Capítulo 42 – Contagem regressiva
O mundo de Snape simplesmente virou de cabeça para baixo conforme sua mente processava o que a mulher havia dito. Seus negros olhos estavam nublados e estáticos como se houvesse saído desse mundo, mas Snape estava ali e de alguma forma estava consciente sobre tudo ao seu redor, inclusive a mulher linda, loira e perfeita que se ajoelhou na cama e colocou suas mãos macias em seu rosto. Ela mexia os lábios carnudos e vermelhos, que no momento estavam um pouco rachados, e parecia chamá-lo, seus olhos estavam arregalados e preocupados, tinham um brilho marejado e deles saiam delicadas lágrimas que escorriam por suas bochechas vermelhas.
De repente a mulher fixou os olhos aos seus e falou firmemente. Snape ouviu ao fundo a voz sedosa chegar aos poucos para consumi-lo com a força do encanto veela que ela carregava em seus genes, mas nem mesmo esse poder foi capaz de fazer com que Snape retornasse para a realidade, pois o mestre de poções estava preso em seus profundos devaneios, aqueles negros e amargos que trancou em uma prisão após a marca sumir de seu braço e de onde os piores sentimentos tentavam fugir enchendo-o de névoa intensa e espessa.
Grávida. Vany estava grávida.
Não que Harry não fosse seu filho ou mesmo Riley que tão recentemente tomou seu coração de forma límpida como só uma menina pura como ela conseguiria, mas o feto que lentamente crescia no ventre da veela continha seus genes, seu DNA, era definitivamente seu por inteiro, não haverá nele nenhum pedacinho de outro homem, nem James e nem Daniel, somente seu. Pela primeira vez poderia sentir o gosto de ganhar um presente que jamais fora de outro. Um presente divino que custava a acreditar.
Devagar ergueu a mão sem perceber que o fazia, pois seus olhos ainda estavam presos aos olhos da mulher, seus dedos tocaram levemente o ventre por cima da horrível camisola da ala hospitalar e um tremor irreal percorreu sua epiderme arrancando de sua boca um ofego surpreso. Por mais estranho que fosse, por mais impossível e irreal, ele sentia que seu filho estava ali dentro, ainda que soubesse ser apenas uma célula minúscula que se visto de perto nem mesmo poderia ser chamado de vida, ainda não. Era apenas um pedaço seu se desenvolvendo, entretanto estava ali e ele sabia.
E isso mudava tudo.
Sentiu dentro de si as dúvidas, medos e receios recuando como uma nuvem espessa que gritava enquanto Snape a empurrava para o fundo, bem no fundo de sua alma onde dessa vez não havia grades fracas ou rachaduras por onde poderiam vazar e espiralar por seu ser tomando-o novamente. A nuvem fora mandada embora, pois a decisão estava tomada, assim como no dia em que a marca quis lhe tomar a vida. Ele ficaria, ele ficaria por sua família, pelo amor que lhe foi dado. A nuvem foi trancada para sempre e ele voltou a realidade tomando o rosto de Vany em suas mãos e a puxando rapidamente fazendo seus lábios selarem o acordo mudo de jamais deixarem um ao outro. Ele lutaria por cada ser daquele pequeno circulo. Por Vany que lhe entregou não somente o amor, mas também a compreensão, carinho e companheirismo que somente uma esposa pode dar ao seu esposo. Por Riley que mais do que nunca está impregnada em seu instinto protetor, que ilumina sua vida com seu carisma inocente e que suja suas vestes com as mãos cheias de terra. Por Harry, ah, seu querido Harry que fora odiado desde antes mesmo de nascer, que fora rechaçado apenas por ser filho daquele que tanto destruiu sua vida e Harry que entrou em sua vida de uma maneira imprópria o preenchendo com sua verdadeira essência, seu ser de luz, aquele que deu o primeiro passo para sua redenção. E agora pelo pequenino ser que um dia carregará seu nome e levará seu gene pelas próximas gerações.
- Grávida? - Perguntou automaticamente como fazem todos os pais quando recebem a informação, mesmo que em seus corações a noticia já fora aceita. - Tem certeza? - Vany encosta sua testa junto com a dele e apenas afirma com a cabeça enquanto tenta controlar as lágrimas. - Como?
- É como? Será como pode explicar isso Senhora Smean?
A voz agitada e firme de Madame Pomfrey faz com que Snape se afaste de Vany deixando-a se deitar novamente na cama e se cobrir. Levou suas mãos aos cabelos negros e os arrumou novamente enquanto se levantou e se recompôs ficando próximo de Harry e Riley ainda sentados na outra cama, pelo canto do olho percebeu o movimento de Riley quando esta se vira de costas para a mãe e enterra o rosto no travesseiro. Que atitude estranha para se tomar quando se sabe que terá um irmãozinho, pensou Snape, mas não deu vazão a esse pensamento, apenas observou enquanto a medibruxa examinava Vany mais uma vez dando mais atenção ao ventre.
- Ora essa, não detecto nenhuma oscilação em sua estrutura física ou mágica. Nada que indique que está grávida, seu julgamento deve estar errado, é muito comum as mulheres sentirem-se estranhas depois de um mal estar e pensar em uma gravidez, ainda mais quando há tanta atividade como a que presenciei.
- Não estou mentindo. - Disse Vany rapidamente assim que viu o olhar ferino de Snape e ouviu seu rosnar.
- Então está dizendo que eu estou mentindo, ou que estou errada? - A enfermeira colocou as mãos na cintura e olhou fixamente para Vany que tentava se explicar.
- Acredite Madame Pomfrey, não estou dizendo que mentiu ou que está errada. Eu sei que estou grávida por causa do meu dom.
- Como assim seu dom? - Dessa vez fora Snape quem falara dando um passo a frente e franzindo a testa.
- Meu corpo precisa se adaptar a ele e se preparar para qualquer coisa que ele precise, se algo de errado acontecer estou pronta para ajudar o bebê de qualquer forma, foi a mesma coisa com Riley, eu sei que estou grávida.
- Bom, ainda não darei essa informação como certa, quando conseguirmos comprovar por meios técnicos e não por mero instinto que há mesmo um feto em seu ventre então começarei a cuidar dele.
- Tudo bem. - Disse Vany recostando-se no travesseiro e observando a mulher ir embora. - Ela é velha, mas bem firme quando quer.
- Nem sabe o quanto. - Comentou Harry se aproximando meio sem jeito. - Hãmm, parabéns Vany, pelo bebê.
- Obrigada Harry. - Respondeu a mulher dando um sorriso.
- Deve ser legal ter um segundo filho.
- Terceiro.
A afirmação pegou Harry de surpresa. Mesmo que Vany sempre tenha sido muito legal consigo e o tratado com carinho, Harry não era seu filho de sangue e nem tinha uma ligação tão forte como tem com Snape, por isso a noticia do bebê o deixou feliz e receoso ao mesmo tempo. Seria deixado de lado? Não reclamaria se fosse, Vany tem todo o direito de dar seu amor para aqueles que foram gerados por ela, mas sentiria muito. Afinal, nunca houve ninguém que um dia pudesse cogitar chamar de mãe, a não ser naquele momento.
- Terceiro. - Disse Vany novamente segurando a mão de Harry e sorrindo para ele que ficou totalmente sem jeito e apenas balançou a cabeça antes de ir em direção a porta.
- Espere Harry, irei com você.
- Pensei que ficaria aqui comigo, quero conversar com você sobre as opções...
- Agora não é a hora e nem o lugar. - Indicou Riley deitada na cama ao lado e que poderia muito bem ouvir os dois conversando sobre o futuro que os aguarda. - Descanse, conversaremos depois.
- Está bem. Até mais.
Snape despediu-se da mulher e então seguiu Harry porta a fora. O caminho foi silencioso até onde se separariam, foi quando Snape simplesmente virou-se para Harry e o menino percebeu que ali estava novamente o Snape que conhecia, aquele que tinha em sua cabeça milhares de pensamentos sobre coisas importantes que aconteceriam, que maquinava os atos posteriores e arrumava as peças de xadrez no tabuleiro apenas esperando a primeira jogada.
- Espero que estejamos entendidos, Harry.
- Sim estamos.
- Ótimo.
Não houve mais trocas de palavras, não havia o porque, Snape seguiu seu caminho e Harry o dele. Ambos sabiam e sentiam dentro de si que as palavras não conseguiriam expressar mais do que já fora dito antes. Mais uma vez o laço fraternal dos dois amarrava-os com nós firmes e fortes, praticamente impossíveis de serem desfeitos.
Harry chegou diante do quadro da mulher gorda e recitou a senha esperando enquanto a mulher girava o quadro lentamente devido Harry tê-la despertado de uma gostosa soneca. A sala comunal da Grifinória estava como sempre cheia. Afinal já era noite de domingo, nem mesmo percebera que o tempo passara assim tão rápido. Alguns alunos estavam dispersos pelos cantos, os mais novos estudando preocupados com os exames finais e os mais velhos namorando, conversando ou com a cara enfiada no livro como Hermione.
- Vê se não come a capa Hermione, a escola ainda precisa do livro para outros alunos. - Comentou sentando-se na poltrona recém liberada por um quartanista.
- Estamos próximos aos exames finais, Harry, Temos que nos sair muito bem para que possamos continuar nas turmas dos N.I.E.M.s. - Disse a menina com os olhos presos em Rony cujo livro estava devidamente fechado dentro da mochila.
- O que? Se eu estudar mais meu cérebro explode. - Exclamou Rony enfiando alguma bala gosmenta na boca.
- Nem venha me pedir as anotações um dia antes das provas. - Rony resmungou algo como "não ia pedir mesmo", mas Harry sabia muito bem que o ruivo pediria as anotações de Hermione e que a menina, por mais raiva que pudesse ter de Rony tanto por sua falta de senso como pela ex namorada Lilá, emprestaria seus cadernos e pergaminhos ao menino. Eles eram muito previsíveis. - Ei Harry! - Exclamou Mione afastando bichento de suas pernas, o gato reclamou e correu para o dormitório das meninas sendo seguido por Almofadinhas e seu rabo de espanador. - Como estão as coisas?
- Riley já está bem melhor, só ficou repousando, amanhã ela já deve ter alta, Vany ficará um tempo ainda de observação porque... - Nesse momento Harry baixou a voz quase para um sussurro. - ...ela acha que está grávida.
- Grávida?! - Exclamou Rony fazendo todos olharem para eles. Hermione lhe deu um tapa na cabeça e o fez se aproximar para que Harry pudesse falar mais tranquilamente.
- Sim, grávida. Ela diz que sabe porque o corpo dela tem que se adaptar ao feto e estar preparado para qualquer coisa que ele precise.
- Ai que lindo. - Disse Hermione com os olhos brilhando, a menina sempre se deu muito bem com Vany nos poucos momentos em que se viram.
- Ai que nojo. Um filho do morcegão, credo.
- Rony, cala a boca! - Ralhou Hermione.
Rony olhou de Hermione para Harry demorando um tempo para entender o que estava estampado nos olhos da castanha, foi só depois de muitos segundos que entendeu a mancada que dera e tentou se desculpar com Harry. O moreno sentiu dentro de si a ofensa contra Severus e como não gostou dela, mas perdoou o amigo, pois se nunca tivesse esse tipo de relacionamento com o professor provavelmente teria falado coisa pior. Tentando não brigar com os amigos Harry apenas balançou a mão como se não tivesse sido nada, engoliu a dor da ofensa e tentou mudar de assunto.
- E ai, alguma novidade?
- Não, as mesmas coisas de sempre, mas queremos discutir algumas coisas sobre Malfoy.
Harry olhou bem para Hermione e mordeu os lábios tentando prender dentro de si a verdade de seu caso com o loiro. Odiava ouvir as palavras que disferiam em direção ao sonserino, palavras que foram gravemente incentivadas por ele, mas sabia que deveria entrar na dança com os amigos, primeiro porque ninguém deveria saber que é mais do que amigo de Draco, segundo que ele mesmo quer discutir o que Draco irá fazer, pois o loiro se nega a lhe contar. Após muitas discussões e muitas mordidas no lábio para não deixar escapar nenhuma defesa em nome do loiro, finalmente Harry saiu da sala comunal da Grifinória e desceu até as masmorras com Almofadinhas ao seu lado frustrado por Bichento ter arranhado seu focinho quando tentou subir na cama de Hermione. Ao chegar em seus aposentos os encontrou vazios e escuros. Com um aceno de varinha acendeu a lareira e algumas velas e archotes pendurados lançando luz nas sombras difusas de onde sempre saem os piores pesadelos, mas o que saiu das sombras foi a figura vestida de negro abotoando o sobretudo e colocando a capa nos ombros. Os olhos negros afastaram-se apenas por um momento dos botões de sua roupa e pousaram nas suas esmeraldas já claramente arregaladas de surpresa.
- Vai sair? - Perguntou Harry mais por hábito do que outra coisa, mas o fato era mais do que claro.
- Vejo que seu senso do óbvio continua afiado, Harry. - Disse Snape dando um sorriso sarcástico antes de colocar a varinha devidamente guardada na manga de seu sobretudo.
- Você não pode sair. Você está sendo caçado Severus, precisa ficar no castelo.
- O fato de não ter mais a marca negra não quer dizer que não tenha mais minhas habilidades. - Disse Snape calmamente dirigindo-se a porta. - Tenho tarefas a fazer, não se preocupe, nenhum comensal chegará perto de mim.
- E Voldemort? - Apesar de todo esse tempo sem a marca, Snape ainda estremeceu de leve e fechou a mão em punho. - E se ele te achar?
- Não achará.
- Como pode ter certeza?
- Porque eu tenho um objetivo e ninguém vai me impedir, nem mesmo o Lord.
- Não posso te deixar ir Severus.
- Harry. - Chamou Snape abrindo a porta que dá para o corredor, mas voltando-se para o menino que estava claramente preocupado a ponto de mexer os dedos nervosamente em direção a sua varinha no cós da calça, mas receoso devido as lembranças de momentos como esse que quase cortaram a linha que enlaçava os dois. - Já lhe disse que não quero jamais lhe machucar, mas se tentar alguma coisa serei obrigado.
- Por que?
- Porque isso é maior do que o meu querer, Harry, preciso protegê-los.
- De que maneira? Onde está indo? Ao menos me diga onde vai.
- Tenho que encontrar alguém. - Harry franziu a testa em clara dúvida o que fez Snape apenas sorrir torto. - Preciso achar a velha da profecia.
Snape voltou na manhã do dia seguinte, mas nada disse referente ao que fez ou onde foi, na verdade não havia muito o que falar, sua busca fora completamente infrutífera. A iniciou na Rua da Fiação onde sua antiga casa estava agora constantemente vigiada por dois comensais, Snape revirou os olhos ao perceber quem eram, Wilson e Ruberman, dois idiotas que nem sequer conseguiram boas notas na escola, se é que terminaram a escola. Receberam a marca há pouco tempo, um ou dois meses antes do Lord descobrir seu disfarce, e o único motivo para a marca dançar em seus braços era porque a maldade dentro deles era insana demais para o Lord os deixar soltos.
Não havia preocupação em ser visto, seu feitiço de Desilusão era poderoso o bastante para dançar na frente daqueles dois sem que sequer imaginassem o que estava acontecendo. Sorriu por dentro orgulhando-se de suas técnicas de espião, de suas habilidades e sentidos aguçados que não deixavam nada escapar por entre seus dedos. Se fosse Ruberman, que andava a esmo pelo velho quintal da casa, já teria detectado o leve movimento que deslocou o ar de forma não natural indicando que havia alguém ali, mas o comensal apenas cuspiu no gramado alto e continuou a andar sem se preocupar com as sutilezas suspeitas a sua volta.
Apesar de estar tão perto de casa, de ter apenas que pular uma janela para ver-se na sala de estar que durante tantos anos fora o refúgio sombrio de suas férias, Snape virou as costas para a casa e se adiantou para o outro lado da rua onde a bela casa com jardim encontrava-se ainda bela e com um jardim florido. Vany deveria ter deixado algum feitiço ativo para que as flores fossem devidamente regadas e protegidas enquanto estivesse fora daquele lugar, mas com um feitiço de desilusão por cima para mascarar o fato de que não havia ninguém ali para cuidar do jardim e ainda assim ele parecia perfeito aos olhos de quem visse. Havia mais dois comensais vigiando a casa de Vany, dessa vez eram pessoas mais inteligentes e capazes do que Wilson e Ruberman. Davis e Cury eram como dois cães de caça sempre alertas para qualquer movimento que pudessem ver ou sentir. Eles eram perigosos e Snape sabia disso, por esse motivo tomou muito cuidado ao adentrar o jardim e se dirigir a porta da frente da casa. Qualquer pegada, movimento ou até mesmo a respiração era motivos suficientes para que os comensais o atacassem e mesmo sendo poderoso e forte seria arriscado demais ser descoberto por comensais quando o Lord queria sua cabeça, novamente.
Finalmente dentro da casa Snape procurou por qualquer indício da velha senhora da profecia, buscou em anotações antigas nos diários de Vany, mas a mulher não lhe ajudou em nada, pois os diários estavam apenas com as informações banais de seu dia a dia, não havia uma única linha com a informação que precisava. Sabia que deveria pedir para Vany lhe dizer sobre a velha, até mesmo ver as lembranças dela de novo, mas isso resultaria na preocupação da mulher, era melhor ela não saber, estava em um momento delicado. Tinha que descobrir por conta própria. Mas sua visita àquela casa não dera em nada, por isso voltou ao castelo ainda com o pensamento no que deveria fazer.
Passaram-se dias, Vany voltou para seus aposentos com a recomendação de cuidado de Madame Pomfrey que ainda não acreditava na gravidez, ela precisava de uma comprovação por exames bruxos para começar a cuidar do bebê, ainda assim disse que ficaria de olho na mulher. Riley também voltara a sua rotina normal de todos os dias, porém agora mais calada e reservada, aberta a novas conversas apenas com Hagrid quando saiam para alimentar algum bicho ou cuidar do canteiro do meio gigante, Vany explicara que a menina estava com ciúmes devido o irmãozinho. Harry e almofadinhas andavam sempre juntos e Snape teria reparado na tensão sobre os ombros de seu filho se não estivesse tão preocupado com o passar dos dias a ponto de voltar a ser odiado pelos alunos.
- Seis anos não foram o suficiente para entender os princípios básicos da magia, Senhor Weasley?
- Foram, sim senhor. - Resmungou Rony amaldiçoando não ter faltado naquela terça.
- Então por qual motivo ainda não consegue executar um feitiço não verbal em sua dupla? Devo encaminhá-lo de volta ao primeiro ano onde se encaixaria melhor, concorrendo por atenção com bruxos do seu nível?
- Estou tentando, senhor.
- Dez pontos para a Grifinória por sua incompetência. Longbottom! Eu disse feitiços não verbais, feche esses lábios ou eu mesmo os colarei, vinte pontos para a Grifinória.
Snape rodopiou a capa e se dirigiu a sua mesa onde sentou e aguardou os alunos terminarem de se matar no meio da sala para só depois sair e mais uma vez se embrenhar pelos livros velhos e malcheirosos das grandes bibliotecas bruxas de Londres e muitas vezes de outros países.
- Sabe que fico preocupada com essas suas saídas. - Disse Vany retirando a capa de viagem de Snape e pendurando-a no cabideiro. - Já falei que não vai conseguir encontrar nada sobre aquela mulher, ela apareceu do nada, não sei quem ela era, ou de onde veio. Você já olhou minha mente mais de uma vez.
- Tem que ter alguma coisa, toda e qualquer profecia é catalogada pelo Ministério e guardada. Mesmo com a destruição do departamento de profecias, sempre há arquivos antigos daquelas que nasceram com esse dom, infelizmente esses arquivos são dificílimos de se achar, principalmente se a pessoa já é velha.
- Por que é tão difícil? - Questionou a mulher franzindo a testa. - Todo arquivo deve ser encaminhado para uma biblioteca do ministério responsável pelo país onde a profecia foi efetuada, certo?
- Sim, mas há uma brecha nessa regra. Muitos bruxos que não queriam que as profecias caíssem em mãos erradas usavam feitiços poderosos para enganar o sistema, são feitiços antigos em que a pessoa multiplica sua essência em dezenas e as espalha pelos países ao redor do mundo, como se fossem copias e quando uma diz a profecia todas elas dizem ao mesmo tempo. O arquivo da profecia fica onde o verdadeiro bruxo está, mas o difícil é saber qual era a verdadeira e consequentemente onde o arquivo da profecia foi parar.
- Que coisa louca. Mas Severus, não se pode dividir a alma. - Snape olhou de relance para a mulher, mas rapidamente escondeu seu olhar, as vezes era melhor não saber de algumas coisas do mundo da magia.
- Não se divide a alma nesse caso e sim a magia. É um feitiço difícil e antigo, foi banido pelo Ministério há muitos anos por causar danos muitas vezes irreversíveis a quem o faz. A pessoa divide sua magia em uma forma substancial de si mesma e a espalha por onde quiser. Minha duvida é porque aquela velha fez tal feitiço com uma idade tão avançada para avisá-la do perigo que corriam. Por que? Por que proteger Riley era tão importante a ponto de arriscar a própria sanidade?
- Não sei meu amor, mas já está tarde, vamos deitar. - Disse Vany pegando na mão de Snape e o fazendo se deitar ao seu lado. – Pensamos nisso depois.
Snape acomodou-se embaixo das cobertas e aguardou a mulher se aconchegar em seu peito antes de abraça-la protetoramente com o braço acarinhando-a delicadamente.
- Como você está? - Perguntou Snape baixinho em meio as sombras da noite.
- Estou bem, Severus, Madame Pomfrey disse que meus níveis de magia estão quase cem por cento curados.
- Você usou seu poder?
- Não, eu prometi a você que não faria isso, não usarei meus poderes a não ser que seja extremamente necessário. Não se preocupa comigo, tudo ficará bem.
Snape queria realmente acreditar nisso, mas algo dentro dele lhe dizia que nada ficaria bem.
A tensão sobre o ombro de Snape o fazia sentir como se seus músculos tivessem virado pedra. Eram três horas da madrugada de quarta e ele continuava acordado enquanto Vany ressonava calmamente ao seu lado. Devagar, para não acorda-la, saiu da cama e ficou por alguns minutos apenas sentado na beirada olhando fixamente para o armário. Depois de muito tempo levantou-se devagar e colocou suas vestes, precisava caminhar, precisava pensar e não conseguiria fazer isso ali, ao lado de Vany, ao lado de sua família, pois o que precisava sentir não era nada condicente com o que um pai e marido deveria pensar.
Os corredores de Hogwarts estavam vazios, nem mesmo os fantasmas caminhavam por ali, Snape estava definitivamente sozinho, pelo menos até chegar ao sétimo andar.
- O que faz fora da cama, Draco? - Perguntou Snape vendo-o aparecer ao lado da tapeçaria que escondia a Sala Precisa.
- É meio óbvio, Snape, é inteligente o suficiente para saber o que eu estava fazendo.
- Pode ter se tornado o brinquedinho do Lord, mas não aturarei desaforos seus.
- Não me amola, Snape, tenho coisas demais para pensar sem ter você me enchendo o saco.
Draco não viu o movimento, não soube quando foi executado e nem de que lado, só sentiu o corpo bater fortemente na parede e o hálito gelado do mestre de poções próximo ao seu rosto, tinha cheiro de whisky.
- Não pense que pode me tratar como bem entender Draco, você ainda é meu aluno e um reles comensal da morte que não sabe nada do que lhe aguarda.
- Você é que não sabe nada, Snape. - Rosnou Draco tentando em vão se livrar das mãos do professor. - Você não sabe nada do que eu sou capaz.
Snape franziu a testa ao ouvir as palavras de Draco, imediatamente ergueu a varinha e prendeu seus olhos aos olhos do menino invadindo sua mente, porém o ato foi rapidamente bloqueado pelo loiro.
- Não tente entrar na minha mente, Snape, não vai conseguir nada. Nem mesmo o Lord consegue ver minhas lembranças além do que eu o deixo ver.
- Não se esqueça de quem lhe ensinou a fechar a mente, Malfoy. - Sibilou Snape baixinho fazendo Draco se arrepiar. - Acha mesmo que se o Lord ou algum de seus comensais fossem mais competentes em Oclumência e legilimência eu ainda estaria aqui? Não há o que você esconder de mim, eu sempre vou descobrir.
A varinha foi novamente apontada para Draco que gritou quando Snape invadiu sua mente de forma violenta forçando suas garras pelas paredes postas ali para impedi-lo. Uma a uma as paredes foram quebradas e destruídas até que não restasse mais do que uma nuvem fina e cinza encobrindo as grotescas imagens seguintes.
Não houve surpresa ao ver o comensal louco rindo em meio a diversos cadáveres de trouxas aos seus pés. Sua face pálida estava manchada com sangue rubro, seus olhos brilhavam de loucura e seus cabelos balançavam enquanto o vento levava o odor podre dos corpos em decomposição. Viu também os atos impensáveis, a morte que pegava carona nos ombros de Draco até que fosse levada à próxima cena de crime. Ele conhecia bem aquela estrada, era a mesma que percorrera ao se tornar comensal do Lord, seu braço direito, viu em sua mente as antigas imagens dele mesmo em pé sobre uma poça de sangue sentindo a humanidade se esvair de seus dedos. Viu o Draco da lembrança fechar os olhos para saborear a glória do poder amaldiçoado dos assassinos.
Ao sair da mente do menino o viu cambalear e se segurar na parede enquanto o encarava com fúria, aquele jamais poderá ser novamente seu aluno preocupado apenas em ser o mandão da turma. Draco estava rachado e se não tomasse cuidado acabaria se quebrando.
- Draco, você não pode se deixar levar pela emoção desses ataques, não pode se perder dessa forma, precisa resistir.
- Resistir? - Questionou Draco olhando loucamente para Snape como se a figura de negro a sua frente fosse a própria personificação da loucura. - Acha que não tentei? Eu tentei Snape, a cada momento em que minha varinha rasgava a pele de um maldito trouxa, eu tentava. Eu via o sangue jorrar e manchar minhas vestes, eu ouvi os pedidos deles de clemencia enquanto eu era vigiado pelo próprio Lord e obrigado a matar aquelas pessoas. - Draco gritava com Snape atacando-o veemente sem ter tempo nem mesmo de respirar. Saliva saia de sua boca com a raiva de suas palavras. - Eu esvaziava minha mente para que o Lord não percebesse e então eu sentia aquela coisa aqui dentro da minha barriga como se fosse um monstro que me queimava e tentava sair e cada vez que eu matava ou fazia coisas piores ele rosnava querendo sair.
- Não pode permitir. - Disse Snape com calma irritando Draco que queria que ele gritasse, que esbravejasse de forma ameaçadora. - Não pode permitir-se cair nesse prazer. Ele é falso, a sensação boa que você sente ao se libertar de todos os pudores e se tornar presa de seus instintos só farão com que tudo fique pior depois, a culpa vai te consumir, te destruir até o dia em que te matar.
- Facil para você falar, não é? Não tem mais que fazer isso, está salvo aqui embaixo das asas de Dumbledore com sua família perfeita, protegido enquanto eu estou lá fora fazendo... coisas. - Terminou com um suspiro. - Diz para eu ser forte, mas não sabe como é.
- Não sei?
Draco olhou para Snape ao ouvir sua voz baixa, mas ameaçadora, ao olhar atentamente em seus olhos percebeu que o carvão estava pegando fogo e as chamas calmas eram tão cruéis quanto a fúria de um vulcão. Snape deu um passo pequeno a frente, suas mãos firmemente presas ao lado do corpo tenso, seus cabelos caídos sobre o rosto pálido.
- Acha que não passei por tudo isso? Acha que não senti as mesmas coisas? Que não tive que matar, torturar, estuprar, violentar inocentes de forma que sua mente inóspita não conseguiria sequer imaginar? Acha que é difícil agora, que está na beira do abismo? Eu cai no abismo, eu fui ao fundo do poço e ao contrário de você, eu não tinha ninguém em quem me apoiar a não ser a promessa feita a um cadáver. - Draco nem mesmo reparara que Snape estava tão perto de si novamente, estava tão preso nos negros olhos vendo ali as imagens que ele falava que nada mais importava ao redor. - Acha que sou sortudo por ter uma família? Eu passei minha vida inteira apenas esperando o momento de poder morrer, sozinho.
- Isso tudo é para que eu tenha pena de você? - Perguntou Draco tentando desafiá-lo para mascarar o nervosismo que sentia com as palavras do mestre de poções.
- Não preciso da sua pena. Isso é para que pare de chorar pelos cantos como se fosse a única alma na terra que precisasse fazer algum sacrifício e para que perceba que ao contrario de muitos você tem a sorte de ter alguém em quem se apoiar. Não desperdice isso, o caminho não é tão fácil, nem menos torturante sozinho. Você fez a escolha Draco, agora lide com ela.
- Foi ele quem deu a ideia. - Gritou quando Snape deu as costas e caminhou-se para a porta. - Ele que disse para eu virar espião para Dumbledore e agora tenho que fazer tudo isso, tenho que...
- Que choramingar pelos cantos como uma garotinha fraca? - As sobrancelhas de Snape se ergueram com o velho desprezo de sempre. - Como um bom sonserino você tende a por a culpa nos outros, é mais confortável, mas foi você que aceitou e apesar de tudo ele ficou do seu lado em todos os momentos. Não vê como tem sorte? Conte a ele.
- Mas e se... - Começou Draco deixando Snape perceber a fraqueza e vulnerabilidade que aquelas duvidas tão adolescentes o faziam sentir. - E se ele me condenar.
- Dê a ele a chance de julgar.
Era manhã de quinta quando Harry sentiu alguém cutucar seu braço.
- Pare de sonhar acordado Harry, Professora McGonagall não para de olhar para você. Presta atenção na aula. – Ralhou Hermione voltando a atenção para a explicação da professora sobre alguma guerra muito importante entre bruxos e duendes vermelhos há tantos anos antes que Harry tinha preguiça sequer de pensar.
Rony estava em estado pior que o seu, quase babava de tanta preguiça e desatenção. Deu um cutucão no amigo e o viu se sobressaltar com o susto só não chamando a atenção da professora Minerva, pois a mesma estava de costas para eles. Rony resmungou, apoiou a cabeça na mão e fingiu anotar as informações. Harry balançou a cabeça e voltou a atenção para seu livro, foi quando percebeu que havia uma folha pequena dobrada em cima de sua mesa. Tentando ser discreto abriu o papel e leu seu conteúdo. Era pequeno, com poucas coisas escritas e estava amassado como se quem o escreveu tivesse tentado jogar fora, mas no último instante desistisse. A letra era feia, apressada e as vezes ilegível.
"Me encontre no mesmo lugar de sempre, no mesmo horário. Temos que conversar."
Qualquer outra pessoa que lesse jogaria fora, afinal, nada de importante estava realmente escrito ali, poderia ser qualquer coisa destinada a qualquer pessoa, mas Harry sabia do que se tratava, por isso guardou o pergaminho na mochila e continuou a copiar o que a professora Minerva escrevera no quadro negro, ainda tinha muitas horas até descobrir o que Draco queria.
Dentro da Sala Precisa um passarinho piava voando livre pela enorme sala onde fora solto há pouco tempo, porém apesar do espaço enorme, aquele não era seu território, não havia suas árvores amadas, o céu infinito e o vento que batia em suas penas. Por isso, seguindo o instinto, o passarinho vagou até encontrar o portal por onde viera, pousou no alto do armário e aguardou, uma hora alguém abriria a porta que o levaria diretamente para onde viera, diretamente para a Travessa do Tranco onde seres encapuzados andavam pelas sombras até a loja suja e vazia de clientes, mas cheias de coisas suspeitas.
- Madame Lestrange, que prazer recebê-la em minha loja.
- Poupe-me a bajulação Borgin. – Rosnou Bellatrix para o homenzinho atrás do balcão. – Onde ele está?
O homenzinho não respondeu a princípio, apenas adiantou-se até a porta e virou o letreiro indicando que estavam fechados, depois seguiu por uma porta atrás do balcão indicando para que a mulher o seguisse. Bellatrix, mesmo odiando receber ordens que não viessem de seu mestre seguiu o homenzinho até uma sala quase vazia, exceto por um grande armário velho e feio e uma poltrona surrada ocupada por um comensal encapuzado.
- Saia Borgin. – Ordenou Bellatrix com um gesto de mão deixando o dono da loja contrariado. – Quero conversar a sós com meu querido sobrinho.
Assim que o senhor Borgin fechou a porta, Bellatrix caminhou até diante do armário e o admirou como se fosse a coisa mais bela que já havia visto, ignorando totalmente a pessoa na poltrona estendeu a mão e tocou a madeira lisa sentindo-a impregnada de magia.
- Funciona? – Questionou finalmente virando-se para o comensal.
- Sim.
O comensal ergueu a cabeça e a olhou por entre as fendas da máscara prateada. A máscara era nova, dava-se para perceber por estar lustrosa, porém continha em sua superfície uma quantidade de marcas e símbolos grande demais para um comensal novato como ele. Draco levantou-se e retirou a máscara expondo seus olhos cinzentos e frios, pendurou-a no cinto e como mania deixou a mão repousando em sua superfície sentindo nas pontas dos dedos os cortes uniformes que ele mesmo fizera. Uma marca, um símbolo, um risco raivoso, não importava o que era, no entanto que a imaculada superfície prateada fosse marcada a cada pecado cometido, Draco evitava saber quantos riscos já fizera.
- Como posso ter certeza de que não estará nos enganando?
- O Lord confia em mim.
- O Lord já esteve errado uma vez, pode estar errado agora. – Sibilou Bellatrix olhando intensamente para o sobrinho, Draco permanecia duro. – Não engulo essa história de que do nada meu sobrinho medroso desejou do fundo de sua alma virar um comensal dedicado. Tem algo por trás disso.
- Se suspeita tanto assim de mim, tia, você pode levar suas suspeitas até o Lord e ver o que ele dirá sobre isso. – Disse o loiro sabendo que por mais que suspeitasse, a comensal jamais falaria algo para Voldemort. – Ou... pode entrar ai comigo e provar que é verdade.
Os olhos grandes de Bellatrix arregalaram-se enquanto sentia o desafio lançado pelo menino. Olhou novamente para o armário e então para Draco antes de sorrir de canto e estender a mão.
- Junto então, querido sobrinho.
Draco olhou da mão com unhas grandes e negras pelo tempo em Azkaban para o rosto com traços duros, seus escuros olhos eram afiados e desconfiados, ela era esperta e trazia uma malicia maligna em sua alma que chegava a ser tóxica. Com impaciência aceitou a mão dela e abriu a porta do armário, estendeu a varinha e recitou um feitiço em uma língua morta e esquecida pelo tempo, algo tão estranho que era difícil entender o que ele falava. A porta então abriu e por ela saiu uma fumaça negra que invadia o espaço causando um mal estar em quem estivesse a sua frente. Draco sorriu de canto e puxou Bellatrix pela mão adentrando ao armário, quando tudo escureceu ouviram o som de um passarinho voando em cima deles antes que a porta a suas costas batesse.
Quando a luz voltou aos seus olhos Bellatrix avistou a enorme Sala Precisa com todos os pertences de alunos e professores de anos e anos, mas não era isso que fazia seu rosto tornasse radiante de prazer, estava finalmente dentro de Hogwarts e prestes a efetuar o maior golpe bruxo que já fizera, mesmo que esse prazer seja todo de Draco.
- Tudo bem, estou satisfeita, mas quero saber, como sabe que amanhã será o dia perfeito para atacar Hogwarts? Não vá me dizer que Dumbledore também te trata como um filho.
- Tenho minhas fontes, não preciso do diretor para saber as coisas, sei que amanhã ele estará fora do castelo até bem tarde, é ai que entramos.
- Amanhã.
- Sim, amanhã, sexta.
- Tudo bem, vou voltar, tenho coisa demais para fazer antes de amanhã. Até mais, querido sobrinho.
Draco não respondeu, apenas recitou o feitiço novamente e viu Bellatrix ser engolida pela escuridão do armário até que nada mais restasse além do silêncio da Sala Precisa, quebrado apenas pelo bater de seu coração. Seus joelhos fraquejaram e quando tocaram o chão a sala já não era mais a mesma, ali estava a sala onde sempre ia para descansar e pensar, para descarregar as emoções que sentia e para se encontrar com o moreno.
Harry chegou algumas horas depois, como de costume não bateu a porta, apenas entrou e encontrou Draco em pé olhando por uma janela que não tinha antes, uma janela que ele pediu para a sala ao invés de ficar deitado na cama aguardando.
- Draco, o que houve?
- Temos que conversar.
- Isso eu sei, li seu recado, mas quero saber do que se trata.
- Harry, estou prestes a fazer algo extremamente perigoso e cruel.
- Direto.
- Não posso enrolar, apenas quero que saiba disso, porque sei que não vai querer me ver depois.
- O que você fará?
- Não posso contar.
- Então você simplesmente me diz que vai fazer algo tão ruim que irei querê-lo longe e nem mesmo me conta o por quê?
- Exatamente.
- Ok, fique com seus segredos, Draco. – Disse Harry jogando o papel com a mensagem do encontro no chão e indo até a porta para ir embora.
- Para de besteira. – Ralhou Draco segurando o braço do menino. – Estou tentando ter uma conversa séria com você.
- Sério? – Ironizou Harry. – Você nunca tem uma conversa séria comigo, Draco. Eu sempre te pergunto tudo e você não me dá uma única resposta decente. Eu estou todos os dias do seu lado te apoiando em tudo, te dando forças para o que precisar, cuidando quando chega ferido e sem fazer perguntas além das necessárias. Eu sempre espero que você diga algo, mas você nunca diz e quando eu pergunto você não responde.
- Não é tão simples assim, Harry. Não posso participar de um jogo de verdades ou mentiras com você.
- Por que não?
- Por que... por que você vai querer ir embora quando ouvir as respostas.
Harry ficou desarmado depois disso, não havia como simplesmente atacar o menino, cobrar respostas se Draco estava realmente com tanto medo assim. Devagar descruzou os braços do peito e andou até próximo ao loiro que o olhou intensamente.
- Vamos tentar Draco, essa última vez.
- Está bem. – Concordou Draco deixando os ombros cair, a tensão entre os dois estava enorme e nem mesmo haviam se visto direito. Harry era intenso demais e Le mesmo era obscuro demais. – Apenas verdade ou mentira e vou me manter calado quando não puder responder alguma coisa. – Harry concordou dando a primeira pergunta.
- Sei que tem uma missão muito importante para cumprir por ordem de Voldemort. – Draco estremeceu ao ouvir o nome. – Essa missão tem a ver comigo?
- Mentira. – Respondeu Draco de imediato.
- É algo que vai me afetar?
- Verdade.
- Muito?
- Verdade.
- Você vai me contar o que é e quem será ferido?
- Mentira. – Harry balançou a cabeça e respirou fundo entendendo que não adiantaria falar sobre o futuro, o problema era o agora.
- O Lord confia em você?
- Verdade.
- Ele te manda fazer coisas de comensal?
- Verdade.
Harry respirou mais fundo ainda, sabia muito bem o que era a vida de um comensal, ainda mais um comensal no papel de braço direito do Lord. Havia visto nas memórias de Severus, havia escutado de sua própria boca e as vezes dos murmúrios que Draco deixava escapar enquanto estava dormindo. Não queria mais participar daquilo, mas os olhos de Draco indicavam que era isso que ele precisava, precisava contar o que havia feito, precisa dizer que cometera crimes cruéis.
- Você feriu inocentes?
- Verdade. – Draco demorou para dizer essas palavras e Harry quase vomitou com isso.
- Você matou inocentes? Matou trouxas? – As perguntas mal saíram de sua boca, queriam ficar entaladas em sua garganta, queriam ficar em seu âmago. – Matou?
Draco aproximou-se devagar do menino até que pudesse segurá-lo nos braços impedindo-o de se afastar. Harry não queria ouvir a resposta da pergunta que fez, pois ele sabia qual era a palavra que ele diria, estava estampado em seus olhos, nas lembranças que Draco jogava em sua mente, toda a verdade que o loiro lhe recusou durante todo o tempo em que estiveram juntos. Sabia que havia pedido por isso, há muito tempo implorara para que Draco se abrisse com ele, para que dissesse mais do que apenas os fatos mais simplórios que aconteciam. Ele queria, ele pedia, mas quando as palavras saíram frias, baixas e intensas da boca do sonserino Harry soube que nada jamais seria igual entre eles.
- Matei.
