Capítulo 46 – Uma nova marca

Duas semanas se passaram após a morte de Alvo Dumbledore, ainda assim Harry não conseguia se esquecer daquele dia e continuar com sua vida como todos a sua volta pareciam ter feito. Até mesmo Severus parecia conformado com o falecimento de seu antigo "amigo". O mestre de poções não citava Dumbledore em nenhum momento, não dava indícios de que estava de alguma forma mal, era apenas Severus Snape como sempre fora. Vany também parecia normal, porém agora estava envolta de dúvidas e preocupações em relação ao destino de Riley. Já a própria menina não estava tão preocupada com isso e sim com o fato de que outro ser crescia no ventre de sua mãe, um ser que roubaria sua atenção. E ele estava ali, sentado na frente do tumulo de Dumbledore com Almofadinhas ao seu lado, sua cabeça apoiada na coxa do dono somente deixando-o ciente de sua presença. Naquele momento nada poderia ajudar Harry, Almofadinhas sabia disso, nem mesmo sua doçura e ingenuidade, além das lambidas grudentas, poderia acalentá-lo.

Harry respirou fundo e pela quarta vez naquele dia fechou os olhos deixando as lembranças tomarem seu corpo e mente. Viu-se há duas semanas, estava no dormitório da Grifinória junto com Rony, os dois se arrumavam devagar e em silêncio. Ambos usavam as vestes negras da escola, sem qualquer distinção das casas, assim como todos os alunos deveriam usar. Não havia porque dividir as casas, naquele momento não havia Grifinória, Sonserina, Lufa-Lufa ou Corvinal, havia apenas Hogwarts e uma única dor, a da perda de um grande mestre.

Dumbledore foi velado no grande salão e depois levado até seu túmulo em uma ilha no meio do lago negro, visitada apenas por barcos que levavam as pessoas até essa ilhota.

Ao caminhar entre os alunos para voltar ao castelo Harry pode ver os sonserinos aglomerados atrás, como todos os covardes eles tinham medo da morte, mesmo sendo a maioria filhos de comensais da morte e seguidores de Lord Voldemort. Por mais que procurasse sabia que ele não estaria ali, não havia cabeleira loura reluzindo na multidão, Draco não estivera no enterro e isso o fez entender que o que lhe chamava atenção na Sonserina não era o quanto a casa era péssima com seus alunos idiotas e sim o quanto Draco era a alma daquele lugar.

- Preciso esquecê-lo, Almofadinhas. – Disse Harry abrindo os olhos e se levantando. – Mas como?

Almofadinhas inclinou a cabeça como se pensasse na resposta. Harry compreendeu que jamais conseguiria matar Draco devido o grande amor que tinha por ele, então escolheu o esquecimento, deixar que as imagens de Draco se dissolvessem em sua mente até virar apenas pó e voasse com o vento, escolheu deixá-lo de lado e seguir com sua vida, afinal, agora tinha mais coisas para pensar e fazer.

Pegou o barquinho de volta para os jardins de Hogwarts e acariciou as orelhas de Almofadinhas enquanto a água se mexia com o movimento. Quando desceu encontrou com Hagrid e Riley voltando da floresta negra.

- Ei, o que estava fazendo lá? – Perguntou para Riley que sorria como boba.

- Hagrid me levou para plantar algumas coisas para o papai, ele vai precisar de alguns ingredientes para uma poção daqui a um tempo.

- Hummm, sei. E como você está Hagrid?

- Penso nele todos os dias Harry, Dumbledore era um grande homem. – Disse Hagrid já com lágrimas nos olhos. – Sinto muita tristeza em pensar que ele morreu.

Harry não falou palavras, apenas aproximou-se devagar e estendeu o braço tocando no cotovelo do meio gigante. Queria demonstrar com aquele ato muito mais do que os olhinhos de besouro viam, mas não conseguia simplesmente apagar de sua mente a confissão do ancião em seu escritório enquanto a baba da morte escorria de sua boca. Riley deu um sorriso para o meio gigante, ela não conseguia chegar nem mesmo nos quadris dele. Logo depois que se separou de Hagrid e Riley e entrou no castelo, Harry foi puxado para uma sala vazia pelas mãos fortes de Rony.

- Me larga! – Exclamou Harry se soltando e arrumando os óculos que quase caíram. – Por que fez isso?

- Precisamos conversar Harry. – Disse o ruivo olhando para Hermione que estava ao seu lado. – Sobre as Horcruxes.

- Pensei que estava tudo resolvido. – Disse Harry franzindo a testa – Não há mais o que discutir, eu já disse que irei atrás das Horcruxes sozinho depois do casamento do Gui e da Fleur.

- E nós já dissemos que vamos com você.

- Não, não vão.

- Você é a pessoa mais teimosa que eu conheço, Harry Potter! – Exclamou Hermione.

- Posso ser, mas isso não muda nada, eu vou sozinho.

Harry deu aquela conversa por encerrada e passou por Rony e Hermione esbarrando em seus ombros. Não queria ser rude com os amigos, mas estava com tanta raiva que não conseguia simplesmente ser gentil, os dois não entendiam onde estavam se metendo e muito menos como tudo seria mil vezes mais perigoso do que já fora em anos anteriores, ele tinha que protegê-los, era seu dever e isso significava abandoná-los.

Caminhou até seus aposentos encontrando poucos alunos no caminho, a maioria já se fora após as aulas serem canceladas, mas alguns ainda permaneciam. Os sonserinos que encontrava o encaravam como sempre, com os olhos cheios de rancor e algo como receio, Harry só não sabia dizer do que. Ao entrar na sala de estar encontrou Vany sentada na poltrona e Severus parado na frente da lareira pensando enquanto bebia um copo de firewisky, viu Almofadinhas caminhar até o homem e se sentar ao seu lado, nunca conseguira entender como aquele cachorro conseguia gostar do mestre de poções que desejava, em seu âmago, cozinhá-lo em um de seus caldeirões. Talvez, pensou enquanto se encaminhava para seu quarto, fosse como ele, talvez os olhos caninos tenham visto mais do que a carcaça mostrada.

- Harry. – Chamou Snape antes que o menino entrasse no quarto.

- Sim?

- Tivemos uma reunião hoje na escola. Minerva permanecerá com Hogwarts aberta, então haverá aula no próximo ano.

- Certo. – Respondeu Harry tentando demonstrar entusiasmo, porém falhando miseravelmente. Snape franziu o cenho e Harry desviou os olhos para os próprios pés.

- Mais uma coisa. Iremos voltar para Londres.

- O que? Mas é perigoso para todos nós.

- Sim, mas eu e Vany decidimos que o melhor é voltarmos para a Rua da Fiação. A casa está protegida com o feitiço fidelius e teremos vigia da Ordem, além do claro fato de que o acordo feito com Dumbledore sobre a sua ligação de sangue comigo era de que você voltaria para aquela casa nos verões, do mesmo modo que fazia com os Dursley.

Automaticamente, e sem perceber, Harry arrepiou-se e mexeu os braços como se o som do nome de sua família, do sangue de seu sangue o deixasse tenso tanto e talvez até mais do que o nome Voldemort para toda a população bruxa.

- Se não for para casa. – Continuou Snape com aquele jeito de professor que Harry não gostava. – Perderá o vínculo de sangue comigo, voltando a ter o vínculo com Lilian e então estará vulnerável, pois de nenhuma forma o deixarei voltar para aquela casa na rua dos Alfeneiros.

Harry olhou para Snape e percebeu que não adiantaria discutir, iria para a Rua da Fiação de um jeito ou de outro. Snape estava apenas aguardando que concordasse por mera educação. Harry apertou os lábios, aquilo fugia aos seus planos. Em Hogwarts tudo seria mais fácil, teria o que precisava em suas mãos. Estava prestes a reclamar quando se lembrou de uma coisa que Snape lhe dissera uma vez em seu laboratório particular. Havia uma estante de livros ali dentro, livros belhos e gastos com capas quase sem títulos. Eram poucos, mas chamaram sua atenção. Perguntara a Severus porque aqueles livros não estavam na estante da sala e Snape lhe respondera que aqueles livros eram perigosos e deviam ficar longe dos olhares de qualquer pessoa, como por exemplo comensais da morte que se atreviam a ir a sua casa ou meninos curiosos como ele. Era livros malditos, das artes das trevas e eram tudo que Harry precisava.

- Tudo bem.

Snape observou Harry até que o menino entrasse em seu quarto e fechasse a porta. Então franziu o cenho e estreitou os olhos.

- O que foi? – Perguntou Vany.

- Tem alguma coisa errada. – Sussurrou Snape perdido em seus próprios pensamentos.

- Claro que tem, ele passou por muita coisa.

- Não é isso. – Disse baixinho para ela não escutar, afinal, pensaria que estava louco se contasse. Era melhor mudar de assunto. – Tenho que sair.

- Onde vai? – Ele não respondeu. – Não, Severus, isso não. – Ele já estava com o casaco de viagem nas mãos. – Olha, quando falamos sobre isso eu concordei, mas é porque eu ainda estava com as palavras de Dumbledore na minha cabeça, eu queria vingança, eu queria mostrar que posso evitar que isso aconteça. Mas agora, pensando melhor eu acho que há outras maneiras de se resolver isso.

- Você não quer impedir que Riley pare nas mãos do Lord?

- É claro que quero, como pode sugerir que eu queira algo diferente disso? Ela é minha filha! – Gritou Vany sentindo a onda de poder que saiu de seu corpo. – Desculpe. – Sentou-se tentando respirar fundo. – Só acho que se meter em um covil de comensais não é algo que deva fazer.

- Nada vai acontecer.

- Você não pode me garantir isso. Por favor, Severus, não vá. Sabe como as profecias funcionam, independente de achar a profetisa ou não, o destino de Riley já está traçado e agora só depende dela para que ele mude.

- Eu sei.

Foram as únicas palavras que Severus dissera antes de sair sem nem mesmo olhar para trás.

Quando sozinho Snape respirou fundo enquanto caminhava a passos rápidos em direção a saída. O sol do meio dia estava esplendoroso e queimava sua pele, o calor do fim da primavera banhava Hogwarts. Ao passar diante do lago negro Snape parou por um único instante e olhou para longe, para a ilhota no meio do lado onde repousava Dumbledore. Não desperdiçou pensamentos ou palavras, demorou-se apenas alguns instantes e se foi passando dos portões da escola onde desaparatou indo para longe, tão longe que era capaz de perder-se em si.

Antes mesmo de abrir os olhos pode sentir a diferença de temperatura, o sol ainda brilhava alto, mas dessa vez não o esquentava, dessa vez havia apenas o vento gélido que balançava suas vestes e arrastava as folhas secas da rua. Respirou fundo o ar podre daquele lugar e sentiu em sua pele os arrepios da miséria. Sempre odiou visitar tal cidade, mas somente nos confins do nada que vivia aquele que podia ajuda-lo. Assim que chegou a porta sentiu o pesar dos feitiços de proteção. Um sorriso torto apareceu em seus lábios, ele nunca soubera se proteger adequadamente e isso um dia seria sua ruina, talvez hoje mesmo, pensou Snape. Sentiu os feitiços se anularem um a um enquanto cantava os encantamentos que permitiriam sua passagem. Quando pode seguir sentiu crescer dentro de si o poder que somente a magia negra podia lhe dar, era viciante sentir aquele poder correr por suas veias e acordá-lo para escuridões passadas.

Passos rápidos foram ouvidos e antes mesmo que sua mão tocasse a maçaneta um homem velho e atarracado com um chapéu cheio de teias de aranhas abriu a porta e o encarou. Seus olhos eram azuis e grandes, seu rosto redondo e infantil apesar da idade, os cabelos eram brancos, lisos e emaranhados. Parecia não tomar banho há muitos dias, suas roupas eram escuras para mascarar a sujeira, mas suas unhas imundas lhe entregavam. O homem engoliu em seco e deu um sorriso forçado para Snape que o encarava com uma carranca firme e olhos estreitos.

- Senhor Snape! – Engasgou o homem mexendo as mãos nervosamente. – Quanto tempo. Estou surpreso, após os boatos sobre sua morte. Mas então o senhor está aqui, em que devo a honra?

- Vejo que as más companhias de seu estabelecimento nublaram sua educação, Gordon. Não me convidará para entrar?

- Peço perdão, senhor, sabe que é um prazer enorme para minha pessoa tê-lo aqui.

- Mas...

- Hoje foi um dia importante, o senhor deve saber, saques e mortes. – Snape assentiu. – Tenho alguns convidados na casa.

- Convidados? Ótimo. – Disse Snape empurrando o homem para o lado e entrando em uma recepção pequena, escura e vazia.

- Senhor Snape, por favor, senhor, eu sei o que falam sobre o que houve entre o senhor e Você-Sabe-Quem e não me importo, essa guerra não é minha e não escolho um lado, mas tenho que implorar que não entre hoje. Eles estão aqui e não quero problemas na casa.

- É um bom homem Gordon, e muito sábio também, sendo assim peço que fique longe. – Avisou Snape vendo o homem abrir a boca para contestar com claro desespero. – Preciso me encontrar com Marcus e nada irá me impedir disso. Não se preocupe com suas meninas, nada acontecerá com elas.

- Então que o Senhor tenha piedade de sua alma.

- O Senhor está ocupado hoje Gordon. Sugiro que cá dar uma volta.

O homem choramingou baixinho e mexeu as mãos claramente nervoso, seus olhos eram suplicantes e encaravam Snape com medo enquanto o outro apenas aguardava sua saída na mesma posição e com o mesmo olhar penetrante. Por fim Gordon assentiu com a cabeça e saiu devagar. Snape o viu fechar a porta e esperou os passos pesados irem embora. Virou-se então para a porta que o levaria para a boca dos leões e seguiu em frente.

A música que nem mesmo parecia existir do outro lado da porta era agora claramente ouvida, alguma coisa gritada pelos ditos cantores entrou em seu ouvido o agredindo, estava escuro, mas o uso de luzes coloridas e piscantes o ajudava a ver as criaturas que ali estavam. Sorriu de canto com o fato irônico de adoradores do Lord das Trevas, aquele que desejava exterminar da terra todos os sangues sujos, estavam exatamente em uma boate imunda de trouxas. Snape fechou os olhos e sentiu a música irritante ribombar em sua cabeça. Se perguntava como conseguira aguentar aquilo quando precisava acompanhar os outros comensais para manter seu disfarce. Ainda bem que não necessitava mais disso.

- A festa acabou rapazes.

Os segundos seguintes foram estranhos e recheados de gritos. Os comensais jogavam as mulheres no chão sem se importarem com possíveis machucados, eram apenas mercadorias. As varinhas foram erguidas e feitiços foram lançados em direção ao intruso, mas Snape tinha uma vantagem ao seu lado. A nudez dos comensais que há pouco entrenhavam-se nas moças fez com que muitos não conseguissem assimilar o que acontecia, e os gritos das inocentes que tentavam se esconder que mascarava seus passos e feitiços emitidos. Vidros foram quebrados, paredes destruídas, uma nuvem de poeira subiu escondendo o intruso dos comensais. Ele não precisava se esconder.

- Basta!

Com um aceno rápido de varinha a poeira sumiu e as luzes acenderam. Havia dois comensais ainda com a varinha apontada para si. Um ainda estava sentado em uma poltrona no fundo parecendo apenas se divertir enquanto era claramente acariciado pela boca de uma assustada loira com o rosto molhado de lágrimas. No chão estavam dois comensais inconscientes.

- Ora, Ora, Ora. Olha só quem resolveu aparecer aqui. O traidor. – Disse o comensal a direita de Snape. – Acho que o Lord vai gostar muito de saber que os capturados.

- Sim. – Respondeu o da esquerda. – Acho que devemos chamá-lo neste momento.

- Eu não faria isso. – Comentou Snape olhando de um para outro, sua voz era calma, baixa e perigosa. Ele parecia brincar com os homens. – Seus braços cairiam antes mesmo de chegarem perto de suas marcas.

- Sempre se achando o melhor dos melhores, não é, Snape?

- Não é questão de se achar o melhor, Travis. – A voz veio do comensal ainda sentado. – Mas de quem conhece mais maldições das trevas. Pode ir, querida. – Ele completou acariciando o rosto vermelho da mulher que rapidamente engatinhou até suas amigas enquanto o comensal vestia suas calças. – Pegue suas amigas e saiam. – Elas sumiram tão rápido que nem mesmo seu perfume era mais sentido. – Eu conheço Snape desde a época da escola acreditem em mim quando digo que não há ninguém que já tenha se embrenhado tanto na magia das trevas.

- Não vim aqui para ouvir elogios e babação de ovo, Marcus. Preciso de seus serviços

- Ele é um traidor Marcus, não pode ajudá-lo. Devemos chamar o Lord imediatamente.

- Eu não disse que iria ajudá-lo, mas não posso negar sentir leve curiosidade com o fato de que Snape fora o único que conseguira sobreviver a maldição da marca. Conte-nos como conseguiu. Como o veneno da marca não o tomou por completo e o fez morrer suplicando pela salvação de sua alma. Conte-nos. – Marcus havia se aproximado aos poucos de Snape e agora estava exatamente a sua frente, Snape podia contar os riscos de suas Iris.

- Isso não é da sua conta, Marcus, e nem vem ao caso no momento.

- Vamos acabar logo com ele. – Gritou um dos comensais ainda nu. – Ele traiu o Lord, merece morrer.

O feitiço que o comensal lançou passou raspando o rosto de Snape que sentiu seus cabelos balançarem, rapidamente o mestre de poções ergueu sua varinha e disparou feitiços contra seus agressores ao mesmo tempo em que se defendia. O sangue ferveu em suas veias, fazia tempo que não sentia isso, que não tinha um objetivo certo em sua mente. Matar. O sangue voltou a jorrar, os feitiços lançados vinham de todos os lados, os vidros quebrados emitiam o barulho de seus cacos por todo o ambiente, as luzes piscavam confundindo os ouvidos, o odor de morte estava no ar assim como a risada cruel dele.

- Quem diria. – Riu-se Marcus olhando para as figuras em pé.

As luzes ainda piscavam e brilhavam assim como os olhos negros que emitiam chamas como lavas em direção ao comensal preso pelo pescoço por sua mão de ferro. As mãos do comensal eram desesperadas assim como seus olhos que imploravam pela misericórdia de seu agressor. Snape não teria misericórdia, não quando se entregar a sensação da morte em seus dedos, de ser aquele que tinha em seu poder a decisão sobre a vida do ser inóspito.

Um sorriso maléfico ergueu-se em seus lábios, mas ao mesmo tempo uma imagem apareceu em sua visão quando se atreveu a piscar. Balançou a cabeça tentando tirar o rosto de Harry de sua mente. Já era tarde, seus dedos perderam a força, já não podia mais matá-lo como fez com o outro comensal. O corpo nu caiu no chão cortando-se com os cacos enquanto ele tossia.

- Interessante. – Disse Marcus aproximando-se do comensal e o observando pegar suas roupas e desaparatar junto com os outros comensais inconscientes.

- Você sabe que ele irá contar ao Lord.

- Não vai não. – Disse Snape agitando a varinha e deixando a casa de uma forma mais arrumada para que Gordon não sofresse um ataque cardíaco quando entrasse. – Se ele contar o Lord o torturará por não ter me capturado e ele sabe o que é ser torturado pelo Lord.

- Agora que já deu seu showzinho, o que quer de mim, Snape?

- Preciso de seus serviços.

- Você é engraçado, Snape. – Riu-se Marcus. – Acha que vou te ajudar seja lá com o que só porque acabou de dar o seu showzinho? Não tenho medo de você, Snape.

- Preciso de sua ajuda. – Rosnou Snape se aproximando. – E você irá me ajudar.

- Ou o que? Vai me matar? Não, não irá, você precisa de mim, então tentará me torturar. As torturas de Severus Snape são muito conhecidas no submundo, mas o problema é que não dou a mínima para isso. O Lord não me marcou. – O braço esquerdo era pálido igual o rosto de Marcus, mas não havia um único vestígio de marca, Marcus não era do mesmo ciclo de comensais que Snape fora. – Não será você que me marcará.

- Entendo, és um homem "livre", não é?

- Gosto de me considerar assim.

- Então qual seu preço?

- Você sabe qual meu preço, eu te falei da última vez que me pediu algo, naquela época você não quis me pagar e isso resultou na morte de Lilian Evans. Eu poderia tê-la protegido, ela ainda estaria viva.

- Você a queria como pagamento.

- Eu te pedi a coisa que você mais amava, não tenho culpa que ela era o que você mais amava.

- Qual é o seu preço?

- Vou pegar mais leve com você desta vez. – Marcus sorriu e se sentou em um dos sofás de couro. – Desta vez quero que você me diga o que pretende me dar como pagamento.

O senhor Gordon nunca fora conhecido como um homem que cuidasse unicamente de sua vida. Seu nariz estava amassado contra o vidro da janela, seus ouvidos abertos e atentos, os olhos arregalados apenas aguardando a resposta de Snape. Para sua surpresa o ex comensal nada falou, apenas rodou a varinha nos dedos antes de apontá-la para a própria mão reatando um feitiço antigo e usado por uma única pessoa antes, o próprio criador do feitiço, Lord Voldemort. O ar prendeu-se na garganta de Gordon tamanha incredulidade.

Snape não poderia fazer isso, era um preço alto demais.

- Ora, ora, jamais imaginei que fizesse algo assim. – Disse Marcus pegando a mão de Snape e olhando a marca que queimara a pele. – Espero que essa menina valha a pena.

- Como...?

- Se soubesse como eu sei as coisas, não teria me procurado. Responda. Essa criança vale o sacrifício de sua liberdade?

- O dobro.

- Então vamos conversar.

As primeiras semanas passadas na Rua da Fiação foram de completa tensão, primeiro porque a casa era constantemente vigiada por membros do Ministério e suas faces concentradas em nada ajudavam a deixar uma boa harmonia na casa. Segundo, pois Riley demonstrava cada vez mais ressentimento com a vinda de seu irmãozinho e a atenção que a ele dispensavam.

Foi somente quando Agosto chegou que tudo começou lentamente a melhorar, Snape dispensou os vigias do Ministério após um comensal aparecer e nenhum deles perceber, dissera ao Ministério em pessoa que se fosse para confiar na capacidade de lesma dos aurores ele preferia cuidar da segurança de sua casa sozinho e assim o fez. Vany conseguira arrumar a casa a ponto de deixá-la confortável e com o mesmo espírito de antes, Snape gostava de sua tradicionalidade. Riley ficou com o quarto menor ao lado do de Harry e um jardim foi construído para que ela pudesse criar suas plantas e ficar em contato com a natureza como tanto gostava. Almofadinhas alcançou seu tamanho adulto e agora realmente se parecia com Sirius, até mesmo nos pelos espetados, a única diferença era que de Almofadinhas Snape gostava. E Harry...

- Que droga! – Exclamou Harry fechando o livro pela quarta vez.

Levou as mãos ao rosto e esfregou os olhos, não adiantava, poderia fazer o que fosse, ler, escrever, comer, dormir, até pular corda, sua mente nunca o deixaria livre e não havia oclumência que o ajudasse, afinal, o coração é mais forte que o cérebro. Não havia como deixar Draco de lado, mesmo que isso fosse fundamental para o resultado final da guerra bruxa. Levantou-se afastando-se da escrivaninha, viu que já era tarde, logo o sol se poria e a noite traria os sonhos de volta.

Harry odiava aqueles sonhos.

Balançando a cabeça decidiu que não adiantaria continuar a leitura e os treinamentos, não conseguiria mais nada. Fechou os livros e os guardou embaixo do colchão. Ninguém podia saber que pegara os livros do laboratório de Snape, ninguém poderia sequer imaginar que estava tentando aprender magia negra. Era um caminho sem volta, sabia disso, aprender magia negra altera o seu ser, sua alma e seu destino, mas era fraco demais, tinha que desenvolver sua magia. Snape lhe ensinaria muitas coisas se pedisse, mas isso só faria com que o homem quisesse saber os reais motivos e contar que estava planejando ir atrás das Horcrux com Rony e Mione era pedir para ser enclausurado com a ira de Severus Snape.

Desceu as escadas e encontrou Vany dormindo no sofá, Snape não estava em casa, já saíra há muito tempo e ainda não voltara, isso era mau sinal. Caminhou até a cozinha e de lá até o jardim. Ainda estava quente e mínimos raios de sol iluminavam fracamente a menina sentada na grama e cavando o chão com os dedos.

- Oi. – Cumprimentou sentando-se ao lado.

- Oi Harry.

- O que houve? – Perguntou ao sentir um tom melancólico na voz de Riley.

- Nada.

- Você ainda está preocupada com seu irmão?

- Nosso irmão, não se esqueça que minha mãe está com seu pai. – Comentou a menina simplesmente. – Antes éramos só eu e a mamãe. E agora não somos mais.

- Antes, eu era somente eu. Os Dursley são minha família, a Tia Petúnia é irmã da minha mãe, mas ainda assim eu sempre fui sozinho até Severus chegar. Foi estranho, mas depois eu entendi que precisávamos um do outro. Seu irmão vai precisar de você, terá que ser forte por ele, cuidar dele.

- Você fala como se não fosse estar aqui.

Harry sorriu para Riley e desviou o olhar diretamente para o sol que estava se pondo levando a abençoada luz. Não podia contar a ninguém sobre seus planos, muito menos para Riley, como se explica para uma menina pura como ela que seu irmão mais velho vai para uma batalha sem garantias de volta? Simples, não se fala.

- Eu estarei. – Disse por fim. – Vamos entrar, estou com fome. – Riley tirou a sujeira da calça e deu a mão para Harry que antes de abrir a porta parou para falar uma única coisa. – Quero que me prometa uma coisa. Se algum dia você sentir que quer fugir ou se distanciar de seus pais, não faça. – Os olhos de Harry eram preocupados, Riley o questionou sobre tal promessa, mas Harry apenas pediu que fizesse e a arrastou para dentro.

Setembro se aproximava cada vez mais e Severus se sentia tenso, os ataques dos comensais estavam mais cruéis e corriqueiros, os comensais infiltrados no Ministério logo o dominariam por completo, muitos alunos não querem voltar para Hogwarts por medo. E juntando-se a isso tinha a velha que nesse momento estava diante de sua casa olhando intensamente através da magia do Feitiço Fidelius como se ele nem mesmo existisse.

- Severus. – Sussurrou Vany olhando pela janela. – É ela. É ela. Oh meu Deus.

- Fique aqui. – Disse saindo da casa e ultrapassando a barreira dos feitiços.

A varinha estava posta em sua mão, seus músculos estavam tensos e seus olhos atentos. Qualquer movimento que ela fizesse seria motivo para lançar um feitiço.

- Guarde sua varinha Snape. – Disse a velha com a voz asmática, mas arrepiante e forte. – Não vim lhe atacar, muito menos lhe dar uma explicação sobre quaisquer coisas passadas como informou seu amigo Marcus.

- Então para que veio?

- Vim, pois tenho uma profecia. – A velha se aproximou e não se intimidou com a varinha que agora cutucava seu peito com força. Snape parecia furioso, ela não ligou. – Seu tempo está acabando Severus Snape. A profecia é para você.

Um globo foi posto na mão livre de Snape, era quente, pequeno e azulado, mas pesava mais do que o mundo. Snape carregava o destino de todos em seus dedos e não podia imaginar o preço disso.