesmo uma sombra da antiga tatuagem que se mexia horripilantemente e ardia ao ser tocada por seu mestre. Não havia lembranças da vida de comensal naquele pedaço de pele.
- Quem sou eu, Harry?
- O que?
- Vany está morrendo. - Disse Snape baixando a manga das vestes e se virando. Seus olhos queimavam de raiva. - Ela está morrendo e eu nem ao menos percebi.
- Como assim morrendo? Do que está falando?
Snape pegou o livro em cima da cama e jogou no colo do menino que nem mesmo teve tempo de abrir para lê-lo antes que o homem se aproximasse cuspindo as palavras em cima de si.
- Ela tem o dom da cura. Ela pode curar qualquer doença ou ferimento de qualquer ser vivo existente e em troca disso ela perde horas, dias, meses, anos de sua própria vida. Ela está morrendo e eu nem mesmo percebi uma coisa dessas. O que eu me tornei?
- Severus, o que isso tem haver com você ter se tornado alguma coisa?
- Porque ela dorme na minha cama e eu nem mesmo sabia que ela tinha esse diário. Sabe por que isso? Por que eu não tenho mais isso. - Indicou a tatuagem. - Eu virei um nada. Um inútil, um professorzinho de cabeças ocas que não serve para mais nada.
Snape estava com o ódio ardendo em sua epiderme, pinicava e o fazia querer queimar, explodir em mil pedaços.
- Desde que eu fiquei, que não morri naquela ala hospitalar eu simplesmente perdi tudo o que eu era. Se fosse antes ela jamais conseguiria mentir para mim, eu saberia, eu tinha instinto, conseguia perceber uma mentira nos olhos de qualquer um, sentia quando algo estava errado. Mas eu perdi, Harry, eu perdi tudo isso. Eu não sou mais o que era antes, e tudo porque agora me preocupo em como vocês estão, com a felicidade de Riley, se você está bem em seus estudos, se Vany está satisfeita e feliz. - Ele dizia andando de um lado para o outro passando a mão nos cabelos.
- Está dizendo todas essas bobagens só porque não é mais um comensal?
- EU ME TORNEI UM MALDITO PAI DE FAMILIA. - Gritou Snape se aproximando tanto que Harry foi obrigado a recuar encostando as costas na parede. - Eu estava bem como comensal, estava bem sem ter que me importar com... - Snape respirava profundamente, seus olhos brilhavam com loucura. - com vocês. Maldita hora em que vocês entraram na minha vida.
- Então pegue sua maldita vida de volta, Snape. - Retrucou Harry sentindo a angustia crescer em suas veias e as lágrimas quererem descer por seu rosto. Snape não fazia ideia de como suas palavras atingiram o menino tão profundamente e até mais do que qualquer maldição que Voldemort pudesse lançar nele. - Se somos um fardo para você, se eu sou um fardo para você então por que não nos mandou embora?
- Eu deveria mesmo, assim eu deixaria de ser esse retardado em que estou me tornando. Daqui a algum tempo serei tão idiota como Arthur Weasley.
- O senhor Weasley pode ser um idiota, mas é melhor pai do que você.
Harry nem mesmo viu quando aconteceu, só sentiu a dor intensa em seu rosto e seu corpo bambeando para o lado fazendo-o se segurar na parede para não cair no chão. Levou sua mão até a bochecha e sentiu como sua carne estava quente e molhada. O tapa dado fora tão forte que lhe causara um pequeno corte de onde escorria um filete de sangue misturando-se com as lágrimas atrevidas que Harry não conseguiu segurar. O menino olhou para Snape e o encontrou olhando para sua própria mão como se não conseguisse entender o que estava olhando, seus cabelos negros cobriam seu rosto e seus olhos arregalados de surpresa.
- Você prometeu. - Disse Harry baixinho fazendo Snape olhar para ele. - Tio Valter também me prometia, ele dizia que não faria mais e eu acreditava. Eu acreditei em você. Eu acreditei.
- Harry, por favor...
Não houve como terminar a frase, Harry já saíra de seus aposentos o deixando sem ação. Snape olhou novamente para sua mão sentindo o formigamento característico do tapa forte que deu no menino. Mas por que fizera aquilo? Por que agira daquela forma? Prometera jamais bater em Harry novamente, no entanto, acabara de arrancar sangue de seu rosto e tudo isso porque não conseguia aceitar que algo saíra de seu controle, que não estava mais a par de tudo e de todos como antes. Tudo isso porque não era mais o comensal gelado e desumano de antes. Tudo isso porque agora havia amor em sua alma, um amor que o consumia ao ponto de não aceitar que a mulher que ama possa morrer. Tudo isso porque estava com medo.
- Entre.
Snape abriu a porta devagar e entrou no gabinete do diretor encontrando-o lendo um pesado livro que deixou de lado ao avistar o mestre de poções. Dumbledore tinha uma aparência velha e acabada, parecia sentir finalmente o peso da idade que tinha. A porta se fechou com um baque seco e Snape se aproximou devagar da mesa do diretor, seus olhos queimavam o velho ancião enquanto chegava mais perto. Sua alma gritava, queria avançar contra ele e apagar a força aquele sorriso idiota que ele tinha nos lábios e que em nada enganava Severus. Dumbledore usaria de todas e quaisquer artimanhas para conseguir qualquer coisa que quisesse.
- Severus, meu caro. Fiquei sabendo do que aconteceu com a senhorita Smean, espero que ela esteja melhor.
Ouvir Dumbledore falar sobre Vany foi como uma rajada de vento violenta em seu rosto cortando a pele pálida. Sabia que o estado de Vany era, de alguma forma, culpa dele e que havia muito mais por trás das conversas do diretor com sua mulher do que ela queria lhe contar, mas naquele momento Snape teve que guardar as palavras dentro de si, pois necessitava obter mais informações daquele homem e para isso deveria tomar cuidado com seus passos.
- Vany está em observação.
- Espero que melhore logo. - Suspirou Dumbledore recostando-se na cadeira. - O que deseja Severus?
- Aconteceu algo hoje no lago, algo que não consigo explicar. - Começou Snape negando a cadeira que Dumbledore lhe indicou e ficando em pé apenas olhando para os olhos azuis dele atrás dos oclinhos de meia lua. - Riley entrou no lago e se afogou.
- Sim, Madame Pomfrey me contou, o que isso tem de não explicável?
- O que não consigo explicar é como consegui sentir que havia algo errado com ela, que ela estava em perigo e exatamente onde estava?
Snape se lembrou dos momentos de dor na beira do lago negro, a pontada aguda em sua nuca, o coração acelerado e mais ainda a falta de ar que lhe tomou como se ele estivesse se afogando também. Dumbledore não lhe respondeu imediatamente, apenas cruzou os dedos embaixo do queixo e ficou a pensar por longos minutos e por longos minutos Severus aguardou encarando-o e apenas respirando. Seus olhos estavam mais escuros e seu rosto mais escondido pelas sombras de seus cabelos lisos que caiam como cortina. Sua mão apoiada no espaldar da cadeira se apertaram a ela como se quisessem destruí-la.
- Acredito. - Disse Dumbledore após o que pareceu diversos anos. - Que sua aproximação com Vany e com Riley o deixou mais sensível a menina. Não se esqueça que por motivos ainda desconhecidos aquela velha citou você como guardião de Riley.
- Ela não me citou, citou qualquer homem.
- Sabe tão bem como eu como funcionam as visões, presságios e profecias. Elas são escritas ao acaso, citando fatos que dependerão de escolhas mundanas de leigos quanto a ela. Você escolheu ser esse homem Severus, você aceitou isso e esse destino se prendeu a você de tal forma que jamais o deixará. Sua aproximação com elas o deixou intrincado em suas vidas, você criou raiz a elas e por isso pode sentir o perigo que se aproxima de Riley.
Severus mordeu o lábio inferior com força sentindo quase cortar e se virou de costas para o ancião. Não queria que ele o visse, não queria mostrar para Dumbledore a confusão de sentimentos que tinha dentro de seus olhos. Não queria que o velho soubesse sobre a discussão brava que sua alma tinha com sua razão, os questionamentos e duvidas de que já não era mais o mesmo. Não queria admitir que estava com medo da mudança e que lutava para voltar a um estado de espirito a qual já não mais permitia. Não queria que ele soubesse, no entanto Dumbledore apenas balançou a cabeça e se aproximou postando a mão machucada e preta em seu ombro.
- Não é vergonhoso ter medo, Severus. - Disse Dumbledore baixinho fazendo Snape se virar. - Seu passado é amargo meu filho. Conheço-o há muitos anos e não me atrevo a dizer que sei sobre todas as suas magoas e crueis sofrimentos. O que você passou é inimaginável, mas aconteceu com você. Todo o caminho que seguiu contribuiu para que se tornasse aquela pessoa fria que não se importava com nada, que era da forma que era, poia não havia o que perder. Não havia amigos ou amores a quem poderia prejudicar e depois se remoer de remorso. Você não soube amar, Severus. Você não soube ser amado e quando isso aconteceu foi como se finalmente alguém abrisse os portões de sua prisão. Você não é mais um comensal, é um homem e como um homem normal você começou a viver junto com Vany, criou uma família, um laço mais forte do que seu senso de escravidão pessoal. Só que agora há pessoas ao seu redor com quem você se preocupa e tem medo de fazer algo que as machuque, pois vai machucar você também. É normal sentir esse medo Severus. Você quer voltar para sua prisão, sua escuridão, deixar-se ficar sozinho onde nada poderá atingi-lo. Mas essa prisão já não existe, Severus. Seu amor por eles é mais forte que qualquer parede que construiu em seu coração. Elas já foram destruídas e não há como reconstruir.
- Deixe de besteiras Dumbledore. - Sussurrou Snape. - Não tenho interesse para seu lenga lenga de contos de fada.
- Mas o escutou e como tantas outras vezes vai guardar para si minhas palavras e depois perceberá que são sábias e mais do que verdadeira. - Respondeu Dumbledore voltando ao seu lugar. - Há outra coisa que você quer me falar. Algo que deixou para depois que eu lhe explicasse sobre a menina Riley e a ligação entre os dois. Alias, antes que descarregue o que quer que seja em cima de mim, saiba que está ligação será muito importante daqui para frente.
- O que quer dizer? - Questionou Snape franzindo a testa e esquecendo quaisquer pensamentos que tivesse tendo a cerca das palavras do diretor. Seus ombros se tencionaram. Dumbledore sabia de algo, algo realmente importante. - O que você sabe.
- Não sei nada mais do que minha cabeça pode especular sem ter uma certeza correta. Nada que irei dividir com você nesse momento e nada com que deverá se preocupar tão cedo. Agora diga o que quer dizer.
- O que fez com Vany?
- Acredito que o motivo da senhora Smean encontrar-se na ala hospitalar em nada tem haver comigo.
- Sabe muito bem o que eu quis dizer Dumbledore. Você está jogando com ela. Eu descobri, depois de ser tolamente enganado, eu descobri o poder dela, eu sei que ela tem o raro dom das veelas ancestrais, o dom da cura.
- Sim, de fato ela tem sim. É um dom magnifico se quer saber. Muito forte, mas que requer um sacrifício tremendo de si mesma.
- Vida. - Disse Snape não percebendo que estava se debruçando sobre o diretor por cima da mesa do mesmo.
- Sim vida. Vany perde tempo de vida a cada cura. Todo dom poderoso vem com um pagamento.
- E você quer esse pagamento. - Dumbledore não respondeu a acusação. - Sinto vontade de me matar por ter demorado tanto para entender todo esse quadro, ter descoberto sobre o poder e a consequência e mais ainda, me culpo por demorar tanto para entender seu interesse maciço sobre ela. Ela é sua salvação. Para qualquer uma de suas opções. Ambas maldições da morte estão designadas a você e ela será seu seguro de vida.
- Sim. - Respondeu Dumbledore sem se importar com o ódio que viu nascer nos olhos negros de Snape. - Há uma linha tênue e muito frágil no momento da morte, o ultimo fio de ligação entre esse mundo e o outro. Aceito a morte como todo sábio deve fazer, mas não quero partir agora, não devo partir agora.
- Você quer trocar a vida de Vany pela sua? - Perguntou Snape olhando horrorizado para o homem. - Você vai mata-la.
- Há uma grande chance dela ficar viva.
- Você quer matar a minha mulher! - Snape não gritou, sua voz foi grave e baixa, mas era capaz de fazer tremer cada quadro daquele recinto.
- É preciso.
- Não vou permitir. Nunca. Você é louco e manipulador, Dumbledore, eu sei, eu já fui manipulado muitas vezes por você, mas não deixarei que tire a vida de Vany apenas para salvá-lo de sua própria burrice ao colocar aquele anel ou das consequências dos atos de Lucius.
- Você não tem que permitir nada. - Respondeu Dumbledore não se alterando em nenhum movimento, apenas observando o odioso Severus Snape esbravejar sua raiva. - Eu já falei com Vany e ela aceitou, ela irá fazer, ela irá me salvar.
- Eu não deixarei.
- Você não entende mesmo, Severus. Acha que uma mulher como Vany iria me salvar apenas .por que quer? Há algo atrás disso, algo muito maior do que você sequer imagina.
- O que?
- Uma visão, uma visão que atormenta essa mulher a anos e que está prestes a virar realidade.
- Que visão.
- Vany viu Riley nas mãos de Voldemort em um momento que nos é incerto. Na visão Riley era prisioneira dele e sofria as piores coisas que comensais podem fazer, acredito que saiba do que estou falando. - Snape sabia muito bem, mas preferia não pensar na imagem da linda menina loira sofrendo tudo aquilo. Simplesmente era irreal pensar. - Vany se viu encontrando a filha, mas Riley já estaria entre os dois mundos e sua alma estava tão destruída que seu dom não conseguiria ajudá-la. Porém, há uma coisa que Vany pode fazer e que nenhum bruxo no momento conseguirá. Na visão Vany entrega, de boa vontade, todo o seu tempo para a menina conseguindo então trazê-la de volta.
- Se Riley estará bem, por que Vany confiou em você? O que propôs a ela?
- Ela sabe, tão bem quanto eu que se essa visão se concretizar, Riley jamais será essa menina viva de hoje. Ela se tornará morta, sem qualquer indicio de vida. Ela não terá atravessado o véu para o outro mundo, ela não estará em nenhum dos lados, nem aqui e nem lá. Vany não queria que ela sofresse desse jeito, então eu propus que ela me salve e que assim eu salve Riley de uma forma que somente eu conheço, com um feitiço tão antigo quanto o próprio tempo.
- E então você resolve jogar com as pessoas novamente, Dumbledore? Não dará para Vany o feitiço que poderá salvar Riley, pois quer que ela o salve primeiro. Quer que sua vida seja preservada e a dela desperdiçada. Você é insano, Dumbledore, completamente insano.
- Acredito que nossa reunião tenha acabado, Severus. Com licença.
Dumbledore indicou a porta que abriu-se sozinha e então subiu o outro lance que levaria seus aposentos. Snape sentiu o corpo tremer após ficar sozinho no gabinete. Como Dumbledore poderia ir tão baixo? Como ele tinha coragem de fazer uma barbárie daquelas. Como? Snape não podia explicar, a única coisa que conseguia fazer naquele momento era derrubar todos os itens em cima da mesa de Dumbledore antes de sair pisando firme porta a fora.
A conversa com Dumbledore o deixara completamente irritado, o ódio fervia dentro de si, a raiva dedilhava as beiradas de sua razão. Queria mata-lo, seus dedos coçavam de vontade de prender-se ao seu pescoço e simplesmente quebra-lo. Chegou a sentir agua na boca com isso. A sede por matança não o incomodava, o que o incomodava era o motivo dessa sede. Ele não queria apenas se satisfazer, não era o mando de um mestre ou a consequência de um ato de comensal. Era agora a vontade de proteger. Snape mataria quem quisesse chegar perto de sua família nem que isso significasse matar aquele que mais confiou nele. Se fosse necessário Snape não hesitaria em puxar a varinha e matar Alvo Dumbledore.
